Ainda a comemoração do 5 de Outubro: soube agora que o primeiro-ministro chegou tarde ao acto, já o Presidente da República discursava, a nova direcção do PSD não sabia do convite, nem sabia que tinha de lá ir. São na aparência falhas de protocolo, são na verdade, a imagem da degradação a que chegou o cerimonial público. São as condecorações à dúzia, o cumprir oficial das efemérides. À falta da adesão popular, eis os militares, as forças militarizadas, os sapadores bombeiros, qual corpo de baile. Os discursos têm menos a ver com o que se comemora, são momentos para os políticos darem recados uns aos outros através da comunicação social. Foi assim com o 28 de Maio, está a ser com o 25 de Abril, com o 10 de Junho. Um destes dias, inaugura-se o dia do nada, o zero absoluto dos que com nada se importam.
5.10.07
Uma praça vazia
Ao ver, vazio, o Largo do Município, as altas figuras do Estado com um ar de enfado neste dia feriado, o Presidente da República a discursar, hirto, para um corpo de GNR's, arregimentados para o efeito, vi a que ponto estamos em matéria de fervor republicano.
A rematar o seu «directo», a SIC Notícias deu-nos o caricato: o Chefe de Governo, enfim aliviado da pose comemorativa, a brincar, como se com um pendericalho, com a medalha da Cidade de Lisboa que António Costa trazia ao peito. Riam, todos, prazenteiros, com o fetiche, excepto Jaime Gama, que aprendeu a substituir o riso por um esgar.
Acho que se os monárquicos tivessem organizado uma romagem para evocarem o regicídio eram capazes de ir mais mobilizados e em maior número.
A República deixou de ser comemorável, por uma razão: ninguém se apercebe hoje que ela existe, tal como todos ignoram que o senhor de barbicha que a anunciou se chama, entre os Relvas, Miguel Relvas. O «devorismo» tornou-nos semelhantes ao agonizar da Monarquia.
1.10.07
Sexo na cidade
Eu mal vejo televisão, não por pedanteria, mas por ter pouco tempo e preferir ler, quando posso. Sou como aqueles fumadores passivos, vejo a televisão que estão a ver nos sítios onde estou, a maioria das vezes como ruído de fundo.
Outro dia foi-me impossível não notar. Umas senhoras falavam do sabor do esperma dos homens com quem tinham estado.
Era uma série de renome, ao que me apercebi, que traz as mulheres pelo beicinho, e que muitos homens não perdem.
Eis os serões nocturnos, a televisão no pico de audiência, a verdadeira hora de ponta.
Hoje de manhã ouvi na rádio que o Governo quer fomentar a natalidade. Não há pois esperma a desperdiçar. A televisão, nisso, a continuar assim, não ajuda os superiores interesses do país.
30.9.07
Um mimo
Segundo leio numa bela forma de dizer no site da TSF «morreu ontem, em Paris, o pierrot do século XX. Nasceu como Marcel Mangel, em Estrasburgo no ano de 1923, e morre como Marcel Marceau em Paris, em 2007».
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.
26.9.07
Encostados à parede
Numa parede em frente a minha casa, alguém escreveu com fina ironia e inteligente humor: «tu não és o conteúdo da tua carteira». Todos os dias passam em frente a essa parede lúgubres criaturas, os resignados com a vida, conformados com o presente, indiferentes ao passado, receosos do futuro. Transporta-os a Carris para empregos que nos fariam sentir infelizes e onde ganham o pouco com que alugam a ilusão de felicidade. Hipotecados à banca por causa dos apartamentos onde dormem, são magros de conteúdo como a magreza das suas carteiras. As suas vidas desmentem o que os seus olhos lêm, fora do mundo do ser e estranhos ao universo do ter.
24.9.07
Ao passar pelo DCIAP, um susto!
Hoje pela hora do jantar, ao subir a Rua Alexandre Herculano, passado o SIS, onde se vê quem, sendo secreto é topado a entrar, e querendo ser discreto é surpreendido a sair, estando já no topo da rua, antes de chegar ao célebre Chafariz dos tiroteios revoltosos, ainda sem a sede do Partido que está no poder à vista, no passeio oposto à escondida sinagoga, eis uma série de carros de exteriores das televisões, de parabólicas em riste.
Como é ali o DCIAP, dei um salto. Pronto! Acabou de vez o segredo de justiça, pensei: agora os processos criminais estão a ser transmitidos em directo e ao vivo, qual reality show, os procuradores e os defensores, os arguidos e as vítimas num verdadeiro prós e contras, a audiência - porque não? - num jogo de apostas sobre quem sai acusado ou se livra com um arquivamento, os comentadores do costume - os que têm opinião sobre tudo o que há neste mundo terreste, aquático, subterrâneo e inter-galáctico - a botarem sentenças.
Intrigado, liguei a rádio, até por haver um magote de jornalistas à porta: falavam num recurso de uma condenação. Os meus piores augúrios, por um momento, pareciam confirmar-se.
Mas não, afinal era ali mesmo, mas na Federação Portuguesa de Futebol, que partilha com o DCIAP a porta do lado. Gilberto Madaíl falava sobre Luis Felipe Scolari. Portugal futebolístico apoiava o recurso do Filipão.
Vá lá. Desta, a culpa não é do Código de Processo Penal, sou eu que já ando a ver atrás de cada folha da floresta jurídica uma cascavel.
23.9.07
Santana a sério
Como tenho pouco tempo para ler jornais há coisas, sobretudo as da política, que me escapam, ou que leio de soslaio. Pareceu-me que Pedro Santana Lopes tinha falado de não sei o quê «a sério». Afinal era para dizer que «ou se faz oposição a sério na AR ou não vale a pena estar lá"». O jornal onde li acrescenta que «Pedro Santana Lopes admite avançar para a presidência do grupo parlamentar do PSD». Aí sim, eu pergunto: a sério? Mesmo?
8.9.07
A CP e o sutiã
Uma pessoa pensa que um blog é um diário e na prática pode ser. Mas exige um computador ou um telefone pelo qual se enviem os textos. Ora um telefone arranja-se e eu tenho um. Exige sobretudo tempo, mas tempo sempre se inventa, porque um post escreve-se num minuto. Exige-se um estado de alma, mas isso também se adapta, pois da escrita intimista à risonha, da revoltosa à desesperada, há de todos os géneros.
Posto isto, ontem não escrevi. Porquê? Porque vim na CP onde a linha telefónica é como aqueles sutiãs que dão um toque de malícia feminina expondo na mulher, sem alças cortando a extensão do visual, os ombros nus: cai-cai!
6.9.07
A CP faz impressão
A CP está um prodígio tecnológico! Abre-se o site e compra-se um bilhete on line. Vê-se o horário, escolhe-se o comboio, selecciona-se o lugar, à janela ou na coxia, com ficha telefónica para o computador nos comboios Alfa, na carruagem um ou na dois, no sentido da marcha, ou às arrecuas. Paga-se, enfim, por cartão de crédito. Tudo no computador, sem sair de casa, sem «bichas», sem «multibanco fora de serviço». Depois o bilhete é enviado por email ou por sms para o telefone.
Chega-se enfim à carruagem e eis o simpático revisor, pois já não temos pela pela frente o passado «trinca-bilhetes», mas alguém que olhando para o écrando telemóvel confere com a lista que traz com o que a CP nos enviou digitalmente e nos responde um «sim senhor, obrigado, nuito boa viagem». Às vezes, por precaução pede-nos, sempre amável, «o BI, desculpe», só para ter certeza de que nós somos nós.
Admirável mundo novo, ferroviário na marcha, electrónico na bilheteira.
Agora exprimentem só a cancelar a viagem, porque não vão viajar. On line já não pode ser. Chega-se à bilheteira, espera-se a vez na «bicha». O homem que atende já não é tão simpático: «Reembolso, tem de preencher o formulário!». Venha ele. «Leva alguns dias». Não faz mal! Quantos? «Não posso dizer, sei lá. E tem de mostrar o bilhete!». Está aqui no sms... «Não vale! Tem de ser impresso!». Mas eu aqui não tenho impressora! «Isso de estar aí não interessa, só impresso». Mas, se eu viajasse o que está aqui no telemóvel valia, era só mostrar ao revisor!. «Olhe lá, já lhe disse, ouviu, não interessa nada disso, o nosso regulamento exige que o formulário leve o bilhete impresso, o que é que quer mais!». Eu? Mas os senhores no vosso computador sabem que eu tinha bilhete e ia viajar, para quê o impresso e, pode ver, está aqui no telefone o bilhete, com o código da compra, o número do lugar. «Olhe desculpe, ou tem bilhete impresso, ou não há reembolso!». Mas eu aqui em férias não tenho impressora! «Ah! E tem de pagar quatro euros e meio!».
A CP está um prodígio tecnológico de vender impressoras! A jactos de tinta, em esguicho, que um tipo passa-se com esta gente e com este país.
P. S. Reclamei da CP para a CP! Veio a resposta da CP, rápida, eficiente, on line, no dia seguinte. De acordo com o regulamento da CP teria de juntar bilhete impresso e pagar à CP uma «taxa de reembolso», para a CP me reembolsar! Descarrilei de vez.
A banca rota!
Há coisas que uma pessoa lê e a boca abre-se-lhe até à orelhas. Vejam este mimo de prosa: «A Associação Portuguesa de Bancos (ABP) "não está preocupada" com a vaga de assaltos a instituições bancárias, garante João Salgueiro. Contudo, sublinha o presidente da APB, "o país deve estar preocupado", porque estamos perante "um problema público, um problema de polícia, um problema de criminalidade"».
Reproduzindo o espírito da notícia, a imprensa titulou «"Assaltos a bancos devem preocupar o paíse não a Banca".
Das três uma: ou o Dr. João Salgueiro se baralhou e a esta hora já se arrependeu de não se ter explicado convenientemente à imprensa, ou o jornalista tresleu o que ouviu e baralhou-se ao escrever, ou então, como diria o Dr. Alberto João Jardim no seu estilo impune de falar «está tudo grosso».
Ou então, esperem cá, ainda há pior: será que para a banca um assalto passou a ser algo de naturalmente despreocupante?
E eu que me levantei às seis da manhã para trabalhar em vez de ir ali à banca da esquina, trabuco em riste, mãos ao ar, passa para cá o taco e não te preocupes ó caixa, que o País que se incomode, que este já cá canta!
3.9.07
O infinitamente pequeno
Uma pessoa vive diariamente a angustiosa comparação entre si e os outros, entre os desejos e a realidade, entre o que está e o que é. Li hoje numa parede em Setúbal: «os nossos sonhos não cabem no vosso mundo». No milagre desta afirmação resolveu-se, na minha cansada cabeça, o nó górdio da vida. Sobeja sonho ao mundo que há para o viver. Se isto não leva um humano ao infinito, é porque há a pequenez do nosso interior irrealizado.
1.9.07
Laranjas?
Li algures que o português que se fala no Brasil é mais puro do que o que nós linguajamos na Europa, por ainda conter a base que lhes levámos no século dezasseis.
Se calhar esta minha ciência de leitura é a expressão de uma refinada estupidez, sobretudo porque há coisas naquele português de além-mar que ainda não entendo e me confundem.
Vejam o que li a propósito do combate à corrupção política brasileira: «após o deputado federal Dagoberto Nogueira Filho (PDT/MS) defender moralização da classe política, os conselheiros do Conselho Seccional da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul) pregaram penas mais duras para políticos corruptos. O conselheiro Geraldo Escobar, por exemplo, apresentou a sugestão de que políticos envolvidos em corrupção fiquem, no mínimo, dois mandatos impossibilitados de concorrer a qualquer cargo eletivo. Já o conselheiro Renato Chagas sugeriu o fim do foro privilegiado em todos os níveis porque se trata da sustentação da impunidade. Enquanto o conselheiro Marco Aurélio apresentou como sugestão que, a exemplo do que ocorre com os narcotraficantes, os políticos corruptos sejam processados criminalmente e percam os bens em favor da União, mesmo no caso em que usem “testas de ferro” e “laranjas”».
Ora esta? Laranjas?!
Sentado num banco de jardim
Um Banco é uma das instituições mais sérias de um país: estão lá os dinheiros de quem os tem, as dívidas de quem vive a crédito. Para muitos, o banco é o terror nocturno da letra por pagar, a provisão do cheque que garante salários, a possibilidade de sonhar uma felicidade emprestada.
Claro que há quem viva numa servidão da gleba contemporânea, amarrado à hipoteca para o resto da vida activa. Há quem, penhorado, se lesse Bertold Brecht concordaria que «tão crime é assaltar um banco, como fundar um banco».
Agora uma coisa é certa! Na banca, não desobedecerás ao senhor teu criador!
Paulo Teixeira Pinto não aprendeu o que ensinou José Maria Escrivà de Balaguer: «no Apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal» (Caminho, 936)». Cumprirá agora uma longa penitência.
31.8.07
O dolce fare niente
Há uns infelizes que são sempre o objecto do gozo alheio pela sua calma, pela lentidão, pela tranquilidade, pela preguiça, numa escala crescente que começa nas características e termina sendo um catálogo de defeitos.
Os povos do sul, neste aspecto, são sempre o bombo da festa dos nortenhos. Estes, porque se julgam mais perto dos céus, tendem sempre a endeusar-se, qual raça superior, sacerdotes da Montanha Mágica, senhores das alturas.
A última veio na forma de uma gracinha: nesta terra até os cães ladram sentados! É verdade, mas não mordem.
30.8.07
Durão Barroso, especialista em fugas
Leio na imprensa, que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, alertou para a fuga de cérebros europeus para outras regiões do mundo. Ele, que se escapou do país para Bruxelas sabe bem do que fala.
Quando escrevia no «Diário de Notícias» uma coluna que tinha o nome deste blog, e precisamente no momento em que ele hesitava entre ficar a governar-nos em Portugal ou governar-se no estrangeiro, publiquei um artigo a que chamei, em boa terminologista maoista: Durão, o grande salto em frente.
Parecerá imodéstia que o lembre hoje?
«Durão Barroso vive um dos mais cruéis dramas que um homem pode enfrentar: está dividido entre uma lealdade e uma ambição.
A lealdade, essa é ao cargo que desempenha, e foi isso que ele jurou diante do Chefe do Estado, no acto da sua posse: o desempenhar com lealdade as funções que lhe foram confiadas.
A ambição, é face à sua fulgurante carreira política, e foi isso que ele terá jurado a si próprio, no dia em que trocou o desalinho verbal do «radicalismo pequeno burguês de fachada socialista» pela pose composta de estadista de recorte conformista.
O drama tem objecto, o que não se sabe se tem é profundidade.
Em nome da ambição, Barroso aceita a presidência da Comissão; em nome da lealdade, Barroso recusa-a.
Por causa disso, Barroso vive já um grave problema pessoal.
Seguramente que Bruxelas apetece e Lisboa aborrece.
Entre ambas as capitais, a europeia e a portuguesa, não há comparação que resista.
Conviver com os grandes sempre foi melhor que aturar os pequenos. E nesse aspecto Barroso é um «dandy» intelectual.
Além do mais, Barroso sabe o que o futuro lhe traz: de Lisboa por certo sairá sempre mal, de Bruxelas é possível que possa sair-se bem. Portugal está farto dos seus líderes, a Europa anseia liderança.
O que está em dúvida, no momento, é saber se Barroso, líder que é de um partido, pode escolher. Uma fonte desse partido disse à imprensa que o PSD não lhe perdoaria: percebe-se, porquê. Sem ele, o partido, pior do que não ter alternativa de liderança, parece que tem apenas Pedro Santana Lopes para oferecer.
Nesse aspecto, no PS foi mais fácil, porque ali há uma lei dinástica há muito estabelecida: rei que perde, morre, rei que ganha, é morto.
O exemplo recente é, aliás, edificante: na noite da vitória socialista, na mesma em que na nave central se cantavam exéquias ao candidato europeu falecido, na sacristia, já uma tríade de candidatos à liderança afiava facas para o assalto ao poder.
Ora é nestas amarras da política que Durão Barroso se encontra cercado.
Para já, Barroso optou por uma atitude prudente e inteligente: mandou dizer que não é candidato.
A diferença é subtil: não está escrito em sítio algum que para o cargo de Presidente da Comissão não se possa ser eleito sem se ser candidato.
Daí decorre um efeito: Barroso não disse que não aceitaria o cargo, apenas disse que não se candidatava a ele.
O que, em si, implica uma consequência: o máximo da vitória é ser-se eleito para aquilo para que nem sequer nos candidatámos. Se o vierem buscar a casa e o coroarem imperador da Europa, Barroso mais do que eleito, terá sido aclamado.
Claro que vista de Lisboa, da solidão angustiante do seu gabinete na Rua da Imprensa, em certos momentos, a Europa deve parecer-lhe um apetecível refúgio: Durão Barroso se não quer concorrer à Europa, quer é que o tirem de Lisboa. E quanto mais depressa melhor.
Com uma variante: é que se for para Barroso não ir, ao menos ganhe António Vitorino, porque os dois juntos em Lisboa, isso, é demais: pior do que o desapontamento de um, ao não ter ido, é a frustração do outro, ao ter vindo».
A lealdade, essa é ao cargo que desempenha, e foi isso que ele jurou diante do Chefe do Estado, no acto da sua posse: o desempenhar com lealdade as funções que lhe foram confiadas.
A ambição, é face à sua fulgurante carreira política, e foi isso que ele terá jurado a si próprio, no dia em que trocou o desalinho verbal do «radicalismo pequeno burguês de fachada socialista» pela pose composta de estadista de recorte conformista.
O drama tem objecto, o que não se sabe se tem é profundidade.
Em nome da ambição, Barroso aceita a presidência da Comissão; em nome da lealdade, Barroso recusa-a.
Por causa disso, Barroso vive já um grave problema pessoal.
Seguramente que Bruxelas apetece e Lisboa aborrece.
Entre ambas as capitais, a europeia e a portuguesa, não há comparação que resista.
Conviver com os grandes sempre foi melhor que aturar os pequenos. E nesse aspecto Barroso é um «dandy» intelectual.
Além do mais, Barroso sabe o que o futuro lhe traz: de Lisboa por certo sairá sempre mal, de Bruxelas é possível que possa sair-se bem. Portugal está farto dos seus líderes, a Europa anseia liderança.
O que está em dúvida, no momento, é saber se Barroso, líder que é de um partido, pode escolher. Uma fonte desse partido disse à imprensa que o PSD não lhe perdoaria: percebe-se, porquê. Sem ele, o partido, pior do que não ter alternativa de liderança, parece que tem apenas Pedro Santana Lopes para oferecer.
Nesse aspecto, no PS foi mais fácil, porque ali há uma lei dinástica há muito estabelecida: rei que perde, morre, rei que ganha, é morto.
O exemplo recente é, aliás, edificante: na noite da vitória socialista, na mesma em que na nave central se cantavam exéquias ao candidato europeu falecido, na sacristia, já uma tríade de candidatos à liderança afiava facas para o assalto ao poder.
Ora é nestas amarras da política que Durão Barroso se encontra cercado.
Para já, Barroso optou por uma atitude prudente e inteligente: mandou dizer que não é candidato.
A diferença é subtil: não está escrito em sítio algum que para o cargo de Presidente da Comissão não se possa ser eleito sem se ser candidato.
Daí decorre um efeito: Barroso não disse que não aceitaria o cargo, apenas disse que não se candidatava a ele.
O que, em si, implica uma consequência: o máximo da vitória é ser-se eleito para aquilo para que nem sequer nos candidatámos. Se o vierem buscar a casa e o coroarem imperador da Europa, Barroso mais do que eleito, terá sido aclamado.
Claro que vista de Lisboa, da solidão angustiante do seu gabinete na Rua da Imprensa, em certos momentos, a Europa deve parecer-lhe um apetecível refúgio: Durão Barroso se não quer concorrer à Europa, quer é que o tirem de Lisboa. E quanto mais depressa melhor.
Com uma variante: é que se for para Barroso não ir, ao menos ganhe António Vitorino, porque os dois juntos em Lisboa, isso, é demais: pior do que o desapontamento de um, ao não ter ido, é a frustração do outro, ao ter vindo».
Ao reler isto só posso tirar uma conclusão: há quem não goste mesmo de mim, e eu até sei porquê!
27.8.07
Parece mal, mesmo!
Nós sabemos que a imprensa nem sempre é rigorosa. O Jornal de Negócios, pois tem muitas notícias, algumas publicitárias, sobre advogados, deveria sê-lo. Fica mal escrever-se: «o bastonário da Ordem dos Advogados, que representa a Teixeira Duarte», em vez de «Rogério Alves que representa a Teixeira Duarte! É a confusão total. Parece que há Advogados Bastonários e Bastonários Advogados.
26.8.07
Um mundo a sério
Segundo li esta manhã na imprensa «houve pessoas que esperaram duas horas para ter lugar» na Feira Erótica do Algarve. Mais: «o anúncio de que ia haver uma sessão de sexo ao vivo deixou o público da feira «Sexy 2007» em alvoroço». Mais ainda: «durante a feira erótica, que dura até domingo, existem «stands» de venda de artigos e acessórios sexuais e realizam-se «castings» para a produção nacional «O melhor filme pornográfico do mundo».
Quanto aos «castings», sublinhei esta parte: «os homens candidatam-se mais na brincadeira, mas as mulheres levam isto mais a sério», observou.
Numa feira em que «na zona de «swing», reservada apenas a casais, um casal de actores convida outros casais a compartilhar a cama e realizar novas experiências, num pavilhão recatado e longe do olhar do público em geral», percebo o que é o «isto», fico é sem perceber o que é o levar isso «mais a sério». Eu a pensar que era tudo a brincar!
25.8.07
O SLB e o Sigmund Freud
O freudismo acabaria por chegar ao futebol, ainda que pela pena dos cronistas.
Na edição on line do blog do Expresso vejo a pergunta «Será o Benfica um clube «gay» em processo de saída do armário?».
Pensava eu, leitor superficial, que a coisa teria a vêr com a mudança da cor das camisolas, mas não só, pois há na prosa mais adjuvantes argumentativos.
O primeiro, vem no texto: «OPA de Joe Berardo e as suas declarações que tumultuaram o balneário do clube, são evidências de que o pândego madeirense assume que o clube é mulher. Outra explicação não arranjo para o facto de o querer fecundar (é o verbo mais educado que arranjo para descrever as intenções do empresário face ao Glorioso)».
O segundo, vem no lead: «A assunção da sua feminilidade terá o condão de por o SLB em perfeita sintonia e harmonia com o sexo da zona onde tem implantada a sua catedral (a Luz), o seu ícone (a águia) e a sua cidade (Lisboa)». [fim de citação].
Lê-se e hesita-se.
O que vale é que, neste mundo, tudo serve para justificar tudo, e quanto a tudo se pode dizer que é entre o sério e o a brincar!
É uma análise «gay» esta, no sentido de brincalhona, claro. Mas a partir dela, as ilustres senhoras que a tiverem lido, ao verem que os seus queridos esposos, amantes, namorados ou passeantes ocasionais, trocam o leito amoroso pelo sofá da TV, as delícias de uma carícia por um remate do Paulo Bento, o erotismo da sua macia fêmea pelos onze musculados do Camacho, terão um motivo plausível de queixa e uma razão de grave desconfiança.
O pobre do médico de Viena, sobre cuja sexualidade já há quem desconfie, bem se pode revolver na tumba, onde bem estaria inumado num sofá, mais a sua ciência sempre com o falo na cabeça.
Depois da investigação sobre registos de um hotel na Suiça, um sociólogo julgou ter descoberto a prova escandalosa de que ele teria mantido uma relação incestuosa com a própria cunhada. A tese terá convencido o seu biógrafo oficial. O biógrafo chama-se, ironia do Destino, Peter Gay! Sobre isso vem tudo aqui. Quem quiser que acredite e, entretanto, viva o Benfica!
Ah! O dito cronista continua: «um clube de futebol ser mulher não é, em si, nada de mau, convençam-se disso, meus preclaros amigos benfiquistas». E eu a pensar que os gay eram, como dizia a Simone Beauvoir, o «terceiro sexo»!
Definitivamente desisto! Antes ver o «Sexo na Cidade», que não vejo, e tenho raiva a quem vê!
21.8.07
Santíssimo Sacramento, como isto vai!
Houve um ministro, que ainda é ministro, que se notabilizou pela frase «esta não é a minha polícia», a mesma polícia que o tivera como ministro.
Ora, ou eu me engano muito ou, qualquer dia, há no MP quem ainda se notabilize por vir a público dizer a mesma frase, na variante «esta não é a minha Judiciária».
Entretanto todos falam na cooperação institucional entre a Procuradoria e os OPC's com um ar composto e de muito notáveis silêncios forçados.
Como disse o Maquiavel no livro que escreveu para o Lorenzo de Médicis, «a guerra não se evita, apenas se adia»!
Cytoiens, aux armes, portanto!
20.8.07
Sinais exteriores
Segundo a imprensa, «os funcionários públicos que apresentem sinais exteriores de riqueza «não condizentes com a declaração de rendimentos» poderão ser alvo de processos disciplinares, segundo a nova Lei Geral Tributária».
Percebe a lógica quem entender o país em que vivemos.
O que subjaz a uma tal política é o triunfo da «riqueza encapotada», a «falsa modéstia», os muros altos e entrada discreta a esconder, por detrás, a sumptuosa vivenda e a piscina coberta, as lautas ceias e a garagem nutrida, o círculo privado para onde se levam os «visons», onde se exibem as jóias e outros adereços.
É que o que se persegue uma vez mais, são os «sinais exteriores», o mostrar e o exibir, não o ter.
É a máxima do «desde que eu não saiba», mãe de todas as hipocrisias, a benção às públicas virtudes.
Há nisto tudo, por outro lado, algo de chocante: é tornarem-se como destinatários de uma tal perseguição os «funcionários», muitos dos quais almoçam no come-em-pé para pagarem a letra do carro, vivem o resto do mês com o cartão de crédito do mês seguinte.
Porque os outros, os que mostram mesmo e se pavoneiam de facto, esses, de pessoal, pessoal, pessoal, mesmo, coitados, nada possuem. São na grande maioria «consultores» das suas, perdão, das empresas do sei lá de quem.
O tempo dos «bens ao luar» esse já foi, ante o eclipse fiscal que agora deu, o Estado esganado por dinheiro, os contribuintes a quererem esganar o Estado.
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