Eu, pontual, compro, regularmente, os jornais, livro-me, organizado, do inútil que eles transportam e não vou ler. Depois, meticuloso, enaipo-os uns em cima dos outros, os maiores por baixo, os suplementos em cima, por tamanhos. Os que tratam de cultura, meto-os na pequena pasta, para ter a certeza de ler depois. Na semana seguinte, tanta vez fica tudo por ler. Comigo, a pequena pasta, qual mala de porão para os monótonos itinerários transatlânticos desta vida, é como se uma forma de eu saber da estupidez deste meu viver. Eu compro sempre jornais. Para muita gente é assim que sabem o que por aí sucede. Para mim é uma forma barata de ignorá-lo!
30.9.06
28.9.06
22.9.06
Uma procuradoria que procura
Ou eu me engano muito, e engano-me de facto bastas vezes e passo a vida a ter dúvidas, ou o Presidente da República, que queria ter na justiça a paz e a concórdia, de que o governo fez pacto, acaba de criar uma nova variante de Procuradoria, aquela que procura conflitos. O estilo directo, a ausência de peias de Pinto Monteiro contrasta fortemente com o labiríntico Cunha Rodrigues e com o crédulo Souto Moura. Hoje já vieram os do Conselho Superior da Magistratura dizer que ele, o novo PGR, os ofendera numa entrevista anterior, o que «não augura nada de bom para o relacionamento entre os dois órgãos». Claro que a vida está repleta de casos em que, no final, todos convivem de palmada nas costas. Só que a vida onde esses afrontamentos públicos terminam em confraternizações privadas é a vida política. E ou eu me engano muito ou a politização total da Justiça está à vista: jogos de poder, luta por cargos, ânsia de protagonismo, a função como um meio, a gestão do tempo, da imagem, tudo aquilo que os políticos fazem, eis.
O tempo se encarregará de mostrar para onde vamos. Eu se fosse político, exultava ao ver os magistrados comportar-me como eu, em ânsia pelo poder. Clones de mim, cada um seria um gérmen do virús que leva no fim ao descrédito total. E é disso que se trata.
21.9.06
Trancado com um livro
Hoje não estou cá. Não por ter passado o dia enclausurado dentro de uma sala de tribunal, porque isso, de há uns largos meses a esta parte acontece quase sem excepção. Mas porque, ao ser noite, encerrei-me, para tentar acabar a leitura de um livro que amanhã apresentarei na FNAC do Chiado, pelas 18:30. O livro não pára de me surpreender, desmentindo a capa, o título, a ideia feita que eu tinha sobre o seu autor. Chama-se «Túmulos Caiados», por ser a frase do Evangelho segundo São Mateus: «Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a túmulos caiados: formosos por fora, mas por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície». Conheci o autor, o Pedro Krupenski, por causa do Direito, vivendo entre os Doutores da Lei e outros fariseus hipócritas. Como o seu livro me impressiona, trancado que estou esta noite a lê-lo, para que amanhã o saiba de cor.
18.9.06
Feminismo etílico
De facto, como já me dei conta, as estatísticas estão na moda, mesmo as mais ridículas. Num canto escondido de um jornal de hoje vinha que «as mulheres que bebem socialmente recebem mais 14% do que os abstémios, enquanto que os homens ficam pelos 10%. Na qualidade de defensor da masculinidade abstémia, protesto! Não que, como macho, queira receber mais do que fêmea fora e não quero nem uma coisa nem outra! Quero é saber o que é esta do «beber socialmente». Com tanta estupidez à solta, só largando a beber para esquecer!
17.9.06
Efectivamente
O Governo anunciou, segundo li na imprensa, que medidas de efectivo combate à corrupção irão ser anunciadas em Abril. Só não consegui descobrir em que dia. Será no dia 1?
15.9.06
Quantos dias, tantos dias
A mania das estatísticas está na moda. Estamos perante o mercantilista reino da quantidade. Hoje fiquei a saber que há cinco casos mortais por dia de cancro na próstata. Soube-o porque a mania dos dias está na moda: outro dia foi o dia da enxaqueca, hoje foi o Dia Europeu das Doenças da Próstata. Ainda hei-de averiguar onde é que estas coisas estão escritas, pode ser que não haja o dia de coisa nenhuma. A coisa tinha duas vantagens: evitava-se o ridículo comemorativo e passava-se à ligar à vida independentemente do quanto é.
14.9.06
A nulidade
Decididamente está visto! Vim para Direito por ser uma nulidade em matemática. Pois se até ao calcular 16% de dez milhões me engano, e escrevo 160 mil em vez de um milhão e seis centos mil! Obrigado pela rectificação! As minhas desculpas a quem leu. Mas, já agora, por amor à verdade, o número exacto dos inteligentes em Portugal tem que ser um milhão, quinhentos e noventa e nove mil e noventa e nove, porque eu, apesar de sofrer de enxaquecas, tenho que entrar na categoria dos burros, pois nem aritmética aprendo!
PS. Desisto! Não é que me tornei a enganar! Em vez de um milhão noceventos e .... pronto! Não vale a pena! Está feita a prova! Cada um é mesmo para o que nasce. E eu, em matéria de contas, é melhor capacitar-me de que é assim.
P. S. Acima as letras «nt» vão a bold porque estava escrito «ineligentes», o que permitiu a irónica rectificação de um leitor. De facto, não são só erros nas contas, é também na ortografia. Será que eu passei pela 4ª classe?
13.9.06
Condenações e promoções
Leio num jornal diário: «as promoções na Polícia Judiciária vão ter em conta o resultado das condenações obtidas em Tribunal, adiantou ontem ao CM fonte oficial do Ministério da Justiça». Eu nem quero acreditar que isto seja verdade! É que na minha ideia a PJ serve o MP e o MP deve pautar-se por espírito de objectividade. Se a ideia é verdadeira, é a subversão total os princípios em que assenta a Justiça Penal.
Mas o que me espanta é que confrontado com esta possibilidade, Carlos Anjos, presidente da Associação Sindical de Funcionários de Investigação Criminal da PJ, a considere «um disparate profundo», mas acrescente que: «isso só seria possível se quisessem dar à PJ a competência toda nas investigações criminais, o que eu não acredito nem acho que seria benéfico».
Mas isto é assim? Os da PJ achariam bem serem promovidos em função do número de pessoas que conseguissem fazer condenar? Se isto anda assim, é caso para gritar: ó da Guarda, mas Guarda Republicana, claro está!
Mas o que me espanta é que confrontado com esta possibilidade, Carlos Anjos, presidente da Associação Sindical de Funcionários de Investigação Criminal da PJ, a considere «um disparate profundo», mas acrescente que: «isso só seria possível se quisessem dar à PJ a competência toda nas investigações criminais, o que eu não acredito nem acho que seria benéfico».
Mas isto é assim? Os da PJ achariam bem serem promovidos em função do número de pessoas que conseguissem fazer condenar? Se isto anda assim, é caso para gritar: ó da Guarda, mas Guarda Republicana, claro está!
12.9.06
Politicamente cioso
Eu não queria acreditar quando vi hoje, ao fim do dia, no suplemento de economia do «Diário de Notícias», que o primeiro-ministro Jacques Chirac, ao apresentar, logo precisamente ao seu homólogo espanhol, José Luís Zapatero, o colega de Helsínquia, o fez dizendo «deixe-me apresentá-lo ao homem mais sexy da Finlândia». O jornal não diz qual foi a reacção dos apresentados. O saleroso castelhano talvez não esperasse tanto. A partir daqui os dirigentes nacionais que se cuidem: anda por aí, pelos corredores das chancelarias, um perfume adocicado no ar, o cio como parte da cortesia política masculina.
O dia das cefaleias
Dizem-me, para me consolar, que a enxaqueca é a doença das pessoas inteligentes. Não que quem a não tenha seja estúpido. É só porque os doentes que dela sofrem têm o cérebro mais irrigado e por isso a cabeça rende-lhes mais. Na maioria dos dias não tenho dado conta disso. Agora fiquei foi perturbado ao ler na imprensa que «16% da população portuguesa sofre da doença». Quer dizer que andam por aí 160 000 inteligentes à solta sem nós apercebermos e sem que o país os utilize. Ora hoje é o primeiro dia Europeu da Enxaqueca. Não sei como haverei de comemorar: talvez com uma marretada na pinha, que estou farto de estar aqui há horas a trabalhar!
P. S. Decididamente está visto! Vim para Direito por ser uma nulidade em matemática. Pois se até a calcular 16% de dez milhões me engano, e escrevo 160 mil em vez de um milhão e seis centos mil! Obrigado pela rectificação! As minhas desculpas a quem leu. Mas, já agora, por amor à verdade, o número exacto dos ineligentes em Portugal tem que ser um milhão, quinhentos e noventa e nove mil e noventa e nove, porque eu, apesar de sofrer de enxaquecas, tenho que entrar na categoria dos burros, pois nem aritmética aprendo!
11.9.06
Sócrates em bicos de pés
Há em muitos dirigentes de Portugal uma falta de sentido das proporções, um agigantar-se que os torna por vezes caricatos face à sua real pequenez. Veja-se que segundo a imprensa: «o primeiro-ministro português, José Sócrates, incentivou hoje, véspera do quinto aniversário do 11 de Setembro de 2001, os líderes da Europa e da Ásia reunidos em Helsínquia a fazer mais pelo combate ao terrorismo». Ante tal arrogância empertigada, a pergunta que os líderes da Europa e da Ásia deveriam fazer entre dentes, bem pode ter sido algo do género: «mas quem é este tipo?». Isto se não repararam que cá na terra até as criancinhas espancam à vontade professores nas escolas, como eu disse aqui. Mas não haverá vergonha e modéstia nesta gente?
10.9.06
O pacto e a pateada
Eu, pois que vejo pouca televisão, quase nunca vejo comentadores televisivos e muito menos aqueles que têem sempre opinião sobre tudo, enciclopédias ambulantes do imenso saber e megafones do alto dizer. Mas ao ver o Marcelo Rebelo de Sousa a afirmar há momentos como é que Marques Mendes e José Sócrates fizeram o favor ao país de tirar a Justiça do fundo em que havia enfim tocado, pensei naqueles magistrados que estão contentes a bater palmas ao pacto e que, ao verem a RTP-1, ficaram agora a saber que se estão, afinal, a vaiar a si próprios!
Dormir juntos
Leio no jornal «Público» de hoje uma notícia que vem intitulada «Dormindo juntos pela fé». O texto reza: «Alguns fiéis dormem juntos, ao ar livre, aguardando a missa que o Papa Bento XVI celebra hoje em Munique. O Sumo Pontífice está de visita ao seu estado nativo da Bavária». Fiquei mais sossegado. Nós que tantas vezes nos surpreendemos no dormir juntos pelo pecado, descobri que também o podemos fazer pela fé. Haja esperança!
Violência à solta
«Sabemos que muitos [...] têm receio de se expor ou de reconhecer que estão com um problema de controlo das situações, acrescenta. A indisciplina dos [...] leva-os muitas vezes ao desespero e "a linha quer dar-lhes o apoio e a formação que lhes permita lidar com situações de conflitualidade". O ideal é "evitar que as agressões ocorram efectivamente"».
Sabem de que se trata, pois eu escondi as palavras que o permitiria compreender? De uma linha telefónica para os professores poderem expor as situações de violência a que estão sujeitos por parte dos alunos!!!
Ante isto eu pergunto: mas que sociedade miserável é esta em que vivemos?. Nós, os que fomos educados nas décadas de cinquenta e sessenta e que tão revoltosos fomos para com o conservadorismo educacional dos nossos pais, que fauna selvática vamos deixar para o amanhã? Não deveríamos ter vergonha na cara? Não deveríamos pedir-lhes desculpa pela arrogância com que os enfrentámos quando eles nos queriam educar? Ante esta marginalidade brutal à solta nas escolas, não percebemos que falhámos redondamente como cidadãos e educadores?
Os números oficias do Gabinete de Segurança do Ministério da Educação dizem que «registaram-se, no ano lectivo 2004/2005, mais de 1 200 casos de violência escolar nos estabelecimentos de ensino portugueses. Estes obrigaram um total de 191 alunos, professores e funcionários a receber tratamento hospitalar devido a agressões».
Edificante não é senhores políticos? Fantástico não é senhores progenitores-cidadãos? Que belo exemplo estamos a dar agora que vivemos em democracia e em liberdade!
9.9.06
Pacta sunt servanda
Por estar na moda, hoje fiz um pacto comigo mesmo. Porque secreto, escondi-o aqui.
O chique e o Chico
Há uma crónica risonha do Artur Portela Filho, penso que daquelas que ele publicava no efémero «Jornal Novo» ou que ele editou em «A Funda», na qual ironiza o nascimento do «Expresso». É um texto divertido, sarcástico, daqueles que são um notável tónico para o fígado. Nele, um personagem fictício mas onde logo se descobre o Francisco Pinto Balsemão, desdobra, luzidio de vaidoso e num jactante «já está!», o primeiro número do seu «O Palmelense», pois a sede inicial do jornal era na Rua Duque de Palmela, e a propósito do formato longo e imenso do jornal, dizia algo como - e cito de memória -: um jornal chique, daqueles que se lêem, assentando-os ao longo da perna traçada, no sofá do clube. Era assim, em contraste com as «folhas de couve», os pasquins da classe média, a sujarem as mãos, impressas por revoltados tipógrafos, de «insolentes gangas», e lidas por gentinha «a cheirar a calote e a pastel de bacalhau com vinho tinto». Tudo isso hoje mudou. Os tempos vão duros. Por isso o «Expresso», de há muito que deixou de ser chique e com a idade descobriu-se hoje que tinha encolhido. Francisco Pinto Balsemão vê-se na contigência de ter enfrentar a concorrência. Ele sabe que basta roubarem-lhe vinte mil leitores e o mundo a seus pés começa a ruir-lhe.
8.9.06
Pato com laranja: não obrigado!
Eu não pensava ter de voltar a isto. Mas ao ver algumas das reacções que por aí andam, fico tão atónito que não resisto. Tem a ver com o pacto. Para mim a questão é esta: os dirigentes do PS e do PSD tramaram secretamente um pacto sobre a justiça. Ambos desprezaram os órgãos dos partidos a que pertencem, sujeitando-os ao ridículo do facto consumado, para já não falar nos seus militantes, que é como se não existissem fora as horas demagógico-comicieiras, à conta de cujo esforço e paciência aliás sobrevivem. Claro que nesta do pacto o PS comeu o PSD, porque o engenheiro Sócrates é mais hábil que o Dr. Marques Mendes. Apanhou-o a dizer que sim e agora enche a boca a falar no pacto como se fosse só seu. Com todo o respeito e muita vénia por ambas as Excelências, um tem o pacto, o outro fez de pato. E já agora, o engenheiro manda o Dr. Alberto Costa, que até aqui estava de serviço à repressão judiciária, como se fosse o Ministro do Interior dos Tribunais, dizer maliciosamente aos outros partidos que se quiserem «podem» aderir à nova União Nacional. Está-se a imaginar a adesão que isto lhes deve dar.
Acordo secreto, o pacto vai ter que ser engolido pelo Governo, pelos deputados e, claro, imposto à sociedade civil. Numa só penada, viola-se a transparência, a participação, a cidadia, os três pilares de uma democracia numa sociedade civilizada.
O que me espanta é como é que, de repente, vejo tanta gente tão contentinha com o que se passou. Eles nem sabem o que é o pacto diz. Eles nem sabem a sorte que os espera. Mas estão todos felizes, porque finalmente reina paz, concórdia, calma, estabilidade, entendimento entre os dois partidos que, afinal, são quem manda. Toda a esquerdalhada do antigamente, todos aqueles que no tempo do cavaquismo viam em cada pio do ministro Laborinho Lúcio, magistrado sério e esforçado, um ataque à independência do judiciário, à autonomia do MP, estão todos expectantes, de mão estendida, subservientes. Como esta gente está tão rendida às conveniências, como esta gente está aburguesada, como é fácil governar assim, num país de pactos.
Francamente, este não é já o meu mundo. Se isto é a democracia partidária, se isto é a Constituição, risquem-me. Entro hoje na clandestinidade. Eu sei que pareço um conservador por fora. Ainda bem. Mas acho que é a minha hora de dizer, não foi para isto que se fez o 25 de Abril.
O pacto secreto sobre a Justiça
O «pacto sobre a Justiça» é em termos de legitimidade democrática uma vergonha, em termos de eficácia política, um erro.
O pacto prova que há nos Estados-Maiores dos dois partidos que são rotativamente governo cabeças que pensam e decidem e no Parlamento, que é a representação nacional, braços que votam sim e votam não, mas sempre o que lhes mandam votar. O pacto é o apoucamentos dos deputados livres pelos caciques partidários.
Como se sabe, a Justiça é um tema da exclusiva competência do Parlamento. Pareceria aos ingénuos que caberia aos deputados discutir livremente e votar em consciência a reforma penal, a do processo penal e da organização dos tribunais. Ante o pacto, fica claro: no Parlamento vota-se aquilo que os chefes dos partidos mandam.
Pior, o pacto é um pacto secreto. A democracia é transparência, mas hoje de manhã, todos os que andam pelos tribunais perguntavam-se, uns aos outros, se já sabiam alguma coisa. O pacto mostra que a política é hoje um negócio escuro.
Enfim, pensam os dois partidos que repartem entre si o Governo que podem fazer uma arranjinho entre si em matéria de Justiça, desconsiderando os outros partidos e que a coisa vai dar bom resultado. É só não conhecer o mínimo da composição socio-ideológica das magistraturas e a disseminada suspeita que ali se começa a grassar quanto a tudo que cheire a partido, para ter esperanças de que a coisa é para acabar em bem.
O pacto é a expressão do desprezo que os dos partidos votam à sociedade civil. A democracia prisoneira dos partidos, os partidos reféns dos seus chefes, à Justiça à mercê da política, não se estranha que desde ontem, mal cheirou a pacto, os politiqueiros que pela Justiça pululam e a vêem como uma forma de poder, já andassem pelos escaninhos da política a tentarem saber. Com um pacto secreto, se calhar, coitados, tiverem que andar por subterrâneos onde deve cheirar mal.
Ante o pacto, todos fazemos figura de patos.
P. S. Há sempre o argumento segundo o qual o pacto dá à Justiça a ideia tranquilizadora de estabilidade, já que os partidos que mandam, finalmente, se entenderam. É verdade. Foi essa a vantagem da Ditadura Nacional de Oliveira Salazar. Reinava a paz, nem que fosse a dos cemitérios.
7.9.06
A travessia no deserto
Uma pessoa abre os jornais e só vê candidatos e pré-candidatos. Ainda os titulares dos cargos estão em funções e já se perfilam os seus ansiosos sucessores. Por todo o lado surge gente «disponível», como dizem, em trottoir, os mais atrevidos, «que não excluem a hipótese», como anunciam, com manha, os mais maliciosos, «que não abdicam do direito a», como se enfeitam, a dar ares de cidadania, os mais refinados. Uma coisa é certa. Antigamente ainda se faziam rogados, punham ar compungido e mão no peito, a simular o sacrifício, a mostrarem-se a contra-gosto. Hoje está na cara que estão todos mortinhos pelos lugares. Mais; organizam-se em grupos, em torno de um papel, que é para esquecer, chamado programa, que é uma forma de salvarem o mundo com palavras e combinas intestinas sobre quem vai ficar com o quê, que é uma forma do ninguém arreda pé. Uma pessoa como eu abre os jornais e sente-se o ser mais livre da terra, por não ser, não pensar em ser, não querer ser, candidato a nada! E não venham que não se diz desta água não beberei que eu sou mesmo camelo suficiente para morrer à sede.
6.9.06
Aprende a nadar companheiro
«Ontem à noite foi inaugurado o 22º casino de Macau», escreve-me, contristado, um amigo, ali residente. Quando por lá andei à volta dos poucos casinos, pululavam, quais abutres, casas de penhores. Havia quem deixasse no «prego» o bilhete de regresso a Hong-Kong. Hoje devem regressar a nado.
5.9.06
A lei do lucro
Eu, ao contrário do que possa parecer, não sei nada de futebol e sei pouco de Direito. Trouxeram-me há pouco o «Correio da Manhã» para eu ler um artigo do jornalista Rui Cartaxana onde se diz a abrir que «os juristas é que fazem as leis - a maior parte dos deputados e dos políticos, os nossos legisladores, são licenciados em Direito - e fazem-nas sempre a pensar em si próprios e no seu futuro. As leis devem ser ambíguas, permitirem diversas interpretações, abrir leituras para vários lados, de modo a que, algum dia, possam tirar partido delas e, quem sabe, ganhar dinheiro». Nunca vi uma acusação tão grave sobre os nossos legisladores e acho que nunca verei qualquer réplica a este repto. Não que o assunto da ambiguidade das leis não mereça discussão. O problema é saber se há quem perca com a discussão, nem que seja a cabeça.
4.9.06
Os empregados e os ociosos
Há um português adora exprimir-se por meias-palavras, e dizer as coisas graves a meia-voz. É o português que vive a vida social como uma sacristia beata e o exercício da opinião como uma variante do confessionário. Vem isto a propósito dos desempregados.
Veja-se esta notícia: «No primeiro semestre do ano chegaram ao Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) perto de nove mil propostas de emprego para os desempregados ali inscritos. Segundo a edição de hoje do Jornal de Notícias, apenas 4.700 dessas vagas foram preenchidas por pessoas à procura de emprego (...) Perto de 4.200 postos de trabalho ficaram por preencher, apesar do total de desempregados inscritos no instituto rondar os 460 mil».
Veja-se esta notícia: «No primeiro semestre do ano chegaram ao Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) perto de nove mil propostas de emprego para os desempregados ali inscritos. Segundo a edição de hoje do Jornal de Notícias, apenas 4.700 dessas vagas foram preenchidas por pessoas à procura de emprego (...) Perto de 4.200 postos de trabalho ficaram por preencher, apesar do total de desempregados inscritos no instituto rondar os 460 mil».
Ante isto uma pessoa pergunta-se: mas será que o desempregados não querem trabalhar?
Eis um porta-voz oficial a exprimir-se:
Além da falta de aceitação das propostas de trabalho feitas pelo IEFP, verifica-se ainda o o problema da falta de comparência dos utentes às convocatórias do instituto. Entre Janeiro e Outubro do ano passado 100 mil pessoas não compareceram no IEFP ou, se compareceram, não foram depois apresentar-se às empresas proponentes ou não aceitaram o posto, refere o jornal.
O presidente do instituto, Francisco Madelino, assume que «ter metade das ofertas (preenchidas) não satisfaz». Em entrevista ao JN, o responsável enumera cinco motivos: «primeiro, um desajustamento entre as qualificações dos trabalhadores e o que as empresas desejam; depois, vêm parar aos centros de emprego muitas ofertas com remunerações muito baixas; há também diferenças de expectativas entre os mais jovens e a realidade do tecido produtivo, cujas ofertas não são condizentes com as expectativas das pessoas; também há problemas de mobilidade geográfica; e, não vamos ignorar, em que a relação com o subsídio de desemprego não joga a favor».
Além da falta de aceitação das propostas de trabalho feitas pelo IEFP, verifica-se ainda o o problema da falta de comparência dos utentes às convocatórias do instituto. Entre Janeiro e Outubro do ano passado 100 mil pessoas não compareceram no IEFP ou, se compareceram, não foram depois apresentar-se às empresas proponentes ou não aceitaram o posto, refere o jornal.
O presidente do instituto, Francisco Madelino, assume que «ter metade das ofertas (preenchidas) não satisfaz». Em entrevista ao JN, o responsável enumera cinco motivos: «primeiro, um desajustamento entre as qualificações dos trabalhadores e o que as empresas desejam; depois, vêm parar aos centros de emprego muitas ofertas com remunerações muito baixas; há também diferenças de expectativas entre os mais jovens e a realidade do tecido produtivo, cujas ofertas não são condizentes com as expectativas das pessoas; também há problemas de mobilidade geográfica; e, não vamos ignorar, em que a relação com o subsídio de desemprego não joga a favor».
É notável. O que este senhor Madelino quer dizer com esta do «a relação com o subsídio de desemprego não joga a favor» ´é seguramente que há uma cambada de parasitas que, vivendo à conta do subsídio de desemprego, não está para se ralar a trabalhar. Só que di-lo assim, melífluo, doce, sussurante e sibilante, politicamente correctíssimo, claro.
3.9.06
Uma curva apertada
O «Diário de Notícias» bem se esforça por ser um jornal de referência, mas depois há coisas como o suplemento de domingo, onde há uma secção sobre saúde na qual existe um «consultório», onde um «professor de saúde pública», responde a uma menina de Vila Real de Santo António que lhe coloca a grave questão «como é que posso saber se o meu namorado se masturba». Pior, é que no «Diário de Notícias», que bem se esforça por ser um jornal de referência o dito professor, no referido consultório, da mencionada secção, responde à elagada menina, dizendo «acho que a melhor maneira é perguntar-lhe directamente, até porque instalar um sistema de vídeo ou contratar um detective é capaz de ser pouco prático, pouco ético e sair um bocado caro». Claro que um tipo lê isto e sente como jurista vontade de avisar a menina que instalar o vídeo é mais do que «pouco ético», é crime, sente ganas, como leitor, de mandar uns berros por escrito, ante esta mediocridade de perguntas e de respostas, e sente, como ser amoroso, vontade de escrever à menina a dizer que, talvez seja melhor ela perguntar-se porque é que o onanista namorado, tendo-a para namorar, se fará tais coisas. Mas se calhar é pouco prático, pouco ético e sair um bocado caro, não vá a menina ofender-se e processar-me. Por isso, cala-te boca. Ah! Só mais uma: a douta resposta termina assim, de modo científico: «se ele ficar roxo ou se a mandar dar uma curva, não se admire...». Já percebi: é capaz de ser uma questão de falta de curvas...
Aguentar!
«Tenho tempo para tudo, porque faz parte das minhas obrigações», diz José Sócrates para justificar que mantenha a liderança do partido e a chefia do Governo. Ele não explica é quais são as obrigações. Mas entende-se. A obrigação de um político é, no pau de sebo que é a política, aguentar-se no poder. Mal lá chega, há logo a chusma dos opositores e dos correlegionários para ao arrearem. Ora Sócrates, esperto, sabe que quem vai ao mar perdeu o lugar, quem vai ao vento perdeu o assento. Então no PS! Por isso agarra-se com unhas e dentes, todo o tempo.
2.9.06
Adeus, Indy
Acabou «O Independente». Quando surgiu, dizia-se que a redacção era metade a Universidade Católica e metade recrutada no «Frágil», uma boîte in da Lisboa nocturna. Azougado, foi um jornal que pôs a malta nova a ler jornais, coisa nunca antes vista ou alguma vez imaginável. A geração do «eu quero o joystick, que se lixe a politik» tinha à sexta-feira a sua rave em tablóide! Aquilo era o «Blitz» em notícias!
Depois, foi aquele estilo fresco e inovador do Miguel Esteves Cardoso, a escrita do paradoxo, o gozo permanente sobre o nosso ridículo quotidiano. Acusado pelos velhos da esquerda de fascista e acusado pelas tias da direita de traidor, antes de se tornar adulto e de ter escrito um livro a dizê-lo, ele deu um ar de frescura a um país tipograficamente envelhecido, descobrindo «a causa das coisas». O Miguel engordou, envelheceu, conformou-se consigo, e acabou.
Apareceu então uma segunda série, com um jovem Paulo Portas, esforçado batalhador, fixado na ideia irrealizável de bater as vendas do «Expresso», o jornal que todos compram, mesmo já sem saber para quê. O cavaquismo no poder e Cunha Rodrigues no anti-poder deram a fórmula do sucesso. Se vinha em «O Independente», estava no DIAP. Se não ainda não estava no DIAP, estava para estar! Um a um, caíam ministros e choviam processos. Nesses tempos gloriosos, passava-se metade do tempo na redacção a outra metade nos tribunais a responder por difamações. Imagino que houve dias em que o jornal foi fechado nos corredores dos «juízos correcionais». Só que o Paulo, lei fatal da vida, envelheceu também, ganhou os tiques dos adultos, quis ser político, ministro, essas coisas que dão reumatismo mental. Vimo-lo comer a sopa onde vomitara, gaspacho sem graça, refeição tristonha.
Eis, enfim, o vazio. Coube a Inês Serra Lopes, tentar manter heroicamente o jornal. Já não era possível. Salvo o «Diário da República», um jornal tem de ter uma linha editorial. Para sobreviveram, há os que, picantes, apostam nas glândulas mamárias na primeira página, outros, louvaminhas, nos sucessos do Governo. O Indy tinha envelhecido e com isso entrara no caminho do saiba morrer já que viver não soube. Ontem ao ver aquela edição de luto, a última, senti uma tristeza na alma. No dia em que morre um jornal, é menos uma voz. Eu sei que às vezes dá raiva lê-los, mas antes isso que não os ter.
28.8.06
E agora?
Segundo li aqui «os fumadores de cachimbo que inalam vivem tanto como os não fumadores e os que não inalam vivem mais que os não fumadores». E eu, que sendo fumador ocasional de cachimbo, que agora estou na dúvida, pois não me lembro se inalo ou se não inalo! É o que se chama uma questão de vida ou de morte.
Veiga de Oliveira
Soube agora que morreu Álvaro Veiga de Oliveira. Há sempre algo de trágico na naturalidade que é a morte. No caso foi ter lido que se soube hoje ter ele morrido quinta-feira, com tudo o que isso significa de nos apercebermos do que, afinal, inexoravelmente já passsou. Conheci-o, superficialmente embora, era ele ministro do VI Governo Provisório, dirigido pelo destemido Almirante Pinheiro de Azevedo, era eu um jovem rapaz, secretário por isso daqueles tumultuosos Conselhos de Ministros, que se repetiam às vezes várias vezes por semana e sempre até altas horas da madrugada. Tempos complicados, cheios de histórias fantásticas, de um Governo em que ele era o único comunista e o Magalhães Mota o único PPD. Tudo o mais militares e socialistas. Lembro-me dele, ajoujado com volumosos dossiers, a ter de intervir em todos os assuntos, para dar voz ao seu partido, enciclopédia ambulante, aflito às vezes a pedir um minuto para poder consultar um documento ou outro que algum adjunto lhe preparara, para poder votar sim ou não. E lembro-me da sua simpática figura, de pé já, dedo no ar, tentando captar a atenção do gesticulante Primeiro-Ministro, figura ímpar para aqueles tempos loucos que se viviam. Claro que a sua baixa estatura e o estilo vociferante do Almirante faziam com que nem sequer fosse notado. Uma vez, desesperado, assobiou! Parou o Conselho de Ministros. Eu não parei de tirar as minhas notas. O diálogo é extraordinário: «O que é, ó Veiga?», lançou-lhe, num intervalo, Pinheiro de Azevedo. «É um xixi, senhor Primeiro-Ministro!». «E é preciso, licença, homem?». «Licença não é o caso, mas é que nas minhas costas, no tempo de um xixi, os senhores zumba, aprovam mais um decreto!». E aprovavam mesmo!
27.8.06
Crise de crescimento
Houve um tempo, o do estoicismo, de se guardarem, como sendo da vida íntima, as doenças graves e os problemas familiares. Hoje, pelo contrário, sabe-se pela imprensa quem tem cancro na próstata ou doença séria na coluna. Sabe-se, pela boca dos próprios, assim como se sabe porque é que aquela abortou, com quem é que aquele anda a dormir, ou as fantasias eróticas de muitos casais do jet set. Tudo isto, num mundo que anda com as partes ao léu, é para ser levado com muita ironia. Comprei hoje o Expresso de ontem e acho que ainda cheguei a tempo. Lá vinha uma frase, que terá saído há uns dias na revista Visão, atribuída a Mário Assis Ferreira, administrador do Casino do Estoril, no qual o chinês Stanley Ho tem interesses de vulto. Contava o dito Mário como é que, saído do Hospital, com uma cicatriz de oito centímetros, fez uma viagem de avião a Hong Kong, para se encontrar com o referido Ho e como é que, ao voltar, a cicatriz tinha mais dois centímetros. Desculpe-me o próprio mas ri-me a bom rir. Talvez por ter sempre a cabeça cheia de segundas intenções, lembrei-me da biografia da outra que contava como é que a do outro, na hora da cama, se lhe encolheu, por duas vezes, deixando-a à míngua e ele a falar sem parar do assunto.
26.8.06
A insatisfação itinerante
Chega-se, de malas na mãos, ainda turista na própria terra. O ar parece leve, as ruas limpas, tudo sossegado, em pequenino. Amanhã talvez comece o sentimento de exilado, a alteridade, o sentir-se um homem hóspede em casa alheia. Depois, com o passar das semanas, surgirá o desejo de emigrar. É assim esta insatisfação itinerante do português. Sinto-me um deles. Não nasci aqui, mas é aqui que me sinto em casa. Numa rua qualquer de uma longínqua cidade russa, cruzei-me com um desses portugueses errantes, para quem eu, anónimo na multidão, mereci um «ora viva, então por aqui!» esfusiante, como se nos cruzássemos, num sábado de manhã, ao acaso, numa rua de Campo de Ourique. Tinha vindo de mota. Faz-se bem, explicou-me. Muito bem mesmo, calculei, sobretudo para quem tem como limite o canto da Europa e como alternativa o atirar-se ao mar.
20.8.06
Cidadania
Longe, muito longe, em terra estranha, posso pela Net saber o que se passa no Governo e no que deles dependem. Prefiro saber como andam os meus filhos. Digam-se ser a rebeldia da cidadania. Tanto me faz. Continuo a perguntar ao Hugo se deixou o caixote do lixo e a roupa para lavar. O mais, a esta escala perde por completo interesse.
15.8.06
Atrás do sol posto
Eu ontem acho que coloquei sem querer um clássico problema da sociedade portuguesa que é o saber se o público funciona melhor do que o privado. Há sobre o assunto uma discussão ideológica. Mas há depois o critério prático. Os que têem dinheiro, em regra, preferem os colégios particulares, os hospitais privados, os seguros de saúde, os advogados em profissão liberal. Se o sistema público de educação, de saúde e de defesa oficiosa são excelentes, a verdade é que a maioria dos que podem finaceiramente não os querem. Depois, um leitor amável, colocou um outro problema, o de se ter sorte ou azar no atendimento, a diferença entre o ser um zé-ninguém ou uma cara conhecida. Há ainda um outro que é o ser-se de qualquer coisa, a pertença a um mesmo clube, ou da mesma terrinha. Ante o burocrata façanhudo e resmungão, o descobrir-se que afinal o mal tratado utente é da mesma aldeia é logo uma radical viragem no modo de tratar. Isto para não falar de ser-se da mesma agremiação. O complexo de inferioridade do português leva-o a ser deferente com os poderosos que, no fundo, inveja. A sua ruralidade ancestral leva-o a defender a sua courela e os que de lá vieram, por raiva aos que de lá não são.
Os hospitais públicos.
Com oitenta e três anos de idade, caíu em plena rua. Foi levada ao Hospital Amadora Sintra. Mandaram-na embora, porque não era nada. Por insistência do posto médico de Sintra, onde foi, por não aguentar as dores, voltou ao mesmo Hospital. Descobriram, enfim, que afinal tinha o braço visivelmente fracturado. Em Novembro do ano passado tinha-lhe acontecido o mesmo: caíra em plena rua, porque está a perder a visão. Foi também ao Hospital Amadora Sintra, por ser o da área da sua residência, o hospital obrigatório. Por causa do que então lhe sucedeu, escrevi isto. Não o disse então, para não parecer que uso os blogs em benefício próprio, como vejo tantos fazerem sem pudor. Digo-o agora, por não poder conter mais a raiva: é a minha mãe. Felizmente o filho levou-a da outra vez e desta vez a um Hospital Privado. O filho tem dinheiro, o filho é conhecido, a mãe foi por isso enfim bem-tratada e isto é um país de merda! Ai dos desgraçados!
12.8.06
Compre um saco, oferecemos o jornal
Eu sinto que o «Expresso» anda angustiado por causa do «Sol». Eu também, mas por causa do sol dardejante deste Verão. Mas este sábado o «Expresso» foi notícia aqui na praia. Devido a um erro da distribuidora, tinham vindo sacos de plástico a menos para os jornais que foram entregues. Foi o desapontamento geral. Entre o macambúzio velhote magriçela de desencanto, a perguntar-se silencioso com que é que ia forrar logo o caixote do lixo lá de casa, à anafada senhora, de cesta lancheira num braço, mala frigorífica noutro, a bolsa dos cremes ao pescoço apoiada no farto seio, o guarda-sol de praia filado nos dentes, a deixar cair suplementos, encartes, desdobráveis e tarjetas, havia de tudo. «Se é assim, compro noutro lado!», ameaçou uma loira postiça, com refegos nas pernas e cãozinho à ilharga. Acho que o povo tem razão. Isto quanto ao «Expresso» já não há saco que aguente.
Bifes mal passados
Os ingleses, os da nossa mais velha aliada, não perdem oportunidade, sobretudo no Verão de emporcalharem o turismo algarvio, para onde viajam aos magotes, muitos para sairem daqui que nem lagostins, empanturrados de cerveja. Em tempos eram os esquentadores que explodiam. Agora é um estudo segundo o qual os condutores britânicos correm em Portugl três vezes mais riscos de um acidente fatal do que no seu próprio país. Quem quiser ler mais, veja aqui. Eu li e dei comigo a pensar os nossos emigrantes tugas em Inglaterra terão três vezes mais oportunidades de atropelar bifes do que aqui. Por isso, ó aceleras, toca para o Reino Unido. Mas atenção, convém guiar pela direita. Apanham-se mais e mais facilmente. Desde a trôpega lady, á ginasticada miss, passando pelo ataviado lorde e o tatuado hooligan, é caçada grossa. Pior que o pára-brisas numa viagem Lisboa/Algarve: uma mortandade de insectos!
Cuidado com os chatos!
Li para aí que a polícia vai passar a ter equipamentos para vigiar as conversas no «chat». Primeiro, foi o abrir cartas, depois escutar telefones, logo a seguir telemóveis, os faxes, depois enfim os emails. Agora são os «chats». Um cidadão já não sabe onde haverá de falar sem ser ouvido. Qualquer dia, em plena alcova amorosa, enlaçados no auge do escaldante momento, um dos parceiros diz ao outro, ciciando-lhe, desconfiado, quebrado o ímpeto pelo ciúme: «parece-me, filha, que está alguém debaixo da cama». Ouvirá, tranquilizante, como se numa carícia a animá-lo: «deixa lá meu anjo deve ser algum chui».
A nódoa
Afinal o escritor Günter Grass foi membro das SS nazis. Achou que agora é que era a altura de o confessar, depois de ter sacado, convenientemente calado, o prémio Nobel da Literatura. Claro que é uma questão de falta de vergonha e de imoralidade. Numa entrevista em que confessa o que diz ser uma «nódoa» na sua vida, diz que esse seu silêncio «sempre o atormentou». Leio isto e acho que o homem, que tem casa por Almancil, está equivocado: a nódoa não é ter pertencido às SS, a nódoa é todos os que o sabiam terem fingido que isso nunca tinha acontecido.
7.8.06
A extrema unção
Nada como o Verão para a libido noticiosa se soltar. Pelo que se lê na imprensa, os portugueses não passaram a copular menos depressa, o país é que passou a ser penetrado mais facilmente. Eis o que se retira desta notícia: «a população portuguesa ascendia a 10.569.592 indivíduos no final do ano passado, um acréscimo de 40.337 pessoas face ao ano anterior, indicam os dados divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Este valor significa que, a cada 13 minutos no ano passado, o País ganhou um novo residente. Ainda assim, o crescimento populacional diminuiu face a 2004. Em 2004, a população portuguesa registou um incremento de 60.895 indivíduos, o equivalente a um novo português a cada oito minutos e 42 segundos». É que do que se trata não é de mais gente feita cá, mas sim de mais gente que cá entrou. Entram e pelos vistos suavemente, que nem se dá conta, com vontade e seguramente com unção.
6.8.06
Fumos comunitários
Ao que leio, do Direito Europeu resulta que uma empresa que recuse a contratar um trabalhador fumador não viola as normas comunitárias. Se o sistema é assim, as fábricas de tabaco, a entrarem no sistema, deviam ficar como as fábricas de armamento: manufacturam produtos que servem para matar os outros, e não seria de bom tom que a matança começasse logo portas adentro! Mas acho que não vai ser assim. Qualquer dia os burocrats europeus inventam outra e afixa-se necrologicamente nas tabaqueiras: «fumar mata e aqui vende-se a morte»
5.8.06
Cães à solta
O Fisco decidiu afixar a lista dos devedores, o Tribunal de Contas afixará a dos credores. Penso que o objectivo é envergonhar quem deve. A coisa terá resultado. Pelos vistos o calote passou a ser mal visto. A ideia das listas começou na Avenida Defensores de Chaves. Cansados de esperar que as autoridades evitassem que as pequenas da vida aviassem os clientes dentro dos carros, ali mesmo em plena rua, ameaçaram, com uma faixa a avisar, que iam publicar na internet a matrícula dos carros. Foi dito e feito. Não mudou o negócio, mudou foi o local. Se a situação é igual, há que perguntar os que pagaram à Fazenda a quem terão ficado a dever.
8.7.06
1.7.06
Ser-se ministro
Talvez eu me tenha tornado num selvagem. Mas raramente leio jornais, embora os compre com regularidade. De manhã, quantas vezes é o ritual de folhear as páginas de um ou outro, a ver só de que falam, o tempo de um galão, para deixá-lo ficar, como se gorgeta fosse, ao empregado do café. Um destes dias li que cada vez os jornais se vendem menos. Deve ser por haver outros que, piores do que eu, nem sequer compram. Claro que há a televisão, mas raramente vejo. A rádio só quando vou em viagem, e quase nunca a ouvir notícias. Por isso, eu não sei muito o que se passa e vivo contente assim. Hoje li que o professor Freitas do Amaral tinha deixado de ser ministro. Não achei que fosse grande notícia. Acaso o professor Freitas chegou alguma vez a ser ministro? Se calhar fui eu eu, falho de informação, que não dei conta. Só pode ser isso.
29.6.06
Uma vida, um número
A palavra «só» é uma palavra tão triste como o livro do António Nobre do qual é título. Mas ler, como hoje li, um «só matei três pessoas», pode ser a expressão desculpante num mundo de horror, mas dói. Na contabilidade do que se mata, os genocidas ficam sempre beneficiados. A partir de muitos milhares, já ninguém quer saber. Os grandes números equivalem sempre a zero.
25.6.06
A paixão do futebol
Vinte de dois sujeitos aos pontapés e cabeçadas numa bola desencadeiam furiosas paixões. E no entanto a probabilidade de um tal conjunto conseguir variantes que ainda surpreendam é mínima. É assim o império dos sentidos. Também num casal a hipótese de variar é imemorialmente a mesma. E, no entanto, também aí as emoções fervilham no sangue. Há só três grandes diferenças. No futebol, a coisa é em grupo e só com homens. Além disso, a alegria de uns é a tristeza de outros. Nisso, nos casais, tantas vezes sucede o mesmo.
21.6.06
Na gáspea
Eu vinha na faixa do meio, a cento e vinte, que é o limite legal da velocidade, por causa do medo de tornar a ficar sem carta. De repente, atrás de mim, um daqueles arruaceiros motorizados, a abrir luzes, aos guinões, às buzinadelas. Podia passar-me pela esquerda, mas pelos vistos não lhe apetecia. Devia achar que cento e vinte é velocidade para se andar pela valeta. Como não me joguei logo borda fora, passou-me a grande brida, raivoso, aos coices, a fazer-me sinais com os dedos. A tipos destes, tão declamadamente machões, falta-lhes muita coisa seguramente! Algumas, eles assinalam-nos com os dedos, talvez na esperança, quem sabe. Há muitas formas de pedir.
18.6.06
Pérola
Eu tenho tão poucos amigos, mas há um que é irmão. Num momento grave de aflicção, estava eu a morrer, naquilo que o homem tem de mais sagrado que é o orgulhar-se de viver, cercado da miséria moral alheia dos que vivem pela ambição, peão no jogo sórdido dos que chamam a isso política, a honra em risco, o mundo alheado, ele estendeu-me a mão, sem a qual eu não sobreviveria ao atoleiro. Obrigado Eduardo, e obrigado sobretudo nos teres mostrado, ostra fechada que és de taciturno, a pérola que há ti. Publica pois o teu Camões em Macau.
17.6.06
O Mundo das Sombras
Este sábado achei que «O Mundo das Sombras» não podia morrer famélico. Ainda por cima ele dá conta dos meus trabalhos de investigação nessa área e esses não páram. Por isso, lá fui, paternalmente, tratar dele, até por ser a hora de jantar.
Cuidado minhas senhoras
Vi na imprensa que o Algarve é a região portuguesa onde a taxa de natalidade tem aumentado nos últimos cinco anos. Imaginei que devido ao clima, morno e mediterrânico, despertos os sentidos, os amores fossem ali mais reprodutivos. Pensei que, irrigadas a sangue árabe fossem elas, as do sul, mais férteis que as nortenhas, celtas e maninhas. Veio agora o Presidente da ARS/Algarve e desabou sobre mim o peso da desilusão. Afinal, o aumento do número de bébés deve-se à imigração. Cada vez mais estrangeiras dão à luz por ali. Cuidado pois senhoras do meu país. O problema pode ser a melhoria da capacidade reprodutora dos vossos portugueses. A ser assim, a taxa de mortalidade marital pode começar a subir. De qualquer modo, como isto é um país de gente muito susceptível, deixem-me avisar: olhem que isto é a brincar!
16.6.06
Se vens a Lisboa
A nova lei das rendas vai acabar com os hóspedes. Qualquer dia lá vão também as pensões de curta permanência. É um mundo que desaba. Houve tempos em que os jornais continham discretos anúncios do tipo «Se vens a Lisboa, não andes à toa. Pensão Josefina, águas correntes». Enfim, num Portugal imobiliário de condomínios fechados, ficarão apenas, porque necessárias aos miseráveis que nos limpam o lixo e alombam nas obras, as casas da cama quente, em que se alugam oito horas de sono e se empurra, cama baixo, o parceiro que, abusando, ainda ressona para além da hora.
15.6.06
A «nuance» de Cavaco
Há na linguagem de Cavaco uma subtil «nuance». Nos velhos tempos em que era primeiro-ministro notabilizou-se por um «deixem-me trabalhar». Agora, que está presidente, ao falar da ministra da Educação, que sete mil professores furiosos querem fazer demitir, saiu-se com um «deixem-na trabalhar». Tá visto. Cavaco está patrão. Mas há outra coisa. É que há quem tenha visto naquela frase um grande apoio à contestada ministra. Tudo é possível. Mas se os professores têm razão, então é só deixá-la trabalhar que, mais uns tempos de trabalho, e ela cai por si.
13.6.06
O ser necrológico
A Inês Serra Lopes, directora do jornal «O Independente» pediu-me que escrevesse um breve texto em estilo de auto-retrato para um coluna do seu jornal. Já me habituei, depois de vários anos a rabiscar para jornais, mas esta de meter uma vida em não sei já quantos mil caractereres deixou-me algo embaraçado. E depois, escrever uma biografia era coisa de que eu não me sinto capaz, por ora ter uma excelente opinião, ora uma péssima opinião da minha difícil pessoa e por vezes uma grande falta de paciência para a aturar. Optei, pois, por deixar desde já um epitáfio tipo necrológico, para evitar equívocos aos vindouros que se lembrem de mim. Aqui fica. Não é tudo o que haveria de dizer. Nem fala nos livros que publiquei, nem nos blogs por onde ando, não fala em muita coisa, por uma razão: não me lembrei! É assim a vida, a importância é apenas uma questão de lembrança. Por exemplo a tragédia de ontem fica esquecida por causa da dor de cabeça de há ums horas atrás. Bom, deixando a conversa, aqui fica o que já amareleceu no jornal e, alegria minha, foi lido pelo homem do café aqui ao pé, prova para mim, que ainda há quem leia outra coisa que não os relatos da bola.
«Pedem-me uma biografia e levam com uma necrologia para que os outros sobrevivos, predadores de cadáver, não inventem a lenda do que não foi. A morte é a interrupção do presente e a condenação inexorável de um indivíduo ao seu passado. Estátua de sal, nega-se-lhe o futuro. O tempo é uma ficção. Como o meu pai era mais velho do que o meu avô, o meu filho mais novo, que tem dez anos, é neto de um homem que nasceu há dois séculos. Por isso, cheguei aos 56 com a noção de já ter vivido mais do que haverá para viver. Filho de solicitador, queria ser juiz. Mas ao ter corrido o risco de uma filha em Direito, fiz tudo para o evitar. Em vão. Eis o que mostra quanto a minha felicidade na advocacia é uma ilusão e prova quantos sucessos aparentes escondem fracassos evidentes. No caso, advogando contra uma miúda, perdi. Em suma, não quero ser o que sou nem que haja mais assim. Além disso, nasci em Angola. Não tenho, porém, a nostalgia de África, nem orgulho pelo que vi acontecer à minha terra. Vivi os pavores nocturnos das metralhadoras e das catanas, a fúria raivosa e primitiva. Dizem-me que os cubanos carregaram com o mármore das campas dos meus avós para a sua ilha. Portugal é um gosto adquirido, mas sou mais patriota do que muitos portugueses que se alugariam à Espanha, a troco de uns churros. Herdei a ânsia criadora do meu pai. Fundou um rádio clube, registou-o na frequência dos 7.945 kilociclos por segundo, na banda dos 41 metros. A rádio em onda média, descobri-a já garoto, a frequência modulada, um luxo de adolescente. Gatinhava a mandarem-me calar, para abrirem o microfone: aprendi aí a linguagem do silêncio. O culto do dever e do orgulho revoltoso, herdei-os pela via materna. Compraz-me ser de alguém que aos oitenta e quatro anos acha, sem vacilar, que «isto só vai é à bomba!». Eu apoio, à minha escala, armazenando petardos. Depois é a ideologia, aquilo que a cabeça fabrica e a sociedade molda. O meu horror ao burguês e ao seu mundo do ter nasceu com o existencialismo. A tragédia do homem como ser defectivo, um amputado em busca ansiosa do que lhe falta, lascando-se no perpétuo movimento que é viver, marca o meu dia e prenuncia o meu fim. Por isso, poucos desejaram, como eu, uma família, e nunca a tive. Produto de zangas sucessivas, a minha prole é uma espécie de cissiparidade, como a que estudávamos nas ciências, no tempo em que a quarta classe era a escola primária, o liceu e a universidade. Por tudo isto, não tenho uma biografia nem uma intimidade que deva ser contada. Tal como o Ruben A., eu sou o outro que era eu».
Desculpem a vaidade. Mas é que depois de ler, fico sempre com a ideia de que isto sim, sou eu, visto a frio, como convém a uma necrologia.
11.6.06
A rede celular catacumbística
A partir de hoje, em todas as linhas de toda a rede de Metro, o telemóvel é audível. Subterrâneo embora, toupeira humana escoada entre túneis e galerias, neste mais depressa e mais rápido demencial em que nos tornámos, o homem, atravancada a superfície da cidade, onde já só se anda devagar, corre-corre pelas suas entranhas, saído, atrasado, da linha azul, perdido, zaranza, na amarela, perguntando, tarata, pela linha verde. Faltava só ser encontrável, pelo chefe, pelo cliente, pela família, pelos amigos. Soterrado, embora, inumado vivo, entalado entre corpos e cheiros, sujeito a um esticão na carteira e a um apalpão nas partes, o homem de hoje, lisboeta e contemporâneo, não tem desculpa para não dizer, conformado, que «está lá», nem que seja para responder ao irónico «por onde andas tu que não te vejo?».
10.6.06
Os deputados baldistas
Ora aí está, como o Governo resolveu o absentismo escolar, dos professores. Vem na imprensa desta manhã que os professores mais faltosos terão mais trabalho depois das aulas. Em suma, e para explicar de modo breve, ficam de castigo a fazerem os TPC's. Ora esta solução mirífica podia ser aplicada ao problema dos deputados baldistas. Depois de o presidente encerrar os trabalhos, ficavam ali, no apoio ao estudo parlamentar, nas carteiras de São Bento, a escreverem cem vezes no caderninho pautado: proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos, proposta n.º 18 votamos a favor, projecto nº. 27 votamos contra, proposta n.º 15 abstemo-nos....
9.6.06
O mundo a seus pés
É notícia que um futebolista revoltado com uma lesão tenha pontapeado violentamente uma cadeira. Não sei onde está a novidade. De um homem que é treinado para usar apenas os pés, espera-se que use a cabeça? O que é ridículo é que adultos, responsáveis, pessoas para quem as preocupações sobre o que se passa no mundo que os cerca deviam ser outras, achem que isto é uma notícia e daquelas que vale a pena saber e comentar. Enfim! Com tudo isto esquecia-me de uma coisa crucial! Segundo a oficial agência de Lusa, o pontapé foi dado com o pé direito. O que, convenha-se, faz logo toda a diferença...
7.6.06
A PIDE e a Madeira
«Temos de acabar com essa cultura própria da PIDE de perseguir, vigiar e bufar sobre outros». Diz Alberto João Jardim. Sem comentários. Ah! É a propósito da Lei sobre as Incompatibilidades e sua extensão aos políticos da Madeira esquecia-me de dizer.
6.6.06
666
Hoje é o dia 06.06.06, o dia da Besta do Apocalipse. Digo isto ao sair de casa para mais um fatídico dia. Lembro-me que em tempos o Paulo Portas ganhou o Congresso do CDS-PP com 666 votos. Ninguém reparou. Pode ser que hoje também não.
5.6.06
O Governo e os seus cães
Um estudo que o jornal «Público» hoje revelou mostra que «enquanto os consumidores saldam as dívidas em média 42,5 dias depois, as empresas fazem-no em 53,9 dias e o Estado prolonga o pagamento em 69,8 dias». Perante um Estado tão relapso a pagar os cães que deve, um destes dias, os espectadores pasmados ainda verão em suas casas o senhor primeiro ministro em pose de Estado, a debitar um discurso sobre a modernidade, e por detrás, indesfarçável, o cobrador de fraque. Já estivemos mais longe. É só o primeiro arriscar, vai tudo à compita. Um desses dias o país acorda com o Terreiro do Paço arrestado.
3.6.06
Lê e passa
Naquela cadeia ininterrupta de frases que circulam pela blogoesfera, em encaminhamentos reencaminhados, há de facto algumas que são uma explosão de ironia certeira, como esta: «Os políticos, assim como as fraldas, devem ser trocados constantemente. E sempre pelo mesmo motivo!». Como se dizia nos tempos do antigamente quanto às tarjetas clandestinas, lê e passa.
2.6.06
A feira do livra-te
Fui àquela insuportável tristeza que é a Feira do Livro do Porto. Uma tenda gigante, em lona, como nas festas dos casamentos, e dentro dela uns pavilhões feiosos em contraplacado, a maioria sem um toque de graça ou a alegria de uma cor. Lá dentro, esfalfados por um calor insuportável passavam, como sonâmbulos, sem nexo nem destino, uns quantos poucos transeuntes. Transeuntes no sentido etimológico do termo, pois nem leitores se poderia chamar a muitos deles que nem num livro pegavam, nem que fosse para lhe tomar o peso ou ver ao menos se tinha bonecos. A de Lisboa, sendo feira, ao menos é ao ar livre. No mais, é a mesma monotonia, a mesma solidão, o mesmo ar de cidade fantasma. Num país de iletrados tele-espectadores editam-se trinta livros por dia, mas a feira está às moscas. Houve anos em que era o lugar dos despejos do espólio, das sobras, dos restos, do que hoje pomposamente se chama do livro manuseado, forma de as editores de livrarem de monos. Agora já nem isso. Um ar de aflicção desanimada estampa-se no rosto cansado dos vendedores. Resistem a Figueirinhas, a Lello, a Guimarães e a Minerva, a Sociedade de Difusão Bíblica e a barraca dos churros. Até as criancinhas a choramingar cansaço e a pedincharem algodão doce me parecem chatear este ano com menos convicção.
31.5.06
Na hora do golo
Num país em que os políticos, por oportunismo eleitoral, se adaptam, submissos, ao futebol será desprestigiante que se adapte o horário da Assembleia da República ao horário do futebol? Jerónimo de Sousa, severo, acha que é, e argumenta, ingénuo, que «há mais vida para além do futebol». É só sair à rua na hora do jogo ou entrar num café no dia seguinte aos desafios. Nesse aspecto, o Parlamento, ao sincronizar o seu tempo de funcionamento com a duração dos jogos, imita a rua e faz como nos cafés: salta, pois, uma bica e um bagaço para o senhor deputado, e rapidinho que estamos no intervalo!
30.5.06
Maria Ondina Braga
Este blog foi buscar o seu nome ao título de uma obra de sua autoria, «A Revolta das Palavras». Lentamente, fui encontrando os seus livros, ávidamente li-os. Decidi-me a celebrá-la dedicando-lhe um blog, com o seu nome. Inaugurei-o ontem.
29.5.06
O gene do sexo
À medida que o Verão se aproxima a imprensa começa a aparecer com aquelas histórias de entreter, entre o real e a fantasia. A divulgação científica, naquilo em que se aproxima da ficção científica, é um campo fértil. Esta li eu num intervalo da dardejante canícula, a propósito de um estudo sobre a influência genética no impulso sexual. Segundo a agência Lusa, que se faz eco da notícia: «o estudo conclui que apenas 30% das pessoas tem uma mutação genética que intensifica o apetite sexual, carecendo dela as restantes. Tal mutação seria relativamente nova na história humana, remontando à época do homo sapiens, há cerca de 50.000 anos». Fiquei um pouco confuso, pois isto das datas, das estatísticas e dos números em geral é sempre a demonstração fatal da minha falta de inteligência. Pelo que li e consegui compreender, há 50.000 anos houve aí uma malta que foi passando do «homo sapiens» para o «homo ludens», com as partes baixas a puxar por eles com mais vigor que as alturas cerebrais. No meio disto, naturalmente que a escolátisca, o neo-kantismo e a filosofia analítica da linguagem devem ter ajudado a esfriar os ímpetos dionísicos. A Santa Madre anatemizou-os com a ameaça das fogueiras infernais. Mas a lei da gravitação universal, puxando pelas baixezas humanas é um magneto eterno. O que eu não percebi totalmente é como é que com tanto ano de mutação, porque 50.000 são quase dez mil eus colocados na fita do tempo, ainda só andamos em 30%. A resposta só pode ser huma. Do «homo sapiens» primitivo e indiferenciado, que copulava para reproduzir, surgiu uma minoria lúdica e luxuriante, para quem os genitais são uns brinquedos que Deus lhes deu para alívio e comprazimento. Os outros 70% pertencem à categoria dos que estão a esta hora no trabalho, em reunião, a agenda sobrecarregada, vários telefones ao mesmo tempo, prazos e compromissos, alimentados a sanduíches, incentivados a pastilhas, estimulados a silicone. Daqui a 50.000 tornam-se ovíparos. Geneticamente farão glu-glu!
28.5.06
Os copistas
Um estudo veio revelar que três em cada quatro universitários copiam. Se é assim, o ensino universitário está de parabéns. Conseguiu-se que a universidade gere o cidadão ideal, o tipo convencional, aquele que garante a reprodução do sistema e permite a sua continuidade. O estudante que copia será mais tarde, na vida profissional, o zeloso cumpridor da ordem alheia, na vida social o que faz como viu fazer, na vida cívica, o que nem vergonha tem, por não ter ideias próprias. No limite, mostrará, astucioso, a manha sem a qual não se sobe na sociedade. Passando a perna, pela vigarice, aos colegas que se esforçaram, ele será, pela falta de escrúpulos o exemplo paradigmático do arrivista social. É desta massa que eles se fazem. Parabém pois às universidades. São três em cada quatro? Se é assim, só falta um, estamos lá quase, é só um esforço ou então reprova-se esse quarto. Se por azar for aquele do qual os outros copiam, que se dane. Ficam os mandriões sem vergonha. É legítimo e é democrático, ainda por cima porque são em maior número.
27.5.06
A ameaça
A nossa mediocridade mede-se por uma particularidade pacóvia típica de certos portugueses: o espírito de courela. Fruto de uma ruralidade ancestral, manhoso e individualista, há uma espécie ratinha de português que defende de sachola nas unhas o seu pequeno ermo pedregoso e onde murcham afinal apenas umas enfezadas couves. A ideia do outro corresponde à da ameaça. Nisto a sacristia trouxe apenas o de que o mundo se divide entre os que veneram a santinha de pau carunchoso da nossa aldeia e os outros que são os de atrás do sol posto. É por isso que sucede no Portugal cultural aquela coisa fantástica que é um recém-chegado ser desprezado para ver se desiste. Fazer-se de novas é uma arte portuguesa em que alguns portugueses são mestres. Alguns refinam. No meu caso deu-me para não ligar. Neste mundo de labregos, xou axim.
25.5.06
O peep-show
Há na política um jogo que é o de saber quem está por cima. Jogo de dominação, é por esse afrodisíaco que se estimulam pessoas que, não fora o cio, estavam ocupadas em outras actividades mais úteis do que o que fazem. A coisa poderia ser sempre estimulantemente erótica, mas o que sucede é ser muita vez repugnantemente pornográfica. E depois, há o peep-show dos eleitores, deliciados a assitirem ao espectáculo. De quando em vez votam, desconfiados, porém, de que, apesar disso, a cena é sempre a mesma. O segredo do negócio é precisamente esse: vender cada vez mais do mesmo.
Juízes e futebol
Dizem-me que o Tribunal Constitucional acha muito bem que os juízes se envolvam no mundo do futebol. A minha dúvida é saber achariam bem que o futebol se envolvesse no mundo dos juízes. O meu clube preferido ganha muitas vezes quando joga em casa. Não sei porquê. Deve ser sorte.
24.5.06
A hora da deita
Vinha via agência Lusa: «As mulheres que dormem cinco horas ou menos por noite correm mais riscos de aumentar de peso do que as que dormem habitualmente pelo menos sete horas, indica um estudo hoje apresentado nos Estados Unidos». Aguardo, ansioso, que o estudo abranja também os homens e, mais ansioso ainda, que nos traga conclusões sobre os homens que dormem poucas horas com mulheres. Quando isso acontecer, será demasiado explícito o convite na base de a menina não quer vir emagrecer comigo, fora do ginásio claro está.
22.5.06
Uma questão de regime
Marques Mendes quer emagrecer o Estado. E que tal, já que estamos numa de dietética, tentar emagrecer os que comem à conta do Estado? É que o problema do Estado não é o ser gordo, é estar à mercê de parasitas. Um bom clister talvez ajudasse e bastante! Como com as lombrigas, precisamente.
21.5.06
Escrita felina
Mata-se um homem a tentar ser certo exacto e rigoroso na escrita de um livro e de repente tropeça numa desatenção. Felizmente há leitores amigos. E felizmente eu não tenho a mania de que faço obras primas e muito menos intocáveis. Por isso, cada vez que, depois de ter trabalhado como um cão, me dizem, aqui há gato, fico naturalmente a ganir por dentro, mas apresso-me a dar à cauda de contente! É para isso que se escrevem livros: para que nos leiam criticamente. Obrigado pois! Já não posso corrigir, posso dar conta de que anotei.
20.5.06
O saber manual
Voltei! Não plantei uma árvore mas escrevi um livro! Tudo aconteceu numas condições de tal modo duras que me iam plantando mas era a mim debaixo de umas árvores chamadas ciprestes. Para já sobrevivi. Comecei ontem a escrever outro, a primeira linha na minha cabeça. Recomecei a ler. Atrasados, operários martelam os pavilhões da feira, a do livro, debaixo das árvores, ao alto do parque. Sem eles e o seu saber manual não há cultura que se venda em fólios. Doutor é uma alcunha que se põe a muita gente. Escreveu-o o António Telmo, no último número da revista «Teoremas de Filosofia». Tinha-lo dito Álvaro Ribeiro. Esqueci-me de dizer: recomecei a ler. Só uma primeira linha, para repor a minha cabeça a funcionar.
14.5.06
Papel e cola
Dão-se «expelicações» de geometria descritiva. Estava escrito assim, num papel colado no expositor de um super-mercado. Estive mesmo para escrever por debaixo: «recebem-se de bom grado, em troca de umas aulas de português». É a isto que o país entrega os seus filhos. Claro que haverá a maioria dos outros. Como isto chegou a tal ponto é que eu não consigo «expelicar».
Linguagem receosa
Mia Couto, numa entrevista ao «Mil Folhas», diz que há na língua moçambicana uma palavra para dizer amanhã, mas nenhuma para dizer futuro. E acrescenta: «não se nomeia o futuro com essa facilidade». Como eu, que vivo a vida virando receoso, na agenda, cada folha em cada dia, o compreendo tão bem!
12.5.06
Jorge Sampaio: a tristeza de um fim
Ouvi-o na rádio, vinha eu nem sei de onde. Justificava-se, enaltecendo o cargo. Dizia tudo o que dava ao cargo um ar de importância. Explicava como tinha de contactar com gente tão importante e como era tão relevante essa sua missão. Era Jorge Sampaio, nomeado para uma missão especial da ONU. Por um momento senti a tristeza de o ver naquela situação. Era melhor não ter dito nada. Partia. Nós percebíamos que era para o esquecimento, que tudo aquilo era o terem-lhe arranjado qualquer coisa para o ocuparem. Esgotados no seu papel, Eanes ficou sem nada, Soares arranjou-se com uma fundação, Sampaio irá tratar da tuberculose. Cinco mil mortos por dia contam com ele.
11.5.06
O bacoquismo argumentativo
Acredite-se ou não «todas as noites, palavras novas correspondendo ao modelo regexp \s([-a-zà-öù-ÿ])\s acrescem à lista. Actualmente, a lista tem 42877 registos». São todas tiradas paciente e nocturnamente do Jornal de Notícias, um esforço de Sísifo, rolando palavra a palavra, montanha acima. Está tudo aqui. São palavras portuguesas, nossas, nacionalistas, do JN. O ministro Correia de Campos usou uma delas quando acusou a oposição de nacionalismo «bacoco». Vem lá, neste invulgar «vocabulário», a palavra «bacoco» e a seguir «bacoco · bacocos · bacoquice · bactéria · bacteriana · bacteriológicas · badala · badalada · badaladas · badalado · badalados · badejo · bafejado · bafo · bagagem · bagagens · bagunça · baía · baiana · baila · bailado · bailados · bailar · bailarico · bailaricos · bailarina · bailarinas · bailarino · bailarinos · baile · bailes · bairradina · bairradino · bairrismo · bairrismos · bairrista». Mas vem também, logo a seguir: «baixeza · baixezas · baixinha · baixíssima · baixíssimas · baixíssimo · baixíssimos». Vem lá tudo, é só escolher. Nem é preciso ir-se a Badajoz.
7.5.06
Permita-se ao autor que convide!
Permitam que o autor deste blog use este seu espaço para anunciar o lançamento de um seu livro. E permitam-me sobretudo que desde já vos considere convidados, para a apresentação da obra:
* Em Lisboa, no dia 16.05, pelas 18:30, na Ordem dos Advogados [sita no Largo de São Domingos, contíguo ao Rossio].
* No Porto, no dia 17.05, pela mesma hora, no Clube Literário do Porto, no n.º 22 da Rua da Alfândega.
* Em Faro, no dia 3 de Junho, pelas 18:30, na R. Dr. Cândido Guerreiro, nº 30, junto ao Largo do Mercado.
Quem quiser ter uma ideia do que se trata, tente aqui, e depois disso, para aprofundar essa ideia, se não desanimar, aqui.
* Em Lisboa, no dia 16.05, pelas 18:30, na Ordem dos Advogados [sita no Largo de São Domingos, contíguo ao Rossio].
* No Porto, no dia 17.05, pela mesma hora, no Clube Literário do Porto, no n.º 22 da Rua da Alfândega.
* Em Faro, no dia 3 de Junho, pelas 18:30, na R. Dr. Cândido Guerreiro, nº 30, junto ao Largo do Mercado.
Quem quiser ter uma ideia do que se trata, tente aqui, e depois disso, para aprofundar essa ideia, se não desanimar, aqui.
Wiki-símia
Há na ciber-população a ideia pela qual «Wikipedia» é tudo, e nela está tudo. Não há em relação à esmagadora maioria das pessoas a pergunta consistente em saber quem é quem que ali escreve e se pode não ser exacto tudo o que ali se diz. Nesse aspecto, a dita «enciclopédia» é semelhante à Internet em geral: o não informado leitor fica à mercê do atrevido escritor, cuja impunidade fica protegida, não poucas vezes, pelo anonimato. Agora o que eu nunca tinha visto foi um comentário bem disposto como aquela que vinha num post, lido esta amanhã, completamente em outro contexto, no caso acerca da URSS não ter assinado a Convenção de Genève e ter estado ou não obrigada a dispensar tratamento humanitário aos prisioneiros de guerra alemães na Segunda Guerra. Dizia assim: a Wikipedia é a crença de que 10 000 macacos a martelarem em 10 000 teclados conseguem criar uma obra de referência. Poder ser excesso em relação a muito do que lá está, mas dá pelo menos para pensar. Vendo melhor, ainda não desisto de comprar um dia a Enciclopedia Britânica. Também há on line e fazem descontos.
6.5.06
Breaking news......
Última hora! Acordei cansado de ter feito serão, abro as notícias e dou com esta: «O ministro dos Negócios Estrangeiros vai dar hoje uma conferência de imprensa para "desmentir o título" da notícia que o Expresso publica e que indica que Freitas do Amaral está "cansado no MNE"». Já não saio de casa! Ligo os canais todos da TV, varro o quadrante da rádio à espera do primeiro que o informar, sento-me com a Net aberta em tudo quanto é imprensa digital. Eu toda a orbe terráquea aguardamos, transidos. No entanto, com a imaginação já a rodar e a suprir a ignorância, calculo que a abrir, Sua Excelência diga nesta sua conferência, convocada de emergência, aos jornalistas estremunhados que tenham de a gramar: «Minhas senhoras e meus senhores, senti ser meu dever indeclinável, em nome da minha dignidade pessoal e do prestígio de Portugal no mundo, esclarecer que, ao contrário do que foi hoje noticiado em certa imprensa, o professor Diogo Freitas do Amaral não está cansado do MNE. O MNE é que está cansado do professor Diogo, farto do professor Freitas, agradecia ver-se livre do professor Amaral».
A casa amarela
Um especialista disse que a esquizofrenia «é uma das doenças com maior prevalência no país». Pelas contas desse reputado médico, vejo que um em cada cem portugueses é esquizofrénico. Entre os outros, calculo eu, devem recrutar-se casos piores. Basta abrir o jornal ou ver um bocadinho de televisão e sente-se ganas de meter uns quantos em colete de forças, para já não dizer em electro-choques!
4.5.06
Um caso de nomeada
Há quem esteja muito preocupado por a EDP ter contratado Pedro Santana Lopes como assessor jurídico da empresa. Há quem esteja preocupado pelo facto de a empresa lhe pagar dez mil euros por mês. Se essas duas coisas são verdade, há por aí tantas verdades parecidas sem que as pesssoas se preocupem, que até parece que se preocupam com esta, para não se ocuparem das outras. No mais, é o ex-ministro do governo do nomeado, a nomeá-lo agora. Mas isso é o ora agora nomeio eu, que depois me nomeias tu. É caso único?
1.5.06
O ataque dos mortos
Os loucos não se consideram loucos, os mortos não sabem que morreram. Freitas do Amaral em entrevista à oficial agência Lusa, diz que não se considera «politicamente morto». Mas acrescenta: «que enquanto for considerado útil e a saúde aguentar, estou disponível». Morto de vontade de continuar, num acto de loucura total.
29.4.06
Edita-se e rente...
No jornal «Expresso» houve quem desse nota negativa ao director de uma estação de TV por não ter «editado» uma entrevista que terá passado com grande êxito e não ter assim impedido que o entrevistado tivesse referido o nome de certas pessoas. Leio este facto fantástico deste admirável mundo novo. Fossem outras as pessoas visadas, outro fosse o entrevistado, tivesse o dito director ou outro director, ou um qualquer jornalista, repórter ou estagiário, daqueles que ficam ao sol e à chuva por uma migalha de informação, «editado» uma frase ou uma fala, ou uma palavra sequer, a um qualquer outro entrevistado que tivesse referido quaisquer outras pessoas, era o fim da picada! De censura a coisas piores, dentro do espírito da mais fraterna camaradagem, enchiam-no de pontapés, na primeira página se preciso fosse. Ora aí está como as coisas são. O velhinho «Botas», Salazar de seu nome, é que não se teria lembrado de melhor. Em vez da odienta «comissão de censura», chamava-lhe «comissão de edição». Mantinha os coronéis e o lápis azul, pois não se muda o que é igual. Quem ler isto, escusa de vir com graças sobre eu estar a falar deste ou daquele caso. Fique claro! Estou a falar sim deste e daquele princípio, o da liberdade de expressão. É que uma coisa é certa, e é a lei que o diz: se os entrevistados falam demais, cabe aos tribunais puni-los, não cabe aos directores «editá-los». Foi para isso precisamente que se fez o 25 de Abril.
25.4.06
A custódia
O jornal «Público» não leva à primeira página o 25 de Abril, mas sim os 500 anos da Custódia de Belém. Lá dentro, entre muitas folhas, o advogado José Augusto Rocha explica a Paula Torres de Carvalho que foram os militares do Conselho da Revolução quem permitiu a impunidade dos «pides». Você disse, «revolução», ó Barreiros?
Apresentar arma!
No dia 25 de Abril estando eu no quartel em Mafra, não vim para a Revolução pois os do MFA não confiavam no comandante do meu pelotão. E eu, que estava na tropa contra vontade, e em armas pesadas mau grado os meus leves 48 quilos, eu que poderia ter sido um herói de Abril, fiquei confinado à parada, a ouvir rádio e a sonhar com o que se passava e raivoso por não ter vindo. Tempos depois mandavam-me para casa. Tinham reconhecido que eu havia sido colocado naquele pelotão, para além dos meus poucos quilos, entre morteiros e canhões sem recuo, por causa de informação negativa da prestimosa polícia política do regime. Depois, chamaram-me para mais três anos daquilo, já em contra-revolução. Hoje comemoro mais um aniversário disso tudo. Já não tenho 48 quilos mas tenho uma coisa que não morreu: uma enorme raiva por não ter vindo, um enorme desejo de vir desta vez, entre morteiros e canhões, obuses se for preciso.
24.4.06
A movida
Não tinha reparado, alheado que ando de muitas destas coisas da nossa vida pública, que a Câmara Municipal de Lisboa tem um pelouro que é o de Vereadora da Mobilidade. Ora eu que por natureza, sempre fui contra o imobilismo, embora passe, recluso dos deveres, horas a fio sentado, na cela das obrigações, acho que na próxima mexida governamental, para dar um toque de dinâmica, já que é de mobilidade que falamos, o engenheiro Sócrates, devia criar o Ministério, já não diria da mobilidade, pois dava a ideia estagnação mental, mas sim o Ministério dos Semoventes. Primeiro, porque há muitos. Depois, porque andam à redea solta.
23.4.06
Bons nacos de literatura
«Há uma nova tendência, a literatura light está a passar de moda e a ser substituída por uma onda mais intelectual. Isso reflecte-se no espaço que esses livros ocupam nos expositores», diz a responsável na FNAC pelos livros. E eu, ingénuo de todo, a pensar que a literatura «light» era, tal como a comida do mesmo nome, uma forma de dieta literária adelgaçante das ideias. Afinal, é uma moda. Alegrem-se, pois ó gentes leitoras, voltam as gordinhas e as carnudas. O Luiz Pacheco inventou em 1972 a categoria da literatura comestível. Em breve, muito em breve, voltarão os clássicos com sustança. E então ler-se-à, lambendo dos beiços de luxúria, como em «A Cidade e as Serras» do Eça de Queirós: «Jacinto, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Há anos que o fidalgo não sentia aquela fome. E foi quando, abalando o sobrado, surgiu a rija moça de peitos trementes que pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas».
22.4.06
O campo de concentração
A Feira do Livro terá este ano menos 23 pavilhões, mas segundo dizem os da APEL, a associação dos que editam e dos vendem, «o número de editores presentes nas feiras de Lisboa e do Porto será sensivelmente o mesmo». É que «os problemas de facturação em 2005 levaram algumas editoras a retrair-se». Li isto e percebi, enfim. A solução para a retracção foi a concentração. Corre-se pois o risco de cruzar a pálida freirinha que busca a mística Santa Teresa de Ávila com o vermelhusco libertino que anseia pela Filosofia da Alcova, o escanzelado estudante do «Cálculo da Resistências de Materiais», lado a lado com a anafada Ludovinha que, educada nas Casas de Santa Zita quer, enfim, o livro de receitas da Dona Maria de Lurdes Modesto.
20.4.06
Vai tudo por água abaixo!
O Governo está safo! A solução miraculosa, veio na forma de uma empresa de águas. Segundo acabo de ler, uma empresa portuguesa vai lançar uma água que faz emagrecer porque cria a sensação de se estar «cheio». Uma coisa destas resolve muita coisa. Primeira, são os que se enchem à conta da política. Basta pô-los em cura de águas, enchem logo e depressa. Depois há as vítimas da fome. Quanto a esses, metem-se debaixo de água. Fica enfartados e deixam de se ver.
O Governo avança sobre os avençados
O Governo vai acabar com os «avençados» desnecessários. É a lógica financeira, a de poupar despesa. É que há os «avençados» e os que estão «por conta». Quanto a estes, pois que, por terem sido necessários, não podem deixar de receber, de ora em diante será mais difícil pagar-lhes por avença. A não receberam à percentagem, pode pagar-se-lhes e à tarefa. Se não for pelo que fizerem, ao menos que seja pelo que houverem feito, se não me levam a mal o verbo haver.
19.4.06
As últimas da deputação nacional
Ora aí está tudo dito. O PS propõe que se marque falta aos deputados que faltarem [só] no momento das votações. Quer isto dizer, em linguagem simples e descodificada, duas coisas. Primeiro, que um deputado pode não pôr os pés no Parlamento o dia todo, tem é que estar quando se votar. Segundo, que daqui decorre que um deputado interessa pouco para quando o Parlamento discute e reflecte, interessa só para o levanta-senta que alguém popularizou de modo brejeiro como o «bate-cú» parlamentar. Se o sistema entrar em vigor, as direcções parlamentares é só organizarem as suas hostes. Combinam as horas em que se vota e organizam turnos de deputação. Afixa-se nos Passos Perdidos ou, para evitar aos pais da pátria terem de perder tempo a ir lá, põe-se no site da Assembleia: «Amanhã vota-se às duas». Não vale pena dizer no anúncio votar o quê. Quando chegarem a São Bento, vindo dos seus escritórios, Suas Excelências saberão ao que vão. Depois de contados, a um e um, votam, e zute que há mais que fazer! Então, o Presidente da Assembleia, poderá enfim dizer, no sombrio estilo regimental: «os senhores deputados que votam a favor, fazem o favor de sair...».
17.4.06
Wonder bra
O mundo académico não há dúvida que me fascina. Essa lógica da descoberta científica, que o Karl Popper axiomatizou no seu clássico «The Logic of the Scientific Discovery», dando-lhe ordem e concisão, não pára de me surpreender. Sabem, por exemplo, como é que se descobriu, agora mesmo que «os membros da Dinastia Liao, um Estado fundado pelo grupo étnico Khitan, eram bastante abertos e mantinham contacto com as regiões centrais chinesas»? Ao terem-se descoberto «fragmentos de um sutiã e um par de chinelos bordados com quase mil anos de idade», isto segundo a agência de notícia Xinhua. As peças, segundo a agência «alegadamente pertencentes a uma mulher nobre da Dinastia Liao (916-1225 d.C.), ajudarão os investigadores a estudar os costumes e os bordados daquela época, segundo Tian Yanguo, responsável do Museu Aohan Banner de Chifeng, na região autónoma da Mongólia Interior (norte chinês)».
Ora vejam bem. Se fosse eu a ter descoberto na China um sutiã com mil anos concluía que as chinesas, podem não ter grandes mamas, mas pelo menos já as têm há muitos anos! É por isso que, em matéria científica, não passo da cepa torta.
16.4.06
Levam para tabaco!
«Dez milhões de portugueses fumaram menos mil milhões de cigarros», segundo diz hoje a imprensa, o que não é o mesmo que dizer «mil milhões de cigarros ficaram por fumar por dez milhões de portugueses». Porque se fosse assim, a indústria tabaqueira teria algures, armazenados e expectantes, cem cigarros por cada português, se eu não me engano nas contas. Com milhões milhões de macacos! Não há bofes que aguentem...
15.4.06
Anarca
A cultura libertária não morreu. Vive, por exemplo, este sábado. O anarquismo mora aqui. Dizem o que querem e sabe-se de onde vêem. Trabalho mesmo ao lado onde Emídio Santana pôs, em 1938, uma bomba para matar Oliveira Salazar. Teria sido fabricada nas furnas miseráveis de Alcântara. Devido a um erro na colocação do engenho, a ideia frustrou-se. O destino ocupar-se-ia então do caso e faria a vida seguir a ordem natural das coisas: Santana faleceria em 16 de Outubro de 1988, Salazar tinha morrido em 27 de Julho de 1970. Eram dois mundos entre si incompatíveis: Santana, com o revolucionário «viver perigosamente», com Salazar, o conservador «viver habitualmente».
14.4.06
Agnus Dei
Vem no Diário de Notícias: «Passar fome. Ou pelo menos evitar os excessos: carne, salmão, linguado, marisco. Não usar jóias. Evitar o cabeleireiro. Usar roupa mais discreta: saias compridas, calças menos justas, blusinhas simples. Deitar cedo e cedo erguer. Ter paciência para os outros (...) Estes são apenas alguns dos "sacrifícios" que milhões de católicos em todo o mundo se propõem fazer durante a Quaresma». Dizem os padres. Se é assim, para mim é fácil, logo hoje que acordei de madrugada. Sem jóias nem blusinhas, quase careca, e detestando calças justas, não gostando de salmão e não pretendendo usar saias, parco em mariscadas e não achando muito que comer no linguado resta-me o pecado da carne.Talvez por isso ontem jantei num vegetariano. No mais, com paciência para os outros, vou-me esforçar, pois a carne é fraca.
13.4.06
Cartas para o baralho
Primeiro foram os da família do Lobo Antunes, agora os da Sofia de Melo Breyner Andresen. Lá vêm cartas e mais cartas. No primeiro caso cartas de namoro, agora cartas pessoais e literárias ao e do Jorge de Sena. Claro que há na literatura espaço para tudo, para o que é íntimo e para o que é público. Que o diga a Maria Filomena Mónica, para quem a diferença parece ter deixado de existir. Por mim, estou naquela fase da vida em que acho tudo bem. Já me habituei a ver nas capas das revistas, o cancro de um, as mamocas da outras, o adultério de todos. No dia em que andar tudo em pelota, melhor ainda, que descontadas as celulites e as banhocas, haverá de ser um regalo para a vista. Agora o que me irrita é a capa encadernada e meia dúzia de folhinhas dentro, o papel a puxar para o carote e o preço a entrar pelo bolso a dentro. Lá que abram a gabardina, ainda vá lá, mas ao menos, façam desconto. É que, no «peep-show», ao menos, cada um vê à medida das moedas que tem. Tá visto que em matéria de «voyeurismo» literário, tenho de esperar pelos saldos.
12.4.06
Nesta latrina
Escrevi isto em Novembro de 2004 e voltaria a escrever: «Há muito tempo que nesta latrina о ar se tornou irrespirável»: a frase pertence à discografia dos «Мãо Morta». É hoje um dos capítulos do livro «Estilhaços», publicado em 2004 por «Adolfo Luxúria Canibal». Canibal é о pseudónimo artístico de Adolfo Morais de Macedo, advogado e artista. Na música, como vocalista e letrista arrancou com os «Auaufeiomau», em 1981. Nas Leis trata do Direito do Ambiente. Lembrei-me daquela expressão, ao dar conta do a quantas andamos hoje. Um dos poemas desse livro surreal chama-se «Vamos Fugir» e abre assim: «tenho os passos vigiados no labririnto das notícias». Curioso: estava eu a ler о livro e, em fundo, corria о telejornal, com as notícias do dia. Estava já a faltar-me о fôlego. O ambiente anda mesmo muito mau! Auau!».
Com o Fisco, vão todos de carrinho!
1 373 contribuintes com dívidas à Segurança Social que totalizam 59 milhões de euros têem 6 353 veículos topo de gama, que vão ser penhorados. Façam-se as contas e veja-se quantos carrinhos tinha cada um desses relapsos. Tinham, digo bem, porque se a notícia é verdadeira lá vão eles a leilão. Se a coisa se consumar como é costume, daqui a uns tempos ou 6 353 novos portugueses andam de de alta cilindrada a baixo preço, ou 1 737 continuam bem motorizados como dantes, ou está tudo a apodrecer à ordem dos tribunais.
11.4.06
A troco de uns totsões
«Pelos vistos, há escribas que têm sempre um dono pronto a pagar-lhes». Quem é o diz é a imprensa da República Popular de Angola, falando da nossa imprensa. «Portugal merecia melhor que estes indigentes mentais que publicam desvairados recados a troco de uns tostões». A fonte é a mesma, os destinatários, os mesmos. Amanhã vou à correr à banca, comprar uns jornais, logo pela manhã para ver a resposta. Se a houver, claro.Vai ser divertido ver o que dizem. A trocos de uns tostões, fica-se logo esclarecido.
10.4.06
A seca
Guardo de Cabo Verde a imagem do meu padrinho de Baptismo, do livro «Chiquinho» do Baltazar Lopes, do campo do Tarrafal e sobretudo da seca, essa seca que gera a fome e a emigração, tudo assim por esta ordem, à medida que ia ganhando consciência do mundo. Agora, já homem feito e formado em Direito [quase diria reformado do Direito] não é que vejo no circunspecto Diário da República um Aviso 548/2006 que «torna público ter, em 18 de Julho de 2005, a República de Cabo Verde depositado o seu instrumento de adesão à Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, particularmente como Habitat de Aves Aquáticas, concluída em Ramsar em 2 de Fevereiro de 1971».
9.4.06
Apetece-lhe algo?
Um jornal turístico do Canadá diz que, depois de se trabalhar como um cão durante 52 semanas do ano, nada como o descascar doces laranjas numa varanda soalheira do Algarve em Portugal. Vem aqui. E eu que depois de trabalhar as mesmas 52 semanas à mesma como um cão, dou comigo a apetecer-me algo, mas não seguramente isso do descascar laranjas! Mas concedo: é uma forma como qualquer outra de atrair turistas à região que o ministro António Costa, outro dia, para ajudar, disse que era das que estava em maior risco sísmico! Os dos Canadá é que não repararam, quando não mudavam o registo e a coisa viria assim: depois de trabalhar que nem um cão durante 52 semanas nada como ficar em sumo de laranja com um tremor de terra no Algarve. Mesmo arrasado por um terramoto, o Algarve continua soalheiro.
8.4.06
As águas do Jordão
Todos nós recebemos emails com anedotas, graças e coisas que pretendem fazer rir, muitos dos quais vão directamente para o sector dos «deletados». Há dias em que o nosso estado de espírito é, porém, tal, que nada nos parece conseguir arrancar um esgar que seja. Excepção feita para esta, de uma série dedicada a piadas da nossa paróquia, que um meu amigo e cineasta [o «e» não é porque sejam incompatíveis], me acaba de enviar: «Tema da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. A catequese de amanhã: À procura de Jesus». Obrigado Luís! Eu hoje estava mesmo precisado! Amanhã procura-me...
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