19.3.08

O novo caso da vírgula

Li hoje de manhã a Resolução da Assembleia da República n.º 10/2008, que anuncia tratar do acompanhamento da situação de pobreza em Portugal.
Vá lá ao menos não há eufemismos, está lá com todas as letras a palavra: p-o-b-r-e-z-a!
Nos termos da dita Resolução: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, o seguinte:1 — Assumir a missão específica de observação permanente e acompanhamento da situação da pobreza em Portugal, no âmbito parlamentar».
Note-se: vírgula, no âmbito parlamentar! Ele há cada uma...

6.3.08

O «Avante!» ao alcance de qualquer PC

«No dia em que o PCP assinala o seu 87º aniversário, 6 de Março, o PCP disponibiliza no seu sítio na internet o «Avante!» clandestino, correspondente ao período 1931-1974 (I, II e VI série)», informa o site oficial dos comunistas. Ei-lo aqui. Já estava aqui. Quem vir com atenção nota que, apresentando-se como um índice cronológico do jornal entre 1931 - 1974 o jornal não se publicou entre Maio de 1938 e Setembro de 1941, pois só nessa altura é que, com a reorganização do Partido se voltou a editar. É bom que «o partido com paredes de vidro» abra os seus arquivos. Em tempos perguntei a Luís Sá, já falecido tão jovem e de tão saudosa memória, onde estavam os comunistas quando o SOE britânico recrutou para o combate clandestino anti-Eixo forças revolucionárias e homens de esquerda, como Cândido de Oliveira, sobre o qual escrevi um artigo. Respondeu-me com uma pergunta: «quais dos comunistas?». Fiquei sem resposta.

5.3.08

A Cidade Sitiada

Fui à Byblos, preparado para dizer mal, porque ouvi gente a dizer que era um «bluff» no conteúdo, fria no ambiente, um hiper-mercado de trivialidades. Só que encontrei lá o que não encontavai em outras livrarias: um livro da Clarice Lispector editado em 2 000 pela Indícios de Oiro e outro dela também, «A Cidade Sitiada», saído em 1 998 na Rocco brasileira. Tanto bastou para que o sítio se tornasse amável, o conteúdo sobejante, o lugar acolhedor. Fui à Byblos encontrar-me com ela, como se tivesemos combinado um «sim, Clarice, em frente às Amoreiras, eu sei». No mais, gosto das outras livrarias, de todas as livrarias, mesmo as que vendem livros no chão, essas sim, as maiores livrarias de Lisboa, a cidade inteira o seu balcão.

2.3.08

O cão e o gato

Estive hoje a ver notícias da política e do que à política vai parar. Fi-lo, no intervalo de um trabalho que me tem consumido e por causa do qual ainda tenho de lêr a Novela de Belfagor.
Ao escrever o seu Anti-Maquiavel, Frederico, que viria a ser o II da Prússia, lembrou que em certo momento Amsterdão foi governada por um gato e explica como: o burgomestre era muito sensível aos conselhos da mulher, esta era dominada pela criada que tinha sobre ela um «ascendente absoluto», tal como sobre a serviçal o gato da casa. Atribui-se ao mesmo Frederico como última palavra antes de morrer, a frase: «enterrem-me junto dos meus cães». Eis o meu domingo, no mundo animalesco.

26.2.08

A PT

Fica-se com o telefone de casa avariado. Telefona-se para a PT. Um simpático assistente, daqueles que não nos tratam por «senhor José», mas sempre acrescentam ao nome o apelido, diz-nos que vai tomar nota da avaria e que aguardemos que nos será comunicado dentro de momentos o número da reparação. Aguardamos, ouvimos música calmante, tomamos nota. Telefonamos depois a saber, porque os dias passam. De novo um assistente, de novo música, enfim que temos de aguardar porque a reparação vai levar uns dias. Dias depois, muitos dias depois é preciso que esteja alguém em casa entre as 9 e as 11, não podem garantir hora. A linha telefónica está finalmente reparada. Já posso voltar ao mundo. «Esperamos a sua compreensão, não temos equipas que cheguem». Tenho a certeza que não. Devem ter-se mudado todas para a concorrência.

24.2.08

A rua

Há uma lei que proíbe fumar dentro de espaços fechados. Há por causa disso uma nova realidade social, visível sobretudo onde abundam lojas e escritórios, locais onde as pessoas passam mais tempo do que nas suas casas: são os fumadores de porta, plantados aos magotes, a baforar, a imagem da sua triste marginalidade exposta, como outrora os bandidos nos pelourinhos. Do ponto de vista do fumador é a condenação à ignomínia, imagem do cão que vem para a rua alçar a pata e assim lançar fora os seus dejectos. Quanto ao fumador passivo, é a exposição ao lugar infecto, a rua que os automóveis já empestavam, impunes, e onde agora se acumula o que se não quer dentro de casa.
As cidades estão a transformar-se em interiores assépticos e nitreiras exteriores. Ai de quem não entra e saia de garagem a garagem em automóvel com ar condicionado: se não correr o risco de regressar ao lar assaltado e espancado, vem pela certa com um cancro no pulmão.

21.2.08

A pedra filosofal

As histórias, sim, são como as cerejas e esse, o tempo imediatamente após o 25 de Abril, foi um momento de grandes histórias: invulgaridades inesperadas, cenas de almas torturadas por sofrimentos doridos e vergonhosos, queixumes amargos de deslocados, de quem o desleixo fez perder a respeitabilidade pela sua sorte, todo um cortejo humano de rancores, súplicas, de ânsias.
Um dia chegou ao Ministério um requerimento de um guarda prisional, que em papel selado se queixava do mísero casebre que o Estado lhe fornecia, como se guarda sendo, de reclusos, cão de guarda fosse, na sua casota, acorrentado ao dever carcerário, sob um periclitante tecto, tudo velho, desamparado, desconsiderado.
Escrito em cuidada caligrafia, pois que nesses tempos ensinava-se na escola a escrever cursivamente e sem pontapés na gramática, o requerimento lá expunha, como podia, um desejo a melhor habitação.
Um entre tantos, lá foi, por nós secretários de ministro encaminhado, para a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, então e hoje ali ao Torel, «para informar«.
Informação por vir, eis que chega um segundo requerimento. Citava o primeiro, lamentava a ausência de resposta, dizia confiar ainda numa decisão e para que o Ministro da Justiça se não esquecesse, o requerente no canto inferior direito do almaço azul encimado pela esfera armilar - como isto parece jurássico! - recortou, a lâmina, um rendilhado no meio do qual se inseria uma tímida fitinha vermelha com a legenda «para Vossa Excelência não se esquecer de mim».
Entre a risota catártica por causa da fitinha, o lamentar rotineiro por mais aquele caso de mediania serventuária, lá se mandou a segunda exposição de novo «à Direcção Geral dos Serviços Prisionais, insistindo pela resposta ao requerido».
O tempo passou e um longo silêncio ecoava tanto da parte do requerente como da entidade oficiada. O caso parecia ter entrado na montanha dos problemas por resolver, cada vez mais graves.
Um dia, entra o Costa, o dedicado contínuo, que constava havia sido polícia e que, quando chamado pela campainha, tinha ainda a pose de mãos atrás das costas, como se em estilo de formatura militar aguardasse de nós um «firme! sentido!» a todo o instante. Creio que já andávamos pelo ano da brasa, 1975, em que, pior do que em Rio Maior, onde a moca era argumento político, a norte urdia a rede bombista. Entra o Costa, ajoujado com pesado embrulho, estranho, suspeito, quase parecendo que fazia tic-tac.
Susto entre os secretários! Que seria? Quem queria fazer mal ao nosso Salgado Zenha, que conseguira do Vaticano o divórcio para os católicos, mas de alguns «saneados» a ira pelo que lhes sucedera.
Posto em cima da mesa, o pacote que esgotara do Costa os bofes, encimava-o, ao papel pardo que lhe servia de embrulho, um requerimento, mais um, em papel selado, como sempre, do mesmo guarda prisional. Rezava mais ou menos isto: «Senhor Ministro da Justiça, Excelência, eu sou aquele guarda prisional que sem sucesso tem escrito várias vezes a esse Ministério na esperança que o 25 de Abril, que tanta alegria e esperança trouxe aos nossos corações de servidores do Estado, nos desse a Justiça que merecemos e no meu caso uma habitação decente para mim e para a minha família, porque a casa que me atribuiram está a cair. Ora ontem, senhor ministro, precisamente este pedregulho, que anexo junto, caíu mesmo em cima da mesa da casa de jantar e saiba Vossa Excelência que foi por sorte (...)».
Não sei o que é feito do requerimento e da pedra. Talvez aguardem ainda, «à consideração superior, com a informação de que o processo disciplinar instaurado ante a remoção não autorizada de parte integrante de edifício pertencente ao domínio público do Estado, ainda que com a finalidade de instruir petição legal, aguarda emissão de avaliação da Direcção Geral do Património no que refere ao valor do dano assim causado pelo arguido, tendo em vista a prolação de decisão final, na qual possa ser conhecida então, como questão prévia, a matéria da prescrição do procedimento, suscitada na defesa, conforme acórdão transitado para uniformização de jurisprudência (...)».

20.2.08

O riso e o cuidado

No primeiro Governo Provisório após o 25 de Abril ao Ministério da Justiça confluiu toda uma série de cidadãos que reclamavam e exigiam, alegando uns injustiças sofridas por causa do regime deposto, outro na expectativa de que a democracia desse àquela instituição meios de actuação para lhes resolver problemas da mais diversa natureza.
Nessa altura eu tinha 25 anos de esperanças e estava secretário do ministro, o meu saudoso patrono na advocacia, Dr. Francisco Salgado Zenha.
Ora uma tarde surgiu a notícia de que estava na salinha de espera um sujeito que tinha um grave e urgente problema que exigia actuação ministerial imediata.
Já cansado, porque no meio de problemas graves e sérios e alguns dramáticos, havia também algumas bizarrias que levavam o contínuo, criatura transitada da «antiga senhora», o velho Costa - que é feito dele ? e da mulher que era telefonista - a dizer «este é, senhor doutor, o ministério dos loucos!», eis-me a ter de ir atender o impetrante, para explicar que o senhor ministro não estava - por acaso naquele dia tinha ido, lembro-me, a Belém, a uma reunião com o Presidente da República, o general António de Spínola - mas que fizesse o favor de explicar que eu, solícito, tomaria nota.
Assomando ao umbral da porta dei com ele: criatura invulgar, com um ar de angústia, ensimesmado, a viver alguma perseguição, homem mais velho do que eu sou hoje, olheiras vincadas, cabelo crespo, uma roupa que tentava passar por cuidada.
«Senhor secretário, peço-lhe por tudo, ajude-me que tenho a BBC dentro da cabeça, de dia e de noite, e o zumbido não me deixa dormir!».
Tinha já atendido muito tema, dos mais diversos aos menos esperados, mas aquele era novo, entre o patético e o risível.
Voltei para dentro, para conciliábulo com o outro secretário, o velho José António Pombinho, homem de Portel - comunista puro e duro, a facies do Lénine, cuja casa e o «nosso partido» - como ele dizia - se confundiam, a bandeira da foice e do martelo à varanda!
Regressei, momentos após, com a solução milagrosa: «esteja descansado! Escusámos de incomodar o senhor ministro. Ligámos já para os Negócios Estrangeiros e ainda hoje vão desligar a emissão!».
Saíu às arrecuas, grato por um momento de atenção, tanto bastava, era só isso antes de estoirar aquela cabeça à qual os zumbidos já não davam descanso.
Hoje está quase tudo morto, Zenha, Pombinho, Spínola, talvez ele, menos a minha memória saudosa dos tempos em que isto foi possível e eu me preocupava, entre o riso e o cuidado.

12.2.08

Manchas de memória

Há mais de quarenta anos acordei uma manhã às manchas. Manchas generalizadas, estranhas, a disseminar um aspecto equívoco, contagioso, pestífero. Minado moralmente, quase incapaz de me mostrar à comunidade dos humanos, como se lazarento fora, encurralado na gafaria dos meus pavores, acabei por procurar, sob o crepúsculo protector do entardecer e embuçado com o possível, um médico que me desse a extrema-unção clínica daquele meu estado a meus olhos pré-putrefacto.
Sujeito bonacheirão, careca luzidia, mãos sapudas que esfregava, voluntarioso, uma na outra, como se em eterno contentamento consigo, ei-lo o dermatologista procurado, ali para a Cova da Moura, comigo na sua frente, ele de olho clínico, eu em pilau, a totalidade da minha erupção cutânea ali exposta ante a luz crua do consultório, apto à anamnese, ansioso pelo diagnóstico
Foi então que se deu o inesperado. Como se num grito de guerra de estranha língua, lançou para todos os gabinetes daquela populosa policlínica, um «pitiríase rósea de Gibert!», a cujo brado acorreram, como se das crateras de Hipócrates viessem, colegas eles e elas também, todos num súbita roda prescrutadora, em torno da minha envergonhada nudez.
Foi, naquela comunidade científica um delírio de aprendizado. «Colegas», proclamava o meu doutor, ante o círculo de todos os outros, batas brancas a ladearem-me como um cerco índio ao carro coberto, «Colegas! Tal como vem nos manuais! Cor-de-rosa triste!».
Sim, era essa a cor, a minha desgraçada côr.
Lembrei-me disto ao ver esta noite, por um momento em televisão alheia, o general Ramalho Eanes falar do estado de depressão que grassa no país e eu a lembrar-me do animado Governo que temos e que se diz socialista: cor-de-rosa triste, poderia ele ter dito do que por anda!
Com uma diferença! A pitiríase rósea de Gibert, cura-se por si, o Governo, esse, só com eleições.

A lição de Dili

Uma das coisas que se nota em Dili é ser tudo muito pequeno, tudo muito perto, tudo muito comentado, como é típico nos meios pequenos. Mas o que sobressai é, como estando tudo tão próximo, tudo é tão confuso, tudo tão distorcido, tudo na base do parece que, no ouvi dizer, na intriga permanente, na luta pelo poder.
O território parece um país ocupado, à chegada sente-se um ambiente de guerra iminente. No dia dos atentados, às primeiras horas não havia policiamento, os «internacionais» pairavam expectantes.
Nota-se que não há Estado quando a segurança falha; mas o Estado já falhou quando se criaram as condições para que a segurança não seja possível.
Nisso Portugal tem de aprender com Timor. A desagregação de uma Nação velha como a nossa não é diferente da incapacidade de agregação de uma Nação jovem. Basta a irresponsabilidade dos dirigentes.

7.2.08

Dia de silêncio

Há dias em que, mesmo quem tem muito onde escrever não tem nada para dizer. Espantam-me, por isso, os cronistas por obrigação, os opinadores de serviço, os avençados da coluna, e de entre todos, os da opinião geral e universal. Deve ser um tormento uma pessoa amanhecer com notícias e deitar-se com opiniões. A meio da noite devem ter pesadelos com o que se passa nas Américas onde ainda é dia ou na Ásia onde a noite se aproxima. Depois é a política externa e os escândalos internos, as resmas livros de que se tem de conhecer ao menos a capa e a badana. São os condenados às galés do ter ideias, o corvo da realidade a bicar-lhes o fígado da imaginação, amarrados, qual Sísifos modernos, ao rochedo do fazerem-se ouvir.

6.2.08

O fidalgo aprendiz

Para demonstrar, num seu livro recente, que o povo português é, na sua intrínseca filosofia, incompatível com o espírito «maquiavélico», o professor Martim de Albuquerque, depois de refutar todos os «pretendidos» maquiavelistas do nosso Renascimento em diante, conclui dizendo que é o facto de termos criado a figura do «fidalgo» que melhor o demonstra. Ao ter descoberto ontem pela noite que essa era a conclusão, eu que, tinha visto no Isaiah Berlin que o Secretário florentino já foi apodado de tudo, de angélico arquitecto da cidade perfeita, como Piero de la Francesca e desenhou, até ao satânico inspirador do massacre de São Barolomeu, vou ler o livro e depressa, se não em busca do Príncipe, pelo menos para saber por onde pára o fidalgo, que de há muito lhe perdi o rasto.

5.2.08

A língua de Camões

Quando cheguei a Macau, há vinte anos, nem os polícias na rua falavam português. Estávamos na recta final para entregar Macau à China. Macau era «território chinês, sob administração portuguesa». A partir da Declaração Conjunta admitiu-se, por razões políticas, o bi-linguismo como forma oficial de convivência das duas culturas. Gastaram-se milhões em traduções, no ensino do português, na difusão da literatura de Portugal. Floreseceram fundações, entre elas a Fundação Oriente. O seu presidente, Carlos Monjardino, proclamou agora, segundo o revela a agência Lusa, esta frase redonda: «Em Macau, onde as pessoas estão num contexto de utilização do cantonense (dialecto do sul da China), que têm de aprender mandarim (língua oficial chinesa) e inglês há cada vez menos margem para aprender ainda o português». Esta frase visou explicar que «mesmo não sendo muitos, a Escola Portuguesa tem vindo a perder alunos». Só na escola a Fundação diz ter investido 8,7 milhões de euros.
Aquilo que era presivível, está a suceder, apesar dos discursos de então.
Terra de intriga, havia quem ironicamente chamasse a Macau a zona do bifidismo. Com mais naturalidade se fala o português em África, sem que os portugueses disso se dêm conta, ou nisso gastem um chavo de jeito.

3.2.08

Sentido único

José António Pinto Ribeiro está Ministro. Veio de administrador da Fundação Berardo. O que parece mal é ir-se da pública para a privada. «Hello!»

2.2.08

Godos e romanos

Manuel Buiça, que era de Vinhais, disparou sobre o Rei D. Carlos. Alberto Martins, deputado, que também é de Vinhais, disparou sobre a aprovação parlamentar de uma homenagem ao rei morto, que alguns desejavam ver decretada no mesmo hemiciclo onde já foram as Cortes.
O Parlamento republicano não quis que uma homenagem ao rei fosse uma homenagem contra a República, já que corria o risco de, antecipando 1910 a 1908, entroncar, no subconsciente da nação, a sua legitimidade política, não numa proclamação feita das varandas do Município, mas sim num homicídio régio no quarteirão ao lado, tudo nesta pequena Lisboa.
Esta manhã lembrei-me da coincidência transmontana de Vinhais.
Escrevendo para a Seara Nova, em 1922, Aquilino Ribeiro, a quem não é indiferente na sua escrita telúrica, a origem das espécies que por ela desfilam, descreve o regicida como «este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais persistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa de gerações, genuíno, inquieto e batalhadora como a flor estremece da raça».
Li isto e, por falar em godos, lembrei-me do Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, quando ele descreve o momento em que os romanos derrotados conseguiram absorver esses rudes homens godos de «afectos ardentes e profundos» numa só nação com os decadentes césares do meio-dia.
Fui buscá-lo à estante e lá estava o momento que se me vincou no espírito, uma vez mais: «a civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral».
Eis a miscigenação que torna a questão do regime indiferente, a diferença entre os governos nula, os Buiças deste mundo - de novo Aquilino - «argamassado, a um grau extremo, das virtudes e falhas da raça».

1.2.08

O reino do medo

Há no livro da Margarida Magalhães Ramalho sobre o regicídio, a cujo lançamento hoje assisti, neste fim de tarde inesperadamente livre, uma frase polémica e corajosa. Ela cita-a das Memórias de Raul Brandão, que ontem vi à venda numa livraria aqui ao pé de minha casa - livraria ainda de pouca clientela e onde me alegro cada vez que vejo entrar gente - e que é assim: «o Rei tinha, na verdade, defeitos, mas - diga-se! Diga-se - não foram os seus defeitos que o mataram, sim as suas qualidades». Brandão, cujas memórias eu hei-de comprar, mesmo agora que já ando a refrear tanto gasto em livros, tem na obra citada uma outra frase notável, que mostra quem manda, enfim, quando do caos: «quem governa agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Majestade o Medo».

27.1.08

O regicídio: o processo e a fuga

Como se sabe o processo criminal do regicídio desapareceu. Ao que parece teriam sido feitas várias cópias. Nenhuma subsiste. No site do centenário dão-se pormenores sobre o que teria sido o destino de cada uma dessas cópias. A 30 de Janeiro será lançado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal o livro «Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido», um livro que se enuncia como tendo 348 páginas e 400 ilustrações e resultar de dois anos de investigação de uma equipa que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, e 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Estive ontem a ler um estudo sobre o regicídio da autoria de Miguel Sanches de Baêna. Num certo momento da sua narrativa e falando das actas do julgamento escreve: «essas mesmas actas apareceram nas mãos de um particular, que permitiu, a título privado, a sua consulta». E antes cita Aquilino Ribeiro [citado nas Memórias de Raul Brandão, II] «existe uma acta do regicídio que me trouxeram aqui à biblioteca [Nacional] para eu ver». Baêna não diz quem é o particular que tem as actas e que o deixou lê-las. Aquilino não disse quem lhe levou o documento ou porquê. O livro de Baêna é prefaciado por António Reis, Grão-Mestre da Maçonaria.
Mais diz Baêna que a carabina Winchester utlizada por Buiça para matar o rei, com o n.º de série 2137, comprada na espingardaria de Heitor Ferreira, que ainda hoje existe, junto à estação de caminho de ferro, no Rossio «está actualmente na posse de um particular».
A espingardaria, diz, passou a chamar-se «Espingardaria A. Montês», de António Eduardo Montês, antigo empregado de Ferreira, o local da sua sede o actual Largo D. João da Câmara, então chamado Largo de Camões. Quanto ao particular dono da relíquia, fica na penumbra.
Eis pois.
A 1 de Fevereiro, umas centenas de metros do local da compra das armas, no Terreiro do Paço, dava-se a «sinfonia da morte», morrendo D. Carlos e o Príncipe Luis Filipe. A Justiça encarregar-se-ia, tansformando o crime em processo, de não descobrir os mandantes. Manuel dos Reis da Silva Buiça, professor, assassino do Rei e Alfredo Luís da Costa, comissionista, que matou o Príncipe, foram condenados sumariamente no local, mortos logo a tiro, sofrendo a morte que deram.
Já com os corpos no Arsenal, compareceu o Ministério todo, excepto o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho. Escreveu Dom Manuel II, sucessor no trono, no seu diário íntimo «isso não poderei nunca esquecer é que fazendo parte do Ministério do meu querido Pai quando foi assassinado não foi ao Arsenal! Diz-se (não o quero afirmar) que fugiu para as águas-furtadas do Ministério da Fazenda e ali fechou a porta à chave! Seja como for agora seis meses que Meu Pai e Meu Irmão de chorada memória foram assassinados e nunca mais aqui pôs os pés!».
É a lei do eterno fugir, uns a não verem outros a não saberem, todos a não serem. Viva Portugal.

26.1.08

O Bastonário e suas declarações

Desempenho, como é sabido, funções de Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Exerço a advocacia. Sou cidadão. A primeira qualidade não exclui as duas seguintes. Tenho é de tornar claro que há um local e um meio de o Presidente do Conselho Superior se exprimir. Não é este, não é aqui.
Mesmo levando isso em conta e podendo refugiar-me numa qualidade não oficial, não vou comentar as afirmações do Bastonário da Ordem dos Advogados, nem o facto de, por causa delas, o Procurador Geral da República ter ordenado a instauração de um inquérito criminal.
É que sobre isso, no plano público, está tudo dito. Resta aguardar que as instituições funcionem. Essa, sim, é a questão. Até aqui, são afirmações e um comunicado. Ponto.

25.1.08

O Ministério do Interior

Houve tempos em que o Ministério da Justiça era o Ministério das Leis. Depois, com Santana Lopes como Secretário de Estado, as leis passaram para a Presidência do Conselho de Ministros. Almeida Santos e Mário Raposo passaram a ser os últimos guarda-selos da legalidade.
Um dia, ironizando, escrevi que o Ministério da Justiça era o Ministério dos Equipamentos Judiciários - por mandar construir tribunais e mobilá-los - e dos Monumentos Legislativos - por encomendar Códigos a professores e a comissões -.
Vem agora o líder do PSD sugerir que se integrem num Ministério só o da Justiça e o da Administração Interna.
No bojo de tal pensamento não está tornar a segurança interna uma dependência da Justiça, fazendo triunfar a Lei sobre a Ordem. Está precisamente o contrário.
A seguir-se este caminho, os juízes, os procuradores e os advogados, que de vez em quando ainda pensam que é Alberto Costa o seu interlocutor, que se preparem. No futuro tratarão dos seus assuntos directamente no Governo Civil.
José Sócrates bem pode agradecer a Luís Filipe Menezes. Ambos são o verso e o reverso do mesmo, a ânsia de autoridade, o triunfo da ambição.
Gonçalves Rapazote era capaz de ter vergonha de pensar isso. Tinha Manuel Cavaleiro de Ferreira e António de Oliveira Salazar que não lhe permitiriam tanto.

20.1.08

Piadas fedorentas

Houve tempos em que havia temas que eram objecto de recato, um deles as convicções religiosas. Não que a Literatura não haja denunciado o abuso do pároco, a licenciosidade clerical, a falsa devoção de sacristia, o frei glutão. Mas fazia-o em nome do respeito à fé alheia, para que se não ofendesse a intimidade das convicções, em nome do perfeito, do justo, do divino. A seriedade do sagrado era o limite à ironia do profano.
Há pouco vi uma palhaçada ridícula no canal público de televisão de achincalhamento grosseiro, inútil, desnecessário e vil a Ordens Religiosas. Chamava-se «E tudo o convento levou».
O Ocidente está no seu estretor. Passado o Mediterrâneo, esse antigo lago romano, há quem dê a vida pela fé. A vida própria e a dos outros.
Aqui confundimos alarvice com piada, boçalidade com humor. Isto no canal do serviço público, o tal canal.