20.2.07

O mão-leve

«O Estado rouba, rouba o Estado», está escrito numa parede em Lisboa. A ideia percebe-se, pois é óbvia: na psicologia política de muitos portugueses, o Estado é o outro, é o mundo do eles, com o qual eu nada tenho a vêr. Claro que, nesta relação do privado com o público, às vezes voto, muitas vezes abstenho-me, normalmente desinteresso-me. Roubar, nesta forma de pensar, é apenas uma variante social de uma moral muito própria: o Estado tira-me contra a minha vontade, eu rapino-o, sem que ele dê conta.

19.2.07

Testículos regionais

Acho que foi ontem que vi o Presidente do Governo Regional da Madeira a falar na falta de testículos no Continente. A coisa não me atinge directamente, pois nasci em África. Há pouco ouvi-o a anunciar que se demitia para voltar a concorrer e, percebe-se, voltar a ganhar. No meio disto tudo chamava nomes a um tal senhor José Silva, que era, afinal, o primeiro-ministro. Enfim, antigamente Alberto João mascarava-se no Carnaval. Desta feita, só se for em pelota, os testículos em evidência, protuberantes e prometedores! José Sócrates que se cuide, pois.

18.2.07

Saúde desarticulada, ministro articulista

O ministro da Saúde, instado para comentar o encerramento de um serviço de urgência no Minho, remeteu para um artigo que escreveu no «Diário de Notícias». É fantástica esta forma croniqueira de um governante se pronunciar sobre um assunto oficial. Qualquer dia, Suas Excelências estão a colocar anúncios na secção de mensagens dos jornais, ao lado de menina quente e sem tabus faz domicílios.

Acabou-se o papel!

Um director de jornal hoje é demitido porque o jornal não vende. Ora como os jornais não vivem dos exemplares que se compram, mas da publicidade que os sustenta, o negócio compreende-se. Quem quiser sobreviver no mercado, não se aluga para imprimir papel que se leia, vende-se para distribuir papel que embrulhe. No mais, viva a liberdade de imprensa! Viva!

22.1.07

O areias...

Vão os do Estado e mandam despejar toneladas de areia na Caparica. Vem o mar e lambe a areia. Volta o Estado e despeja mais areia. Volta o mar e volta a lambê-la. A coisa chega a ser obscena, a lembrar as «dunas» da canção. Ao ver pela TV, enquanto jantava, tanta parvoíce, lembrei-me de propôr aos do Estado: e que tal se em vez de meterem mais areia, bombassem a água do mar?. Como uma tubagem apropriada, tipo pipe-line, despejavam-na no Mar Morto e no Mar Aral. Ainda era um negócio fantástico.

20.1.07

A máscara

O argumento é, como agora se diz, recorrente: «falar na qualidade». Uma pessoa sai-se em público com uma afirmação polémica, discutível, errónea. Há duas formas de se ver livre do embaraço. A primeira é o «não foi isso que eu disse». Tal expediente está muito gasto, sobretudo quando está muita gente a ouvir e alguns a gravar. Então há o: «falei sim, mas foi nesta ou naquela qualidade». Normalmente é «falou, sim, mas na qualidade de cidadão!».
No caso da Dra. Maria José Morgado, que se meteu por estes atalhos, hás três coisas fantásticas. Primeiro, ela foi convidada para falar com uma etiqueta ao peito, a de «Procuradora-Geral Adjunta», que era o que vinha no convite. Segundo, ela não disse, estou aqui, neste encontro partidário, como cidadã, de toga despida. Terceira, teve que ser a Procuradoria-Geral a, desautorizando-a, dizer que a boca que falou não era boca de magistrado. Pois pudera!
Tudo isto é caricatural. Já nem é o terem as pessoas duas caras, conforme as conveniências, é já nem terem cara com que se apresentem e serem outros a enfiarem-lhes a máscara, conforme as necessidades!
Desculpem meter-me nisto, mas francamente, há um limite para tudo, para a exibição e para o rebaixamento.

1.1.07

O som bem audível

«As imagens ontem reveladas não mostram o momento em que foi suspenso, mas testemunhas contaram como foi bem audível o estalar do seu pescoço». É, como se calcula, sobre o enforcamento de Sadam Hussein. Por causa disso deve ser politicamente incorrecto sentir-se uma náusea sequer. Haverá até quem tenha ficado contente ao saber. É deste voyeurismo macabro que se alimentam as notícias. Em breve deve surgir o video amador do momento em que a língua se projectava, o corpo se contorcia, em agonia o enforcado se urinava pelas pernas abaixo, para gáudio dos que querem estar completamente informados.

26.12.06

A doença e a cura

Experimentem ficar doentes e vão ver se não é assim. Há uma tipologia social de reacções a essa situação. A primeira é o «isso é uma gripe». A segunda o «anda tudo por aí com isso». Há uma variante que é o «apanhei eu uma coisa dessas há duas semanas». Ao falarem de si dirão que «está adoentado» ou numa versão mais suave que «está constipado». No fundo tudo isto se resume ao não querer saber, normalmente acompanhado, para fim de conversa, do «tens que ir mas é ao médico». Há um dia em que um sujeito finalmente vai e sai de lá com uma «virose», porque «sabe, anda tudo por aí com isso», aliás eu próprio «apanhei uma coisa dessas há duas semanas». Experimentem ficar doentes porque, a não morrerem, vão sentir logo no acto súbitas melhoras.

24.12.06

Ex-votos

Andamos nesta quadra a desejar indiscriminadamente uns aos outros um Bom Ano e ao mesmo tempo a desejar que certas coisas más não aconteçam. Ora para sermos verdadeiros em relação a certas pessoas deveríamos desejar-lhes então descaradamente um ano mau.
Mas nesta quadra, porque é Natal, nós somos bons, mesmo para com os maus: gostaríamos que houvesse o bem, sem ter de haver o mal.
Por isso, mesmo ante o maior velhaco, que sabemos andar a tramar o pior, lá vai um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. A resposta que merecíamos era: muito obrigado, mas não exageremos!

23.12.06

É amanhã

Foi ao ler o jornal que me apercebi que, afinal, a consoada é só amanhã. A minha velhota corria o risco de eu lhe aparecer em casa hoje, para a levar a jantar fora, por ser Natal. É isto que dá a dimensão desolada da velhice, o ficar-se à mercê das datas obrigatórias e do ter de ser festivo, da lembrança ocasional de todos os outros. Assim, adiou-se por um dia o sentirem-se os afectos em torno de uma refeição, que é o que acontece quando secaram já com o tempo todas as outras formas de nos expressarmos.

10.12.06

Perdidos e achados

Pois lá segui sexta ao anoitecer para o Algarve no tal comboio com bilhete comprado «não on line», nem no multibanco. Deixei-o, em Loulé e nele um livro que estava a consultar para finalizar uma narrativa que terá de estar entregue na tipografia na próxima segunda-feira, ou seja, ó nervos!, amanhã.
Logo que, umas horas depois, dei pela sua falta, tentei tudo para o encontrar . Como a composição terminava a sua marcha em Faro, vá de ligar para a estação. Na lista telefónica não vinha. Mas a CP tem um «call centre». Dali deram um número. Ligado o dito, veio de lá uma voz a perguntar quem é que tinha dado tal número e a informação que o comboio já tinha sido «limpo». Ante este dado, e sugerindo-se que, feita a limpeza, o livro teria sido seguramente encontrado por alguém, o ensonado funcionário ferroviário não se deu por vencido. Que sim, mas que o livro «acabaria por» seguir para Lisboa. Pois, mas como fazia muita falta e talvez ainda estivesse por ali, sugeriu-se, que tal tentarem encontrá-lo? Entrou-se então no entaramelado de uma conversa de chanfrados, que terminou no «ligue amanhã a partir das nove». Pelas nove ligou-se, para se saber, que ninguém reclamava quanto ao número ser errado, mas para receber a informação, aliás preciosa, de que as mulheres da limpeza daquele comboio só entravam às quatro. Liguei às quatro. Disseram-me então que o serviço estava fechado.
Voltei no dia seguinte a Lisboa, onde estou este domingo, entre a gripe e o desejo de a ter, revendo provas, o livro por acabar.
Já decidi que hoje não vou à CP, com medo que me digam que os serviços competentes só abrem na segunda-feira; mas ao mesmo tempo, estou receoso que, se for só segunda, me respondam que o livro voltou para Loulé e o melhor é mesmo voltar a ligar para o «call centre».
Algum leitor benévolo pode dar uma ajudinha, nem que seja a informar onde é que se arranja um bom pau, daqueles com que os vedores até água encontram no meio das pedras?
É que entre perdidos e achados, eu, se não acho o livro, ainda me perco!

8.12.06

No comboio descendente

A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através do multibanco. A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através da Net. Mas a CP não permite que uma coisa nem outra funcionem. Hoje acabei numa bilheteira de manhã, para comprar um bilhete para o comboio das 17:20. À minha frente uma rapariga explicava que tinha pedido bilhete de regresso para domingo e lhe estavam a vender um para segunda-feira. Resposta do funcionário, ar de cansado, gravata desgoilada, barba por fazer: para isso é que é mais prático comprar-se directamente «on line». Pois claro!

5.12.06

Uma questão de órgãos

O DN de hoje traz como manchete que «Portugal é campeão europeu de cortes na função pública». Mais abaixo o título é «juízes perdem liberdade para integrar órgãos do futebol». Belo fecho de edição!
Tudo junto, a notícia dos «cortes» e a notícia dos «órgãos» dá para o leitor distraído concluir um gritado «Já sei! O Governo o que decidiu foi atirar-se aos juízes e cortar-lhes os órgãos!». O que, se calhar, é o que há para noticiar...
Falta só dizer que a imagem da capa do dito periódico da Avenida é a de uma Justiça que, por falar em órgãos os tem, aos peitorais, bastante proeminentes. Valha-nos isso: Justiça que seja, patriótica ao menos!

28.11.06

O Rossio já está a arder?

Vim num instante ver o que se passava no que se chama o mundo real, como o preso que tenta, através das grades, imaginar o que será o mundo de onde lhe chegam as visitas. E dei conta que há por aí sarilho infernal por causa de uns militares que foram passear ao Rossio.
A coisa não é para menos. Era ali o Palácio de Estaus, sede da Inquisição, que ardeu. No seu lugar, foi para lá o Teatro Dona Maria, que também ardeu. Agora anda tudo em brasa porque uns quantos militares vieram passear ao Passeio Público, manifestando o seu desejo de mudança de ares.
A levar a sério o tom inflamado do que se escreve e diz a propósito de tão quente assunto, parece que estamos em estado de insurreição.
Não haverá por aí ninguém que se lembre de gritar «alto ao fogo»?

24.11.06

A eterna virgindade

O Manuel Villaverde Cabral disse há momentos num programa que quase nunca vejo, que «o Presidente da República se tornou o número dois do Governo», com a compreensão da «esquerda complacente».
Antes esta constatação certeira de um homem com uma inteligência à solta, lembrei-me dos meus estudos de Medicina Legal e no necrotério da nossa intelectualidade sem ideias, vou reler essas velhas sebentas para perceber a política que por aí se autospia nestes debates.
É que na Medicina Legal há um capítulo sobre hímenes complacentes, os que resistem a todos os coitos. Na esquerda há do mesmo, os coitados: com o PS no Governo, a tudo se adaptam, elásticos e ginasticados. Venha quem vier, estão sempre virgens.

16.11.06

Os deveres portugueses

O Diário Digital titula: «Portugal cumpre o seu dever e goleia Cazaquistão».
Acho genial a ideia que subjaz a este modo de narrar os 3-0 de ontem. Até eu, que não sei nada de futebol, vibro em clamor verde-rubro. A Nação dos Portugueses, nautas afoitos que deram novos mundos ao mundo, cumpriu ontem «o seu dever», em Coimbra.
Eis um novo conceito constitucional, mandato imperativo de Direito Natural, que o Estado exige, a Nação reclama, e os 11 da selecção, reduto final da Pátria, cumpre aos pontapés.
Se a nomenclatura pega, e passa dos estádios repletos [30 mil na cidade dos doutores] para as alcovas conjugais, o «cumpre o teu dever» ciciado num amplexo de amor, transformar-se-à, no acto de o cumprir, num berro machão que acorda em casa, assustadas, as crianças e traz, inquietos, os vizinhos ao patamar:«é golo! é golo! é gooooooooooooooolo!!!!!!!!!».

10.11.06

Caça fluvial

A leitura da folha oficial ainda vai proporcionando momentos de bom humor. Para quem se aborrece pelos tribunais, é um intervalo de alegria infinita. A terminologia portuguesa para descrever a nossa santa terrinha, ajuda à bonomia. Veja-se só a Portaria que vem hoje no Diário da República, aquela folha tristonha de literatura árida, prosa sonolenta escrita por gente mandona: «cria a zona de caça municipal da Golegã, pelo período de seis anos, e transfere a sua gestão para o Clube de Caçadores de Riachos». E eu a imaginar que nos riachos havia pescadores, afinal há caçadores. Só se for de gambuzinos!

8.11.06

A memória do que foi

Na batalha de Somme, na Primeira Guerra Mundial, numa só batalha, morreu um milhão de pessoas. Escrevo isto e pergunto-me se a concordância verbal não me levaria a ter de escrever morreram um milhão de pessoas. É a selvajaria do perfeccionismo no dizer, os mortos já enterrados no fundo da nossa memória.

3.11.06

O mundo dos outros

A pessoa responsável que tem uma profissão exigente, o senhor respeitável que tem uma reputação antecedente, não deveria ter momentos de intimismo que nesta minha variada escrita se traduz. Um ser assim deveria viver em prosa e proibir-se a poesia, anular em si os sentimentos, trocar enfim, definitivamente, o coração pela cabeça. Não é que eu gostasse de ser assim, os outros é que sentiriam mais seguros, a normalidade unidimensional como uma garantia. Claro que, nos momentos de desespero, descobrem-se tristes nas suas lágrimas e anseiam um íntimo que os entenda. Felizmente para ele é só num breve momento de ténue fraqueza. No mais são todos uns heróis, muito práticos e altamente eficazes. Quanto a mim, daqui a pouco visto-me, de fato e gravata, a pasta das obrigações, os horários a cumprir, pelo mundo dos outros, até que a noite os recolha.

1.11.06

Pontos nos ii

Usar um blog alheio para anonimamente chamar «paneleiro» a uma pessoa, «múmia» a outra, não quadra nos parâmetros aceitáveis deste meu espaço. Por isso apaguei um comentário que aqui foi aposto, em que tal sucedia. Fá-lo-ei sempre sem hesitar. Fi-lo, apesar de a pessoa que o escreveu ter tido palavras amáveis a meu respeito.
Assino tudo o que escrevo, ainda que sujeitando-me a represálias. Tento compreender o anonimato, não aceito, porém, o insulto anónimo, mesmo que sejam outros os visados, ainda que se trate de pessoas que não aprecio.
Quem quiser ter liberdade de expressão crie o seu espaço, não invada subrepticiamente o dos outros.
Os blogs não são uma sanita pública. Por uma questão de higiene, aprendi a puxar o autoclismo!
Já agora e a propósito de uma outra polémica que está a surgir por eu ter respondido com cortesia a um outro blog: para mim não há pessoas com estrelas amarelas ao peito com as quais esteja proibido de falar, seja para as criticar asperamente ou para lhes agradecer a amabilidade da referência. Sou pela inclusão tolerante, não pela exclusão rebarbativa. Eu sei que é defeito, mas sendo-o, é defeito de origem.