9.6.07

Tão fácil

Por que estranho sentido de pudor não uso os blogs para falar dos processos que me estão confiados, ou mesmo daqueles em que estou envolvido numa lógica de cidadania? Ser-me-ia fácil: um post, um click, já está!
Aos que esperam que eu diga, vaidoso pois que de mim orgulhoso, que é por uma razão grandiloquente, desiludam-se: francamente, não sei. Será o acaso, talvez, que dita isto suceder assim, um acaso feliz.

7.6.07

Partidos, S. A.

De acordo com dados da contabilidade dos partidos políticos, alguns deles estão a tornar-se empresas lucrativas. Um destes dias, altera-se a lei e eles passam a estar cotados na bolsa. Nessa altura o José Sócrates lança uma OPA sobre o PSD, Jerónimo de Sousa blinda os estatutos do PCP, para evitar take-overs hostis.

31.5.07

A lei mediática do desenrasca

Uma das coisas mais notáveis no mundo mediático é a capacidade que ele tem de gerar factos que dão origem a opiniões, que suscitam debates sobre coisas que, vamos a ver depois, afinal, nem sequer eram assim.
Lembro-me de quando fui secretário do Conselho de Ministros do VI Governo Provisório, o governado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
Entre as muitas histórias que tenho para contar um dia, vem agora a propósito esta, pois mostra do que falo.
Foi durante um dramático Conselho de Ministros em que se aprovou a Lei da Reforma Agrária, a que tomava o rio Tejo como fronteira e definia que a sul continuava a política de expropriações, embora mais moderada do que até então, e a norte do país tudo se desenvolveria através de uma lógica de arrendamento rural, como forma de garantir, indirectamente, a terra a quem a trabalhasse.
Dado o nervosismo público que reinava em torno da questão e a tensão política que aumentava como uma espiral de um ciclone, entendeu-se que se faria uma fuga controlada de informação para o jornal «Expresso», de modo a que se lançasse logo as sementes do conhecimento do novo regime agrário e se alcançasse alguma paz social, num universo cada vez mais insurreicional.
Coube-me tratar do assunto e eis-me, quase embuçado, nos corredores do Flórida, ao Marquês de Pombal, num encontro clandestino com o meu contacto no jornal, para lhe passar, subrepticiamente as fotocópias do decreto ainda fresco, aprovado pela hora do jantar, cópias que, por uma questão de segurança, eu mesmo tirara.
No dia seguinte ao ler o jornal fiquei espantado, pois o semanário da Rua Duque de Palmela, noticiando na primeira página a questão da Lei da Reforma Agrária, dava conta que à hora do fecho da edição «ainda estavam por aprovar os artigos» tais e tais.
Atónito telefonei ao meu amigo jornalista, afinal para me espantar ainda mais.
Ante o meu «mas que raio de ideia foi essa dos artigos por aprovar», respondeu-me, com a maior calma do mundo: «é pá, fogo, tu com a pressa tinhas-te esquecido de fotocopiar uma página do meio do decreto e a malta, tás a vêr, desenrascou a coisa assim!».
Ora aí está! Hoje e sempre, há certa malta nos jornais que desenrasaca a coisa assim. Outros, mesmo sem ler, opinam, outros, ledores, empinam. No dia seguinte, esquecido o escândalo, passa-se para o tema seguinte, que isto há que ir desenrascando umas notícias com as fotocópias que temos.

29.5.07

Talvez

«Sinal de vitalidade é constatar que os moços sabem ter vinte anos num nação de oito séculos». Quem o escreveu foi Carlos Malheiros Dias, em atenção a António Ferro, para acrescentar, umas folhas adiante que «a feliz mocidade não conhece o talvez».
Leio isto, num momento de intervalo, entre os oito séculos de história que já foram e os vinte anos de vida que dou comigo a pensar talvez já nem tenha. Eu disse talvez e de o ter dito me arrependi, na hora de o dizer. Ah! O livro chama-se «A Idade do Jazz-Band», editou-o a Portugália, em 1924.

28.5.07

Acção de graças

«Graças aos protestos dos verdadeiros democratas e à atmosfera de hostilidade que desses projectos se havia formado, surgiu a revolta militar do 28 de Maio». A frase não pertence a um rançoso fascista, mas sim ao lídimo democrata António Sérgio.
Claro que o dito terá nascido de uma ilusão funesta. Mas a História é feita disto, de gente iludida e de gente que ilude. Mais tarde, nas falsificações grosseiras e maniqueístas, com que os avençados de serviço a reescrevem, é que só há anjos de um lado e demónios do outro.
Um dia as gerações futuras, quando largarem a TV e as consolas mais seus jogos de alienação e voltarem a querer saber do mundo real em que vegetam, descobrirão a vigarice, aquela com que a nossa cobardia convive e o atrevimento de mais-dúzia fomenta.

27.5.07

Domingo à tarde

Ontem fui à Feira do Livro. Num país em que cada vez se editam mais livros, cada vez os pavilhões são em menor número. No meio daquela tristeza, um cheiro nojento a churros, transformando aquilo num Luna Park do saldo livreiro.
Num canto, um jovem escritor esperava que alguém lhe pedisse um autógrafo, disfarçando o visível desapontamento, noutro uma menina comentava com o namorado que adorava aqueles livros velhos. «Eu não», respondeu-lhe ele, «até bichos devem ter», acrescentou, um ar prático e por isso vagamento enjoado. Para não passar por ácaro bibliotecário, afastei-me, lesto, com a promessa íntima de lá voltar.
Esqueci-me de ver se por lá continua a Difusão Bíblica, e o seu best-seller da literatura de viagens, espécie de Guia Michelin para o outro mundo, via salvífica para os que, pela palavra revelada, querem ir desta para melhor.

25.5.07

Afirma Pereira

A passagem de Rui Pereira do Governo para o Tribunal Constitucional e do Tribunal Constitucional para o Governo, não torna o tribunal do Palácio Ratton mais político do que é, ao serem os seus juízes nomeados por políticos, ao fazerem-se os políticos serem para lá nomeados como juízes.
É a promiscuidade entre a política e o judiciário na sua melhor expressão. Rui Pereira devia ter-se poupado a ser disso exemplo. Amigo que sou, não sei se lhe lamente a imprudência se a ambição.

17.5.07

As touradas

Iria hoje à manifestação contra as touradas. Transformar o matar numa festa fere-me sensibilidade que chegue. A arena é a catarse dos sentimentos sanguinários e da maldade. Gozado até à exaustão, a escorrer sangue, o touro, em Portugal, salvo nos Barrancos, não é morto, nem sei porquê. Ficar vivo, depois da indignidade a que o sujeitam, é a maior e a final humilhação.

14.5.07

Os meninos de sua mãe

Um destes dias vi o cineasta Fernando Lopes dizer em público, com candura, que a mãe fora «criada de servir» em Lisboa, no que se inspirara para um dos seus filmes. No livro John, o chauffeur russo, que li, naquela edição azul, da editora Romano Torres, por causa de uma biografia que publiquei, há um notável contraste entre uma francesinha irritante, de quem o John - afinal um príncipe russo fugido aos sovietes e refugiado em Paris - é motorista e escolta, que se envergonha das origens humildes do pai e por isso as esconde, e uma americana, sua amiga e que lhe disputa o garboso «chauffeur», para a qual ser o pai um «self made man» é motivo de orgulho e por isso o apregoa.
É todo um mundo de diferença. Cada um que se reveja e se coloque onde está, entre a pompa de si e a modéstia de onde veio.
Hoje um colega meu, que tem tanto de discreto como de inteligente, comentava que muita da arrogância de tanta gente provém de serem filhos de humildes que, porque estudam para doutores, passam a ser tratados por aqueles que lhes deram o ser, como se reis e senhores já fossem.
A submissão a a vassalagem que esperam e exigem começa em casa, a família a seus pés, os meninos de sua mãe!

13.5.07

Suspirando por polidez

Dei com o livro num canto da estante, junto à cama, relido há tempos e ainda por devolver ao local de onde saíu. Agradeço-lhe este momento de contentamento.
Há no Mandarim, de Eça de Queirós, aquele instante ímpar em que Theodoro, o amanuense do Reino, que punha o cursivo ao serviço dos poderes públicos e nos intervalos do dever sonhava com o vasto seio de Madame Marques, encontra o Mandarim e este lhe explica que precisamente a palavra «mandarim» a haviam trazido os navegadores portugueses, equivalente ao verbo «mandar».
Transcrevo tudo da edição que tenho do livro, em alfarrábio editado em décima terceira edição, no ano de 1941, comprada sei lá onde, com a grafia que ali leio:
«- Mandarim, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguém a entende na China. É o nome que no século XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...
«- Quando nós tínhamos navegadores... murmurei, suspirando.
«Ele suspirou também por polidez, e continuou:
«- ... Que os seus navegadores deram aos funcionários chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...
«- Quando tínhamos verbos... - rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria».
Eis, pois, o modo de ser dos Theodoros de sempre, mesmo aqueles impantes aqueles sem substantivos nem adjectivos que mereçam, falhos de verbos e que por interjeições falam, os que também poderiam dizer como o outro: «quando o meu intestino se alliviava com estampido - a humanidade sabia-o pelas gazetas».

8.5.07

Gritos esporádicos

Recordo-me de ter visto em tempos a falecida Maria Armanda Falcão [Vera Lagoa] na TV, mirando, como se alto a baixo o líder dos Mão Morta e a atirar-lhe, ante o embaraço do visado, com aquela liberdade irónica que a idade e a vivacidade de espírito lhe permitiam: «um homem que a si próprio se chama Adolfo Luxúria Canibal, deve ser um tipo muito interessante!».
O Canibal, como devem saber, é jurista como tantos de nós, para além de artista no campo da música e do teatro, e escritor.
Vem isto ao caso de, ao anunciar agora um seu novo empreendimento, adaptado dos «Cantos de Maldoror» de Lautreamont, ter dito, em entrevista: «Eu apresento-me com um registo spoken word com gritos esporádicos».
Ora eis o que, a mim também que vivo num registo de spoken word, me dá tantas vezes vontade: mandar uns bons gritos, ainda que esporádicos.

6.5.07

O boato

Na peça de teatro «A Dúvida», que está em vias de se ir embora, um Diogo Infante pouco convicto, vocifera, representando um padre, uma homila contra o boato que propalava uma conduta imprópria do sacerdote com um menor seu aluno.
Na assistência, risos, a minha dúvida o saber a propósito de quê. Pelo sim pelo não, ri-me também, um bocadinho, como os chineses quando se embaraçam, apenas aquele esgar míope que simula estarmos a sorrir.

29.4.07

O triunfo da matemática

Hoje pela hora do almoço encontrámo-nos. Ele educado e moderado, hesitante numa palavra mais rude, eu já à beira do desbragamento verbal, cansado de ser bem educado. Vivemos um «tempo de barbárie», ensinou-me, suave, «uma época de relativismo», acrescentou, a mostrar-me, polido, como impera o tudo vale, na moral e na estética, da política à justiça. Não há uma jurisprudência uniforme, qualquer coisa passa por arte, os cidadãos vivem, contribuintes, à mercê do arbitrário Estado, que não dominam. No poder e na oposição, campeiam os funcionários da política, empregados dos que dela fazem negociata.
É o reino dos números, o império do ter, o triunfo da matemática sobre a filosofia.
A esta hora, apesar de ser domingo, há na insípida Bruxelas quem tenha passado o dia a escrever mais uns regulamentos, quem na visigótica Berlim sonhe o dia do espaço vital europeu, do Báltico aos Urais. Longe, o Agareno, despreza-nos, soberano de si: adiante na História, quando o tempo derrotar o espaço, serão eles os vencedores, os nossos restos os seus despojos.

25.4.07

Onde estavas Zé no 25A?

No dia 25 de Abril eu estava na Quartel em Mafra, na especialidade de Armas Pesadas de Infantaria, mau grado a ironia de pesar quarenta e oito quilos. Graças à prestimosa PIDE/DGS fora-me atibuída aquela magnífica especialidade onde, como dizia o tenente comandante do nosso pelotão, se matava sem ver o quê e se morria sem dar conta.
Ora como o dito tenente não era afecto ao MFA sucedeu que nessa manhã ficámos no quartel, não acompanhando a força que arrancou até Lisboa com o propósito de fazer cair o regime que Marcelo Caetano já mal sustinha. Ao acordar, demos conta que o gélido convento estava vazio, só uns quantos tínhamos ficado, entregues à nossa sorte, fantasmas sem nexo, atónitos e desamparados.
Vítima encartada da Situação, do «odioso fascismo» como lhe chamam os comunistas, aquele dia foi a minha hipótese histórica de ser herói, não fosse o estar no lado errado da História. Assim fiquei por me estrear, primeiro sem pequeno almoço, depois à espera de uma nova oportunidade de mostrar que a Pátria, na sua salvação, poderá contar comigo.

17.4.07

Holy shit! Será isto inglês técnico?

Da próxima vez que o primeiro-ministro vier, com aquele ar empertigado que o caracteriza como um ademane de importância, exigir «rigor» e «uma «cultura de qualidade e de exigência» aos portugueses, permitam-me que me largue a rir dele e a chorar pelo país.
Há pais deste país deste primeiro-ministro a pagar fortunas para ter um filho a estudar no estrangeiro porque as Universidades portugueses, sob a batuta do Governo, exigem médias extravagantes para admitirem estudantes.
Claro que os moralistas façanhudos, catões dos nobres princípios, polícias dos costumes alheios, agora de hímen ético tão complacente, desdobram-se em argumentos, disfarces e justificações: avençados do interesse, beneficiários do relaxe, tudo compreendem e com tudo convivem. Ouvindo-os, começo a pensar que o país se está a tornar parecido com o primeiro-ministro, a trapalhada, o faz de conta, o deixa lá.

8.4.07

O jogo de peonagem

Por falar em Páscoa e em coelhos, lembram-se de um tabuleiro de xadrez apreendido na casa do socialista Jorge Coelho e de todas as jogadas em torno do assunto, que pareciam pôr em xeque quase toda uma classe política e seus supostos financiadores? E lembram-se de como o assunto que lhe deu azo saíu de cena? E alguém se perguntou por que é o caso apareceu com tanto estrondo e por que é que desapareceu com tanto murmúrio? E alguém quer saber onde está, onde é que não está, ou onde é que deixou de estar? É isto que torna o xadrez um jogo aliciante, ser um jogo de peões.

O animal feroz à caça!

Ontem fui ao cinema. À saída, ei-lo, informal, Fernanda Câncio ao lado, sem guarda-costas, visivelmente a mostrar-se num voltear sem nexo, o primeiro-ministro. Surpreendidas as pessoas reviravam-se, torcendo pescoços, algumas mulheres seduzidas por um «tão bonito homem». Talvez tenha ido ao cinema ou só à saída do cinema, mas entre o cheiro adococicado a pipocas, sem pose nem anteparo, era um entre tantos. Como nem sempre estou atento às notícias perguntei-me ainda se já estaria demitido sem eu ter dado conta. Hoje de manhã a imprensa, que lá fui ver à cata de confirmação, relatava que «o estudo de opinião, realizado em plena polémica sobre o curso tirado por José Sócrates na UnI, deixa claro que o índice de popularidade do primeiro-ministro caiu para uma nota negativa de 9,4, ao nível do registado em Janeiro de 2006».
Já compreendi. O fulano, que em entrevista a Maria João Avilez a si mesmo se chamara, «um animal feroz», andava à caça!

6.4.07

A Universidade: do capelo às borlas

Com a oposição e seus licenciados comprometidamente calados, José Sócrates vai aguentar-se no lugar. Cavaco Silva, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, tem uma certeza: a de que vai fazer de conta que não é professor universitário doutorado, mas apenas um político entre políticos. A dignidade universitária com as suas borlas e capelos que se dane. Há aliás uma histórica fantástica, vivida quando das Cortes Constituintes de 1820: como o taquígrafo que com a sua escrita rápida, assegurava a feitura das actas tinha que ir a «a actos» à Universidade e porque, sem ele, parava a deputação nacional, ali mesmo, por decreto parlamentar o investiram no grau de bacharel!

Um peso no peito

O José Medeiros Ferreira não precisava de ter citado, ainda que ironicamente, as condecorações que o Estado já lhe deu nem de dizer, talvez com ironia também, que ainda lhe deviam a Ordem de Cristo por ter sido ele a assinar o pedido de adesão de Portugal à CEE. Fê-lo numa mini auto-biografia que o JL publica na última página, em que cada um fala de si. É que o Medeiros Ferreira é um rapaz com valor e as condecorações em Portugal, depois do regabofe que tem sido a sua atribuição, não valem nada. As condecorações são para a República aquilo que as comendas eram para a Monarquia, o sinal da sua decadência. Vá lá Zé, se não podes devolver os pendericalhos, ao menos não fales neles! Ainda por cima têm um efeito: pesam no peito e fazem dobrar a cerviz!

5.4.07

Engenheiros de Lisboa...

A paródia sobre as habilitações académicas do primeiro-ministro continua, o currículo do mesmo vai sofrendo variações à medida. O Presidente da República que, enquanto chefe do Governo, demitiu um ministro por ter contado uma infeliz anedota sobre alentejanos, está calado e hirto. Deve ter regressado à fase em que não lê jornais. Só pode.
No meio disto há a rendição moral dos que acham que o assunto não tem importância alguma, até porque, graduado ou não, o senhor não governa mal este país de doutores e que se danem os princípios em nome dos interesses.
Eu cá por mim - expressão tão saborosa esta - não quero saber.
Na terra onde nasci - e onde nasceu o demitido ministro da anedota e, já agora, a Dra. Maria José Morgado, a longínqua Malanje - havia a história da outra que, sendo casada com um enfermeiro, dizia às amigas que o esposo era médico auxiliar de segunda classe. Sugiro que seja esta a solução e mudamos de assunto: engenheiro auxiliar de segunda classe.