O jornal «Público» que daqui a umas horas está nas bancas intitula assim a notícia sobre a exoneração do Director-Geral da PJ: «Santos Cabral diz que confiança institucional com o Governo “já não existia”». Uma pessoa lê isto e fica a metade do que precisa saber. Na notícia propriamente dita vem, porém, o resto: «"Há uma relação de confiança institucional que nos ultrapassa. Essa relação da minha parte não existe neste momento e por isso entendi que não tenho condições para continuar"». Agora percebe-se: afinal, era a Polícia que não confiava no Ministro, o que é uma coisa que dá para pensar.
4.4.06
2.4.06
Rebelo da Silva
O blog que criei dedicado ao Luiz Augusto Rebelo da Silva é daqueles parentes enjeitados que está votado ao desprezo. Hoje lá fui deixar uma picardia. Como dizia o outro, «as pessoas não gostam de si e você bem sabe porquê». Eu sei, mas é-me irresistível!
Tá tudo grosso!
Ninguém quer ver mortos da estrada por causa do excesso de alcool. Agora o que ninguém quer é ver um Governo a usar meios de pressão como aqueles que este está a usar a este propósito! Leio na imprensa que «A taxa de álcool no sangue permitida para a condução vai «diminuir consideravelmente» no final do ano, adianta o secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, citado no Diário de Notícias». Mas, continua a informação: «Esta decisão avança se o sector vitivinícola não agir para contrariar os números de mortos na estrada por excesso de ingestão de bebidas alcoólicas. Ou seja, o Executivo lança ultimato aos produtores viti-vinícolas: ou fazem campanha para travar o número de mortes nas estradas devido ao álcool ou o Governo baixa a taxa permitida pelo Código da Estrada», continua a notícia. Quer isto dizer, em termos claros: o Governo quer que os produtores de bebidas paguem a campanha contra o excesso de consumo de álcool! E por isso ameaça-os: ou pagam ou arruino-vos o negócio, prendendo-vos os clientes! É uma vergonha e uma falta de nível. Um destes dias podiam ameaçar as fábricas de automóveis: ou pagam para a Prevenção Rodoviária, ou ficam proibidos de fabricar viaturas que dêem mais do que 120 à hora! Ou já agora, contra os advogados: ou pagam o que custa a falida Polícia Judiciária, ou descriminalizamos tudo e ficam sem clientes! Agora sim começo a lembrar-me do Presidente do Governo Regional da Madeira: tá tudo grosso!
1.4.06
O dia dois
Hoje que é o dia das mentiras quero ser verdadeiro: aprendi na vida a mentir por omissão. Calo-me, por exemplo, para não dizer a verdade. É uma forma de comemorar como qualquer outra. O meu receio começa já no dia dois, domingo.
31.3.06
Um espião português descoberto!
Actualizei o «blog» chamado «O Mundo das Sombras» com informações sobre o agente secreto português «Tomé», de seu nome Manoel Mesquita dos Santos. Infiltrado pelos alemães em Moçambique, em 1942 foi capturado, interrogado no Campo 020 e condenado a prisão, na qual permaneceu até ao fim da Guerra. Tivesse eu tempo para mais...
30.3.06
Em caso de terramotos!
Há na Embaixada do Canadá alguém com uma refinada inteligência diplomática: para se justificarem quanto ao facto de andarem a fazer um recenseamento dos canadianos [ou será canadenses que se diz?] que por aí andam, justificam-se que é só para o caso de terem de os prevenir, no caso de um terramoto. Perante isto e o que isto pode significar de espalhar a confusão e o terror junto da população de um país estrangeiro, espera-se o comentário de Freitas do Amaral. Acho que, no mínimo, seria justo convocá-los para aquilo que se chamam as Necessidades, a sede do MNE, quero eu dizer.
29.3.06
Muito exemplo e poucos exemplares
Visto os exemplares que se vendem, a glória de vir no jornal é de uma menoridade comovente. 48 mil compram e nem todos lêem o jornal «Público», 33 mil o «Diário de Notícias». O falecido Nunes, por exemplo, morre sem que a sua necrologia paga seja vista por muitos dos que no seu próprio bairro compraram a imprensa que a editou. O político da grande entrevista, a associação em crise de causas, a menina Ifigénia que foi assaltada no metro, todos, sem saberem coitados, falam para o boneco. São só exemplos, mas de casos exemplares. O José, da Grande Loja [a do queijo], esse diz a coisa se explica por uma «descredibilização generalizada», forma de dizer que as pessoas não lêem pois não acreditam. Por mim talvez nem seja isso. Vejam os jornais desportivos: as pessoas só acreditam no gooooolo que viram, mas vejam-nos ávidos a lerem no dia seguinte, linha a linha, o golo contado e recontado mesmo pelas mil maneiras que há de o transformar em frango. Eu, permitam-me que arrisque uma opinião, acho que as pessoas não lêem só por uma razão: preferem ver na TV. Ali há uma vantagem, a notícia passa mais depressa e vai-se embora num instante. Além disso, pode-se ir lavando a loiça, gritar com os miúdos ou cortar as unhas dos pés.
Fizeram «fufú» ao Alcaraz!
Há um site na Net que permite visualizar as primeiras páginas dos jornais. Tentei Portugal e saíu-me em Lisboa «O Público» e quanto ao Porto «O Jornal de Notícias», de Madrid veio-me o «El Mundo».Mas o mais interessante é o jornal «Primera Hora» que se publica em Guaynabo, Puerto Rico, e que titula, em manchete, a garrafais de primeira página, que fizeram um «fufú» a Alcaraz. Lendo com mais atenção chega-se à conclusão que o Alcaraz é o Secretário do Governo para os Transportes, que foi vítima de bruxaria, pois puseram-lhe à porta uma cabeça de leitão «com viandas». Ilustra a notícia uma foto da cabeça, a do Acaraz claro, a alegada vítima do dito «fufú». Perante esta notícia e o que ela simboliza de tantas coisas cruciais que os jornais relatam e uma pessoa não sabe, desisto! Vou passar a ler o «Borda d' Água»! Acho que ainda só há a edição em papel. Ajuda o hortelão e anuncia os mercados locais. De quando em vez traz uma inocente anedota, daquelas que fazem rir.
26.3.06
Papás ao ataque, cesarianas à defesa
A propósito de uma notícia que intitula «Mais de 10 mil cesarianas desnecessárias em 2004», o Diário de Notícias cita Luís Mendes da Graça, presidente do Colégio da Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos a dizer o seguinte: «em primeiro lugar, explica o especialista, o aumento do número de cesarianas em Portugal ficar-se-á a dever ao facto de "haver cada vez mais processos em tribunal de mães descontentes com o parto". O acto cirúrgico inscreve-se assim numa "estratégia defensiva dos obstetras, que é legítima", considera o responsável da Ordem dos Médicos». Ora aí está. Imagina-se no subconciente dos médicos parteiros a cena quotidiana: cada mamã que lhes entra pela frente, as contracções a aumentarem de ritmo, a bolsa das águas em vias de rasgar, a respiração ofegante e um ranger de dentes entre a dor e o medo, é para eles, a visão de um processo judicial à vista. Não é uma parturiente que aparece, encapsulada numa higiénica bata branca, é um causídico que lhes surge, envolto numa sinistra toga negra, não é a beleza de uma vida a nascer é a fealdade de um processo a instaurar-se. Na sala de espera, fumando nervoso, o paizinho sonha com o valor da causa e arrola testemunhas. Lá dentro, ao gabinete de enfermagem sucede o gabinete jurídico, às compressas e aos fórceps, o Código Civil mais a Colectânea de Jurisprudência. Defensivamente, por isso, não vá saltar de lá mais uma acção em tribunal, vai de cesariana. Quando o nângero solta o primeiro vagido, o clínico sente-se notificado pelo meirinho. Ao tomar-lhe o peso e as medidas, ainda o nascido babado da placenta, já o médico calcula quanto aquilo vale em termos de indemnização. Ao lavar as mãos, esgotado de um dia de trabalho, a equipe médica em vias de ser rendida, já pediu uma chamada para a companhia de seguros, pois coitaditos deles, cada dia de trabalhos de parto custa-lhes um dinheirão. Entretanto na casa em frente, em cada palheiro e em cada barraca, em cada condomínio de luxo, todas as noites e a todas as horas, casais legítimos, unidos de facto e parzinhos de ocasião fornicam à doida, fabricando mais processos, mais acções, mais indemnizações. Nove meses depois lá entram mais uns tantos em tribunal! Pobre Ministério da Saúde, desgraçado Ministério da Justiça. Leio o DN, é domingo de manhã, lá fora cantam os passarinhos, e imagino, angustiado como cidadão, preocupado como contribuinte, uma solução de emergência para isto tudo. Segunda feira, por decreto, o Governo ordena e a Imprensa Nacional publica a seguinte norma: artigo primeiro, é proibido f... para procriar, artigo segundo é reforçada a dotação do orçamento do ministério da Saúde na conta provisão para encargos suplementares com o montante necessário para fazer face a indemnizações com f... pendentes cujo efeito seja a gestação».
Os ladrões do tempo
Disseram-me ontem que durante a noite, por ordem do Governo, mudava a hora .E eu, nissso demonstrando a minha falta de inteligência, tenho sempre de fazer um grande esfoço para compreender. Todas as vezes é sempre o mesmo. Depois lá entendo o que vai ser com o «então amanhã quando forem sete já são oito». Mesmo assim, fica-me sempre uma íntima hesitação e a suspeita de que mais do que uma hora de sono, me roubaram uma hora de vida. E depois não querem que um tipo ande revoltado, se até o pouco tempo que nos resta o Governo nos rouba?
25.3.06
Só uma pontinha
José Sócrates disse que Marques Mendes tem «uma pontinha de ciúme» do Governo, que é o dele. A frase, creio eu, é duplamente significativa e duplamente equívoca. Dizer de um homem de pequena estatura que tem «pontinha», pode não ser amável, dizer de um outro que tem dele ciúme, pode não ser o mais apropriado.
24.3.06
Uma vida de tartaruga
Ao ter lido na imprensa que morreu, com 250 anos, a tartaruga mais velha do mundo, lembrei-me daquela do Oliveira Salazar que recusou a oferta de um tal animal, ainda muito pequenino, com base no argumento: «sabe, é que depois, uma pessoa afeiçoa-se aos bichos e custa-lhes quando eles morrem!». Passa-se o mesmo comigo! Talvez por amanhã fazer anos, fico com a ideia de que me está a custar morrer. É que, sabem, uma pessoa às vezes afeiçoa-se à vida e depois custa-lhe falecer!
A golpe de malhete!
A Grande Loja Nacional Portuguesa é uma das obediências maçónicas que agora existem, ao lado da Grande Loja Regular de Portugal, a Grande Loja Legal de Portugal, e do velhinho Grande Oriente Lusitano e outras que nem eu sei. Segundo diz a imprensa que vejo esta madrugada, vai abrir em Congresso «para desmistificar a Ordem e transmitir os seus valores de cidadania». Pois bem. Se estamos mesmo numa de «desmistificar», talvez não seja inoportuno inscrever na agenda um tema: segundo a clássica definição, emanada das Constituições de Anderson, de 1723, a Maçonaria é uma sociedade iniciática de homens «livres e de bons costumes». Ora aí está um belo momento, para inventariando todos os obreiros que da pedreiragem se reclamam, definir o que sejam os ditos «bons costumes». Talvez se desmitificasse, enfim, muita coisa! Muitas coisa mesmo!
23.3.06
Portugueses refugiados!
Portugueses distintos, eméritos, notáveis, portugueses emigrados. Portugueses que foram e são alguém. fora de Portugal, estão aqui. Repito o que li: nós não somos os descendentes dos que foram à Índia, mas sim dos que cá ficaram.
Orgulho de pai
Com uma diversificada actividade na blogo-esfera e outra menos variada em outras esferas, é só para lembrar que actualizei «O Mundo das Sombras» com um texto que nem sei como consegui escrever e que a gentileza da revista «Mea Libra», que acaba se ser divulgada na sua última edição, permitiu viesse à luz do dia. Talvez quem isto leia pense que é vaidade minha vir aqui dizê-lo. Confesso-o: é-o de facto. Um pai orgulha-se dos seus filhos, ainda que sejam de um mundo em papel. Ah! O texto é sobre o escritor Graham Greene, a sua vida secreta, a sua ligação aos serviços secretos. Talvez um dia dê um livro, quem sabe!
Notícias, frescas e molhadas
O conceito quotidiano de «notícias» é equivalente àquilo que se sabe ou, melhor dizendo, àquilo que a uns consta, ou melhor ainda, àquilo que dizem constar, ou para se ser mais exacto, àquilo em que se repara que eles disseram que lhes constava. Claro que, no meio disto tudo, há aquilo que sucedeu. Mas no fragor deste torvelinho, essa realidade inatingível é aquilo que menos interessa. Hoje, por exemplo, quem me visse a correr, diria que a notícia era eu andar a fugir da própria sombra. A única diferença entre isso e o real é só o não estar sol mas uma carga de água, e o ter-me esquecido do guarda-chuva.Por isso, ante tal «notícia», um lauto comentador, daqueles que pomposamente se intitulam de «opinion makers», perguntar-se-ia especulativa e doutamente «o que faz correr Barreiros?». O magro repórter, dos que aguentam horas a fio por um momento da vida que alegre os editores, diria, sem eco algum na redacção: «o estar alagado até aos ossos», verdade que estragava logo o interesse do assunto.
22.3.06
Cobranças duvidosa
Acordo pela manhã e leio: «o total de crédito bancário com cobrança duvidosa a particulares no final de Janeiro ascende a 2,08 mil milhões de euros, o máximo de pelo menos cinco anos». Mas a notícia continua: «A finalidade «habitação» leva cerca de 80% do total emprestado». Eis os modernos servos da gleba, amarrrados à grilheta do imóvel, serventuários do imobiliário, suportando a corveia bancária. Ei-los, jovens casais adquirindo o que sonham ser a casa sua, o lar do seu parceiro, o ninho dos seus filhos, ei-los solitários convictos, conformados divorciados, resignados viúvos, ei-los todos, hipotecados ao último refúgio, o covil do remanescente que a vida lhes dá. A vinte e cinco, a trinta anos de servidão adscrita, pelo juro anatocista escravizados, ei-los inscritos na rubrica da cobrança duvidosa, um número, um momento das estatísticas, uma vergonha de vida e um escândalo de sociedade. Eis o mundo em que nos cabe viver, o da usura e do calote.
21.3.06
Egoísmo partidário
Li esta manhã que o antropólogo Miguel Vale de Almeida, um dos rostos mais conhecidos do Bloco de Esquerda, abandonou a vida partidária, numa atitude, segundo o próprio, quase «egoísta». Todos os dias nos surpreendemos. Eu estava convencido que uma pessoa hoje se inscrevia num partido precisamente por uma razão egoísta, quando afinal também por causa disso é que de um partido se sai.
20.3.06
Viver só do ordenado...
Quando uma presidente de Câmara garante em «tribunal viver apenas do ordenado de autarca e de uma pensão, sustentando assim não ter meios para pagar a multa de 12.500 euros a que fora condenada por difamação», pode não estar a difamar todos os outros que, vivendo na aparência apenas do ordenado de autarca, fazem a vida que se lhes conhece: é que, nolens volens, pode estar mesmo a querer a dizer a verdade, toda a verdade, aquela que muitos fingem não querer ver.
19.3.06
Uma grande lata
Porque é que alguém que pretende passar por sério, honesto e exemplar convida, nomeia ou se rodeia de alguém cuja fortuna rápida nem o próprio consegue explicar, e de quem se murmura o pior, da honorabilidade à respeitabilidade? Porque é que eu, ridículo nesta pergunta e ingénuo no que ela supõe, ainda perco tempo com isto? Com o que há de importante na vida, basta-me o consolo de não os convidar para minha casa, onde, aliás, quase ninguém entra. Não é que me fanassem o faqueiro de prata, que não tenho, é porque poderiam tentar vender-me um, em lata, como se de prata fora. Vendê-lo, depois de o terem gamado, não duvido.
17.3.06
Conselho de Estado: o ponto final
Devorado pelo trabalho, soube apenas hoje os nomes dos novos membros do Conselho de Estado. Fiquei totalmente esclarecido, se dúvidas tivesse, se ilusões me restassem. Não é nada que eu já não pressentisse, acreditava é que não fosse possível ir-se a tal ponto. E por falar em ponto, para mim, é mesmo ponto final.
O prenúncio
Capital do chique burguês, a desordem nas ruas em Paris prenuncia sempre o fim de uma estação política. Claro que mal governada agora por políticos de segunda ordem, povoada cada vez mais por emigrantes de países de terceira classe, à mercê dos párias e dos desesperados, a França treme. Os estudantes estão na rua e com eles o rastilho. A polícia sabe que estão todos em cima de um barril de pólvora. Os seus filhos e os filhos dos seus patrões misturam-se, raivosos e incendiários.
14.3.06
Privatização, oh! Diabo...
Assumindo uma perspectiva teológica e não marxista, o dirigente dos comunistas portugueses disse que «a 'diabolização' da administração pública a que temos vindo a assistir, responsabilizando-a por tudo o que de mal existe em Portugal", visa "criar no País um clima propício à liberalização" de serviços, designadamente, de educação e de saúde, e ao "corte de direitos e regalias dos seus trabalhadores"». Penso que Jerónimo de Sousa está inspirado no último livro de José Saramago «As intermetitências da morte» quando ironiza que no dia em que as pessoas deixam de morrer a Igreja perde a sua razão de ser. No caso do prémio Nobel, a ideia é que por causa do medo do Inferno, os crentes professam uma religião, na ânsia do céu. No caso de José Sócrates, a ideia é que, com medo dos diabos dos funcionários, os contribuintes preferem os profetas da privatização. Entre uma opção e outra, venha o Diabo e escolha!
12.3.06
A tasca dos doutores
«Eu sou o único comentador isento em Portugal». Quem o dissse foi o Miguel Sousa Tavares que tem, de herança paterna, aquela virtude da modéstia e uma total ausência de auto-convencimento. Tal como o Vasco Pulido Valente, é dos que não estão irremediavelmente convictos de terem a verdade na barriga. Tal como os da sua laia, têem uma multidão de espectadores e ouvintes. Nada como um povo de labregos para se embasbacar perante os doutores. Em cada tasca há sempre um, à sua escala: escorropichando copinhos, botam faladura!
11.3.06
A ave cega e nocturna
Uma das vantagens que tenho em ter sempre gente a censurar-me pelo que não faço é viver na angústia de ter sempre dívidas por cumprir. Transformei-me a meus olhos no pagador de promessas. Culpado do pecado da omissão universal, tento redimir-me, desta feita actualizando blogs. Claro que vão bramar comigo por não escrever livros, criticar-me por não ser mais advogado, perguntar-me quando é que saio do ensimesmamento e dou enfim mais tempo aos outros. Mas é assim. Criei «O Mundo das Sombras» e, tal como o pássaro nocturno, é nele que sei voar.
iPod papal
A Rádio Vaticano ofereceu ao Papa um iPod, presenteando-o porque amador de música. Diz-se que contém música sacra, alguma clássica e gravações de programas da estação. A rádio vaticana é dirigida, desde a sua fundação em 1931 pelos Jesuítas. No dia 12 de Fevereiro desse ano, o Papa Pio XI proferiu a primeira mensagem radiofónica papal dirigida ao Mundo: «Ouvi, ó céus, ouvi o que vou dizer; escuta, ó terra; ouvi, povos todos que habitais o globo; escutai, ilhas do mar, povos longínquos... Glória a Deus no mais alto dos céus e paz aos homens de boa vontade». Li isto e lembrei-me da minha infância. Hoje, de facto, tudo mudou. Nos livros italianos de Giovanni Guareschi, que no colégio de padres onde estudei, me deram a ler, Don Camilo, o cura integrista e caceteiro de coração de pomba, que no cinema foi representado por Fernandel, em luta pertinaz com o líder comunista rival, Peppone, falava com o Cristo cruxificado e este respondia-lhe. Um dos temas do diálogo era com Don Camilo escondendo atrás da sotaina um valente cajado, com o qual queria tratar de umas pendências com o agente local das forças de Moscovo. Hoje tudo mudou, a Igreja e o Altíssimo estão quase em chat pela Internet, a Rússia dos pecadores está convertida.
10.3.06
Os cumprimentos de Soares
Mário Soares não cumprimentou Cavaco quando da sua posse em Belém. Muitos ficaram surpreendidos. Se é verdade o que eu julgo saber, poucos sabem quanto isso traduz um problema psicológico ainda por resolver. Quando tomou posse pela primeira vez como Presidente da República, Mário Soares terá passado pela dura prova de o próprio filho João não ter querido comparecer naquele acto a felicitá-lo. Disserem-me que Mário Soares, já empossado, teve de ir a casa do filho, dar-lhe uma lição, cumprimentando-o ele. Ser humilhado no dia da glória é coisa que ele, por isso, não ignora o que seja. O que precisava é que Cavaco fosse a Nafarros, cumprimentá-lo, como se a um filho que se portou mal. Se não fosse por emenda, fosse ao menos como correctivo.
9.3.06
A posse de Cavaco: os cavalos também se abatem
Não aplaudir o discurso de quem quer que seja é um direito; patear é uma faculdade, estar calado a ouvir, uma obrigação. Agora o primeiro discurso de um Presidente da República, logo no dia da sua posse, tem a importância de ser mais do que um acto, trata-se, no cerimonial da Pátria, de um símbolo. Esse é o dia em que, por um momento, o país e algum estrangeiro têem os olhos postos em nós. O PCP, o BE e os PEV's hoje não aplaudiram quando o Presidente falou e ficaram ostensivamente sentados ante tal solenidade. Não é uma atitude política, é uma grosseria. Ainda sou daquele tempo em que, quando entrava o Chefe de Estado, todos se punham de pé. Hoje tudo mudou. Ao ler isto, lembrei-me daquela história do imperador romano, a cavalo, em frente do qual todos os cavaleiros deveriam desmontar, pelo respeito que lhe era devido. Todos o fizeram, excepto um, o seu pai, arrogando-se por o ser. Nessa história, sabe-se como tudo terminou: imperturbável na autoridade, sereno na majestade, o imperador mandou que a guarda o atirasse, aquele que lhe deu o ser, do cavalo a baixo, estatelando-o no chão. Fosse isso hoje possível, tivessem as alimárias hoje cavaleiro!!
«Morgadinha dos Canibais»
Segundo se lê na imprensa, os «piropos» não vão entrar na tipificação do crime de «importunação sexual» no novo Código Penal: o soez «comia-te todinha», pois que impune, fica a demonstrar a descriminalização do canibalismo: uma ideia civilizada, pois claro!
8.3.06
O menino de sua mãe
Estava na farmácia, bem visível, pedagogicamente presente, comercialmente eficaz, o anúncio à pílula do dia seguinte. A imagem, tema central do cartaz, caricaturada, vista de longe, parecia a do óbvio: um casal, abraçado, ela tendo na mão uma tablete de pastilhas salvadoras de um descuido. Só que eu vejo cada vez pior, o computador e as leituras desenfreadas e mais as compulsivas ajudam a secar-me os olhos, as noites mal dormidas a mirrá-los. Aproximei-me, pois, para descobrir com espanto o que ali estava. Ele era de facto um jovem rapaz, desenhado como se lhe tivessem despontado agora as borbulhas irritantes do nascer da barba e com ela os desejos e os medos, o tipo dos que se metem em sarilhos só por não tomarem precauções, armados em homens quando ainda são uns miúdos. Só que ela, ela, meu Deus!. Desenhada como estava, parecia, não a sua jovem amiga de um momento irreflectido de prazer sexual que deu em fecundação, mas sim, a própria mãmã do rapazinho. Saí da farmácia atordoado, as ideias confusas, a cabeça sem entender nada da mensagem do cartaz. Esta ideia da mãezinha protectora, de pílula na mão, a ensinar ainda ao menino, pertinazmente agarrado às saias domésticas, o bêábá da sexualidade e dos seus riscos e modo de os enfrentar não me entra na cabeça. E, no entanto, ele ali estava, o menino da mamã, avisado para os malefícios do mau uso da pilinha.
7.3.06
O «espectráculo!»
Insultar directamente, pessoalmente, achincalhar mesmo, denegrir, ridicularizar. Dizer que a pessoa completou o 12º ano com dificuldade, que promete há vinte anos um livro que não escreve. Para a troca, ser referido gozadamente, escarnecidamente, chocarreiramente pelas peúgas brancas que usou ou por ter tido, na hora do sexo, uma falha de erecção. É isto a classe culta portuguesa, os finos no seu melhor, feitos escritores, a dar tema para o gáudio dos que julgam eles ser a ralé. Lembrei-me disto e de uma frase do Camilo a propósito do Conde da Atouguia: «a propósito, amigo, há quanto tempo conservas de escabeche a inteligência?».
6.3.06
HP: finalmente a resolução fina!
Diz o Diário Digital, na sua edição de há momentos, que fui espreitar num intervalo, que «a nova máquina fotográfica da HP tem uma inovadora função adelgaçante». As revistas eróticas para homens vão entrar em crise. Elas que viviam da grande angular a meio corpo! Para as gordinhas, anafadinhas e reboludinhas é o fim dos seus tormentos: em vez de uma dieta a fazerem de grilo, é só o olha o passarinho!
A mala posta
Agora acabou-se! Outora eram as ansiosas namoradas espreitando por detrás das cortinas, antecipando a sua chegada, a tasca da aldeia onde se concentrava a vazada da sua mala, o cornetim tocado do alto da montanha, anunciando a sua presença e com ele notícias frescas. Depois com o código postal, o envelope normalizado, o DHL, o «express», o fax e o email, tudo isso mudou. Só que hoje estão todos em greve, os carteiros. Antigamente, quanta gente, para se aninhar na sua solidão, murmurava para com os seus botões o «homem pobre e feio, não tem carta no correio». Hoje, mesmo os ricos e os bonitos não têem!
5.3.06
Ó senhor agente, se faz favor!
O léxico político é um sem-fim de novidades e de novo-riquismos verbais. Jorge Sampaio, quase a deixar o Palácio de Belém, veio revelar-nos que, a partir do momento em que deixar de ser Presidente, passará a ser «um ser agente cívico, livre e independente». A frase dá para pensar. Será que, enquanto foi Presidente, não era livre? Não era independente? Ou, e é para aí que me inclino, não era agente, mas actor?
4.3.06
E não se poderá cimentá-los?
Uma pessoa acorda sábado de manhã, ainda meio aturdida de dormir, tenta actualizar-se com a imprensa e vê boquiaberto que ela diz que «as cimenteiras podem ajudar a combater os fogos». Imaginam-se logo as florestas todas revestidas a betão armado, transformadas em esplanadas com umas mesinhas de bar para a malta urbana tomar umas cervejolas, as criancinhas andarem de patins e os velhinhos partirem a ossada. Mas afinal a notícia é outra: As cimenteiras podem ajudar a combater os fogos e prestar «um serviço ambiental» se substituírem os combustíveis fósseis por resíduos, nomeadamente florestais. Já fico mais descansado e a poder voltar a dormir em sossego. É que se começo a pensar nas utilidades várias que as cimenteiras podem prestar à sociedade, ainda sonho em pesadelo que a nova reforma penal, inspirando-se na Mafia, se decide, em colaboração com a Cecil, a aplicar os sapatos de cimento como forma de combate eficaz à criminalidade organizada. Como diz a minha mãezinha, já se viram coisas piores darem melhor resultado.
3.3.06
O Culto do Oculto
Arrumando mais ainda os caixotes e as sacas dos remanescentes que fui apanhando pelos atalhos pelos quais me fui perdendo nesta vida, criei esta noite mais um blog, a que chamei «O Culto do Oculto», em homenagem ao que ali se trata. Uma ideia dos diabos...
A ficção e a ilusão
Anteontem escrevi aqui lembrando o Vergílio Ferreira, por ser o dia dos dez anos da sua morte. Hoje, casualmente descobri que o nome de um dos meus blogs, «o ser fictício», é, sem que eu o soubesse, um excerto de uma frase sua, publicado no livro «Pensar». A frase, no melhor estilo da sua escrita angustiada, é «o homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa a morte para ele enfim ser verdadeiro». Mas a antecedê-la vem este momento que é a melhor forma de mostrar quanta ficção e ilusionismo verbal existe na política: «os políticos que se dizem de esquerda, por ser o bom sítio de se ser político, estão sempre a afirmar que são de esquerda, não vá a gente esquecer-se ou julgar que mudaram de poiso. Mas dito isso, não é preciso ter de explicar de que sítio são os actos que a necessidade política os vai obrigando a praticar.»
Mim Tarzan!
Nesta noite de sexta em que me recuso a trabalhar, leio que José Ribeiro e Castro, que está líder do CDS/PP, acusou o primeiro-ministro de «querer ser o Tarzan da co-incineração». A frase é complicada, porque no reino da selva política abre o problema não de saber quem é a voluptuosa Jane, mas sim quem será a macaca Cheta. E, a propósito, sem cheta anda o país inteiro e farto sobretudo destas macacadas verbais!
Reanimando o Rei Carol
Desta feita foi o meu blog «O Mundo das Sombras» que sofreu trabalhos de reanimação. Saído do coma vegetativo em que se encontrava, voltando a respirar, o pobre deu sinal de si, a propósito do Rei Carol da Roménia e o acordo secreto que o trouxe a Portugal em 1941. Oxalá não me vá eu abaixo à força de tentar manter uma ninhada de blogs tão exigentes de atenção, e ter que ganhar a bucha pela maneira bruta como me acontece.
2.3.06
Os indígenas do país político
Esta ideia de os políticos terem um foro especial para os julgar anda a perseguir-me. Num outro sítio já me perguntei se isso teria a ver com a expectativa de macieza punitiva do tribunal que deles se incumbirá, segundo pretende o autor da novidade, um tribunal superior. Mas hoje veio-me à cabeça uma explicação que tem a ver com a natureza e característica dos seres em causa, os ditos políticos. Foi ao ler um velho alfarrábio do meu pai, velho solicitador encartado, o Regulamento do Foro Privativo dos Indígenas em Angola, aprovado em 1939 e revisto em 1943. Acho que vem lá tudo o que é preciso para se perceber o que está agora em causa. Havia um outro velho Regulamento Provincial de 1931 que considerava indígena «o indivíduo de raça negra, ou dela descendente, que pela sua instrução e costumes, se não distinga do comum da sua raça». Os outros, eram os assimilados, equiparados a europeus. Ora uma das sujeições que sobre os indígenas recaía era a de serem julgados pelos tribunais privativos para os indígenas. Era isso o que vinha no Regulamento do Foro Privativo. É uma ideia para o problema dos políticos, até porque as situações são parecidas. Passam os políticos a indígenas, e cria-se para eles um foro especial. Aplica os seus «usos e costumes». Aí é que o problema se complica. É que em matéria de costumes, nem todos são pacíficos. Uma só coisa havia no Códigos dos Indígenas que nos envergonha hoje a nós, os civilizados europeus: é que, segundo ele, o prazo da prisão preventiva gentílica era de vinte dias, prorrogável por mais vinte. No nosso Código de Proceso Penal pode ir a quatro anos e seis meses. Civilizadamente, claro está!
1.3.06
Areias movediças
Seguramente para ajudar o turismo, o Governo disse hoje, pela boca do ministro António Costa, que o Algarve é a região onde se tem «registado maiores intensidades sísmicas em Portugal continental» [sic]. Foi a propósito de um protocolo, no quadro da protecção civil, que por lá andaram a assinar. Para dar ainda mais tranquilidade a todos os algarvios e aos turistas, a Lusa acrescentou este trecho à notícia: «A região do Algarve, localizada sobre a placa euroasiática, é considerada uma zona de características particulares, pois ao longo dos últimos séculos foi afectada por sismos que trouxeram elevadas perdas humanas e materiais, como aconteceu em 1755, com um sismo de magnitude igual a 8,5 na escala de Richter, ou em 1969 com a magnitude de 7,5». Acho que, perante isto, o Turismo Algarvio já tem lema: «Venha ao Algarve! Passe umas férias trepidantes!»
28.2.06
Jorge, obrigado!
Manuel Villaverde Cabral diz de Sampaio que deixa, na hora da despedida, «uma imagem baça, de um Presidente sem brilho». Talvez, mas já se sabia que assim seria quando o escolheram, nele votaram e andaram a apaparicá-lo muitos dos que agora dizem mal. Pois já que o homem se vai embora, haja ao menos a cortesia de uma palavra simpática. Por exemplo: Sampaio aceitou nomear Santana Lopes para primeiro-ministro, mas acabou por pô-lo na rua! De modo baço talvez, sem brilho porventura, ouvindo tudo e todos e muitas vezes, mas lá o despachou. Nisso o seu sucessor tem a vantagem de não ter um tal personagem pela frente! No mínimo, ficamos-lhe obrigados por isso. Perdoamos-te o mal que sabes pelo bem que fazes!
27.2.06
Gémeos editoriais
Com 36 milhões de macacos! Então o Código Da Vinci é um plágio? E eu a pensar que a cultura era, até agora, uma forma de, através de um escritor, um livro numa estante se juntar a outro e gerar um terceiro, numa espécie de reprodução assistida que aumentava exponencialmente a demografia editorial. O que eu não sabia é que por vezes surgiam gémeos. Iguais ou muito parecidos, pelos vistos!
Um país pouco recomendável
Há mesmo por aí a mania das estatísticas. Com Jorge Sampaio a sair de Belém houve quem se entretivesse num esforço ridículo de fazer contas, medindo a acção do Presidente pelos números em que se traduziu. Claro que lá tinham que vir as 113 visitas ao estrangeiro em contraponto com as 15o de Soares, mais as 107 idas ao Porto tripeiro e as 38 a Sintra das queijadas. Seria interessante era apurar o que se ganhou com tanta quilometragem mas, sobre isso, já nem os analistas querem saber. Mas o que é curioso é o número das condecorações. Segundo a prestimosa Lusa, «tendo condecorado 1.896 pessoas nos seus dois mandatos (deverá ainda entregar aproximadamente mais 30 comendas até 09 de Março), Sampaio fica aquém das insígnias atribuídas por Mário Soares (2.448) e Ramalho Eanes (1.952)» Com tanto comendador, é caso para dizer que o país não está mal, recomenda-se é pouco, é o que é.
26.2.06
Isto nem à chipada!
Ora aí está. Uma discoteca em Barcelona, segundo vem na imprensa, «apresentou um sistema de identificação implantado sob a pele, um chip digital que permite ao seu portador aceder ao local sem apresentar documentação e sem ter de pagar o consumo». Se a moda pega é a generalização do sistema, mesmo para os momentos mais íntimos. Já não é o legítimo cônjuge a perguntar ao outro o embaraçoso por onde é que tu andaste. É que nestes tempos de inquietação sexual, com um preservativo chipado, um cidadão nem escapa a que saiba a quantas anda e se acedeu ao local onde teria de pagar o consumo.
Os blogs do JAB: ordo ab chaos!
Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.
24.2.06
E Alegre se fez triste
Alegre anda triste, porque no PS o tratam como inimigo. Já ninguém se lembra do que fizeram a Salgado Zenha. Ele há os inimigos, os inimigos de morte, e os inimigos de partido, por esta ordem de inimizade. No PS nada como os Jorge Sampaio e os Vitorinos, que nos tempos do MES e das UEDS cobriam de insultos o PS em que acabaram por prosperar. Há no PS um milhão e duzentas mil razões para se inimizarem com ele: não é nada de pessoal, não é uma questão de honra, é só por uma questão de interesse.
23.2.06
A minoria insegura
Uma empresa seguradora anda a distribuir publicidade anunciando apólices de seguro de animais domésticos. A coisa parece-me atraente e até a mim, na minha condição de animal, me tentou a ideia, sobretudo naquela parte em que garantem, como elemento da cobertura do risco, a «publicação de anúncios em caso de desaparecimento», tal é a minha vontade de me raspar para fora do canil em que isto se transformou. Uma só faceta me deixa intrigado. É a parte do anúncio em que, num estilo convidativo, dizem: «venha conhecer as soluções à medida do seu amigo de 4 patas». Ora ante isto, o periquito da tia Vicência, a catatua da Lurdinhas, a centopeia do Zéquinha, e a jibóia da sogra do senhor Marques, quem é que os segura? Esta noite já tenho programa, estudar juridicamente esta história: isto só pode ser discriminação a favor dos de quatro patas. Compreensível, seguramente, mas inconstitucional, sem dúvida! Lá por a maioria ser quadrúpede, respeite-se o direito à diferença!
22.2.06
«Coração acordeão»
Há hoje uns maníacos das estatísticas que contribuem para a boa disposição do pessoal. Um tipo anda zangado com o mundo, ou por lhe apetecer dormir e brincar e não ter tempo, ou porque lhe apetecia ver a trabalhar os que levam a vida a brincar e a xonar. Mas chega-se a casa vê-se a imprensa e é logo um oásis de alegria. Calculem que chegaram agora à conclusão que as doenças cardíacas em Portugal custam «163,5 euros per capita». Quer dizer, por cada enfarte, por cada aneurisma, por cada trombose, em suma, por cada AVC, é mais um a meter a mão no bolso da malta! Ora o próximo mendigo que, plantado à esquina do engate caritativo, me vier, com a mão estendida e a voz tremente, com a cantiga do «apelo ao seu bom coração!» já sabe! Chamo a polícia! É que, com tanto cardíaco por aí à solta, ao menos o meu coração que resista! Se não vai tudo ao charco e lá vai mais um ser fonte de despesa para o resto dos contribuintes!
21.2.06
Ó vizinha!
Deve ser ignorância minha, mas ao ler que Portugal outorgou com a Argélia e a Tunísia um Tratado que se chamou de «Amizade, Boa Vizinhança e Cooperação» a coisa cheira assim a Aldeia da Roupa Branca. Eu sei que a nomenclatura diplomática tem as suas especificidades e a imaginação legislativa não tem limites, mas não se arranjaria melhor terminologia? Eu sei que Portugal é uma aldeia, o Mediterrâneo é um lago, e esta do «ó vizinha, acabou-se-me o gás», pelo menos em relação à nação argelina talvez faça algum sentido. Deve ser isso!
19.2.06
Smoking gun
Pensava eu que os da Grã-Bretanha tinham uma raiva contida aos da União Europeia. Só que em Londres, à espera do avião sempre atrasado, lembrei-me de trazer uma tira de cigarros, para oferecer. O pacote trazia em letras garrafais que fumar mata! Ao passar pela caixa, a menina, sorridente e eficiente, surpreendeu-me dizendo que não podia levá-los para a União Europeia. Nem para os matar a todos perguntei-me para dentro, envergonhado de lhe colocar a questão. I am afraid not responderia ela, com aquela polidez very British. Please try Zimbabwe.
18.2.06
Os Marretas
Há momentos em que ao olhar para a situação do país governamental me lembro da piada dos dois velhos sardónicos da série «The Muppet Show»: «antigamente este programa era melhor!», dizia um deles com ar convicto. «Porquê?», perguntava o outro seu companheiro de camarote. «Porque não existia!», rematava o autor da graça que, levada a sério, e pensando no desgraçado país que temos, não tem mesmo graça nenhuma!
15.2.06
De uma tal boca
Vi há bocado na televisão o Francisco Louçã a falar sobre a necessidade de haver uma política de sensatez e de prudência. Era a propósito das caricaturas. Só podia ser.
14.2.06
Um homem confiante
Diz a imprensa que o ministro do Trabalho e da Segurança Social está confiante em que inverta o actual aumento do desemprego. Só que o ministro não diz porque está confiante. Por mim, penso ter descoberto mais do que a causa do optimismo ministerial, a verdadeira razão do fenómeno do aumento de desempregados. É que o Ministério que ele por ora dirige, e que agora tem aquele nome, o do «Trabalho e da Segurança Social» já se chamou Ministério «do Emprego e da Segurança Social». Se calhar foi por causa disso. Ao terem-lhe cortado aquela parte da coisa que é o nome, deram nisto: num ministro que, por falta de instrumentos só pode estar confiante. É que eu sei que ele é ministro do Trabalho. Mas tratar de trabalhadores que não têm onde trabalhar, por estarem desempregados, essa só mesmo com muita confiança!
12.2.06
Amor cardíaco
Segundo estou a ler, agora que é domingo à noite, a Federação Mundial do Coração, depois de estudos seguramente exaustivos, estatísticas naturalmente fiáveis e inquéritos com certeza ponderados, concluiu que o coração mata mais mulheres do que qualquer outra doença. Eu, que sou por vocação um espírito que de científico pouco tenho, já havia chegado a igual conclusão, este domingo à tarde, ao continuar a ler os «Gémeos» do Mário Cláudio quando, na página 43, a propósito do Dom Francisco ele escreve: «como cresce um homem à custa dos corações que consome».
11.2.06
O pastel de nata
Tentando argumentar quanto ao que pode ser uma política comercial de sucesso, Ernâni Lopes adiantou o exemplo do pastel de nata na Ásia. Por mim, esgotadas ideias melhores, e visto que os queques não conseguiram na nossa modesta «city» levar o país financeiro a melhor, sugiro que o Governo, através do ICEP, tente agora um plano integrado em relação a outros produtos típicamente nossos, como os galos de Barcelos, os fradinhos das Caldas e o licor de porra. Duvido que haja quem consiga competir. É só ir por aí de feira em feira recolher exemplos. A coisa bem organizada ainda conseguimos entrar no G7.
10.2.06
Sampaio, inesperado
Jorge Sampaio anda pelo norte do país em digressão oficial e inesperadamente surgiu onde menos se esperava: Nelas. Explicou-se dizendo que o segeredo era para evitar conflitos. Francamente não percebo! É que quem não quer problemas, não se mete nelas.
O Carmelo fiscal
Lê-se na imprensa que o Ministério da Justiça vai instalar em Aveiro um juízo tributário, num Convento de Carmelitas. A coisa tem o seu quê de simbolicamente preocupante, pois que ele eram os Carmelitas Descalços e por este andar é assim que os contribuintes por ali andam.
As escutas e o varejo
A imprensa vai dando conta: meses a fio de escutas telefónicas, milhares de horas de escutas telefónicas, tudo legal, tudo judicial, tudo quanto a um meio de prova que a lei disse ser excepcional. No antigo Direito havia a devassa geral, no Direito Administrativo sobeja a sindicância. São formas de varejar de alto a baixo, aqui as repartições públicas, ali a vida privada de um cidadão. A ideia tem reminiscências inquistoriais. Também nos tempos da Congregação para a Polícia da Fé, a pretexto de um pecado, queria-se apanhar sempre toda uma heresia. Leio isto e leio também que a Sonae pretende comprar a PT. Acho isto tudo um ilogismo. É que com esta quantidade de escutas aos telefones, ao engenheiro Belmiro de Azevedo ficava-lhe mais barato lançar uma OPA sobre a PJ: mais dia menos dia apanhava o sistema telefónico todo.
9.2.06
7.2.06
E eu para aqui neste Estado!
Eu penso que o povo não aguenta. Primeiro foi o quererem os políticos mais próximos dos cidadãos. Agora é Jorge Sampaio a querer a Administração Pública mais perto dos mesmos infelizes cidadãos. Se isto tudo passar das palavras às intenções e destas aos actos, a vida torna-se um inferno. Um tipo acorda de manhã, ainda meio alquebrado de uma noite curta, e cruza-se, a caminho dos lavabos, com o seu eleito local, que lhe veio desejar bom dia e perguntar, pressuroso, se ele precisa de alguma coisa. À saída do duche, ainda meio húmido, eis o técnico camarário das águas e efluentes a perguntar se o banho estava quentinho e o jacto em boa pressão. Ao chegar ao café, por lá já anda, antes das oito da matina, o fiscal dos géneros alimentícios, ou como é que agora se chama, em cima dos pastéis de massa tenra da véspera. Na carreira 28, se não for com os funcionários do seu bairro fiscal ao colo, leva com os dos serviços municipalizados empastelados na hora de ponta. Enfim é o cerco total. Com o Estado às costas, a Administração central e a descentralizada às canelas, a local e a regional à ilharga, os institutos públicos à garupa, os serviços autónomos filados nos gargomilos, o pobre cidadão, ratando uma hora de almoço para uns rápidos amores clandestinos e venais, descobre, na enxerga manhosa da feia pensão do despacha-te e anda, que os braços acolhedores pelos quais tanto sonhara, em devaneios clandestinos e sonhos proibidos, são de alguém que, ciciante, lhe murmura ao ouvido a palavra que lhe solta a animalidade feroz da loucura final e homicida: filho, desculpa, agora é o preço do serviço e mais IVA, sabes com é, o Estado não perdoa.
Uma questão de corte
Só 33% dos portugueses mostra desejos de poupar, segundo um desses estudos sobre os nossos hábitos que de quando em vez são notícia. Na lógica dos números o que se conclui é que os outros querem lá saber. Hoje de manhã, ainda não eram oito horas, cortava eu o cabelo a uma hora matutina, no pouco tempo de que disponho para cortar o pouco cabelo que me resta, ouvi o presidente de um banco dizer que os lucros da banca se devem aos altos padrões de qualidade e organização da mesma. Hoje à noite, já de cabelo cortado, ao ver estes 67% que só pensam em gastar, começo a duvidar se a riqueza bancária não decorre da pobreza de muitos dos seus clientes, pobreza mental sobretudo, daqueles para quem, enquanto houver, que vá! Muitos terminam como eu, completamente rapados!
5.2.06
A justiça do Cabeção
Eu sei que há em todos os ministros da Justiça aquela ideia de canalizador, a de desentupir os tribunais. Mas foi no Cabeção, onde se come, aliás, prodigiosamente, que eu vi que há uma outra profissão que pode dar uma ajuda ao sistema. Um tipo de uma vulcanizadora local afixou papel no restaurante da terra, a avisar os caloteiros que, ou pagavam até certo dia, ou afixava a lista dos devedores. Ora assim é que é. Se o ministro da Justiça passa por ali, e é colhido pela ideia, ainda adita, em rectificação ao Diário da República, mais uma medida de simplificação para a justiça cível: melhor que a acção sumaríssima, ou a injunção, só mesmo a lista dos cães. É só ir ao Cabeção: remendam-se os furos nos tribunais e ainda se come sopa de pombo. De chorar por mais.
4.2.06
A grande ronda!
Agora, até já é no PSD que muitos activistas do sindicalismo judiciário, vêem alguma esperança ante o que temem que lhes faça o PS. Como tudo muda neste mundo! Marques Mendes começa a ronda já na próxima semana!
3.2.06
Dois em cinco
Reza o DN de hoje que «a produtividade da indústria portuguesa é de longe a mais baixa da União Europeia a 15, estando reduzida a cerca de metade da registada no país europeu mais próximo, a Grécia, e a quase um terço da Espanha».
Uma pessoa lê isto logo pela manhã e começa o dia desanimado, façanhudo, sem vontade sequer de ir trabalhar.
Mas o jornal da Avenida da Liberdade não se fica por aqui e dá aos portugueses um pouco de ânimo, acrescentando, em nome do rigor e de uma visão rósea do mundo: «no entanto, ainda há motivos para esperança, uma vez que as causas para o atraso português estão concentradas em apenas dois dos cinco factores utilizados para calcular a produtividade industrial dos países».
Ora ao ler este parágrafo, eu pessimista congénito, atirei-me, ávido, ao resto da prosa, sobretudo na ânsia de saber o que nos falta, mormente quais os dois que nós não temos e aos outros sobram.
Esforço compensado, vem lá explicado! É que, continua o DN «ao nível do capital humano e da capacidade de gestão, Portugal está em grande desvantagem».
Ora aí está, qual desapontada mulher na cama para o marido embaraçado: filho tens tudo o que precisas, faltam-te só são aqueles dois. E sem esses, compreende-se, amor, que estejas em baixa.
2.2.06
O perigosíssimo trique-trique
Uma revista de hoje vem dizer que na Presidência do Conselho está montado um perigoso sistema ilegal de informações, tudo na dependência directa do primeiro-ministro. Clandestino não será, pois lendo a revista, sabe-se onde fica, quem o dirige e até quem serve tal serviço. A coisa vem embalada com um alerta vermelho aos direitos liberdades e garantias. Oxalá não seja um grupinho a recortar jornais e a coleccionar fofocas! Há políticos que adoram isto, saber o que se diz e o que consta. Cuidado, porém! É que se for eficiente, o servicinho tem os dias contados. É que há coisas que é melhor não se saberem.
31.1.06
Comida para cão
Diz a imprensa que uma empresa da Neozelândia deu comida para cão às crianças esfaimadas do Quénia. Quando eu era miúdo era parecido, chamavam-lhe «sopa de urso». Era o que estes tipos dos antípodas precisavam: uma boa sopa de urso! Daquela de criar bicho!
30.1.06
Golpe de mão
Silvio Berlusconi, num acto inusitado, prometeu abstinência sexual até às próximas eleições. Os fornicados eleitores agradecem. Neste homem tudo é invulgar. Primeiro foi uma prótese, agora é uma função, aquela para aumentar pêlo, esta de arrepiar cabelo.
29.1.06
Gelados de tanta novidade!
Não é propriamente o ter nevado em Lisboa que impresiona, é sim o ter sucedido uma coisa que já não acontecia há cinquenta e dois anos! Num país em que parece estarmos sempre na mesma, eis a diferença, vinda dos céus, num toca toca levemente, que gente não é certamente! Só espero é que amanhã os analistas políticos não venham dizer que este retorno a 1954 é um sinal político do cavaquismo e por causa dele. Já se viram ilações mais arrepiantes!
28.1.06
O obrar comunitário
O primeiro-ministro anunciou com ênfase que vamos ter um conselheiro técnico na REPER para travar a «fúria regulamentadora» da União Europeia. Ora eu que, talvez por ter nascido em África, sou um europeu à força, não desdenho de dar um contributo cívico para tal iniciativa meritória, sugerindo um nome para o cargo: assim como havia o senhor PESC, este pode ser «o senhor Imodium».
Um cheiro a pó e a sociedade
Hoje andei de volta de livros velhos. Trago ainda o entranhado do pó dentro da cabeça. Mas há aqueles momentos em que, no meio daquilo que a rataria adoraria devorar, nos encontramos connosco próprios. Aconteceu hoje, sábado, ao fim da tarde. Era uma edição, agora patrocinada pelo João Gaspar Simões, do «Nome de Guerra», o livro que o José de Almada Negreiros escreveu em 1925. Estava ali, como epígrafe do segundo capítulo, o ideário político que se me torna lógico e aceitável nesta fase meio anarquista da minha vida: «a sociedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um». É assim que penso e que gostava de viver, em sociedade.
Quando o triste casamento dá em gay
Fenómeno do nosso tempo, a instituição casamento, que tantos heterosexuais desprezam e outros dispensam, está a ser recuperada, como uma exigência, pelos homosexuais. Aquilo que era, reportado àqueles, como um sinal de conservadorismo mental, é agora, ao falar-se destes, uma causa revolucionária. Não está em causa o viverem ou dormirem uns com os outros, que o Direito não proíbe, o que é curioso é quererem que o Direito venha a ditar as suas sentenças sobre isso mesmo. É estranho, mas talvez se compreenda. Como eu ouvia dizer em miúdo, quando não queria comer a sopa, aquilo que uns não querem, estão muitos desejando.
27.1.06
A caixa de bonecos
Há no paleio político nacional, os fala-baratos, os que têem todos os dias imensas opiniões sobre todas as coisas, por mais técnicas que sejam; há os fala-só, aqueles que ninguém ouve, falem ou não muito, seja sobre o que for. Muitos desses, dos dois grupos, têm lugar cativo e remunerado na imprensa. Mas o que há, do ponto de vista do falatório nacional, como seu fenómeno mais expressivo, é o ventriloquismo: são os portugueses comuns que falam gratuitamente através dos outros. Na aparência estão mudos, não por nada terem para dizer, mas só porque o auditório gosta mais dos bonecos que falam como se fossem eles. Nesse aspecto os da contra-informação são apenas os menos ridículos.
O calote como uma das belas artes
Li no «Açoriano Oriental» que o Presidente do Governo Regional dali se saíu com esta: «o endividamento da região constitui um "instrumento ao serviço do desenvolvimento" das ilhas». Ora aí está como é bom ser-se autonomista à conta do dinheiro dos outros!
26.1.06
Ai filha!
«Falta à verdade quem disser que esta proposta é filha da conjuntura», disse o minstro da Justiça a propósito da Lei chamada da Política Criminal. Filha da conjuntura! Haja maneiras! Por acaso já lhe tinha ouvido chamar outros nomes, mas esse ainda não!
A comunhão sexual
Diz o Papa, se o citam bem, que «só na comunhão com o outro sexo» o homem poderá tornar-se «completo». Há nisto uma notável contradição. Religião de sacerdotes celibatários, a católica é, assim, pastoreada por homens defectivos, que falam, amputados, do que não sabem, pois que, incompletos, falta-lhes o que há para viver. Ratzinger vem da Congregação para a Polícia da Fé. Talvez por isso se permita estas liberdades de estilo, que a outros custariam a fogueira da heresia.
25.1.06
Prostituição: les jeux sont faits
Houve um blog que, argumentamente, reconheceu que «a questão da legalização da prostituição está "em cima da mesa"». Pois está. Houve um ex-presidente de Câmara, socialista, que já a quis em Cascais. Há rapazes que se dizem da JS também vão nessa. Com os milhões que move esse mercado de carne, ainda acaba tudo em cima da mesa sim, mas da de jogo, o da política e dos negócios.
Um corredor de fundo
Vi que há um Muhamad Yunus, banqueiro bengali, que diz que o direito ao crédito devia estar inscrito na Carta dos Direitos Fundamentais. Eu também acho. Um tipo ter como direito individual, a liberdade de endrominar, a garantia de que não lhe sucede nada com isso e o crédito de que todos o acham verdadeiro, é meio caminho para a felicidade terrena, sobretudo quando nos perguntam, sem resposta fácil, o «por onde é que andaste, para chegares a estas horas». Bem trabalhado o conceito, talvez a dogmática religiosa lhe desse uns adjuvantes teológicos e eu conseguisse ainda um lugar no paraíso, depois desta terra que está um inferno. No fundo, crédito por crédito, ainda creio na Virgem Maria, apesar de me fartar de correr.
23.1.06
O deserdado
«Foge de casa e deixa a herança». Era mais ou menos isto que estava escrito hoje numa parede da Avenida de Berna. Ante o resultado das eleições de domingo, fiquei com a ideia de que foi José Sócrates quem andou a pinchar aquele dito, lembrando-se, amargo, do PS a que pertence e da herança que ali lhe deixaram Mário Soares e Manuel Alegre.
22.1.06
O dia das indulgências
Hoje é dia de São Voto. Pelo país, as Igrejas de tal devoção enchem-se de fiéis. Claro que são de múltiplas confissões, mas todos de uma mesma religião, pois acreditam num mesmo dogma. No dia seguinte, quais ímpios descarados, renegam logo o Deus que levaram ao altar. A religiosidade dos portugueses é assim este paganismo cívico: arrumado o andor, despachados os anjinhos, acaba tudo na taberna, entre copos de três e bisca lambida. Nisso, nem os sacristães se fazem rogados: salta meia de tinto para a mesa do fundo!
21.1.06
Oculto
Nos últimos dias não tenho escrito, não é porque não me apeteça! É só porque não tenho estado cá, nada mais.
20.1.06
À boca da urna
Perguntei-me se eu deveria dizer aqui em quem vou votar no proximo domingo. Acho que não devo dizê-lo. Fazê-lo, seria como se a minha opinião pudesse ter importância suficiente para convencer outros. Já houve tempos em que pensei que assim era. Hoje tenho a certeza que não é. Votem bem, votem em consciência.Eu vou tentar.
17.1.06
E não se poderá carregar no off?
Em «off» diz-se que um senhor vai dizer em «on» uma coisa que não era, afinal, aquela que ele iria dizer, em «on», quando tinham dito em «off» que ele ia falar em «on». Este é o estado actual da minha actual informação sobre o assunto. E não me obriguem a repetir, pois não sou capaz.
16.1.06
A longa bicha para Belém
Rogério Alves diz que admite concorrer a Belém daqui a dez anos. Eu já suspeitava que por detrás daquele afã pedagógico estava uma ambição. Não a sonhava era tão desmedida. O meu próximo Bastonário haverá de ser aquele que escreva num papel um «declaro por minha honra estar aqui só por causa dos advogados e não por causa da minha pessoa». É que fartos dos que fazem dos lugares públicos um trampolim estamos nós e muito. Que a Ordem seja uma prancha de saltos, está à vista, e nós vítimas dessas pranchadas!
Souto Moura: esperançado e contristado
Quando escrevi aqui sobre o PGR ir à AR, houve uma alma cândida que me disse que eu não tinha razão porque os senhores deputados o que queriam era só falar com ele sobre a Justiça em geral e não sobre um determinado processo em particular. Agora que Souto Moura pediu um adiamento até sexta-feira e o PS veio mostrar desagrado, até ele entende o que o espera: sabendo que vai ser chamado à pedra, quer levar o TPC feito, neste caso o inquérito sobre as listas de telefonemas. No meio disto tudo, talvez ele ainda acredite, esperançado, que o mantenham no lugar e nele queira ficar, contristado, a qualquer preço. Souto disse uma vez que «foi nomeado pelo PS». Um procurador que pensa assim, só pode viver infeliz.
15.1.06
Um homem só
Demitirem agora ou não o PGR, é coisa que só interessa aos políticos e à política, porque demitido está ele, de funções, de convicção, de credibilidade. Reina sim, sozinho e num palácio vazio, à espera de que acabe, enfim, o pesadelo do seu mandato. Os seus assassinos não tiveram que sujar as mãos, ele suicidou-se.
O patético calvário
Há no condenado a caminho do patíbulo a ideia ingénua de que a sua morte vai ser um exemplo. Os carrascos gostam disto. Antes imolar um cordeiro pascal do que um bode expiatório. Para onde não chegar o motivo, basta o pretexto. Na corte dos grandes, reina já a febre da sucessão, nas hordas dos pequenos, o medo do sucessor.
14.1.06
Operação Excel
A operação pela qual se conseguirá, enfim, o descrédito definitivo do Ministério Público e o fundamento para a substituição do Procurador Geral foi conduzida com mestria. A meio da manhã era um monumental e gravíssimo escândalo de escutas telefónicas a altas figuras do Estado, ao começo da noite era já só um raquítico lapso de um funcionário da PT. A noite permitiu, porém, corrigr a manobra: pela hora do jantar já se sabia onde tudo iria parar: se a culpa parecia ser, afinal, a dos procuradores que não sabiam ver coisas escondidas em CD's, o objectivo, que não podia perder-se era o PGR, sem perdão, ter de ir à mesma para a rua, e já! Estão de parabéns todos os que contribuiram para o efeito! O resultado está alcançado! Julgo saber que os magistrados vão deixar de ter um magistrado como PGR. Um novo mundo se aproxima. O Dr. Souto Moura é um homem bom e sério. Mas como tudo isso se tornou ridiculamente irrelevante no país em que vivemos e para o cargo em que ainda está!.
13.1.06
Carteiristas e cavaquistas
Valha-nos São Gonçalo de Amarante! Então não é que a GNR das terras de Pascoaes e Amadeo deu conta de que a comitiva de Aníbal Cavaco Silva era seguida, não por infiltrados das candidaturas rivais, mas sim por carteiristas! Seguidores do «mão leve», esses amigos do alheio aproveitavam o ajuntamento para, no meio da confusão, abafarem umas carteiritas, aliviando quem as tinha da sua posse. Só numa faceta política a coisa tem interesse. É que esses rapinantes se há coisa que têm é faro. E, se não se provar que andam, qual matilha predadora, atrás de outras candidaturas, então é porque Cavaco tem sobre todos os outros candidatos uma grande e ímpar vantagem, a de ser apoiado por gente com massa! E dinheiro gera dinheiro, dirão os seus apoiantes e os seus críticos, vendo nisso um augúrio significativo e assaz interessante.
11.1.06
O País, a Nação, a Pátria, o Estado e o Governo
Fiquei impressionado e já digo com o quê. O «Diário Digital» de hoje, lido há momentos noticia que «a dívida directa do Estado no final de 2005 atingiu o valor de 101,7 mil milhões de euros, mais 12,1% que um ano antes». Curiosamente no ambiente de descalabro disfarçado em que andamos, não foi a notícia que me impressionou, apesar de ela prenunciar o pior das expectativas para os que ainda se preocupam. Não! O que me causou viva reacção foi a notícia vir ilustrada, se calhar à falta de melhor «boneco» com a bandeira nacional. E saibam porquê: porque de repente me passou pela cabeça que essa dívida do Estado, causada pelos seus Governos, não é uma dívida de Portugal. Mais, que ante a gestão que o Governo faz do País, é tempo de a Nação se recusar, em nome da Pátria, a assumir essa dívida do Estado como uma dívida sua. O que me passou pela cabeça, ante tudo isto que nos envergonha, é, enfim, que o Estado são eles, este Estado não somos nós!
10.1.06
Portugal na banca-rota
«O ministro das Finanças afirmou ontem que daqui a 10 anos o Estado não terá dinheiro para pagar reformas». Um político que diz isto, espalhando o pânico entre os trabalhadores votantes, é um inábil. Um Ministro que diz isto, lançando a desconfiança sobre o Governo a que pertence, devia ser demitido. Um Ministro das Finanças que assim se revela tão superficial, é um irresponsável. E, no entanto, tudo sucede porque o autor da proeza resolveu alinhar na facilidade de ir à TV alinhar naqueles debates em que nada se esclarece. Entre bocas e apartes saíu-lhe esta. Agora venha explicar que a verdade é mais complexa e que não é bem assim. Está feito o mal!
9.1.06
Um ligeiro tremor
O sismo anda por aí. Lisboa é uma zona de grave perigo. Se bater forte, acabou muita coisa, mesmo muito do que consideramos vital. É esta a força da Natureza, o tornar pequeno o que parece grande, inútil o que ontem parecia essencial. Por enquanto foi só 5,1 na escala de Richter, com epicentro a 450 quilómetros a oeste do cabo de São Vicente. Uma noite destas, com a maioria a dormir, pode suceder uma desgraça: Portugal talvez tenha salvação, reconstruindo-se do zero. Até lá, que descansem em paz, amén!
8.1.06
A taberna pública
«A poesia é o poder», proclamou hoje Manuel Alegre num sua sessão de propaganda. Claro que é o poder de fascinar, e Alegre seduz cantando ditirâmbicamente a pátria triste que é a nossa, a dos sonetos do obscuro quê. Claro que é o poder de mobilizar e Alegre clama, como se em verso heróico, o canto e as armas, o da resistência e da insubmissão. Mas Alegre, Manuel Alegre, Manuel de Melo Duarte Alegre, é agora pouco poeta e muito candidato, ele é o cidadão da política para a política, que nos fala por causa da política. E nada há de mais prosaico do que a política. Deixemos pois a poesia, a decência da poesia, não a tragam, de roldão descomposta, para a taberna pública dos jogos de poder.
7.1.06
«Au suivant»
O novo «Expresso» mete foto de Soares com ar de desespero na primeira página e amparado, qual velhinho cambaleante, na página nove, a sair de um comboio. É isto a informação de referência! Soares queixa-se. Agora chegou a vez dele. Na família Soares devem dizer-se boas sobre Henrique Monteiro, o que ontem era para eles, carinhosamente, o Henriquinho. Só que os tempos mudaram. Delicadeza é coisa que não há. Soares já não se usa, joga-se fora.
MRPFreitas
Garcia Pereira diz que avançou para candidato porque Freitas do Amaral não concorreu. Uma pessoa lê uma coisa destas e deveria ficar meio atordoada de espanto. Já houve tempos em que o «Luta Popular» clamava por um «justo correctivo da ira popular»! Ou dizendo, de maneira mais clara, uma grande enxerto de porrada! Nas urnas, naturalmente.
5.1.06
Mostra, mostra, mostra!
Mário Soares diz que revela quem são os financiadores da sua campanha se Cavaco Silva o revelar primeiro. Tudo isto tem um ar de despique juvenil do eu mostro o meu se tu me mostrares primeiro o teu. Com uma agravante é que em matéria de financiamentos de campanhas é melhor estarem todos calados: não se fala de corda em casa de enforcado.
4.1.06
Os discriminados
Ri-me para dentro ao ver o que se anda a dizer a propósito da discriminação pela comunicação social de alguns dos candidatos à Presidência . Entre as várias aventuras que vivi, uma foi a de concorrer, há uns anos, como candidato independente nas listas do PSD à Câmara Municipal de Sintra. Devo ao Marcelo Rebelo de Sousa essa invulgar ideia e ao José Pacheco Pereira o ter-me convencido que eu tinha que aquilatar assim o meu valor em termos democráticos. Nessas eleições a então presidente, Dra. Edite Estrela, averbou uma maioria absoluta, evidência do seu grande valor e eu uma derrota consequente e demonstrativa da minha nula valia, em termos democráticos, claro está. O a-propósito vem agora: a SIC, a tal que está agora em causa, que nunca se dignou dar-me tempo de antena, mas que sempre arranjou modo e maneira de divulgar a presidente-candidata, na noite das eleições, logo após o anúncio dos resultados encontrou forma de instalar, na Rádio Marconi em Sintra, uma câmara de televisão para eu ir lá dizer ao país o meu discurso de derrota. Fui! Sozinho, claro, pois ninguém de entre os que eu julgava companheiros e amigos quis ir comigo. Disse então, nuns beves segundos, que naquela noite, se eu tivesse ganho, tinha ganho o PSD, como perdi, perdi eu. E disse mais que quem perde não julga e eu tinha perdido. Desculpem esta memória pessoal, foi só por ter visto o Dr. Soares a falar em discriminação pela comunicação social. Lembrei-me! Aliás com essa campanha eleitoral aprendi muito! Um dia a gente conversa, quando não houver mais que fazer. Um Bom Ano para todos!
3.1.06
O São Martinho judiciário
Segundo o Ministério da Justiça, a operação de equipamento dos tribunais com novos computadores «só foi possível devido a um esforço de contenção orçamental, em especial ao nível das despesas dos gabinetes dos membros do Governo». Ora aí está! Tal como São Martinho, o Ministro divide a capa, a meio, com os pobres dos tribunais.Oxalá se não rasgue, em farrapos.
2.1.06
É caso para dizer: fogo!
Esta coisa de o gás sem o qual há quem não coma comida cozinhada, vir em 40% ali da Argélia e o resto ali mais abaixo da Nigéria e esta coisa da Argélia e a Nigéria serem tudo menos lugares quietos e tranquilos às vezes dá em problema: sobretudo quando os jornais dizem que o corte do gás russo, esse, não nos afecta. Claro que pior que isso é o aumento do preço da electricidade e ele há fogões eléctricos! Por isso, no próximo fim de semana, é encher a mala do carro com pinhas, caruma e mesmo bolota.Em caso de emergência, fogo, que eles ardem!
1.1.06
O primeiro dia
Este dia um, tem para os pagadores de promessas o grave inconveniente de ser o dia de se acordar tarde. Para os que juraram virar a vida do avesso, a coisa começa logo mal. Só estão refastelados aqueles para quem o próximo ano será, enfim, um ano em que tratarão de si. Esses, entre lençóis, apercebem-se de que estamos em Janeiro, por estar frio. E deixam-se ficar, no choco da cama, à espera dos apelos da Natureza. A sua primeira obrigação será a do imperativo chichi matinal, depois segue-se o dever do exigível pequeno-almoço. Entretanto chega o meio-dia, e com ele, a necessidade do almoço e talvez uma sesta, merecida e reparadora. O dia dois, esse, é já amanhã, e com ele o dia igual de um mundo parecido.
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