24.6.07

O culto dos mortos

No campo mimoso em que se torna a polémica pública em Portugal, uma pessoa já nem se surpreende. O futebol sempre foi o local psicológico da catarse das emoções, o libertador das pulsões primárias, a possibilidade de os cavalheiros refinados despejarem palavrões acumulados, o pretexto para eu estar sãmente contente pela alegria de o meu clube estar a ganhar e maldosamente feliz pois o clube do meu vizinho está a a perder.

Hoje de manhã, ao passar os olhos pela imprensa à borla a que pela Net se chega, vi que«o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, considerou que as acusações do seu homólogo do FC Porto, Pinto da Costa, são o «estrebuchar do morto» e de alguém que já pede a ajuda da justiça divina».

Ora como eu disse há pouco, depois de uma noitada, acabei o livro que o Wenceslau de Morais escreveu em 1914 sobre o culto dos mortos, onde a propósito se aprende que, o morto, mesmo quando incinerado, «fica em casa, fazendo parte da família».

O Presidente do SLB bem pode, pois, matar o seu homólogo no norte. Quanto mais morto, mais vive! Um dia esta gente aprenderá.

23.6.07

A hora universal

«Que horas são?: as que Vossa Magestade quiser!». Eis numa frase irónica, anedota de outros tempos, o agachamento serviçal e sabujo ante o mando, o de cócoras comportamental e louvaminhas que tão frequentemente por aí vemos, a vontade de agradar e cair no goto, o estar com quem está e ser como quem é.
Eu sei que é apenas uma historieta, e que há toda uma legião de revoltosos a mostrar o oposto, quais relógios propositadamente adiantados. Há, porém, só uma particularidade a ensombrar tais criaturas sempre à frente do seu tempo. É que perante esses cronómetros de ideias avançadas, ao olhar-se para eles, para se saber que horas são, há sempre que lhes dar um desconto, às vezes um grande desconto mesmo.

22.6.07

Cenas e fitas

«Nos primeiros cinco meses deste ano, as salas de cinema portuguesas foram visitadas por 6.205.888 espectadores, o que traduz uma quebra diária de 2.222 espectadores». Vem na imprensa. A pergunta é: para onde se deslocaram estes espectadores? Para que fitas? A vida social só por si, vista de fora, lida nos jornais, é melhor que o animatógrafo. Nalguns casos, com cenas para adultos mesmo, noutros verdadeiros filmes de terror. No mais, já nem há quem vá para o escurinho do cinema. Resta ir lá para comer pipocas e beber xaropes gaseificados. O sonho projectado no écran prateado tem os dias contados, morta que está a capacidade de se sonhar.

17.6.07

Cair mal

Acabei de ler este começo de manhã o primeiro fascículo das memórias que o José Hermano Saraiva está a divulgar sobre os oitenta e seis anos da sua vida. Depois de uma vida a divulgar o passado dos outros, eis o momento de divulgar o seu.
Lê-se e há ali um pouco de tudo. Num momento é a lembrança de quando Henrique Galvão e outros foram condenados em «penas suportáveis» por conjura sediciosa, mais adiante como é que «o antigo herói do Estado Novo» seria depois condenado a uma pena de catorze ou dezasseis anos, no tribunal plenário na Boa Hora, por «rebelião militar». É aqui, no contar desta condenação, que vem um excerto revelador: «a sentença caiu mal mesmo nos círculos mais ligados à justiça penal», conta Saraiva.
É domingo de manhã, acordei mais cedo para acabar de ler esta narrativa, e eis-me a meditar no facto de uma insuportável sentença ter caído mal «mesmo» nos círculos mais ligados à justiça penal». Dá mesmo para pensar! Quando uma coisa dessas cai mal «mesmo», aí, é obra!

Um grande 31

Ainda consegui ler o primeiro fascículo do livro que o José Hermano Saraiva está a publicar, através do jornal de que o sobrinho é director, com as suas memórias.
A propósito do Henrique Galvão, figura grada do salazarismo e posterior chefe de fila da oposição a Salazar, lembra Saraiva que ele foi um dos cadetes do Sidónio Pais.
Ficaram-me os olhos na expressão. O país político é o resultado dos cadetes do Sidónio, dos tenentes do 28 de Maio, dos capitães do 25 de Abril. São os militares quem fazem e desfazem o regime político de Portugal.
Como se nota a coisa tem vindo a subir de patente. Pela lógica, da próxima cabe a vez aos majores mas, ou eu muito me engano, ou desta feita, o 31 salta pela mão dos sargentos.

11.6.07

José Luís Saldanha Sanches

Ouvi ontem o Doutor José Luís Saldanha Sanches na SIC Notícias.
A propósito do assunto não vou entrar no «diz tu direi eu», nem usar os blogs a que estou ligado para discutir o caso. Já o disse.
Só quero deixar aqui três breves apontamentos para quem quiser saber, a bem da verdade.
Primeira: antes de se doutorar pela mão do Professor Soares Martinez, Saldanha Sanches foi meu aluno na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, onde lhe fiz exame de Processo Penal, tendo a elevada nota premiado o apreço que tive pelas suas provas. O facto de quer agora, quer em anterior entrevista à RTP-2, uma das muitas que tem dado sobre a matéria, forçar a ideia de que nem do meu nome se recorda, deve ser interpretado a esta luz. Cada um que conclua.
Segunda: tentando apoucar a minha iniciativa, o Doutor Saldanha Sanches declara que eu pretendia que parasse tudo e todo o MP fosse constituído arguido. Na denúncia criminal que apresentei contra incertos, pedi, entre outras diligências, que fossem tomadas «declarações, a todos os magistrados do Ministério Público visados pelas afirmações produzidas pelo Doutor Saldanha Sanches, para que se possam defender, como arguidos [ante a imputação outro estatuto não é processualmente possível!] e com os direitos respectivos, de tão graves imputações, ou perseguidos criminalmente, se incursos em responsabilidade penal». Notem-se as diferenças.
No mais, são opiniões dele sobre o que disse e sobre o que queria dizer e mais opiniões sobre política, políticos e sobre a sua pessoa e a pessoa de sua mulher. Nada tenho a ver com isso.
Saldanha Sanches disse não querer comentar a investigação instaurada contra João Soares «por ser amigo». Se uma pessoa se resume numa frase, está dita.

10.6.07

Portugal e os Portugueses

Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal.

9.6.07

O bife e o osso

«O capital privado quer apenas o bife do lombo, não quer o osso», disse Jerónimo de Sousa em Vendas Novas. Percebe-se que em política uma boa imagem ajuda a passar a mensagem e com tanto discurso a ter que se transformar em frase citável, a imaginação criadora esgota as suas reservas. Esta agora de o dirigente do PCP dizer que o capital privado já nem o osso quer, é mesmo chamar-lhes, aos do capital, «abaixo de cão». Convenhamos...

Tão fácil

Por que estranho sentido de pudor não uso os blogs para falar dos processos que me estão confiados, ou mesmo daqueles em que estou envolvido numa lógica de cidadania? Ser-me-ia fácil: um post, um click, já está!
Aos que esperam que eu diga, vaidoso pois que de mim orgulhoso, que é por uma razão grandiloquente, desiludam-se: francamente, não sei. Será o acaso, talvez, que dita isto suceder assim, um acaso feliz.

7.6.07

Partidos, S. A.

De acordo com dados da contabilidade dos partidos políticos, alguns deles estão a tornar-se empresas lucrativas. Um destes dias, altera-se a lei e eles passam a estar cotados na bolsa. Nessa altura o José Sócrates lança uma OPA sobre o PSD, Jerónimo de Sousa blinda os estatutos do PCP, para evitar take-overs hostis.

31.5.07

A lei mediática do desenrasca

Uma das coisas mais notáveis no mundo mediático é a capacidade que ele tem de gerar factos que dão origem a opiniões, que suscitam debates sobre coisas que, vamos a ver depois, afinal, nem sequer eram assim.
Lembro-me de quando fui secretário do Conselho de Ministros do VI Governo Provisório, o governado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
Entre as muitas histórias que tenho para contar um dia, vem agora a propósito esta, pois mostra do que falo.
Foi durante um dramático Conselho de Ministros em que se aprovou a Lei da Reforma Agrária, a que tomava o rio Tejo como fronteira e definia que a sul continuava a política de expropriações, embora mais moderada do que até então, e a norte do país tudo se desenvolveria através de uma lógica de arrendamento rural, como forma de garantir, indirectamente, a terra a quem a trabalhasse.
Dado o nervosismo público que reinava em torno da questão e a tensão política que aumentava como uma espiral de um ciclone, entendeu-se que se faria uma fuga controlada de informação para o jornal «Expresso», de modo a que se lançasse logo as sementes do conhecimento do novo regime agrário e se alcançasse alguma paz social, num universo cada vez mais insurreicional.
Coube-me tratar do assunto e eis-me, quase embuçado, nos corredores do Flórida, ao Marquês de Pombal, num encontro clandestino com o meu contacto no jornal, para lhe passar, subrepticiamente as fotocópias do decreto ainda fresco, aprovado pela hora do jantar, cópias que, por uma questão de segurança, eu mesmo tirara.
No dia seguinte ao ler o jornal fiquei espantado, pois o semanário da Rua Duque de Palmela, noticiando na primeira página a questão da Lei da Reforma Agrária, dava conta que à hora do fecho da edição «ainda estavam por aprovar os artigos» tais e tais.
Atónito telefonei ao meu amigo jornalista, afinal para me espantar ainda mais.
Ante o meu «mas que raio de ideia foi essa dos artigos por aprovar», respondeu-me, com a maior calma do mundo: «é pá, fogo, tu com a pressa tinhas-te esquecido de fotocopiar uma página do meio do decreto e a malta, tás a vêr, desenrascou a coisa assim!».
Ora aí está! Hoje e sempre, há certa malta nos jornais que desenrasaca a coisa assim. Outros, mesmo sem ler, opinam, outros, ledores, empinam. No dia seguinte, esquecido o escândalo, passa-se para o tema seguinte, que isto há que ir desenrascando umas notícias com as fotocópias que temos.

29.5.07

Talvez

«Sinal de vitalidade é constatar que os moços sabem ter vinte anos num nação de oito séculos». Quem o escreveu foi Carlos Malheiros Dias, em atenção a António Ferro, para acrescentar, umas folhas adiante que «a feliz mocidade não conhece o talvez».
Leio isto, num momento de intervalo, entre os oito séculos de história que já foram e os vinte anos de vida que dou comigo a pensar talvez já nem tenha. Eu disse talvez e de o ter dito me arrependi, na hora de o dizer. Ah! O livro chama-se «A Idade do Jazz-Band», editou-o a Portugália, em 1924.

28.5.07

Acção de graças

«Graças aos protestos dos verdadeiros democratas e à atmosfera de hostilidade que desses projectos se havia formado, surgiu a revolta militar do 28 de Maio». A frase não pertence a um rançoso fascista, mas sim ao lídimo democrata António Sérgio.
Claro que o dito terá nascido de uma ilusão funesta. Mas a História é feita disto, de gente iludida e de gente que ilude. Mais tarde, nas falsificações grosseiras e maniqueístas, com que os avençados de serviço a reescrevem, é que só há anjos de um lado e demónios do outro.
Um dia as gerações futuras, quando largarem a TV e as consolas mais seus jogos de alienação e voltarem a querer saber do mundo real em que vegetam, descobrirão a vigarice, aquela com que a nossa cobardia convive e o atrevimento de mais-dúzia fomenta.

27.5.07

Domingo à tarde

Ontem fui à Feira do Livro. Num país em que cada vez se editam mais livros, cada vez os pavilhões são em menor número. No meio daquela tristeza, um cheiro nojento a churros, transformando aquilo num Luna Park do saldo livreiro.
Num canto, um jovem escritor esperava que alguém lhe pedisse um autógrafo, disfarçando o visível desapontamento, noutro uma menina comentava com o namorado que adorava aqueles livros velhos. «Eu não», respondeu-lhe ele, «até bichos devem ter», acrescentou, um ar prático e por isso vagamento enjoado. Para não passar por ácaro bibliotecário, afastei-me, lesto, com a promessa íntima de lá voltar.
Esqueci-me de ver se por lá continua a Difusão Bíblica, e o seu best-seller da literatura de viagens, espécie de Guia Michelin para o outro mundo, via salvífica para os que, pela palavra revelada, querem ir desta para melhor.

25.5.07

Afirma Pereira

A passagem de Rui Pereira do Governo para o Tribunal Constitucional e do Tribunal Constitucional para o Governo, não torna o tribunal do Palácio Ratton mais político do que é, ao serem os seus juízes nomeados por políticos, ao fazerem-se os políticos serem para lá nomeados como juízes.
É a promiscuidade entre a política e o judiciário na sua melhor expressão. Rui Pereira devia ter-se poupado a ser disso exemplo. Amigo que sou, não sei se lhe lamente a imprudência se a ambição.

17.5.07

As touradas

Iria hoje à manifestação contra as touradas. Transformar o matar numa festa fere-me sensibilidade que chegue. A arena é a catarse dos sentimentos sanguinários e da maldade. Gozado até à exaustão, a escorrer sangue, o touro, em Portugal, salvo nos Barrancos, não é morto, nem sei porquê. Ficar vivo, depois da indignidade a que o sujeitam, é a maior e a final humilhação.

14.5.07

Os meninos de sua mãe

Um destes dias vi o cineasta Fernando Lopes dizer em público, com candura, que a mãe fora «criada de servir» em Lisboa, no que se inspirara para um dos seus filmes. No livro John, o chauffeur russo, que li, naquela edição azul, da editora Romano Torres, por causa de uma biografia que publiquei, há um notável contraste entre uma francesinha irritante, de quem o John - afinal um príncipe russo fugido aos sovietes e refugiado em Paris - é motorista e escolta, que se envergonha das origens humildes do pai e por isso as esconde, e uma americana, sua amiga e que lhe disputa o garboso «chauffeur», para a qual ser o pai um «self made man» é motivo de orgulho e por isso o apregoa.
É todo um mundo de diferença. Cada um que se reveja e se coloque onde está, entre a pompa de si e a modéstia de onde veio.
Hoje um colega meu, que tem tanto de discreto como de inteligente, comentava que muita da arrogância de tanta gente provém de serem filhos de humildes que, porque estudam para doutores, passam a ser tratados por aqueles que lhes deram o ser, como se reis e senhores já fossem.
A submissão a a vassalagem que esperam e exigem começa em casa, a família a seus pés, os meninos de sua mãe!

13.5.07

Suspirando por polidez

Dei com o livro num canto da estante, junto à cama, relido há tempos e ainda por devolver ao local de onde saíu. Agradeço-lhe este momento de contentamento.
Há no Mandarim, de Eça de Queirós, aquele instante ímpar em que Theodoro, o amanuense do Reino, que punha o cursivo ao serviço dos poderes públicos e nos intervalos do dever sonhava com o vasto seio de Madame Marques, encontra o Mandarim e este lhe explica que precisamente a palavra «mandarim» a haviam trazido os navegadores portugueses, equivalente ao verbo «mandar».
Transcrevo tudo da edição que tenho do livro, em alfarrábio editado em décima terceira edição, no ano de 1941, comprada sei lá onde, com a grafia que ali leio:
«- Mandarim, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguém a entende na China. É o nome que no século XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...
«- Quando nós tínhamos navegadores... murmurei, suspirando.
«Ele suspirou também por polidez, e continuou:
«- ... Que os seus navegadores deram aos funcionários chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...
«- Quando tínhamos verbos... - rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria».
Eis, pois, o modo de ser dos Theodoros de sempre, mesmo aqueles impantes aqueles sem substantivos nem adjectivos que mereçam, falhos de verbos e que por interjeições falam, os que também poderiam dizer como o outro: «quando o meu intestino se alliviava com estampido - a humanidade sabia-o pelas gazetas».

8.5.07

Gritos esporádicos

Recordo-me de ter visto em tempos a falecida Maria Armanda Falcão [Vera Lagoa] na TV, mirando, como se alto a baixo o líder dos Mão Morta e a atirar-lhe, ante o embaraço do visado, com aquela liberdade irónica que a idade e a vivacidade de espírito lhe permitiam: «um homem que a si próprio se chama Adolfo Luxúria Canibal, deve ser um tipo muito interessante!».
O Canibal, como devem saber, é jurista como tantos de nós, para além de artista no campo da música e do teatro, e escritor.
Vem isto ao caso de, ao anunciar agora um seu novo empreendimento, adaptado dos «Cantos de Maldoror» de Lautreamont, ter dito, em entrevista: «Eu apresento-me com um registo spoken word com gritos esporádicos».
Ora eis o que, a mim também que vivo num registo de spoken word, me dá tantas vezes vontade: mandar uns bons gritos, ainda que esporádicos.

6.5.07

O boato

Na peça de teatro «A Dúvida», que está em vias de se ir embora, um Diogo Infante pouco convicto, vocifera, representando um padre, uma homila contra o boato que propalava uma conduta imprópria do sacerdote com um menor seu aluno.
Na assistência, risos, a minha dúvida o saber a propósito de quê. Pelo sim pelo não, ri-me também, um bocadinho, como os chineses quando se embaraçam, apenas aquele esgar míope que simula estarmos a sorrir.