10.3.07

O mundo em pelota

Há seguramente escondido nos corredores labirínticos da Polícia Judiciária ou talvez nos cubículos em tabique do DIAP um poeta anónimo, de imaginação criadora rica e sentido de humor inigualável. Literato por certo incompreendido, esgota-se no acto de criar nome para as operações que normalmente passam por rusgas e outros actos de mediático paraquedismo criminalístico.
Esta manhã dei conta de que três camiões de tralha apreendida a um maestro o foram no quadro da «operação partitura», assim como o país não se esquecerá mais do «apito dourado», nem do «furacão».
Ora eu, que para que as coisas da justiça me não chateiem mais do que devem, e já chateiam que baste, me dedico, nas horas vagas, a ler e atrevo-me nas que sobram a escrever.
Por isso, em nome da literatura forense, de que nem sou académico de mérito nem de número, sugiro a este até agora anónimo colega das letras que saia do «ghetto» do segredo de justiça e se junte a nós, para umas boas gargalhadas, porque de risota estamos nós precisados e muito.
E, já agora, quando se chegar à conclusão, que deve estar para breve, que as pensões baratas de curta estada, certas duvidosas casas de massajar e outras em que se bebe menos do que se alterna são instrumentos de evasão fiscal, branqueamento de capitais e quiçá associações criminosas tributárias mesmo, que minam os fundamentos do Estado de Direito Democrático mais do que o tráfico de droga, e lhes cair, a televisão atrás, um esquadrão de polícias e magistrados com mandados de busca, de revista, de apreensão e de captura, talvez não fosse mal, para antecipar o cenário de pânico desenfreado e de envergonhadas corridas pelas ruas, em pelota elas e sem fundilhos eles, baptizar o acto com o nome de «operação rabo ao léu»!

3.3.07

A gente

O português encontrou uma forma de esconder o plural «nós» através do individual «ele». No fundo é, como dizem os gramáticos, o ter encontrado um pronome pessoal que sintacticamente corresponde à terceira pessoa do singular e semanticamente à primeira do plural: é o «a gente» corriqueiro, no «a gente vai», para exprimir o «nós vamos». Há seguramente uma razão profunda, incrustrada no inconsciente da Nação para que um povo fale de si como se de outrem falasse.

27.2.07

Constantes críticas...

Há quem esteja a fazer a imprensa andar, de há muito, atenta aos rendimentos deste Governador do Banco de Portugal, talvez por estar há muito no lugar e haver sérios candidatos ao emprego. Hoje vem no DN que o senhor declarou 280 mil euros de rendimentos. Como se sabe, Vítor Constâncio é um socialista que normalmente vem dizer com ar solene que a economia do país vai mal, as finanças péssimas. É um caso de objectividade, não confunde o seu mundo com o dos outros, o paraíso socialista para si com o inferno capitalista para os outros.

A Bela e o Monstro

O senhor ministro da Justiça, num arroubo literário lembrou-se de dizer, no Centro Cultural de Belém, que o monstro que ameaçava a Justiça está a emagrecer. O curioso é que a foto que orna a notícia mostra-o mais chupado e enfiado. Uma inagem vale mais do que mil palavras!

24.2.07

Ética, corrupção e jornais!

O PGR Pinto Monteiro disse que não há uma «consciência ética forte que censure a corrupção em Portugal, esse é o grande problema. A maior parte dos portugueses durante muito tempo encaravam a corrupção como uma coisa que naturalmente acontecia e que todos faziam». E como se isto já não fosse claro acrescentou que a «corrupção não foi censurada pela consciência moral do povo», dizendo que a sua prática «começa agora a ser censurável graças à comunicação social que trouxe o tema para a praça pública».
Eu fico atónito ao ouvir isto.
Primeiro, porque se quiser fazer uma blague e desconsiderar o argumento, diria que, administrando os tribunais a justiça em nome do povo, o povo de que fala Pinto Monteiro, como ficou aliás na própria Constituição, então, na lógica do dito do PGR, tem sido uma justiça de e para corruptos eticamente inconscientes a que tem havido, o que é um insulto a tudo e a todos, um enrolarem-se as palavras no nó da falta de ideias.
Segundo, e porque não quero fazer blague com uma «boutade» sobre um caso sério, gostaria de sublinhar quanto isto que o PGR disse pode traduzir de arrogância mental e de servilismo face à comunicação social, a ideia de que o mundo começa agora com ele e há que vivê-lo sempre com os olhos nos jornais.
Lembre-se Pinto Monteiro da hipertrofia do Estado, da prepotência do Estado, do arbítrio do Estado, da auto-impunidade do Estado, lembre-se Pinto Monteiro quanto se instalou em Portugal um Estado alçado à custa de oprimir, tirano, e explorar, parasitário, a sociedade civil e talvez entenda o acomodar patrício aos funcionários venais e ao seu poder arbitrário.
Lembre-se Pinto Monteiro quanto custa obter aqui uma certidão, ali uma licença para uma obra, mais adiante uma intervenção cirúrgica para se não morrer e perceberá como se alugam, peitando-os, os que estão do lado de lá do balcão.
Mas lembre-se quanto uma nova vaga de funcionários em muitos serviços trouxe uma nova cultura, uma nova dignidade, uma recusa de gorgetas e gratificações.
Não, senhor PGR, não são os jornais, lamento dizê-lo, onde há jornalistas sérios e impolutos e os não há também, quem fez com que houvesse uma nova ética reprovadora da corrupção. Como em tudo na vida, há o jornalismo do frete, a publicidade fingida de notícia, o escândalo por encomenda, o insulto editorial como via para o sucesso público.
Os jornais denunciaram a corrupção, eis, por ser escândalo, o seu combate por ser notícia!
O que sucede, nesse binómio Justiça/comunicação social, é que hoje a Justiça combate-a, à corrupção, pavoneando-se nos jornais quanto a andar a fazê-lo. É por isso que, tal como no Hamlet, o palco parece a vida, os vivos simples actores.
Enquanto cidadãos, sujeitos aos corruptos e leitores de jornais, cá estamos, senhor PGR, à espera dos resultados para ver se sim, ou se o combate à corrupção, não se tornará, pela ineficácia, num organismo regulador do mercado, ajudando a aumentar o preço.
Em tempos chegou a haver uma Alta Autoridade contra a Corrupção. Em tempos mudou-se o Código Penal, pra combater os corruptos. Em tempos ouvi dizer de um autarca que mandou matar os pombos da praça do seu município porque, quando ele passava, palravam dos beirais, acusadores: corrupto, corrupto, corrupto!
Em tempos já vi que havia gente que pensava que era desta.

22.2.07

Diga lá, Excelência!

Não vi, mas contaram-me. O Dr. Cunha Rodrigues dizia, com aquele estilo de sublimado corrosivo com que irritava os outros políticos, que tinha um problema grave com a comunicação social: o que eles gostavam de saber, ele não podia dizer e o que ele gostaria de dizer, eles não queriam saber. O Dr. Pinto Monteiro ainda está na fase do que eles gostariam de saber. Acho que foi assim ontem à noite, contaram-me!

20.2.07

O clarividente

Jorge Sampaio, quando foi Presidente da República e se irritava, e irritava-se muito, dizia coisas e acrescentava: «como é evidente!». Cavaco Silva, que agora é o Supremo Magistrado da Nação e não se quer irritar, deve ter suspirado de alívio quando o ministro Alberto Costa, por causa da história do foragido indultado, veio explicar-se de que os registos do caso eram de «leitura não evidente». Claro que esta explicação é um zero verbal, mas, asneira feita, ficam todos, de Belém ao Terreiro do Paço, muito bem compostos neste «pacto» de silêncio sobre a justiça.

O mão-leve

«O Estado rouba, rouba o Estado», está escrito numa parede em Lisboa. A ideia percebe-se, pois é óbvia: na psicologia política de muitos portugueses, o Estado é o outro, é o mundo do eles, com o qual eu nada tenho a vêr. Claro que, nesta relação do privado com o público, às vezes voto, muitas vezes abstenho-me, normalmente desinteresso-me. Roubar, nesta forma de pensar, é apenas uma variante social de uma moral muito própria: o Estado tira-me contra a minha vontade, eu rapino-o, sem que ele dê conta.

19.2.07

Testículos regionais

Acho que foi ontem que vi o Presidente do Governo Regional da Madeira a falar na falta de testículos no Continente. A coisa não me atinge directamente, pois nasci em África. Há pouco ouvi-o a anunciar que se demitia para voltar a concorrer e, percebe-se, voltar a ganhar. No meio disto tudo chamava nomes a um tal senhor José Silva, que era, afinal, o primeiro-ministro. Enfim, antigamente Alberto João mascarava-se no Carnaval. Desta feita, só se for em pelota, os testículos em evidência, protuberantes e prometedores! José Sócrates que se cuide, pois.

18.2.07

Saúde desarticulada, ministro articulista

O ministro da Saúde, instado para comentar o encerramento de um serviço de urgência no Minho, remeteu para um artigo que escreveu no «Diário de Notícias». É fantástica esta forma croniqueira de um governante se pronunciar sobre um assunto oficial. Qualquer dia, Suas Excelências estão a colocar anúncios na secção de mensagens dos jornais, ao lado de menina quente e sem tabus faz domicílios.

Acabou-se o papel!

Um director de jornal hoje é demitido porque o jornal não vende. Ora como os jornais não vivem dos exemplares que se compram, mas da publicidade que os sustenta, o negócio compreende-se. Quem quiser sobreviver no mercado, não se aluga para imprimir papel que se leia, vende-se para distribuir papel que embrulhe. No mais, viva a liberdade de imprensa! Viva!

22.1.07

O areias...

Vão os do Estado e mandam despejar toneladas de areia na Caparica. Vem o mar e lambe a areia. Volta o Estado e despeja mais areia. Volta o mar e volta a lambê-la. A coisa chega a ser obscena, a lembrar as «dunas» da canção. Ao ver pela TV, enquanto jantava, tanta parvoíce, lembrei-me de propôr aos do Estado: e que tal se em vez de meterem mais areia, bombassem a água do mar?. Como uma tubagem apropriada, tipo pipe-line, despejavam-na no Mar Morto e no Mar Aral. Ainda era um negócio fantástico.

20.1.07

A máscara

O argumento é, como agora se diz, recorrente: «falar na qualidade». Uma pessoa sai-se em público com uma afirmação polémica, discutível, errónea. Há duas formas de se ver livre do embaraço. A primeira é o «não foi isso que eu disse». Tal expediente está muito gasto, sobretudo quando está muita gente a ouvir e alguns a gravar. Então há o: «falei sim, mas foi nesta ou naquela qualidade». Normalmente é «falou, sim, mas na qualidade de cidadão!».
No caso da Dra. Maria José Morgado, que se meteu por estes atalhos, hás três coisas fantásticas. Primeiro, ela foi convidada para falar com uma etiqueta ao peito, a de «Procuradora-Geral Adjunta», que era o que vinha no convite. Segundo, ela não disse, estou aqui, neste encontro partidário, como cidadã, de toga despida. Terceira, teve que ser a Procuradoria-Geral a, desautorizando-a, dizer que a boca que falou não era boca de magistrado. Pois pudera!
Tudo isto é caricatural. Já nem é o terem as pessoas duas caras, conforme as conveniências, é já nem terem cara com que se apresentem e serem outros a enfiarem-lhes a máscara, conforme as necessidades!
Desculpem meter-me nisto, mas francamente, há um limite para tudo, para a exibição e para o rebaixamento.

1.1.07

O som bem audível

«As imagens ontem reveladas não mostram o momento em que foi suspenso, mas testemunhas contaram como foi bem audível o estalar do seu pescoço». É, como se calcula, sobre o enforcamento de Sadam Hussein. Por causa disso deve ser politicamente incorrecto sentir-se uma náusea sequer. Haverá até quem tenha ficado contente ao saber. É deste voyeurismo macabro que se alimentam as notícias. Em breve deve surgir o video amador do momento em que a língua se projectava, o corpo se contorcia, em agonia o enforcado se urinava pelas pernas abaixo, para gáudio dos que querem estar completamente informados.

26.12.06

A doença e a cura

Experimentem ficar doentes e vão ver se não é assim. Há uma tipologia social de reacções a essa situação. A primeira é o «isso é uma gripe». A segunda o «anda tudo por aí com isso». Há uma variante que é o «apanhei eu uma coisa dessas há duas semanas». Ao falarem de si dirão que «está adoentado» ou numa versão mais suave que «está constipado». No fundo tudo isto se resume ao não querer saber, normalmente acompanhado, para fim de conversa, do «tens que ir mas é ao médico». Há um dia em que um sujeito finalmente vai e sai de lá com uma «virose», porque «sabe, anda tudo por aí com isso», aliás eu próprio «apanhei uma coisa dessas há duas semanas». Experimentem ficar doentes porque, a não morrerem, vão sentir logo no acto súbitas melhoras.

24.12.06

Ex-votos

Andamos nesta quadra a desejar indiscriminadamente uns aos outros um Bom Ano e ao mesmo tempo a desejar que certas coisas más não aconteçam. Ora para sermos verdadeiros em relação a certas pessoas deveríamos desejar-lhes então descaradamente um ano mau.
Mas nesta quadra, porque é Natal, nós somos bons, mesmo para com os maus: gostaríamos que houvesse o bem, sem ter de haver o mal.
Por isso, mesmo ante o maior velhaco, que sabemos andar a tramar o pior, lá vai um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. A resposta que merecíamos era: muito obrigado, mas não exageremos!

23.12.06

É amanhã

Foi ao ler o jornal que me apercebi que, afinal, a consoada é só amanhã. A minha velhota corria o risco de eu lhe aparecer em casa hoje, para a levar a jantar fora, por ser Natal. É isto que dá a dimensão desolada da velhice, o ficar-se à mercê das datas obrigatórias e do ter de ser festivo, da lembrança ocasional de todos os outros. Assim, adiou-se por um dia o sentirem-se os afectos em torno de uma refeição, que é o que acontece quando secaram já com o tempo todas as outras formas de nos expressarmos.

10.12.06

Perdidos e achados

Pois lá segui sexta ao anoitecer para o Algarve no tal comboio com bilhete comprado «não on line», nem no multibanco. Deixei-o, em Loulé e nele um livro que estava a consultar para finalizar uma narrativa que terá de estar entregue na tipografia na próxima segunda-feira, ou seja, ó nervos!, amanhã.
Logo que, umas horas depois, dei pela sua falta, tentei tudo para o encontrar . Como a composição terminava a sua marcha em Faro, vá de ligar para a estação. Na lista telefónica não vinha. Mas a CP tem um «call centre». Dali deram um número. Ligado o dito, veio de lá uma voz a perguntar quem é que tinha dado tal número e a informação que o comboio já tinha sido «limpo». Ante este dado, e sugerindo-se que, feita a limpeza, o livro teria sido seguramente encontrado por alguém, o ensonado funcionário ferroviário não se deu por vencido. Que sim, mas que o livro «acabaria por» seguir para Lisboa. Pois, mas como fazia muita falta e talvez ainda estivesse por ali, sugeriu-se, que tal tentarem encontrá-lo? Entrou-se então no entaramelado de uma conversa de chanfrados, que terminou no «ligue amanhã a partir das nove». Pelas nove ligou-se, para se saber, que ninguém reclamava quanto ao número ser errado, mas para receber a informação, aliás preciosa, de que as mulheres da limpeza daquele comboio só entravam às quatro. Liguei às quatro. Disseram-me então que o serviço estava fechado.
Voltei no dia seguinte a Lisboa, onde estou este domingo, entre a gripe e o desejo de a ter, revendo provas, o livro por acabar.
Já decidi que hoje não vou à CP, com medo que me digam que os serviços competentes só abrem na segunda-feira; mas ao mesmo tempo, estou receoso que, se for só segunda, me respondam que o livro voltou para Loulé e o melhor é mesmo voltar a ligar para o «call centre».
Algum leitor benévolo pode dar uma ajudinha, nem que seja a informar onde é que se arranja um bom pau, daqueles com que os vedores até água encontram no meio das pedras?
É que entre perdidos e achados, eu, se não acho o livro, ainda me perco!

8.12.06

No comboio descendente

A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através do multibanco. A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através da Net. Mas a CP não permite que uma coisa nem outra funcionem. Hoje acabei numa bilheteira de manhã, para comprar um bilhete para o comboio das 17:20. À minha frente uma rapariga explicava que tinha pedido bilhete de regresso para domingo e lhe estavam a vender um para segunda-feira. Resposta do funcionário, ar de cansado, gravata desgoilada, barba por fazer: para isso é que é mais prático comprar-se directamente «on line». Pois claro!

5.12.06

Uma questão de órgãos

O DN de hoje traz como manchete que «Portugal é campeão europeu de cortes na função pública». Mais abaixo o título é «juízes perdem liberdade para integrar órgãos do futebol». Belo fecho de edição!
Tudo junto, a notícia dos «cortes» e a notícia dos «órgãos» dá para o leitor distraído concluir um gritado «Já sei! O Governo o que decidiu foi atirar-se aos juízes e cortar-lhes os órgãos!». O que, se calhar, é o que há para noticiar...
Falta só dizer que a imagem da capa do dito periódico da Avenida é a de uma Justiça que, por falar em órgãos os tem, aos peitorais, bastante proeminentes. Valha-nos isso: Justiça que seja, patriótica ao menos!