29.7.07

Malditos sejam!

No dia 28 de Dezembro de 1908 Manuel Laranjeira escreveu no jornal «O Norte» um artigo a que chamou «Mocidade Idealista». C omeçava, em estilo de parábola bíblica, «naquele tempo as gerações académicas eram profundamente revolucionárias» e ao aproximar-se do fim desse inflamado texto concluía que «naquele tempo a víscera revolucionária era o coração; agora, para uma fracção de briosa mocidade, pelo menos, começa a ser o estômago».
Lê-se estas palavras e vê-se desfilar ante a nossa mente o cortejo actual dos «corrompidos pela vida» que as «quadrilhas parasitárias que medram na política nacional» [de novo Laranjeira] arregimentam para as suas ambições sem causas.
É a legião estrangeira dos que fogem, manhosos, como se do pesadelo negro do seu passado, e cuidam, astutos, do sonho dourado do seu futuro. Não tendo morrido por um ideal alheio, aprenderam a viver por uma conveniência, a sua.
«Naquele tempo faziam-se romagens ao túmulo dos vencidos, agora fazem-se excursões aos arraiais dos vencedores», diz o médico de Espinho, companheiro de Guerra Junqueiro.
A mocidade académica, a mocidade idealista, passou e passa de Don Quixote a Sancho Pança. De novo Laranjeira: «E só assim se compreende que tantos, tendo sido revolucionários com as gerações da sua mocidade, ao começarem a chapinhar na lama da vida, renegassem essas nobres rapaziadas, estéreis como utopias de loucos, como quixotescas sentimentalidades».
Sim renegam, com orgulho, luzidios de contentamento, ante o aplauso cúmplice de outros tantos anónimos e abúlicos pequeno-burgueses e outros maltezes. Paquidermes complacentes, sujam com a sua boca as sagradas palavras do inconformismo, profanando-as, ode heróica de uma geração em que não estavam por engano mas só para enganar os outros. Malditos sejam!

21.7.07

De camarada a sócia

Não parece bem julgar pessoas, salvo quanto ao que elas simbolizam. Já escrevi aqui sobre o que penso de Zita Seabra, naquilo em que nela me impressiona ao ter estado uma vida no PCP e no dia seguinte no PSD. Mais! Ter dormido uma vida na camarata dura das ideias do marxismo-leninismo e folgar hoje no fofo colchão de penas da suite das conveniências burguesas.
Foi, por isso, que me violentei, para ler até ao fim a entrevista que Zita Seabra deu ao jornal «Sol». Texto fantástico, revelador, daqueles em que o leitor sente vergonha pelo entrevistado, há nele um passo revelador.
Pergunta a entrevistadora à ex-comunista e actual sócia de Manuel Dias Loureiro: «Como ingressa no PSD?». Responde a entrevistada: «Em plena liberdade, o primeiro-ministro Cavaco Silva convida-me para o Instituto de Cinema, e eu aproximo-me do PSD».
Mas será preciso ler-se mais para se compreender tudo?
Zita Seabra é feia! Muito feia mesmo!

15.7.07

Abstémios

A democracia é um modo de formar maiorias e legitima-se através delas. Com uma abstenção eleitoral superior a 60% os sinais de legitimação democrática começam a tornar-se preocupantes, sobretudo quando os votos se pulverizam. Claro que todos falam nisso como se de um fenómeno da ciência política se tratasse, mas ninguém quer extrair daí os efeitos ao nível da prática política de que se trata.
O modelo político actual é assim: uma minoria dos activistas governa a ampla maioria dos indiferentes. Nesta lógica, os abstencionistas, mesmo quando radicais de língua e alternativos de feitio, não são contra o sistema, eles são, o sistema, na sua melhor expressão. Nunca se embebedam de espírito cívico, porque são abstémios de civilidade.

12.7.07

O portuga de cócoras!

«Com muitas estrelas», a Antena 2 noticiava hoje de manhã que «Os Maias» de Eça de Queirós vão à cena, numa adaptação para teatro em Londres. Entrevistado o produtor, um português que reside na capital inglesa desde há vários anos, lá acedeu a dizer, visivelmente enfastiado, o nome de alguns dos actores. E, instado a dizer qualque coisinha mais ante tal momento de orgulho pátrio, explicou que a peça irá chamar-se «Lisbon», porque os produtores ingleses explicaram que as pessoas têm muita dificuldade em pronunciar palavras como «Os Maias» e que, por isso, não compram bilhetes, sobretudo agora «porque os adquirem através da Internet».
Santa subserviência pacóvia ante o estrangeiro, não há dúvida! Francamente, ao ouvir isto, ainda meio ensonado, pensei, ruminando com os meus botões, se já agoram não vão colocar no cartaz que se trata de uma obra-prima de um «ibérico» chamado Isa de Kyros, para que os «bifes» consigam, desdenhosos e impantes, entender do que se trata, sobretudo através da Internet!

11.7.07

O sentido do voto

Eu não faço campanha por ou contra qualquer das candidaturas à Câmara Municipal de Lisboa. Talvez por isso não deixei de sorrir ao ter lido na imprensa de hoje aquele apontamento de reportagem em que um munícipe se dirige a um candidato que o vem convencer ao voto na sua candidatura e lhe diz, defensivamente: «nós vamos votar em si, não precisamos das suas explicações».
Há nisto algo de duplamente irónico: por um lado, no que manifesta de apoio ao candidato para que ele não perca tempo a catequisar prosélitos; noutra dimensão, a de se poupar o votante a uma situação em que, ouvidas as explicações, ainda se decidir alerar o sentido do voto. É que há candidaturas que é melhor nem se explicarem muito! Basta mostrar a cara e dizer um vota em mim que depois perceberás porquê.

10.7.07

A bailarina

Comprei a biografia da Zita Seabra e tenciono lê-la, tendo vagar. Vim aqui só confessar um preconceito de irritação em relação à personagem, por reputar incompreensível que alguém, de um instante para o outro, se passe do PCP para o PSD.
Ao folhear a folha dos agradecimentos vem lá um ao José Carlos Espada que a teria iniciado no apreço ao Winston Chuchill.
Ora, não é por eu ter no meu gabinete de advogado, sabe-se lá porquê, não o busto do João das Regras, mas sim uma foto do Primeiro Lord do Almirantado, com aquela cara de velho bulldog com que a História o acolheu, mas a referência deu-me que pensar.
Como se sabe, a conservadora Grã-Bretanha aliou-se à comunista União Soviética, para combater a Alemanha nazi. Acontece que os comunistas russos, antes dessa aliança, tinham-se aliado a Hitler, através do infame pacto Molotov-Ribentropp. Por essa altura, em 1940, Álvaro Cunhal escrevia no jornal O Diabo, então um jornal pró-comunista, «mas haverá na verdade alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?».
Tudo visto, bate tudo certo. Percebi, pelo folhear distraído do livro de «memórias», que na juventude Zita Seabra quis ser bailarina. Parece que o terá conseguido.

8.7.07

Escutas: palavra de escuteiro!

Ontem estive num jantar onde o meu interlocutor me dizia que leu num jornal um historiador a explicar que o Hermano Saraiva cometia erros históricos graves nestas memórias que vem publicando para nossa ilustração e gáudio de alguns. O advogado e historiador, não será o da boa-memória, mas aproxima-se, pelo menos, e sobretudo há momentos do que escreve que fazem sorrir o espírito, forma de lavar a alma, suja que está neste país de escândalos. Sorri-me, de facto, quando ele deu conta, há uns números atrás dessas memórias auto-encomiásticas, como foi difícil conviver com a mudança de nome da organização de escuteiros, que passou de «Corpo Nacional de Scouts», para «Corpo Nacional de Escutas». Compreendo. Na altura a ideia de um corpo destinado a escutar a vida alheia tinha má fama. Hoje, na democracia, considera-se o escutar as pessoas durante milhares de horas, um elemento essencial de investigação criminal, fundamental mesmo para o Estado de Direito. O problema é se, como diz o povo, «quem escuta de si ouve». Nesse dia é melhor ouvir e calar.
Ontem estive num jantar. Hoje vou passear ao Alto do Duque, apanhar ar e falar sozinho, que as paredes têm ouvidos.

4.7.07

Acabou-se o papel!

Em 23 de Maio fiz ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social um pedido de um simples papel onde se dissessem que eu nada devo à dita. Isto porque, para um ente público me pagar um trabalho que eu fiz, quer saber se sou ou não caloteiro à SS.
Ora o tempo vem passando, eu já telefonei, mandei saber, pedi a quem pudesse pedir a quem pudesse pedir e nada: continuo sem papel.
Ora como o Estado não me diz se eu devo, o mesmo Estado não paga.
Claro que isto tudo é uma refinadíssima sem-vergonha, com os governantes a virem para a TV com as demagogias dos «simplexes» e de outros «prá-frentexes» a enganarem parvos e a criarem o mercado das ilusões eleitoralistas.
Eu sei que não sou só eu a ter que aturar isto tudo. Uma chusma de gado obediente como eu, lá está na bicha do conformismo, a maioria com medo de refilar, não vá a SS retaliar.
Por isso, com vossa licença, aproveito este espaço público para lançar um pedido de alvíssaras: a quem souber se eu devo ou não à Segurança Social, agradeço o favor de me mandar papel. Qualquer coisinha serve, mesmo em papel picotado. Pode mesmo dizer que «até agora não deve», «não deve, mas ainda pode vir a dever» ou até «é estranho de facto, mas realmente após porfiadas buscas, conclui-se que não deve». Desde que dê para eu entrar na outra bicha, que á a daqueles a quem o Estado não paga ou paga às pingas, já dá!

Os chefes e os índios

Há coisas fantásticas no que prende a atenção dos media. Um jornal diário de hoje noticiou o absentismo na Câmara Municipal de Lisboa. Primeiro, o leitor mais distraído fica com a ideia de que só aquela edilidade, só nas Câmaras Municipais é que os funcionários se baldam, quando o não pôr lá os cotos é pecha nacional em muitos serviços. Mas o mais curioso é o título da notícia: Chefias da Câmara de Lisboa faltam quase tanto ao trabalho como subordinados. Uma pessoa lê e pensa: mas porquê noticiar isto assim? Porque os chefes deveriam faltar menos, para darem o exemplo? Só pode ser ser, claro! Mas então se eles são chefes, e pagam-lhes para mandar trabalhar, não me digam que ainda por cima têm de estar lá? Qualquer dia ainda exigem que tenham de estar e trabalhar! E depois, queixam-se do desemprego!! A obrigarem os empregados e os chefes a trabalharem, onde é que há lugar para os outros, os que estão desempregados?

1.7.07

A política da ETAR

Há na política uma vertente de impostura farçolas através da qual se tenta seduzir o eleitorado. Pensei nisso este domingo da manhã, ao ler uma frase do «Álbum de Memórias» do José Hermano Saraiva onde ele dizia que «a verdade política é uma verdade fiduciária. É como uma nota de banco: diz que vale ouro, mas é inconvertível». E pensei por me ter vindo à mente uma imagem que outro dia passou pela imprensa da senhora arquitecta Helena Roseta a despejar caixotes do lixo.
Digam-me que não é um insulto à inteligência esta de colocar uma repimpada burguesa a fingir-se sofrida trabalhadora com um fotógrafo atrás para registar a mascarada.
Digam-me que não é uma ofensa à miséria dos que como trabalho têm aquele o aparecer por um instante de uma noite, o tempo de um «flash», uma excelentíssima senhora Dona, que no momento seguinte retoma o seu estatuto, o seu guarda-roupa, a sua pose, o seu bom cheiro.
Digam-me que isto não é da democracia o lixo! Digam-me que esta «fábrica de maiorias» [de novo o controverso Saraiva], com a sua central de branqueamento da mentira e propaganda não está a precisar de saneamento básico urgente!
Digam-me que, na hora do «olha o passarinho» para a caça ao voto, a frase do Oliveira Salazar, quando inaugurou o SNI «em política o que parece é» não lhes vem mesmo a matar.
P. S. Para que se entenda: não estou na política, não faço política, não vivo da política. Vou apenas votar. Sou é cidadão, dos que põem o lixo à porta e nunca encontrou nenhum político a recolhê-lo. Só isso.

29.6.07

Haja quem mande

A oposição ao Governo julga que gritando ao país que o primeiro-ministro quer controlar as instituições, apodando o chefe do Governo de autoritário e acusando-o que querer o poder total o enfraquece perante os votantes. Erro crasso! É só andar nas ruas. Cada vez mais os portugueses querem é que «haja quem mande!». Ao brincar com o fumo das palavras os partidos nem percebem que preparam o fogo que pode imolar desta democracia da qual vivem. Cada vez mais há mais gente com medo, não da perda da liberdade, sim da perda de rendimentos.

28.6.07

A perseguição tabaqueira

Eu não sendo dos que não fumo, não sou dos que fumam. Deve-se isso a ter começado a fumar cachimbo e achar desagradável o tom acre dos cigarros comuns. Daí resulta ter beneficiado de não haver fumadores de cachimbo compulsivos, como há os fumadores de cigarro em chaminé. Um fumador de cachimbo ao menos dá-se conta do que está a fazer!
Ora está agora na moda perseguir os fumadores como se marginais fossem, deliquentes do ambiente, suicidas perigosos. A mesma sociedade que deixa milhares de automóveis envenenarem o ar, finge-se amiga da Natureza e preocupada com a saúde face a um pitilho público. Hipocrisias, em suma, tantas elas são, é mais uma.
Não sei se a cultura proibicionista abrange o tabaco de mascar e o rapé de inalar. Não é que eu, pobra inalador ocasional tenha de encontrar aí a saída para o meu vício. É só por me lembrar de uma frase de uma minha bisavó que, ao ter apanhado o filho, garoto, a fumar às escondidas, lhe deu uma grande reprimenda que abriu com um «ai fumas? pois até cá atrás cheiravas!».
Não tive tempo, pois ando com trabalho a mais para a vontade que tenho, mas acho que um qualquer prontuário me salva explicando que «até cá atrás» quer dizer, até agora, até há pouco, no passado, antes, enfim, qualquer coisa que sendo recuado não seja traseiro.
E, a propósito, tanta perseguição tabaqueira, já começa a cheirar mal!

24.6.07

O culto dos mortos

No campo mimoso em que se torna a polémica pública em Portugal, uma pessoa já nem se surpreende. O futebol sempre foi o local psicológico da catarse das emoções, o libertador das pulsões primárias, a possibilidade de os cavalheiros refinados despejarem palavrões acumulados, o pretexto para eu estar sãmente contente pela alegria de o meu clube estar a ganhar e maldosamente feliz pois o clube do meu vizinho está a a perder.

Hoje de manhã, ao passar os olhos pela imprensa à borla a que pela Net se chega, vi que«o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, considerou que as acusações do seu homólogo do FC Porto, Pinto da Costa, são o «estrebuchar do morto» e de alguém que já pede a ajuda da justiça divina».

Ora como eu disse há pouco, depois de uma noitada, acabei o livro que o Wenceslau de Morais escreveu em 1914 sobre o culto dos mortos, onde a propósito se aprende que, o morto, mesmo quando incinerado, «fica em casa, fazendo parte da família».

O Presidente do SLB bem pode, pois, matar o seu homólogo no norte. Quanto mais morto, mais vive! Um dia esta gente aprenderá.

23.6.07

A hora universal

«Que horas são?: as que Vossa Magestade quiser!». Eis numa frase irónica, anedota de outros tempos, o agachamento serviçal e sabujo ante o mando, o de cócoras comportamental e louvaminhas que tão frequentemente por aí vemos, a vontade de agradar e cair no goto, o estar com quem está e ser como quem é.
Eu sei que é apenas uma historieta, e que há toda uma legião de revoltosos a mostrar o oposto, quais relógios propositadamente adiantados. Há, porém, só uma particularidade a ensombrar tais criaturas sempre à frente do seu tempo. É que perante esses cronómetros de ideias avançadas, ao olhar-se para eles, para se saber que horas são, há sempre que lhes dar um desconto, às vezes um grande desconto mesmo.

22.6.07

Cenas e fitas

«Nos primeiros cinco meses deste ano, as salas de cinema portuguesas foram visitadas por 6.205.888 espectadores, o que traduz uma quebra diária de 2.222 espectadores». Vem na imprensa. A pergunta é: para onde se deslocaram estes espectadores? Para que fitas? A vida social só por si, vista de fora, lida nos jornais, é melhor que o animatógrafo. Nalguns casos, com cenas para adultos mesmo, noutros verdadeiros filmes de terror. No mais, já nem há quem vá para o escurinho do cinema. Resta ir lá para comer pipocas e beber xaropes gaseificados. O sonho projectado no écran prateado tem os dias contados, morta que está a capacidade de se sonhar.

17.6.07

Cair mal

Acabei de ler este começo de manhã o primeiro fascículo das memórias que o José Hermano Saraiva está a divulgar sobre os oitenta e seis anos da sua vida. Depois de uma vida a divulgar o passado dos outros, eis o momento de divulgar o seu.
Lê-se e há ali um pouco de tudo. Num momento é a lembrança de quando Henrique Galvão e outros foram condenados em «penas suportáveis» por conjura sediciosa, mais adiante como é que «o antigo herói do Estado Novo» seria depois condenado a uma pena de catorze ou dezasseis anos, no tribunal plenário na Boa Hora, por «rebelião militar». É aqui, no contar desta condenação, que vem um excerto revelador: «a sentença caiu mal mesmo nos círculos mais ligados à justiça penal», conta Saraiva.
É domingo de manhã, acordei mais cedo para acabar de ler esta narrativa, e eis-me a meditar no facto de uma insuportável sentença ter caído mal «mesmo» nos círculos mais ligados à justiça penal». Dá mesmo para pensar! Quando uma coisa dessas cai mal «mesmo», aí, é obra!

Um grande 31

Ainda consegui ler o primeiro fascículo do livro que o José Hermano Saraiva está a publicar, através do jornal de que o sobrinho é director, com as suas memórias.
A propósito do Henrique Galvão, figura grada do salazarismo e posterior chefe de fila da oposição a Salazar, lembra Saraiva que ele foi um dos cadetes do Sidónio Pais.
Ficaram-me os olhos na expressão. O país político é o resultado dos cadetes do Sidónio, dos tenentes do 28 de Maio, dos capitães do 25 de Abril. São os militares quem fazem e desfazem o regime político de Portugal.
Como se nota a coisa tem vindo a subir de patente. Pela lógica, da próxima cabe a vez aos majores mas, ou eu muito me engano, ou desta feita, o 31 salta pela mão dos sargentos.

11.6.07

José Luís Saldanha Sanches

Ouvi ontem o Doutor José Luís Saldanha Sanches na SIC Notícias.
A propósito do assunto não vou entrar no «diz tu direi eu», nem usar os blogs a que estou ligado para discutir o caso. Já o disse.
Só quero deixar aqui três breves apontamentos para quem quiser saber, a bem da verdade.
Primeira: antes de se doutorar pela mão do Professor Soares Martinez, Saldanha Sanches foi meu aluno na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, onde lhe fiz exame de Processo Penal, tendo a elevada nota premiado o apreço que tive pelas suas provas. O facto de quer agora, quer em anterior entrevista à RTP-2, uma das muitas que tem dado sobre a matéria, forçar a ideia de que nem do meu nome se recorda, deve ser interpretado a esta luz. Cada um que conclua.
Segunda: tentando apoucar a minha iniciativa, o Doutor Saldanha Sanches declara que eu pretendia que parasse tudo e todo o MP fosse constituído arguido. Na denúncia criminal que apresentei contra incertos, pedi, entre outras diligências, que fossem tomadas «declarações, a todos os magistrados do Ministério Público visados pelas afirmações produzidas pelo Doutor Saldanha Sanches, para que se possam defender, como arguidos [ante a imputação outro estatuto não é processualmente possível!] e com os direitos respectivos, de tão graves imputações, ou perseguidos criminalmente, se incursos em responsabilidade penal». Notem-se as diferenças.
No mais, são opiniões dele sobre o que disse e sobre o que queria dizer e mais opiniões sobre política, políticos e sobre a sua pessoa e a pessoa de sua mulher. Nada tenho a ver com isso.
Saldanha Sanches disse não querer comentar a investigação instaurada contra João Soares «por ser amigo». Se uma pessoa se resume numa frase, está dita.

10.6.07

Portugal e os Portugueses

Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal.

9.6.07

O bife e o osso

«O capital privado quer apenas o bife do lombo, não quer o osso», disse Jerónimo de Sousa em Vendas Novas. Percebe-se que em política uma boa imagem ajuda a passar a mensagem e com tanto discurso a ter que se transformar em frase citável, a imaginação criadora esgota as suas reservas. Esta agora de o dirigente do PCP dizer que o capital privado já nem o osso quer, é mesmo chamar-lhes, aos do capital, «abaixo de cão». Convenhamos...

Tão fácil

Por que estranho sentido de pudor não uso os blogs para falar dos processos que me estão confiados, ou mesmo daqueles em que estou envolvido numa lógica de cidadania? Ser-me-ia fácil: um post, um click, já está!
Aos que esperam que eu diga, vaidoso pois que de mim orgulhoso, que é por uma razão grandiloquente, desiludam-se: francamente, não sei. Será o acaso, talvez, que dita isto suceder assim, um acaso feliz.

7.6.07

Partidos, S. A.

De acordo com dados da contabilidade dos partidos políticos, alguns deles estão a tornar-se empresas lucrativas. Um destes dias, altera-se a lei e eles passam a estar cotados na bolsa. Nessa altura o José Sócrates lança uma OPA sobre o PSD, Jerónimo de Sousa blinda os estatutos do PCP, para evitar take-overs hostis.

31.5.07

A lei mediática do desenrasca

Uma das coisas mais notáveis no mundo mediático é a capacidade que ele tem de gerar factos que dão origem a opiniões, que suscitam debates sobre coisas que, vamos a ver depois, afinal, nem sequer eram assim.
Lembro-me de quando fui secretário do Conselho de Ministros do VI Governo Provisório, o governado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
Entre as muitas histórias que tenho para contar um dia, vem agora a propósito esta, pois mostra do que falo.
Foi durante um dramático Conselho de Ministros em que se aprovou a Lei da Reforma Agrária, a que tomava o rio Tejo como fronteira e definia que a sul continuava a política de expropriações, embora mais moderada do que até então, e a norte do país tudo se desenvolveria através de uma lógica de arrendamento rural, como forma de garantir, indirectamente, a terra a quem a trabalhasse.
Dado o nervosismo público que reinava em torno da questão e a tensão política que aumentava como uma espiral de um ciclone, entendeu-se que se faria uma fuga controlada de informação para o jornal «Expresso», de modo a que se lançasse logo as sementes do conhecimento do novo regime agrário e se alcançasse alguma paz social, num universo cada vez mais insurreicional.
Coube-me tratar do assunto e eis-me, quase embuçado, nos corredores do Flórida, ao Marquês de Pombal, num encontro clandestino com o meu contacto no jornal, para lhe passar, subrepticiamente as fotocópias do decreto ainda fresco, aprovado pela hora do jantar, cópias que, por uma questão de segurança, eu mesmo tirara.
No dia seguinte ao ler o jornal fiquei espantado, pois o semanário da Rua Duque de Palmela, noticiando na primeira página a questão da Lei da Reforma Agrária, dava conta que à hora do fecho da edição «ainda estavam por aprovar os artigos» tais e tais.
Atónito telefonei ao meu amigo jornalista, afinal para me espantar ainda mais.
Ante o meu «mas que raio de ideia foi essa dos artigos por aprovar», respondeu-me, com a maior calma do mundo: «é pá, fogo, tu com a pressa tinhas-te esquecido de fotocopiar uma página do meio do decreto e a malta, tás a vêr, desenrascou a coisa assim!».
Ora aí está! Hoje e sempre, há certa malta nos jornais que desenrasaca a coisa assim. Outros, mesmo sem ler, opinam, outros, ledores, empinam. No dia seguinte, esquecido o escândalo, passa-se para o tema seguinte, que isto há que ir desenrascando umas notícias com as fotocópias que temos.

29.5.07

Talvez

«Sinal de vitalidade é constatar que os moços sabem ter vinte anos num nação de oito séculos». Quem o escreveu foi Carlos Malheiros Dias, em atenção a António Ferro, para acrescentar, umas folhas adiante que «a feliz mocidade não conhece o talvez».
Leio isto, num momento de intervalo, entre os oito séculos de história que já foram e os vinte anos de vida que dou comigo a pensar talvez já nem tenha. Eu disse talvez e de o ter dito me arrependi, na hora de o dizer. Ah! O livro chama-se «A Idade do Jazz-Band», editou-o a Portugália, em 1924.

28.5.07

Acção de graças

«Graças aos protestos dos verdadeiros democratas e à atmosfera de hostilidade que desses projectos se havia formado, surgiu a revolta militar do 28 de Maio». A frase não pertence a um rançoso fascista, mas sim ao lídimo democrata António Sérgio.
Claro que o dito terá nascido de uma ilusão funesta. Mas a História é feita disto, de gente iludida e de gente que ilude. Mais tarde, nas falsificações grosseiras e maniqueístas, com que os avençados de serviço a reescrevem, é que só há anjos de um lado e demónios do outro.
Um dia as gerações futuras, quando largarem a TV e as consolas mais seus jogos de alienação e voltarem a querer saber do mundo real em que vegetam, descobrirão a vigarice, aquela com que a nossa cobardia convive e o atrevimento de mais-dúzia fomenta.

27.5.07

Domingo à tarde

Ontem fui à Feira do Livro. Num país em que cada vez se editam mais livros, cada vez os pavilhões são em menor número. No meio daquela tristeza, um cheiro nojento a churros, transformando aquilo num Luna Park do saldo livreiro.
Num canto, um jovem escritor esperava que alguém lhe pedisse um autógrafo, disfarçando o visível desapontamento, noutro uma menina comentava com o namorado que adorava aqueles livros velhos. «Eu não», respondeu-lhe ele, «até bichos devem ter», acrescentou, um ar prático e por isso vagamento enjoado. Para não passar por ácaro bibliotecário, afastei-me, lesto, com a promessa íntima de lá voltar.
Esqueci-me de ver se por lá continua a Difusão Bíblica, e o seu best-seller da literatura de viagens, espécie de Guia Michelin para o outro mundo, via salvífica para os que, pela palavra revelada, querem ir desta para melhor.

25.5.07

Afirma Pereira

A passagem de Rui Pereira do Governo para o Tribunal Constitucional e do Tribunal Constitucional para o Governo, não torna o tribunal do Palácio Ratton mais político do que é, ao serem os seus juízes nomeados por políticos, ao fazerem-se os políticos serem para lá nomeados como juízes.
É a promiscuidade entre a política e o judiciário na sua melhor expressão. Rui Pereira devia ter-se poupado a ser disso exemplo. Amigo que sou, não sei se lhe lamente a imprudência se a ambição.

17.5.07

As touradas

Iria hoje à manifestação contra as touradas. Transformar o matar numa festa fere-me sensibilidade que chegue. A arena é a catarse dos sentimentos sanguinários e da maldade. Gozado até à exaustão, a escorrer sangue, o touro, em Portugal, salvo nos Barrancos, não é morto, nem sei porquê. Ficar vivo, depois da indignidade a que o sujeitam, é a maior e a final humilhação.

14.5.07

Os meninos de sua mãe

Um destes dias vi o cineasta Fernando Lopes dizer em público, com candura, que a mãe fora «criada de servir» em Lisboa, no que se inspirara para um dos seus filmes. No livro John, o chauffeur russo, que li, naquela edição azul, da editora Romano Torres, por causa de uma biografia que publiquei, há um notável contraste entre uma francesinha irritante, de quem o John - afinal um príncipe russo fugido aos sovietes e refugiado em Paris - é motorista e escolta, que se envergonha das origens humildes do pai e por isso as esconde, e uma americana, sua amiga e que lhe disputa o garboso «chauffeur», para a qual ser o pai um «self made man» é motivo de orgulho e por isso o apregoa.
É todo um mundo de diferença. Cada um que se reveja e se coloque onde está, entre a pompa de si e a modéstia de onde veio.
Hoje um colega meu, que tem tanto de discreto como de inteligente, comentava que muita da arrogância de tanta gente provém de serem filhos de humildes que, porque estudam para doutores, passam a ser tratados por aqueles que lhes deram o ser, como se reis e senhores já fossem.
A submissão a a vassalagem que esperam e exigem começa em casa, a família a seus pés, os meninos de sua mãe!

13.5.07

Suspirando por polidez

Dei com o livro num canto da estante, junto à cama, relido há tempos e ainda por devolver ao local de onde saíu. Agradeço-lhe este momento de contentamento.
Há no Mandarim, de Eça de Queirós, aquele instante ímpar em que Theodoro, o amanuense do Reino, que punha o cursivo ao serviço dos poderes públicos e nos intervalos do dever sonhava com o vasto seio de Madame Marques, encontra o Mandarim e este lhe explica que precisamente a palavra «mandarim» a haviam trazido os navegadores portugueses, equivalente ao verbo «mandar».
Transcrevo tudo da edição que tenho do livro, em alfarrábio editado em décima terceira edição, no ano de 1941, comprada sei lá onde, com a grafia que ali leio:
«- Mandarim, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguém a entende na China. É o nome que no século XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...
«- Quando nós tínhamos navegadores... murmurei, suspirando.
«Ele suspirou também por polidez, e continuou:
«- ... Que os seus navegadores deram aos funcionários chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...
«- Quando tínhamos verbos... - rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria».
Eis, pois, o modo de ser dos Theodoros de sempre, mesmo aqueles impantes aqueles sem substantivos nem adjectivos que mereçam, falhos de verbos e que por interjeições falam, os que também poderiam dizer como o outro: «quando o meu intestino se alliviava com estampido - a humanidade sabia-o pelas gazetas».

8.5.07

Gritos esporádicos

Recordo-me de ter visto em tempos a falecida Maria Armanda Falcão [Vera Lagoa] na TV, mirando, como se alto a baixo o líder dos Mão Morta e a atirar-lhe, ante o embaraço do visado, com aquela liberdade irónica que a idade e a vivacidade de espírito lhe permitiam: «um homem que a si próprio se chama Adolfo Luxúria Canibal, deve ser um tipo muito interessante!».
O Canibal, como devem saber, é jurista como tantos de nós, para além de artista no campo da música e do teatro, e escritor.
Vem isto ao caso de, ao anunciar agora um seu novo empreendimento, adaptado dos «Cantos de Maldoror» de Lautreamont, ter dito, em entrevista: «Eu apresento-me com um registo spoken word com gritos esporádicos».
Ora eis o que, a mim também que vivo num registo de spoken word, me dá tantas vezes vontade: mandar uns bons gritos, ainda que esporádicos.

6.5.07

O boato

Na peça de teatro «A Dúvida», que está em vias de se ir embora, um Diogo Infante pouco convicto, vocifera, representando um padre, uma homila contra o boato que propalava uma conduta imprópria do sacerdote com um menor seu aluno.
Na assistência, risos, a minha dúvida o saber a propósito de quê. Pelo sim pelo não, ri-me também, um bocadinho, como os chineses quando se embaraçam, apenas aquele esgar míope que simula estarmos a sorrir.

29.4.07

O triunfo da matemática

Hoje pela hora do almoço encontrámo-nos. Ele educado e moderado, hesitante numa palavra mais rude, eu já à beira do desbragamento verbal, cansado de ser bem educado. Vivemos um «tempo de barbárie», ensinou-me, suave, «uma época de relativismo», acrescentou, a mostrar-me, polido, como impera o tudo vale, na moral e na estética, da política à justiça. Não há uma jurisprudência uniforme, qualquer coisa passa por arte, os cidadãos vivem, contribuintes, à mercê do arbitrário Estado, que não dominam. No poder e na oposição, campeiam os funcionários da política, empregados dos que dela fazem negociata.
É o reino dos números, o império do ter, o triunfo da matemática sobre a filosofia.
A esta hora, apesar de ser domingo, há na insípida Bruxelas quem tenha passado o dia a escrever mais uns regulamentos, quem na visigótica Berlim sonhe o dia do espaço vital europeu, do Báltico aos Urais. Longe, o Agareno, despreza-nos, soberano de si: adiante na História, quando o tempo derrotar o espaço, serão eles os vencedores, os nossos restos os seus despojos.

25.4.07

Onde estavas Zé no 25A?

No dia 25 de Abril eu estava na Quartel em Mafra, na especialidade de Armas Pesadas de Infantaria, mau grado a ironia de pesar quarenta e oito quilos. Graças à prestimosa PIDE/DGS fora-me atibuída aquela magnífica especialidade onde, como dizia o tenente comandante do nosso pelotão, se matava sem ver o quê e se morria sem dar conta.
Ora como o dito tenente não era afecto ao MFA sucedeu que nessa manhã ficámos no quartel, não acompanhando a força que arrancou até Lisboa com o propósito de fazer cair o regime que Marcelo Caetano já mal sustinha. Ao acordar, demos conta que o gélido convento estava vazio, só uns quantos tínhamos ficado, entregues à nossa sorte, fantasmas sem nexo, atónitos e desamparados.
Vítima encartada da Situação, do «odioso fascismo» como lhe chamam os comunistas, aquele dia foi a minha hipótese histórica de ser herói, não fosse o estar no lado errado da História. Assim fiquei por me estrear, primeiro sem pequeno almoço, depois à espera de uma nova oportunidade de mostrar que a Pátria, na sua salvação, poderá contar comigo.

17.4.07

Holy shit! Será isto inglês técnico?

Da próxima vez que o primeiro-ministro vier, com aquele ar empertigado que o caracteriza como um ademane de importância, exigir «rigor» e «uma «cultura de qualidade e de exigência» aos portugueses, permitam-me que me largue a rir dele e a chorar pelo país.
Há pais deste país deste primeiro-ministro a pagar fortunas para ter um filho a estudar no estrangeiro porque as Universidades portugueses, sob a batuta do Governo, exigem médias extravagantes para admitirem estudantes.
Claro que os moralistas façanhudos, catões dos nobres princípios, polícias dos costumes alheios, agora de hímen ético tão complacente, desdobram-se em argumentos, disfarces e justificações: avençados do interesse, beneficiários do relaxe, tudo compreendem e com tudo convivem. Ouvindo-os, começo a pensar que o país se está a tornar parecido com o primeiro-ministro, a trapalhada, o faz de conta, o deixa lá.

8.4.07

O jogo de peonagem

Por falar em Páscoa e em coelhos, lembram-se de um tabuleiro de xadrez apreendido na casa do socialista Jorge Coelho e de todas as jogadas em torno do assunto, que pareciam pôr em xeque quase toda uma classe política e seus supostos financiadores? E lembram-se de como o assunto que lhe deu azo saíu de cena? E alguém se perguntou por que é o caso apareceu com tanto estrondo e por que é que desapareceu com tanto murmúrio? E alguém quer saber onde está, onde é que não está, ou onde é que deixou de estar? É isto que torna o xadrez um jogo aliciante, ser um jogo de peões.

O animal feroz à caça!

Ontem fui ao cinema. À saída, ei-lo, informal, Fernanda Câncio ao lado, sem guarda-costas, visivelmente a mostrar-se num voltear sem nexo, o primeiro-ministro. Surpreendidas as pessoas reviravam-se, torcendo pescoços, algumas mulheres seduzidas por um «tão bonito homem». Talvez tenha ido ao cinema ou só à saída do cinema, mas entre o cheiro adococicado a pipocas, sem pose nem anteparo, era um entre tantos. Como nem sempre estou atento às notícias perguntei-me ainda se já estaria demitido sem eu ter dado conta. Hoje de manhã a imprensa, que lá fui ver à cata de confirmação, relatava que «o estudo de opinião, realizado em plena polémica sobre o curso tirado por José Sócrates na UnI, deixa claro que o índice de popularidade do primeiro-ministro caiu para uma nota negativa de 9,4, ao nível do registado em Janeiro de 2006».
Já compreendi. O fulano, que em entrevista a Maria João Avilez a si mesmo se chamara, «um animal feroz», andava à caça!

6.4.07

A Universidade: do capelo às borlas

Com a oposição e seus licenciados comprometidamente calados, José Sócrates vai aguentar-se no lugar. Cavaco Silva, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, tem uma certeza: a de que vai fazer de conta que não é professor universitário doutorado, mas apenas um político entre políticos. A dignidade universitária com as suas borlas e capelos que se dane. Há aliás uma histórica fantástica, vivida quando das Cortes Constituintes de 1820: como o taquígrafo que com a sua escrita rápida, assegurava a feitura das actas tinha que ir a «a actos» à Universidade e porque, sem ele, parava a deputação nacional, ali mesmo, por decreto parlamentar o investiram no grau de bacharel!

Um peso no peito

O José Medeiros Ferreira não precisava de ter citado, ainda que ironicamente, as condecorações que o Estado já lhe deu nem de dizer, talvez com ironia também, que ainda lhe deviam a Ordem de Cristo por ter sido ele a assinar o pedido de adesão de Portugal à CEE. Fê-lo numa mini auto-biografia que o JL publica na última página, em que cada um fala de si. É que o Medeiros Ferreira é um rapaz com valor e as condecorações em Portugal, depois do regabofe que tem sido a sua atribuição, não valem nada. As condecorações são para a República aquilo que as comendas eram para a Monarquia, o sinal da sua decadência. Vá lá Zé, se não podes devolver os pendericalhos, ao menos não fales neles! Ainda por cima têm um efeito: pesam no peito e fazem dobrar a cerviz!

5.4.07

Engenheiros de Lisboa...

A paródia sobre as habilitações académicas do primeiro-ministro continua, o currículo do mesmo vai sofrendo variações à medida. O Presidente da República que, enquanto chefe do Governo, demitiu um ministro por ter contado uma infeliz anedota sobre alentejanos, está calado e hirto. Deve ter regressado à fase em que não lê jornais. Só pode.
No meio disto há a rendição moral dos que acham que o assunto não tem importância alguma, até porque, graduado ou não, o senhor não governa mal este país de doutores e que se danem os princípios em nome dos interesses.
Eu cá por mim - expressão tão saborosa esta - não quero saber.
Na terra onde nasci - e onde nasceu o demitido ministro da anedota e, já agora, a Dra. Maria José Morgado, a longínqua Malanje - havia a história da outra que, sendo casada com um enfermeiro, dizia às amigas que o esposo era médico auxiliar de segunda classe. Sugiro que seja esta a solução e mudamos de assunto: engenheiro auxiliar de segunda classe.

11.3.07

O meu 11 de Março

No dia 11 de Março de 1975 eu era secretário do Ministro da Justiça Dr. Salgado Zenha. Foi por isso que recebi, ali no Terreiro do Paço, um telefonema de um advogado amigo que entrava em Lisboa, vindo de um julgamento e deu conta de que havia um avião a sobrevoar o Ralis, junto ao Aeroporto, quartel onde haveria, seguramente, «grossa bernarda».
Num ambiente de crescente preocupação, lembro-me que, num armário fechado à chave num corredor interior do Ministério, havia duas pistolas, que nem tenho a certeza que disparassem.
Admitindo o pior, o jovem chefe do gabinete do Ministro, deu-me uma delas e guardou outra para si. De nós os dois eu tinha a vantagem de ter feito tropa e a capacidade bélica resultante de ter concluído, quase sem êxito, no Quartel em Mafra, a especialidade de armas pesadas de infantaria, mau grado pesar então quarenta e oito quilos.
Umas horas depois, o rapaz chefe do gabinete, com o nervoso, tinha encravado uma bala na câmara da pistola, ao achar que estaria mais prevenindo, armando-a, para a eventualiade de ter de disparar no que se chama em tiro instintivo e tendo-o feito desastradamente por não saber fazer melhor.
Ao final do dia devolvemos as armas ao armário. Tudo terminara sem glória, dois guerreiros inúteis de um combate ridículo. O 11 de Março não passara por ali.
Não sei se pelo Ministério da Justiça ainda há pistolas ou por onde andavam os actuais ocupantes no dia 11 de Março de 1975. Não sei mesmo, nem quero saber. Em matéria de filosofia bélica e no que ao Ministério respeita, tenho hoje uma só coisa a dizer: fogo...!

10.3.07

Lembranças de trás

Por causa da actividade venatória anti tabágica ainda me curo de qualquer maleita hepática que possa ter. Desta feita foi ao ler num jornal on line uma notícia intitulada «deputados proibidos de fumar». Lembrei-me então da minha bisavó, que nunca conheci, mas cuja nora se chamava Felicidade, e que entrou na enciclopédia dos nossos aforismos familiares com um dito, lançado em jeito de reprimenda ao neto quando o apanhou a fumar: «ai fumas!, pois até aqui atrás, cheiravas!».

O mundo em pelota

Há seguramente escondido nos corredores labirínticos da Polícia Judiciária ou talvez nos cubículos em tabique do DIAP um poeta anónimo, de imaginação criadora rica e sentido de humor inigualável. Literato por certo incompreendido, esgota-se no acto de criar nome para as operações que normalmente passam por rusgas e outros actos de mediático paraquedismo criminalístico.
Esta manhã dei conta de que três camiões de tralha apreendida a um maestro o foram no quadro da «operação partitura», assim como o país não se esquecerá mais do «apito dourado», nem do «furacão».
Ora eu, que para que as coisas da justiça me não chateiem mais do que devem, e já chateiam que baste, me dedico, nas horas vagas, a ler e atrevo-me nas que sobram a escrever.
Por isso, em nome da literatura forense, de que nem sou académico de mérito nem de número, sugiro a este até agora anónimo colega das letras que saia do «ghetto» do segredo de justiça e se junte a nós, para umas boas gargalhadas, porque de risota estamos nós precisados e muito.
E, já agora, quando se chegar à conclusão, que deve estar para breve, que as pensões baratas de curta estada, certas duvidosas casas de massajar e outras em que se bebe menos do que se alterna são instrumentos de evasão fiscal, branqueamento de capitais e quiçá associações criminosas tributárias mesmo, que minam os fundamentos do Estado de Direito Democrático mais do que o tráfico de droga, e lhes cair, a televisão atrás, um esquadrão de polícias e magistrados com mandados de busca, de revista, de apreensão e de captura, talvez não fosse mal, para antecipar o cenário de pânico desenfreado e de envergonhadas corridas pelas ruas, em pelota elas e sem fundilhos eles, baptizar o acto com o nome de «operação rabo ao léu»!

3.3.07

A gente

O português encontrou uma forma de esconder o plural «nós» através do individual «ele». No fundo é, como dizem os gramáticos, o ter encontrado um pronome pessoal que sintacticamente corresponde à terceira pessoa do singular e semanticamente à primeira do plural: é o «a gente» corriqueiro, no «a gente vai», para exprimir o «nós vamos». Há seguramente uma razão profunda, incrustrada no inconsciente da Nação para que um povo fale de si como se de outrem falasse.

27.2.07

Constantes críticas...

Há quem esteja a fazer a imprensa andar, de há muito, atenta aos rendimentos deste Governador do Banco de Portugal, talvez por estar há muito no lugar e haver sérios candidatos ao emprego. Hoje vem no DN que o senhor declarou 280 mil euros de rendimentos. Como se sabe, Vítor Constâncio é um socialista que normalmente vem dizer com ar solene que a economia do país vai mal, as finanças péssimas. É um caso de objectividade, não confunde o seu mundo com o dos outros, o paraíso socialista para si com o inferno capitalista para os outros.

A Bela e o Monstro

O senhor ministro da Justiça, num arroubo literário lembrou-se de dizer, no Centro Cultural de Belém, que o monstro que ameaçava a Justiça está a emagrecer. O curioso é que a foto que orna a notícia mostra-o mais chupado e enfiado. Uma inagem vale mais do que mil palavras!

24.2.07

Ética, corrupção e jornais!

O PGR Pinto Monteiro disse que não há uma «consciência ética forte que censure a corrupção em Portugal, esse é o grande problema. A maior parte dos portugueses durante muito tempo encaravam a corrupção como uma coisa que naturalmente acontecia e que todos faziam». E como se isto já não fosse claro acrescentou que a «corrupção não foi censurada pela consciência moral do povo», dizendo que a sua prática «começa agora a ser censurável graças à comunicação social que trouxe o tema para a praça pública».
Eu fico atónito ao ouvir isto.
Primeiro, porque se quiser fazer uma blague e desconsiderar o argumento, diria que, administrando os tribunais a justiça em nome do povo, o povo de que fala Pinto Monteiro, como ficou aliás na própria Constituição, então, na lógica do dito do PGR, tem sido uma justiça de e para corruptos eticamente inconscientes a que tem havido, o que é um insulto a tudo e a todos, um enrolarem-se as palavras no nó da falta de ideias.
Segundo, e porque não quero fazer blague com uma «boutade» sobre um caso sério, gostaria de sublinhar quanto isto que o PGR disse pode traduzir de arrogância mental e de servilismo face à comunicação social, a ideia de que o mundo começa agora com ele e há que vivê-lo sempre com os olhos nos jornais.
Lembre-se Pinto Monteiro da hipertrofia do Estado, da prepotência do Estado, do arbítrio do Estado, da auto-impunidade do Estado, lembre-se Pinto Monteiro quanto se instalou em Portugal um Estado alçado à custa de oprimir, tirano, e explorar, parasitário, a sociedade civil e talvez entenda o acomodar patrício aos funcionários venais e ao seu poder arbitrário.
Lembre-se Pinto Monteiro quanto custa obter aqui uma certidão, ali uma licença para uma obra, mais adiante uma intervenção cirúrgica para se não morrer e perceberá como se alugam, peitando-os, os que estão do lado de lá do balcão.
Mas lembre-se quanto uma nova vaga de funcionários em muitos serviços trouxe uma nova cultura, uma nova dignidade, uma recusa de gorgetas e gratificações.
Não, senhor PGR, não são os jornais, lamento dizê-lo, onde há jornalistas sérios e impolutos e os não há também, quem fez com que houvesse uma nova ética reprovadora da corrupção. Como em tudo na vida, há o jornalismo do frete, a publicidade fingida de notícia, o escândalo por encomenda, o insulto editorial como via para o sucesso público.
Os jornais denunciaram a corrupção, eis, por ser escândalo, o seu combate por ser notícia!
O que sucede, nesse binómio Justiça/comunicação social, é que hoje a Justiça combate-a, à corrupção, pavoneando-se nos jornais quanto a andar a fazê-lo. É por isso que, tal como no Hamlet, o palco parece a vida, os vivos simples actores.
Enquanto cidadãos, sujeitos aos corruptos e leitores de jornais, cá estamos, senhor PGR, à espera dos resultados para ver se sim, ou se o combate à corrupção, não se tornará, pela ineficácia, num organismo regulador do mercado, ajudando a aumentar o preço.
Em tempos chegou a haver uma Alta Autoridade contra a Corrupção. Em tempos mudou-se o Código Penal, pra combater os corruptos. Em tempos ouvi dizer de um autarca que mandou matar os pombos da praça do seu município porque, quando ele passava, palravam dos beirais, acusadores: corrupto, corrupto, corrupto!
Em tempos já vi que havia gente que pensava que era desta.

22.2.07

Diga lá, Excelência!

Não vi, mas contaram-me. O Dr. Cunha Rodrigues dizia, com aquele estilo de sublimado corrosivo com que irritava os outros políticos, que tinha um problema grave com a comunicação social: o que eles gostavam de saber, ele não podia dizer e o que ele gostaria de dizer, eles não queriam saber. O Dr. Pinto Monteiro ainda está na fase do que eles gostariam de saber. Acho que foi assim ontem à noite, contaram-me!

20.2.07

O clarividente

Jorge Sampaio, quando foi Presidente da República e se irritava, e irritava-se muito, dizia coisas e acrescentava: «como é evidente!». Cavaco Silva, que agora é o Supremo Magistrado da Nação e não se quer irritar, deve ter suspirado de alívio quando o ministro Alberto Costa, por causa da história do foragido indultado, veio explicar-se de que os registos do caso eram de «leitura não evidente». Claro que esta explicação é um zero verbal, mas, asneira feita, ficam todos, de Belém ao Terreiro do Paço, muito bem compostos neste «pacto» de silêncio sobre a justiça.

O mão-leve

«O Estado rouba, rouba o Estado», está escrito numa parede em Lisboa. A ideia percebe-se, pois é óbvia: na psicologia política de muitos portugueses, o Estado é o outro, é o mundo do eles, com o qual eu nada tenho a vêr. Claro que, nesta relação do privado com o público, às vezes voto, muitas vezes abstenho-me, normalmente desinteresso-me. Roubar, nesta forma de pensar, é apenas uma variante social de uma moral muito própria: o Estado tira-me contra a minha vontade, eu rapino-o, sem que ele dê conta.

19.2.07

Testículos regionais

Acho que foi ontem que vi o Presidente do Governo Regional da Madeira a falar na falta de testículos no Continente. A coisa não me atinge directamente, pois nasci em África. Há pouco ouvi-o a anunciar que se demitia para voltar a concorrer e, percebe-se, voltar a ganhar. No meio disto tudo chamava nomes a um tal senhor José Silva, que era, afinal, o primeiro-ministro. Enfim, antigamente Alberto João mascarava-se no Carnaval. Desta feita, só se for em pelota, os testículos em evidência, protuberantes e prometedores! José Sócrates que se cuide, pois.

18.2.07

Saúde desarticulada, ministro articulista

O ministro da Saúde, instado para comentar o encerramento de um serviço de urgência no Minho, remeteu para um artigo que escreveu no «Diário de Notícias». É fantástica esta forma croniqueira de um governante se pronunciar sobre um assunto oficial. Qualquer dia, Suas Excelências estão a colocar anúncios na secção de mensagens dos jornais, ao lado de menina quente e sem tabus faz domicílios.

Acabou-se o papel!

Um director de jornal hoje é demitido porque o jornal não vende. Ora como os jornais não vivem dos exemplares que se compram, mas da publicidade que os sustenta, o negócio compreende-se. Quem quiser sobreviver no mercado, não se aluga para imprimir papel que se leia, vende-se para distribuir papel que embrulhe. No mais, viva a liberdade de imprensa! Viva!

22.1.07

O areias...

Vão os do Estado e mandam despejar toneladas de areia na Caparica. Vem o mar e lambe a areia. Volta o Estado e despeja mais areia. Volta o mar e volta a lambê-la. A coisa chega a ser obscena, a lembrar as «dunas» da canção. Ao ver pela TV, enquanto jantava, tanta parvoíce, lembrei-me de propôr aos do Estado: e que tal se em vez de meterem mais areia, bombassem a água do mar?. Como uma tubagem apropriada, tipo pipe-line, despejavam-na no Mar Morto e no Mar Aral. Ainda era um negócio fantástico.

20.1.07

A máscara

O argumento é, como agora se diz, recorrente: «falar na qualidade». Uma pessoa sai-se em público com uma afirmação polémica, discutível, errónea. Há duas formas de se ver livre do embaraço. A primeira é o «não foi isso que eu disse». Tal expediente está muito gasto, sobretudo quando está muita gente a ouvir e alguns a gravar. Então há o: «falei sim, mas foi nesta ou naquela qualidade». Normalmente é «falou, sim, mas na qualidade de cidadão!».
No caso da Dra. Maria José Morgado, que se meteu por estes atalhos, hás três coisas fantásticas. Primeiro, ela foi convidada para falar com uma etiqueta ao peito, a de «Procuradora-Geral Adjunta», que era o que vinha no convite. Segundo, ela não disse, estou aqui, neste encontro partidário, como cidadã, de toga despida. Terceira, teve que ser a Procuradoria-Geral a, desautorizando-a, dizer que a boca que falou não era boca de magistrado. Pois pudera!
Tudo isto é caricatural. Já nem é o terem as pessoas duas caras, conforme as conveniências, é já nem terem cara com que se apresentem e serem outros a enfiarem-lhes a máscara, conforme as necessidades!
Desculpem meter-me nisto, mas francamente, há um limite para tudo, para a exibição e para o rebaixamento.

1.1.07

O som bem audível

«As imagens ontem reveladas não mostram o momento em que foi suspenso, mas testemunhas contaram como foi bem audível o estalar do seu pescoço». É, como se calcula, sobre o enforcamento de Sadam Hussein. Por causa disso deve ser politicamente incorrecto sentir-se uma náusea sequer. Haverá até quem tenha ficado contente ao saber. É deste voyeurismo macabro que se alimentam as notícias. Em breve deve surgir o video amador do momento em que a língua se projectava, o corpo se contorcia, em agonia o enforcado se urinava pelas pernas abaixo, para gáudio dos que querem estar completamente informados.

26.12.06

A doença e a cura

Experimentem ficar doentes e vão ver se não é assim. Há uma tipologia social de reacções a essa situação. A primeira é o «isso é uma gripe». A segunda o «anda tudo por aí com isso». Há uma variante que é o «apanhei eu uma coisa dessas há duas semanas». Ao falarem de si dirão que «está adoentado» ou numa versão mais suave que «está constipado». No fundo tudo isto se resume ao não querer saber, normalmente acompanhado, para fim de conversa, do «tens que ir mas é ao médico». Há um dia em que um sujeito finalmente vai e sai de lá com uma «virose», porque «sabe, anda tudo por aí com isso», aliás eu próprio «apanhei uma coisa dessas há duas semanas». Experimentem ficar doentes porque, a não morrerem, vão sentir logo no acto súbitas melhoras.

24.12.06

Ex-votos

Andamos nesta quadra a desejar indiscriminadamente uns aos outros um Bom Ano e ao mesmo tempo a desejar que certas coisas más não aconteçam. Ora para sermos verdadeiros em relação a certas pessoas deveríamos desejar-lhes então descaradamente um ano mau.
Mas nesta quadra, porque é Natal, nós somos bons, mesmo para com os maus: gostaríamos que houvesse o bem, sem ter de haver o mal.
Por isso, mesmo ante o maior velhaco, que sabemos andar a tramar o pior, lá vai um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. A resposta que merecíamos era: muito obrigado, mas não exageremos!

23.12.06

É amanhã

Foi ao ler o jornal que me apercebi que, afinal, a consoada é só amanhã. A minha velhota corria o risco de eu lhe aparecer em casa hoje, para a levar a jantar fora, por ser Natal. É isto que dá a dimensão desolada da velhice, o ficar-se à mercê das datas obrigatórias e do ter de ser festivo, da lembrança ocasional de todos os outros. Assim, adiou-se por um dia o sentirem-se os afectos em torno de uma refeição, que é o que acontece quando secaram já com o tempo todas as outras formas de nos expressarmos.

10.12.06

Perdidos e achados

Pois lá segui sexta ao anoitecer para o Algarve no tal comboio com bilhete comprado «não on line», nem no multibanco. Deixei-o, em Loulé e nele um livro que estava a consultar para finalizar uma narrativa que terá de estar entregue na tipografia na próxima segunda-feira, ou seja, ó nervos!, amanhã.
Logo que, umas horas depois, dei pela sua falta, tentei tudo para o encontrar . Como a composição terminava a sua marcha em Faro, vá de ligar para a estação. Na lista telefónica não vinha. Mas a CP tem um «call centre». Dali deram um número. Ligado o dito, veio de lá uma voz a perguntar quem é que tinha dado tal número e a informação que o comboio já tinha sido «limpo». Ante este dado, e sugerindo-se que, feita a limpeza, o livro teria sido seguramente encontrado por alguém, o ensonado funcionário ferroviário não se deu por vencido. Que sim, mas que o livro «acabaria por» seguir para Lisboa. Pois, mas como fazia muita falta e talvez ainda estivesse por ali, sugeriu-se, que tal tentarem encontrá-lo? Entrou-se então no entaramelado de uma conversa de chanfrados, que terminou no «ligue amanhã a partir das nove». Pelas nove ligou-se, para se saber, que ninguém reclamava quanto ao número ser errado, mas para receber a informação, aliás preciosa, de que as mulheres da limpeza daquele comboio só entravam às quatro. Liguei às quatro. Disseram-me então que o serviço estava fechado.
Voltei no dia seguinte a Lisboa, onde estou este domingo, entre a gripe e o desejo de a ter, revendo provas, o livro por acabar.
Já decidi que hoje não vou à CP, com medo que me digam que os serviços competentes só abrem na segunda-feira; mas ao mesmo tempo, estou receoso que, se for só segunda, me respondam que o livro voltou para Loulé e o melhor é mesmo voltar a ligar para o «call centre».
Algum leitor benévolo pode dar uma ajudinha, nem que seja a informar onde é que se arranja um bom pau, daqueles com que os vedores até água encontram no meio das pedras?
É que entre perdidos e achados, eu, se não acho o livro, ainda me perco!

8.12.06

No comboio descendente

A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através do multibanco. A CP permite que se comprem os bilhetes de comboio através da Net. Mas a CP não permite que uma coisa nem outra funcionem. Hoje acabei numa bilheteira de manhã, para comprar um bilhete para o comboio das 17:20. À minha frente uma rapariga explicava que tinha pedido bilhete de regresso para domingo e lhe estavam a vender um para segunda-feira. Resposta do funcionário, ar de cansado, gravata desgoilada, barba por fazer: para isso é que é mais prático comprar-se directamente «on line». Pois claro!

5.12.06

Uma questão de órgãos

O DN de hoje traz como manchete que «Portugal é campeão europeu de cortes na função pública». Mais abaixo o título é «juízes perdem liberdade para integrar órgãos do futebol». Belo fecho de edição!
Tudo junto, a notícia dos «cortes» e a notícia dos «órgãos» dá para o leitor distraído concluir um gritado «Já sei! O Governo o que decidiu foi atirar-se aos juízes e cortar-lhes os órgãos!». O que, se calhar, é o que há para noticiar...
Falta só dizer que a imagem da capa do dito periódico da Avenida é a de uma Justiça que, por falar em órgãos os tem, aos peitorais, bastante proeminentes. Valha-nos isso: Justiça que seja, patriótica ao menos!

28.11.06

O Rossio já está a arder?

Vim num instante ver o que se passava no que se chama o mundo real, como o preso que tenta, através das grades, imaginar o que será o mundo de onde lhe chegam as visitas. E dei conta que há por aí sarilho infernal por causa de uns militares que foram passear ao Rossio.
A coisa não é para menos. Era ali o Palácio de Estaus, sede da Inquisição, que ardeu. No seu lugar, foi para lá o Teatro Dona Maria, que também ardeu. Agora anda tudo em brasa porque uns quantos militares vieram passear ao Passeio Público, manifestando o seu desejo de mudança de ares.
A levar a sério o tom inflamado do que se escreve e diz a propósito de tão quente assunto, parece que estamos em estado de insurreição.
Não haverá por aí ninguém que se lembre de gritar «alto ao fogo»?

24.11.06

A eterna virgindade

O Manuel Villaverde Cabral disse há momentos num programa que quase nunca vejo, que «o Presidente da República se tornou o número dois do Governo», com a compreensão da «esquerda complacente».
Antes esta constatação certeira de um homem com uma inteligência à solta, lembrei-me dos meus estudos de Medicina Legal e no necrotério da nossa intelectualidade sem ideias, vou reler essas velhas sebentas para perceber a política que por aí se autospia nestes debates.
É que na Medicina Legal há um capítulo sobre hímenes complacentes, os que resistem a todos os coitos. Na esquerda há do mesmo, os coitados: com o PS no Governo, a tudo se adaptam, elásticos e ginasticados. Venha quem vier, estão sempre virgens.

16.11.06

Os deveres portugueses

O Diário Digital titula: «Portugal cumpre o seu dever e goleia Cazaquistão».
Acho genial a ideia que subjaz a este modo de narrar os 3-0 de ontem. Até eu, que não sei nada de futebol, vibro em clamor verde-rubro. A Nação dos Portugueses, nautas afoitos que deram novos mundos ao mundo, cumpriu ontem «o seu dever», em Coimbra.
Eis um novo conceito constitucional, mandato imperativo de Direito Natural, que o Estado exige, a Nação reclama, e os 11 da selecção, reduto final da Pátria, cumpre aos pontapés.
Se a nomenclatura pega, e passa dos estádios repletos [30 mil na cidade dos doutores] para as alcovas conjugais, o «cumpre o teu dever» ciciado num amplexo de amor, transformar-se-à, no acto de o cumprir, num berro machão que acorda em casa, assustadas, as crianças e traz, inquietos, os vizinhos ao patamar:«é golo! é golo! é gooooooooooooooolo!!!!!!!!!».

10.11.06

Caça fluvial

A leitura da folha oficial ainda vai proporcionando momentos de bom humor. Para quem se aborrece pelos tribunais, é um intervalo de alegria infinita. A terminologia portuguesa para descrever a nossa santa terrinha, ajuda à bonomia. Veja-se só a Portaria que vem hoje no Diário da República, aquela folha tristonha de literatura árida, prosa sonolenta escrita por gente mandona: «cria a zona de caça municipal da Golegã, pelo período de seis anos, e transfere a sua gestão para o Clube de Caçadores de Riachos». E eu a imaginar que nos riachos havia pescadores, afinal há caçadores. Só se for de gambuzinos!

8.11.06

A memória do que foi

Na batalha de Somme, na Primeira Guerra Mundial, numa só batalha, morreu um milhão de pessoas. Escrevo isto e pergunto-me se a concordância verbal não me levaria a ter de escrever morreram um milhão de pessoas. É a selvajaria do perfeccionismo no dizer, os mortos já enterrados no fundo da nossa memória.

3.11.06

O mundo dos outros

A pessoa responsável que tem uma profissão exigente, o senhor respeitável que tem uma reputação antecedente, não deveria ter momentos de intimismo que nesta minha variada escrita se traduz. Um ser assim deveria viver em prosa e proibir-se a poesia, anular em si os sentimentos, trocar enfim, definitivamente, o coração pela cabeça. Não é que eu gostasse de ser assim, os outros é que sentiriam mais seguros, a normalidade unidimensional como uma garantia. Claro que, nos momentos de desespero, descobrem-se tristes nas suas lágrimas e anseiam um íntimo que os entenda. Felizmente para ele é só num breve momento de ténue fraqueza. No mais são todos uns heróis, muito práticos e altamente eficazes. Quanto a mim, daqui a pouco visto-me, de fato e gravata, a pasta das obrigações, os horários a cumprir, pelo mundo dos outros, até que a noite os recolha.

1.11.06

Pontos nos ii

Usar um blog alheio para anonimamente chamar «paneleiro» a uma pessoa, «múmia» a outra, não quadra nos parâmetros aceitáveis deste meu espaço. Por isso apaguei um comentário que aqui foi aposto, em que tal sucedia. Fá-lo-ei sempre sem hesitar. Fi-lo, apesar de a pessoa que o escreveu ter tido palavras amáveis a meu respeito.
Assino tudo o que escrevo, ainda que sujeitando-me a represálias. Tento compreender o anonimato, não aceito, porém, o insulto anónimo, mesmo que sejam outros os visados, ainda que se trate de pessoas que não aprecio.
Quem quiser ter liberdade de expressão crie o seu espaço, não invada subrepticiamente o dos outros.
Os blogs não são uma sanita pública. Por uma questão de higiene, aprendi a puxar o autoclismo!
Já agora e a propósito de uma outra polémica que está a surgir por eu ter respondido com cortesia a um outro blog: para mim não há pessoas com estrelas amarelas ao peito com as quais esteja proibido de falar, seja para as criticar asperamente ou para lhes agradecer a amabilidade da referência. Sou pela inclusão tolerante, não pela exclusão rebarbativa. Eu sei que é defeito, mas sendo-o, é defeito de origem.

29.10.06

A lei das três seguidas na PGR

Escrevo isto aqui, porque é um problema de cidadania, e não um problema jurídico.
Como se sabe, o candidato a Vice-PGR, que o PGR apresentou ao Conselho Superior do Ministério Público, foi chumbado por 9 votos contra 8. Vai daí, o PGR prepara-se para tornar a levar a votos o mesmo nome, para ver se desta vez o candidato passa. Se não passar, ainda há uma terceira vez.
Está a acontecer na Procuradoria-Geral o que já sucede em relação aos juízes do Tribunal Constitucional, que são eleitos politicamente pela Assembleia da República.
Porque é isto possível? Sejamos claros: porque há pessoas que, na hora do voto, podem dar o dito por não dito! Porque é que o vira-casaquismo é possível? Não tenhamos ilusões: porque há pessoas que vão ser convencidas a alterarem a sua consciência. Basta ler jornais, basta estar atento aos bastidores.
O que dizer disto tudo? Que é uma pouca vergonha, uma falta de respeito pela dignidade das instituições judiciárias, o grau zero da vida pública portuguesa, o triunfo da política sobre a Justiça.
Quem se prestar a esse papel que tenha presente o que vai fazer: assina com isso a acta de instalação da Comisão Liquidatária do Estado Direito.
É forte não é? Sim, mas nem chega a metade do que eu penso sobre isto, isto com que tenho de conviver.
P. S.-1 Já agora, ó povo ignaro e indiferente, que a tudo resiste e com isto coexiste, sabem o que diz a lei? Eu cito: «a nomeação realiza-se sob proposta do Procurador Geral da República, não podendo o Conselho Superior do Ministério Público vetar, para cada vaga, mais que dois nomes». Parece claro, não é? São três nomes, o Conselho não pode vetar mais do que dois! Pois. Mas na actual PGR acha-se que onde está o que leram, deve ler-se que em vez de serem três nomes para uma votação, pode ser o mesmo nome para ser votado três vezes. É uma habilidade interpretativa, a lei das três seguidas.
P. S.-2 Ainda em tempo: sabem como é que certas pessoas andam a lamuriar-se, pelas esquinas, quanto ao terem de mudar o seu voto? Porque têm medo que, se este Vice não passar, o Governo, retaliando, altere a lei, transformando-o, ao MP, numa Direcção-Geral do Ministério da Justiça. Dizem-me que até já veio nos jornais. É o medo, sim, o medo e a chantagem a funcionarem, em plena democracia! Na hora da próxima votação, eles lá estarão, os «sim, senhor ministro!»

25.10.06

O nosso fado

Eu acho que há notícias que traduzem o nosso modo atávico de ser. Um jornal desta manhã, que vejo pela Internet por ter acordado sem sono de madrugada diz que o «preço da água poderá subir em caso de seca». Leio isto, olho pela janela e vejo que chove a cântaros. Somos um país de ironias, o fatalismo do triste fado a música dolente do nosso trautear mental.

23.10.06

O pior português «de sempre»

Há por aí um canal de televisão que está a organizar uma «sondagem» para saber quem é o «pior português de sempre». Vi isto hoje de manhã, enquanto ruminava um pequeno-almoço apressado, no come-em-pé da minha rua. E lembrei-me que isto ainda pode dar um sarilho inesperado. Aqui há uns anos a revista «Visão» teve a ideia de organizar uma coisa parecida para saber quem era a figura portuguesa do século. Esperavam que lhes saísse o Mário Soares, o resultado foi Oliveira Salazar.
Sabendo como são estas sondagens, à mercê do momentâneo e do improvável, esta ideia tem um nome: é ridícula! Se isto fosse um país com seriedade intelectual, não se faziam palhaçadas destas. É que, estando tudo à mercê do momento, tanto pode sair um jogador de futebol que meta um «frango» na véspera, como o pobre do Afonso Henriques, por nos ter tornado independentes de Castela. O problema deste país não é ter um povo estúpido, é ter quem o trate abaixo de idiota.

15.10.06

PGR: o que parece e o que é

O anterior PGR queixou-se, ao findar o cargo, que subestimara o poder da comunicação social. O novo PGR surge esta semana, em pose descontraída, numa revista, e lá dentro as minudências e trivialidades sobre a sua domesticidade e vida privada. Ficamos a saber sobre as suas canecas e o jardim, e que gostava de jogar às escondidas. Através do que se lê, sabe-se que não reza nem vai à missa, caça perdizes e tem boa pontaria. Até o nome dos da família lá vem escarrapachado. Uma pessoa lê e parece-lhe estar a vêr um político em passerelle, a despir-se para se mostrar atraente. É isto que mostra que mal andamos. Em vez da gravidade do cargo, a ligeireza da exibição, em vez da discrição, a vaidade. O exposto nem se apercebe de um coisa elementar: ele é uma alta figura do Estado, não um personagem do social.
Ele há, claro, o Vice. E, ou eu me engano muito, enquanto o PGR se desdobra pelo que parece, o Vice vai tratar do que é. Quem escolheu o primeiro e quem nomeou o segundo sabia que assim era e para isso seria.

14.10.06

Refugiado num livro

Cercado de prazos e por eles perseguido, tenho mais um: entregar no dia 23, que está a chegar, o texto do meu próximo livro. Não é só meu. Refugiei-me numa banda de desenhada de que escrevi o guião e estou a escrever o texto que a acompanha; as belíssimas ilustrações são do Carlos Barradas. Espécie de livro ilustrado, actualmente vivo nele, cansado mas feliz. Os ecos da realidade chegam-me amortecidos. Ainda esta semana, num breve intervalo que agradeci a uma greve dos tribunais, escondi-me na biblioteca da Cinemateca para ler um livro que a filha do meu biografado escreveu sobre o pai. Um livro comovido. Leslie Howard morreu quando o avião em que regressava de Lisboa foi atacado pelos alemães. Foi no dia 1 de Junho de 1943. Hoje, acompanho-o, a bordo desse DC3, no golfo da Biscaia.

9.10.06

O novo PGR

Toma hoje posse o novo PGR. A pergunta inevitável é o que se espera do titular de tão relevante cargo. Acho que quem quiser ser prudente deve dizer: tudo é possível, nada pode ser afastado como provável.
Quando na década de oitenta o Dr. António de Almeida Santos sugeriu ao Dr. Mário Soares e este propôs ao General Eanes o nome de Narciso da Cunha Rodrigues, seguramente que nem aquele Ministro de Estado, nem o outro, primeiro-Ministro, nem o militar Presidente da República, imaginavam que aquela tímida, esfíngica e discreta criatura viria a causar tantas dores de cabeça a tanta gente e a si próprio.
No que ao PGR respeita é o cargo que faz o homem; Souto Moura, se fugiu à regra, foi porque nunca assumiu verdadeiramente o seu papel de PGR, achou-se sempre e apenas mais um colega entre colegas do Ministério Público.
Uma só coisa importa avisar: lembrar ao hoje empossado PGR que Cunha Rodrigues foi vítima de um microfone instalado no seu gabinete visando surpreender a sua privacidade. Atenção, pois!

8.10.06

Um presidente, o director e os PS's

Eu coloquei aqui uma questão para a qual não tive resposta. Não é que tenham de ma dar, é só porque eu gostava de saber o que há para responder a propósito disto e de ver sobretudo alguns dos mestres cantores sobre os temas judiciários a responder a um coisa tão simples.
A questão é assim: anda por aí uma grande exaltação sobre o cargo do STJ ter sido provido por certa pessoa e por um ou talvez dois directores de jornal terem escrito a propósito disso umas coisas.
Eu confesso o meu espanto! Pergunto-me apenas isto que aqui vai.
Primeiro: que poderes tem o presidente do STJ, para que haja tanta inquietação? Pode mandar nos juízes? Não pode. Pode alterar a fisionomia da Justiça concreta que os tribunais aplicam? Não pode. Tem intervenção nas leis que regulam a Justiça? Não tem! É a quarta figura do Estado? E daí? Pode fazer discursos? E então? A pergunta permanece: que poderes tem o senhor?
Ah! Não esqueço: preside ao Conselho Superior da Magistratura. Mas não é um este órgão colegial, até com membros vindo do exterior, sendo mínimos os poderes do Presidente?
Ou o cargo dá poderes ocultos ou os críticos exaltados estão a querer afirmar coisas que ocultam? Se é assim, falem! É que até agora não vi nada que percebesse.
Isto quanto ao objecto primeiro da polémica.
Quanto ao segundo, o director do jornal: será que umas linhas em letra de imprensa alteram a Justiça? Impressionam a Justiça? Causam sentimentos fortes nos da Justiça? São aptas a fazer com que todos se peguem aos tiros? Se é assim, e de facto mostra-se, com esta gritaria, que é assim, andamos muitíssimo mal!
A soberania da Justiça denota-se não por ser indiferente ao que dela pensam, mostra-se quando poucas coisas a impresionam.
Claro que teremos como PGR um homem que ainda há pouco disse, logo à imprensa claro, que há «lobbies» no CSM e nada aconteceu após esta gravíssima acusação; claro que temos no poder judiciário quem se ache, ambicioso, irmão uterino do poder da comunicação social e que ambos são, na denúncia e na militância, o anti-poder! Claro que quando o fruto desta mistura de conveniências está enfim no poder, a reacção em cadeia sucede e a coisa explode.
Agora, permitam-me os leitores anónimos, não dêem importância à explosão: não é um pum, é apenas um pim. Não tem a ver com a Justiça só com alguns que se servem dela.
P. S.-1 Para que não haja dúvidas: eu não gosto nem desgosto do presidente do STJ e acho que nem tenho de gostar. Sentir-me-ia até ridículo e ambíguo a ter, quanto a um tal cargo ou qualquer outro, que ter afectos.
P.S. - 2 Já sei que há uma campanha para descredibilizar a Justiça. Ora se há, é melhor quem está por detrás dela, mandar recolher os jagunços que tratam dessas coisas, pois os da Justiça, a continuarem assim, a correr atrás de foguetes, descredibilizam-se a si próprios.
P. S. - 3 E já agora façam o favor de não descer a polémica abaixo de cão!

O filhos de Eva

Extasiado, vejo na imprensa desta madrugada que a primeira foto de Marylin Monroe nua vai a leilão. Num mundo em que já não se sabe mais o que há para ver, só faltava mais esta: o ser produto raro o corpo nu de quem se julgava já que toda a nudez tinha sido castigada. O que mais nos estará reservado, os degredados filhos de Eva?

7.10.06

Ridícula velhacaria

Digam-me que não é ridículo a propaganda do governo afirmar que «cerca de 1,2 milhões de portugueses vão ficar mais perto de um serviço de urgência com a nova rede», quando quem anda pelos hospitais públicos sabe quantas horas ficam os desgraçados doentes a apodrecer nessas urgências até chegar a sua vez! Digam-me que não é uma refinada velhacaria esta forma de enganar, quando até um inquérito feito por uma revista afecta ao Governo veio mostrar que os políticos, quando estão doentes, preferem os hospitais privados!

Poderes ocultos

Eu como tenho estado encafuado a trabalhar estupidamente devo estar em défice mental de compreensão. Por isso venho aqui perguntar aos que por aí tanto sabem: importam-se de me explicar qual é o poder que tem o Presidente do STJ para que haja por aí a o turbilhão verbal por ser o senhor A e não o senhor B a ocupar o cargo? E já agora: levam a mal se eu perguntar o que é que interesa realmente o que diz o jornalista F ou ou director de jornal P, para que de repente até distintos magistrados venham à paliçada retórica às arcabuzadas argumentativas? Será tudo para levar tão a sério? Se é, então o senhor Conselheiro Presidente do STJ deve de facto ter poderes ocultos, pois ainda não dei por eles.

30.9.06

Tinta da China

Eu, pontual, compro, regularmente, os jornais, livro-me, organizado, do inútil que eles transportam e não vou ler. Depois, meticuloso, enaipo-os uns em cima dos outros, os maiores por baixo, os suplementos em cima, por tamanhos. Os que tratam de cultura, meto-os na pequena pasta, para ter a certeza de ler depois. Na semana seguinte, tanta vez fica tudo por ler. Comigo, a pequena pasta, qual mala de porão para os monótonos itinerários transatlânticos desta vida, é como se uma forma de eu saber da estupidez deste meu viver. Eu compro sempre jornais. Para muita gente é assim que sabem o que por aí sucede. Para mim é uma forma barata de ignorá-lo!

28.9.06

22.9.06

Uma procuradoria que procura

Ou eu me engano muito, e engano-me de facto bastas vezes e passo a vida a ter dúvidas, ou o Presidente da República, que queria ter na justiça a paz e a concórdia, de que o governo fez pacto, acaba de criar uma nova variante de Procuradoria, aquela que procura conflitos. O estilo directo, a ausência de peias de Pinto Monteiro contrasta fortemente com o labiríntico Cunha Rodrigues e com o crédulo Souto Moura. Hoje já vieram os do Conselho Superior da Magistratura dizer que ele, o novo PGR, os ofendera numa entrevista anterior, o que «não augura nada de bom para o relacionamento entre os dois órgãos». Claro que a vida está repleta de casos em que, no final, todos convivem de palmada nas costas. Só que a vida onde esses afrontamentos públicos terminam em confraternizações privadas é a vida política. E ou eu me engano muito ou a politização total da Justiça está à vista: jogos de poder, luta por cargos, ânsia de protagonismo, a função como um meio, a gestão do tempo, da imagem, tudo aquilo que os políticos fazem, eis.
O tempo se encarregará de mostrar para onde vamos. Eu se fosse político, exultava ao ver os magistrados comportar-me como eu, em ânsia pelo poder. Clones de mim, cada um seria um gérmen do virús que leva no fim ao descrédito total. E é disso que se trata.

21.9.06

Trancado com um livro

Hoje não estou cá. Não por ter passado o dia enclausurado dentro de uma sala de tribunal, porque isso, de há uns largos meses a esta parte acontece quase sem excepção. Mas porque, ao ser noite, encerrei-me, para tentar acabar a leitura de um livro que amanhã apresentarei na FNAC do Chiado, pelas 18:30. O livro não pára de me surpreender, desmentindo a capa, o título, a ideia feita que eu tinha sobre o seu autor. Chama-se «Túmulos Caiados», por ser a frase do Evangelho segundo São Mateus: «Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a túmulos caiados: formosos por fora, mas por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície». Conheci o autor, o Pedro Krupenski, por causa do Direito, vivendo entre os Doutores da Lei e outros fariseus hipócritas. Como o seu livro me impressiona, trancado que estou esta noite a lê-lo, para que amanhã o saiba de cor.

18.9.06

Feminismo etílico

De facto, como já me dei conta, as estatísticas estão na moda, mesmo as mais ridículas. Num canto escondido de um jornal de hoje vinha que «as mulheres que bebem socialmente recebem mais 14% do que os abstémios, enquanto que os homens ficam pelos 10%. Na qualidade de defensor da masculinidade abstémia, protesto! Não que, como macho, queira receber mais do que fêmea fora e não quero nem uma coisa nem outra! Quero é saber o que é esta do «beber socialmente». Com tanta estupidez à solta, só largando a beber para esquecer!

17.9.06

Efectivamente

O Governo anunciou, segundo li na imprensa, que medidas de efectivo combate à corrupção irão ser anunciadas em Abril. Só não consegui descobrir em que dia. Será no dia 1?

15.9.06

Quantos dias, tantos dias

A mania das estatísticas está na moda. Estamos perante o mercantilista reino da quantidade. Hoje fiquei a saber que há cinco casos mortais por dia de cancro na próstata. Soube-o porque a mania dos dias está na moda: outro dia foi o dia da enxaqueca, hoje foi o Dia Europeu das Doenças da Próstata. Ainda hei-de averiguar onde é que estas coisas estão escritas, pode ser que não haja o dia de coisa nenhuma. A coisa tinha duas vantagens: evitava-se o ridículo comemorativo e passava-se à ligar à vida independentemente do quanto é.

14.9.06

A nulidade

Decididamente está visto! Vim para Direito por ser uma nulidade em matemática. Pois se até ao calcular 16% de dez milhões me engano, e escrevo 160 mil em vez de um milhão e seis centos mil! Obrigado pela rectificação! As minhas desculpas a quem leu. Mas, já agora, por amor à verdade, o número exacto dos inteligentes em Portugal tem que ser um milhão, quinhentos e noventa e nove mil e noventa e nove, porque eu, apesar de sofrer de enxaquecas, tenho que entrar na categoria dos burros, pois nem aritmética aprendo!
PS. Desisto! Não é que me tornei a enganar! Em vez de um milhão noceventos e .... pronto! Não vale a pena! Está feita a prova! Cada um é mesmo para o que nasce. E eu, em matéria de contas, é melhor capacitar-me de que é assim.
P. S. Acima as letras «nt» vão a bold porque estava escrito «ineligentes», o que permitiu a irónica rectificação de um leitor. De facto, não são só erros nas contas, é também na ortografia. Será que eu passei pela 4ª classe?

13.9.06

Condenações e promoções

Leio num jornal diário: «as promoções na Polícia Judiciária vão ter em conta o resultado das condenações obtidas em Tribunal, adiantou ontem ao CM fonte oficial do Ministério da Justiça». Eu nem quero acreditar que isto seja verdade! É que na minha ideia a PJ serve o MP e o MP deve pautar-se por espírito de objectividade. Se a ideia é verdadeira, é a subversão total os princípios em que assenta a Justiça Penal.
Mas o que me espanta é que confrontado com esta possibilidade, Carlos Anjos, presidente da Associação Sindical de Funcionários de Investigação Criminal da PJ, a considere «um disparate profundo», mas acrescente que: «isso só seria possível se quisessem dar à PJ a competência toda nas investigações criminais, o que eu não acredito nem acho que seria benéfico».
Mas isto é assim? Os da PJ achariam bem serem promovidos em função do número de pessoas que conseguissem fazer condenar? Se isto anda assim, é caso para gritar: ó da Guarda, mas Guarda Republicana, claro está!

12.9.06

Politicamente cioso

Eu não queria acreditar quando vi hoje, ao fim do dia, no suplemento de economia do «Diário de Notícias», que o primeiro-ministro Jacques Chirac, ao apresentar, logo precisamente ao seu homólogo espanhol, José Luís Zapatero, o colega de Helsínquia, o fez dizendo «deixe-me apresentá-lo ao homem mais sexy da Finlândia». O jornal não diz qual foi a reacção dos apresentados. O saleroso castelhano talvez não esperasse tanto. A partir daqui os dirigentes nacionais que se cuidem: anda por aí, pelos corredores das chancelarias, um perfume adocicado no ar, o cio como parte da cortesia política masculina.

O dia das cefaleias

Dizem-me, para me consolar, que a enxaqueca é a doença das pessoas inteligentes. Não que quem a não tenha seja estúpido. É só porque os doentes que dela sofrem têm o cérebro mais irrigado e por isso a cabeça rende-lhes mais. Na maioria dos dias não tenho dado conta disso. Agora fiquei foi perturbado ao ler na imprensa que «16% da população portuguesa sofre da doença». Quer dizer que andam por aí 160 000 inteligentes à solta sem nós apercebermos e sem que o país os utilize. Ora hoje é o primeiro dia Europeu da Enxaqueca. Não sei como haverei de comemorar: talvez com uma marretada na pinha, que estou farto de estar aqui há horas a trabalhar!
P. S. Decididamente está visto! Vim para Direito por ser uma nulidade em matemática. Pois se até a calcular 16% de dez milhões me engano, e escrevo 160 mil em vez de um milhão e seis centos mil! Obrigado pela rectificação! As minhas desculpas a quem leu. Mas, já agora, por amor à verdade, o número exacto dos ineligentes em Portugal tem que ser um milhão, quinhentos e noventa e nove mil e noventa e nove, porque eu, apesar de sofrer de enxaquecas, tenho que entrar na categoria dos burros, pois nem aritmética aprendo!

11.9.06

Sócrates em bicos de pés

Há em muitos dirigentes de Portugal uma falta de sentido das proporções, um agigantar-se que os torna por vezes caricatos face à sua real pequenez. Veja-se que segundo a imprensa: «o primeiro-ministro português, José Sócrates, incentivou hoje, véspera do quinto aniversário do 11 de Setembro de 2001, os líderes da Europa e da Ásia reunidos em Helsínquia a fazer mais pelo combate ao terrorismo». Ante tal arrogância empertigada, a pergunta que os líderes da Europa e da Ásia deveriam fazer entre dentes, bem pode ter sido algo do género: «mas quem é este tipo?». Isto se não repararam que cá na terra até as criancinhas espancam à vontade professores nas escolas, como eu disse aqui. Mas não haverá vergonha e modéstia nesta gente?

10.9.06

O pacto e a pateada

Eu, pois que vejo pouca televisão, quase nunca vejo comentadores televisivos e muito menos aqueles que têem sempre opinião sobre tudo, enciclopédias ambulantes do imenso saber e megafones do alto dizer. Mas ao ver o Marcelo Rebelo de Sousa a afirmar há momentos como é que Marques Mendes e José Sócrates fizeram o favor ao país de tirar a Justiça do fundo em que havia enfim tocado, pensei naqueles magistrados que estão contentes a bater palmas ao pacto e que, ao verem a RTP-1, ficaram agora a saber que se estão, afinal, a vaiar a si próprios!

Dormir juntos

Leio no jornal «Público» de hoje uma notícia que vem intitulada «Dormindo juntos pela fé». O texto reza: «Alguns fiéis dormem juntos, ao ar livre, aguardando a missa que o Papa Bento XVI celebra hoje em Munique. O Sumo Pontífice está de visita ao seu estado nativo da Bavária». Fiquei mais sossegado. Nós que tantas vezes nos surpreendemos no dormir juntos pelo pecado, descobri que também o podemos fazer pela fé. Haja esperança!

Violência à solta

«Sabemos que muitos [...] têm receio de se expor ou de reconhecer que estão com um problema de controlo das situações, acrescenta. A indisciplina dos [...] leva-os muitas vezes ao desespero e "a linha quer dar-lhes o apoio e a formação que lhes permita lidar com situações de conflitualidade". O ideal é "evitar que as agressões ocorram efectivamente"».
Sabem de que se trata, pois eu escondi as palavras que o permitiria compreender? De uma linha telefónica para os professores poderem expor as situações de violência a que estão sujeitos por parte dos alunos!!!
Ante isto eu pergunto: mas que sociedade miserável é esta em que vivemos?. Nós, os que fomos educados nas décadas de cinquenta e sessenta e que tão revoltosos fomos para com o conservadorismo educacional dos nossos pais, que fauna selvática vamos deixar para o amanhã? Não deveríamos ter vergonha na cara? Não deveríamos pedir-lhes desculpa pela arrogância com que os enfrentámos quando eles nos queriam educar? Ante esta marginalidade brutal à solta nas escolas, não percebemos que falhámos redondamente como cidadãos e educadores?
Os números oficias do Gabinete de Segurança do Ministério da Educação dizem que «registaram-se, no ano lectivo 2004/2005, mais de 1 200 casos de violência escolar nos estabelecimentos de ensino portugueses. Estes obrigaram um total de 191 alunos, professores e funcionários a receber tratamento hospitalar devido a agressões».
Edificante não é senhores políticos? Fantástico não é senhores progenitores-cidadãos? Que belo exemplo estamos a dar agora que vivemos em democracia e em liberdade!

9.9.06

Pacta sunt servanda

Por estar na moda, hoje fiz um pacto comigo mesmo. Porque secreto, escondi-o aqui.

O chique e o Chico

Há uma crónica risonha do Artur Portela Filho, penso que daquelas que ele publicava no efémero «Jornal Novo» ou que ele editou em «A Funda», na qual ironiza o nascimento do «Expresso». É um texto divertido, sarcástico, daqueles que são um notável tónico para o fígado. Nele, um personagem fictício mas onde logo se descobre o Francisco Pinto Balsemão, desdobra, luzidio de vaidoso e num jactante «já está!», o primeiro número do seu «O Palmelense», pois a sede inicial do jornal era na Rua Duque de Palmela, e a propósito do formato longo e imenso do jornal, dizia algo como - e cito de memória -: um jornal chique, daqueles que se lêem, assentando-os ao longo da perna traçada, no sofá do clube. Era assim, em contraste com as «folhas de couve», os pasquins da classe média, a sujarem as mãos, impressas por revoltados tipógrafos, de «insolentes gangas», e lidas por gentinha «a cheirar a calote e a pastel de bacalhau com vinho tinto». Tudo isso hoje mudou. Os tempos vão duros. Por isso o «Expresso», de há muito que deixou de ser chique e com a idade descobriu-se hoje que tinha encolhido. Francisco Pinto Balsemão vê-se na contigência de ter enfrentar a concorrência. Ele sabe que basta roubarem-lhe vinte mil leitores e o mundo a seus pés começa a ruir-lhe.

8.9.06

Pato com laranja: não obrigado!

Eu não pensava ter de voltar a isto. Mas ao ver algumas das reacções que por aí andam, fico tão atónito que não resisto. Tem a ver com o pacto. Para mim a questão é esta: os dirigentes do PS e do PSD tramaram secretamente um pacto sobre a justiça. Ambos desprezaram os órgãos dos partidos a que pertencem, sujeitando-os ao ridículo do facto consumado, para já não falar nos seus militantes, que é como se não existissem fora as horas demagógico-comicieiras, à conta de cujo esforço e paciência aliás sobrevivem. Claro que nesta do pacto o PS comeu o PSD, porque o engenheiro Sócrates é mais hábil que o Dr. Marques Mendes. Apanhou-o a dizer que sim e agora enche a boca a falar no pacto como se fosse só seu. Com todo o respeito e muita vénia por ambas as Excelências, um tem o pacto, o outro fez de pato. E já agora, o engenheiro manda o Dr. Alberto Costa, que até aqui estava de serviço à repressão judiciária, como se fosse o Ministro do Interior dos Tribunais, dizer maliciosamente aos outros partidos que se quiserem «podem» aderir à nova União Nacional. Está-se a imaginar a adesão que isto lhes deve dar.
Acordo secreto, o pacto vai ter que ser engolido pelo Governo, pelos deputados e, claro, imposto à sociedade civil. Numa só penada, viola-se a transparência, a participação, a cidadia, os três pilares de uma democracia numa sociedade civilizada.
O que me espanta é como é que, de repente, vejo tanta gente tão contentinha com o que se passou. Eles nem sabem o que é o pacto diz. Eles nem sabem a sorte que os espera. Mas estão todos felizes, porque finalmente reina paz, concórdia, calma, estabilidade, entendimento entre os dois partidos que, afinal, são quem manda. Toda a esquerdalhada do antigamente, todos aqueles que no tempo do cavaquismo viam em cada pio do ministro Laborinho Lúcio, magistrado sério e esforçado, um ataque à independência do judiciário, à autonomia do MP, estão todos expectantes, de mão estendida, subservientes. Como esta gente está tão rendida às conveniências, como esta gente está aburguesada, como é fácil governar assim, num país de pactos.
Francamente, este não é já o meu mundo. Se isto é a democracia partidária, se isto é a Constituição, risquem-me. Entro hoje na clandestinidade. Eu sei que pareço um conservador por fora. Ainda bem. Mas acho que é a minha hora de dizer, não foi para isto que se fez o 25 de Abril.

O pacto secreto sobre a Justiça

O «pacto sobre a Justiça» é em termos de legitimidade democrática uma vergonha, em termos de eficácia política, um erro.
O pacto prova que há nos Estados-Maiores dos dois partidos que são rotativamente governo cabeças que pensam e decidem e no Parlamento, que é a representação nacional, braços que votam sim e votam não, mas sempre o que lhes mandam votar. O pacto é o apoucamentos dos deputados livres pelos caciques partidários.
Como se sabe, a Justiça é um tema da exclusiva competência do Parlamento. Pareceria aos ingénuos que caberia aos deputados discutir livremente e votar em consciência a reforma penal, a do processo penal e da organização dos tribunais. Ante o pacto, fica claro: no Parlamento vota-se aquilo que os chefes dos partidos mandam.
Pior, o pacto é um pacto secreto. A democracia é transparência, mas hoje de manhã, todos os que andam pelos tribunais perguntavam-se, uns aos outros, se já sabiam alguma coisa. O pacto mostra que a política é hoje um negócio escuro.
Enfim, pensam os dois partidos que repartem entre si o Governo que podem fazer uma arranjinho entre si em matéria de Justiça, desconsiderando os outros partidos e que a coisa vai dar bom resultado. É só não conhecer o mínimo da composição socio-ideológica das magistraturas e a disseminada suspeita que ali se começa a grassar quanto a tudo que cheire a partido, para ter esperanças de que a coisa é para acabar em bem.
O pacto é a expressão do desprezo que os dos partidos votam à sociedade civil. A democracia prisoneira dos partidos, os partidos reféns dos seus chefes, à Justiça à mercê da política, não se estranha que desde ontem, mal cheirou a pacto, os politiqueiros que pela Justiça pululam e a vêem como uma forma de poder, já andassem pelos escaninhos da política a tentarem saber. Com um pacto secreto, se calhar, coitados, tiverem que andar por subterrâneos onde deve cheirar mal.
Ante o pacto, todos fazemos figura de patos.
P. S. Há sempre o argumento segundo o qual o pacto dá à Justiça a ideia tranquilizadora de estabilidade, já que os partidos que mandam, finalmente, se entenderam. É verdade. Foi essa a vantagem da Ditadura Nacional de Oliveira Salazar. Reinava a paz, nem que fosse a dos cemitérios.

7.9.06

A travessia no deserto

Uma pessoa abre os jornais e só vê candidatos e pré-candidatos. Ainda os titulares dos cargos estão em funções e já se perfilam os seus ansiosos sucessores. Por todo o lado surge gente «disponível», como dizem, em trottoir, os mais atrevidos, «que não excluem a hipótese», como anunciam, com manha, os mais maliciosos, «que não abdicam do direito a», como se enfeitam, a dar ares de cidadania, os mais refinados. Uma coisa é certa. Antigamente ainda se faziam rogados, punham ar compungido e mão no peito, a simular o sacrifício, a mostrarem-se a contra-gosto. Hoje está na cara que estão todos mortinhos pelos lugares. Mais; organizam-se em grupos, em torno de um papel, que é para esquecer, chamado programa, que é uma forma de salvarem o mundo com palavras e combinas intestinas sobre quem vai ficar com o quê, que é uma forma do ninguém arreda pé. Uma pessoa como eu abre os jornais e sente-se o ser mais livre da terra, por não ser, não pensar em ser, não querer ser, candidato a nada! E não venham que não se diz desta água não beberei que eu sou mesmo camelo suficiente para morrer à sede.

6.9.06

Aprende a nadar companheiro

«Ontem à noite foi inaugurado o 22º casino de Macau», escreve-me, contristado, um amigo, ali residente. Quando por lá andei à volta dos poucos casinos, pululavam, quais abutres, casas de penhores. Havia quem deixasse no «prego» o bilhete de regresso a Hong-Kong. Hoje devem regressar a nado.