13.10.07

Adeus, amigos

Levantei-me tarde, porque mais do que precisar, senti que merecia dormir. Acabei agora de almoçar, o meu garoto mais novo a partilhar comigo o gosto de não gostarmos de alface a não ser sem tempero, a adorarmos carne assada fatiada mas fria, a promessa do irmos daqui a pouco dar uma volta pelo jardim aqui em frente, e passarmos pela loja do chinês, em busca de frascos para o armário da nossa despensa.
Sentei-me a folhear jornais que compro para os olhar em diagonal, o mundo que me interessa reduzido a muito pouco.
Foi então que tudo aconteceu. Atónito, vejo numa página a fotografia do Fausto Correia e a do João Coito. Mortos. Mortos como o Raúl Durão que conhecia pior. Não sabia, ninguém me disse, não li, sufocado de trabalho, soterrado de obrigações.
Uma densa tristeza povoa-me a alma. Por segundos vi-me ali, morto também, velando-lhes o corpo ido, mais mortos do que é possível morrer-se.
Conheci ambos. Do Fausto recebia sempre uma palavra todas as vezes que lhe escrevia, sempre que era uma ocasião. Maçon, conhecemo-nos independentemente disso, socialista, admirava-o mesmo quando eu já renegava o partido que do socialismo usurpa hoje o nome. Via nele a arte de viver este mundo, disponível para todos os mundos possíveis, a bonomia feita acção, a Coimbra boémia, sedutora como miragem.
Do João Coito recebi sempre uma palavra de estima, de apreço, de admiração, mesmo quando soube que lhe era difícil manifestá-la. Católico, consevador, ensinou-me o que é escrever, o que é saber carregar a fundo sobre o injusto e o indesejável, com elegância, boas maneiras e requintada educação. Combinámos jantar, o convite mantinha-se, adiava-se, lembrava-me disso cada vez que a minha mãe me telefonava, orgulhosa, a dizer «José António, o João Coito, falou outra vez bem de ti».
Vou sair. Talvez o jardim, a loja do chinês, os frascos para a minha despensa, me ajudem por uma horas à ilusão que é estar-se ainda vivo, perdido o momento de escrever ao Fausto, de telefonar ao João, adeus amigos, que isto de se estar triste é uma coisa que não mereceis. Adeus, adeus.

5.10.07

O dia do nada

Ainda a comemoração do 5 de Outubro: soube agora que o primeiro-ministro chegou tarde ao acto, já o Presidente da República discursava, a nova direcção do PSD não sabia do convite, nem sabia que tinha de lá ir. São na aparência falhas de protocolo, são na verdade, a imagem da degradação a que chegou o cerimonial público. São as condecorações à dúzia, o cumprir oficial das efemérides. À falta da adesão popular, eis os militares, as forças militarizadas, os sapadores bombeiros, qual corpo de baile. Os discursos têm menos a ver com o que se comemora, são momentos para os políticos darem recados uns aos outros através da comunicação social. Foi assim com o 28 de Maio, está a ser com o 25 de Abril, com o 10 de Junho. Um destes dias, inaugura-se o dia do nada, o zero absoluto dos que com nada se importam.

Uma praça vazia

Ao ver, vazio, o Largo do Município, as altas figuras do Estado com um ar de enfado neste dia feriado, o Presidente da República a discursar, hirto, para um corpo de GNR's, arregimentados para o efeito, vi a que ponto estamos em matéria de fervor republicano.
A rematar o seu «directo», a SIC Notícias deu-nos o caricato: o Chefe de Governo, enfim aliviado da pose comemorativa, a brincar, como se com um pendericalho, com a medalha da Cidade de Lisboa que António Costa trazia ao peito. Riam, todos, prazenteiros, com o fetiche, excepto Jaime Gama, que aprendeu a substituir o riso por um esgar.
Acho que se os monárquicos tivessem organizado uma romagem para evocarem o regicídio eram capazes de ir mais mobilizados e em maior número.
A República deixou de ser comemorável, por uma razão: ninguém se apercebe hoje que ela existe, tal como todos ignoram que o senhor de barbicha que a anunciou se chama, entre os Relvas, Miguel Relvas. O «devorismo» tornou-nos semelhantes ao agonizar da Monarquia.

1.10.07

Sexo na cidade

Eu mal vejo televisão, não por pedanteria, mas por ter pouco tempo e preferir ler, quando posso. Sou como aqueles fumadores passivos, vejo a televisão que estão a ver nos sítios onde estou, a maioria das vezes como ruído de fundo.
Outro dia foi-me impossível não notar. Umas senhoras falavam do sabor do esperma dos homens com quem tinham estado.
Era uma série de renome, ao que me apercebi, que traz as mulheres pelo beicinho, e que muitos homens não perdem.
Eis os serões nocturnos, a televisão no pico de audiência, a verdadeira hora de ponta.
Hoje de manhã ouvi na rádio que o Governo quer fomentar a natalidade. Não há pois esperma a desperdiçar. A televisão, nisso, a continuar assim, não ajuda os superiores interesses do país.

30.9.07

Um mimo

Segundo leio numa bela forma de dizer no site da TSF «morreu ontem, em Paris, o pierrot do século XX. Nasceu como Marcel Mangel, em Estrasburgo no ano de 1923, e morre como Marcel Marceau em Paris, em 2007».
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.

26.9.07

Encostados à parede

Numa parede em frente a minha casa, alguém escreveu com fina ironia e inteligente humor: «tu não és o conteúdo da tua carteira». Todos os dias passam em frente a essa parede lúgubres criaturas, os resignados com a vida, conformados com o presente, indiferentes ao passado, receosos do futuro. Transporta-os a Carris para empregos que nos fariam sentir infelizes e onde ganham o pouco com que alugam a ilusão de felicidade. Hipotecados à banca por causa dos apartamentos onde dormem, são magros de conteúdo como a magreza das suas carteiras. As suas vidas desmentem o que os seus olhos lêm, fora do mundo do ser e estranhos ao universo do ter.

24.9.07

Ao passar pelo DCIAP, um susto!

Hoje pela hora do jantar, ao subir a Rua Alexandre Herculano, passado o SIS, onde se vê quem, sendo secreto é topado a entrar, e querendo ser discreto é surpreendido a sair, estando já no topo da rua, antes de chegar ao célebre Chafariz dos tiroteios revoltosos, ainda sem a sede do Partido que está no poder à vista, no passeio oposto à escondida sinagoga, eis uma série de carros de exteriores das televisões, de parabólicas em riste.
Como é ali o DCIAP, dei um salto. Pronto! Acabou de vez o segredo de justiça, pensei: agora os processos criminais estão a ser transmitidos em directo e ao vivo, qual reality show, os procuradores e os defensores, os arguidos e as vítimas num verdadeiro prós e contras, a audiência - porque não? - num jogo de apostas sobre quem sai acusado ou se livra com um arquivamento, os comentadores do costume - os que têm opinião sobre tudo o que há neste mundo terreste, aquático, subterrâneo e inter-galáctico - a botarem sentenças.
Intrigado, liguei a rádio, até por haver um magote de jornalistas à porta: falavam num recurso de uma condenação. Os meus piores augúrios, por um momento, pareciam confirmar-se.
Mas não, afinal era ali mesmo, mas na Federação Portuguesa de Futebol, que partilha com o DCIAP a porta do lado. Gilberto Madaíl falava sobre Luis Felipe Scolari. Portugal futebolístico apoiava o recurso do Filipão.
Vá lá. Desta, a culpa não é do Código de Processo Penal, sou eu que já ando a ver atrás de cada folha da floresta jurídica uma cascavel.

23.9.07

Santana a sério

Como tenho pouco tempo para ler jornais há coisas, sobretudo as da política, que me escapam, ou que leio de soslaio. Pareceu-me que Pedro Santana Lopes tinha falado de não sei o quê «a sério». Afinal era para dizer que «ou se faz oposição a sério na AR ou não vale a pena estar lá"». O jornal onde li acrescenta que «Pedro Santana Lopes admite avançar para a presidência do grupo parlamentar do PSD». Aí sim, eu pergunto: a sério? Mesmo?

8.9.07

A CP e o sutiã

Uma pessoa pensa que um blog é um diário e na prática pode ser. Mas exige um computador ou um telefone pelo qual se enviem os textos. Ora um telefone arranja-se e eu tenho um. Exige sobretudo tempo, mas tempo sempre se inventa, porque um post escreve-se num minuto. Exige-se um estado de alma, mas isso também se adapta, pois da escrita intimista à risonha, da revoltosa à desesperada, há de todos os géneros.
Posto isto, ontem não escrevi. Porquê? Porque vim na CP onde a linha telefónica é como aqueles sutiãs que dão um toque de malícia feminina expondo na mulher, sem alças cortando a extensão do visual, os ombros nus: cai-cai!

6.9.07

A CP faz impressão

A CP está um prodígio tecnológico! Abre-se o site e compra-se um bilhete on line. Vê-se o horário, escolhe-se o comboio, selecciona-se o lugar, à janela ou na coxia, com ficha telefónica para o computador nos comboios Alfa, na carruagem um ou na dois, no sentido da marcha, ou às arrecuas. Paga-se, enfim, por cartão de crédito. Tudo no computador, sem sair de casa, sem «bichas», sem «multibanco fora de serviço». Depois o bilhete é enviado por email ou por sms para o telefone.
Chega-se enfim à carruagem e eis o simpático revisor, pois já não temos pela pela frente o passado «trinca-bilhetes», mas alguém que olhando para o écrando telemóvel confere com a lista que traz com o que a CP nos enviou digitalmente e nos responde um «sim senhor, obrigado, nuito boa viagem». Às vezes, por precaução pede-nos, sempre amável, «o BI, desculpe», só para ter certeza de que nós somos nós.
Admirável mundo novo, ferroviário na marcha, electrónico na bilheteira.
Agora exprimentem só a cancelar a viagem, porque não vão viajar. On line já não pode ser. Chega-se à bilheteira, espera-se a vez na «bicha». O homem que atende já não é tão simpático: «Reembolso, tem de preencher o formulário!». Venha ele. «Leva alguns dias». Não faz mal! Quantos? «Não posso dizer, sei lá. E tem de mostrar o bilhete!». Está aqui no sms... «Não vale! Tem de ser impresso!». Mas eu aqui não tenho impressora! «Isso de estar aí não interessa, só impresso». Mas, se eu viajasse o que está aqui no telemóvel valia, era só mostrar ao revisor!. «Olhe lá, já lhe disse, ouviu, não interessa nada disso, o nosso regulamento exige que o formulário leve o bilhete impresso, o que é que quer mais!». Eu? Mas os senhores no vosso computador sabem que eu tinha bilhete e ia viajar, para quê o impresso e, pode ver, está aqui no telefone o bilhete, com o código da compra, o número do lugar. «Olhe desculpe, ou tem bilhete impresso, ou não há reembolso!». Mas eu aqui em férias não tenho impressora! «Ah! E tem de pagar quatro euros e meio!».
A CP está um prodígio tecnológico de vender impressoras! A jactos de tinta, em esguicho, que um tipo passa-se com esta gente e com este país.
P. S. Reclamei da CP para a CP! Veio a resposta da CP, rápida, eficiente, on line, no dia seguinte. De acordo com o regulamento da CP teria de juntar bilhete impresso e pagar à CP uma «taxa de reembolso», para a CP me reembolsar! Descarrilei de vez.

A banca rota!

Há coisas que uma pessoa lê e a boca abre-se-lhe até à orelhas. Vejam este mimo de prosa: «A Associação Portuguesa de Bancos (ABP) "não está preocupada" com a vaga de assaltos a instituições bancárias, garante João Salgueiro. Contudo, sublinha o presidente da APB, "o país deve estar preocupado", porque estamos perante "um problema público, um problema de polícia, um problema de criminalidade"».
Reproduzindo o espírito da notícia, a imprensa titulou «"Assaltos a bancos devem preocupar o paíse não a Banca".
Das três uma: ou o Dr. João Salgueiro se baralhou e a esta hora já se arrependeu de não se ter explicado convenientemente à imprensa, ou o jornalista tresleu o que ouviu e baralhou-se ao escrever, ou então, como diria o Dr. Alberto João Jardim no seu estilo impune de falar «está tudo grosso».
Ou então, esperem cá, ainda há pior: será que para a banca um assalto passou a ser algo de naturalmente despreocupante?
E eu que me levantei às seis da manhã para trabalhar em vez de ir ali à banca da esquina, trabuco em riste, mãos ao ar, passa para cá o taco e não te preocupes ó caixa, que o País que se incomode, que este já cá canta!

3.9.07

O infinitamente pequeno

Uma pessoa vive diariamente a angustiosa comparação entre si e os outros, entre os desejos e a realidade, entre o que está e o que é. Li hoje numa parede em Setúbal: «os nossos sonhos não cabem no vosso mundo». No milagre desta afirmação resolveu-se, na minha cansada cabeça, o nó górdio da vida. Sobeja sonho ao mundo que há para o viver. Se isto não leva um humano ao infinito, é porque há a pequenez do nosso interior irrealizado.

1.9.07

Laranjas?

Li algures que o português que se fala no Brasil é mais puro do que o que nós linguajamos na Europa, por ainda conter a base que lhes levámos no século dezasseis.
Se calhar esta minha ciência de leitura é a expressão de uma refinada estupidez, sobretudo porque há coisas naquele português de além-mar que ainda não entendo e me confundem.
Vejam o que li a propósito do combate à corrupção política brasileira: «após o deputado federal Dagoberto Nogueira Filho (PDT/MS) defender moralização da classe política, os conselheiros do Conselho Seccional da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul) pregaram penas mais duras para políticos corruptos. O conselheiro Geraldo Escobar, por exemplo, apresentou a sugestão de que políticos envolvidos em corrupção fiquem, no mínimo, dois mandatos impossibilitados de concorrer a qualquer cargo eletivo. Já o conselheiro Renato Chagas sugeriu o fim do foro privilegiado em todos os níveis porque se trata da sustentação da impunidade. Enquanto o conselheiro Marco Aurélio apresentou como sugestão que, a exemplo do que ocorre com os narcotraficantes, os políticos corruptos sejam processados criminalmente e percam os bens em favor da União, mesmo no caso em que usem “testas de ferro” e “laranjas”».
Ora esta? Laranjas?!

Sentado num banco de jardim

Um Banco é uma das instituições mais sérias de um país: estão lá os dinheiros de quem os tem, as dívidas de quem vive a crédito. Para muitos, o banco é o terror nocturno da letra por pagar, a provisão do cheque que garante salários, a possibilidade de sonhar uma felicidade emprestada.
Claro que há quem viva numa servidão da gleba contemporânea, amarrado à hipoteca para o resto da vida activa. Há quem, penhorado, se lesse Bertold Brecht concordaria que «tão crime é assaltar um banco, como fundar um banco».
Agora uma coisa é certa! Na banca, não desobedecerás ao senhor teu criador!
Paulo Teixeira Pinto não aprendeu o que ensinou José Maria Escrivà de Balaguer: «no Apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal» (Caminho, 936)». Cumprirá agora uma longa penitência.

31.8.07

O dolce fare niente

Há uns infelizes que são sempre o objecto do gozo alheio pela sua calma, pela lentidão, pela tranquilidade, pela preguiça, numa escala crescente que começa nas características e termina sendo um catálogo de defeitos.
Os povos do sul, neste aspecto, são sempre o bombo da festa dos nortenhos. Estes, porque se julgam mais perto dos céus, tendem sempre a endeusar-se, qual raça superior, sacerdotes da Montanha Mágica, senhores das alturas.
A última veio na forma de uma gracinha: nesta terra até os cães ladram sentados! É verdade, mas não mordem.

30.8.07

Durão Barroso, especialista em fugas

Leio na imprensa, que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, alertou para a fuga de cérebros europeus para outras regiões do mundo. Ele, que se escapou do país para Bruxelas sabe bem do que fala.
Quando escrevia no «Diário de Notícias» uma coluna que tinha o nome deste blog, e precisamente no momento em que ele hesitava entre ficar a governar-nos em Portugal ou governar-se no estrangeiro, publiquei um artigo a que chamei, em boa terminologista maoista: Durão, o grande salto em frente.
Parecerá imodéstia que o lembre hoje?
«Durão Barroso vive um dos mais cruéis dramas que um homem pode enfrentar: está dividido entre uma lealdade e uma ambição.
A lealdade, essa é ao cargo que desempenha, e foi isso que ele jurou diante do Chefe do Estado, no acto da sua posse: o desempenhar com lealdade as funções que lhe foram confiadas.
A ambição, é face à sua fulgurante carreira política, e foi isso que ele terá jurado a si próprio, no dia em que trocou o desalinho verbal do «radicalismo pequeno burguês de fachada socialista» pela pose composta de estadista de recorte conformista.
O drama tem objecto, o que não se sabe se tem é profundidade.
Em nome da ambição, Barroso aceita a presidência da Comissão; em nome da lealdade, Barroso recusa-a.
Por causa disso, Barroso vive já um grave problema pessoal.
Seguramente que Bruxelas apetece e Lisboa aborrece.
Entre ambas as capitais, a europeia e a portuguesa, não há comparação que resista.
Conviver com os grandes sempre foi melhor que aturar os pequenos. E nesse aspecto Barroso é um «dandy» intelectual.
Além do mais, Barroso sabe o que o futuro lhe traz: de Lisboa por certo sairá sempre mal, de Bruxelas é possível que possa sair-se bem. Portugal está farto dos seus líderes, a Europa anseia liderança.
O que está em dúvida, no momento, é saber se Barroso, líder que é de um partido, pode escolher. Uma fonte desse partido disse à imprensa que o PSD não lhe perdoaria: percebe-se, porquê. Sem ele, o partido, pior do que não ter alternativa de liderança, parece que tem apenas Pedro Santana Lopes para oferecer.
Nesse aspecto, no PS foi mais fácil, porque ali há uma lei dinástica há muito estabelecida: rei que perde, morre, rei que ganha, é morto.
O exemplo recente é, aliás, edificante: na noite da vitória socialista, na mesma em que na nave central se cantavam exéquias ao candidato europeu falecido, na sacristia, já uma tríade de candidatos à liderança afiava facas para o assalto ao poder.
Ora é nestas amarras da política que Durão Barroso se encontra cercado.
Para já, Barroso optou por uma atitude prudente e inteligente: mandou dizer que não é candidato.
A diferença é subtil: não está escrito em sítio algum que para o cargo de Presidente da Comissão não se possa ser eleito sem se ser candidato.
Daí decorre um efeito: Barroso não disse que não aceitaria o cargo, apenas disse que não se candidatava a ele.
O que, em si, implica uma consequência: o máximo da vitória é ser-se eleito para aquilo para que nem sequer nos candidatámos. Se o vierem buscar a casa e o coroarem imperador da Europa, Barroso mais do que eleito, terá sido aclamado.
Claro que vista de Lisboa, da solidão angustiante do seu gabinete na Rua da Imprensa, em certos momentos, a Europa deve parecer-lhe um apetecível refúgio: Durão Barroso se não quer concorrer à Europa, quer é que o tirem de Lisboa. E quanto mais depressa melhor.
Com uma variante: é que se for para Barroso não ir, ao menos ganhe António Vitorino, porque os dois juntos em Lisboa, isso, é demais: pior do que o desapontamento de um, ao não ter ido, é a frustração do outro, ao ter vindo
».
Ao reler isto só posso tirar uma conclusão: há quem não goste mesmo de mim, e eu até sei porquê!

27.8.07

Parece mal, mesmo!

Nós sabemos que a imprensa nem sempre é rigorosa. O Jornal de Negócios, pois tem muitas notícias, algumas publicitárias, sobre advogados, deveria sê-lo. Fica mal escrever-se: «o bastonário da Ordem dos Advogados, que representa a Teixeira Duarte», em vez de «Rogério Alves que representa a Teixeira Duarte! É a confusão total. Parece que há Advogados Bastonários e Bastonários Advogados.

26.8.07

Um mundo a sério

Segundo li esta manhã na imprensa «houve pessoas que esperaram duas horas para ter lugar» na Feira Erótica do Algarve. Mais: «o anúncio de que ia haver uma sessão de sexo ao vivo deixou o público da feira «Sexy 2007» em alvoroço». Mais ainda: «durante a feira erótica, que dura até domingo, existem «stands» de venda de artigos e acessórios sexuais e realizam-se «castings» para a produção nacional «O melhor filme pornográfico do mundo».
Quanto aos «castings», sublinhei esta parte: «os homens candidatam-se mais na brincadeira, mas as mulheres levam isto mais a sério», observou.
Numa feira em que «na zona de «swing», reservada apenas a casais, um casal de actores convida outros casais a compartilhar a cama e realizar novas experiências, num pavilhão recatado e longe do olhar do público em geral», percebo o que é o «isto», fico é sem perceber o que é o levar isso «mais a sério». Eu a pensar que era tudo a brincar!

25.8.07

O SLB e o Sigmund Freud

O freudismo acabaria por chegar ao futebol, ainda que pela pena dos cronistas.
Na edição on line do blog do Expresso vejo a pergunta «Será o Benfica um clube «gay» em processo de saída do armário?».
Pensava eu, leitor superficial, que a coisa teria a vêr com a mudança da cor das camisolas, mas não só, pois há na prosa mais adjuvantes argumentativos.
O primeiro, vem no texto: «OPA de Joe Berardo e as suas declarações que tumultuaram o balneário do clube, são evidências de que o pândego madeirense assume que o clube é mulher. Outra explicação não arranjo para o facto de o querer fecundar (é o verbo mais educado que arranjo para descrever as intenções do empresário face ao Glorioso)».
O segundo, vem no lead: «A assunção da sua feminilidade terá o condão de por o SLB em perfeita sintonia e harmonia com o sexo da zona onde tem implantada a sua catedral (a Luz), o seu ícone (a águia) e a sua cidade (Lisboa)». [fim de citação].
Lê-se e hesita-se.
O que vale é que, neste mundo, tudo serve para justificar tudo, e quanto a tudo se pode dizer que é entre o sério e o a brincar!
É uma análise «gay» esta, no sentido de brincalhona, claro. Mas a partir dela, as ilustres senhoras que a tiverem lido, ao verem que os seus queridos esposos, amantes, namorados ou passeantes ocasionais, trocam o leito amoroso pelo sofá da TV, as delícias de uma carícia por um remate do Paulo Bento, o erotismo da sua macia fêmea pelos onze musculados do Camacho, terão um motivo plausível de queixa e uma razão de grave desconfiança.
O pobre do médico de Viena, sobre cuja sexualidade já há quem desconfie, bem se pode revolver na tumba, onde bem estaria inumado num sofá, mais a sua ciência sempre com o falo na cabeça.
Depois da investigação sobre registos de um hotel na Suiça, um sociólogo julgou ter descoberto a prova escandalosa de que ele teria mantido uma relação incestuosa com a própria cunhada. A tese terá convencido o seu biógrafo oficial. O biógrafo chama-se, ironia do Destino, Peter Gay! Sobre isso vem tudo aqui. Quem quiser que acredite e, entretanto, viva o Benfica!
Ah! O dito cronista continua: «um clube de futebol ser mulher não é, em si, nada de mau, convençam-se disso, meus preclaros amigos benfiquistas». E eu a pensar que os gay eram, como dizia a Simone Beauvoir, o «terceiro sexo»!
Definitivamente desisto! Antes ver o «Sexo na Cidade», que não vejo, e tenho raiva a quem vê!

21.8.07

Santíssimo Sacramento, como isto vai!

Houve um ministro, que ainda é ministro, que se notabilizou pela frase «esta não é a minha polícia», a mesma polícia que o tivera como ministro.
Ora, ou eu me engano muito ou, qualquer dia, há no MP quem ainda se notabilize por vir a público dizer a mesma frase, na variante «esta não é a minha Judiciária».
Entretanto todos falam na cooperação institucional entre a Procuradoria e os OPC's com um ar composto e de muito notáveis silêncios forçados.
Como disse o Maquiavel no livro que escreveu para o Lorenzo de Médicis, «a guerra não se evita, apenas se adia»!
Cytoiens, aux armes, portanto!

20.8.07

Sinais exteriores

Segundo a imprensa, «os funcionários públicos que apresentem sinais exteriores de riqueza «não condizentes com a declaração de rendimentos» poderão ser alvo de processos disciplinares, segundo a nova Lei Geral Tributária».
Percebe a lógica quem entender o país em que vivemos.
O que subjaz a uma tal política é o triunfo da «riqueza encapotada», a «falsa modéstia», os muros altos e entrada discreta a esconder, por detrás, a sumptuosa vivenda e a piscina coberta, as lautas ceias e a garagem nutrida, o círculo privado para onde se levam os «visons», onde se exibem as jóias e outros adereços.
É que o que se persegue uma vez mais, são os «sinais exteriores», o mostrar e o exibir, não o ter.
É a máxima do «desde que eu não saiba», mãe de todas as hipocrisias, a benção às públicas virtudes.
Há nisto tudo, por outro lado, algo de chocante: é tornarem-se como destinatários de uma tal perseguição os «funcionários», muitos dos quais almoçam no come-em-pé para pagarem a letra do carro, vivem o resto do mês com o cartão de crédito do mês seguinte.
Porque os outros, os que mostram mesmo e se pavoneiam de facto, esses, de pessoal, pessoal, pessoal, mesmo, coitados, nada possuem. São na grande maioria «consultores» das suas, perdão, das empresas do sei lá de quem.
O tempo dos «bens ao luar» esse já foi, ante o eclipse fiscal que agora deu, o Estado esganado por dinheiro, os contribuintes a quererem esganar o Estado.

18.8.07

Ser ou não ser engenheiro: uma questão de colocação social

Estudioso amador da filosofia portuguesa e deixando num blog algumas notas esparsas sobre as ainda dispersas leituras, encontrei ontem, ao sair do barbeiro, imagine-se!, numa livraria que devia frequentar mais, uma colectânea de artigos, conferências discursos e cartas da autoria do filósofo portuense Leonardo Coimbra. Compilou tudo, com devoção e humildade, Pinharanda Gomes que nesse paciente trabalho mostra como é um grande homem, ao encarregar-se destes trabalhos que outros considerariam menores. Editou-o a Fundação Lusíada.
Hoje, sábado de tarde, deixei-me ficar por casa, depois de algumas surtidas utilitárias à chamada «rua», com o desejo de escrever e a vontade de ler.
Fui então dar uma espreitadela ao livro, folheando-o, como é por vezes meu hábito, de trás para a frente.
As últimas páginas são dedidacas à conversão ao catolicismo daquele que viveu uma vida inteira como se sem Deus e de quem Deus parecia ter-se esquecido ao condenar-lhe um filho a uma grave doença quase fatal; conversão a que se seguiria a morte a curto trecho.
Mas não foi por aí que me fiquei.
Revirando folhas, dei com este momento histórico. Vejam só as malhas que o acaso tece.
Como se pode ver melhor aqui «em 1924, a lei n.º 1638, de 23 de Julho, veio conferir o título de engenheiro auxiliar aos diplomados pelos institutos industriais e incluindo os condutores nessa designação. A reacção dos engenheiros não tardou. Os alunos do IST mobilizaram-se numa greve académica, cujos efeitos, prolongando-se para lá do golpe militar de 28 de Maio de 1926, conduziram à efectiva protecção legal do título de engenheiro em exclusivo para os diplomados pelas escolas de ensino superior e conferindo o título de agente técnico de engenharia aos antigos condutores e aos diplomados pelos institutos industriais».
Ora foi neste ambiente de insurreição entre engenheiros e agentes técnicos que num opúsculo sem data intitulado «Aos legisladores da República Portuguesa», consignou o seguinte parecer: «concordo plenamente com tudo o que seja marcar pelo seu verdadeiro nome cada indivíduo e cada profissão. A ordem nas sociedades depende da boa colocação social de cada competência e o lugar social da competência é marcado por um título ou diploma. Eis pois porque vos dou razão».
Não pensem que fiz de propósito! Estou inocente! A vida e os seus ensinamentos é que vieram ao meu encontro. Juro!

15.8.07

A nudez forte da verdade fiscal

Que um Governo queira desvendar segredos bancários por andar a perseguir crimes, compreende-se. Que um Governo não queira que a evasão fiscal se acoberte atrás do sigilo bancário, entende-se. Que sem sigilo bancário começa a não haver dinheiro nos bancos portugueses, aprende-se.
Agora que um Governo ameace quem reclama fiscalmente de lhe quebrar o segredo bancário, é mais do que uma imoralidade: é o Estado a impor o que pode nem ser devido, ameaçando usurpar o que poderia nem ser permitido.
Ou pagas ao Fisco o que o Fisco quer, ou ficas despido com a tua vida bancária toda ao léu.
Em vez do cobrador de fraque, é o devedor em pilau...

14.8.07

À procura de um livro

Andei à procura de um livro. Sabia que era edição de autor e que o autor vivia no norte do país. Nada como procurar uma livraria, claro.
O local onde o autor mora é uma cidade.
Nessa cidade a Câmara Municipal desenvolve uma activa promoção cultural, como o mostra um «site».
A essa cidade estão ligados importantes vultos da cultura.
Tentei saber por livrarias.
A resposta foi: bom, livraria, livraria, não há. Há livrarias/papelarias. Havia. Umas duas ou três.
É este o retrato do país.
Em cada cidade, há milhentos cafés e cervejarias, dezenas de lojas de bugigangas, ourivesarias algumas, seguramente até umas quantas casas de serviços íntimos, mais ou menos disfarçadas. Agora livros! Isso é uma chatice, até por fazerem dores de cabeça...
Eu dizia acima que andei à procura de um livro. Não! Eu andei foi à procura de um país.

13.8.07

Um click

Estar-se a trabalhar escrevendo num computador portátil; através dele, receber emails e pelo msn resolver na hora problemas e prevenir algumas complicações. Mais: entrar no site da CP e ver nele os horários dos comboios, comprar o bilhete, pagá-lo ali mesmo, poder escolher o lugar, receber no telemóvel um sms com a confirmação de tudo, o qual pode ser mostrado ao revisor como se bilhete fosse, deixem-me pensar que é um mundo maravilhoso, ao alcance de um click,há uns anos absolutamente impensável.
Claro que, com tanta tecnologia ao meu serviço eu, em vez de ter ido para a a estação mais cedo comprar o bilhete, ou um dia antes com receio de o bilhete se esgotar, e nisto tudo e mais na espera e no não tenho troco, e já não lugares à janela, com tanto de bom e de moderno e de tecnologicamente útil, vou como quero e onde quero desde o momento em que o quero.
Por isso mesmo, hoje deveria ter ganho um ror de tempo, uma oportunidade imensa para fruir a vida e dela retirar o melhor: em vez do tempo perdido, passeava, dormia, almoçava, lia, curtia em suma, como agora se diz.
Não! Mal tive tempo para almoçar, fiz mil coisas a correr, entrei no comboio no último momento, porque aproveitei todos os minutos e cada um dos minutos como se a vida fugisse, a maioria do tempo a cumprir deveres, satisfazer obrigações, fazer o inapetecível.
Foi aí que me surgiu o click: e se isto tudo estivesse errado, por atentar contra o direito natural à preguiça, ao doce remanso, ao eterno descanso?

12.8.07

Arranjar-se

«Era chic falar em virtude, mas era tolice ser-se virtuoso», escreveu Manuel Laranjeira, a propósito da sociedade em que viveu o escultor Augusto Santo, de que apenas consegui encontrar no Museu Soares dos Reis um bronze representando Ismael. As palavras são duras: «Nesta nossa decadência de povo parasita, condenado a viver de expedientes, era consolador, tragicamente consolador, ver que a arte filha desta nacionalidade a não renegava e a acompanhava na biltre existência de cogumelo social (...). Como ilação fatal deste modo de viver, fervilhava o elogio mútuo, a simbiose da malandragem, a hipocrisia, o mimetismo que garantisse a pilhagem deste magro desfazer de feira. Esse estado psíquico da nossa sociedade tinha a sua expressão nítida numa palavra - arranjar-se». Isto foi assim visto em 1902, num Portugal eterno nas virtudes, perene nos defeitos.

11.8.07

Ruínas urbanas

«Um robot que sobe e desce escadas e se desloca autonomamente em edifícios em ruínas vai ser apresentado pela equipa portuguesa que o concebeu numa demonstração que se realiza para a semana na Suíça». À atenção da Câmara Municipal de Lisboa, ao cuidado do departamento de urbanismo.

10.8.07

A morte do viril

Desde que a sociologia estatística fez a sua aparição com ares doutorais ela tem permitido provar tudo. A crendice supersticiosa do vulgo no positivismo que se apresente como ciência tem ajudado. Em nome disso orientam-se políticas e lançam-se detergentes, todos baseados na reconstituição do que as pessoas pensam. Em nome disso há ideologias persecutórias e de exclusão, racismos primitivos e imbecilidades domésticas. Nas noites eleitorais então é o auge do método: os resultados das urnas são sempre a mera confirmação das «sondagens» sociológicas.
Ninguém acredita na individualidade da pessoa, na liberdade do ser, no improvável da conduta humana. O «vocês são todos iguais», passa das zaragatas conjugais, ainda em pijama matinal, para os laboratórios universitários, de bata branca nocturna. Segundo este ramo do saber, nós não somos almas, somos números!
Por isso uma universidade, a de St. Andrews, conseguiu apurar e eis que o leio na imprensa da manhã, que «as mulheres consideram que os homens com traços efeminados são mais fiéis e susceptíveis de se empenharem numa relação longa do que os homens mais viris».
Mas mais: é que a mesma universidade conseguiu saber que «os homens com queixo quadrado, com nariz mais largo e olhos mais pequenos foram designados como mais dominantes, menos fiéis e com uma maior tendência para se revelarem maus pais, com personalidades menos calorosas».
Claro que o Lavater, fisiogonomista, que no século dezoito concluía sobre o carácter humano a partir das particularidades morfológicas do indivíduo, está hoje no mundo das velharias pseudo-científicas. E mesmo o Cesare Lombroso, quando encontra atavismos físicos em certos seres que os assemelhava à ferocidade animalesca, donde propensos à delinquência, já foi. Este último valorava a assimetria craneana e a pilosidade, como factores altamente relevantes. Os de St. Andrews, tal como os nazis, esses medem o queixo, e se os lábios são arredondados, os olhos maiores e as sobrancelhas mais curvadas. Talvez meçam outras coisas que não dizem.
Enfim, neste ler matutino há só uma coisa que me preocupa nesta manhã de sexta-feira, ao olhar-me ao espelho, e ao não me ver diáfano e imberbe, nem bem lançado de formas ou suave de maneiras. É que o raio do estudo conclui, pela boca do professor David Perret ,que «os nossos resultados contradizem as afirmações segundo as quais o machismo é sinónimo de boa forma física e de saúde».
É que com esta é que eles me arrumaram de vez: ser masculino de sexo e de aparência já eu tinha percebido que estava fora de moda, hoje entendi cientificamente o que sabia empiricamente o que nos põe debaixo do vigilante olho conjugal, mas, ó Céus, fiquei convencido universitariamente que nos larga no cemitério, antes dos outros.
Vou para a praia mais logo e quando me cruzar com um daqueles mandris musculados, de tanga, orangotangos peludos, de coleantes shorts, gorilas bronzeados, de bícepes ostensivos, ante o olhar guloso das mulheres dos outros e enxofrado das próprias, ainda os aviso, em nome da ciência, a bem da sobrevivência da espécie: «vais morrer pá! Não tarda nada, de tão macho tão macho que és, ficas teso que nem um pau, em rigor mortis perfeito, hirto e defunto, na quinta das tabuletas!».

7.8.07

No comboio descedente

Há quem ouça «No comboio descendente vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros e os outros sem ser por nada» e pense que se trata de um poema do José Afonso. Não é. Foi o Fernando Pessoa quem o escreveu. Termina assim: «No comboio descendente mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não – no comboio descendente de Palmela a Portimão».
Lembrei-me disto, no comboio descendente, de Entrecampos a Loulé. Lá dentro, escoltada entre mamã e avózinha uma insuportável criancinha, perfeito endemoninhado luciferino, que gritou, choramingou, pontapeou, mordeu, jogou-se ao chão, ante uma carruagem inteira capaz de se virar ao nângero à chapada mas a conter-se. Num momento único em que um sabujo passageiro foi, solícito e cortês, buscar entre os assentos um brinquedinho com que a vóvó tentava acalmar a besta fera ouviu-se, da boca da respeitável e complacente anciã, um murmúrio, como se lhe devessemos todos desculpas por irmos ali a gramar aquele infante delinquente: «são crianças, não é?». É, pensei eu, no comboio descendente, entre a grande reinação.

6.8.07

Heróis debaixo do mar, nobre povo!

Leio com júbilo patriótico que «Portugal passou formalmente a ter, desde Junho, a jurisdição sobre um pedaço do leito marinho fora da Zona Económica Exclusiva (ZEE), ou seja, para lá das 200 milhas consagradas na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), noticiou o jornal Público. Com a dimensão de 2215 hectares, este é só o primeiro passo de um alargamento muito maior do fundo marinho sob jurisdição portuguesa».
O «Diário de Notícias», citando amavelmente aquele seu jornal concorrente titula a notícia: «Portugal ganhou pedaço de território submerso».
Os Zarcos, os Gamas de hoje enfrentarão os Adamastores contemporâneos de escafandro! Nação valente e imortal!
A Pátria de Camões que «deu novos mundos ao Mundo», cujas naus sulcaram «por mares nunca antes navegados», segue hoje a gesta heróica debaixo de água. Sinal dos tempos, sem dúvida.

4.8.07

Ataque sobre a defesa central

Há um semanário que explica hoje aos leitores qual vai ser a minha linha de defesa num processo em que sou advogado. Como eu ainda não decidi qual vai ser a defesa, nem falei sobre isso com jornalista nenhum, resta-me explicar como é uma pessoa se deve defender dos jornalistas que inventam qual vai ser a nossa linha de defesa. Há um meio: não ler! É que há o risco de uma pessoa defender-se como eles sugerem e ainda se tramar com isso. Apre!

A charmosa Janaina

Eu sou Advogado e apesar de tentar levar a vida com bonomia, vivo num mundo de gente cinzenta, a maioria mal-disposta, quase todos sorumbáticos, de vestes talares, falas redondas e muito doutorais no verbo e barrocos no estilo. A maioria dos da Justiça não riem, quando muito fazem um esgar. Ora vejam só qual a minha surpresa ao ler na Gazeta Digital do Brasil a propósito da Ordem dos Advogados de Mato Grosso esta local: «a charmosa Janaina Gayva empresta seus conhecimentos à assessoria de imprensa da Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Mato Grosso. Diga-se de passagem vem sendo muito bem conduzida pela jovem profissional, que respalda o trabalho dos profissionais por todo Estado». Com a charmosa Gayva de Mato Grosso, a maioria dos advogados do Estado reformam-se para passarem o dia por ela respaldados, na Caixa. Melhor só se disfruta em Pernambuco ou em Belo Horizonte...

A Feira do betão

O ano passado, pelo Verão, vim à Feira do Livro de Vilamoura falar sobre um livro que tinha publicado, a biografia de uma russa, agente dupla, chamada Nathalie Sergueiew. A noite estava quente, tudo decorreu em animada conversa, numa tenda bem decorada e com uma assistência empenhada. Depois, dei uma volta pelos pavilhões onde havia livros que eu não conhecia, ao lado dos clássicos «monos» que os editores tentavam escoar. Lembro-me que saldavam ao preço da chuva a obra do Jorge Luís Borges, em português, que me recusei a comprar, porque queria adquiri-la na língua original, como venho a fazer, aos poucos. A noite rematou com uma estadia, paga pela organização, num quarto de Hotel contíguo, um hotel charmoso e com um toque de luxo.
Por uma noite imaginei-me um escritor de sucesso com público certo e dormida garantida.
Lamentei então apenas que a Feira estivesse num sítio esconso, mas mesmo assim os veraneantes que se passeavam e mostravam no vai-vém nocturno pelo paredão da Marina ainda davam lá um pulo.
Dissseram-me os habitantes vilamourenses que a dita Feira já havia sido nos jardins do Casino e por isso mais acessível e portanto mais concorrida. Mas estava bem.
Ontem à noite, lembrei-me da Feira, fui lá, mas para cair fulminado pela surpresa. Tudo se resumia agora a uma tenda, com livros a maioria fracos que meia dúzia de editores ali haviam conseguido colocar, às pressas, através de dois ou três distribuidores.
Explicação: a urbanização que apoiava a Feira do Livro havia sido vendida aos espanhóis e estes «sabe, estão mais interessadas na área imobiliária». Lá voltei para casa, macambúzio, com um Agostinho da Silva debaixo do braço, em que um um dos títulos de capítulo se chama «Tudo mudou e o diabo deste país não muda».

1.8.07

Férias exóticas

Com o chegar do mês de Agosto entra parte do país em férias reais, outros em férias imaginárias. Nos últimos anos os portugueses passaram, queiram ou não confessá-lo, a viver melhor; ou então há nesta divisão mundial de riqueza qualquer fenómeno novo. Dei conta que há pessoas com empregos modestos a passar férias nas Caraíbas, enquanto no tempo da minha infância as famílias provincianas, com o sacrifício do ano todo, alugavam uma casinha na Costa Nova, em Espinho ou os mais afortunados na Figueira, para irem a banhos, pai, mãe, filharada, os avós, a prima, a tia e até o cão e o gato. Comia-se em casa o jantar e almoçavam-se sandes. À noite os velhotes passeavam na marginal, os mais novos sentavam-se à volta de um café a noite inteira na esplanada do sítio. Regressados, dormiam nos mais improvisados locais, o WC um lugar de disputas ferozes e de discussões pestilentas.
Estaremos todos mais ricos? Ou com a aviação comercial a transportar gente como mercadorias e com o que aqui se pagaria por um pequeno almoço uma família desses paraísos tropicais poder comer a semana toda, a exploração do turismo exótico está ao alcance de todas as bolsas?

29.7.07

Malditos sejam!

No dia 28 de Dezembro de 1908 Manuel Laranjeira escreveu no jornal «O Norte» um artigo a que chamou «Mocidade Idealista». C omeçava, em estilo de parábola bíblica, «naquele tempo as gerações académicas eram profundamente revolucionárias» e ao aproximar-se do fim desse inflamado texto concluía que «naquele tempo a víscera revolucionária era o coração; agora, para uma fracção de briosa mocidade, pelo menos, começa a ser o estômago».
Lê-se estas palavras e vê-se desfilar ante a nossa mente o cortejo actual dos «corrompidos pela vida» que as «quadrilhas parasitárias que medram na política nacional» [de novo Laranjeira] arregimentam para as suas ambições sem causas.
É a legião estrangeira dos que fogem, manhosos, como se do pesadelo negro do seu passado, e cuidam, astutos, do sonho dourado do seu futuro. Não tendo morrido por um ideal alheio, aprenderam a viver por uma conveniência, a sua.
«Naquele tempo faziam-se romagens ao túmulo dos vencidos, agora fazem-se excursões aos arraiais dos vencedores», diz o médico de Espinho, companheiro de Guerra Junqueiro.
A mocidade académica, a mocidade idealista, passou e passa de Don Quixote a Sancho Pança. De novo Laranjeira: «E só assim se compreende que tantos, tendo sido revolucionários com as gerações da sua mocidade, ao começarem a chapinhar na lama da vida, renegassem essas nobres rapaziadas, estéreis como utopias de loucos, como quixotescas sentimentalidades».
Sim renegam, com orgulho, luzidios de contentamento, ante o aplauso cúmplice de outros tantos anónimos e abúlicos pequeno-burgueses e outros maltezes. Paquidermes complacentes, sujam com a sua boca as sagradas palavras do inconformismo, profanando-as, ode heróica de uma geração em que não estavam por engano mas só para enganar os outros. Malditos sejam!

21.7.07

De camarada a sócia

Não parece bem julgar pessoas, salvo quanto ao que elas simbolizam. Já escrevi aqui sobre o que penso de Zita Seabra, naquilo em que nela me impressiona ao ter estado uma vida no PCP e no dia seguinte no PSD. Mais! Ter dormido uma vida na camarata dura das ideias do marxismo-leninismo e folgar hoje no fofo colchão de penas da suite das conveniências burguesas.
Foi, por isso, que me violentei, para ler até ao fim a entrevista que Zita Seabra deu ao jornal «Sol». Texto fantástico, revelador, daqueles em que o leitor sente vergonha pelo entrevistado, há nele um passo revelador.
Pergunta a entrevistadora à ex-comunista e actual sócia de Manuel Dias Loureiro: «Como ingressa no PSD?». Responde a entrevistada: «Em plena liberdade, o primeiro-ministro Cavaco Silva convida-me para o Instituto de Cinema, e eu aproximo-me do PSD».
Mas será preciso ler-se mais para se compreender tudo?
Zita Seabra é feia! Muito feia mesmo!

15.7.07

Abstémios

A democracia é um modo de formar maiorias e legitima-se através delas. Com uma abstenção eleitoral superior a 60% os sinais de legitimação democrática começam a tornar-se preocupantes, sobretudo quando os votos se pulverizam. Claro que todos falam nisso como se de um fenómeno da ciência política se tratasse, mas ninguém quer extrair daí os efeitos ao nível da prática política de que se trata.
O modelo político actual é assim: uma minoria dos activistas governa a ampla maioria dos indiferentes. Nesta lógica, os abstencionistas, mesmo quando radicais de língua e alternativos de feitio, não são contra o sistema, eles são, o sistema, na sua melhor expressão. Nunca se embebedam de espírito cívico, porque são abstémios de civilidade.

12.7.07

O portuga de cócoras!

«Com muitas estrelas», a Antena 2 noticiava hoje de manhã que «Os Maias» de Eça de Queirós vão à cena, numa adaptação para teatro em Londres. Entrevistado o produtor, um português que reside na capital inglesa desde há vários anos, lá acedeu a dizer, visivelmente enfastiado, o nome de alguns dos actores. E, instado a dizer qualque coisinha mais ante tal momento de orgulho pátrio, explicou que a peça irá chamar-se «Lisbon», porque os produtores ingleses explicaram que as pessoas têm muita dificuldade em pronunciar palavras como «Os Maias» e que, por isso, não compram bilhetes, sobretudo agora «porque os adquirem através da Internet».
Santa subserviência pacóvia ante o estrangeiro, não há dúvida! Francamente, ao ouvir isto, ainda meio ensonado, pensei, ruminando com os meus botões, se já agoram não vão colocar no cartaz que se trata de uma obra-prima de um «ibérico» chamado Isa de Kyros, para que os «bifes» consigam, desdenhosos e impantes, entender do que se trata, sobretudo através da Internet!

11.7.07

O sentido do voto

Eu não faço campanha por ou contra qualquer das candidaturas à Câmara Municipal de Lisboa. Talvez por isso não deixei de sorrir ao ter lido na imprensa de hoje aquele apontamento de reportagem em que um munícipe se dirige a um candidato que o vem convencer ao voto na sua candidatura e lhe diz, defensivamente: «nós vamos votar em si, não precisamos das suas explicações».
Há nisto algo de duplamente irónico: por um lado, no que manifesta de apoio ao candidato para que ele não perca tempo a catequisar prosélitos; noutra dimensão, a de se poupar o votante a uma situação em que, ouvidas as explicações, ainda se decidir alerar o sentido do voto. É que há candidaturas que é melhor nem se explicarem muito! Basta mostrar a cara e dizer um vota em mim que depois perceberás porquê.

10.7.07

A bailarina

Comprei a biografia da Zita Seabra e tenciono lê-la, tendo vagar. Vim aqui só confessar um preconceito de irritação em relação à personagem, por reputar incompreensível que alguém, de um instante para o outro, se passe do PCP para o PSD.
Ao folhear a folha dos agradecimentos vem lá um ao José Carlos Espada que a teria iniciado no apreço ao Winston Chuchill.
Ora, não é por eu ter no meu gabinete de advogado, sabe-se lá porquê, não o busto do João das Regras, mas sim uma foto do Primeiro Lord do Almirantado, com aquela cara de velho bulldog com que a História o acolheu, mas a referência deu-me que pensar.
Como se sabe, a conservadora Grã-Bretanha aliou-se à comunista União Soviética, para combater a Alemanha nazi. Acontece que os comunistas russos, antes dessa aliança, tinham-se aliado a Hitler, através do infame pacto Molotov-Ribentropp. Por essa altura, em 1940, Álvaro Cunhal escrevia no jornal O Diabo, então um jornal pró-comunista, «mas haverá na verdade alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?».
Tudo visto, bate tudo certo. Percebi, pelo folhear distraído do livro de «memórias», que na juventude Zita Seabra quis ser bailarina. Parece que o terá conseguido.

8.7.07

Escutas: palavra de escuteiro!

Ontem estive num jantar onde o meu interlocutor me dizia que leu num jornal um historiador a explicar que o Hermano Saraiva cometia erros históricos graves nestas memórias que vem publicando para nossa ilustração e gáudio de alguns. O advogado e historiador, não será o da boa-memória, mas aproxima-se, pelo menos, e sobretudo há momentos do que escreve que fazem sorrir o espírito, forma de lavar a alma, suja que está neste país de escândalos. Sorri-me, de facto, quando ele deu conta, há uns números atrás dessas memórias auto-encomiásticas, como foi difícil conviver com a mudança de nome da organização de escuteiros, que passou de «Corpo Nacional de Scouts», para «Corpo Nacional de Escutas». Compreendo. Na altura a ideia de um corpo destinado a escutar a vida alheia tinha má fama. Hoje, na democracia, considera-se o escutar as pessoas durante milhares de horas, um elemento essencial de investigação criminal, fundamental mesmo para o Estado de Direito. O problema é se, como diz o povo, «quem escuta de si ouve». Nesse dia é melhor ouvir e calar.
Ontem estive num jantar. Hoje vou passear ao Alto do Duque, apanhar ar e falar sozinho, que as paredes têm ouvidos.

4.7.07

Acabou-se o papel!

Em 23 de Maio fiz ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social um pedido de um simples papel onde se dissessem que eu nada devo à dita. Isto porque, para um ente público me pagar um trabalho que eu fiz, quer saber se sou ou não caloteiro à SS.
Ora o tempo vem passando, eu já telefonei, mandei saber, pedi a quem pudesse pedir a quem pudesse pedir e nada: continuo sem papel.
Ora como o Estado não me diz se eu devo, o mesmo Estado não paga.
Claro que isto tudo é uma refinadíssima sem-vergonha, com os governantes a virem para a TV com as demagogias dos «simplexes» e de outros «prá-frentexes» a enganarem parvos e a criarem o mercado das ilusões eleitoralistas.
Eu sei que não sou só eu a ter que aturar isto tudo. Uma chusma de gado obediente como eu, lá está na bicha do conformismo, a maioria com medo de refilar, não vá a SS retaliar.
Por isso, com vossa licença, aproveito este espaço público para lançar um pedido de alvíssaras: a quem souber se eu devo ou não à Segurança Social, agradeço o favor de me mandar papel. Qualquer coisinha serve, mesmo em papel picotado. Pode mesmo dizer que «até agora não deve», «não deve, mas ainda pode vir a dever» ou até «é estranho de facto, mas realmente após porfiadas buscas, conclui-se que não deve». Desde que dê para eu entrar na outra bicha, que á a daqueles a quem o Estado não paga ou paga às pingas, já dá!

Os chefes e os índios

Há coisas fantásticas no que prende a atenção dos media. Um jornal diário de hoje noticiou o absentismo na Câmara Municipal de Lisboa. Primeiro, o leitor mais distraído fica com a ideia de que só aquela edilidade, só nas Câmaras Municipais é que os funcionários se baldam, quando o não pôr lá os cotos é pecha nacional em muitos serviços. Mas o mais curioso é o título da notícia: Chefias da Câmara de Lisboa faltam quase tanto ao trabalho como subordinados. Uma pessoa lê e pensa: mas porquê noticiar isto assim? Porque os chefes deveriam faltar menos, para darem o exemplo? Só pode ser ser, claro! Mas então se eles são chefes, e pagam-lhes para mandar trabalhar, não me digam que ainda por cima têm de estar lá? Qualquer dia ainda exigem que tenham de estar e trabalhar! E depois, queixam-se do desemprego!! A obrigarem os empregados e os chefes a trabalharem, onde é que há lugar para os outros, os que estão desempregados?

1.7.07

A política da ETAR

Há na política uma vertente de impostura farçolas através da qual se tenta seduzir o eleitorado. Pensei nisso este domingo da manhã, ao ler uma frase do «Álbum de Memórias» do José Hermano Saraiva onde ele dizia que «a verdade política é uma verdade fiduciária. É como uma nota de banco: diz que vale ouro, mas é inconvertível». E pensei por me ter vindo à mente uma imagem que outro dia passou pela imprensa da senhora arquitecta Helena Roseta a despejar caixotes do lixo.
Digam-me que não é um insulto à inteligência esta de colocar uma repimpada burguesa a fingir-se sofrida trabalhadora com um fotógrafo atrás para registar a mascarada.
Digam-me que não é uma ofensa à miséria dos que como trabalho têm aquele o aparecer por um instante de uma noite, o tempo de um «flash», uma excelentíssima senhora Dona, que no momento seguinte retoma o seu estatuto, o seu guarda-roupa, a sua pose, o seu bom cheiro.
Digam-me que isto não é da democracia o lixo! Digam-me que esta «fábrica de maiorias» [de novo o controverso Saraiva], com a sua central de branqueamento da mentira e propaganda não está a precisar de saneamento básico urgente!
Digam-me que, na hora do «olha o passarinho» para a caça ao voto, a frase do Oliveira Salazar, quando inaugurou o SNI «em política o que parece é» não lhes vem mesmo a matar.
P. S. Para que se entenda: não estou na política, não faço política, não vivo da política. Vou apenas votar. Sou é cidadão, dos que põem o lixo à porta e nunca encontrou nenhum político a recolhê-lo. Só isso.

29.6.07

Haja quem mande

A oposição ao Governo julga que gritando ao país que o primeiro-ministro quer controlar as instituições, apodando o chefe do Governo de autoritário e acusando-o que querer o poder total o enfraquece perante os votantes. Erro crasso! É só andar nas ruas. Cada vez mais os portugueses querem é que «haja quem mande!». Ao brincar com o fumo das palavras os partidos nem percebem que preparam o fogo que pode imolar desta democracia da qual vivem. Cada vez mais há mais gente com medo, não da perda da liberdade, sim da perda de rendimentos.

28.6.07

A perseguição tabaqueira

Eu não sendo dos que não fumo, não sou dos que fumam. Deve-se isso a ter começado a fumar cachimbo e achar desagradável o tom acre dos cigarros comuns. Daí resulta ter beneficiado de não haver fumadores de cachimbo compulsivos, como há os fumadores de cigarro em chaminé. Um fumador de cachimbo ao menos dá-se conta do que está a fazer!
Ora está agora na moda perseguir os fumadores como se marginais fossem, deliquentes do ambiente, suicidas perigosos. A mesma sociedade que deixa milhares de automóveis envenenarem o ar, finge-se amiga da Natureza e preocupada com a saúde face a um pitilho público. Hipocrisias, em suma, tantas elas são, é mais uma.
Não sei se a cultura proibicionista abrange o tabaco de mascar e o rapé de inalar. Não é que eu, pobra inalador ocasional tenha de encontrar aí a saída para o meu vício. É só por me lembrar de uma frase de uma minha bisavó que, ao ter apanhado o filho, garoto, a fumar às escondidas, lhe deu uma grande reprimenda que abriu com um «ai fumas? pois até cá atrás cheiravas!».
Não tive tempo, pois ando com trabalho a mais para a vontade que tenho, mas acho que um qualquer prontuário me salva explicando que «até cá atrás» quer dizer, até agora, até há pouco, no passado, antes, enfim, qualquer coisa que sendo recuado não seja traseiro.
E, a propósito, tanta perseguição tabaqueira, já começa a cheirar mal!

24.6.07

O culto dos mortos

No campo mimoso em que se torna a polémica pública em Portugal, uma pessoa já nem se surpreende. O futebol sempre foi o local psicológico da catarse das emoções, o libertador das pulsões primárias, a possibilidade de os cavalheiros refinados despejarem palavrões acumulados, o pretexto para eu estar sãmente contente pela alegria de o meu clube estar a ganhar e maldosamente feliz pois o clube do meu vizinho está a a perder.

Hoje de manhã, ao passar os olhos pela imprensa à borla a que pela Net se chega, vi que«o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, considerou que as acusações do seu homólogo do FC Porto, Pinto da Costa, são o «estrebuchar do morto» e de alguém que já pede a ajuda da justiça divina».

Ora como eu disse há pouco, depois de uma noitada, acabei o livro que o Wenceslau de Morais escreveu em 1914 sobre o culto dos mortos, onde a propósito se aprende que, o morto, mesmo quando incinerado, «fica em casa, fazendo parte da família».

O Presidente do SLB bem pode, pois, matar o seu homólogo no norte. Quanto mais morto, mais vive! Um dia esta gente aprenderá.

23.6.07

A hora universal

«Que horas são?: as que Vossa Magestade quiser!». Eis numa frase irónica, anedota de outros tempos, o agachamento serviçal e sabujo ante o mando, o de cócoras comportamental e louvaminhas que tão frequentemente por aí vemos, a vontade de agradar e cair no goto, o estar com quem está e ser como quem é.
Eu sei que é apenas uma historieta, e que há toda uma legião de revoltosos a mostrar o oposto, quais relógios propositadamente adiantados. Há, porém, só uma particularidade a ensombrar tais criaturas sempre à frente do seu tempo. É que perante esses cronómetros de ideias avançadas, ao olhar-se para eles, para se saber que horas são, há sempre que lhes dar um desconto, às vezes um grande desconto mesmo.

22.6.07

Cenas e fitas

«Nos primeiros cinco meses deste ano, as salas de cinema portuguesas foram visitadas por 6.205.888 espectadores, o que traduz uma quebra diária de 2.222 espectadores». Vem na imprensa. A pergunta é: para onde se deslocaram estes espectadores? Para que fitas? A vida social só por si, vista de fora, lida nos jornais, é melhor que o animatógrafo. Nalguns casos, com cenas para adultos mesmo, noutros verdadeiros filmes de terror. No mais, já nem há quem vá para o escurinho do cinema. Resta ir lá para comer pipocas e beber xaropes gaseificados. O sonho projectado no écran prateado tem os dias contados, morta que está a capacidade de se sonhar.

17.6.07

Cair mal

Acabei de ler este começo de manhã o primeiro fascículo das memórias que o José Hermano Saraiva está a divulgar sobre os oitenta e seis anos da sua vida. Depois de uma vida a divulgar o passado dos outros, eis o momento de divulgar o seu.
Lê-se e há ali um pouco de tudo. Num momento é a lembrança de quando Henrique Galvão e outros foram condenados em «penas suportáveis» por conjura sediciosa, mais adiante como é que «o antigo herói do Estado Novo» seria depois condenado a uma pena de catorze ou dezasseis anos, no tribunal plenário na Boa Hora, por «rebelião militar». É aqui, no contar desta condenação, que vem um excerto revelador: «a sentença caiu mal mesmo nos círculos mais ligados à justiça penal», conta Saraiva.
É domingo de manhã, acordei mais cedo para acabar de ler esta narrativa, e eis-me a meditar no facto de uma insuportável sentença ter caído mal «mesmo» nos círculos mais ligados à justiça penal». Dá mesmo para pensar! Quando uma coisa dessas cai mal «mesmo», aí, é obra!

Um grande 31

Ainda consegui ler o primeiro fascículo do livro que o José Hermano Saraiva está a publicar, através do jornal de que o sobrinho é director, com as suas memórias.
A propósito do Henrique Galvão, figura grada do salazarismo e posterior chefe de fila da oposição a Salazar, lembra Saraiva que ele foi um dos cadetes do Sidónio Pais.
Ficaram-me os olhos na expressão. O país político é o resultado dos cadetes do Sidónio, dos tenentes do 28 de Maio, dos capitães do 25 de Abril. São os militares quem fazem e desfazem o regime político de Portugal.
Como se nota a coisa tem vindo a subir de patente. Pela lógica, da próxima cabe a vez aos majores mas, ou eu muito me engano, ou desta feita, o 31 salta pela mão dos sargentos.

11.6.07

José Luís Saldanha Sanches

Ouvi ontem o Doutor José Luís Saldanha Sanches na SIC Notícias.
A propósito do assunto não vou entrar no «diz tu direi eu», nem usar os blogs a que estou ligado para discutir o caso. Já o disse.
Só quero deixar aqui três breves apontamentos para quem quiser saber, a bem da verdade.
Primeira: antes de se doutorar pela mão do Professor Soares Martinez, Saldanha Sanches foi meu aluno na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, onde lhe fiz exame de Processo Penal, tendo a elevada nota premiado o apreço que tive pelas suas provas. O facto de quer agora, quer em anterior entrevista à RTP-2, uma das muitas que tem dado sobre a matéria, forçar a ideia de que nem do meu nome se recorda, deve ser interpretado a esta luz. Cada um que conclua.
Segunda: tentando apoucar a minha iniciativa, o Doutor Saldanha Sanches declara que eu pretendia que parasse tudo e todo o MP fosse constituído arguido. Na denúncia criminal que apresentei contra incertos, pedi, entre outras diligências, que fossem tomadas «declarações, a todos os magistrados do Ministério Público visados pelas afirmações produzidas pelo Doutor Saldanha Sanches, para que se possam defender, como arguidos [ante a imputação outro estatuto não é processualmente possível!] e com os direitos respectivos, de tão graves imputações, ou perseguidos criminalmente, se incursos em responsabilidade penal». Notem-se as diferenças.
No mais, são opiniões dele sobre o que disse e sobre o que queria dizer e mais opiniões sobre política, políticos e sobre a sua pessoa e a pessoa de sua mulher. Nada tenho a ver com isso.
Saldanha Sanches disse não querer comentar a investigação instaurada contra João Soares «por ser amigo». Se uma pessoa se resume numa frase, está dita.

10.6.07

Portugal e os Portugueses

Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal.

9.6.07

O bife e o osso

«O capital privado quer apenas o bife do lombo, não quer o osso», disse Jerónimo de Sousa em Vendas Novas. Percebe-se que em política uma boa imagem ajuda a passar a mensagem e com tanto discurso a ter que se transformar em frase citável, a imaginação criadora esgota as suas reservas. Esta agora de o dirigente do PCP dizer que o capital privado já nem o osso quer, é mesmo chamar-lhes, aos do capital, «abaixo de cão». Convenhamos...

Tão fácil

Por que estranho sentido de pudor não uso os blogs para falar dos processos que me estão confiados, ou mesmo daqueles em que estou envolvido numa lógica de cidadania? Ser-me-ia fácil: um post, um click, já está!
Aos que esperam que eu diga, vaidoso pois que de mim orgulhoso, que é por uma razão grandiloquente, desiludam-se: francamente, não sei. Será o acaso, talvez, que dita isto suceder assim, um acaso feliz.

7.6.07

Partidos, S. A.

De acordo com dados da contabilidade dos partidos políticos, alguns deles estão a tornar-se empresas lucrativas. Um destes dias, altera-se a lei e eles passam a estar cotados na bolsa. Nessa altura o José Sócrates lança uma OPA sobre o PSD, Jerónimo de Sousa blinda os estatutos do PCP, para evitar take-overs hostis.

31.5.07

A lei mediática do desenrasca

Uma das coisas mais notáveis no mundo mediático é a capacidade que ele tem de gerar factos que dão origem a opiniões, que suscitam debates sobre coisas que, vamos a ver depois, afinal, nem sequer eram assim.
Lembro-me de quando fui secretário do Conselho de Ministros do VI Governo Provisório, o governado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
Entre as muitas histórias que tenho para contar um dia, vem agora a propósito esta, pois mostra do que falo.
Foi durante um dramático Conselho de Ministros em que se aprovou a Lei da Reforma Agrária, a que tomava o rio Tejo como fronteira e definia que a sul continuava a política de expropriações, embora mais moderada do que até então, e a norte do país tudo se desenvolveria através de uma lógica de arrendamento rural, como forma de garantir, indirectamente, a terra a quem a trabalhasse.
Dado o nervosismo público que reinava em torno da questão e a tensão política que aumentava como uma espiral de um ciclone, entendeu-se que se faria uma fuga controlada de informação para o jornal «Expresso», de modo a que se lançasse logo as sementes do conhecimento do novo regime agrário e se alcançasse alguma paz social, num universo cada vez mais insurreicional.
Coube-me tratar do assunto e eis-me, quase embuçado, nos corredores do Flórida, ao Marquês de Pombal, num encontro clandestino com o meu contacto no jornal, para lhe passar, subrepticiamente as fotocópias do decreto ainda fresco, aprovado pela hora do jantar, cópias que, por uma questão de segurança, eu mesmo tirara.
No dia seguinte ao ler o jornal fiquei espantado, pois o semanário da Rua Duque de Palmela, noticiando na primeira página a questão da Lei da Reforma Agrária, dava conta que à hora do fecho da edição «ainda estavam por aprovar os artigos» tais e tais.
Atónito telefonei ao meu amigo jornalista, afinal para me espantar ainda mais.
Ante o meu «mas que raio de ideia foi essa dos artigos por aprovar», respondeu-me, com a maior calma do mundo: «é pá, fogo, tu com a pressa tinhas-te esquecido de fotocopiar uma página do meio do decreto e a malta, tás a vêr, desenrascou a coisa assim!».
Ora aí está! Hoje e sempre, há certa malta nos jornais que desenrasaca a coisa assim. Outros, mesmo sem ler, opinam, outros, ledores, empinam. No dia seguinte, esquecido o escândalo, passa-se para o tema seguinte, que isto há que ir desenrascando umas notícias com as fotocópias que temos.

29.5.07

Talvez

«Sinal de vitalidade é constatar que os moços sabem ter vinte anos num nação de oito séculos». Quem o escreveu foi Carlos Malheiros Dias, em atenção a António Ferro, para acrescentar, umas folhas adiante que «a feliz mocidade não conhece o talvez».
Leio isto, num momento de intervalo, entre os oito séculos de história que já foram e os vinte anos de vida que dou comigo a pensar talvez já nem tenha. Eu disse talvez e de o ter dito me arrependi, na hora de o dizer. Ah! O livro chama-se «A Idade do Jazz-Band», editou-o a Portugália, em 1924.

28.5.07

Acção de graças

«Graças aos protestos dos verdadeiros democratas e à atmosfera de hostilidade que desses projectos se havia formado, surgiu a revolta militar do 28 de Maio». A frase não pertence a um rançoso fascista, mas sim ao lídimo democrata António Sérgio.
Claro que o dito terá nascido de uma ilusão funesta. Mas a História é feita disto, de gente iludida e de gente que ilude. Mais tarde, nas falsificações grosseiras e maniqueístas, com que os avençados de serviço a reescrevem, é que só há anjos de um lado e demónios do outro.
Um dia as gerações futuras, quando largarem a TV e as consolas mais seus jogos de alienação e voltarem a querer saber do mundo real em que vegetam, descobrirão a vigarice, aquela com que a nossa cobardia convive e o atrevimento de mais-dúzia fomenta.

27.5.07

Domingo à tarde

Ontem fui à Feira do Livro. Num país em que cada vez se editam mais livros, cada vez os pavilhões são em menor número. No meio daquela tristeza, um cheiro nojento a churros, transformando aquilo num Luna Park do saldo livreiro.
Num canto, um jovem escritor esperava que alguém lhe pedisse um autógrafo, disfarçando o visível desapontamento, noutro uma menina comentava com o namorado que adorava aqueles livros velhos. «Eu não», respondeu-lhe ele, «até bichos devem ter», acrescentou, um ar prático e por isso vagamento enjoado. Para não passar por ácaro bibliotecário, afastei-me, lesto, com a promessa íntima de lá voltar.
Esqueci-me de ver se por lá continua a Difusão Bíblica, e o seu best-seller da literatura de viagens, espécie de Guia Michelin para o outro mundo, via salvífica para os que, pela palavra revelada, querem ir desta para melhor.

25.5.07

Afirma Pereira

A passagem de Rui Pereira do Governo para o Tribunal Constitucional e do Tribunal Constitucional para o Governo, não torna o tribunal do Palácio Ratton mais político do que é, ao serem os seus juízes nomeados por políticos, ao fazerem-se os políticos serem para lá nomeados como juízes.
É a promiscuidade entre a política e o judiciário na sua melhor expressão. Rui Pereira devia ter-se poupado a ser disso exemplo. Amigo que sou, não sei se lhe lamente a imprudência se a ambição.

17.5.07

As touradas

Iria hoje à manifestação contra as touradas. Transformar o matar numa festa fere-me sensibilidade que chegue. A arena é a catarse dos sentimentos sanguinários e da maldade. Gozado até à exaustão, a escorrer sangue, o touro, em Portugal, salvo nos Barrancos, não é morto, nem sei porquê. Ficar vivo, depois da indignidade a que o sujeitam, é a maior e a final humilhação.

14.5.07

Os meninos de sua mãe

Um destes dias vi o cineasta Fernando Lopes dizer em público, com candura, que a mãe fora «criada de servir» em Lisboa, no que se inspirara para um dos seus filmes. No livro John, o chauffeur russo, que li, naquela edição azul, da editora Romano Torres, por causa de uma biografia que publiquei, há um notável contraste entre uma francesinha irritante, de quem o John - afinal um príncipe russo fugido aos sovietes e refugiado em Paris - é motorista e escolta, que se envergonha das origens humildes do pai e por isso as esconde, e uma americana, sua amiga e que lhe disputa o garboso «chauffeur», para a qual ser o pai um «self made man» é motivo de orgulho e por isso o apregoa.
É todo um mundo de diferença. Cada um que se reveja e se coloque onde está, entre a pompa de si e a modéstia de onde veio.
Hoje um colega meu, que tem tanto de discreto como de inteligente, comentava que muita da arrogância de tanta gente provém de serem filhos de humildes que, porque estudam para doutores, passam a ser tratados por aqueles que lhes deram o ser, como se reis e senhores já fossem.
A submissão a a vassalagem que esperam e exigem começa em casa, a família a seus pés, os meninos de sua mãe!

13.5.07

Suspirando por polidez

Dei com o livro num canto da estante, junto à cama, relido há tempos e ainda por devolver ao local de onde saíu. Agradeço-lhe este momento de contentamento.
Há no Mandarim, de Eça de Queirós, aquele instante ímpar em que Theodoro, o amanuense do Reino, que punha o cursivo ao serviço dos poderes públicos e nos intervalos do dever sonhava com o vasto seio de Madame Marques, encontra o Mandarim e este lhe explica que precisamente a palavra «mandarim» a haviam trazido os navegadores portugueses, equivalente ao verbo «mandar».
Transcrevo tudo da edição que tenho do livro, em alfarrábio editado em décima terceira edição, no ano de 1941, comprada sei lá onde, com a grafia que ali leio:
«- Mandarim, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguém a entende na China. É o nome que no século XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...
«- Quando nós tínhamos navegadores... murmurei, suspirando.
«Ele suspirou também por polidez, e continuou:
«- ... Que os seus navegadores deram aos funcionários chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...
«- Quando tínhamos verbos... - rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria».
Eis, pois, o modo de ser dos Theodoros de sempre, mesmo aqueles impantes aqueles sem substantivos nem adjectivos que mereçam, falhos de verbos e que por interjeições falam, os que também poderiam dizer como o outro: «quando o meu intestino se alliviava com estampido - a humanidade sabia-o pelas gazetas».

8.5.07

Gritos esporádicos

Recordo-me de ter visto em tempos a falecida Maria Armanda Falcão [Vera Lagoa] na TV, mirando, como se alto a baixo o líder dos Mão Morta e a atirar-lhe, ante o embaraço do visado, com aquela liberdade irónica que a idade e a vivacidade de espírito lhe permitiam: «um homem que a si próprio se chama Adolfo Luxúria Canibal, deve ser um tipo muito interessante!».
O Canibal, como devem saber, é jurista como tantos de nós, para além de artista no campo da música e do teatro, e escritor.
Vem isto ao caso de, ao anunciar agora um seu novo empreendimento, adaptado dos «Cantos de Maldoror» de Lautreamont, ter dito, em entrevista: «Eu apresento-me com um registo spoken word com gritos esporádicos».
Ora eis o que, a mim também que vivo num registo de spoken word, me dá tantas vezes vontade: mandar uns bons gritos, ainda que esporádicos.

6.5.07

O boato

Na peça de teatro «A Dúvida», que está em vias de se ir embora, um Diogo Infante pouco convicto, vocifera, representando um padre, uma homila contra o boato que propalava uma conduta imprópria do sacerdote com um menor seu aluno.
Na assistência, risos, a minha dúvida o saber a propósito de quê. Pelo sim pelo não, ri-me também, um bocadinho, como os chineses quando se embaraçam, apenas aquele esgar míope que simula estarmos a sorrir.

29.4.07

O triunfo da matemática

Hoje pela hora do almoço encontrámo-nos. Ele educado e moderado, hesitante numa palavra mais rude, eu já à beira do desbragamento verbal, cansado de ser bem educado. Vivemos um «tempo de barbárie», ensinou-me, suave, «uma época de relativismo», acrescentou, a mostrar-me, polido, como impera o tudo vale, na moral e na estética, da política à justiça. Não há uma jurisprudência uniforme, qualquer coisa passa por arte, os cidadãos vivem, contribuintes, à mercê do arbitrário Estado, que não dominam. No poder e na oposição, campeiam os funcionários da política, empregados dos que dela fazem negociata.
É o reino dos números, o império do ter, o triunfo da matemática sobre a filosofia.
A esta hora, apesar de ser domingo, há na insípida Bruxelas quem tenha passado o dia a escrever mais uns regulamentos, quem na visigótica Berlim sonhe o dia do espaço vital europeu, do Báltico aos Urais. Longe, o Agareno, despreza-nos, soberano de si: adiante na História, quando o tempo derrotar o espaço, serão eles os vencedores, os nossos restos os seus despojos.

25.4.07

Onde estavas Zé no 25A?

No dia 25 de Abril eu estava na Quartel em Mafra, na especialidade de Armas Pesadas de Infantaria, mau grado a ironia de pesar quarenta e oito quilos. Graças à prestimosa PIDE/DGS fora-me atibuída aquela magnífica especialidade onde, como dizia o tenente comandante do nosso pelotão, se matava sem ver o quê e se morria sem dar conta.
Ora como o dito tenente não era afecto ao MFA sucedeu que nessa manhã ficámos no quartel, não acompanhando a força que arrancou até Lisboa com o propósito de fazer cair o regime que Marcelo Caetano já mal sustinha. Ao acordar, demos conta que o gélido convento estava vazio, só uns quantos tínhamos ficado, entregues à nossa sorte, fantasmas sem nexo, atónitos e desamparados.
Vítima encartada da Situação, do «odioso fascismo» como lhe chamam os comunistas, aquele dia foi a minha hipótese histórica de ser herói, não fosse o estar no lado errado da História. Assim fiquei por me estrear, primeiro sem pequeno almoço, depois à espera de uma nova oportunidade de mostrar que a Pátria, na sua salvação, poderá contar comigo.

17.4.07

Holy shit! Será isto inglês técnico?

Da próxima vez que o primeiro-ministro vier, com aquele ar empertigado que o caracteriza como um ademane de importância, exigir «rigor» e «uma «cultura de qualidade e de exigência» aos portugueses, permitam-me que me largue a rir dele e a chorar pelo país.
Há pais deste país deste primeiro-ministro a pagar fortunas para ter um filho a estudar no estrangeiro porque as Universidades portugueses, sob a batuta do Governo, exigem médias extravagantes para admitirem estudantes.
Claro que os moralistas façanhudos, catões dos nobres princípios, polícias dos costumes alheios, agora de hímen ético tão complacente, desdobram-se em argumentos, disfarces e justificações: avençados do interesse, beneficiários do relaxe, tudo compreendem e com tudo convivem. Ouvindo-os, começo a pensar que o país se está a tornar parecido com o primeiro-ministro, a trapalhada, o faz de conta, o deixa lá.

8.4.07

O jogo de peonagem

Por falar em Páscoa e em coelhos, lembram-se de um tabuleiro de xadrez apreendido na casa do socialista Jorge Coelho e de todas as jogadas em torno do assunto, que pareciam pôr em xeque quase toda uma classe política e seus supostos financiadores? E lembram-se de como o assunto que lhe deu azo saíu de cena? E alguém se perguntou por que é o caso apareceu com tanto estrondo e por que é que desapareceu com tanto murmúrio? E alguém quer saber onde está, onde é que não está, ou onde é que deixou de estar? É isto que torna o xadrez um jogo aliciante, ser um jogo de peões.

O animal feroz à caça!

Ontem fui ao cinema. À saída, ei-lo, informal, Fernanda Câncio ao lado, sem guarda-costas, visivelmente a mostrar-se num voltear sem nexo, o primeiro-ministro. Surpreendidas as pessoas reviravam-se, torcendo pescoços, algumas mulheres seduzidas por um «tão bonito homem». Talvez tenha ido ao cinema ou só à saída do cinema, mas entre o cheiro adococicado a pipocas, sem pose nem anteparo, era um entre tantos. Como nem sempre estou atento às notícias perguntei-me ainda se já estaria demitido sem eu ter dado conta. Hoje de manhã a imprensa, que lá fui ver à cata de confirmação, relatava que «o estudo de opinião, realizado em plena polémica sobre o curso tirado por José Sócrates na UnI, deixa claro que o índice de popularidade do primeiro-ministro caiu para uma nota negativa de 9,4, ao nível do registado em Janeiro de 2006».
Já compreendi. O fulano, que em entrevista a Maria João Avilez a si mesmo se chamara, «um animal feroz», andava à caça!

6.4.07

A Universidade: do capelo às borlas

Com a oposição e seus licenciados comprometidamente calados, José Sócrates vai aguentar-se no lugar. Cavaco Silva, que nunca se engana e raramente tem dúvidas, tem uma certeza: a de que vai fazer de conta que não é professor universitário doutorado, mas apenas um político entre políticos. A dignidade universitária com as suas borlas e capelos que se dane. Há aliás uma histórica fantástica, vivida quando das Cortes Constituintes de 1820: como o taquígrafo que com a sua escrita rápida, assegurava a feitura das actas tinha que ir a «a actos» à Universidade e porque, sem ele, parava a deputação nacional, ali mesmo, por decreto parlamentar o investiram no grau de bacharel!

Um peso no peito

O José Medeiros Ferreira não precisava de ter citado, ainda que ironicamente, as condecorações que o Estado já lhe deu nem de dizer, talvez com ironia também, que ainda lhe deviam a Ordem de Cristo por ter sido ele a assinar o pedido de adesão de Portugal à CEE. Fê-lo numa mini auto-biografia que o JL publica na última página, em que cada um fala de si. É que o Medeiros Ferreira é um rapaz com valor e as condecorações em Portugal, depois do regabofe que tem sido a sua atribuição, não valem nada. As condecorações são para a República aquilo que as comendas eram para a Monarquia, o sinal da sua decadência. Vá lá Zé, se não podes devolver os pendericalhos, ao menos não fales neles! Ainda por cima têm um efeito: pesam no peito e fazem dobrar a cerviz!

5.4.07

Engenheiros de Lisboa...

A paródia sobre as habilitações académicas do primeiro-ministro continua, o currículo do mesmo vai sofrendo variações à medida. O Presidente da República que, enquanto chefe do Governo, demitiu um ministro por ter contado uma infeliz anedota sobre alentejanos, está calado e hirto. Deve ter regressado à fase em que não lê jornais. Só pode.
No meio disto há a rendição moral dos que acham que o assunto não tem importância alguma, até porque, graduado ou não, o senhor não governa mal este país de doutores e que se danem os princípios em nome dos interesses.
Eu cá por mim - expressão tão saborosa esta - não quero saber.
Na terra onde nasci - e onde nasceu o demitido ministro da anedota e, já agora, a Dra. Maria José Morgado, a longínqua Malanje - havia a história da outra que, sendo casada com um enfermeiro, dizia às amigas que o esposo era médico auxiliar de segunda classe. Sugiro que seja esta a solução e mudamos de assunto: engenheiro auxiliar de segunda classe.

11.3.07

O meu 11 de Março

No dia 11 de Março de 1975 eu era secretário do Ministro da Justiça Dr. Salgado Zenha. Foi por isso que recebi, ali no Terreiro do Paço, um telefonema de um advogado amigo que entrava em Lisboa, vindo de um julgamento e deu conta de que havia um avião a sobrevoar o Ralis, junto ao Aeroporto, quartel onde haveria, seguramente, «grossa bernarda».
Num ambiente de crescente preocupação, lembro-me que, num armário fechado à chave num corredor interior do Ministério, havia duas pistolas, que nem tenho a certeza que disparassem.
Admitindo o pior, o jovem chefe do gabinete do Ministro, deu-me uma delas e guardou outra para si. De nós os dois eu tinha a vantagem de ter feito tropa e a capacidade bélica resultante de ter concluído, quase sem êxito, no Quartel em Mafra, a especialidade de armas pesadas de infantaria, mau grado pesar então quarenta e oito quilos.
Umas horas depois, o rapaz chefe do gabinete, com o nervoso, tinha encravado uma bala na câmara da pistola, ao achar que estaria mais prevenindo, armando-a, para a eventualiade de ter de disparar no que se chama em tiro instintivo e tendo-o feito desastradamente por não saber fazer melhor.
Ao final do dia devolvemos as armas ao armário. Tudo terminara sem glória, dois guerreiros inúteis de um combate ridículo. O 11 de Março não passara por ali.
Não sei se pelo Ministério da Justiça ainda há pistolas ou por onde andavam os actuais ocupantes no dia 11 de Março de 1975. Não sei mesmo, nem quero saber. Em matéria de filosofia bélica e no que ao Ministério respeita, tenho hoje uma só coisa a dizer: fogo...!

10.3.07

Lembranças de trás

Por causa da actividade venatória anti tabágica ainda me curo de qualquer maleita hepática que possa ter. Desta feita foi ao ler num jornal on line uma notícia intitulada «deputados proibidos de fumar». Lembrei-me então da minha bisavó, que nunca conheci, mas cuja nora se chamava Felicidade, e que entrou na enciclopédia dos nossos aforismos familiares com um dito, lançado em jeito de reprimenda ao neto quando o apanhou a fumar: «ai fumas!, pois até aqui atrás, cheiravas!».

O mundo em pelota

Há seguramente escondido nos corredores labirínticos da Polícia Judiciária ou talvez nos cubículos em tabique do DIAP um poeta anónimo, de imaginação criadora rica e sentido de humor inigualável. Literato por certo incompreendido, esgota-se no acto de criar nome para as operações que normalmente passam por rusgas e outros actos de mediático paraquedismo criminalístico.
Esta manhã dei conta de que três camiões de tralha apreendida a um maestro o foram no quadro da «operação partitura», assim como o país não se esquecerá mais do «apito dourado», nem do «furacão».
Ora eu, que para que as coisas da justiça me não chateiem mais do que devem, e já chateiam que baste, me dedico, nas horas vagas, a ler e atrevo-me nas que sobram a escrever.
Por isso, em nome da literatura forense, de que nem sou académico de mérito nem de número, sugiro a este até agora anónimo colega das letras que saia do «ghetto» do segredo de justiça e se junte a nós, para umas boas gargalhadas, porque de risota estamos nós precisados e muito.
E, já agora, quando se chegar à conclusão, que deve estar para breve, que as pensões baratas de curta estada, certas duvidosas casas de massajar e outras em que se bebe menos do que se alterna são instrumentos de evasão fiscal, branqueamento de capitais e quiçá associações criminosas tributárias mesmo, que minam os fundamentos do Estado de Direito Democrático mais do que o tráfico de droga, e lhes cair, a televisão atrás, um esquadrão de polícias e magistrados com mandados de busca, de revista, de apreensão e de captura, talvez não fosse mal, para antecipar o cenário de pânico desenfreado e de envergonhadas corridas pelas ruas, em pelota elas e sem fundilhos eles, baptizar o acto com o nome de «operação rabo ao léu»!

3.3.07

A gente

O português encontrou uma forma de esconder o plural «nós» através do individual «ele». No fundo é, como dizem os gramáticos, o ter encontrado um pronome pessoal que sintacticamente corresponde à terceira pessoa do singular e semanticamente à primeira do plural: é o «a gente» corriqueiro, no «a gente vai», para exprimir o «nós vamos». Há seguramente uma razão profunda, incrustrada no inconsciente da Nação para que um povo fale de si como se de outrem falasse.

27.2.07

Constantes críticas...

Há quem esteja a fazer a imprensa andar, de há muito, atenta aos rendimentos deste Governador do Banco de Portugal, talvez por estar há muito no lugar e haver sérios candidatos ao emprego. Hoje vem no DN que o senhor declarou 280 mil euros de rendimentos. Como se sabe, Vítor Constâncio é um socialista que normalmente vem dizer com ar solene que a economia do país vai mal, as finanças péssimas. É um caso de objectividade, não confunde o seu mundo com o dos outros, o paraíso socialista para si com o inferno capitalista para os outros.

A Bela e o Monstro

O senhor ministro da Justiça, num arroubo literário lembrou-se de dizer, no Centro Cultural de Belém, que o monstro que ameaçava a Justiça está a emagrecer. O curioso é que a foto que orna a notícia mostra-o mais chupado e enfiado. Uma inagem vale mais do que mil palavras!

24.2.07

Ética, corrupção e jornais!

O PGR Pinto Monteiro disse que não há uma «consciência ética forte que censure a corrupção em Portugal, esse é o grande problema. A maior parte dos portugueses durante muito tempo encaravam a corrupção como uma coisa que naturalmente acontecia e que todos faziam». E como se isto já não fosse claro acrescentou que a «corrupção não foi censurada pela consciência moral do povo», dizendo que a sua prática «começa agora a ser censurável graças à comunicação social que trouxe o tema para a praça pública».
Eu fico atónito ao ouvir isto.
Primeiro, porque se quiser fazer uma blague e desconsiderar o argumento, diria que, administrando os tribunais a justiça em nome do povo, o povo de que fala Pinto Monteiro, como ficou aliás na própria Constituição, então, na lógica do dito do PGR, tem sido uma justiça de e para corruptos eticamente inconscientes a que tem havido, o que é um insulto a tudo e a todos, um enrolarem-se as palavras no nó da falta de ideias.
Segundo, e porque não quero fazer blague com uma «boutade» sobre um caso sério, gostaria de sublinhar quanto isto que o PGR disse pode traduzir de arrogância mental e de servilismo face à comunicação social, a ideia de que o mundo começa agora com ele e há que vivê-lo sempre com os olhos nos jornais.
Lembre-se Pinto Monteiro da hipertrofia do Estado, da prepotência do Estado, do arbítrio do Estado, da auto-impunidade do Estado, lembre-se Pinto Monteiro quanto se instalou em Portugal um Estado alçado à custa de oprimir, tirano, e explorar, parasitário, a sociedade civil e talvez entenda o acomodar patrício aos funcionários venais e ao seu poder arbitrário.
Lembre-se Pinto Monteiro quanto custa obter aqui uma certidão, ali uma licença para uma obra, mais adiante uma intervenção cirúrgica para se não morrer e perceberá como se alugam, peitando-os, os que estão do lado de lá do balcão.
Mas lembre-se quanto uma nova vaga de funcionários em muitos serviços trouxe uma nova cultura, uma nova dignidade, uma recusa de gorgetas e gratificações.
Não, senhor PGR, não são os jornais, lamento dizê-lo, onde há jornalistas sérios e impolutos e os não há também, quem fez com que houvesse uma nova ética reprovadora da corrupção. Como em tudo na vida, há o jornalismo do frete, a publicidade fingida de notícia, o escândalo por encomenda, o insulto editorial como via para o sucesso público.
Os jornais denunciaram a corrupção, eis, por ser escândalo, o seu combate por ser notícia!
O que sucede, nesse binómio Justiça/comunicação social, é que hoje a Justiça combate-a, à corrupção, pavoneando-se nos jornais quanto a andar a fazê-lo. É por isso que, tal como no Hamlet, o palco parece a vida, os vivos simples actores.
Enquanto cidadãos, sujeitos aos corruptos e leitores de jornais, cá estamos, senhor PGR, à espera dos resultados para ver se sim, ou se o combate à corrupção, não se tornará, pela ineficácia, num organismo regulador do mercado, ajudando a aumentar o preço.
Em tempos chegou a haver uma Alta Autoridade contra a Corrupção. Em tempos mudou-se o Código Penal, pra combater os corruptos. Em tempos ouvi dizer de um autarca que mandou matar os pombos da praça do seu município porque, quando ele passava, palravam dos beirais, acusadores: corrupto, corrupto, corrupto!
Em tempos já vi que havia gente que pensava que era desta.

22.2.07

Diga lá, Excelência!

Não vi, mas contaram-me. O Dr. Cunha Rodrigues dizia, com aquele estilo de sublimado corrosivo com que irritava os outros políticos, que tinha um problema grave com a comunicação social: o que eles gostavam de saber, ele não podia dizer e o que ele gostaria de dizer, eles não queriam saber. O Dr. Pinto Monteiro ainda está na fase do que eles gostariam de saber. Acho que foi assim ontem à noite, contaram-me!

20.2.07

O clarividente

Jorge Sampaio, quando foi Presidente da República e se irritava, e irritava-se muito, dizia coisas e acrescentava: «como é evidente!». Cavaco Silva, que agora é o Supremo Magistrado da Nação e não se quer irritar, deve ter suspirado de alívio quando o ministro Alberto Costa, por causa da história do foragido indultado, veio explicar-se de que os registos do caso eram de «leitura não evidente». Claro que esta explicação é um zero verbal, mas, asneira feita, ficam todos, de Belém ao Terreiro do Paço, muito bem compostos neste «pacto» de silêncio sobre a justiça.

O mão-leve

«O Estado rouba, rouba o Estado», está escrito numa parede em Lisboa. A ideia percebe-se, pois é óbvia: na psicologia política de muitos portugueses, o Estado é o outro, é o mundo do eles, com o qual eu nada tenho a vêr. Claro que, nesta relação do privado com o público, às vezes voto, muitas vezes abstenho-me, normalmente desinteresso-me. Roubar, nesta forma de pensar, é apenas uma variante social de uma moral muito própria: o Estado tira-me contra a minha vontade, eu rapino-o, sem que ele dê conta.

19.2.07

Testículos regionais

Acho que foi ontem que vi o Presidente do Governo Regional da Madeira a falar na falta de testículos no Continente. A coisa não me atinge directamente, pois nasci em África. Há pouco ouvi-o a anunciar que se demitia para voltar a concorrer e, percebe-se, voltar a ganhar. No meio disto tudo chamava nomes a um tal senhor José Silva, que era, afinal, o primeiro-ministro. Enfim, antigamente Alberto João mascarava-se no Carnaval. Desta feita, só se for em pelota, os testículos em evidência, protuberantes e prometedores! José Sócrates que se cuide, pois.

18.2.07

Saúde desarticulada, ministro articulista

O ministro da Saúde, instado para comentar o encerramento de um serviço de urgência no Minho, remeteu para um artigo que escreveu no «Diário de Notícias». É fantástica esta forma croniqueira de um governante se pronunciar sobre um assunto oficial. Qualquer dia, Suas Excelências estão a colocar anúncios na secção de mensagens dos jornais, ao lado de menina quente e sem tabus faz domicílios.

Acabou-se o papel!

Um director de jornal hoje é demitido porque o jornal não vende. Ora como os jornais não vivem dos exemplares que se compram, mas da publicidade que os sustenta, o negócio compreende-se. Quem quiser sobreviver no mercado, não se aluga para imprimir papel que se leia, vende-se para distribuir papel que embrulhe. No mais, viva a liberdade de imprensa! Viva!

22.1.07

O areias...

Vão os do Estado e mandam despejar toneladas de areia na Caparica. Vem o mar e lambe a areia. Volta o Estado e despeja mais areia. Volta o mar e volta a lambê-la. A coisa chega a ser obscena, a lembrar as «dunas» da canção. Ao ver pela TV, enquanto jantava, tanta parvoíce, lembrei-me de propôr aos do Estado: e que tal se em vez de meterem mais areia, bombassem a água do mar?. Como uma tubagem apropriada, tipo pipe-line, despejavam-na no Mar Morto e no Mar Aral. Ainda era um negócio fantástico.

20.1.07

A máscara

O argumento é, como agora se diz, recorrente: «falar na qualidade». Uma pessoa sai-se em público com uma afirmação polémica, discutível, errónea. Há duas formas de se ver livre do embaraço. A primeira é o «não foi isso que eu disse». Tal expediente está muito gasto, sobretudo quando está muita gente a ouvir e alguns a gravar. Então há o: «falei sim, mas foi nesta ou naquela qualidade». Normalmente é «falou, sim, mas na qualidade de cidadão!».
No caso da Dra. Maria José Morgado, que se meteu por estes atalhos, hás três coisas fantásticas. Primeiro, ela foi convidada para falar com uma etiqueta ao peito, a de «Procuradora-Geral Adjunta», que era o que vinha no convite. Segundo, ela não disse, estou aqui, neste encontro partidário, como cidadã, de toga despida. Terceira, teve que ser a Procuradoria-Geral a, desautorizando-a, dizer que a boca que falou não era boca de magistrado. Pois pudera!
Tudo isto é caricatural. Já nem é o terem as pessoas duas caras, conforme as conveniências, é já nem terem cara com que se apresentem e serem outros a enfiarem-lhes a máscara, conforme as necessidades!
Desculpem meter-me nisto, mas francamente, há um limite para tudo, para a exibição e para o rebaixamento.

1.1.07

O som bem audível

«As imagens ontem reveladas não mostram o momento em que foi suspenso, mas testemunhas contaram como foi bem audível o estalar do seu pescoço». É, como se calcula, sobre o enforcamento de Sadam Hussein. Por causa disso deve ser politicamente incorrecto sentir-se uma náusea sequer. Haverá até quem tenha ficado contente ao saber. É deste voyeurismo macabro que se alimentam as notícias. Em breve deve surgir o video amador do momento em que a língua se projectava, o corpo se contorcia, em agonia o enforcado se urinava pelas pernas abaixo, para gáudio dos que querem estar completamente informados.

26.12.06

A doença e a cura

Experimentem ficar doentes e vão ver se não é assim. Há uma tipologia social de reacções a essa situação. A primeira é o «isso é uma gripe». A segunda o «anda tudo por aí com isso». Há uma variante que é o «apanhei eu uma coisa dessas há duas semanas». Ao falarem de si dirão que «está adoentado» ou numa versão mais suave que «está constipado». No fundo tudo isto se resume ao não querer saber, normalmente acompanhado, para fim de conversa, do «tens que ir mas é ao médico». Há um dia em que um sujeito finalmente vai e sai de lá com uma «virose», porque «sabe, anda tudo por aí com isso», aliás eu próprio «apanhei uma coisa dessas há duas semanas». Experimentem ficar doentes porque, a não morrerem, vão sentir logo no acto súbitas melhoras.

24.12.06

Ex-votos

Andamos nesta quadra a desejar indiscriminadamente uns aos outros um Bom Ano e ao mesmo tempo a desejar que certas coisas más não aconteçam. Ora para sermos verdadeiros em relação a certas pessoas deveríamos desejar-lhes então descaradamente um ano mau.
Mas nesta quadra, porque é Natal, nós somos bons, mesmo para com os maus: gostaríamos que houvesse o bem, sem ter de haver o mal.
Por isso, mesmo ante o maior velhaco, que sabemos andar a tramar o pior, lá vai um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. A resposta que merecíamos era: muito obrigado, mas não exageremos!