25.12.07

As frases aladas

«O que queres que eu te ofereça, tu que nunca queres nada?», perguntou-me ela, desejosa de se livrar do acto de dar. Nenhum outro como quem é nosso para não saber o que queremos, como se julgasse termos já tudo. «Dá-me o Lobo Antunes», respondi-lhe, depois de remoer, como se me faltasse tanta coisa, na imensidão de ter tão pouco. «Qual deles?», inquirou ela, na sua juventude cultivada, querendo falar dos muitos livros do António, nem se lembrando que existe, pelo menos, o João, também médico, também escritor. «Qualquer um, tanto faz!», respondi-lhe, talvez por ser Natal e eu querer, enfim, reconciliar-me com uma escrita que, sem saber porquê, tenho desprezado, por não gostar, quase sem o conhecer, da pessoa do seu escritor.
A noite passada comecei a ler, amigável, mas desconfiado. Teimei em seguir no pequeno livro, todas as linhas, quase soletrando cada uma das suas muitas palavras, rendendo-me, reconheço, ao modo tumultuoso de fazer sentir, admirando, é verdade, aquele torrencial desfilar de frases aladas , vibrando, enfim, com o estilo, mesmo quando errático, perdoando-me pelo mal que pensei e absolvendo-me do que venha a pensar.
Foi então que, depois de lidos chorrilhos infindos de palavrões, surgiu o «quando é que eu me fodi?, perguntou-se o psiquiatra». Parei aí, lembrando-me do pobre do Vergílio Ferreira, que deixou no seu diário que aquilo era uma escrita de «caralhices» de um homem «com entradas de Lobo e saídas de Antunes», e eu ainda na fase lupina dessa prosa hoje aureolada.
Ia na página 26 da edição da «Memória de Elefante», texto que uma «comissão» consagrou como sendo a «ne varietur», imortalizando a obra na sua fixidez tipográfica, fora ela o mausoléu de si própria, enfim morta!
Mas não desisto e hei-de lê-lo todo! Hoje não, porque é Natal e o Menino Jesus, coitadinho, é inocente e tem a vida toda para aprender com os romanos impropérios e com os filisteus outras obscenidades. Terminará na cruz, sem se perguntar como se perguntou o psiquiatra. Mas hoje, ele é pequenino e dorme aqui a meu lado, desde a minha infância, entre palhinhas, a vaca, o burro e uns pais que foram-no, afinal, sem o terem sido sequer, tão misteriosamente quanto a pomba, que seria ele não o sendo, todos o mesmo, todos divinos, um deles humano.

23.12.07

Os deserdados da rua

Escrevendo sobre a sua família, os de Médicis e falando de Ana Luísa, eleitora palatina, que faleceu em Fevereiro de 1743, Lorenzo, homónimo do «Magnífico», lembra a ingratidão de Florença em relação aos seus, que a eles tanto deve pelo mecenato e pela generosidade sem os quais ela mais não seria do que uma cidade como a de uma província qualquer: «a Ana Luísa não foi dedicada qualquer rua ou praça e nenhuma estátua recorda ao passante o que a cidade deve a esta mulher».
Última da estirpe, esta estupenda criatura legou uma colossal fortuna, tal como os seus antecessores haviam patrocinado os grandes vultos do Renascimento, confundindo-se com ele.
Mas é no momento em que, neste livro singelo, leitura de domingo, se refere como o monge Savonarola, em nome da teocracia, que fazia dele o enviado da Salvação, e enlouquecido por uma moral rígida que diabolizava o hedonismo, a fruição e o prazer, se apossou do poder, com o apoio da rua, de cujos deserdados se fez voz, em 1494, para ser queimado vivo, logo cinco anos depois, pela mesma turba que o glorificara como se ao Messias, na Praça da Senhoria, que se entende o que é o ilusório poder e a vã crença na fidelidade humana.

12.12.07

Compulsivo maledicente

Houve um leitor que, com amabilidade, me deu conta de se ter chocado, ao ver-me usar a expressão «compulsivo maledicente» a propósito do escritor Jorge de Sena.
Revi o que escrevi e peso agora o que disse. Terei sido impensado e por isso injusto?
Jorge de Sena foi uma escritor com valor, na prosa, na poesia. Não conheço toda a sua obra, mas o que li causou-me viva impressão, pela força motora das palavras, pela forma de escrever. Em nada o diminuo, a obra só por si aumenta o homem.
Quando vi na Cinemateca o filme que Joana Pontes realizou sobre a sua pessoa, já eu estava hesitante. É que há aspectos na sua escrita e vida que me ofenderam a sensibilidade.
Primeiro, a introdução que escreveu à poesia de António Gedeão, em que, sei lá se contagiado por serem ambos homens de ciência, se entreteve a contar na obra apresentada versos e palavras, chegando à média de dezasseis versos por poema, cálculo feito a partir de uma fracção que começa com 5px8 v+4 px12 v+5 px 16... e assim sucessivamente, praticamente assassinando o que há de beleza profunda e singela na poética do autor da Pedra Filosofal.
Gedeão, que fora, enquanto Rómulo Vasco da Gama Carvalho, professor de Sena no Liceu de Camões enviara-lhe aliás em 1956, de modo anónimo, o seu livro de estreia «Movimento Perpétuo», ansioso por um comentário. Tornara-se-iam amigos.
Depois, há a ensombrar a meus olhos a imagem de Sena, o ter-se permitido, ao escrever em 1959, um ensaio sobre a poesia portuguesa, tirado em livro pela Ática - que aliás citei aqui - ter começado com um «devo dizer, para começar, que não sou grande leitor de poesia, naquele sentido em que o são quantos devoram os produtos poéticos (...)», o que ainda se tolera, para logo rematar com «o tempo não me sobra para viver recluso na poesia dos outros». Não consigo desligar este modo de dizer de uma certa soberba intelectual, que relativiza, pela forma de analisar, o valor da análise.
Finalmente, foram os «Diários», editados por Mécia de Sena e impressos pela Caixotim em 2004, onde, atónito o vejo, aos trinta e quatro anos, a recusar assinar uma petição contra a Censura para não prejudicar um convite do Governo para ir à Índia, em missão oficial, viagem de que acabou por não beneficiar e logo a seguir a acrescentar coisas deste teor: «Telefonou o Saraiva a contar que esteve preso desde domingo até ontem. Fora com mais 50 pessoas ao aeroporto fazer recepção à Maria Lamas. Foi tudo engavetado em Caxias, de onde ele saiu, mas onde ainda muitos ficaram. Claro que o nosso Silas está lá. E também, o Keil e Maria Keil, e O'Neill, o Cortesão Casimiro, etc., etc. Em todo o caso creio que, se os não tivessem prendido - o que é uma coisa ridícula - teriam ficado desconsoladíssimos, pelo menos alguns como o Silas».
Ao ler isto, caiu-me em cacos o mito do anti-fascista sem mácula e o humano, demasiado humano, ocupou, desolador, o seu lugar.
Espantará assim que, falando do António Alvim, Sena diga que «do Leonardo, este herdou a desvergonha, como o Álvaro Ribeiro, a velharia teocrática. O Marinho é que herdou a retórica provinciana»?
E não será lógico que fale dos «Cidades, Nemésios, Prados Coelhos e Kins, como «cães falhados mesmo como cães»?
E coerente quando vitupera contra «O Avante inundíssimo» e junte provocatoriamente, referindo-se aos comunistas presos que: «é pena que as pessoas não mereçam as perseguições que as dignificam»?
Digo mais, ou ainda passo por ser eu o compulsivo maledicente?
Obrigado, meu leitor. Vamos concluir os dois, tal como o Fernando Pessoa que nunca nos iludimos, porque felizmente nunca cegámos!

4.12.07

Ademanes solipsistas

Hoje há um blog que aproveita para desancar na Maria Filomena Mónica e num livro que ela terá escrito sobre o Cesário Verde. Na sua linguagem acerada acusa-a de «caprichismo burguês» e «ademanes solipsistas». Sobre o Cesário em si diz que o pobre teve uma «curta vida, aliás, pouco entusiasmante», «inexcitante», e que ela se apaixonou pelos seus versos como uma «previsível adolescente».
Já Jorge de Sena, um compulsivo maledicente, em 1951 havia escrito, num estudo dedicado à poesia portuguesa, editado pela defunta Arcádia que, o poeta era expoente do «romantismo de capelista».
O facto de Fernando Pessoa ter escrito no Livro do Desassossego que «vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele», não conta.
«Escarnecido em vida», Verde ficou amarrado ao facto de ter sido filho do dono de uma loja de ferragens.
Hoje lá está na rua número 7 do Cemitério dos Prazeres, com a naturalidade de quem de todo o natural fazia versos, que em vida nunca viu aliás publicados, um camponês perdido numa Lisboa de gente que fala de livros dizendo ufanamente «que não tenciono ler».

25.11.07

O músculo cardíaco

Uma zanga pessoal entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares deu azo a uma crítica sulfúrica feita por aquele ao último livro deste. Um amigo meu que leu o livro diz que há nele mais outras imprecisões históricas, geográficas e de referência do que as que cita a valente crítica, citando-me algumas, desde a descrição de locais, à data em que surgiu uma certa marca de charuto fumado por uma das personagens.
De tudo isto, retiro uma pergunta: não tivesse havido a zanga, haveria a crítica?
Ou, talvez numa variante mais geral: quantos livros, imprecisos, mal escritos, insuportáveis de mediocridade, não andam por aí impunes, porque o crítico se não zangou com o autor?
Ou, agora num diferente e provocador modo de dizer: quanta crítica amável e complacente não coexiste com o inaceitável escrito e o mal amanhado estilo, por não haver zanga mas amizade, ódio mas amor?
Nos tempos da «Crónica Feminina», revistinha barata para corações pobres mas palpitantes, havia o «consultório sentimental». É isso que dita os tiques de alguma da nossa cultura e do nosso modo de ser crítico. O pensarmos também com o músculo cardíaco.
No meu caso assumo-o: gosto de ler o Vasco Pulido Valente, apesar de ele me irritar, nunca leio o Miguel Sousa Tavares, precisamente pelo facto de ele me irritar.
Eu sei que é um sentimento irritante este meu, mas só uma coisa me salva: nunca me zanguei com nenhum dos dois, pois não os conheço pessoalmente, a um só pela prosa, aos dois pela pose. E chega.

8.11.07

E viva o maxismo!

«Se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso e que trabalhem os doentes». Acordei com esta, pelas cinco e tal da manhã. É do Max, não do Marx que foi causa de grandes desilusões amargas a muitos da minha geração, mas sim do Max, o risonho madeirense autor daquele notável conceito feito canção que dá pelo nome de «A Mula da Cooperativa». Tal e qual. A mula na cooperativa, a que deu dois coices no telhado, «ai és tão linda».

3.11.07

Militância diária

«O Partido não encerra para férias, está no combate diário contra estas políticas, no esclarecimento e na mobilização das populações em defesa dos serviços públicos de proximidade e com qualidade, contra as políticas caritativas». Só podia ser o PCP, na sua actividade militante. Lê-se em O Militante, o número dedicado à Revolução de Outubro, os dez dias que abalaram o mundo, num artigo escrito no Verão, a propósito da 31ª Festa do Avante.

30.10.07

Poucos serão os escolhidos

O Presidente da República diz que se recusa a intervir na questão das escolhas para o Conselho de Estado. Acto de prudência e distância. Por ele já tem as suas escolhas feitas, a de Manuel Dias Loureiro, por exemplo.

25.10.07

Pinto Monteiro e a verdade

Aquilo em que muitos viram uma ligeireza do PGR numa matéria que o PR considerou «delicada», foi recuperado como se tivesse sido um acto intencional praticado de caso pensado para gerar um «alerta» sobre a questão das escutas telefónicas. Daí a AR convoca o PGR para lhe pedir explicações sobre o assunto.
O momento é exemplar.
Pinto Monteiro é juiz conselheiro, desempenha funções num dos lugares de vértice da Justiça portuguesa.
Exige-se-lhe probidade, honestidade, e não duvidamos que tenha tais qualidades em altíssimo grau.
Por isso, quando se sentar ante os políticos deputados, para se explicar, deve marcar a diferença começando por clarificar: ou aquela do ruídos no telemóvel lhe «saíu», ao baixar as guardas da atenção ante a amabilidade dos entrevistadores, ou é, como prontamente disseram alguns dos exegetas do seu pensamento, algo que disse pensando no que dizia e nas consequências desejadas do dizer.
Não há outra via: a verdade está diante dele, como um espelho ante a sua imagem! Se fosse mais um dos muitos políticos, Pinto Monteiro teria várias formas de dar a volta ao dito, ao sentar-se entre os deputados. Esperamos que não o seja e diga o que foi tal como é!
Entrar em sofismas argumentativos e justificativos iria torná-lo igual ao que não desejará ser.

23.10.07

O SIS e a escutas

«Em Portugal, só a Polícia Judiciária por ordem dos juízes e os serviços de informações podem fazer escutas legais». Disse-o o professor Marcelo Rebelo de Sousa, num momento de comentador. Ou é verdade e é grave, ou é engano, e é grave. Em qualquer caso, não tem importância.

21.10.07

Ruídos estranhos

O Dr. Pinto Monteiro ouve ruídos estranhos no telefone e não está seguro de que não tenha o telefone sob escuta.
Claro que o Dr. Pinto Monteiro podia queixar-se ao PGR e pedir-lhe providências. Mas será que ele acredita que o PGR tem força e poder para conseguir evitar que lhe ponham o telefone sob escuta?
Fiquei com a ideia, ao ouvir falar na entrevista que deu a um semanário, que não acredita muito e receará que a sua queixa possa ficar à mercê de algum barão, duque ou marquês do Palácio de Palmela, onde, segundo nos disse, ainda impera a ordem feudal.

20.10.07

João, vamos fazer um jornal

«(...) João Coito era um conservador, eu fui-me tornando um radical. João Coito era um católico, eu senti-me abandonado por Deus. João Coito escrevia maravilhosamente, eu ainda ando a aprender a escrever.
João Coito era meu amigo e eu, amigo João Coito, estou triste desde o dia em que o perdi: uma tristeza feita de saudades, nascida na revolta ante o inevitável.
Eis a vida. Um dia encontramo-nos neste processo em que a Vida faz brotar vida nova das vidas que se foram.
Talvez possamos fazer um jornal: será o João o meu Director, dê-me então uma coluna, voltamos ao duro combate pela decência social, contra o vira-casaquismo, pelo esmero de maneiras na vida pública, por uma república de homens-bons» (...) .
Escrevi, para que saia na próxima 3ª feira no jornal «O Diabo», de que foi regular colunista, depois de uma vida no «Diário de Notícias», este momento de tardia homenagem, um artigo de que aqui fica um excerto, «À Esquina da Memória».

19.10.07

Rule Britannia

O caso Maddie é um assunto criminal sujeito às autoridades judiciárias, envolvendo cidadãos privados ingleses. Só que como são pessoas muito bem relacionadas com o primeiro-ministro britânico, este permitiu-se falar ao primeiro-ministro português, que é actualmente o presidente da União Europeia, sobre o assunto e ambos consentiram que isso fosse conhecido publicamente, com grande ênfase, não vá o recado passar despercebido.
Dizem que a conversa foi só para se certificarem que as polícias dos dois países estão a cooperar bem.
Claro que há todos aqueles casos dos anónimos e dos malquistos em que a justiça portuguesa está a receber uma cooperação péssima das justiças de outros países. Mas disso não cuidam os primeiro-ministros.
Quanto às senhoras autoridades judiciárias e policiais portuguesas estão muito caladas, como calados estão todos os que encontram em muito menos a sombra de intromissões governamentais em tudo.
O exemplo está dado! Se houvesse uma bandeira para o Estado de Direito, deviam hasteá-la hoje a meia-haste.

15.10.07

A guerra em vão

O Joaquim Furtado fez em televisão uma série de episódios que vão rasgar feridas que estão ainda mal saradas na pele dos portugueses. Trata-se da guerra, a do Ultramar, a colonial, a de libertação, a guerra. Uma guerra em que ele procurou não glorificar um dos campos contendores, o que corre o risco de desagradar a todos, aos que sentem merecer em troca do sofrimento os louros de uma medalha, para que tudo não haja sido em vão.

14.10.07

Assobios em Fátima

Houve quem se abismasse porque os peregrinos de Fátima, cansados de esperar pelo momento de poderem entrar na nova basílica, apuparam e assobiaram. Ao domingo é assim no futebol, qual dia será assim na Santíssima Missa. Na Cova da Iria foi apenas a zona do meio entre a reverência devida a um Santuário e a feira pagã dos pagadores de promessas, mercadejando com Deus favores em troca de oferendas. O culto de massas tem destas: quem promete milagres vende impaciências.
Uma coisa é a fé pura, a crença na salvação, a esperança numa vida melhor, a redenção pelo sacrifício. Outra é a massificação de um lugar, a ocupação do templo, o divino espiritual à mercê da boçalidade do profano.

13.10.07

Adeus, amigos

Levantei-me tarde, porque mais do que precisar, senti que merecia dormir. Acabei agora de almoçar, o meu garoto mais novo a partilhar comigo o gosto de não gostarmos de alface a não ser sem tempero, a adorarmos carne assada fatiada mas fria, a promessa do irmos daqui a pouco dar uma volta pelo jardim aqui em frente, e passarmos pela loja do chinês, em busca de frascos para o armário da nossa despensa.
Sentei-me a folhear jornais que compro para os olhar em diagonal, o mundo que me interessa reduzido a muito pouco.
Foi então que tudo aconteceu. Atónito, vejo numa página a fotografia do Fausto Correia e a do João Coito. Mortos. Mortos como o Raúl Durão que conhecia pior. Não sabia, ninguém me disse, não li, sufocado de trabalho, soterrado de obrigações.
Uma densa tristeza povoa-me a alma. Por segundos vi-me ali, morto também, velando-lhes o corpo ido, mais mortos do que é possível morrer-se.
Conheci ambos. Do Fausto recebia sempre uma palavra todas as vezes que lhe escrevia, sempre que era uma ocasião. Maçon, conhecemo-nos independentemente disso, socialista, admirava-o mesmo quando eu já renegava o partido que do socialismo usurpa hoje o nome. Via nele a arte de viver este mundo, disponível para todos os mundos possíveis, a bonomia feita acção, a Coimbra boémia, sedutora como miragem.
Do João Coito recebi sempre uma palavra de estima, de apreço, de admiração, mesmo quando soube que lhe era difícil manifestá-la. Católico, consevador, ensinou-me o que é escrever, o que é saber carregar a fundo sobre o injusto e o indesejável, com elegância, boas maneiras e requintada educação. Combinámos jantar, o convite mantinha-se, adiava-se, lembrava-me disso cada vez que a minha mãe me telefonava, orgulhosa, a dizer «José António, o João Coito, falou outra vez bem de ti».
Vou sair. Talvez o jardim, a loja do chinês, os frascos para a minha despensa, me ajudem por uma horas à ilusão que é estar-se ainda vivo, perdido o momento de escrever ao Fausto, de telefonar ao João, adeus amigos, que isto de se estar triste é uma coisa que não mereceis. Adeus, adeus.

5.10.07

O dia do nada

Ainda a comemoração do 5 de Outubro: soube agora que o primeiro-ministro chegou tarde ao acto, já o Presidente da República discursava, a nova direcção do PSD não sabia do convite, nem sabia que tinha de lá ir. São na aparência falhas de protocolo, são na verdade, a imagem da degradação a que chegou o cerimonial público. São as condecorações à dúzia, o cumprir oficial das efemérides. À falta da adesão popular, eis os militares, as forças militarizadas, os sapadores bombeiros, qual corpo de baile. Os discursos têm menos a ver com o que se comemora, são momentos para os políticos darem recados uns aos outros através da comunicação social. Foi assim com o 28 de Maio, está a ser com o 25 de Abril, com o 10 de Junho. Um destes dias, inaugura-se o dia do nada, o zero absoluto dos que com nada se importam.

Uma praça vazia

Ao ver, vazio, o Largo do Município, as altas figuras do Estado com um ar de enfado neste dia feriado, o Presidente da República a discursar, hirto, para um corpo de GNR's, arregimentados para o efeito, vi a que ponto estamos em matéria de fervor republicano.
A rematar o seu «directo», a SIC Notícias deu-nos o caricato: o Chefe de Governo, enfim aliviado da pose comemorativa, a brincar, como se com um pendericalho, com a medalha da Cidade de Lisboa que António Costa trazia ao peito. Riam, todos, prazenteiros, com o fetiche, excepto Jaime Gama, que aprendeu a substituir o riso por um esgar.
Acho que se os monárquicos tivessem organizado uma romagem para evocarem o regicídio eram capazes de ir mais mobilizados e em maior número.
A República deixou de ser comemorável, por uma razão: ninguém se apercebe hoje que ela existe, tal como todos ignoram que o senhor de barbicha que a anunciou se chama, entre os Relvas, Miguel Relvas. O «devorismo» tornou-nos semelhantes ao agonizar da Monarquia.

1.10.07

Sexo na cidade

Eu mal vejo televisão, não por pedanteria, mas por ter pouco tempo e preferir ler, quando posso. Sou como aqueles fumadores passivos, vejo a televisão que estão a ver nos sítios onde estou, a maioria das vezes como ruído de fundo.
Outro dia foi-me impossível não notar. Umas senhoras falavam do sabor do esperma dos homens com quem tinham estado.
Era uma série de renome, ao que me apercebi, que traz as mulheres pelo beicinho, e que muitos homens não perdem.
Eis os serões nocturnos, a televisão no pico de audiência, a verdadeira hora de ponta.
Hoje de manhã ouvi na rádio que o Governo quer fomentar a natalidade. Não há pois esperma a desperdiçar. A televisão, nisso, a continuar assim, não ajuda os superiores interesses do país.

30.9.07

Um mimo

Segundo leio numa bela forma de dizer no site da TSF «morreu ontem, em Paris, o pierrot do século XX. Nasceu como Marcel Mangel, em Estrasburgo no ano de 1923, e morre como Marcel Marceau em Paris, em 2007».
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.