Segundo li aqui «os fumadores de cachimbo que inalam vivem tanto como os não fumadores e os que não inalam vivem mais que os não fumadores». E eu, que sendo fumador ocasional de cachimbo, que agora estou na dúvida, pois não me lembro se inalo ou se não inalo! É o que se chama uma questão de vida ou de morte.
28.8.06
Veiga de Oliveira
Soube agora que morreu Álvaro Veiga de Oliveira. Há sempre algo de trágico na naturalidade que é a morte. No caso foi ter lido que se soube hoje ter ele morrido quinta-feira, com tudo o que isso significa de nos apercebermos do que, afinal, inexoravelmente já passsou. Conheci-o, superficialmente embora, era ele ministro do VI Governo Provisório, dirigido pelo destemido Almirante Pinheiro de Azevedo, era eu um jovem rapaz, secretário por isso daqueles tumultuosos Conselhos de Ministros, que se repetiam às vezes várias vezes por semana e sempre até altas horas da madrugada. Tempos complicados, cheios de histórias fantásticas, de um Governo em que ele era o único comunista e o Magalhães Mota o único PPD. Tudo o mais militares e socialistas. Lembro-me dele, ajoujado com volumosos dossiers, a ter de intervir em todos os assuntos, para dar voz ao seu partido, enciclopédia ambulante, aflito às vezes a pedir um minuto para poder consultar um documento ou outro que algum adjunto lhe preparara, para poder votar sim ou não. E lembro-me da sua simpática figura, de pé já, dedo no ar, tentando captar a atenção do gesticulante Primeiro-Ministro, figura ímpar para aqueles tempos loucos que se viviam. Claro que a sua baixa estatura e o estilo vociferante do Almirante faziam com que nem sequer fosse notado. Uma vez, desesperado, assobiou! Parou o Conselho de Ministros. Eu não parei de tirar as minhas notas. O diálogo é extraordinário: «O que é, ó Veiga?», lançou-lhe, num intervalo, Pinheiro de Azevedo. «É um xixi, senhor Primeiro-Ministro!». «E é preciso, licença, homem?». «Licença não é o caso, mas é que nas minhas costas, no tempo de um xixi, os senhores zumba, aprovam mais um decreto!». E aprovavam mesmo!
27.8.06
Crise de crescimento
Houve um tempo, o do estoicismo, de se guardarem, como sendo da vida íntima, as doenças graves e os problemas familiares. Hoje, pelo contrário, sabe-se pela imprensa quem tem cancro na próstata ou doença séria na coluna. Sabe-se, pela boca dos próprios, assim como se sabe porque é que aquela abortou, com quem é que aquele anda a dormir, ou as fantasias eróticas de muitos casais do jet set. Tudo isto, num mundo que anda com as partes ao léu, é para ser levado com muita ironia. Comprei hoje o Expresso de ontem e acho que ainda cheguei a tempo. Lá vinha uma frase, que terá saído há uns dias na revista Visão, atribuída a Mário Assis Ferreira, administrador do Casino do Estoril, no qual o chinês Stanley Ho tem interesses de vulto. Contava o dito Mário como é que, saído do Hospital, com uma cicatriz de oito centímetros, fez uma viagem de avião a Hong Kong, para se encontrar com o referido Ho e como é que, ao voltar, a cicatriz tinha mais dois centímetros. Desculpe-me o próprio mas ri-me a bom rir. Talvez por ter sempre a cabeça cheia de segundas intenções, lembrei-me da biografia da outra que contava como é que a do outro, na hora da cama, se lhe encolheu, por duas vezes, deixando-a à míngua e ele a falar sem parar do assunto.
26.8.06
A insatisfação itinerante
Chega-se, de malas na mãos, ainda turista na própria terra. O ar parece leve, as ruas limpas, tudo sossegado, em pequenino. Amanhã talvez comece o sentimento de exilado, a alteridade, o sentir-se um homem hóspede em casa alheia. Depois, com o passar das semanas, surgirá o desejo de emigrar. É assim esta insatisfação itinerante do português. Sinto-me um deles. Não nasci aqui, mas é aqui que me sinto em casa. Numa rua qualquer de uma longínqua cidade russa, cruzei-me com um desses portugueses errantes, para quem eu, anónimo na multidão, mereci um «ora viva, então por aqui!» esfusiante, como se nos cruzássemos, num sábado de manhã, ao acaso, numa rua de Campo de Ourique. Tinha vindo de mota. Faz-se bem, explicou-me. Muito bem mesmo, calculei, sobretudo para quem tem como limite o canto da Europa e como alternativa o atirar-se ao mar.
20.8.06
Cidadania
Longe, muito longe, em terra estranha, posso pela Net saber o que se passa no Governo e no que deles dependem. Prefiro saber como andam os meus filhos. Digam-se ser a rebeldia da cidadania. Tanto me faz. Continuo a perguntar ao Hugo se deixou o caixote do lixo e a roupa para lavar. O mais, a esta escala perde por completo interesse.
15.8.06
Atrás do sol posto
Eu ontem acho que coloquei sem querer um clássico problema da sociedade portuguesa que é o saber se o público funciona melhor do que o privado. Há sobre o assunto uma discussão ideológica. Mas há depois o critério prático. Os que têem dinheiro, em regra, preferem os colégios particulares, os hospitais privados, os seguros de saúde, os advogados em profissão liberal. Se o sistema público de educação, de saúde e de defesa oficiosa são excelentes, a verdade é que a maioria dos que podem finaceiramente não os querem. Depois, um leitor amável, colocou um outro problema, o de se ter sorte ou azar no atendimento, a diferença entre o ser um zé-ninguém ou uma cara conhecida. Há ainda um outro que é o ser-se de qualquer coisa, a pertença a um mesmo clube, ou da mesma terrinha. Ante o burocrata façanhudo e resmungão, o descobrir-se que afinal o mal tratado utente é da mesma aldeia é logo uma radical viragem no modo de tratar. Isto para não falar de ser-se da mesma agremiação. O complexo de inferioridade do português leva-o a ser deferente com os poderosos que, no fundo, inveja. A sua ruralidade ancestral leva-o a defender a sua courela e os que de lá vieram, por raiva aos que de lá não são.
Os hospitais públicos.
Com oitenta e três anos de idade, caíu em plena rua. Foi levada ao Hospital Amadora Sintra. Mandaram-na embora, porque não era nada. Por insistência do posto médico de Sintra, onde foi, por não aguentar as dores, voltou ao mesmo Hospital. Descobriram, enfim, que afinal tinha o braço visivelmente fracturado. Em Novembro do ano passado tinha-lhe acontecido o mesmo: caíra em plena rua, porque está a perder a visão. Foi também ao Hospital Amadora Sintra, por ser o da área da sua residência, o hospital obrigatório. Por causa do que então lhe sucedeu, escrevi isto. Não o disse então, para não parecer que uso os blogs em benefício próprio, como vejo tantos fazerem sem pudor. Digo-o agora, por não poder conter mais a raiva: é a minha mãe. Felizmente o filho levou-a da outra vez e desta vez a um Hospital Privado. O filho tem dinheiro, o filho é conhecido, a mãe foi por isso enfim bem-tratada e isto é um país de merda! Ai dos desgraçados!
12.8.06
Compre um saco, oferecemos o jornal
Eu sinto que o «Expresso» anda angustiado por causa do «Sol». Eu também, mas por causa do sol dardejante deste Verão. Mas este sábado o «Expresso» foi notícia aqui na praia. Devido a um erro da distribuidora, tinham vindo sacos de plástico a menos para os jornais que foram entregues. Foi o desapontamento geral. Entre o macambúzio velhote magriçela de desencanto, a perguntar-se silencioso com que é que ia forrar logo o caixote do lixo lá de casa, à anafada senhora, de cesta lancheira num braço, mala frigorífica noutro, a bolsa dos cremes ao pescoço apoiada no farto seio, o guarda-sol de praia filado nos dentes, a deixar cair suplementos, encartes, desdobráveis e tarjetas, havia de tudo. «Se é assim, compro noutro lado!», ameaçou uma loira postiça, com refegos nas pernas e cãozinho à ilharga. Acho que o povo tem razão. Isto quanto ao «Expresso» já não há saco que aguente.
Bifes mal passados
Os ingleses, os da nossa mais velha aliada, não perdem oportunidade, sobretudo no Verão de emporcalharem o turismo algarvio, para onde viajam aos magotes, muitos para sairem daqui que nem lagostins, empanturrados de cerveja. Em tempos eram os esquentadores que explodiam. Agora é um estudo segundo o qual os condutores britânicos correm em Portugl três vezes mais riscos de um acidente fatal do que no seu próprio país. Quem quiser ler mais, veja aqui. Eu li e dei comigo a pensar os nossos emigrantes tugas em Inglaterra terão três vezes mais oportunidades de atropelar bifes do que aqui. Por isso, ó aceleras, toca para o Reino Unido. Mas atenção, convém guiar pela direita. Apanham-se mais e mais facilmente. Desde a trôpega lady, á ginasticada miss, passando pelo ataviado lorde e o tatuado hooligan, é caçada grossa. Pior que o pára-brisas numa viagem Lisboa/Algarve: uma mortandade de insectos!
Cuidado com os chatos!
Li para aí que a polícia vai passar a ter equipamentos para vigiar as conversas no «chat». Primeiro, foi o abrir cartas, depois escutar telefones, logo a seguir telemóveis, os faxes, depois enfim os emails. Agora são os «chats». Um cidadão já não sabe onde haverá de falar sem ser ouvido. Qualquer dia, em plena alcova amorosa, enlaçados no auge do escaldante momento, um dos parceiros diz ao outro, ciciando-lhe, desconfiado, quebrado o ímpeto pelo ciúme: «parece-me, filha, que está alguém debaixo da cama». Ouvirá, tranquilizante, como se numa carícia a animá-lo: «deixa lá meu anjo deve ser algum chui».
A nódoa
Afinal o escritor Günter Grass foi membro das SS nazis. Achou que agora é que era a altura de o confessar, depois de ter sacado, convenientemente calado, o prémio Nobel da Literatura. Claro que é uma questão de falta de vergonha e de imoralidade. Numa entrevista em que confessa o que diz ser uma «nódoa» na sua vida, diz que esse seu silêncio «sempre o atormentou». Leio isto e acho que o homem, que tem casa por Almancil, está equivocado: a nódoa não é ter pertencido às SS, a nódoa é todos os que o sabiam terem fingido que isso nunca tinha acontecido.
7.8.06
A extrema unção
Nada como o Verão para a libido noticiosa se soltar. Pelo que se lê na imprensa, os portugueses não passaram a copular menos depressa, o país é que passou a ser penetrado mais facilmente. Eis o que se retira desta notícia: «a população portuguesa ascendia a 10.569.592 indivíduos no final do ano passado, um acréscimo de 40.337 pessoas face ao ano anterior, indicam os dados divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Este valor significa que, a cada 13 minutos no ano passado, o País ganhou um novo residente. Ainda assim, o crescimento populacional diminuiu face a 2004. Em 2004, a população portuguesa registou um incremento de 60.895 indivíduos, o equivalente a um novo português a cada oito minutos e 42 segundos». É que do que se trata não é de mais gente feita cá, mas sim de mais gente que cá entrou. Entram e pelos vistos suavemente, que nem se dá conta, com vontade e seguramente com unção.
6.8.06
Fumos comunitários
Ao que leio, do Direito Europeu resulta que uma empresa que recuse a contratar um trabalhador fumador não viola as normas comunitárias. Se o sistema é assim, as fábricas de tabaco, a entrarem no sistema, deviam ficar como as fábricas de armamento: manufacturam produtos que servem para matar os outros, e não seria de bom tom que a matança começasse logo portas adentro! Mas acho que não vai ser assim. Qualquer dia os burocrats europeus inventam outra e afixa-se necrologicamente nas tabaqueiras: «fumar mata e aqui vende-se a morte»
5.8.06
Cães à solta
O Fisco decidiu afixar a lista dos devedores, o Tribunal de Contas afixará a dos credores. Penso que o objectivo é envergonhar quem deve. A coisa terá resultado. Pelos vistos o calote passou a ser mal visto. A ideia das listas começou na Avenida Defensores de Chaves. Cansados de esperar que as autoridades evitassem que as pequenas da vida aviassem os clientes dentro dos carros, ali mesmo em plena rua, ameaçaram, com uma faixa a avisar, que iam publicar na internet a matrícula dos carros. Foi dito e feito. Não mudou o negócio, mudou foi o local. Se a situação é igual, há que perguntar os que pagaram à Fazenda a quem terão ficado a dever.
8.7.06
1.7.06
Ser-se ministro
Talvez eu me tenha tornado num selvagem. Mas raramente leio jornais, embora os compre com regularidade. De manhã, quantas vezes é o ritual de folhear as páginas de um ou outro, a ver só de que falam, o tempo de um galão, para deixá-lo ficar, como se gorgeta fosse, ao empregado do café. Um destes dias li que cada vez os jornais se vendem menos. Deve ser por haver outros que, piores do que eu, nem sequer compram. Claro que há a televisão, mas raramente vejo. A rádio só quando vou em viagem, e quase nunca a ouvir notícias. Por isso, eu não sei muito o que se passa e vivo contente assim. Hoje li que o professor Freitas do Amaral tinha deixado de ser ministro. Não achei que fosse grande notícia. Acaso o professor Freitas chegou alguma vez a ser ministro? Se calhar fui eu eu, falho de informação, que não dei conta. Só pode ser isso.
29.6.06
Uma vida, um número
A palavra «só» é uma palavra tão triste como o livro do António Nobre do qual é título. Mas ler, como hoje li, um «só matei três pessoas», pode ser a expressão desculpante num mundo de horror, mas dói. Na contabilidade do que se mata, os genocidas ficam sempre beneficiados. A partir de muitos milhares, já ninguém quer saber. Os grandes números equivalem sempre a zero.
25.6.06
A paixão do futebol
Vinte de dois sujeitos aos pontapés e cabeçadas numa bola desencadeiam furiosas paixões. E no entanto a probabilidade de um tal conjunto conseguir variantes que ainda surpreendam é mínima. É assim o império dos sentidos. Também num casal a hipótese de variar é imemorialmente a mesma. E, no entanto, também aí as emoções fervilham no sangue. Há só três grandes diferenças. No futebol, a coisa é em grupo e só com homens. Além disso, a alegria de uns é a tristeza de outros. Nisso, nos casais, tantas vezes sucede o mesmo.
21.6.06
Na gáspea
Eu vinha na faixa do meio, a cento e vinte, que é o limite legal da velocidade, por causa do medo de tornar a ficar sem carta. De repente, atrás de mim, um daqueles arruaceiros motorizados, a abrir luzes, aos guinões, às buzinadelas. Podia passar-me pela esquerda, mas pelos vistos não lhe apetecia. Devia achar que cento e vinte é velocidade para se andar pela valeta. Como não me joguei logo borda fora, passou-me a grande brida, raivoso, aos coices, a fazer-me sinais com os dedos. A tipos destes, tão declamadamente machões, falta-lhes muita coisa seguramente! Algumas, eles assinalam-nos com os dedos, talvez na esperança, quem sabe. Há muitas formas de pedir.
18.6.06
Pérola
Eu tenho tão poucos amigos, mas há um que é irmão. Num momento grave de aflicção, estava eu a morrer, naquilo que o homem tem de mais sagrado que é o orgulhar-se de viver, cercado da miséria moral alheia dos que vivem pela ambição, peão no jogo sórdido dos que chamam a isso política, a honra em risco, o mundo alheado, ele estendeu-me a mão, sem a qual eu não sobreviveria ao atoleiro. Obrigado Eduardo, e obrigado sobretudo nos teres mostrado, ostra fechada que és de taciturno, a pérola que há ti. Publica pois o teu Camões em Macau.
17.6.06
O Mundo das Sombras
Este sábado achei que «O Mundo das Sombras» não podia morrer famélico. Ainda por cima ele dá conta dos meus trabalhos de investigação nessa área e esses não páram. Por isso, lá fui, paternalmente, tratar dele, até por ser a hora de jantar.
Cuidado minhas senhoras
Vi na imprensa que o Algarve é a região portuguesa onde a taxa de natalidade tem aumentado nos últimos cinco anos. Imaginei que devido ao clima, morno e mediterrânico, despertos os sentidos, os amores fossem ali mais reprodutivos. Pensei que, irrigadas a sangue árabe fossem elas, as do sul, mais férteis que as nortenhas, celtas e maninhas. Veio agora o Presidente da ARS/Algarve e desabou sobre mim o peso da desilusão. Afinal, o aumento do número de bébés deve-se à imigração. Cada vez mais estrangeiras dão à luz por ali. Cuidado pois senhoras do meu país. O problema pode ser a melhoria da capacidade reprodutora dos vossos portugueses. A ser assim, a taxa de mortalidade marital pode começar a subir. De qualquer modo, como isto é um país de gente muito susceptível, deixem-me avisar: olhem que isto é a brincar!
16.6.06
Se vens a Lisboa
A nova lei das rendas vai acabar com os hóspedes. Qualquer dia lá vão também as pensões de curta permanência. É um mundo que desaba. Houve tempos em que os jornais continham discretos anúncios do tipo «Se vens a Lisboa, não andes à toa. Pensão Josefina, águas correntes». Enfim, num Portugal imobiliário de condomínios fechados, ficarão apenas, porque necessárias aos miseráveis que nos limpam o lixo e alombam nas obras, as casas da cama quente, em que se alugam oito horas de sono e se empurra, cama baixo, o parceiro que, abusando, ainda ressona para além da hora.
15.6.06
A «nuance» de Cavaco
Há na linguagem de Cavaco uma subtil «nuance». Nos velhos tempos em que era primeiro-ministro notabilizou-se por um «deixem-me trabalhar». Agora, que está presidente, ao falar da ministra da Educação, que sete mil professores furiosos querem fazer demitir, saiu-se com um «deixem-na trabalhar». Tá visto. Cavaco está patrão. Mas há outra coisa. É que há quem tenha visto naquela frase um grande apoio à contestada ministra. Tudo é possível. Mas se os professores têm razão, então é só deixá-la trabalhar que, mais uns tempos de trabalho, e ela cai por si.
13.6.06
O ser necrológico
A Inês Serra Lopes, directora do jornal «O Independente» pediu-me que escrevesse um breve texto em estilo de auto-retrato para um coluna do seu jornal. Já me habituei, depois de vários anos a rabiscar para jornais, mas esta de meter uma vida em não sei já quantos mil caractereres deixou-me algo embaraçado. E depois, escrever uma biografia era coisa de que eu não me sinto capaz, por ora ter uma excelente opinião, ora uma péssima opinião da minha difícil pessoa e por vezes uma grande falta de paciência para a aturar. Optei, pois, por deixar desde já um epitáfio tipo necrológico, para evitar equívocos aos vindouros que se lembrem de mim. Aqui fica. Não é tudo o que haveria de dizer. Nem fala nos livros que publiquei, nem nos blogs por onde ando, não fala em muita coisa, por uma razão: não me lembrei! É assim a vida, a importância é apenas uma questão de lembrança. Por exemplo a tragédia de ontem fica esquecida por causa da dor de cabeça de há ums horas atrás. Bom, deixando a conversa, aqui fica o que já amareleceu no jornal e, alegria minha, foi lido pelo homem do café aqui ao pé, prova para mim, que ainda há quem leia outra coisa que não os relatos da bola.
«Pedem-me uma biografia e levam com uma necrologia para que os outros sobrevivos, predadores de cadáver, não inventem a lenda do que não foi. A morte é a interrupção do presente e a condenação inexorável de um indivíduo ao seu passado. Estátua de sal, nega-se-lhe o futuro. O tempo é uma ficção. Como o meu pai era mais velho do que o meu avô, o meu filho mais novo, que tem dez anos, é neto de um homem que nasceu há dois séculos. Por isso, cheguei aos 56 com a noção de já ter vivido mais do que haverá para viver. Filho de solicitador, queria ser juiz. Mas ao ter corrido o risco de uma filha em Direito, fiz tudo para o evitar. Em vão. Eis o que mostra quanto a minha felicidade na advocacia é uma ilusão e prova quantos sucessos aparentes escondem fracassos evidentes. No caso, advogando contra uma miúda, perdi. Em suma, não quero ser o que sou nem que haja mais assim. Além disso, nasci em Angola. Não tenho, porém, a nostalgia de África, nem orgulho pelo que vi acontecer à minha terra. Vivi os pavores nocturnos das metralhadoras e das catanas, a fúria raivosa e primitiva. Dizem-me que os cubanos carregaram com o mármore das campas dos meus avós para a sua ilha. Portugal é um gosto adquirido, mas sou mais patriota do que muitos portugueses que se alugariam à Espanha, a troco de uns churros. Herdei a ânsia criadora do meu pai. Fundou um rádio clube, registou-o na frequência dos 7.945 kilociclos por segundo, na banda dos 41 metros. A rádio em onda média, descobri-a já garoto, a frequência modulada, um luxo de adolescente. Gatinhava a mandarem-me calar, para abrirem o microfone: aprendi aí a linguagem do silêncio. O culto do dever e do orgulho revoltoso, herdei-os pela via materna. Compraz-me ser de alguém que aos oitenta e quatro anos acha, sem vacilar, que «isto só vai é à bomba!». Eu apoio, à minha escala, armazenando petardos. Depois é a ideologia, aquilo que a cabeça fabrica e a sociedade molda. O meu horror ao burguês e ao seu mundo do ter nasceu com o existencialismo. A tragédia do homem como ser defectivo, um amputado em busca ansiosa do que lhe falta, lascando-se no perpétuo movimento que é viver, marca o meu dia e prenuncia o meu fim. Por isso, poucos desejaram, como eu, uma família, e nunca a tive. Produto de zangas sucessivas, a minha prole é uma espécie de cissiparidade, como a que estudávamos nas ciências, no tempo em que a quarta classe era a escola primária, o liceu e a universidade. Por tudo isto, não tenho uma biografia nem uma intimidade que deva ser contada. Tal como o Ruben A., eu sou o outro que era eu».
Desculpem a vaidade. Mas é que depois de ler, fico sempre com a ideia de que isto sim, sou eu, visto a frio, como convém a uma necrologia.
11.6.06
A rede celular catacumbística
A partir de hoje, em todas as linhas de toda a rede de Metro, o telemóvel é audível. Subterrâneo embora, toupeira humana escoada entre túneis e galerias, neste mais depressa e mais rápido demencial em que nos tornámos, o homem, atravancada a superfície da cidade, onde já só se anda devagar, corre-corre pelas suas entranhas, saído, atrasado, da linha azul, perdido, zaranza, na amarela, perguntando, tarata, pela linha verde. Faltava só ser encontrável, pelo chefe, pelo cliente, pela família, pelos amigos. Soterrado, embora, inumado vivo, entalado entre corpos e cheiros, sujeito a um esticão na carteira e a um apalpão nas partes, o homem de hoje, lisboeta e contemporâneo, não tem desculpa para não dizer, conformado, que «está lá», nem que seja para responder ao irónico «por onde andas tu que não te vejo?».
10.6.06
Os deputados baldistas
Ora aí está, como o Governo resolveu o absentismo escolar, dos professores. Vem na imprensa desta manhã que os professores mais faltosos terão mais trabalho depois das aulas. Em suma, e para explicar de modo breve, ficam de castigo a fazerem os TPC's. Ora esta solução mirífica podia ser aplicada ao problema dos deputados baldistas. Depois de o presidente encerrar os trabalhos, ficavam ali, no apoio ao estudo parlamentar, nas carteiras de São Bento, a escreverem cem vezes no caderninho pautado: proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos....
9.6.06
O mundo a seus pés
É notícia que um futebolista revoltado com uma lesão tenha pontapeado violentamente uma cadeira. Não sei onde está a novidade. De um homem que é treinado para usar apenas os pés, espera-se que use a cabeça? O que é ridículo é que adultos, responsáveis, pessoas para quem as preocupações sobre o que se passa no mundo que os cerca deviam ser outras, achem que isto é uma notícia e daquelas que vale a pena saber e comentar. Enfim! Com tudo isto esquecia-me de uma coisa crucial! Segundo a oficial agência de Lusa, o pontapé foi dado com o pé direito. O que, convenha-se, faz logo toda a diferença...
7.6.06
A PIDE e a Madeira
«Temos de acabar com essa cultura própria da PIDE de perseguir, vigiar e bufar sobre outros». Diz Alberto João Jardim. Sem comentários. Ah! É a propósito da Lei sobre as Incompatibilidades e sua extensão aos políticos da Madeira esquecia-me de dizer.
6.6.06
666
Hoje é o dia 06.06.06, o dia da Besta do Apocalipse. Digo isto ao sair de casa para mais um fatídico dia. Lembro-me que em tempos o Paulo Portas ganhou o Congresso do CDS-PP com 666 votos. Ninguém reparou. Pode ser que hoje também não.
5.6.06
O Governo e os seus cães
Um estudo que o jornal «Público» hoje revelou mostra que «enquanto os consumidores saldam as dívidas em média 42,5 dias depois, as empresas fazem-no em 53,9 dias e o Estado prolonga o pagamento em 69,8 dias». Perante um Estado tão relapso a pagar os cães que deve, um destes dias, os espectadores pasmados ainda verão em suas casas o senhor primeiro ministro em pose de Estado, a debitar um discurso sobre a modernidade, e por detrás, indesfarçável, o cobrador de fraque. Já estivemos mais longe. É só o primeiro arriscar, vai tudo à compita. Um desses dias o país acorda com o Terreiro do Paço arrestado.
3.6.06
Lê e passa
Naquela cadeia ininterrupta de frases que circulam pela blogoesfera, em encaminhamentos reencaminhados, há de facto algumas que são uma explosão de ironia certeira, como esta: «Os políticos, assim como as fraldas, devem ser trocados constantemente. E sempre pelo mesmo motivo!». Como se dizia nos tempos do antigamente quanto às tarjetas clandestinas, lê e passa.
2.6.06
A feira do livra-te
Fui àquela insuportável tristeza que é a Feira do Livro do Porto. Uma tenda gigante, em lona, como nas festas dos casamentos, e dentro dela uns pavilhões feiosos em contraplacado, a maioria sem um toque de graça ou a alegria de uma cor. Lá dentro, esfalfados por um calor insuportável passavam, como sonâmbulos, sem nexo nem destino, uns quantos poucos transeuntes. Transeuntes no sentido etimológico do termo, pois nem leitores se poderia chamar a muitos deles que nem num livro pegavam, nem que fosse para lhe tomar o peso ou ver ao menos se tinha bonecos. A de Lisboa, sendo feira, ao menos é ao ar livre. No mais, é a mesma monotonia, a mesma solidão, o mesmo ar de cidade fantasma. Num país de iletrados tele-espectadores editam-se trinta livros por dia, mas a feira está às moscas. Houve anos em que era o lugar dos despejos do espólio, das sobras, dos restos, do que hoje pomposamente se chama do livro manuseado, forma de as editores de livrarem de monos. Agora já nem isso. Um ar de aflicção desanimada estampa-se no rosto cansado dos vendedores. Resistem a Figueirinhas, a Lello, a Guimarães e a Minerva, a Sociedade de Difusão Bíblica e a barraca dos churros. Até as criancinhas a choramingar cansaço e a pedincharem algodão doce me parecem chatear este ano com menos convicção.
31.5.06
Na hora do golo
Num país em que os políticos, por oportunismo eleitoral, se adaptam, submissos, ao futebol será desprestigiante que se adapte o horário da Assembleia da República ao horário do futebol? Jerónimo de Sousa, severo, acha que é, e argumenta, ingénuo, que «há mais vida para além do futebol». É só sair à rua na hora do jogo ou entrar num café no dia seguinte aos desafios. Nesse aspecto, o Parlamento, ao sincronizar o seu tempo de funcionamento com a duração dos jogos, imita a rua e faz como nos cafés: salta, pois, uma bica e um bagaço para o senhor deputado, e rapidinho que estamos no intervalo!
30.5.06
Maria Ondina Braga
Este blog foi buscar o seu nome ao título de uma obra de sua autoria, «A Revolta das Palavras». Lentamente, fui encontrando os seus livros, ávidamente li-os. Decidi-me a celebrá-la dedicando-lhe um blog, com o seu nome. Inaugurei-o ontem.
29.5.06
O gene do sexo
À medida que o Verão se aproxima a imprensa começa a aparecer com aquelas histórias de entreter, entre o real e a fantasia. A divulgação científica, naquilo em que se aproxima da ficção científica, é um campo fértil. Esta li eu num intervalo da dardejante canícula, a propósito de um estudo sobre a influência genética no impulso sexual. Segundo a agência Lusa, que se faz eco da notícia: «o estudo conclui que apenas 30% das pessoas tem uma mutação genética que intensifica o apetite sexual, carecendo dela as restantes. Tal mutação seria relativamente nova na história humana, remontando à época do homo sapiens, há cerca de 50.000 anos». Fiquei um pouco confuso, pois isto das datas, das estatísticas e dos números em geral é sempre a demonstração fatal da minha falta de inteligência. Pelo que li e consegui compreender, há 50.000 anos houve aí uma malta que foi passando do «homo sapiens» para o «homo ludens», com as partes baixas a puxar por eles com mais vigor que as alturas cerebrais. No meio disto, naturalmente que a escolátisca, o neo-kantismo e a filosofia analítica da linguagem devem ter ajudado a esfriar os ímpetos dionísicos. A Santa Madre anatemizou-os com a ameaça das fogueiras infernais. Mas a lei da gravitação universal, puxando pelas baixezas humanas é um magneto eterno. O que eu não percebi totalmente é como é que com tanto ano de mutação, porque 50.000 são quase dez mil eus colocados na fita do tempo, ainda só andamos em 30%. A resposta só pode ser huma. Do «homo sapiens» primitivo e indiferenciado, que copulava para reproduzir, surgiu uma minoria lúdica e luxuriante, para quem os genitais são uns brinquedos que Deus lhes deu para alívio e comprazimento. Os outros 70% pertencem à categoria dos que estão a esta hora no trabalho, em reunião, a agenda sobrecarregada, vários telefones ao mesmo tempo, prazos e compromissos, alimentados a sanduíches, incentivados a pastilhas, estimulados a silicone. Daqui a 50.000 tornam-se ovíparos. Geneticamente farão glu-glu!
28.5.06
Os copistas
Um estudo veio revelar que três em cada quatro universitários copiam. Se é assim, o ensino universitário está de parabéns. Conseguiu-se que a universidade gere o cidadão ideal, o tipo convencional, aquele que garante a reprodução do sistema e permite a sua continuidade. O estudante que copia será mais tarde, na vida profissional, o zeloso cumpridor da ordem alheia, na vida social o que faz como viu fazer, na vida cívica, o que nem vergonha tem, por não ter ideias próprias. No limite, mostrará, astucioso, a manha sem a qual não se sobe na sociedade. Passando a perna, pela vigarice, aos colegas que se esforçaram, ele será, pela falta de escrúpulos o exemplo paradigmático do arrivista social. É desta massa que eles se fazem. Parabém pois às universidades. São três em cada quatro? Se é assim, só falta um, estamos lá quase, é só um esforço ou então reprova-se esse quarto. Se por azar for aquele do qual os outros copiam, que se dane. Ficam os mandriões sem vergonha. É legítimo e é democrático, ainda por cima porque são em maior número.
27.5.06
A ameaça
A nossa mediocridade mede-se por uma particularidade pacóvia típica de certos portugueses: o espírito de courela. Fruto de uma ruralidade ancestral, manhoso e individualista, há uma espécie ratinha de português que defende de sachola nas unhas o seu pequeno ermo pedregoso e onde murcham afinal apenas umas enfezadas couves. A ideia do outro corresponde à da ameaça. Nisto a sacristia trouxe apenas o de que o mundo se divide entre os que veneram a santinha de pau carunchoso da nossa aldeia e os outros que são os de atrás do sol posto. É por isso que sucede no Portugal cultural aquela coisa fantástica que é um recém-chegado ser desprezado para ver se desiste. Fazer-se de novas é uma arte portuguesa em que alguns portugueses são mestres. Alguns refinam. No meu caso deu-me para não ligar. Neste mundo de labregos, xou axim.
25.5.06
O peep-show
Há na política um jogo que é o de saber quem está por cima. Jogo de dominação, é por esse afrodisíaco que se estimulam pessoas que, não fora o cio, estavam ocupadas em outras actividades mais úteis do que o que fazem. A coisa poderia ser sempre estimulantemente erótica, mas o que sucede é ser muita vez repugnantemente pornográfica. E depois, há o peep-show dos eleitores, deliciados a assitirem ao espectáculo. De quando em vez votam, desconfiados, porém, de que, apesar disso, a cena é sempre a mesma. O segredo do negócio é precisamente esse: vender cada vez mais do mesmo.
Juízes e futebol
Dizem-me que o Tribunal Constitucional acha muito bem que os juízes se envolvam no mundo do futebol. A minha dúvida é saber achariam bem que o futebol se envolvesse no mundo dos juízes. O meu clube preferido ganha muitas vezes quando joga em casa. Não sei porquê. Deve ser sorte.
24.5.06
A hora da deita
Vinha via agência Lusa: «As mulheres que dormem cinco horas ou menos por noite correm mais riscos de aumentar de peso do que as que dormem habitualmente pelo menos sete horas, indica um estudo hoje apresentado nos Estados Unidos». Aguardo, ansioso, que o estudo abranja também os homens e, mais ansioso ainda, que nos traga conclusões sobre os homens que dormem poucas horas com mulheres. Quando isso acontecer, será demasiado explícito o convite na base de a menina não quer vir emagrecer comigo, fora do ginásio claro está.
22.5.06
Uma questão de regime
Marques Mendes quer emagrecer o Estado. E que tal, já que estamos numa de dietética, tentar emagrecer os que comem à conta do Estado? É que o problema do Estado não é o ser gordo, é estar à mercê de parasitas. Um bom clister talvez ajudasse e bastante! Como com as lombrigas, precisamente.
21.5.06
Escrita felina
Mata-se um homem a tentar ser certo exacto e rigoroso na escrita de um livro e de repente tropeça numa desatenção. Felizmente há leitores amigos. E felizmente eu não tenho a mania de que faço obras primas e muito menos intocáveis. Por isso, cada vez que, depois de ter trabalhado como um cão, me dizem, aqui há gato, fico naturalmente a ganir por dentro, mas apresso-me a dar à cauda de contente! É para isso que se escrevem livros: para que nos leiam criticamente. Obrigado pois! Já não posso corrigir, posso dar conta de que anotei.
20.5.06
O saber manual
Voltei! Não plantei uma árvore mas escrevi um livro! Tudo aconteceu numas condições de tal modo duras que me iam plantando mas era a mim debaixo de umas árvores chamadas ciprestes. Para já sobrevivi. Comecei ontem a escrever outro, a primeira linha na minha cabeça. Recomecei a ler. Atrasados, operários martelam os pavilhões da feira, a do livro, debaixo das árvores, ao alto do parque. Sem eles e o seu saber manual não há cultura que se venda em fólios. Doutor é uma alcunha que se põe a muita gente. Escreveu-o o António Telmo, no último número da revista «Teoremas de Filosofia». Tinha-lo dito Álvaro Ribeiro. Esqueci-me de dizer: recomecei a ler. Só uma primeira linha, para repor a minha cabeça a funcionar.
14.5.06
Papel e cola
Dão-se «expelicações» de geometria descritiva. Estava escrito assim, num papel colado no expositor de um super-mercado. Estive mesmo para escrever por debaixo: «recebem-se de bom grado, em troca de umas aulas de português». É a isto que o país entrega os seus filhos. Claro que haverá a maioria dos outros. Como isto chegou a tal ponto é que eu não consigo «expelicar».
Linguagem receosa
Mia Couto, numa entrevista ao «Mil Folhas», diz que há na língua moçambicana uma palavra para dizer amanhã, mas nenhuma para dizer futuro. E acrescenta: «não se nomeia o futuro com essa facilidade». Como eu, que vivo a vida virando receoso, na agenda, cada folha em cada dia, o compreendo tão bem!
12.5.06
Jorge Sampaio: a tristeza de um fim
Ouvi-o na rádio, vinha eu nem sei de onde. Justificava-se, enaltecendo o cargo. Dizia tudo o que dava ao cargo um ar de importância. Explicava como tinha de contactar com gente tão importante e como era tão relevante essa sua missão. Era Jorge Sampaio, nomeado para uma missão especial da ONU. Por um momento senti a tristeza de o ver naquela situação. Era melhor não ter dito nada. Partia. Nós percebíamos que era para o esquecimento, que tudo aquilo era o terem-lhe arranjado qualquer coisa para o ocuparem. Esgotados no seu papel, Eanes ficou sem nada, Soares arranjou-se com uma fundação, Sampaio irá tratar da tuberculose. Cinco mil mortos por dia contam com ele.
11.5.06
O bacoquismo argumentativo
Acredite-se ou não «todas as noites, palavras novas correspondendo ao modelo regexp \s([-a-zà-öù-ÿ])\s acrescem à lista. Actualmente, a lista tem 42877 registos». São todas tiradas paciente e nocturnamente do Jornal de Notícias, um esforço de Sísifo, rolando palavra a palavra, montanha acima. Está tudo aqui. São palavras portuguesas, nossas, nacionalistas, do JN. O ministro Correia de Campos usou uma delas quando acusou a oposição de nacionalismo «bacoco». Vem lá, neste invulgar «vocabulário», a palavra «bacoco» e a seguir «bacoco · bacocos · bacoquice · bactéria · bacteriana · bacteriológicas · badala · badalada · badaladas · badalado · badalados · badejo · bafejado · bafo · bagagem · bagagens · bagunça · baía · baiana · baila · bailado · bailados · bailar · bailarico · bailaricos · bailarina · bailarinas · bailarino · bailarinos · baile · bailes · bairradina · bairradino · bairrismo · bairrismos · bairrista». Mas vem também, logo a seguir: «baixeza · baixezas · baixinha · baixíssima · baixíssimas · baixíssimo · baixíssimos». Vem lá tudo, é só escolher. Nem é preciso ir-se a Badajoz.
7.5.06
Permita-se ao autor que convide!
Permitam que o autor deste blog use este seu espaço para anunciar o lançamento de um seu livro. E permitam-me sobretudo que desde já vos considere convidados, para a apresentação da obra:
* Em Lisboa, no dia 16.05, pelas 18:30, na Ordem dos Advogados [sita no Largo de São Domingos, contíguo ao Rossio].
* No Porto, no dia 17.05, pela mesma hora, no Clube Literário do Porto, no n.º 22 da Rua da Alfândega.
* Em Faro, no dia 3 de Junho, pelas 18:30, na R. Dr. Cândido Guerreiro, nº 30, junto ao Largo do Mercado.
Quem quiser ter uma ideia do que se trata, tente aqui, e depois disso, para aprofundar essa ideia, se não desanimar, aqui.
* Em Lisboa, no dia 16.05, pelas 18:30, na Ordem dos Advogados [sita no Largo de São Domingos, contíguo ao Rossio].
* No Porto, no dia 17.05, pela mesma hora, no Clube Literário do Porto, no n.º 22 da Rua da Alfândega.
* Em Faro, no dia 3 de Junho, pelas 18:30, na R. Dr. Cândido Guerreiro, nº 30, junto ao Largo do Mercado.
Quem quiser ter uma ideia do que se trata, tente aqui, e depois disso, para aprofundar essa ideia, se não desanimar, aqui.
Wiki-símia
Há na ciber-população a ideia pela qual «Wikipedia» é tudo, e nela está tudo. Não há em relação à esmagadora maioria das pessoas a pergunta consistente em saber quem é quem que ali escreve e se pode não ser exacto tudo o que ali se diz. Nesse aspecto, a dita «enciclopédia» é semelhante à Internet em geral: o não informado leitor fica à mercê do atrevido escritor, cuja impunidade fica protegida, não poucas vezes, pelo anonimato. Agora o que eu nunca tinha visto foi um comentário bem disposto como aquela que vinha num post, lido esta amanhã, completamente em outro contexto, no caso acerca da URSS não ter assinado a Convenção de Genève e ter estado ou não obrigada a dispensar tratamento humanitário aos prisioneiros de guerra alemães na Segunda Guerra. Dizia assim: a Wikipedia é a crença de que 10 000 macacos a martelarem em 10 000 teclados conseguem criar uma obra de referência. Poder ser excesso em relação a muito do que lá está, mas dá pelo menos para pensar. Vendo melhor, ainda não desisto de comprar um dia a Enciclopedia Britânica. Também há on line e fazem descontos.
6.5.06
Breaking news......
Última hora! Acordei cansado de ter feito serão, abro as notícias e dou com esta: «O ministro dos Negócios Estrangeiros vai dar hoje uma conferência de imprensa para "desmentir o título" da notícia que o Expresso publica e que indica que Freitas do Amaral está "cansado no MNE"». Já não saio de casa! Ligo os canais todos da TV, varro o quadrante da rádio à espera do primeiro que o informar, sento-me com a Net aberta em tudo quanto é imprensa digital. Eu toda a orbe terráquea aguardamos, transidos. No entanto, com a imaginação já a rodar e a suprir a ignorância, calculo que a abrir, Sua Excelência diga nesta sua conferência, convocada de emergência, aos jornalistas estremunhados que tenham de a gramar: «Minhas senhoras e meus senhores, senti ser meu dever indeclinável, em nome da minha dignidade pessoal e do prestígio de Portugal no mundo, esclarecer que, ao contrário do que foi hoje noticiado em certa imprensa, o professor Diogo Freitas do Amaral não está cansado do MNE. O MNE é que está cansado do professor Diogo, farto do professor Freitas, agradecia ver-se livre do professor Amaral».
A casa amarela
Um especialista disse que a esquizofrenia «é uma das doenças com maior prevalência no país». Pelas contas desse reputado médico, vejo que um em cada cem portugueses é esquizofrénico. Entre os outros, calculo eu, devem recrutar-se casos piores. Basta abrir o jornal ou ver um bocadinho de televisão e sente-se ganas de meter uns quantos em colete de forças, para já não dizer em electro-choques!
4.5.06
Um caso de nomeada
Há quem esteja muito preocupado por a EDP ter contratado Pedro Santana Lopes como assessor jurídico da empresa. Há quem esteja preocupado pelo facto de a empresa lhe pagar dez mil euros por mês. Se essas duas coisas são verdade, há por aí tantas verdades parecidas sem que as pesssoas se preocupem, que até parece que se preocupam com esta, para não se ocuparem das outras. No mais, é o ex-ministro do governo do nomeado, a nomeá-lo agora. Mas isso é o ora agora nomeio eu, que depois me nomeias tu. É caso único?
1.5.06
O ataque dos mortos
Os loucos não se consideram loucos, os mortos não sabem que morreram. Freitas do Amaral em entrevista à oficial agência Lusa, diz que não se considera «politicamente morto». Mas acrescenta: «que enquanto for considerado útil e a saúde aguentar, estou disponível». Morto de vontade de continuar, num acto de loucura total.
29.4.06
Edita-se e rente...
No jornal «Expresso» houve quem desse nota negativa ao director de uma estação de TV por não ter «editado» uma entrevista que terá passado com grande êxito e não ter assim impedido que o entrevistado tivesse referido o nome de certas pessoas. Leio este facto fantástico deste admirável mundo novo. Fossem outras as pessoas visadas, outro fosse o entrevistado, tivesse o dito director ou outro director, ou um qualquer jornalista, repórter ou estagiário, daqueles que ficam ao sol e à chuva por uma migalha de informação, «editado» uma frase ou uma fala, ou uma palavra sequer, a um qualquer outro entrevistado que tivesse referido quaisquer outras pessoas, era o fim da picada! De censura a coisas piores, dentro do espírito da mais fraterna camaradagem, enchiam-no de pontapés, na primeira página se preciso fosse. Ora aí está como as coisas são. O velhinho «Botas», Salazar de seu nome, é que não se teria lembrado de melhor. Em vez da odienta «comissão de censura», chamava-lhe «comissão de edição». Mantinha os coronéis e o lápis azul, pois não se muda o que é igual. Quem ler isto, escusa de vir com graças sobre eu estar a falar deste ou daquele caso. Fique claro! Estou a falar sim deste e daquele princípio, o da liberdade de expressão. É que uma coisa é certa, e é a lei que o diz: se os entrevistados falam demais, cabe aos tribunais puni-los, não cabe aos directores «editá-los». Foi para isso precisamente que se fez o 25 de Abril.
25.4.06
A custódia
O jornal «Público» não leva à primeira página o 25 de Abril, mas sim os 500 anos da Custódia de Belém. Lá dentro, entre muitas folhas, o advogado José Augusto Rocha explica a Paula Torres de Carvalho que foram os militares do Conselho da Revolução quem permitiu a impunidade dos «pides». Você disse, «revolução», ó Barreiros?
Apresentar arma!
No dia 25 de Abril estando eu no quartel em Mafra, não vim para a Revolução pois os do MFA não confiavam no comandante do meu pelotão. E eu, que estava na tropa contra vontade, e em armas pesadas mau grado os meus leves 48 quilos, eu que poderia ter sido um herói de Abril, fiquei confinado à parada, a ouvir rádio e a sonhar com o que se passava e raivoso por não ter vindo. Tempos depois mandavam-me para casa. Tinham reconhecido que eu havia sido colocado naquele pelotão, para além dos meus poucos quilos, entre morteiros e canhões sem recuo, por causa de informação negativa da prestimosa polícia política do regime. Depois, chamaram-me para mais três anos daquilo, já em contra-revolução. Hoje comemoro mais um aniversário disso tudo. Já não tenho 48 quilos mas tenho uma coisa que não morreu: uma enorme raiva por não ter vindo, um enorme desejo de vir desta vez, entre morteiros e canhões, obuses se for preciso.
24.4.06
A movida
Não tinha reparado, alheado que ando de muitas destas coisas da nossa vida pública, que a Câmara Municipal de Lisboa tem um pelouro que é o de Vereadora da Mobilidade. Ora eu que por natureza, sempre fui contra o imobilismo, embora passe, recluso dos deveres, horas a fio sentado, na cela das obrigações, acho que na próxima mexida governamental, para dar um toque de dinâmica, já que é de mobilidade que falamos, o engenheiro Sócrates, devia criar o Ministério, já não diria da mobilidade, pois dava a ideia estagnação mental, mas sim o Ministério dos Semoventes. Primeiro, porque há muitos. Depois, porque andam à redea solta.
23.4.06
Bons nacos de literatura
«Há uma nova tendência, a literatura light está a passar de moda e a ser substituída por uma onda mais intelectual. Isso reflecte-se no espaço que esses livros ocupam nos expositores», diz a responsável na FNAC pelos livros. E eu, ingénuo de todo, a pensar que a literatura «light» era, tal como a comida do mesmo nome, uma forma de dieta literária adelgaçante das ideias. Afinal, é uma moda. Alegrem-se, pois ó gentes leitoras, voltam as gordinhas e as carnudas. O Luiz Pacheco inventou em 1972 a categoria da literatura comestível. Em breve, muito em breve, voltarão os clássicos com sustança. E então ler-se-à, lambendo dos beiços de luxúria, como em «A Cidade e as Serras» do Eça de Queirós: «Jacinto, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Há anos que o fidalgo não sentia aquela fome. E foi quando, abalando o sobrado, surgiu a rija moça de peitos trementes que pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas».
22.4.06
O campo de concentração
A Feira do Livro terá este ano menos 23 pavilhões, mas segundo dizem os da APEL, a associação dos que editam e dos vendem, «o número de editores presentes nas feiras de Lisboa e do Porto será sensivelmente o mesmo». É que «os problemas de facturação em 2005 levaram algumas editoras a retrair-se». Li isto e percebi, enfim. A solução para a retracção foi a concentração. Corre-se pois o risco de cruzar a pálida freirinha que busca a mística Santa Teresa de Ávila com o vermelhusco libertino que anseia pela Filosofia da Alcova, o escanzelado estudante do «Cálculo da Resistências de Materiais», lado a lado com a anafada Ludovinha que, educada nas Casas de Santa Zita quer, enfim, o livro de receitas da Dona Maria de Lurdes Modesto.
20.4.06
Vai tudo por água abaixo!
O Governo está safo! A solução miraculosa, veio na forma de uma empresa de águas. Segundo acabo de ler, uma empresa portuguesa vai lançar uma água que faz emagrecer porque cria a sensação de se estar «cheio». Uma coisa destas resolve muita coisa. Primeira, são os que se enchem à conta da política. Basta pô-los em cura de águas, enchem logo e depressa. Depois há as vítimas da fome. Quanto a esses, metem-se debaixo de água. Fica enfartados e deixam de se ver.
O Governo avança sobre os avençados
O Governo vai acabar com os «avençados» desnecessários. É a lógica financeira, a de poupar despesa. É que há os «avençados» e os que estão «por conta». Quanto a estes, pois que, por terem sido necessários, não podem deixar de receber, de ora em diante será mais difícil pagar-lhes por avença. A não receberam à percentagem, pode pagar-se-lhes e à tarefa. Se não for pelo que fizerem, ao menos que seja pelo que houverem feito, se não me levam a mal o verbo haver.
19.4.06
As últimas da deputação nacional
Ora aí está tudo dito. O PS propõe que se marque falta aos deputados que faltarem [só] no momento das votações. Quer isto dizer, em linguagem simples e descodificada, duas coisas. Primeiro, que um deputado pode não pôr os pés no Parlamento o dia todo, tem é que estar quando se votar. Segundo, que daqui decorre que um deputado interessa pouco para quando o Parlamento discute e reflecte, interessa só para o levanta-senta que alguém popularizou de modo brejeiro como o «bate-cú» parlamentar. Se o sistema entrar em vigor, as direcções parlamentares é só organizarem as suas hostes. Combinam as horas em que se vota e organizam turnos de deputação. Afixa-se nos Passos Perdidos ou, para evitar aos pais da pátria terem de perder tempo a ir lá, põe-se no site da Assembleia: «Amanhã vota-se às duas». Não vale pena dizer no anúncio votar o quê. Quando chegarem a São Bento, vindo dos seus escritórios, Suas Excelências saberão ao que vão. Depois de contados, a um e um, votam, e zute que há mais que fazer! Então, o Presidente da Assembleia, poderá enfim dizer, no sombrio estilo regimental: «os senhores deputados que votam a favor, fazem o favor de sair...».
17.4.06
Wonder bra
O mundo académico não há dúvida que me fascina. Essa lógica da descoberta científica, que o Karl Popper axiomatizou no seu clássico «The Logic of the Scientific Discovery», dando-lhe ordem e concisão, não pára de me surpreender. Sabem, por exemplo, como é que se descobriu, agora mesmo que «os membros da Dinastia Liao, um Estado fundado pelo grupo étnico Khitan, eram bastante abertos e mantinham contacto com as regiões centrais chinesas»? Ao terem-se descoberto «fragmentos de um sutiã e um par de chinelos bordados com quase mil anos de idade», isto segundo a agência de notícia Xinhua. As peças, segundo a agência «alegadamente pertencentes a uma mulher nobre da Dinastia Liao (916-1225 d.C.), ajudarão os investigadores a estudar os costumes e os bordados daquela época, segundo Tian Yanguo, responsável do Museu Aohan Banner de Chifeng, na região autónoma da Mongólia Interior (norte chinês)».
Ora vejam bem. Se fosse eu a ter descoberto na China um sutiã com mil anos concluía que as chinesas, podem não ter grandes mamas, mas pelo menos já as têm há muitos anos! É por isso que, em matéria científica, não passo da cepa torta.
16.4.06
Levam para tabaco!
«Dez milhões de portugueses fumaram menos mil milhões de cigarros», segundo diz hoje a imprensa, o que não é o mesmo que dizer «mil milhões de cigarros ficaram por fumar por dez milhões de portugueses». Porque se fosse assim, a indústria tabaqueira teria algures, armazenados e expectantes, cem cigarros por cada português, se eu não me engano nas contas. Com milhões milhões de macacos! Não há bofes que aguentem...
15.4.06
Anarca
A cultura libertária não morreu. Vive, por exemplo, este sábado. O anarquismo mora aqui. Dizem o que querem e sabe-se de onde vêem. Trabalho mesmo ao lado onde Emídio Santana pôs, em 1938, uma bomba para matar Oliveira Salazar. Teria sido fabricada nas furnas miseráveis de Alcântara. Devido a um erro na colocação do engenho, a ideia frustrou-se. O destino ocupar-se-ia então do caso e faria a vida seguir a ordem natural das coisas: Santana faleceria em 16 de Outubro de 1988, Salazar tinha morrido em 27 de Julho de 1970. Eram dois mundos entre si incompatíveis: Santana, com o revolucionário «viver perigosamente», com Salazar, o conservador «viver habitualmente».
14.4.06
Agnus Dei
Vem no Diário de Notícias: «Passar fome. Ou pelo menos evitar os excessos: carne, salmão, linguado, marisco. Não usar jóias. Evitar o cabeleireiro. Usar roupa mais discreta: saias compridas, calças menos justas, blusinhas simples. Deitar cedo e cedo erguer. Ter paciência para os outros (...) Estes são apenas alguns dos "sacrifícios" que milhões de católicos em todo o mundo se propõem fazer durante a Quaresma». Dizem os padres. Se é assim, para mim é fácil, logo hoje que acordei de madrugada. Sem jóias nem blusinhas, quase careca, e detestando calças justas, não gostando de salmão e não pretendendo usar saias, parco em mariscadas e não achando muito que comer no linguado resta-me o pecado da carne.Talvez por isso ontem jantei num vegetariano. No mais, com paciência para os outros, vou-me esforçar, pois a carne é fraca.
13.4.06
Cartas para o baralho
Primeiro foram os da família do Lobo Antunes, agora os da Sofia de Melo Breyner Andresen. Lá vêm cartas e mais cartas. No primeiro caso cartas de namoro, agora cartas pessoais e literárias ao e do Jorge de Sena. Claro que há na literatura espaço para tudo, para o que é íntimo e para o que é público. Que o diga a Maria Filomena Mónica, para quem a diferença parece ter deixado de existir. Por mim, estou naquela fase da vida em que acho tudo bem. Já me habituei a ver nas capas das revistas, o cancro de um, as mamocas da outras, o adultério de todos. No dia em que andar tudo em pelota, melhor ainda, que descontadas as celulites e as banhocas, haverá de ser um regalo para a vista. Agora o que me irrita é a capa encadernada e meia dúzia de folhinhas dentro, o papel a puxar para o carote e o preço a entrar pelo bolso a dentro. Lá que abram a gabardina, ainda vá lá, mas ao menos, façam desconto. É que, no «peep-show», ao menos, cada um vê à medida das moedas que tem. Tá visto que em matéria de «voyeurismo» literário, tenho de esperar pelos saldos.
12.4.06
Nesta latrina
Escrevi isto em Novembro de 2004 e voltaria a escrever: «Há muito tempo que nesta latrina о ar se tornou irrespirável»: a frase pertence à discografia dos «Мãо Morta». É hoje um dos capítulos do livro «Estilhaços», publicado em 2004 por «Adolfo Luxúria Canibal». Canibal é о pseudónimo artístico de Adolfo Morais de Macedo, advogado e artista. Na música, como vocalista e letrista arrancou com os «Auaufeiomau», em 1981. Nas Leis trata do Direito do Ambiente. Lembrei-me daquela expressão, ao dar conta do a quantas andamos hoje. Um dos poemas desse livro surreal chama-se «Vamos Fugir» e abre assim: «tenho os passos vigiados no labririnto das notícias». Curioso: estava eu a ler о livro e, em fundo, corria о telejornal, com as notícias do dia. Estava já a faltar-me о fôlego. O ambiente anda mesmo muito mau! Auau!».
Com o Fisco, vão todos de carrinho!
1 373 contribuintes com dívidas à Segurança Social que totalizam 59 milhões de euros têem 6 353 veículos topo de gama, que vão ser penhorados. Façam-se as contas e veja-se quantos carrinhos tinha cada um desses relapsos. Tinham, digo bem, porque se a notícia é verdadeira lá vão eles a leilão. Se a coisa se consumar como é costume, daqui a uns tempos ou 6 353 novos portugueses andam de de alta cilindrada a baixo preço, ou 1 737 continuam bem motorizados como dantes, ou está tudo a apodrecer à ordem dos tribunais.
11.4.06
A troco de uns totsões
«Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes». Quem é o diz é a imprensa da República Popular de Angola, falando da nossa imprensa. «Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões». A fonte é a mesma, os destinatários, os mesmos. Amanhã vou à correr à banca, comprar uns jornais, logo pela manhã para ver a resposta. Se a houver, claro.Vai ser divertido ver o que dizem. A trocos de uns tostões, fica-se logo esclarecido.
10.4.06
A seca
Guardo de Cabo Verde a imagem do meu padrinho de Baptismo, do livro «Chiquinho» do Baltazar Lopes, do campo do Tarrafal e sobretudo da seca, essa seca que gera a fome e a emigração, tudo assim por esta ordem, à medida que ia ganhando consciência do mundo. Agora, já homem feito e formado em Direito [quase diria reformado do Direito] não é que vejo no circunspecto Diário da República um Aviso 548/2006 que «torna público ter, em 18 de Julho de 2005, a República de Cabo Verde depositado o seu instrumento de adesão à Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, particularmente como Habitat de Aves Aquáticas, concluída em Ramsar em 2 de Fevereiro de 1971».
9.4.06
Apetece-lhe algo?
Um jornal turístico do Canadá diz que, depois de se trabalhar como um cão durante 52 semanas do ano, nada como o descascar doces laranjas numa varanda soalheira do Algarve em Portugal. Vem aqui. E eu que depois de trabalhar as mesmas 52 semanas à mesma como um cão, dou comigo a apetecer-me algo, mas não seguramente isso do descascar laranjas! Mas concedo: é uma forma como qualquer outra de atrair turistas à região que o ministro António Costa, outro dia, para ajudar, disse que era das que estava em maior risco sísmico! Os dos Canadá é que não repararam, quando não mudavam o registo e a coisa viria assim: depois de trabalhar que nem um cão durante 52 semanas nada como ficar em sumo de laranja com um tremor de terra no Algarve. Mesmo arrasado por um terramoto, o Algarve continua soalheiro.
8.4.06
As águas do Jordão
Todos nós recebemos emails com anedotas, graças e coisas que pretendem fazer rir, muitos dos quais vão directamente para o sector dos «deletados». Há dias em que o nosso estado de espírito é, porém, tal, que nada nos parece conseguir arrancar um esgar que seja. Excepção feita para esta, de uma série dedicada a piadas da nossa paróquia, que um meu amigo e cineasta [o «e» não é porque sejam incompatíveis], me acaba de enviar: «Tema da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. A catequese de amanhã: À procura de Jesus». Obrigado Luís! Eu hoje estava mesmo precisado! Amanhã procura-me...
7.4.06
A cortina de fumo
O Governo prepara-se para pôr imagens de cadáveres nos maços de tabaco. Há quem goze, há quem ache um exagero. Eu por mim acho significativo e sobretudo simbólico. Se a ideia é mostrar que aquilo mata, nada melhor que uma boa imagem de um cadáver e bem morto. Um destes dias temos o escândalo da necrofilia: os fumadores inveterados, os que adoram fumar nas horas mortas! Mas seja! Cumpra-se o dito jesuítico de Santo Inácio de Loyola, «perinde ac cadaver»!
6.4.06
Angola vai no bote?
Portugal disponível para melhorar a Marinha angolana, diz a imprensa. Um desgraçado país como o nosso, quase sem navios e sem barcos, qual mendigo repartindo a côdea com o pobre, ainda quer ajudar quem quer que seja! Somos generosos! Chegámos às costas africanas de caravela, regressámos com uma fragata e um ministro, para «uma vertente de meios e equipamentos, a manutenção desses meios e equipamentos para garantir sustentabilidade a prazo da armada angolana e um programa de treino e formação de marinheiros e oficiais de Marinha». É este o discurso! Este e mais este: «Estamos hoje em condições de orientar uma parte da cooperação técnico- militar para os desafios com que as forças armadas angolanas e portuguesas estão confrontadas, sendo que, cada vez mais, por solicitação da ONU ou das organizações africanas de segurança e defesa, têm que responder a pedidos para participar em operações de paz». Belas palavras! Inflamados sentimentos! Arguto Ministro! Ajudaremos Angola no domínio naval, de chata ou de piroga!
4.4.06
O Ministro com azar aos polícias
O jornal «Público» que daqui a umas horas está nas bancas intitula assim a notícia sobre a exoneração do Director-Geral da PJ: «Santos Cabral diz que confiança institucional com o Governo “já não existia”». Uma pessoa lê isto e fica a metade do que precisa saber. Na notícia propriamente dita vem, porém, o resto: «"Há uma relação de confiança institucional que nos ultrapassa. Essa relação da minha parte não existe neste momento e por isso entendi que não tenho condições para continuar"». Agora percebe-se: afinal, era a Polícia que não confiava no Ministro, o que é uma coisa que dá para pensar.
2.4.06
Rebelo da Silva
O blog que criei dedicado ao Luiz Augusto Rebelo da Silva é daqueles parentes enjeitados que está votado ao desprezo. Hoje lá fui deixar uma picardia. Como dizia o outro, «as pessoas não gostam de si e você bem sabe porquê». Eu sei, mas é-me irresistível!
Tá tudo grosso!
Ninguém quer ver mortos da estrada por causa do excesso de alcool. Agora o que ninguém quer é ver um Governo a usar meios de pressão como aqueles que este está a usar a este propósito! Leio na imprensa que «A taxa de álcool no sangue permitida para a condução vai «diminuir consideravelmente» no final do ano, adianta o secretário de Estado da Administração Interna, Ascenso Simões, citado no Diário de Notícias». Mas, continua a informação: «Esta decisão avança se o sector vitivinícola não agir para contrariar os números de mortos na estrada por excesso de ingestão de bebidas alcoólicas. Ou seja, o Executivo lança ultimato aos produtores viti-vinícolas: ou fazem campanha para travar o número de mortes nas estradas devido ao álcool ou o Governo baixa a taxa permitida pelo Código da Estrada», continua a notícia. Quer isto dizer, em termos claros: o Governo quer que os produtores de bebidas paguem a campanha contra o excesso de consumo de álcool! E por isso ameaça-os: ou pagam ou arruino-vos o negócio, prendendo-vos os clientes! É uma vergonha e uma falta de nível. Um destes dias podiam ameaçar as fábricas de automóveis: ou pagam para a Prevenção Rodoviária, ou ficam proibidos de fabricar viaturas que dêem mais do que 120 à hora! Ou já agora, contra os advogados: ou pagam o que custa a falida Polícia Judiciária, ou descriminalizamos tudo e ficam sem clientes! Agora sim começo a lembrar-me do Presidente do Governo Regional da Madeira: tá tudo grosso!
1.4.06
O dia dois
Hoje que é o dia das mentiras quero ser verdadeiro: aprendi na vida a mentir por omissão. Calo-me, por exemplo, para não dizer a verdade. É uma forma de comemorar como qualquer outra. O meu receio começa já no dia dois, domingo.
31.3.06
Um espião português descoberto!
Actualizei o «blog» chamado «O Mundo das Sombras» com informações sobre o agente secreto português «Tomé», de seu nome Manoel Mesquita dos Santos. Infiltrado pelos alemães em Moçambique, em 1942 foi capturado, interrogado no Campo 020 e condenado a prisão, na qual permaneceu até ao fim da Guerra. Tivesse eu tempo para mais...
30.3.06
Em caso de terramotos!
Há na Embaixada do Canadá alguém com uma refinada inteligência diplomática: para se justificarem quanto ao facto de andarem a fazer um recenseamento dos canadianos [ou será canadenses que se diz?] que por aí andam, justificam-se que é só para o caso de terem de os prevenir, no caso de um terramoto. Perante isto e o que isto pode significar de espalhar a confusão e o terror junto da população de um país estrangeiro, espera-se o comentário de Freitas do Amaral. Acho que, no mínimo, seria justo convocá-los para aquilo que se chamam as Necessidades, a sede do MNE, quero eu dizer.
29.3.06
Muito exemplo e poucos exemplares
Visto os exemplares que se vendem, a glória de vir no jornal é de uma menoridade comovente. 48 mil compram e nem todos lêem o jornal «Público», 33 mil o «Diário de Notícias». O falecido Nunes, por exemplo, morre sem que a sua necrologia paga seja vista por muitos dos que no seu próprio bairro compraram a imprensa que a editou. O político da grande entrevista, a associação em crise de causas, a menina Ifigénia que foi assaltada no metro, todos, sem saberem coitados, falam para o boneco. São só exemplos, mas de casos exemplares. O José, da Grande Loja [a do queijo], esse diz a coisa se explica por uma «descredibilização generalizada», forma de dizer que as pessoas não lêem pois não acreditam. Por mim talvez nem seja isso. Vejam os jornais desportivos: as pessoas só acreditam no gooooolo que viram, mas vejam-nos ávidos a lerem no dia seguinte, linha a linha, o golo contado e recontado mesmo pelas mil maneiras que há de o transformar em frango. Eu, permitam-me que arrisque uma opinião, acho que as pessoas não lêem só por uma razão: preferem ver na TV. Ali há uma vantagem, a notícia passa mais depressa e vai-se embora num instante. Além disso, pode-se ir lavando a loiça, gritar com os miúdos ou cortar as unhas dos pés.
Fizeram «fufú» ao Alcaraz!
Há um site na Net que permite visualizar as primeiras páginas dos jornais. Tentei Portugal e saíu-me em Lisboa «O Público» e quanto ao Porto «O Jornal de Notícias», de Madrid veio-me o «El Mundo».Mas o mais interessante é o jornal «Primera Hora» que se publica em Guaynabo, Puerto Rico, e que titula, em manchete, a garrafais de primeira página, que fizeram um «fufú» a Alcaraz. Lendo com mais atenção chega-se à conclusão que o Alcaraz é o Secretário do Governo para os Transportes, que foi vítima de bruxaria, pois puseram-lhe à porta uma cabeça de leitão «com viandas». Ilustra a notícia uma foto da cabeça, a do Acaraz claro, a alegada vítima do dito «fufú». Perante esta notícia e o que ela simboliza de tantas coisas cruciais que os jornais relatam e uma pessoa não sabe, desisto! Vou passar a ler o «Borda d' Água»! Acho que ainda só há a edição em papel. Ajuda o hortelão e anuncia os mercados locais. De quando em vez traz uma inocente anedota, daquelas que fazem rir.
26.3.06
Papás ao ataque, cesarianas à defesa
A propósito de uma notícia que intitula «Mais de 10 mil cesarianas desnecessárias em 2004», o Diário de Notícias cita Luís Mendes da Graça, presidente do Colégio da Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos a dizer o seguinte: «em primeiro lugar, explica o especialista, o aumento do número de cesarianas em Portugal ficar-se-á a dever ao facto de "haver cada vez mais processos em tribunal de mães descontentes com o parto". O acto cirúrgico inscreve-se assim numa "estratégia defensiva dos obstetras, que é legítima", considera o responsável da Ordem dos Médicos». Ora aí está. Imagina-se no subconciente dos médicos parteiros a cena quotidiana: cada mamã que lhes entra pela frente, as contracções a aumentarem de ritmo, a bolsa das águas em vias de rasgar, a respiração ofegante e um ranger de dentes entre a dor e o medo, é para eles, a visão de um processo judicial à vista. Não é uma parturiente que aparece, encapsulada numa higiénica bata branca, é um causídico que lhes surge, envolto numa sinistra toga negra, não é a beleza de uma vida a nascer é a fealdade de um processo a instaurar-se. Na sala de espera, fumando nervoso, o paizinho sonha com o valor da causa e arrola testemunhas. Lá dentro, ao gabinete de enfermagem sucede o gabinete jurídico, às compressas e aos fórceps, o Código Civil mais a Colectânea de Jurisprudência. Defensivamente, por isso, não vá saltar de lá mais uma acção em tribunal, vai de cesariana. Quando o nângero solta o primeiro vagido, o clínico sente-se notificado pelo meirinho. Ao tomar-lhe o peso e as medidas, ainda o nascido babado da placenta, já o médico calcula quanto aquilo vale em termos de indemnização. Ao lavar as mãos, esgotado de um dia de trabalho, a equipe médica em vias de ser rendida, já pediu uma chamada para a companhia de seguros, pois coitaditos deles, cada dia de trabalhos de parto custa-lhes um dinheirão. Entretanto na casa em frente, em cada palheiro e em cada barraca, em cada condomínio de luxo, todas as noites e a todas as horas, casais legítimos, unidos de facto e parzinhos de ocasião fornicam à doida, fabricando mais processos, mais acções, mais indemnizações. Nove meses depois lá entram mais uns tantos em tribunal! Pobre Ministério da Saúde, desgraçado Ministério da Justiça. Leio o DN, é domingo de manhã, lá fora cantam os passarinhos, e imagino, angustiado como cidadão, preocupado como contribuinte, uma solução de emergência para isto tudo. Segunda feira, por decreto, o Governo ordena e a Imprensa Nacional publica a seguinte norma: artigo primeiro, é proibido f... para procriar, artigo segundo é reforçada a dotação do orçamento do ministério da Saúde na conta provisão para encargos suplementares com o montante necessário para fazer face a indemnizações com f... pendentes cujo efeito seja a gestação».
Os ladrões do tempo
Disseram-me ontem que durante a noite, por ordem do Governo, mudava a hora .E eu, nissso demonstrando a minha falta de inteligência, tenho sempre de fazer um grande esfoço para compreender. Todas as vezes é sempre o mesmo. Depois lá entendo o que vai ser com o «então amanhã quando forem sete já são oito». Mesmo assim, fica-me sempre uma íntima hesitação e a suspeita de que mais do que uma hora de sono, me roubaram uma hora de vida. E depois não querem que um tipo ande revoltado, se até o pouco tempo que nos resta o Governo nos rouba?
25.3.06
Só uma pontinha
José Sócrates disse que Marques Mendes tem «uma pontinha de ciúme» do Governo, que é o dele. A frase, creio eu, é duplamente significativa e duplamente equívoca. Dizer de um homem de pequena estatura que tem «pontinha», pode não ser amável, dizer de um outro que tem dele ciúme, pode não ser o mais apropriado.
24.3.06
Uma vida de tartaruga
Ao ter lido na imprensa que morreu, com 250 anos, a tartaruga mais velha do mundo, lembrei-me daquela do Oliveira Salazar que recusou a oferta de um tal animal, ainda muito pequenino, com base no argumento: «sabe, é que depois, uma pessoa afeiçoa-se aos bichos e custa-lhes quando eles morrem!». Passa-se o mesmo comigo! Talvez por amanhã fazer anos, fico com a ideia de que me está a custar morrer. É que, sabem, uma pessoa às vezes afeiçoa-se à vida e depois custa-lhe falecer!
A golpe de malhete!
A Grande Loja Nacional Portuguesa é uma das obediências maçónicas que agora existem, ao lado da Grande Loja Regular de Portugal, a Grande Loja Legal de Portugal, e do velhinho Grande Oriente Lusitano e outras que nem eu sei. Segundo diz a imprensa que vejo esta madrugada, vai abrir em Congresso «para desmistificar a Ordem e transmitir os seus valores de cidadania». Pois bem. Se estamos mesmo numa de «desmistificar», talvez não seja inoportuno inscrever na agenda um tema: segundo a clássica definição, emanada das Constituições de Anderson, de 1723, a Maçonaria é uma sociedade iniciática de homens «livres e de bons costumes». Ora aí está um belo momento, para inventariando todos os obreiros que da pedreiragem se reclamam, definir o que sejam os ditos «bons costumes». Talvez se desmitificasse, enfim, muita coisa! Muitas coisa mesmo!
23.3.06
Portugueses refugiados!
Portugueses distintos, eméritos, notáveis, portugueses emigrados. Portugueses que foram e são alguém. fora de Portugal, estão aqui. Repito o que li: nós não somos os descendentes dos que foram à Índia, mas sim dos que cá ficaram.
Orgulho de pai
Com uma diversificada actividade na blogo-esfera e outra menos variada em outras esferas, é só para lembrar que actualizei «O Mundo das Sombras» com um texto que nem sei como consegui escrever e que a gentileza da revista «Mea Libra», que acaba se ser divulgada na sua última edição, permitiu viesse à luz do dia. Talvez quem isto leia pense que é vaidade minha vir aqui dizê-lo. Confesso-o: é-o de facto. Um pai orgulha-se dos seus filhos, ainda que sejam de um mundo em papel. Ah! O texto é sobre o escritor Graham Greene, a sua vida secreta, a sua ligação aos serviços secretos. Talvez um dia dê um livro, quem sabe!
Notícias, frescas e molhadas
O conceito quotidiano de «notícias» é equivalente àquilo que se sabe ou, melhor dizendo, àquilo que a uns consta, ou melhor ainda, àquilo que dizem constar, ou para se ser mais exacto, àquilo em que se repara que eles disseram que lhes constava. Claro que, no meio disto tudo, há aquilo que sucedeu. Mas no fragor deste torvelinho, essa realidade inatingível é aquilo que menos interessa. Hoje, por exemplo, quem me visse a correr, diria que a notícia era eu andar a fugir da própria sombra. A única diferença entre isso e o real é só o não estar sol mas uma carga de água, e o ter-me esquecido do guarda-chuva.Por isso, ante tal «notícia», um lauto comentador, daqueles que pomposamente se intitulam de «opinion makers», perguntar-se-ia especulativa e doutamente «o que faz correr Barreiros?». O magro repórter, dos que aguentam horas a fio por um momento da vida que alegre os editores, diria, sem eco algum na redacção: «o estar alagado até aos ossos», verdade que estragava logo o interesse do assunto.
22.3.06
Cobranças duvidosa
Acordo pela manhã e leio: «o total de crédito bancário com cobrança duvidosa a particulares no final de Janeiro ascende a 2,08 mil milhões de euros, o máximo de pelo menos cinco anos». Mas a notícia continua: «A finalidade «habitação» leva cerca de 80% do total emprestado». Eis os modernos servos da gleba, amarrrados à grilheta do imóvel, serventuários do imobiliário, suportando a corveia bancária. Ei-los, jovens casais adquirindo o que sonham ser a casa sua, o lar do seu parceiro, o ninho dos seus filhos, ei-los solitários convictos, conformados divorciados, resignados viúvos, ei-los todos, hipotecados ao último refúgio, o covil do remanescente que a vida lhes dá. A vinte e cinco, a trinta anos de servidão adscrita, pelo juro anatocista escravizados, ei-los inscritos na rubrica da cobrança duvidosa, um número, um momento das estatísticas, uma vergonha de vida e um escândalo de sociedade. Eis o mundo em que nos cabe viver, o da usura e do calote.
21.3.06
Egoísmo partidário
Li esta manhã que o antropólogo Miguel Vale de Almeida, um dos rostos mais conhecidos do Bloco de Esquerda, abandonou a vida partidária, numa atitude, segundo o próprio, quase «egoísta». Todos os dias nos surpreendemos. Eu estava convencido que uma pessoa hoje se inscrevia num partido precisamente por uma razão egoísta, quando afinal também por causa disso é que de um partido se sai.
20.3.06
Viver só do ordenado...
Quando uma presidente de Câmara garante em «tribunal viver apenas do ordenado de autarca e de uma pensão, sustentando assim não ter meios para pagar a multa de 12.500 euros a que fora condenada por difamação», pode não estar a difamar todos os outros que, vivendo na aparência apenas do ordenado de autarca, fazem a vida que se lhes conhece: é que, nolens volens, pode estar mesmo a querer a dizer a verdade, toda a verdade, aquela que muitos fingem não querer ver.
19.3.06
Uma grande lata
Porque é que alguém que pretende passar por sério, honesto e exemplar convida, nomeia ou se rodeia de alguém cuja fortuna rápida nem o próprio consegue explicar, e de quem se murmura o pior, da honorabilidade à respeitabilidade? Porque é que eu, ridículo nesta pergunta e ingénuo no que ela supõe, ainda perco tempo com isto? Com o que há de importante na vida, basta-me o consolo de não os convidar para minha casa, onde, aliás, quase ninguém entra. Não é que me fanassem o faqueiro de prata, que não tenho, é porque poderiam tentar vender-me um, em lata, como se de prata fora. Vendê-lo, depois de o terem gamado, não duvido.
17.3.06
Conselho de Estado: o ponto final
Devorado pelo trabalho, soube apenas hoje os nomes dos novos membros do Conselho de Estado. Fiquei totalmente esclarecido, se dúvidas tivesse, se ilusões me restassem. Não é nada que eu já não pressentisse, acreditava é que não fosse possível ir-se a tal ponto. E por falar em ponto, para mim, é mesmo ponto final.
O prenúncio
Capital do chique burguês, a desordem nas ruas em Paris prenuncia sempre o fim de uma estação política. Claro que mal governada agora por políticos de segunda ordem, povoada cada vez mais por emigrantes de países de terceira classe, à mercê dos párias e dos desesperados, a França treme. Os estudantes estão na rua e com eles o rastilho. A polícia sabe que estão todos em cima de um barril de pólvora. Os seus filhos e os filhos dos seus patrões misturam-se, raivosos e incendiários.
14.3.06
Privatização, oh! Diabo...
Assumindo uma perspectiva teológica e não marxista, o dirigente dos comunistas portugueses disse que «a 'diabolização' da administração pública a que temos vindo a assistir, responsabilizando-a por tudo o que de mal existe em Portugal", visa "criar no País um clima propício à liberalização" de serviços, designadamente, de educação e de saúde, e ao "corte de direitos e regalias dos seus trabalhadores"». Penso que Jerónimo de Sousa está inspirado no último livro de José Saramago «As intermetitências da morte» quando ironiza que no dia em que as pessoas deixam de morrer a Igreja perde a sua razão de ser. No caso do prémio Nobel, a ideia é que por causa do medo do Inferno, os crentes professam uma religião, na ânsia do céu. No caso de José Sócrates, a ideia é que, com medo dos diabos dos funcionários, os contribuintes preferem os profetas da privatização. Entre uma opção e outra, venha o Diabo e escolha!
12.3.06
A tasca dos doutores
«Eu sou o único comentador isento em Portugal». Quem o dissse foi o Miguel Sousa Tavares que tem, de herança paterna, aquela virtude da modéstia e uma total ausência de auto-convencimento. Tal como o Vasco Pulido Valente, é dos que não estão irremediavelmente convictos de terem a verdade na barriga. Tal como os da sua laia, têem uma multidão de espectadores e ouvintes. Nada como um povo de labregos para se embasbacar perante os doutores. Em cada tasca há sempre um, à sua escala: escorropichando copinhos, botam faladura!
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