13.8.07

Um click

Estar-se a trabalhar escrevendo num computador portátil; através dele, receber emails e pelo msn resolver na hora problemas e prevenir algumas complicações. Mais: entrar no site da CP e ver nele os horários dos comboios, comprar o bilhete, pagá-lo ali mesmo, poder escolher o lugar, receber no telemóvel um sms com a confirmação de tudo, o qual pode ser mostrado ao revisor como se bilhete fosse, deixem-me pensar que é um mundo maravilhoso, ao alcance de um click,há uns anos absolutamente impensável.
Claro que, com tanta tecnologia ao meu serviço eu, em vez de ter ido para a a estação mais cedo comprar o bilhete, ou um dia antes com receio de o bilhete se esgotar, e nisto tudo e mais na espera e no não tenho troco, e já não lugares à janela, com tanto de bom e de moderno e de tecnologicamente útil, vou como quero e onde quero desde o momento em que o quero.
Por isso mesmo, hoje deveria ter ganho um ror de tempo, uma oportunidade imensa para fruir a vida e dela retirar o melhor: em vez do tempo perdido, passeava, dormia, almoçava, lia, curtia em suma, como agora se diz.
Não! Mal tive tempo para almoçar, fiz mil coisas a correr, entrei no comboio no último momento, porque aproveitei todos os minutos e cada um dos minutos como se a vida fugisse, a maioria do tempo a cumprir deveres, satisfazer obrigações, fazer o inapetecível.
Foi aí que me surgiu o click: e se isto tudo estivesse errado, por atentar contra o direito natural à preguiça, ao doce remanso, ao eterno descanso?

12.8.07

Arranjar-se

«Era chic falar em virtude, mas era tolice ser-se virtuoso», escreveu Manuel Laranjeira, a propósito da sociedade em que viveu o escultor Augusto Santo, de que apenas consegui encontrar no Museu Soares dos Reis um bronze representando Ismael. As palavras são duras: «Nesta nossa decadência de povo parasita, condenado a viver de expedientes, era consolador, tragicamente consolador, ver que a arte filha desta nacionalidade a não renegava e a acompanhava na biltre existência de cogumelo social (...). Como ilação fatal deste modo de viver, fervilhava o elogio mútuo, a simbiose da malandragem, a hipocrisia, o mimetismo que garantisse a pilhagem deste magro desfazer de feira. Esse estado psíquico da nossa sociedade tinha a sua expressão nítida numa palavra - arranjar-se». Isto foi assim visto em 1902, num Portugal eterno nas virtudes, perene nos defeitos.

11.8.07

Ruínas urbanas

«Um robot que sobe e desce escadas e se desloca autonomamente em edifícios em ruínas vai ser apresentado pela equipa portuguesa que o concebeu numa demonstração que se realiza para a semana na Suíça». À atenção da Câmara Municipal de Lisboa, ao cuidado do departamento de urbanismo.

10.8.07

A morte do viril

Desde que a sociologia estatística fez a sua aparição com ares doutorais ela tem permitido provar tudo. A crendice supersticiosa do vulgo no positivismo que se apresente como ciência tem ajudado. Em nome disso orientam-se políticas e lançam-se detergentes, todos baseados na reconstituição do que as pessoas pensam. Em nome disso há ideologias persecutórias e de exclusão, racismos primitivos e imbecilidades domésticas. Nas noites eleitorais então é o auge do método: os resultados das urnas são sempre a mera confirmação das «sondagens» sociológicas.
Ninguém acredita na individualidade da pessoa, na liberdade do ser, no improvável da conduta humana. O «vocês são todos iguais», passa das zaragatas conjugais, ainda em pijama matinal, para os laboratórios universitários, de bata branca nocturna. Segundo este ramo do saber, nós não somos almas, somos números!
Por isso uma universidade, a de St. Andrews, conseguiu apurar e eis que o leio na imprensa da manhã, que «as mulheres consideram que os homens com traços efeminados são mais fiéis e susceptíveis de se empenharem numa relação longa do que os homens mais viris».
Mas mais: é que a mesma universidade conseguiu saber que «os homens com queixo quadrado, com nariz mais largo e olhos mais pequenos foram designados como mais dominantes, menos fiéis e com uma maior tendência para se revelarem maus pais, com personalidades menos calorosas».
Claro que o Lavater, fisiogonomista, que no século dezoito concluía sobre o carácter humano a partir das particularidades morfológicas do indivíduo, está hoje no mundo das velharias pseudo-científicas. E mesmo o Cesare Lombroso, quando encontra atavismos físicos em certos seres que os assemelhava à ferocidade animalesca, donde propensos à delinquência, já foi. Este último valorava a assimetria craneana e a pilosidade, como factores altamente relevantes. Os de St. Andrews, tal como os nazis, esses medem o queixo, e se os lábios são arredondados, os olhos maiores e as sobrancelhas mais curvadas. Talvez meçam outras coisas que não dizem.
Enfim, neste ler matutino há só uma coisa que me preocupa nesta manhã de sexta-feira, ao olhar-me ao espelho, e ao não me ver diáfano e imberbe, nem bem lançado de formas ou suave de maneiras. É que o raio do estudo conclui, pela boca do professor David Perret ,que «os nossos resultados contradizem as afirmações segundo as quais o machismo é sinónimo de boa forma física e de saúde».
É que com esta é que eles me arrumaram de vez: ser masculino de sexo e de aparência já eu tinha percebido que estava fora de moda, hoje entendi cientificamente o que sabia empiricamente o que nos põe debaixo do vigilante olho conjugal, mas, ó Céus, fiquei convencido universitariamente que nos larga no cemitério, antes dos outros.
Vou para a praia mais logo e quando me cruzar com um daqueles mandris musculados, de tanga, orangotangos peludos, de coleantes shorts, gorilas bronzeados, de bícepes ostensivos, ante o olhar guloso das mulheres dos outros e enxofrado das próprias, ainda os aviso, em nome da ciência, a bem da sobrevivência da espécie: «vais morrer pá! Não tarda nada, de tão macho tão macho que és, ficas teso que nem um pau, em rigor mortis perfeito, hirto e defunto, na quinta das tabuletas!».

7.8.07

No comboio descedente

Há quem ouça «No comboio descendente vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros e os outros sem ser por nada» e pense que se trata de um poema do José Afonso. Não é. Foi o Fernando Pessoa quem o escreveu. Termina assim: «No comboio descendente mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não – no comboio descendente de Palmela a Portimão».
Lembrei-me disto, no comboio descendente, de Entrecampos a Loulé. Lá dentro, escoltada entre mamã e avózinha uma insuportável criancinha, perfeito endemoninhado luciferino, que gritou, choramingou, pontapeou, mordeu, jogou-se ao chão, ante uma carruagem inteira capaz de se virar ao nângero à chapada mas a conter-se. Num momento único em que um sabujo passageiro foi, solícito e cortês, buscar entre os assentos um brinquedinho com que a vóvó tentava acalmar a besta fera ouviu-se, da boca da respeitável e complacente anciã, um murmúrio, como se lhe devessemos todos desculpas por irmos ali a gramar aquele infante delinquente: «são crianças, não é?». É, pensei eu, no comboio descendente, entre a grande reinação.

6.8.07

Heróis debaixo do mar, nobre povo!

Leio com júbilo patriótico que «Portugal passou formalmente a ter, desde Junho, a jurisdição sobre um pedaço do leito marinho fora da Zona Económica Exclusiva (ZEE), ou seja, para lá das 200 milhas consagradas na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), noticiou o jornal Público. Com a dimensão de 2215 hectares, este é só o primeiro passo de um alargamento muito maior do fundo marinho sob jurisdição portuguesa».
O «Diário de Notícias», citando amavelmente aquele seu jornal concorrente titula a notícia: «Portugal ganhou pedaço de território submerso».
Os Zarcos, os Gamas de hoje enfrentarão os Adamastores contemporâneos de escafandro! Nação valente e imortal!
A Pátria de Camões que «deu novos mundos ao Mundo», cujas naus sulcaram «por mares nunca antes navegados», segue hoje a gesta heróica debaixo de água. Sinal dos tempos, sem dúvida.

4.8.07

Ataque sobre a defesa central

Há um semanário que explica hoje aos leitores qual vai ser a minha linha de defesa num processo em que sou advogado. Como eu ainda não decidi qual vai ser a defesa, nem falei sobre isso com jornalista nenhum, resta-me explicar como é uma pessoa se deve defender dos jornalistas que inventam qual vai ser a nossa linha de defesa. Há um meio: não ler! É que há o risco de uma pessoa defender-se como eles sugerem e ainda se tramar com isso. Apre!

A charmosa Janaina

Eu sou Advogado e apesar de tentar levar a vida com bonomia, vivo num mundo de gente cinzenta, a maioria mal-disposta, quase todos sorumbáticos, de vestes talares, falas redondas e muito doutorais no verbo e barrocos no estilo. A maioria dos da Justiça não riem, quando muito fazem um esgar. Ora vejam só qual a minha surpresa ao ler na Gazeta Digital do Brasil a propósito da Ordem dos Advogados de Mato Grosso esta local: «a charmosa Janaina Gayva empresta seus conhecimentos à assessoria de imprensa da Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Mato Grosso. Diga-se de passagem vem sendo muito bem conduzida pela jovem profissional, que respalda o trabalho dos profissionais por todo Estado». Com a charmosa Gayva de Mato Grosso, a maioria dos advogados do Estado reformam-se para passarem o dia por ela respaldados, na Caixa. Melhor só se disfruta em Pernambuco ou em Belo Horizonte...

A Feira do betão

O ano passado, pelo Verão, vim à Feira do Livro de Vilamoura falar sobre um livro que tinha publicado, a biografia de uma russa, agente dupla, chamada Nathalie Sergueiew. A noite estava quente, tudo decorreu em animada conversa, numa tenda bem decorada e com uma assistência empenhada. Depois, dei uma volta pelos pavilhões onde havia livros que eu não conhecia, ao lado dos clássicos «monos» que os editores tentavam escoar. Lembro-me que saldavam ao preço da chuva a obra do Jorge Luís Borges, em português, que me recusei a comprar, porque queria adquiri-la na língua original, como venho a fazer, aos poucos. A noite rematou com uma estadia, paga pela organização, num quarto de Hotel contíguo, um hotel charmoso e com um toque de luxo.
Por uma noite imaginei-me um escritor de sucesso com público certo e dormida garantida.
Lamentei então apenas que a Feira estivesse num sítio esconso, mas mesmo assim os veraneantes que se passeavam e mostravam no vai-vém nocturno pelo paredão da Marina ainda davam lá um pulo.
Dissseram-me os habitantes vilamourenses que a dita Feira já havia sido nos jardins do Casino e por isso mais acessível e portanto mais concorrida. Mas estava bem.
Ontem à noite, lembrei-me da Feira, fui lá, mas para cair fulminado pela surpresa. Tudo se resumia agora a uma tenda, com livros a maioria fracos que meia dúzia de editores ali haviam conseguido colocar, às pressas, através de dois ou três distribuidores.
Explicação: a urbanização que apoiava a Feira do Livro havia sido vendida aos espanhóis e estes «sabe, estão mais interessadas na área imobiliária». Lá voltei para casa, macambúzio, com um Agostinho da Silva debaixo do braço, em que um um dos títulos de capítulo se chama «Tudo mudou e o diabo deste país não muda».

1.8.07

Férias exóticas

Com o chegar do mês de Agosto entra parte do país em férias reais, outros em férias imaginárias. Nos últimos anos os portugueses passaram, queiram ou não confessá-lo, a viver melhor; ou então há nesta divisão mundial de riqueza qualquer fenómeno novo. Dei conta que há pessoas com empregos modestos a passar férias nas Caraíbas, enquanto no tempo da minha infância as famílias provincianas, com o sacrifício do ano todo, alugavam uma casinha na Costa Nova, em Espinho ou os mais afortunados na Figueira, para irem a banhos, pai, mãe, filharada, os avós, a prima, a tia e até o cão e o gato. Comia-se em casa o jantar e almoçavam-se sandes. À noite os velhotes passeavam na marginal, os mais novos sentavam-se à volta de um café a noite inteira na esplanada do sítio. Regressados, dormiam nos mais improvisados locais, o WC um lugar de disputas ferozes e de discussões pestilentas.
Estaremos todos mais ricos? Ou com a aviação comercial a transportar gente como mercadorias e com o que aqui se pagaria por um pequeno almoço uma família desses paraísos tropicais poder comer a semana toda, a exploração do turismo exótico está ao alcance de todas as bolsas?

29.7.07

Malditos sejam!

No dia 28 de Dezembro de 1908 Manuel Laranjeira escreveu no jornal «O Norte» um artigo a que chamou «Mocidade Idealista». C omeçava, em estilo de parábola bíblica, «naquele tempo as gerações académicas eram profundamente revolucionárias» e ao aproximar-se do fim desse inflamado texto concluía que «naquele tempo a víscera revolucionária era o coração; agora, para uma fracção de briosa mocidade, pelo menos, começa a ser o estômago».
Lê-se estas palavras e vê-se desfilar ante a nossa mente o cortejo actual dos «corrompidos pela vida» que as «quadrilhas parasitárias que medram na política nacional» [de novo Laranjeira] arregimentam para as suas ambições sem causas.
É a legião estrangeira dos que fogem, manhosos, como se do pesadelo negro do seu passado, e cuidam, astutos, do sonho dourado do seu futuro. Não tendo morrido por um ideal alheio, aprenderam a viver por uma conveniência, a sua.
«Naquele tempo faziam-se romagens ao túmulo dos vencidos, agora fazem-se excursões aos arraiais dos vencedores», diz o médico de Espinho, companheiro de Guerra Junqueiro.
A mocidade académica, a mocidade idealista, passou e passa de Don Quixote a Sancho Pança. De novo Laranjeira: «E só assim se compreende que tantos, tendo sido revolucionários com as gerações da sua mocidade, ao começarem a chapinhar na lama da vida, renegassem essas nobres rapaziadas, estéreis como utopias de loucos, como quixotescas sentimentalidades».
Sim renegam, com orgulho, luzidios de contentamento, ante o aplauso cúmplice de outros tantos anónimos e abúlicos pequeno-burgueses e outros maltezes. Paquidermes complacentes, sujam com a sua boca as sagradas palavras do inconformismo, profanando-as, ode heróica de uma geração em que não estavam por engano mas só para enganar os outros. Malditos sejam!

21.7.07

De camarada a sócia

Não parece bem julgar pessoas, salvo quanto ao que elas simbolizam. Já escrevi aqui sobre o que penso de Zita Seabra, naquilo em que nela me impressiona ao ter estado uma vida no PCP e no dia seguinte no PSD. Mais! Ter dormido uma vida na camarata dura das ideias do marxismo-leninismo e folgar hoje no fofo colchão de penas da suite das conveniências burguesas.
Foi, por isso, que me violentei, para ler até ao fim a entrevista que Zita Seabra deu ao jornal «Sol». Texto fantástico, revelador, daqueles em que o leitor sente vergonha pelo entrevistado, há nele um passo revelador.
Pergunta a entrevistadora à ex-comunista e actual sócia de Manuel Dias Loureiro: «Como ingressa no PSD?». Responde a entrevistada: «Em plena liberdade, o primeiro-ministro Cavaco Silva convida-me para o Instituto de Cinema, e eu aproximo-me do PSD».
Mas será preciso ler-se mais para se compreender tudo?
Zita Seabra é feia! Muito feia mesmo!

15.7.07

Abstémios

A democracia é um modo de formar maiorias e legitima-se através delas. Com uma abstenção eleitoral superior a 60% os sinais de legitimação democrática começam a tornar-se preocupantes, sobretudo quando os votos se pulverizam. Claro que todos falam nisso como se de um fenómeno da ciência política se tratasse, mas ninguém quer extrair daí os efeitos ao nível da prática política de que se trata.
O modelo político actual é assim: uma minoria dos activistas governa a ampla maioria dos indiferentes. Nesta lógica, os abstencionistas, mesmo quando radicais de língua e alternativos de feitio, não são contra o sistema, eles são, o sistema, na sua melhor expressão. Nunca se embebedam de espírito cívico, porque são abstémios de civilidade.

12.7.07

O portuga de cócoras!

«Com muitas estrelas», a Antena 2 noticiava hoje de manhã que «Os Maias» de Eça de Queirós vão à cena, numa adaptação para teatro em Londres. Entrevistado o produtor, um português que reside na capital inglesa desde há vários anos, lá acedeu a dizer, visivelmente enfastiado, o nome de alguns dos actores. E, instado a dizer qualque coisinha mais ante tal momento de orgulho pátrio, explicou que a peça irá chamar-se «Lisbon», porque os produtores ingleses explicaram que as pessoas têm muita dificuldade em pronunciar palavras como «Os Maias» e que, por isso, não compram bilhetes, sobretudo agora «porque os adquirem através da Internet».
Santa subserviência pacóvia ante o estrangeiro, não há dúvida! Francamente, ao ouvir isto, ainda meio ensonado, pensei, ruminando com os meus botões, se já agoram não vão colocar no cartaz que se trata de uma obra-prima de um «ibérico» chamado Isa de Kyros, para que os «bifes» consigam, desdenhosos e impantes, entender do que se trata, sobretudo através da Internet!

11.7.07

O sentido do voto

Eu não faço campanha por ou contra qualquer das candidaturas à Câmara Municipal de Lisboa. Talvez por isso não deixei de sorrir ao ter lido na imprensa de hoje aquele apontamento de reportagem em que um munícipe se dirige a um candidato que o vem convencer ao voto na sua candidatura e lhe diz, defensivamente: «nós vamos votar em si, não precisamos das suas explicações».
Há nisto algo de duplamente irónico: por um lado, no que manifesta de apoio ao candidato para que ele não perca tempo a catequisar prosélitos; noutra dimensão, a de se poupar o votante a uma situação em que, ouvidas as explicações, ainda se decidir alerar o sentido do voto. É que há candidaturas que é melhor nem se explicarem muito! Basta mostrar a cara e dizer um vota em mim que depois perceberás porquê.

10.7.07

A bailarina

Comprei a biografia da Zita Seabra e tenciono lê-la, tendo vagar. Vim aqui só confessar um preconceito de irritação em relação à personagem, por reputar incompreensível que alguém, de um instante para o outro, se passe do PCP para o PSD.
Ao folhear a folha dos agradecimentos vem lá um ao José Carlos Espada que a teria iniciado no apreço ao Winston Chuchill.
Ora, não é por eu ter no meu gabinete de advogado, sabe-se lá porquê, não o busto do João das Regras, mas sim uma foto do Primeiro Lord do Almirantado, com aquela cara de velho bulldog com que a História o acolheu, mas a referência deu-me que pensar.
Como se sabe, a conservadora Grã-Bretanha aliou-se à comunista União Soviética, para combater a Alemanha nazi. Acontece que os comunistas russos, antes dessa aliança, tinham-se aliado a Hitler, através do infame pacto Molotov-Ribentropp. Por essa altura, em 1940, Álvaro Cunhal escrevia no jornal O Diabo, então um jornal pró-comunista, «mas haverá na verdade alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?».
Tudo visto, bate tudo certo. Percebi, pelo folhear distraído do livro de «memórias», que na juventude Zita Seabra quis ser bailarina. Parece que o terá conseguido.

8.7.07

Escutas: palavra de escuteiro!

Ontem estive num jantar onde o meu interlocutor me dizia que leu num jornal um historiador a explicar que o Hermano Saraiva cometia erros históricos graves nestas memórias que vem publicando para nossa ilustração e gáudio de alguns. O advogado e historiador, não será o da boa-memória, mas aproxima-se, pelo menos, e sobretudo há momentos do que escreve que fazem sorrir o espírito, forma de lavar a alma, suja que está neste país de escândalos. Sorri-me, de facto, quando ele deu conta, há uns números atrás dessas memórias auto-encomiásticas, como foi difícil conviver com a mudança de nome da organização de escuteiros, que passou de «Corpo Nacional de Scouts», para «Corpo Nacional de Escutas». Compreendo. Na altura a ideia de um corpo destinado a escutar a vida alheia tinha má fama. Hoje, na democracia, considera-se o escutar as pessoas durante milhares de horas, um elemento essencial de investigação criminal, fundamental mesmo para o Estado de Direito. O problema é se, como diz o povo, «quem escuta de si ouve». Nesse dia é melhor ouvir e calar.
Ontem estive num jantar. Hoje vou passear ao Alto do Duque, apanhar ar e falar sozinho, que as paredes têm ouvidos.

4.7.07

Acabou-se o papel!

Em 23 de Maio fiz ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social um pedido de um simples papel onde se dissessem que eu nada devo à dita. Isto porque, para um ente público me pagar um trabalho que eu fiz, quer saber se sou ou não caloteiro à SS.
Ora o tempo vem passando, eu já telefonei, mandei saber, pedi a quem pudesse pedir a quem pudesse pedir e nada: continuo sem papel.
Ora como o Estado não me diz se eu devo, o mesmo Estado não paga.
Claro que isto tudo é uma refinadíssima sem-vergonha, com os governantes a virem para a TV com as demagogias dos «simplexes» e de outros «prá-frentexes» a enganarem parvos e a criarem o mercado das ilusões eleitoralistas.
Eu sei que não sou só eu a ter que aturar isto tudo. Uma chusma de gado obediente como eu, lá está na bicha do conformismo, a maioria com medo de refilar, não vá a SS retaliar.
Por isso, com vossa licença, aproveito este espaço público para lançar um pedido de alvíssaras: a quem souber se eu devo ou não à Segurança Social, agradeço o favor de me mandar papel. Qualquer coisinha serve, mesmo em papel picotado. Pode mesmo dizer que «até agora não deve», «não deve, mas ainda pode vir a dever» ou até «é estranho de facto, mas realmente após porfiadas buscas, conclui-se que não deve». Desde que dê para eu entrar na outra bicha, que á a daqueles a quem o Estado não paga ou paga às pingas, já dá!

Os chefes e os índios

Há coisas fantásticas no que prende a atenção dos media. Um jornal diário de hoje noticiou o absentismo na Câmara Municipal de Lisboa. Primeiro, o leitor mais distraído fica com a ideia de que só aquela edilidade, só nas Câmaras Municipais é que os funcionários se baldam, quando o não pôr lá os cotos é pecha nacional em muitos serviços. Mas o mais curioso é o título da notícia: Chefias da Câmara de Lisboa faltam quase tanto ao trabalho como subordinados. Uma pessoa lê e pensa: mas porquê noticiar isto assim? Porque os chefes deveriam faltar menos, para darem o exemplo? Só pode ser ser, claro! Mas então se eles são chefes, e pagam-lhes para mandar trabalhar, não me digam que ainda por cima têm de estar lá? Qualquer dia ainda exigem que tenham de estar e trabalhar! E depois, queixam-se do desemprego!! A obrigarem os empregados e os chefes a trabalharem, onde é que há lugar para os outros, os que estão desempregados?

1.7.07

A política da ETAR

Há na política uma vertente de impostura farçolas através da qual se tenta seduzir o eleitorado. Pensei nisso este domingo da manhã, ao ler uma frase do «Álbum de Memórias» do José Hermano Saraiva onde ele dizia que «a verdade política é uma verdade fiduciária. É como uma nota de banco: diz que vale ouro, mas é inconvertível». E pensei por me ter vindo à mente uma imagem que outro dia passou pela imprensa da senhora arquitecta Helena Roseta a despejar caixotes do lixo.
Digam-me que não é um insulto à inteligência esta de colocar uma repimpada burguesa a fingir-se sofrida trabalhadora com um fotógrafo atrás para registar a mascarada.
Digam-me que não é uma ofensa à miséria dos que como trabalho têm aquele o aparecer por um instante de uma noite, o tempo de um «flash», uma excelentíssima senhora Dona, que no momento seguinte retoma o seu estatuto, o seu guarda-roupa, a sua pose, o seu bom cheiro.
Digam-me que isto não é da democracia o lixo! Digam-me que esta «fábrica de maiorias» [de novo o controverso Saraiva], com a sua central de branqueamento da mentira e propaganda não está a precisar de saneamento básico urgente!
Digam-me que, na hora do «olha o passarinho» para a caça ao voto, a frase do Oliveira Salazar, quando inaugurou o SNI «em política o que parece é» não lhes vem mesmo a matar.
P. S. Para que se entenda: não estou na política, não faço política, não vivo da política. Vou apenas votar. Sou é cidadão, dos que põem o lixo à porta e nunca encontrou nenhum político a recolhê-lo. Só isso.