21.1.12

Allgarvem-se!

Sabem o que é esta democracia ser uma ilusão  macabra? É o ter havido um ministro e um Governo que tiveram uma ideia a de transformar o Algarve em Allgarve. E gastar três milhões de euros, como se lê aqui. Agora o Governo em funções acabou com a festa. Responsáveis ligados ao turismo algarvio, ouvidos por uma rádio que escutei enquanto viajava perguntavam: «e agora?». E reinar uma total obscuridade em torno de tudo isto, porque o que ninguém explica a nível do Governo, o que ninguém do Governo se sente minimamente obrigado a explicar é: quanto se gastou com o Allgarve? Quanto se ganhou com o Allgarve? Porque se acabou com o Allgarve? Quanto custa ter acabado com o Allgarve? O que vai suceder ao Allgarve e se nada porquê nada?
Nada é a palavra certa.
Nesta chamada "democracia" as coisas são assim: o eleitor vota, jogando fora para dentro de uma urna um papel pelo qual abdica de se interessar, de querer saber, e aceita sujeita-se a sofrer as consequências. Daí em diante os eleitos fazem como querem. E assim sucessivamente até cada dia de eleição. 
Uma vez no poder todos os Allgarves são possíveis a todos os Governos porque são para Allarves dos contribuintes do costume.

O que é feito de Rui Mateus?

Já que "mãozinha amiga" no site oficial da Assembleia da República se encarregou de reduzir o espaço dedicado ao ex-deputado Rui Mateus ao que resta aqui, a de um homem  sem profissão, dou uma pequena ajuda e contributo.
Para foto, pode ser a deste post, aquela em retrata a fundação em 19 de Abril de 1973, na Alemanha, do Partido Socialista na clandestinidade. Eis Mário Soares - o mesmo que, ocultando tudo o mais, o resume dizendo que o conheceu a servir à mesa num restaurante e ele, ambicioso quis ser MNE -sua mulher, Maria Barroso e entre os restantes ao centro, de bigode, Rui Mateus. Isto para começarmos pela foto-galeria do princípio da história...
O apagamento de Rui Mateus não é de hoje. É só ver aqui [enquanto não for apagado] e aqui.
E já agora uma perguntinha: na nossa imprensa não há quem queira saber o que é feito de Rui Mateus? Onde está? Porque não está? Ou as chefias de redacção consideram que o tema é «jornalisticamente sem interesse»?

A revolta e a piedade

Cavaco Silva provocou os reformados ao queixar-se da sua reforma. Além disso Cavaco Silva ofendeu o cargo ao pronunciar-se nos termos em que o fez. A dignidade de um Presidente é incompatível com isto.
De todo o lado chovem críticas, gozo, achincalho mesmo.
Um dos últimos cargos políticos a ser respeitado é agora vaiado e apupado. O que restava da respeitabilidade democrática é agora objecto de chiste, chacota, ridicularização, troça. Pelos jornais, pelos blogs, é um fartote.
Há, porém, uma tragédia humana que os factos mostram, os da política ocultam e o País nem se preocupa, embriagado que está a fazer dele o Rei Momo da República: é que o Presidente mais do que estar velho, já não está em condições pessoais para o exercício do cargo.
Deveria ter havido a sensatez que o terem aconselhado a não se candidatar à Presidência, mas ante o que surgiu então como alternativa, se não fosse ele era Mário Soares, cujos amigos empurraram, canalhamente, para uma nova e serôdia tentativa de voltar, vingativo, a Belém.
O que está a suceder era adivinhável. Cavaco deveria ter voltado para a Travessa do Possolo.
Só que Aníbal Cavaco Silva tinha gente que gostava de o ter da Presidência, gente que precisava dele na Presidência, gente que, funesto engano, pensava que este Cavaco era o mesmo da primeira eleição.
Hoje o Presidente é um homem só, muitos dos seus amigos caíram nas teias da lei, outros foram saindo à formiga. No vazio do poder é dramático restar-lhe apenas a mulher. Ninguém mais. 
A obsessão do «e depois o que é que eu como?», avareza típica da velhice a diminuir-se estampou-se agora neste seu gesto. Antes eram só inanidades ocasionais, sintomáticas.
Os regimes à beira do fim dão estes sinais. Américo Deus Rodrigues Thomaz, reiterando, esclerótico, discursos infantis e António de Oliveira Salazar, já sem saber, alucinado, que não estava em funções, mostraram que o Estado Novo ia cair de velho, estatelando-se na rua.
Eis o que me custa horrores a dizer.  Porque falo de um ser humano de quem passei a não gostar.
Tudo isto é lamentável e gravemente sério. Mas tentem esquecer porque é apenas um episódio de algo que não podemos evitar. E haja piedade, se não pelo Presidente, ao menos por aquilo que vai suceder a este pobre Portugal.

20.1.12

Memórias proibidas...

Por causa da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues tem-se falado muito na FLAD, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Resultou da re-negociação feita pelo Governo da cedência aos EUA da base militar nos Açores.
Há só uma coisa que ninguém se lembra a propósito da FLAD ou os que se lembram não falam. É que nesse altura de governo do bloco central, o primeiro-ministro era Mário Soares. E o primeiro presidente da Fundação foi...guess who?... Rui Fernando Pereira Mateus, esse mesmo, o Rui Mateus [o que a história oficial da dita que está aqui não menciona, pois pudera!], o tal que o primeiro conheceu a servir num restaurante [como lembrei aqui]...
Bolseiro nos States em 1960, pelo American Field Services, com outras ligações ao aparelho americano no exterior, ora vejam-no aqui como speaker do American Club em Lisboa...
[Isto de uma pessoa se lembrar das coisas é tramado, eu sei. Sobretudo para os falsificadores da História].

P. S. Hoje a sua página no Parlamento está nisto aqui.

19.1.12

Os fusíveis

Haverá uma remodelação governamental antes do Verão. O ministro que se chama Álvaro saltará. O PS será comprometido na governação. É preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma. Com uma diferença. Vão ser necessárias medidas ainda mais duras. Os do bloco central de interesses terão de cerrar fileiras para que a democracia de que vivem não caia. Vão precisar de outros Álvaro's. São fusíveis estas criaturas. Nem percebem que o são. No seu vaidoso imaginário nem sonham que os curto-circuitos que os fazem saltar um dia chegam fogo à casa. Os bombeiros da "troika" aí estarão. É disso que vivem. É disso que ganham. Num País de pirómanos têm negócio garantido, lá mais para o Verão.

15.1.12

Gare do Oriente

Vá à Gare do Oriente, uma das obras do Regime que jogou o País para a bancarrota e da qual se atiraram todas as culpas para o Governo anterior, como se não existissem as do antecedente.
Saia das garagens por estreitas passagens a tresandar a urina e, ao entrar no hall,  passe por entre a lástima de mendigos, vagabundos e sem-abrigo que por ali pernoitam. E passam o dia. Sujos na maioria, bêbados quantos deles, esfarrapados, a imagem real da miséria nacional no subsolo. Em cima o luxo, as torres magníficas, os condomínios de eleição. Ao lado deles, também debaixo do chão como cães em canil, a polícia, indiferente, impotente, incapaz, feita de guardas sobrecarregados de serviço e cansaço, para a tarefa bruta da repressão sobre situações em que melhor sentimento seria a piedade e por isso toleram e entendem e deixam ficar porque não há segurança social que lhes dê ajuda. 
Continue o seu passeio, suba ao andar onde estão as bilheteiras, corredores imensos, como se para multidões que não existem, extensões inóspitas, lugares ventosos, desumanos na sua vasta melancolia, onde o lounge da  classe conforto parece um insulto àquela desgraça de existência.
Suba, como no dia de hoje, enfim, à plataforma onde surgem os comboios. Num dia como hoje em que chovia. Em que as bátegas laterais o atingem, por não haver protecção do espectacular tecto envidraçado, e onde a chuva vertical o molha igualmente, a escorrer, porque tudo aquilo está em erosão, desenhado por um arquitecto que julgava que estávamos num Marrocos seco ou desenhava excentricidades espampanantes para um País de camelos.
Espere pelo comboio, tente encontrar a sua carruagem, fiado na informação que lhe deram que era a primeira e cruze-se, em tropel, com as horas desenfreadas de passageiros que, quais baratas tontas esvoaçam entre malas e sacos, por nunca se saber onde é que vai estacionar o quê e como tudo aquilo parece em burlesco a cena ferroviária de As Férias do Senhor Hulot.
E pergunte-se, enfim quanto se gastou, quem gastou? Quem sabia que o efeito ia ser aquele local horrendo? Quem não o impediu, quem fez de conta, quem ganhou à conta?
Talvez para emigrar seja aquela a gare adequada, para que fique de Portugal a imagem triste e feia daquilo em que tornaram Portugal, aqueles que, manhosos, emigraram eles mesmos para os seus dourados exílios, ou, ainda por aqui trepando enquanto der, aconselham sem pudor este pobre povo à emigração.
Vá à Gare do Oriente. Logo a seguir, se seguir viagem, olhe em redor. Verá as ruínas da indústria que encerrou, as fábricas em escombros, do comércio que faliu, os armazéns ao abandono, os casebres, os campos vazios, a solidão, verá, verá, verá, até que, embalado pelo balançar, enfim, o sono o liberte do pesadelo e lhe traga pelo adormecer o sonho e com ele a ilusão.

13.1.12

Os queques e as natas

Porque é que eu pressenti que este ministro Álvaro ia ser politicamente um flop? E que que cada intervenção sua, mesmo quando fala de coisas acertadas, é sempre um desacerto? 
Já nem é o que diz, é o como diz. Há sempre um ar picaresco, que se não for ao puxar ao engraçadinho só pode ser uma insensatez. E o grave é que o estado do País exige aos governantes contenção verbal, rigor na expressão, severidade no tom.
Ontem foi a dos «pastéis de nata» e o não haver franchising desses suculentos prodígios da doçaria lusitana.
O ridículo não é ele ter falado «nas natas», assim se exprimiu referindo o dito pastel no feminino, como se diz pelo Norte, coisa que nunca entendi já que, nascido a Sul, também não digo «as quecas» mas sim «os queques», mas adiante.
O ridículo é a casuística da frase, como se de uma boutade se tratasse. 
O ministro poderia ter falado em geral, aludindo aos produtos portugueses que bem poderiam ser comercializados no estrangeiro por serem únicos e passíveis de serem franchisados e todos entenderiam. Não seria o primeiro a ter essa ideia. Já no tempo de Oliveira Salazar o Secretariado para a Propaganda Nacional fazia o mesmo. Não teria de exemplificar, como se, adiantado mental, falasse para alunos atrasadinhos e eles não atingissem o ponto. 
O que se passa é que ele não percebeu nem perceberá nunca que há exemplos que enfraquecem o argumento e lhe retiram categoria. E categoria é o que falta. E essa é a questão.
Por este andar, e a irmos na cola dos exemplos, em busca do que de portguês existe que o estrangeiro pode comprar em franchising - como os "Donuts" e a "Coca Cola" se exportam - que também citou mais uma vez a exemplificar, mau grado serem nomes de marcas e ser de péssimo tom um membro de Governo citar marcas por sentir que já nem se lhe aplica a decência do «passe a publicidade», que é o mínimo ético a exigir-se nesse caso, por este andar, dizia, vamos longe!
Mas, sou português. E armado de espírito patriótico, acordei esta manhã a pensar, contagiado pelo fervor do ministro que quer ser Álvaro. E lembrei-me do galo de Barcelos, essa magnificência simbólica do melhor que em galináceo a País produziu e seria um mimo em qualquer étagère de mansão requintada ou apartamento chic, o «hoje há pipis!», que levaria longe a alma lusa às terras do fim do mundo e, para não falar nos torresmos, nos couratos, nos pézinhos de coentrada, no pastelinho de bacalhau ou na chouriça de Vinhais, venha o barro das Caldas que esse mostrará, enfim, à Europa e ao Planeta que os Portugueses, apesar do Governo, mau grado o ministro da Economia, são um povo duro de roer.

10.1.12

Uma Revolução!

Nesta noite de esgotamento de energias, em que um homem hesita sobre um mundo social que vê desabar, e um quadro de valores em que o humano foi exilado, a cidadania degradada, encontrei-o o lema e a palavra de ordem: «Estamos decididos a suprimir a Política, para a substituir pela Moral. É o que chamamos uma Revolução». Disse-o um resistente, um combatente: Albert Camus. Sem ele eu não teria sido o que sou.

6.1.12

Pedradas entre a pedreiragem


Sociedade iniciática destinada ao conhecimento esotérico, através de rituais simbólicos, associação benemerente, clube filosófico, deísta na tradição inglesa ou agnóstica na tradição francesa, a Maçonaria pode ser uma agremiação de pessoas de bem, afirma-se ser de «homens livres e de bons costumes», como consta de um dos seus textos fundadores. O problema é a definição do que sejam «bons costumes»
Fernando Pessoa, que não era maçon, defendeu-a honradamente num memorável escrito, quando foi promulgada legislação que levou à sua extinção pelo Estado Novo. 
Estado Novo, diga-se, de que muitas das suas figuras gradas pertenciam a lojas maçónicas e detinham altos graus. Foi maçon o próprio Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, foi maçon e fundador da loja Fernandes Tomás, na Figueira da Foz, o professor de Direito José Alberto dos Reis. O primeiro, promulgou a lei que ilegalizou a Maçonaria, o segundo presidiu à Assembleia Nacional onde se votou. Figuras da Igreja Católica, com grau de Bispo, foram membros da Maçonaria. Fiéis ao seu Deus e ao Supremo Arquitecto do Universo.
O facto de a sociedade dos pedreiros-livres se prestar a conluio e a perversões  é tão antiga como a sua existência. A sua defesa e os ataques contra ela são parte da História Contemporânea. Trata-se de uma entidade que já recebeu como irmão o ditador Augusto Pinochet e de que fizeram parte a quase totalidade dos Presidentes dos Estados Unidos da América e grande número de membros da Família Real Inglesa. Além de uma multidão de pessoas que, em termos de importância social, são nada. E gente decente que nada tira e tudo dá.
Há nela de tudo. E há sobretudo quem esteja nela pelas mais díspares razões, incluindo as moralmente honestas. E quem a abandone pelos mais variados motivos, incluindo os miseráveis e até pela inconsciência de ter estado. E o seu contrário. 
Alexandre Herculano, ao ter saído, mal entrara, escreveu, em 1876: «Uma das minhas rapaziadas foi ser pedreiro livre. Não tardei a deixá-la (à Maçonaria). Achei a coisa mais inepta, mais inútil e muito mais ridícula que uma irmandade de carolas». Sucedeu a muitos.
Salazar, um católico que o CADC animara, sobrepôs a sua ânsia de poder total à sua moderação conservadora, e fez decretar, através de uma Lei n.º 1901, proposta na Assembleia Nacional pelo deputado José Cabral, a extinção da Maçonaria, Lei das Associações Secretas, a votada sob Alberto dos Reis e firmada por Carmona, em nome da qual todos os funcionários públicos teriam de jurar não pertencer nem jamais pertencer-lhes. 
Foi por causa do jamais pertencer que o filósofo Agostinho da Silva, em nome da liberdade de poder vir a pertencer, se exilou no Brasil. Quis, já agora, o paradoxo que voltasse a Portugal para um encontro secreto com o mesmo Salazar, através de um arranjo organizado por Franco Nogueira, Ministro dos Negócios Estrangeiros do antigo regime, mas quiseram as fadas que o encontro não tivesse lugar, porque tinha havido uma indiscrição. E daí que esse encontro secreto tivesse passado a um momento discreto na vida do filósofo que não abjurara o secretismo, e que era, aliás, um grande homem e um notável vulto da Cultura.
Escrevo isto porque está na ordem do dia a questão de, a coberto da Maçonaria, poder haver arranjos interesseiros entre políticos, negócios e serviços secretos e outras tropelias. E estar em causa quem deve ou não pertencer. E discutir-se se o mal não é a Maçonaria em si ou aquelas ovelhas negras do rebanho laico.
Não faz dúvida ao meu espírito nada do que se discute. Por isso aqui estou.
Não há uma Maçonaria, sim lojas maçónicas. Cada uma tem autonomia e pode albergar uma corja de bandidos ou um grupo de ingénuos. Não há uma Maçonaria, sim várias Maçonarias, com várias orientações filosóficas e diversos rituais, de que os ritos Escocês Antigo e Aceito e o Francês são os mais difundidos em Portugal.
Não se trata em rigor de uma sociedade secreta, porque tudo o que ali se passa de regular e lícito consta de uma imensa biblioteca disponível em qualquer livraria e cada um é livre de declarar a sua pertença. O segredo da Maçonaria, a justa e perfeita, é outro, é o conhecimento gnóstico que a fraternal cadeia de união, através do ritual, permite alcançar, o mistério da morte e ressurreição, a transmutação da imperfeição, uma  alquimia em que se torna o chumbo corpóreo na alma aurífera. O tentar o encontro do homem com o Homem, a semente do Humanismo. Como se num êxtase, uma celebração, uma epifania. Quando sucede.
Problema é o que se possa passar nos bastidores, pior, nos esgotos dali. E que a natureza da organização torne suspeito porque menos claro. Daí que eu ache que magistrados não devem fazer parte de nada que não seja público, laico ou religioso. Porque não se podem expor à mínima dúvida.
Claro que, acossadas pela simplificação que os media servem e a política instiga, as pessoas perdem o fiel da balança mental que é o elemento comparativo. O medo ajuda a não pensar. E nada como quem não pensa muito para condenar depressa, tudo e todos.
Num país maioritariamente católico, ridiculariza-se o usar avental em cerimoniais, esquecendo que os padres católicos andam de saias, casulas, estolas e se munem de báculo e hissope e outros artefactos que, vistos de fora, podem ser tão absurdos como ridículos para os que perderam o respeito ao que é simbólico e cuja alarvice os levaria seguramente a rir à gargalhada quando, no momento agónico de uma missa, aquele sujeito assim vestido eleva os braços com uma roda de farinha e a um cálice e dele bebe o vinho! 
E com isso se faz blague e risota fácil.
A partir daí está aberta a porta à argumentação barata, mesmo vinda da boca dos que deveriam ter da inteligência um pouco mais de sobejos. Transformada, no arengar desses, em baile de máscaras, a Maçonaria degradada a Carnaval, os seus membros tornam-se palhaços idiotas enfeitados e o Zé Povinho ri, apoucando, às escâncaras, como se o circo tivesse descido à cidade.
Claro que tudo isto é fácil de passar a espectáculo nos meios de comunicação de massa onde se perdeu pudor na argumentação e sobretudo respeito, tudo afogado pela rudeza vil e pela insolência canalha. Basta ligar a TV e ver o lixo nauseabundo que é servido ao País como entretenimento, a devassa sórdida, a violência sanguinária, a repugnância verbal do palavrão a passar por humor, a demagogia.
 Mas não é só do ridículo que cuidam os que vêm para a praça pública por causa da Maçonaria. É que, segundo alguns, ela permite ilegalidades e crimes impunes, porque secreta. Ora está aí o ponto por causa do qual vim aqui.
É que os mesmíssimos que assim o proclamam são os que esquecem, em amnésia conveniente, que, em igual critério, a própria Igreja Católica escorre sangue e vergonha porque se comprometeu, em nome da Fé, com coisas bem mais graves do que negociatas e combinas, quando legitimou a carnificina das Cruzadas contra o Infiel ou o extermínio indiscriminado pela "Santa" Inquisição. Para não falar da pedofilia, em Papas sodomitas e assassinos. Houve tragicamente de tudo. 
Com uma diferença para pior. É que, na hora do apuramento das contas, dos maçons os honrados ainda podem dizer que, dada a discrição com que tudo se passa no seu seio, não sabiam do que de gravemente errado se passava na Obediência, e dada a autonomia de cada loja e seus triângulos poderão argumentar que só algumas estarão em crime de prevaricação e que ainda há quem se salve. 
Na Igreja Católica, das catedrais carregadas de ouro às capelinhas rurais despidas de qualquer adorno, tudo se passou e passa sempre de casa cheia e à vista de todos. Todos os que se ajoelham em oração ou no silêncio dos seus lares rezam ao santo da sua devoção não ignoram o que foi e o que é o Templo Universal a que pertencem e sobretudo a sua História. Impõe-se-lhes humildade e pedido de perdão. Quem estiver livre de pecado que atire a primeira pedra.
As centenas de milhares de seres humanos que, em nome da Fé Cristã, foram exterminados, no dia do Juízo Final levantarão, acusadores, o dedo, sim, para para toda a cristandade. O mesmo Deus que permitiu a matança terá de absolver os matadores.
Inocentes há seguramente também no catolicismo, os que estão na religião por uma união mística com o Divino, os da Igreja de Paulo pedindo perdão pela Igreja de Pedro. Os que rezam a Deus e não a sacerdotes, os que renegam o Bezerro de Ouro, os que clamam por Jesus Cristo e seu azorrague contra os Vendilhões do Templo. Como em todos aqueles cuja Fé passa por Igrejas e Templos.
Um dia, na aldeia de Abravezes, era eu garoto, ouvi, à porta de minha casa, a minha mãe, no dia de hoje precisamente e a esta hora entregue na mesa cirúrgica ao acaso da vida e da morte, rematar uma altercação violenta com o cura da paróquia, que se recusara a ir encomendar o corpo de um pobre tuberculoso, que vivia de esmolas num palheiro, por não ser dos que pagava a côngrua. Rematando o responso, ela que tinha ido ao cemitério, de livro na mão rezar o «dai-lhes Senhor eterno descanso», o que qualquer Baptizado pode fazer como última oração antes que o pó se torne pó, lançou-lhe, como se em danação moral, àquele vergonhoso vigário: «E saiba Senhor Padre, que a minha Religião é directamente com Deus, dispensa Padres!». 
É a diferença entre a Fé, os ideias, os princípios e as organizações humanas que dizem servi-los.
Eis o que nesta manhã, o meu coração íntimo dorido sentiu e a minha cabeça privada cansada pensou.
Enfim a parte cívica, pública, social: se há que denunciar vigarices, arranjismos, compadrios, pulhices a coberto de organizações, vamos a isso! Mas vamos a direito. Que não seja só nos serviços de informações. 
Há uma forma simples: cada um declara a sua pertença presente e passada e o porquê: mas que isso suceda nos jornais, nos tribunais, na política, nas organizações religiosas.
Quanto a mim o que havia para saber sabe-se e soube-se pela minha boca.
Mas, já agora, porque quando o Sol nasce é para todos e o de hoje teimou em chegar, há horas com este texto que arranco às entranhas da alma, não só ser maçon: que nada escape. Que se faça um varejo de alto a baixo da influência e penetração que tiveram outras organizações, essas à pala da religião, na vida portuguesa. 
Basta de hipocrisia, chega de velhacaria! 
A certos e determinados que estão silenciosos quais fantasmas, lembro-lhes, para incutir ânimo, o que o seu Jose Maria Escrivà de Ballaguer escreveu: «Vira as costas ao infame, quando sussurra aos teus ouvidos: "Para que te hás-de meter em complicações?"».  Venham esses também, para a praça pública, que agora é que isto está bom e sobretudo apetitoso e é a oportunidade sacrificial da mortificação. 
Querem portanto discutir os organismos de influência em Portugal e no Mundo? Embora, vamos a isso! Até por uma questão de higiene moral e cívica.
É pois hora de barrela!  Hora de arregaçar mangas, pôr a água a correr, venha a sabonária e a lixívia. 
Que este Pais, que mete nojo e cheira mal, está a precisar de uma boa esfrega!

4.1.12

Dies Irae

Chego a casa. Tento saber o que se passa do mundo de onde vim. Uma sensação de náusea profunda ante o abastardamento dos ideais, o afundamento dos princípios, a rarefacção da inocência, o emporcalhamento dos bons costumes. De Mozart apenas o Requiem é possível e dele um único andamento: o Dies Irae! 
Que a cólera se abata sobre os vendilhões do templo, de todos os templos. 



1.1.12

O Império da Inocência

Lê-se por todo o lado, no que se diz e escreve e no semblante abatido das pessoas, é a alma corroída, o sentimento de desânimo, a falta de esperança, a resignação. Até da revolta há receio, o medo do que amanhã possa trazer. 
Portugal perdeu a memória do passado e por isso receia o seu futuro. Um País assim teme pela existência.
Entristecemos. A saudade, esse característica do nosso modo de ser, tornou-se nevoeiro. Das praias de onde saiu a nau da Índia, olha-se hoje para as areias desérticas de Alcácer-Quibir. Masjá não se espera pela alvura de Dom Sebastião, mas pela vingança daqueles que ele, em funesta loucura, quis afrontar.
Suicidámos a glória vã depois da vil cobiça. Dilatámos uma Fé quando já tínhamos perdido a Esperança.
Só que oito séculos de Nação, quando não havia sequer Europa e da América nem o sonho, resistirão! Nem que, ao clamar da Pátria, se erga o Povo contra o Estado, pelo Império da Inocência!

28.12.11

O balcão dos despejos

Amanhã, segundo li aqui, o Conselho de Ministros aprovará um diploma legal que «tirará os despejos dos tribunais», criando um «Balcão de Despejos» ou coisa de nome semelhante, a cheirar a efluente.
Quer isto dizer que a cessação dos arrendamentos vai ser subtraída à competência dos tribunais. Em nome da celeridade, porque se concluiu que nos tribunais levam eternidades. Em nome da simplificação, porque a acção judicial respectiva estará pejada de incidentes e complexa tramitação.
Tudo isto poderia ser mudado mantendo-se a competência judicial.
Só que há só duas coisas que tudo isto esquece. Duas coisas que passaram a pertencer ao mundo da Humanidade, a um tempo em que havia pessoas e não números numa estatística.
Primeiro, que o que está em causa é o fim do conceito de lar. A ideia de que o fim de um arrendamento e a desocupação de uma habitação equivale ao desarticular de um lar passou a pertencer à História, ao passado das preocupações colectivas, neste mundo actual de indiferença ante a sorte dos outros, ao passado da existência de famílias estruturadas.
Hoje o capitalismo fundiário tudo perverteu. Temos inquilinos a explorarem senhorios, sub-arrendando a preços leoninos e auferindo lucros à conta das esmolas que pagam como rendas, os prédios a desmoronarem-se. Temos rendas proibitivas porque o custo de construção subiu exponencialmente ante a especulação imobiliária. Arrendamentos a prazo porque nada resiste e tudo é precário. Gente que muda de casa como quem muda de camisa, casas dos pais e avós desbaratadas no adelo, no alfarrabista, os tarecos à porta da rua, porque já nem há quem os queira.
Ao mundo em que havia lares sucedeu o mundo em que existem assoalhadas.
Outra realidade que se esquece é que a judicialização dos litígios sobre arrendamentos partia do pressuposto de que estava em causa um direito fundamental, constitucional mesmo, o direito à habitação. Os despejos administrativos eram excepções em nome de valores públicos urgentes. O juiz surgia para que não houvesse abuso.
Hoje tudo mudou.
O balcão dos despejos vai ser a fossa do esgoto em que se tornaram os dormitórios em desagregação, lugares onde chegam diariamente exaustos os explorados do sistema, onde explode a violência de dias de horror, de onde saem pela madrugada crianças ensonadas para serem, elas também despejadas, em quem «tome conta» delas, até que, a altas horas, um dos pais acresça ao castigo do dia o esforço de os «vir buscar». 
Aí chegarão os despejos da falta raivosa de dinheiro já para pagar a renda, da ira incontida dos senhorios que pagam para o serem, dos intermediários interesseiros, das agências, e tudo muito rápido, muito simples, muito através de funcionários, precários eles também, a despejar assim o sistema falhe ou já não seja preciso ou na política se mude de ideias.
Pouco a pouco tudo quanto é humano sai dos tribunais. Um dia, ao lado das máquinas que vendem enlatados haverá neles computadores a darem sentenças por sms

20.12.11

Macau: foi há doze anos

Esperei que fosse meia-noite e chegasse com ela o dia 20 de Dezembro para republicar o que aqui escrevi o ano passado. Talvez seja uma noite de revivalismo. Talvez porque alguma coisa mudou para que tudo ficasse precisamente na mesma. Foi há doze anos. Na foto a "Rua das Felicidades".


«Foi há onze anos que Macau, território chinês sob administração portuguesa, foi devolvido à República Popular da China. Formalmente era uma zona híbrida na lógica do nosso Direito Ultramarino.
Há muitos modos de comemorar o facto ou apenas de o referir. No primeiro caso com alegria, no segundo com nostalgia. Há quem chore ainda perda da bandeira, como há quem chore a perda da carteira. Há quem ria por inconsciência alarve ou sorria por já nem querer saber.
Para o sub-consciente colectivo, amálgama irracional, onde se forma a ideia de Pátria e se deforma, através do Estado, a de Nação, com o fim de Macau Portugal reduziu-se ao ponto de partida. Fechou-se o ciclo do Império. Passámos a ser os portugueses enjoados em terra que nunca iriam à Índia, mais os portugueses náufragos desanimados que de lá voltaram.
Claro que a minha Pátria é, como disse Pessoa, a língua portuguesa e o que ela simboliza. Gastaram-se milhões em Macau para que ficasse essa língua de Camões, mas ela só resiste por imposição do Estado e por ainda haver ali portugueses na Administração e na vida empresarial. Em todas as outras colónias o português ficou naturalmente, fruto do amor e da mestiçagem, ali, na zona do Sol Nascente, só porque politica e legislativamente convém. Não é uma língua franca mas uma língua fraca. Ai de quem não souber ao menos inglês.
Sonhou-se que Macau seria, enfim, um caso de "descolonização exemplar", livre do opróbio do abandono, mas a sombra suja das negociatas a alto nível e da pilhagem à "árvore das patacas" criou uma macha que levará tempo a diluir-se como a água do Lilau, a que impede o esquecimento. 
Tempos houve em que ir para a Cidade do Santo Nome de Deus era sacrifício militar ou exílio de amores. Macau foi laboratório de pilhagem onde se gerou a moral rapinante que hoje sobrevooa Portugal.
Há, porém, um Macau de que pouco se fala, dos abnegados que lutaram na guarita do seu posto ou na enxerga do seu recolhimento, os que ali deixaram o espólio do seu amor àquela cultura e àquela gente. O Macau dos desterrados da sorte e dos opiados da má fortuna. Aqueles para quem a Fazenda foi madrasta e para os quais o Palácio foi indiferente. Esse Macau que gerou o macaense, língua de "papaeação", esse Macau que foi o nosso modo de ser colonial. O Macau missionário mesmo sem missas.
Foi há onze anos. Houve quem trouxesse contentores carregados de valores, houve quem se contentasse com o que a memória guarda.
Comemoro hoje Macau. Tenho comigo a "Estátua de Sal" de Maria Ondina Braga que ali viveu, como professora, em reclusão de alma, o coração em dor. «Assomaram-me as lágrimas a primeira vez que vi a "cidade dos barcos"», escreve. 
A cidade dos barcos é a cidade flutuante, a dos miseráveis, para quem cada pequena embarcação é casa e loja e caixão. A cidade dos que se amarram mais aos filhos ao madeirame flutuante quando toca a tufão e com ele o grito pavoroso de morte. 
Um pouco adiante dessa tragédia humana que bóia e assim sobrevive, o Casino, as jóias e as antiguidades, o ar condicionado e tudo quanto é luxo tecnológico e suas luzes meretrizes. Há onze anos estavam e ainda estão. É o Macau indiferente, para quem nenhum Império foi Lei nenhuma Senhoria abrigo. 
Devolvemos à China a galinha dos ovos de ouro. Depois de os ingleses terem devolvido Hong-Kong. Os diplomatas rejubilam com essa mísera vitória. 
Para a China eterna nada conta. A unificação da Mãe Pátria tem um nome e não está longe. Chama-se Taiwan. Um destes ouvir-se-à falar. Acreditem. É só Dragão acordar, vivificado».

18.12.11

É fartar, vilanagem

Publico tal como me chegou. dúvidas que o Tribunal de Contas terá encontrado nas contas municipais. Resta conferir pelo documento oficial. A ser verdade, a porca da política é mamada até à morte.


ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO ALENTEJO, I. P.: aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€.

MATOSINHOS HABIT - MH: reparação de porta de entrada do edifício: 142.320,00 €.

UNIVERSIDADE DO ALGARVE - ESC. SUP. TECNOLOGIA - PROJECTO TEMPUS: viagem aérea Faro/Zagreb e regresso a Faro, para 1 pessoa no período de 3 a 6 de Dezembro de 2008: 33.745,00 €.

MUNICÍPIO DE LAGOA: 6 Kit de mala Piaggio Fly para as motorizadas do sector de águas: 106.596,00€

MUNICÍPIO DE ÍLHAVO: fornecimento de 3 Computadores, 1 impressora de talões, 9 fones, 2 leitores ópticos: 380.666,00 €.

MUNICÍPIO DE LAGOA: aquisição de fardamento para a fiscalização municipal: 391.970,00€.

CÂMARA MUNICIPAL DE LOURES: vinho tinto e branco 652.300,00 €.

MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA: aquisição de viatura ligeira de mercadorias 1.236.000,00 €.

CÂMARA MUNICIPAL DE SINES: aluguer de tenda para inauguração do Museu do Castelo de Sines: 1.236.500,00 €.

MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA: aquisição de uma viatura para o transporte de crianças por 2.922.000,00 €.

MUNICÍPIO DE BEJA: fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €.

P. S. Fazem-me saber que estes dados foram postos a circular já durante o anterior Governo e que os números têm as casas decimais intencionalmente ou  não deslocadas. A ser assim, tenho de me penitenciar por ter dado crédito ao insólito e tê-lo transposto para o FB, onde várias pessoas tomaram os números como reais e possíveis. Recebi o conteúdo publicado por email, enviado por alguém que tenho por credível. Mesmo assim, ante o insólito dos valores coloquei a ressalva inicial «a ser verdade» e a circunstância de faltar conferir o documento oficial. Aguardo, mas uma coisa é certa: há quem acredite, eu incluído, que isto é possível suceder. O que é sintoma do estado em que está o Estado.

A Pátria madrasta

O caso podia ser este ou podia ser outro. Como nos aterros em cima de lixo cada buraco que se cava é mais lixo que se encontra. E Portugal está a tornar-se numa nitreira.
«A portuguesa Sofia Escobar é candidata ao título de Melhor Actriz de Teatro Musical em Inglaterra pela representação de `Maria`, em West Side Story, refere hoje o portal de espectáculos britânico Whatsonstage». Veja-se mais sobre ela, aqui.

É dela, porém, esta carta:

«Estimados amigos, aqui fica um desabafo. Como vocês sabem, todas as noites actuo em Londres para 1500 pessoas, durante a minha carreira fui nomeada para um Olivier e foram-me atribuídos outros premios no campo do teatro musical. As criticas internacionais tem sido felizmente muito positivas. Durante todo este tempo sempre expressei um carinho especial pela minha cidade, por isso me entristece tanto que depois de varias tentativas de minha parte e do meu agente me tenha sido dito que "estão a fazer o possivel" para me incluir nos espectáculos da Capital Europeia Da cultura em Guimarães. Depois de todo o carinho que recebo dos Vimaranenses e dos Portugueses isto dói-me muito. E não consigo evitar expressar desta forma que isto me deixou desiludida e acima de tudo, triste».

15.12.11

Mário Soares: o perfume barato do contar...

Sabia que me iria irritar. Que o livro Um Político Assume-se seria uma forma de se justificar perante a História, já que não perante a sua consciência. Mesmo assim insisti em querer vê-lo. Foi esta noite. Fui directo à página onde, na obra que diz ser de memórias políticas,  Mário Soares trata do que eu conheço de perto, por ter vivido na pele parte da trama: a história da sua ligação, enquanto Presidente da República, ao território de Macau. Detive-me nas linhas que dedica ao caso Emaudio/TDM. Poucas linhas, esclarecedoras linhas.
Diz que foi afinal uma campanha lançada «pela extrema direita» contra ele, para o envolver na história. Mente, por contrariar a verdade. A questão não tem a ver com políticos de qualquer quadrante que se tenham mobilizado contra si, mas com os factos que não se conseguem iludir.
Acrescenta que na origem da campanha esteve o Rui Mateus. Mente por sobre-simplificar a verdade. O papel de Rui Mateus é prévio na próxima ligação à sua pessoa, contemporâneo com todo o caso e posterior com maior intensidade no que se refere ao caso da Weidelplan/Aeroporto de Macau, mas o assunto transcende-o e em muito.
Para enxovalhar Rui Mateus, Soares diz que o conheceu empregado de um restaurante e que teve uma ambição tal que quis ser ministro dos Negócios Estrangeiros do seu Governo. Mente por omissão da verdade. A ligação entre os dois é muitíssimo mais vasta, próxima, e, é só ler o livro que aquele escreveu, para concluir que em matéria de "comedorias" o conhecimento não se limitou a restaurantes.
Remata, enfim, dizendo que envolveram no assunto o então Governador de Macau, Carlos Montez Melancia, que seria absolvido judicialmente. Mente por adulteração da verdade. A história do processo judicial ainda está para ser contada, como a história dos processos judiciais que nunca existiram em torno do caso. E como é que a absolvição do Governador neste processo deu em condenação em outro, o "caso do fax".
No momento em que escrevo estas linhas hesito se contarei ou não toda a história desse aproveitamento político, económico e pessoal da televisão de Macau que o livro tenta branquear.
Confesso que o descaramento do livro me incendeia um sentido de revolta pessoal. Que a "reconstrução" da História  me repugna como cidadão, como o faz tanta historiografia oficial arregimentada que tem andado a ser escrita em relação ao que nem regime político chegou sequer a ser e hoje está em estilhaços, o estado cadaveroso do País.
Sei que se o fizer, contando o que sei, serei sujeito aos efeitos da difamação e do enxovalho, porque ele e este estilo de obra são o rosto de um modo de ser que define a actual Situação, o verso dos que a criaram, o anverso dos que a consentiram. Talvez haja um direito à tranquilidade, minha e dos meus, que eu deveria saber preservar.
Por outro lado estou perante uma figura pública idolatrada a quem tantos perdoaram tudo, à direita e à esquerda, com quem tantos se arranjaram para tanto. Ficarei isolado e à mercê.
Talvez haja, enfim, o respeito devido à idade, se não houvesse o respeito devido à Nação de todos nós. Apodar-me-ão de desapiedado, logo quanto a um livro em que o seu autor se fez cercar, no lançamento, da imagem inocente dos seus netos.
Vou tentar tranquilizar o espírito e logo verei. Até passar o hálito da sordidez do caso e do perfume barato com que agora o vejo contado.

11.12.11

Outra vez, amigo?

Esta história é uma das mil histórias com a qual nos cruzamos todos os dias. Estava caído junto ao muro do jardim da Gulbenkian. Meio dormente, tremia, mal conseguia articular palavra. Álcool, frio, escassa alimentação, encovado, o olhar ausente, a barba desgrenhada, sujo. Tinha trabalhado no Jardim Zoológico, foi o que consegui saber. Tratava então dos animais. Hoje estava reduzido a ser um deles, partilhando com eles e a rua e os caixotes. 
Chamei o 112. «Outra vez, amigo?», perguntaram, amáveis, quando chegaram e deram com ele. Outra vez, para ambos, os resíduos da sociedade, como o lixo do nosso consumismo que pela noite é removido pela Câmara Municipal. Neste caso era um dos corpos que consumimos, seres humanos que são aquilo de que nos servimos até já não servirem.
Momentos antes, um pai e seus dois filhos tinham-se cruzado com a situação. Protegendo as crias, o progenitor puxou-as para que, afastando-as do passeio, seguissem pela rua, fora do contágio que pela vista se consumaria. 
«O que é aquilo?», perguntou um dos meninos. «Nada!», respondeu o papá. 
Tudo afinal do mais verdadeiro na nomenclatura do mundo em que vivemos: «aquilo» e «nada». A linguagem a trair os sentimentos, estes calcados pelas ideias, as interesseiras desinteressadas.

P. S. [a foto, evidentemente, não é a do que vi, mas afinal do que poderia ter visto. A banalidade da miséria torna-se a nossa má consciência numa consciência má, pela indiferença].