27.1.08

O regicídio: o processo e a fuga

Como se sabe o processo criminal do regicídio desapareceu. Ao que parece teriam sido feitas várias cópias. Nenhuma subsiste. No site do centenário dão-se pormenores sobre o que teria sido o destino de cada uma dessas cópias. A 30 de Janeiro será lançado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal o livro «Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido», um livro que se enuncia como tendo 348 páginas e 400 ilustrações e resultar de dois anos de investigação de uma equipa que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, e 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Estive ontem a ler um estudo sobre o regicídio da autoria de Miguel Sanches de Baêna. Num certo momento da sua narrativa e falando das actas do julgamento escreve: «essas mesmas actas apareceram nas mãos de um particular, que permitiu, a título privado, a sua consulta». E antes cita Aquilino Ribeiro [citado nas Memórias de Raul Brandão, II] «existe uma acta do regicídio que me trouxeram aqui à biblioteca [Nacional] para eu ver». Baêna não diz quem é o particular que tem as actas e que o deixou lê-las. Aquilino não disse quem lhe levou o documento ou porquê. O livro de Baêna é prefaciado por António Reis, Grão-Mestre da Maçonaria.
Mais diz Baêna que a carabina Winchester utlizada por Buiça para matar o rei, com o n.º de série 2137, comprada na espingardaria de Heitor Ferreira, que ainda hoje existe, junto à estação de caminho de ferro, no Rossio «está actualmente na posse de um particular».
A espingardaria, diz, passou a chamar-se «Espingardaria A. Montês», de António Eduardo Montês, antigo empregado de Ferreira, o local da sua sede o actual Largo D. João da Câmara, então chamado Largo de Camões. Quanto ao particular dono da relíquia, fica na penumbra.
Eis pois.
A 1 de Fevereiro, umas centenas de metros do local da compra das armas, no Terreiro do Paço, dava-se a «sinfonia da morte», morrendo D. Carlos e o Príncipe Luis Filipe. A Justiça encarregar-se-ia, tansformando o crime em processo, de não descobrir os mandantes. Manuel dos Reis da Silva Buiça, professor, assassino do Rei e Alfredo Luís da Costa, comissionista, que matou o Príncipe, foram condenados sumariamente no local, mortos logo a tiro, sofrendo a morte que deram.
Já com os corpos no Arsenal, compareceu o Ministério todo, excepto o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho. Escreveu Dom Manuel II, sucessor no trono, no seu diário íntimo «isso não poderei nunca esquecer é que fazendo parte do Ministério do meu querido Pai quando foi assassinado não foi ao Arsenal! Diz-se (não o quero afirmar) que fugiu para as águas-furtadas do Ministério da Fazenda e ali fechou a porta à chave! Seja como for agora seis meses que Meu Pai e Meu Irmão de chorada memória foram assassinados e nunca mais aqui pôs os pés!».
É a lei do eterno fugir, uns a não verem outros a não saberem, todos a não serem. Viva Portugal.

26.1.08

O Bastonário e suas declarações

Desempenho, como é sabido, funções de Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Exerço a advocacia. Sou cidadão. A primeira qualidade não exclui as duas seguintes. Tenho é de tornar claro que há um local e um meio de o Presidente do Conselho Superior se exprimir. Não é este, não é aqui.
Mesmo levando isso em conta e podendo refugiar-me numa qualidade não oficial, não vou comentar as afirmações do Bastonário da Ordem dos Advogados, nem o facto de, por causa delas, o Procurador Geral da República ter ordenado a instauração de um inquérito criminal.
É que sobre isso, no plano público, está tudo dito. Resta aguardar que as instituições funcionem. Essa, sim, é a questão. Até aqui, são afirmações e um comunicado. Ponto.

25.1.08

O Ministério do Interior

Houve tempos em que o Ministério da Justiça era o Ministério das Leis. Depois, com Santana Lopes como Secretário de Estado, as leis passaram para a Presidência do Conselho de Ministros. Almeida Santos e Mário Raposo passaram a ser os últimos guarda-selos da legalidade.
Um dia, ironizando, escrevi que o Ministério da Justiça era o Ministério dos Equipamentos Judiciários - por mandar construir tribunais e mobilá-los - e dos Monumentos Legislativos - por encomendar Códigos a professores e a comissões -.
Vem agora o líder do PSD sugerir que se integrem num Ministério só o da Justiça e o da Administração Interna.
No bojo de tal pensamento não está tornar a segurança interna uma dependência da Justiça, fazendo triunfar a Lei sobre a Ordem. Está precisamente o contrário.
A seguir-se este caminho, os juízes, os procuradores e os advogados, que de vez em quando ainda pensam que é Alberto Costa o seu interlocutor, que se preparem. No futuro tratarão dos seus assuntos directamente no Governo Civil.
José Sócrates bem pode agradecer a Luís Filipe Menezes. Ambos são o verso e o reverso do mesmo, a ânsia de autoridade, o triunfo da ambição.
Gonçalves Rapazote era capaz de ter vergonha de pensar isso. Tinha Manuel Cavaleiro de Ferreira e António de Oliveira Salazar que não lhe permitiriam tanto.

20.1.08

Piadas fedorentas

Houve tempos em que havia temas que eram objecto de recato, um deles as convicções religiosas. Não que a Literatura não haja denunciado o abuso do pároco, a licenciosidade clerical, a falsa devoção de sacristia, o frei glutão. Mas fazia-o em nome do respeito à fé alheia, para que se não ofendesse a intimidade das convicções, em nome do perfeito, do justo, do divino. A seriedade do sagrado era o limite à ironia do profano.
Há pouco vi uma palhaçada ridícula no canal público de televisão de achincalhamento grosseiro, inútil, desnecessário e vil a Ordens Religiosas. Chamava-se «E tudo o convento levou».
O Ocidente está no seu estretor. Passado o Mediterrâneo, esse antigo lago romano, há quem dê a vida pela fé. A vida própria e a dos outros.
Aqui confundimos alarvice com piada, boçalidade com humor. Isto no canal do serviço público, o tal canal.

18.1.08

A República e o Feudo

Quando o ministro da Justiça diz, numa «boutade» que «Portugal não é uma República de Procuradores», eis uma grande notícia, porque a frase diverte, sobretudo os que acham que Portugal se está a tornar numa «República de procurados».
Quando o Procurador-Geral da República disse que o Ministério Público é «um feudo de condes, viscondes e marquesas», a frase divertiu muito mais, sobretudo os que acham que a Justiça se está a tornar num campo pedregoso de servos da gleba da courela forense.
Mas quando o Procurador-Geral da República, depois de alimentar fartas expectativas de que o Governo ia mudar na legislação penal que impôs ao país, volta das alcatifas do Ministério, vazio de esperanças e diminuído na sua fé, percebemos tudo: à falta de ideias, vivemos de «bocas», à falta de resultados, de «modos de dizer».
Não são altos dirigentes, são fazedores de títulos de jornal, em caixa alta. Uma chamada à primeira página é o seu dia de glória.

Uma aventura dos cinco

Vieram a Lisboa, chamando-se «cinco rapazes da província» para dizerem a Lisboa que, para vergonha de Portugal, tinham criado uma editora no Algarve.
É que vieram contar, no Museu da República e da Resistência em Lisboa, onde se reuniram então para apresentarem a sua editora, que foi no Algarve impresso o primeiro livro nesta Nação, o Pentateuco e no mesmo Algarve, hoje, desertificado, não havia sequer uma editora.
Surgiu pois a editora deles. Chamaram-lhe «Gente Singular», por causa do conto homónimo do Manuel Teixeira-Gomes, de Portimão, escritor e presidente que foi da República, que como aperitivo saboroso, deram à estampa.
É deles, como primeiro livro, a tese do António Rosa Mendes sobre um fidalgote cultivado.
Estive ontem, eu que nem sou de Lisboa mas de Portugal tantas vezes envergonhado, no Algarve da sua editora e já tinham um segundo livro, de versos, do Fernando Cabrita.
São cinco rapazes que se julgam «da província», quando somos nós, os labregos de Lisboa, impantes de basófia a ter de aprender com eles. Paulo Custódio, Rogério Silva, Carlos Lopes, para além daqueles dois, se isso é a província, abram lugar para mim!

17.1.08

Aviso aos legisladores!

Qual caixeiro-viajante do Direito, em viagem do Norte ao Sul, ouvi na rádio que no Parlamento encomendaram dísticos para afixarem dizendo que é proibido fumar. Milhares de euros em dísticos.
Espantoso que os do local de onde saem as leis, tenham de ter avisos para não se esquecerem de cumpri-la, à dita lei segundo a qual é proibido fumar em lugar onde funcionam órgãos de soberania. Só se for porque o artigo 4º da refeida lei, ao falar em lugares proibidos, estabelece uma dicotomia entre lugares onde funcionam os órgãos de soberania e os locais de trabalho e o legislador esteja em grave dúvida interpretativa sobre o segundo caso não engloba o primeiro.
Citando, para melhor rir:
«1 — É proibido fumar:a) Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da Administração Pública e pessoas colectivas públicas; b) Nos locais de trabalho; c) Nos locais de atendimento directo ao público [...]»!

15.1.08

As sementes do fascismo

Há em cada país os limites do suportável.
Os portugueses habituaram-se à degradação da vida política, com escândalos sobre escândalos sobre a competência e a honorabilidade de membros do Governo e sobre figuras da sua vida pública. Já ninguém liga.
Os portugueses engrossam o pelotão dos que assistem às baixas pontuações dadas à eficácia da Justiça, à sua celeridade, à sua previsibilidade. Ninguém quer saber.
Os portugueses deixaram de ter Forças Armadas que sejam um símbolo da sua Pátria, por julgarem que elas são forças de polícia internacional ou corpo de baile para cerminónias comemorativas que meta palanque e desfile. Quase ninguém se importa.
Os portugueses não confiam no ensino nem na educação, nem conseguem impedir que haja filhos seus a agredir professores, nem que tantos deles saiam das universidades para o desemprego; são os mesmos portugueses que esperam nas urgências como se na antecâmara da morgue, a moral em baixo, a expectativa pouca, a demora imensa. Ninguém lhes liga.
Faltavam os bancos, onde estão os créditos de muitos ricos, as hipotecas da maioria dos remediados, as poupanças de tantos anónimos.
Varridos por operações de polícia, os bancos estão agora à mercê da sarjeta argumentativa e dos jogos de poder dos partidos. Eles também são hoje parte do grande circo.
O medo, o intrínseco medo pelo pé-de-meia, sem o qual nada há que resista instala-se, grosso, na classe média. Os donos do dinheiro, esses sabem quanto rende o caos.
Pode parecer que não, mas as sementes do fascismo estão aí: populismo e demagogia na política, insegurança e medo nas consciências, saudades do passado, rendição a quem vier e que mande nisto, o capital sem moral, o trabalho sem valor.

13.1.08

O sobressalto

«Há muito que se tornou um clássico da nossa política: um concurso que envolve o Estado é ganho, por mero acaso e feliz coincidência, por um ex-sócio de um ministro», escreve-se no editorial do jornal «Expresso» deste fim-de-semana.
Olho para as personagens envolvidas na história, que lentamente vai caindo no conveniente esquecimento, e lembro-me de há vinte anos, quando tudo começou, eram eles umas remediadas criaturas, as vidas modestas, as ambições imensas. Hoje estão todos ricos de importância, fortuna e poder.
«Alguém tem de romper o ciclo», acrescenta, em armas, o editorialista que num assomo, como se fosse de realismo militante, conclui: «eu sei que isto parece lunático, sobretudo em Portugal, mas enquanto não houver aquilo que Mário Soares costumava designar por 'sobressalto' - uma atitude radical e exemplar contra esta espécie de submundo de interesses económicos cruzados com a política, onde lóbistas subterrâneos conseguem o que querem, como querem, tantas vezes à custa dos contribuintes -, o desenvolvimento do país continuará em crise».
O que é preciso, pois, segundo o «Expresso» é um «sobressalto», como Mário Soares «costumava designar». Li e sobressaltei-me agora! Você, Henrique Monteiro, disse «Mário Soares»?

12.1.08

A memória do que li

Lembrei-me agora, sabe-se lá porquê que o Homero Serpa está morto. Fui visitá-lo através do seu livro de contos «Largo da Memória», lugar simbólico ali ao lado da Ajuda.
Jornalista desportivo, Serpa escreveu a biografia de Cândido de Oliveira, esse lendário inspector dos correios, fundador de «A Bola», agente secreto dos ingleses, por causa do que foi parar ao Tarrafal.
Esta sua obra de ficção é sobre «cursos de inquietação, de sofrimento, se esquecidas resistências, de sorrisos também», como a história do Messias sobre o qual «aos indiscretos» os vizinhos diziam que «ensandecera por ter livros e mais livros entranhados na mioleira».
Estou com ele agora neste bocado de noite, livro «das sacristias, onde ele jurava não entrar nem na posição horizontal», volume já lido em tempos, a rever-lhe os sublinhados, eu que leio sublinhando e pelo que sublinho concluo se valeu a pena ter lido.
Lembrei-me agora que tenho de acabar este livro, porque a memória do que li, leva-me à inquietação do que ficou por ler.

10.1.08

Cadeia

Neste país de más-línguas, ainda dizem que há excesso de presos! O Ministério da Justiça sempre o negou. Ora vêm, como o Ministério tem razão? Pois se até as cadeias se vendem, à melhor oferta...

O eufemismo

Miguel Beleza disse esta noite numa entrevista televisiva que é uma pessoa que costuma ser escutada com muita atenção. Falava de si próprio, se calhar para si próprio. Só podia ser e num momento de falta de atenção.

6.1.08

Morreu o Pacheco

Morreu o Luiz Pacheco.
Quanto pequeno-burguês e grande burguesa não faziam da sua escrita onanismo secreto, sob os lençóis mornos da conveniência social, em gritinhos de abafada volúpia de salão, por também terem lido, ó gozo libidinoso, minha querida, «o Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor», como se não fosse essa prosa o seu pesadelo do «como morrerei», o seu epitáfio no desespero, o «descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cim,a o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridões, loucura».
Morreu o Luiz Pacheco.
Quanto predador de antiqualhas vendáveis, farejador de raridades impressas, corretor de agiotagens bibliográficas, não açambarcou, avaro, filisteu, os seus livros, fazendo da magra tiragem negócio futuro, e ele «acantanonado em locais de asilo forçado» a rir-se com o «escrevi muito. Por necessidade da pedincha, aguentar a sobrevivência, conversar com Amigos distantes», fartai pois, vilanagem livreira!
Morreu Luiz Pacheco de quem Rui Zink disse que estava doente há muito, de um grave bacilo que se chama «a literatura portuguesa», que conhecia como poucos, rasgando livros à força da raiva de os ler.
Morreu, morreu sim, e a Ângela Caires a ter dito em 1991 que «há 40 anos que o Pacheco se "moribunda" e está a enterrar-nos a todos» e ele a gozar em 1962 «tentando uma nova experiência, entre a morte e a vida, o mesmo é dizer, no duplo, ambíguo papel de moribundo-convalescente».
Foi-se o «repórter sensacionista» na «cidade mexicana de Mitrena», o dos «textos de guerrilha», da «literatura comestível», do «sonâmbulo chupista», o do grupo de amigos «empenhados em desempenhar» a sua companheira máquina de escrever.
Morreu, enfim, neste mundo em que «há gente feliz a mais» o dos amigos do crava «vintes» e «cenzes», o do «recebida carta e nota anexa; esta foi um maná para Tribu dos Pachecos», náufragos na jangada promíscua de uma mesma cama, pelo Massamá da vida.
Está morto. Surgirão agora, no ritual abjecto da rememoração, os necrófilos untuosos, os doutorais arquivistas, dissecando-lhe da criação as tripas, do delírio a mioleira, do triste amar o seco sexo e jogando-o, enfim morto, para a gaveta das anedotas bonacheironas, que amanhã é segunda-feira e continua por aí a variante reiterativa de «o caso das criancinhas desaparecidas».

5.1.08

Condução perigosa

O Direito deve ser uma coisa que as pessoas conheçam, compreendam, interiorizem e possam, por isso, aplicar como o ar que respiram.
Mas não. O Direito tornou-se num mundo que já nem os juristas compreendem. Já nem falo pela qualidade complexa do mesmo ou confusa das suas prescrições. Falo em função desse maravilhoso reino da quantidade.
Leio por aí que «O Conselho de Ministros aprovou ontem uma proposta de revisão do Código da Estrada». Outra?! Mas alguém já se deu ao trabalho de contar quantas vezes foi mexido o desgraçado Código da Estrada, que é um dos se supõe mais corriqueiro, mais de todos nós, mais do dia a dia?
Se houvesse multas para a condução legislativa, era caso de se aplicar uma, já não digo por excesso de velocidade, sim por andar aos zig-zagues.

3.1.08

No Casino das leis

O Director da ASAE foi apanhado a fumar num Casino e isso deu escândalo.
O Director da ASAE acha que a lei anti-tabágica não se aplica aos que fumem nos casinos e isso está a ser escandaloso.
O Director-Geral de Saúde acha que o Director da ASAE não terá razão e eis o escândalo a aumentar.
O Director-Geral de Saúde atreveu-se a contradizer o Director da ASAE e o escândalo deu em escandaleira.
Certos senhores deputados acham, iluminadamente, que para resolver um escândalo grosso nada melhor do que um escândalo maior ainda: se há um Director apanhado em flagrante de ilegalidade duvidosa, altere-se a lei.
Para já o Director-Geral de Saúde vai ao Parlamento explicar-se.
Uma só voz ecoou nos Passos Perdidos a clamar contra esta imoralidade. Chama-se Antónia de Almeida Santos. Um abraço, de parabéns pela coragem.

2.1.08

Já fumega!

A esta hora já o país inteiro se ri à sucapa, pois ao que parece o fundamentalista director da ASAE foi apanhado a fumar num sítio onde se não podia fumegar.
A coisa ganhou foros de escândalo porque a ASAE é actualmente o braço armado do Estado no que respeita à nova moral higiénica e sanitária.
É, na sua moderna expressão, a revivescência do velho dito anti-clerical: «faz o que eu te digo, não o que me vires fazer».
Ao menos o dos gatos fedorentos foi filado pelo balão em flagrante de litro, tem melhor defesa: quem goza com a ordem, bem pode descuidar-se com a lei.

31.12.07

Fogo!

Daqui a pouco, quando a pirotecnia inundar de fogo os ares feéricos, entra em vigor a proibição de fumar. Há um provérbio que diz que não há fumo sem fogo. Urge acrescentar: mas há fogo sem fumo.

O novo senhor da Justiça

Ao terminar o ano civil, o ministro da Justiça tem razões para estar contente, cercado de pessoas que parecia não conseguir tornar felizes.
À partida, muitos pensaram que o seu passado iria liquidar-lhe o futuro. Não sabiam, ingénuos, o que é a política.
No meio do percurso, muitos pensaram que o primeiro-ministro se iria desembaraçar dele, remodelando-o. Ignoravam até que ponto, a teimosia vence, e José Sócrates é, no filme complexo da governação, o chamativo trailer da propaganda, reiterativo, simplificador, vocativo.
Por pouco tempo aliás, muitos imaginaram que o então ministro da Administração Interna, António Costa, o iria colonizar: está edil, numa Câmara falida, fora da órbita governamental.
Alberto Bernardes Costa continua, de pedra e cal.
O Governo decretou, como política oficial, o combate às corporações e seus privilégios.
O ano termina, com o Bastonário cessante a elogiar-lhe os códigos, as leis a sucederem-se em catadupa, nenhuma até agora revogada.
Claro que há os vociferantes críticos. Mas nenhum conseguiu, até agora, que a política se alterasse, apenas que o discurso amaciasse, o ar carrancudo substituído por um esgar condescendente. Lamentavelmente, ou estão anémicos, ou deprimidos ou comprometidos.
O toque final do sucesso da política do Governo na área da Justiça, deu-o a entrevista de Pinto Monteiro ao Correio da Manhã. Finalmente uma entrevista de Procurador-Geral, sem ruídos esquisitos no telefone.
O jornal, que agora se transformou num diário de referência e o mais lido no país, que os ditos intelectuais gostam de ler mas não de mostrar, eleva-o a a homem do ano.
A partir desta entrevista histórica, uma coisa fica clara: o PGR é quem responde pelo sucesso ou insucesso do combate ao crime, pela segurança da cidadania, em suma, pela justiça dos tribunais. Sobre tudo isso, não mais se irá mais questionar o ministro que da Justiça usa o nome. O contrário é o que vai suceder. Pinto Monteiro põe-se a jeito com uma frase: «o poder político pode e deve inquirir o procurador sobre a Justiça».
Emfim, em termos de justiça, os jornais primeiro, os eleitores a seguir, que telefonem a Pinto Monteiro. Ele já disse, nessa entrevista, que «o que dá prestígio ao Ministério Público é a opinião do pedreiro, do médico, do taxista». Nem imagina quanto isso agrada aos políticos, por falar em pedreiros, quando chegar a hora da pedrada, a intifada popular sobre alguma justiça que há.

30.12.07

A privada

«O Banco de Portugal era uma instituição privada, que obedecia ao Governo». Assim sucedeu no tempo em que Alves dos Reis praticou a sua burla. Di-lo Francisco Teixeira da Mota na página 45 da sua notável biografia desta extraordinária personagem, que estou a ler, pois o autor amavelmente pediu-me que lhe apresentasse a obra.
Hoje, a dar crédito ao que por aí se diz, o Banco de Portugal não é uma instituição privada.

27.12.07

O banco

Estar num banco de Hospital e ver entrar a vida e a morte, agarrados a uma maca, as bocas encovadas por desdentação, ali já num murmúrio de respiração, além no sufoco esganado que os olhos traduzem num grito silencioso de acudam.
Estar num banco de hospital feito consultório de ocasião pelos que se tentam evadir da fila dos condenados do que se chamam, com amável eufesmismo, as listas de espera.
Estar num banco de hospital e ouvir pedir comida e ouvir dizer que ja não há comida.
Estar num banco de hospital, entre os que gritam e os que já nem sabem gritar, no meio, o passarinhar errático do pessoal de bata branca, de bata azul, de bata que já nem tem cor.
Estar num banco de hospital pela noite dentro e à chamada de «médico aos directos», acorrer, como se em passeio público, a medicina rotineira ao encontro do trivial morrer-se, no meio a probabilidade de ainda se cruzarem a tempo.
Estar num banco de hospital, onde se nasce, onde se morre, onde se sente o que é viver por enquanto.

25.12.07

As frases aladas

«O que queres que eu te ofereça, tu que nunca queres nada?», perguntou-me ela, desejosa de se livrar do acto de dar. Nenhum outro como quem é nosso para não saber o que queremos, como se julgasse termos já tudo. «Dá-me o Lobo Antunes», respondi-lhe, depois de remoer, como se me faltasse tanta coisa, na imensidão de ter tão pouco. «Qual deles?», inquirou ela, na sua juventude cultivada, querendo falar dos muitos livros do António, nem se lembrando que existe, pelo menos, o João, também médico, também escritor. «Qualquer um, tanto faz!», respondi-lhe, talvez por ser Natal e eu querer, enfim, reconciliar-me com uma escrita que, sem saber porquê, tenho desprezado, por não gostar, quase sem o conhecer, da pessoa do seu escritor.
A noite passada comecei a ler, amigável, mas desconfiado. Teimei em seguir no pequeno livro, todas as linhas, quase soletrando cada uma das suas muitas palavras, rendendo-me, reconheço, ao modo tumultuoso de fazer sentir, admirando, é verdade, aquele torrencial desfilar de frases aladas , vibrando, enfim, com o estilo, mesmo quando errático, perdoando-me pelo mal que pensei e absolvendo-me do que venha a pensar.
Foi então que, depois de lidos chorrilhos infindos de palavrões, surgiu o «quando é que eu me fodi?, perguntou-se o psiquiatra». Parei aí, lembrando-me do pobre do Vergílio Ferreira, que deixou no seu diário que aquilo era uma escrita de «caralhices» de um homem «com entradas de Lobo e saídas de Antunes», e eu ainda na fase lupina dessa prosa hoje aureolada.
Ia na página 26 da edição da «Memória de Elefante», texto que uma «comissão» consagrou como sendo a «ne varietur», imortalizando a obra na sua fixidez tipográfica, fora ela o mausoléu de si própria, enfim morta!
Mas não desisto e hei-de lê-lo todo! Hoje não, porque é Natal e o Menino Jesus, coitadinho, é inocente e tem a vida toda para aprender com os romanos impropérios e com os filisteus outras obscenidades. Terminará na cruz, sem se perguntar como se perguntou o psiquiatra. Mas hoje, ele é pequenino e dorme aqui a meu lado, desde a minha infância, entre palhinhas, a vaca, o burro e uns pais que foram-no, afinal, sem o terem sido sequer, tão misteriosamente quanto a pomba, que seria ele não o sendo, todos o mesmo, todos divinos, um deles humano.

23.12.07

Os deserdados da rua

Escrevendo sobre a sua família, os de Médicis e falando de Ana Luísa, eleitora palatina, que faleceu em Fevereiro de 1743, Lorenzo, homónimo do «Magnífico», lembra a ingratidão de Florença em relação aos seus, que a eles tanto deve pelo mecenato e pela generosidade sem os quais ela mais não seria do que uma cidade como a de uma província qualquer: «a Ana Luísa não foi dedicada qualquer rua ou praça e nenhuma estátua recorda ao passante o que a cidade deve a esta mulher».
Última da estirpe, esta estupenda criatura legou uma colossal fortuna, tal como os seus antecessores haviam patrocinado os grandes vultos do Renascimento, confundindo-se com ele.
Mas é no momento em que, neste livro singelo, leitura de domingo, se refere como o monge Savonarola, em nome da teocracia, que fazia dele o enviado da Salvação, e enlouquecido por uma moral rígida que diabolizava o hedonismo, a fruição e o prazer, se apossou do poder, com o apoio da rua, de cujos deserdados se fez voz, em 1494, para ser queimado vivo, logo cinco anos depois, pela mesma turba que o glorificara como se ao Messias, na Praça da Senhoria, que se entende o que é o ilusório poder e a vã crença na fidelidade humana.

12.12.07

Compulsivo maledicente

Houve um leitor que, com amabilidade, me deu conta de se ter chocado, ao ver-me usar a expressão «compulsivo maledicente» a propósito do escritor Jorge de Sena.
Revi o que escrevi e peso agora o que disse. Terei sido impensado e por isso injusto?
Jorge de Sena foi uma escritor com valor, na prosa, na poesia. Não conheço toda a sua obra, mas o que li causou-me viva impressão, pela força motora das palavras, pela forma de escrever. Em nada o diminuo, a obra só por si aumenta o homem.
Quando vi na Cinemateca o filme que Joana Pontes realizou sobre a sua pessoa, já eu estava hesitante. É que há aspectos na sua escrita e vida que me ofenderam a sensibilidade.
Primeiro, a introdução que escreveu à poesia de António Gedeão, em que, sei lá se contagiado por serem ambos homens de ciência, se entreteve a contar na obra apresentada versos e palavras, chegando à média de dezasseis versos por poema, cálculo feito a partir de uma fracção que começa com 5px8 v+4 px12 v+5 px 16... e assim sucessivamente, praticamente assassinando o que há de beleza profunda e singela na poética do autor da Pedra Filosofal.
Gedeão, que fora, enquanto Rómulo Vasco da Gama Carvalho, professor de Sena no Liceu de Camões enviara-lhe aliás em 1956, de modo anónimo, o seu livro de estreia «Movimento Perpétuo», ansioso por um comentário. Tornara-se-iam amigos.
Depois, há a ensombrar a meus olhos a imagem de Sena, o ter-se permitido, ao escrever em 1959, um ensaio sobre a poesia portuguesa, tirado em livro pela Ática - que aliás citei aqui - ter começado com um «devo dizer, para começar, que não sou grande leitor de poesia, naquele sentido em que o são quantos devoram os produtos poéticos (...)», o que ainda se tolera, para logo rematar com «o tempo não me sobra para viver recluso na poesia dos outros». Não consigo desligar este modo de dizer de uma certa soberba intelectual, que relativiza, pela forma de analisar, o valor da análise.
Finalmente, foram os «Diários», editados por Mécia de Sena e impressos pela Caixotim em 2004, onde, atónito o vejo, aos trinta e quatro anos, a recusar assinar uma petição contra a Censura para não prejudicar um convite do Governo para ir à Índia, em missão oficial, viagem de que acabou por não beneficiar e logo a seguir a acrescentar coisas deste teor: «Telefonou o Saraiva a contar que esteve preso desde domingo até ontem. Fora com mais 50 pessoas ao aeroporto fazer recepção à Maria Lamas. Foi tudo engavetado em Caxias, de onde ele saiu, mas onde ainda muitos ficaram. Claro que o nosso Silas está lá. E também, o Keil e Maria Keil, e O'Neill, o Cortesão Casimiro, etc., etc. Em todo o caso creio que, se os não tivessem prendido - o que é uma coisa ridícula - teriam ficado desconsoladíssimos, pelo menos alguns como o Silas».
Ao ler isto, caiu-me em cacos o mito do anti-fascista sem mácula e o humano, demasiado humano, ocupou, desolador, o seu lugar.
Espantará assim que, falando do António Alvim, Sena diga que «do Leonardo, este herdou a desvergonha, como o Álvaro Ribeiro, a velharia teocrática. O Marinho é que herdou a retórica provinciana»?
E não será lógico que fale dos «Cidades, Nemésios, Prados Coelhos e Kins, como «cães falhados mesmo como cães»?
E coerente quando vitupera contra «O Avante inundíssimo» e junte provocatoriamente, referindo-se aos comunistas presos que: «é pena que as pessoas não mereçam as perseguições que as dignificam»?
Digo mais, ou ainda passo por ser eu o compulsivo maledicente?
Obrigado, meu leitor. Vamos concluir os dois, tal como o Fernando Pessoa que nunca nos iludimos, porque felizmente nunca cegámos!

4.12.07

Ademanes solipsistas

Hoje há um blog que aproveita para desancar na Maria Filomena Mónica e num livro que ela terá escrito sobre o Cesário Verde. Na sua linguagem acerada acusa-a de «caprichismo burguês» e «ademanes solipsistas». Sobre o Cesário em si diz que o pobre teve uma «curta vida, aliás, pouco entusiasmante», «inexcitante», e que ela se apaixonou pelos seus versos como uma «previsível adolescente».
Já Jorge de Sena, um compulsivo maledicente, em 1951 havia escrito, num estudo dedicado à poesia portuguesa, editado pela defunta Arcádia que, o poeta era expoente do «romantismo de capelista».
O facto de Fernando Pessoa ter escrito no Livro do Desassossego que «vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele», não conta.
«Escarnecido em vida», Verde ficou amarrado ao facto de ter sido filho do dono de uma loja de ferragens.
Hoje lá está na rua número 7 do Cemitério dos Prazeres, com a naturalidade de quem de todo o natural fazia versos, que em vida nunca viu aliás publicados, um camponês perdido numa Lisboa de gente que fala de livros dizendo ufanamente «que não tenciono ler».

25.11.07

O músculo cardíaco

Uma zanga pessoal entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares deu azo a uma crítica sulfúrica feita por aquele ao último livro deste. Um amigo meu que leu o livro diz que há nele mais outras imprecisões históricas, geográficas e de referência do que as que cita a valente crítica, citando-me algumas, desde a descrição de locais, à data em que surgiu uma certa marca de charuto fumado por uma das personagens.
De tudo isto, retiro uma pergunta: não tivesse havido a zanga, haveria a crítica?
Ou, talvez numa variante mais geral: quantos livros, imprecisos, mal escritos, insuportáveis de mediocridade, não andam por aí impunes, porque o crítico se não zangou com o autor?
Ou, agora num diferente e provocador modo de dizer: quanta crítica amável e complacente não coexiste com o inaceitável escrito e o mal amanhado estilo, por não haver zanga mas amizade, ódio mas amor?
Nos tempos da «Crónica Feminina», revistinha barata para corações pobres mas palpitantes, havia o «consultório sentimental». É isso que dita os tiques de alguma da nossa cultura e do nosso modo de ser crítico. O pensarmos também com o músculo cardíaco.
No meu caso assumo-o: gosto de ler o Vasco Pulido Valente, apesar de ele me irritar, nunca leio o Miguel Sousa Tavares, precisamente pelo facto de ele me irritar.
Eu sei que é um sentimento irritante este meu, mas só uma coisa me salva: nunca me zanguei com nenhum dos dois, pois não os conheço pessoalmente, a um só pela prosa, aos dois pela pose. E chega.

8.11.07

E viva o maxismo!

«Se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso e que trabalhem os doentes». Acordei com esta, pelas cinco e tal da manhã. É do Max, não do Marx que foi causa de grandes desilusões amargas a muitos da minha geração, mas sim do Max, o risonho madeirense autor daquele notável conceito feito canção que dá pelo nome de «A Mula da Cooperativa». Tal e qual. A mula na cooperativa, a que deu dois coices no telhado, «ai és tão linda».

3.11.07

Militância diária

«O Partido não encerra para férias, está no combate diário contra estas políticas, no esclarecimento e na mobilização das populações em defesa dos serviços públicos de proximidade e com qualidade, contra as políticas caritativas». Só podia ser o PCP, na sua actividade militante. Lê-se em O Militante, o número dedicado à Revolução de Outubro, os dez dias que abalaram o mundo, num artigo escrito no Verão, a propósito da 31ª Festa do Avante.

30.10.07

Poucos serão os escolhidos

O Presidente da República diz que se recusa a intervir na questão das escolhas para o Conselho de Estado. Acto de prudência e distância. Por ele já tem as suas escolhas feitas, a de Manuel Dias Loureiro, por exemplo.

25.10.07

Pinto Monteiro e a verdade

Aquilo em que muitos viram uma ligeireza do PGR numa matéria que o PR considerou «delicada», foi recuperado como se tivesse sido um acto intencional praticado de caso pensado para gerar um «alerta» sobre a questão das escutas telefónicas. Daí a AR convoca o PGR para lhe pedir explicações sobre o assunto.
O momento é exemplar.
Pinto Monteiro é juiz conselheiro, desempenha funções num dos lugares de vértice da Justiça portuguesa.
Exige-se-lhe probidade, honestidade, e não duvidamos que tenha tais qualidades em altíssimo grau.
Por isso, quando se sentar ante os políticos deputados, para se explicar, deve marcar a diferença começando por clarificar: ou aquela do ruídos no telemóvel lhe «saíu», ao baixar as guardas da atenção ante a amabilidade dos entrevistadores, ou é, como prontamente disseram alguns dos exegetas do seu pensamento, algo que disse pensando no que dizia e nas consequências desejadas do dizer.
Não há outra via: a verdade está diante dele, como um espelho ante a sua imagem! Se fosse mais um dos muitos políticos, Pinto Monteiro teria várias formas de dar a volta ao dito, ao sentar-se entre os deputados. Esperamos que não o seja e diga o que foi tal como é!
Entrar em sofismas argumentativos e justificativos iria torná-lo igual ao que não desejará ser.

23.10.07

O SIS e a escutas

«Em Portugal, só a Polícia Judiciária por ordem dos juízes e os serviços de informações podem fazer escutas legais». Disse-o o professor Marcelo Rebelo de Sousa, num momento de comentador. Ou é verdade e é grave, ou é engano, e é grave. Em qualquer caso, não tem importância.

21.10.07

Ruídos estranhos

O Dr. Pinto Monteiro ouve ruídos estranhos no telefone e não está seguro de que não tenha o telefone sob escuta.
Claro que o Dr. Pinto Monteiro podia queixar-se ao PGR e pedir-lhe providências. Mas será que ele acredita que o PGR tem força e poder para conseguir evitar que lhe ponham o telefone sob escuta?
Fiquei com a ideia, ao ouvir falar na entrevista que deu a um semanário, que não acredita muito e receará que a sua queixa possa ficar à mercê de algum barão, duque ou marquês do Palácio de Palmela, onde, segundo nos disse, ainda impera a ordem feudal.

20.10.07

João, vamos fazer um jornal

«(...) João Coito era um conservador, eu fui-me tornando um radical. João Coito era um católico, eu senti-me abandonado por Deus. João Coito escrevia maravilhosamente, eu ainda ando a aprender a escrever.
João Coito era meu amigo e eu, amigo João Coito, estou triste desde o dia em que o perdi: uma tristeza feita de saudades, nascida na revolta ante o inevitável.
Eis a vida. Um dia encontramo-nos neste processo em que a Vida faz brotar vida nova das vidas que se foram.
Talvez possamos fazer um jornal: será o João o meu Director, dê-me então uma coluna, voltamos ao duro combate pela decência social, contra o vira-casaquismo, pelo esmero de maneiras na vida pública, por uma república de homens-bons» (...) .
Escrevi, para que saia na próxima 3ª feira no jornal «O Diabo», de que foi regular colunista, depois de uma vida no «Diário de Notícias», este momento de tardia homenagem, um artigo de que aqui fica um excerto, «À Esquina da Memória».

19.10.07

Rule Britannia

O caso Maddie é um assunto criminal sujeito às autoridades judiciárias, envolvendo cidadãos privados ingleses. Só que como são pessoas muito bem relacionadas com o primeiro-ministro britânico, este permitiu-se falar ao primeiro-ministro português, que é actualmente o presidente da União Europeia, sobre o assunto e ambos consentiram que isso fosse conhecido publicamente, com grande ênfase, não vá o recado passar despercebido.
Dizem que a conversa foi só para se certificarem que as polícias dos dois países estão a cooperar bem.
Claro que há todos aqueles casos dos anónimos e dos malquistos em que a justiça portuguesa está a receber uma cooperação péssima das justiças de outros países. Mas disso não cuidam os primeiro-ministros.
Quanto às senhoras autoridades judiciárias e policiais portuguesas estão muito caladas, como calados estão todos os que encontram em muito menos a sombra de intromissões governamentais em tudo.
O exemplo está dado! Se houvesse uma bandeira para o Estado de Direito, deviam hasteá-la hoje a meia-haste.

15.10.07

A guerra em vão

O Joaquim Furtado fez em televisão uma série de episódios que vão rasgar feridas que estão ainda mal saradas na pele dos portugueses. Trata-se da guerra, a do Ultramar, a colonial, a de libertação, a guerra. Uma guerra em que ele procurou não glorificar um dos campos contendores, o que corre o risco de desagradar a todos, aos que sentem merecer em troca do sofrimento os louros de uma medalha, para que tudo não haja sido em vão.

14.10.07

Assobios em Fátima

Houve quem se abismasse porque os peregrinos de Fátima, cansados de esperar pelo momento de poderem entrar na nova basílica, apuparam e assobiaram. Ao domingo é assim no futebol, qual dia será assim na Santíssima Missa. Na Cova da Iria foi apenas a zona do meio entre a reverência devida a um Santuário e a feira pagã dos pagadores de promessas, mercadejando com Deus favores em troca de oferendas. O culto de massas tem destas: quem promete milagres vende impaciências.
Uma coisa é a fé pura, a crença na salvação, a esperança numa vida melhor, a redenção pelo sacrifício. Outra é a massificação de um lugar, a ocupação do templo, o divino espiritual à mercê da boçalidade do profano.

13.10.07

Adeus, amigos

Levantei-me tarde, porque mais do que precisar, senti que merecia dormir. Acabei agora de almoçar, o meu garoto mais novo a partilhar comigo o gosto de não gostarmos de alface a não ser sem tempero, a adorarmos carne assada fatiada mas fria, a promessa do irmos daqui a pouco dar uma volta pelo jardim aqui em frente, e passarmos pela loja do chinês, em busca de frascos para o armário da nossa despensa.
Sentei-me a folhear jornais que compro para os olhar em diagonal, o mundo que me interessa reduzido a muito pouco.
Foi então que tudo aconteceu. Atónito, vejo numa página a fotografia do Fausto Correia e a do João Coito. Mortos. Mortos como o Raúl Durão que conhecia pior. Não sabia, ninguém me disse, não li, sufocado de trabalho, soterrado de obrigações.
Uma densa tristeza povoa-me a alma. Por segundos vi-me ali, morto também, velando-lhes o corpo ido, mais mortos do que é possível morrer-se.
Conheci ambos. Do Fausto recebia sempre uma palavra todas as vezes que lhe escrevia, sempre que era uma ocasião. Maçon, conhecemo-nos independentemente disso, socialista, admirava-o mesmo quando eu já renegava o partido que do socialismo usurpa hoje o nome. Via nele a arte de viver este mundo, disponível para todos os mundos possíveis, a bonomia feita acção, a Coimbra boémia, sedutora como miragem.
Do João Coito recebi sempre uma palavra de estima, de apreço, de admiração, mesmo quando soube que lhe era difícil manifestá-la. Católico, consevador, ensinou-me o que é escrever, o que é saber carregar a fundo sobre o injusto e o indesejável, com elegância, boas maneiras e requintada educação. Combinámos jantar, o convite mantinha-se, adiava-se, lembrava-me disso cada vez que a minha mãe me telefonava, orgulhosa, a dizer «José António, o João Coito, falou outra vez bem de ti».
Vou sair. Talvez o jardim, a loja do chinês, os frascos para a minha despensa, me ajudem por uma horas à ilusão que é estar-se ainda vivo, perdido o momento de escrever ao Fausto, de telefonar ao João, adeus amigos, que isto de se estar triste é uma coisa que não mereceis. Adeus, adeus.

5.10.07

O dia do nada

Ainda a comemoração do 5 de Outubro: soube agora que o primeiro-ministro chegou tarde ao acto, já o Presidente da República discursava, a nova direcção do PSD não sabia do convite, nem sabia que tinha de lá ir. São na aparência falhas de protocolo, são na verdade, a imagem da degradação a que chegou o cerimonial público. São as condecorações à dúzia, o cumprir oficial das efemérides. À falta da adesão popular, eis os militares, as forças militarizadas, os sapadores bombeiros, qual corpo de baile. Os discursos têm menos a ver com o que se comemora, são momentos para os políticos darem recados uns aos outros através da comunicação social. Foi assim com o 28 de Maio, está a ser com o 25 de Abril, com o 10 de Junho. Um destes dias, inaugura-se o dia do nada, o zero absoluto dos que com nada se importam.

Uma praça vazia

Ao ver, vazio, o Largo do Município, as altas figuras do Estado com um ar de enfado neste dia feriado, o Presidente da República a discursar, hirto, para um corpo de GNR's, arregimentados para o efeito, vi a que ponto estamos em matéria de fervor republicano.
A rematar o seu «directo», a SIC Notícias deu-nos o caricato: o Chefe de Governo, enfim aliviado da pose comemorativa, a brincar, como se com um pendericalho, com a medalha da Cidade de Lisboa que António Costa trazia ao peito. Riam, todos, prazenteiros, com o fetiche, excepto Jaime Gama, que aprendeu a substituir o riso por um esgar.
Acho que se os monárquicos tivessem organizado uma romagem para evocarem o regicídio eram capazes de ir mais mobilizados e em maior número.
A República deixou de ser comemorável, por uma razão: ninguém se apercebe hoje que ela existe, tal como todos ignoram que o senhor de barbicha que a anunciou se chama, entre os Relvas, Miguel Relvas. O «devorismo» tornou-nos semelhantes ao agonizar da Monarquia.

1.10.07

Sexo na cidade

Eu mal vejo televisão, não por pedanteria, mas por ter pouco tempo e preferir ler, quando posso. Sou como aqueles fumadores passivos, vejo a televisão que estão a ver nos sítios onde estou, a maioria das vezes como ruído de fundo.
Outro dia foi-me impossível não notar. Umas senhoras falavam do sabor do esperma dos homens com quem tinham estado.
Era uma série de renome, ao que me apercebi, que traz as mulheres pelo beicinho, e que muitos homens não perdem.
Eis os serões nocturnos, a televisão no pico de audiência, a verdadeira hora de ponta.
Hoje de manhã ouvi na rádio que o Governo quer fomentar a natalidade. Não há pois esperma a desperdiçar. A televisão, nisso, a continuar assim, não ajuda os superiores interesses do país.

30.9.07

Um mimo

Segundo leio numa bela forma de dizer no site da TSF «morreu ontem, em Paris, o pierrot do século XX. Nasceu como Marcel Mangel, em Estrasburgo no ano de 1923, e morre como Marcel Marceau em Paris, em 2007».
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.

26.9.07

Encostados à parede

Numa parede em frente a minha casa, alguém escreveu com fina ironia e inteligente humor: «tu não és o conteúdo da tua carteira». Todos os dias passam em frente a essa parede lúgubres criaturas, os resignados com a vida, conformados com o presente, indiferentes ao passado, receosos do futuro. Transporta-os a Carris para empregos que nos fariam sentir infelizes e onde ganham o pouco com que alugam a ilusão de felicidade. Hipotecados à banca por causa dos apartamentos onde dormem, são magros de conteúdo como a magreza das suas carteiras. As suas vidas desmentem o que os seus olhos lêm, fora do mundo do ser e estranhos ao universo do ter.

24.9.07

Ao passar pelo DCIAP, um susto!

Hoje pela hora do jantar, ao subir a Rua Alexandre Herculano, passado o SIS, onde se vê quem, sendo secreto é topado a entrar, e querendo ser discreto é surpreendido a sair, estando já no topo da rua, antes de chegar ao célebre Chafariz dos tiroteios revoltosos, ainda sem a sede do Partido que está no poder à vista, no passeio oposto à escondida sinagoga, eis uma série de carros de exteriores das televisões, de parabólicas em riste.
Como é ali o DCIAP, dei um salto. Pronto! Acabou de vez o segredo de justiça, pensei: agora os processos criminais estão a ser transmitidos em directo e ao vivo, qual reality show, os procuradores e os defensores, os arguidos e as vítimas num verdadeiro prós e contras, a audiência - porque não? - num jogo de apostas sobre quem sai acusado ou se livra com um arquivamento, os comentadores do costume - os que têm opinião sobre tudo o que há neste mundo terreste, aquático, subterrâneo e inter-galáctico - a botarem sentenças.
Intrigado, liguei a rádio, até por haver um magote de jornalistas à porta: falavam num recurso de uma condenação. Os meus piores augúrios, por um momento, pareciam confirmar-se.
Mas não, afinal era ali mesmo, mas na Federação Portuguesa de Futebol, que partilha com o DCIAP a porta do lado. Gilberto Madaíl falava sobre Luis Felipe Scolari. Portugal futebolístico apoiava o recurso do Filipão.
Vá lá. Desta, a culpa não é do Código de Processo Penal, sou eu que já ando a ver atrás de cada folha da floresta jurídica uma cascavel.

23.9.07

Santana a sério

Como tenho pouco tempo para ler jornais há coisas, sobretudo as da política, que me escapam, ou que leio de soslaio. Pareceu-me que Pedro Santana Lopes tinha falado de não sei o quê «a sério». Afinal era para dizer que «ou se faz oposição a sério na AR ou não vale a pena estar lá"». O jornal onde li acrescenta que «Pedro Santana Lopes admite avançar para a presidência do grupo parlamentar do PSD». Aí sim, eu pergunto: a sério? Mesmo?

8.9.07

A CP e o sutiã

Uma pessoa pensa que um blog é um diário e na prática pode ser. Mas exige um computador ou um telefone pelo qual se enviem os textos. Ora um telefone arranja-se e eu tenho um. Exige sobretudo tempo, mas tempo sempre se inventa, porque um post escreve-se num minuto. Exige-se um estado de alma, mas isso também se adapta, pois da escrita intimista à risonha, da revoltosa à desesperada, há de todos os géneros.
Posto isto, ontem não escrevi. Porquê? Porque vim na CP onde a linha telefónica é como aqueles sutiãs que dão um toque de malícia feminina expondo na mulher, sem alças cortando a extensão do visual, os ombros nus: cai-cai!

6.9.07

A CP faz impressão

A CP está um prodígio tecnológico! Abre-se o site e compra-se um bilhete on line. Vê-se o horário, escolhe-se o comboio, selecciona-se o lugar, à janela ou na coxia, com ficha telefónica para o computador nos comboios Alfa, na carruagem um ou na dois, no sentido da marcha, ou às arrecuas. Paga-se, enfim, por cartão de crédito. Tudo no computador, sem sair de casa, sem «bichas», sem «multibanco fora de serviço». Depois o bilhete é enviado por email ou por sms para o telefone.
Chega-se enfim à carruagem e eis o simpático revisor, pois já não temos pela pela frente o passado «trinca-bilhetes», mas alguém que olhando para o écrando telemóvel confere com a lista que traz com o que a CP nos enviou digitalmente e nos responde um «sim senhor, obrigado, nuito boa viagem». Às vezes, por precaução pede-nos, sempre amável, «o BI, desculpe», só para ter certeza de que nós somos nós.
Admirável mundo novo, ferroviário na marcha, electrónico na bilheteira.
Agora exprimentem só a cancelar a viagem, porque não vão viajar. On line já não pode ser. Chega-se à bilheteira, espera-se a vez na «bicha». O homem que atende já não é tão simpático: «Reembolso, tem de preencher o formulário!». Venha ele. «Leva alguns dias». Não faz mal! Quantos? «Não posso dizer, sei lá. E tem de mostrar o bilhete!». Está aqui no sms... «Não vale! Tem de ser impresso!». Mas eu aqui não tenho impressora! «Isso de estar aí não interessa, só impresso». Mas, se eu viajasse o que está aqui no telemóvel valia, era só mostrar ao revisor!. «Olhe lá, já lhe disse, ouviu, não interessa nada disso, o nosso regulamento exige que o formulário leve o bilhete impresso, o que é que quer mais!». Eu? Mas os senhores no vosso computador sabem que eu tinha bilhete e ia viajar, para quê o impresso e, pode ver, está aqui no telefone o bilhete, com o código da compra, o número do lugar. «Olhe desculpe, ou tem bilhete impresso, ou não há reembolso!». Mas eu aqui em férias não tenho impressora! «Ah! E tem de pagar quatro euros e meio!».
A CP está um prodígio tecnológico de vender impressoras! A jactos de tinta, em esguicho, que um tipo passa-se com esta gente e com este país.
P. S. Reclamei da CP para a CP! Veio a resposta da CP, rápida, eficiente, on line, no dia seguinte. De acordo com o regulamento da CP teria de juntar bilhete impresso e pagar à CP uma «taxa de reembolso», para a CP me reembolsar! Descarrilei de vez.

A banca rota!

Há coisas que uma pessoa lê e a boca abre-se-lhe até à orelhas. Vejam este mimo de prosa: «A Associação Portuguesa de Bancos (ABP) "não está preocupada" com a vaga de assaltos a instituições bancárias, garante João Salgueiro. Contudo, sublinha o presidente da APB, "o país deve estar preocupado", porque estamos perante "um problema público, um problema de polícia, um problema de criminalidade"».
Reproduzindo o espírito da notícia, a imprensa titulou «"Assaltos a bancos devem preocupar o paíse não a Banca".
Das três uma: ou o Dr. João Salgueiro se baralhou e a esta hora já se arrependeu de não se ter explicado convenientemente à imprensa, ou o jornalista tresleu o que ouviu e baralhou-se ao escrever, ou então, como diria o Dr. Alberto João Jardim no seu estilo impune de falar «está tudo grosso».
Ou então, esperem cá, ainda há pior: será que para a banca um assalto passou a ser algo de naturalmente despreocupante?
E eu que me levantei às seis da manhã para trabalhar em vez de ir ali à banca da esquina, trabuco em riste, mãos ao ar, passa para cá o taco e não te preocupes ó caixa, que o País que se incomode, que este já cá canta!

3.9.07

O infinitamente pequeno

Uma pessoa vive diariamente a angustiosa comparação entre si e os outros, entre os desejos e a realidade, entre o que está e o que é. Li hoje numa parede em Setúbal: «os nossos sonhos não cabem no vosso mundo». No milagre desta afirmação resolveu-se, na minha cansada cabeça, o nó górdio da vida. Sobeja sonho ao mundo que há para o viver. Se isto não leva um humano ao infinito, é porque há a pequenez do nosso interior irrealizado.

1.9.07

Laranjas?

Li algures que o português que se fala no Brasil é mais puro do que o que nós linguajamos na Europa, por ainda conter a base que lhes levámos no século dezasseis.
Se calhar esta minha ciência de leitura é a expressão de uma refinada estupidez, sobretudo porque há coisas naquele português de além-mar que ainda não entendo e me confundem.
Vejam o que li a propósito do combate à corrupção política brasileira: «após o deputado federal Dagoberto Nogueira Filho (PDT/MS) defender moralização da classe política, os conselheiros do Conselho Seccional da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul) pregaram penas mais duras para políticos corruptos. O conselheiro Geraldo Escobar, por exemplo, apresentou a sugestão de que políticos envolvidos em corrupção fiquem, no mínimo, dois mandatos impossibilitados de concorrer a qualquer cargo eletivo. Já o conselheiro Renato Chagas sugeriu o fim do foro privilegiado em todos os níveis porque se trata da sustentação da impunidade. Enquanto o conselheiro Marco Aurélio apresentou como sugestão que, a exemplo do que ocorre com os narcotraficantes, os políticos corruptos sejam processados criminalmente e percam os bens em favor da União, mesmo no caso em que usem “testas de ferro” e “laranjas”».
Ora esta? Laranjas?!

Sentado num banco de jardim

Um Banco é uma das instituições mais sérias de um país: estão lá os dinheiros de quem os tem, as dívidas de quem vive a crédito. Para muitos, o banco é o terror nocturno da letra por pagar, a provisão do cheque que garante salários, a possibilidade de sonhar uma felicidade emprestada.
Claro que há quem viva numa servidão da gleba contemporânea, amarrado à hipoteca para o resto da vida activa. Há quem, penhorado, se lesse Bertold Brecht concordaria que «tão crime é assaltar um banco, como fundar um banco».
Agora uma coisa é certa! Na banca, não desobedecerás ao senhor teu criador!
Paulo Teixeira Pinto não aprendeu o que ensinou José Maria Escrivà de Balaguer: «no Apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal» (Caminho, 936)». Cumprirá agora uma longa penitência.

31.8.07

O dolce fare niente

Há uns infelizes que são sempre o objecto do gozo alheio pela sua calma, pela lentidão, pela tranquilidade, pela preguiça, numa escala crescente que começa nas características e termina sendo um catálogo de defeitos.
Os povos do sul, neste aspecto, são sempre o bombo da festa dos nortenhos. Estes, porque se julgam mais perto dos céus, tendem sempre a endeusar-se, qual raça superior, sacerdotes da Montanha Mágica, senhores das alturas.
A última veio na forma de uma gracinha: nesta terra até os cães ladram sentados! É verdade, mas não mordem.

30.8.07

Durão Barroso, especialista em fugas

Leio na imprensa, que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, alertou para a fuga de cérebros europeus para outras regiões do mundo. Ele, que se escapou do país para Bruxelas sabe bem do que fala.
Quando escrevia no «Diário de Notícias» uma coluna que tinha o nome deste blog, e precisamente no momento em que ele hesitava entre ficar a governar-nos em Portugal ou governar-se no estrangeiro, publiquei um artigo a que chamei, em boa terminologista maoista: Durão, o grande salto em frente.
Parecerá imodéstia que o lembre hoje?
«Durão Barroso vive um dos mais cruéis dramas que um homem pode enfrentar: está dividido entre uma lealdade e uma ambição.
A lealdade, essa é ao cargo que desempenha, e foi isso que ele jurou diante do Chefe do Estado, no acto da sua posse: o desempenhar com lealdade as funções que lhe foram confiadas.
A ambição, é face à sua fulgurante carreira política, e foi isso que ele terá jurado a si próprio, no dia em que trocou o desalinho verbal do «radicalismo pequeno burguês de fachada socialista» pela pose composta de estadista de recorte conformista.
O drama tem objecto, o que não se sabe se tem é profundidade.
Em nome da ambição, Barroso aceita a presidência da Comissão; em nome da lealdade, Barroso recusa-a.
Por causa disso, Barroso vive já um grave problema pessoal.
Seguramente que Bruxelas apetece e Lisboa aborrece.
Entre ambas as capitais, a europeia e a portuguesa, não há comparação que resista.
Conviver com os grandes sempre foi melhor que aturar os pequenos. E nesse aspecto Barroso é um «dandy» intelectual.
Além do mais, Barroso sabe o que o futuro lhe traz: de Lisboa por certo sairá sempre mal, de Bruxelas é possível que possa sair-se bem. Portugal está farto dos seus líderes, a Europa anseia liderança.
O que está em dúvida, no momento, é saber se Barroso, líder que é de um partido, pode escolher. Uma fonte desse partido disse à imprensa que o PSD não lhe perdoaria: percebe-se, porquê. Sem ele, o partido, pior do que não ter alternativa de liderança, parece que tem apenas Pedro Santana Lopes para oferecer.
Nesse aspecto, no PS foi mais fácil, porque ali há uma lei dinástica há muito estabelecida: rei que perde, morre, rei que ganha, é morto.
O exemplo recente é, aliás, edificante: na noite da vitória socialista, na mesma em que na nave central se cantavam exéquias ao candidato europeu falecido, na sacristia, já uma tríade de candidatos à liderança afiava facas para o assalto ao poder.
Ora é nestas amarras da política que Durão Barroso se encontra cercado.
Para já, Barroso optou por uma atitude prudente e inteligente: mandou dizer que não é candidato.
A diferença é subtil: não está escrito em sítio algum que para o cargo de Presidente da Comissão não se possa ser eleito sem se ser candidato.
Daí decorre um efeito: Barroso não disse que não aceitaria o cargo, apenas disse que não se candidatava a ele.
O que, em si, implica uma consequência: o máximo da vitória é ser-se eleito para aquilo para que nem sequer nos candidatámos. Se o vierem buscar a casa e o coroarem imperador da Europa, Barroso mais do que eleito, terá sido aclamado.
Claro que vista de Lisboa, da solidão angustiante do seu gabinete na Rua da Imprensa, em certos momentos, a Europa deve parecer-lhe um apetecível refúgio: Durão Barroso se não quer concorrer à Europa, quer é que o tirem de Lisboa. E quanto mais depressa melhor.
Com uma variante: é que se for para Barroso não ir, ao menos ganhe António Vitorino, porque os dois juntos em Lisboa, isso, é demais: pior do que o desapontamento de um, ao não ter ido, é a frustração do outro, ao ter vindo
».
Ao reler isto só posso tirar uma conclusão: há quem não goste mesmo de mim, e eu até sei porquê!

27.8.07

Parece mal, mesmo!

Nós sabemos que a imprensa nem sempre é rigorosa. O Jornal de Negócios, pois tem muitas notícias, algumas publicitárias, sobre advogados, deveria sê-lo. Fica mal escrever-se: «o bastonário da Ordem dos Advogados, que representa a Teixeira Duarte», em vez de «Rogério Alves que representa a Teixeira Duarte! É a confusão total. Parece que há Advogados Bastonários e Bastonários Advogados.

26.8.07

Um mundo a sério

Segundo li esta manhã na imprensa «houve pessoas que esperaram duas horas para ter lugar» na Feira Erótica do Algarve. Mais: «o anúncio de que ia haver uma sessão de sexo ao vivo deixou o público da feira «Sexy 2007» em alvoroço». Mais ainda: «durante a feira erótica, que dura até domingo, existem «stands» de venda de artigos e acessórios sexuais e realizam-se «castings» para a produção nacional «O melhor filme pornográfico do mundo».
Quanto aos «castings», sublinhei esta parte: «os homens candidatam-se mais na brincadeira, mas as mulheres levam isto mais a sério», observou.
Numa feira em que «na zona de «swing», reservada apenas a casais, um casal de actores convida outros casais a compartilhar a cama e realizar novas experiências, num pavilhão recatado e longe do olhar do público em geral», percebo o que é o «isto», fico é sem perceber o que é o levar isso «mais a sério». Eu a pensar que era tudo a brincar!

25.8.07

O SLB e o Sigmund Freud

O freudismo acabaria por chegar ao futebol, ainda que pela pena dos cronistas.
Na edição on line do blog do Expresso vejo a pergunta «Será o Benfica um clube «gay» em processo de saída do armário?».
Pensava eu, leitor superficial, que a coisa teria a vêr com a mudança da cor das camisolas, mas não só, pois há na prosa mais adjuvantes argumentativos.
O primeiro, vem no texto: «OPA de Joe Berardo e as suas declarações que tumultuaram o balneário do clube, são evidências de que o pândego madeirense assume que o clube é mulher. Outra explicação não arranjo para o facto de o querer fecundar (é o verbo mais educado que arranjo para descrever as intenções do empresário face ao Glorioso)».
O segundo, vem no lead: «A assunção da sua feminilidade terá o condão de por o SLB em perfeita sintonia e harmonia com o sexo da zona onde tem implantada a sua catedral (a Luz), o seu ícone (a águia) e a sua cidade (Lisboa)». [fim de citação].
Lê-se e hesita-se.
O que vale é que, neste mundo, tudo serve para justificar tudo, e quanto a tudo se pode dizer que é entre o sério e o a brincar!
É uma análise «gay» esta, no sentido de brincalhona, claro. Mas a partir dela, as ilustres senhoras que a tiverem lido, ao verem que os seus queridos esposos, amantes, namorados ou passeantes ocasionais, trocam o leito amoroso pelo sofá da TV, as delícias de uma carícia por um remate do Paulo Bento, o erotismo da sua macia fêmea pelos onze musculados do Camacho, terão um motivo plausível de queixa e uma razão de grave desconfiança.
O pobre do médico de Viena, sobre cuja sexualidade já há quem desconfie, bem se pode revolver na tumba, onde bem estaria inumado num sofá, mais a sua ciência sempre com o falo na cabeça.
Depois da investigação sobre registos de um hotel na Suiça, um sociólogo julgou ter descoberto a prova escandalosa de que ele teria mantido uma relação incestuosa com a própria cunhada. A tese terá convencido o seu biógrafo oficial. O biógrafo chama-se, ironia do Destino, Peter Gay! Sobre isso vem tudo aqui. Quem quiser que acredite e, entretanto, viva o Benfica!
Ah! O dito cronista continua: «um clube de futebol ser mulher não é, em si, nada de mau, convençam-se disso, meus preclaros amigos benfiquistas». E eu a pensar que os gay eram, como dizia a Simone Beauvoir, o «terceiro sexo»!
Definitivamente desisto! Antes ver o «Sexo na Cidade», que não vejo, e tenho raiva a quem vê!

21.8.07

Santíssimo Sacramento, como isto vai!

Houve um ministro, que ainda é ministro, que se notabilizou pela frase «esta não é a minha polícia», a mesma polícia que o tivera como ministro.
Ora, ou eu me engano muito ou, qualquer dia, há no MP quem ainda se notabilize por vir a público dizer a mesma frase, na variante «esta não é a minha Judiciária».
Entretanto todos falam na cooperação institucional entre a Procuradoria e os OPC's com um ar composto e de muito notáveis silêncios forçados.
Como disse o Maquiavel no livro que escreveu para o Lorenzo de Médicis, «a guerra não se evita, apenas se adia»!
Cytoiens, aux armes, portanto!

20.8.07

Sinais exteriores

Segundo a imprensa, «os funcionários públicos que apresentem sinais exteriores de riqueza «não condizentes com a declaração de rendimentos» poderão ser alvo de processos disciplinares, segundo a nova Lei Geral Tributária».
Percebe a lógica quem entender o país em que vivemos.
O que subjaz a uma tal política é o triunfo da «riqueza encapotada», a «falsa modéstia», os muros altos e entrada discreta a esconder, por detrás, a sumptuosa vivenda e a piscina coberta, as lautas ceias e a garagem nutrida, o círculo privado para onde se levam os «visons», onde se exibem as jóias e outros adereços.
É que o que se persegue uma vez mais, são os «sinais exteriores», o mostrar e o exibir, não o ter.
É a máxima do «desde que eu não saiba», mãe de todas as hipocrisias, a benção às públicas virtudes.
Há nisto tudo, por outro lado, algo de chocante: é tornarem-se como destinatários de uma tal perseguição os «funcionários», muitos dos quais almoçam no come-em-pé para pagarem a letra do carro, vivem o resto do mês com o cartão de crédito do mês seguinte.
Porque os outros, os que mostram mesmo e se pavoneiam de facto, esses, de pessoal, pessoal, pessoal, mesmo, coitados, nada possuem. São na grande maioria «consultores» das suas, perdão, das empresas do sei lá de quem.
O tempo dos «bens ao luar» esse já foi, ante o eclipse fiscal que agora deu, o Estado esganado por dinheiro, os contribuintes a quererem esganar o Estado.

18.8.07

Ser ou não ser engenheiro: uma questão de colocação social

Estudioso amador da filosofia portuguesa e deixando num blog algumas notas esparsas sobre as ainda dispersas leituras, encontrei ontem, ao sair do barbeiro, imagine-se!, numa livraria que devia frequentar mais, uma colectânea de artigos, conferências discursos e cartas da autoria do filósofo portuense Leonardo Coimbra. Compilou tudo, com devoção e humildade, Pinharanda Gomes que nesse paciente trabalho mostra como é um grande homem, ao encarregar-se destes trabalhos que outros considerariam menores. Editou-o a Fundação Lusíada.
Hoje, sábado de tarde, deixei-me ficar por casa, depois de algumas surtidas utilitárias à chamada «rua», com o desejo de escrever e a vontade de ler.
Fui então dar uma espreitadela ao livro, folheando-o, como é por vezes meu hábito, de trás para a frente.
As últimas páginas são dedidacas à conversão ao catolicismo daquele que viveu uma vida inteira como se sem Deus e de quem Deus parecia ter-se esquecido ao condenar-lhe um filho a uma grave doença quase fatal; conversão a que se seguiria a morte a curto trecho.
Mas não foi por aí que me fiquei.
Revirando folhas, dei com este momento histórico. Vejam só as malhas que o acaso tece.
Como se pode ver melhor aqui «em 1924, a lei n.º 1638, de 23 de Julho, veio conferir o título de engenheiro auxiliar aos diplomados pelos institutos industriais e incluindo os condutores nessa designação. A reacção dos engenheiros não tardou. Os alunos do IST mobilizaram-se numa greve académica, cujos efeitos, prolongando-se para lá do golpe militar de 28 de Maio de 1926, conduziram à efectiva protecção legal do título de engenheiro em exclusivo para os diplomados pelas escolas de ensino superior e conferindo o título de agente técnico de engenharia aos antigos condutores e aos diplomados pelos institutos industriais».
Ora foi neste ambiente de insurreição entre engenheiros e agentes técnicos que num opúsculo sem data intitulado «Aos legisladores da República Portuguesa», consignou o seguinte parecer: «concordo plenamente com tudo o que seja marcar pelo seu verdadeiro nome cada indivíduo e cada profissão. A ordem nas sociedades depende da boa colocação social de cada competência e o lugar social da competência é marcado por um título ou diploma. Eis pois porque vos dou razão».
Não pensem que fiz de propósito! Estou inocente! A vida e os seus ensinamentos é que vieram ao meu encontro. Juro!

15.8.07

A nudez forte da verdade fiscal

Que um Governo queira desvendar segredos bancários por andar a perseguir crimes, compreende-se. Que um Governo não queira que a evasão fiscal se acoberte atrás do sigilo bancário, entende-se. Que sem sigilo bancário começa a não haver dinheiro nos bancos portugueses, aprende-se.
Agora que um Governo ameace quem reclama fiscalmente de lhe quebrar o segredo bancário, é mais do que uma imoralidade: é o Estado a impor o que pode nem ser devido, ameaçando usurpar o que poderia nem ser permitido.
Ou pagas ao Fisco o que o Fisco quer, ou ficas despido com a tua vida bancária toda ao léu.
Em vez do cobrador de fraque, é o devedor em pilau...

14.8.07

À procura de um livro

Andei à procura de um livro. Sabia que era edição de autor e que o autor vivia no norte do país. Nada como procurar uma livraria, claro.
O local onde o autor mora é uma cidade.
Nessa cidade a Câmara Municipal desenvolve uma activa promoção cultural, como o mostra um «site».
A essa cidade estão ligados importantes vultos da cultura.
Tentei saber por livrarias.
A resposta foi: bom, livraria, livraria, não há. Há livrarias/papelarias. Havia. Umas duas ou três.
É este o retrato do país.
Em cada cidade, há milhentos cafés e cervejarias, dezenas de lojas de bugigangas, ourivesarias algumas, seguramente até umas quantas casas de serviços íntimos, mais ou menos disfarçadas. Agora livros! Isso é uma chatice, até por fazerem dores de cabeça...
Eu dizia acima que andei à procura de um livro. Não! Eu andei foi à procura de um país.

13.8.07

Um click

Estar-se a trabalhar escrevendo num computador portátil; através dele, receber emails e pelo msn resolver na hora problemas e prevenir algumas complicações. Mais: entrar no site da CP e ver nele os horários dos comboios, comprar o bilhete, pagá-lo ali mesmo, poder escolher o lugar, receber no telemóvel um sms com a confirmação de tudo, o qual pode ser mostrado ao revisor como se bilhete fosse, deixem-me pensar que é um mundo maravilhoso, ao alcance de um click,há uns anos absolutamente impensável.
Claro que, com tanta tecnologia ao meu serviço eu, em vez de ter ido para a a estação mais cedo comprar o bilhete, ou um dia antes com receio de o bilhete se esgotar, e nisto tudo e mais na espera e no não tenho troco, e já não lugares à janela, com tanto de bom e de moderno e de tecnologicamente útil, vou como quero e onde quero desde o momento em que o quero.
Por isso mesmo, hoje deveria ter ganho um ror de tempo, uma oportunidade imensa para fruir a vida e dela retirar o melhor: em vez do tempo perdido, passeava, dormia, almoçava, lia, curtia em suma, como agora se diz.
Não! Mal tive tempo para almoçar, fiz mil coisas a correr, entrei no comboio no último momento, porque aproveitei todos os minutos e cada um dos minutos como se a vida fugisse, a maioria do tempo a cumprir deveres, satisfazer obrigações, fazer o inapetecível.
Foi aí que me surgiu o click: e se isto tudo estivesse errado, por atentar contra o direito natural à preguiça, ao doce remanso, ao eterno descanso?

12.8.07

Arranjar-se

«Era chic falar em virtude, mas era tolice ser-se virtuoso», escreveu Manuel Laranjeira, a propósito da sociedade em que viveu o escultor Augusto Santo, de que apenas consegui encontrar no Museu Soares dos Reis um bronze representando Ismael. As palavras são duras: «Nesta nossa decadência de povo parasita, condenado a viver de expedientes, era consolador, tragicamente consolador, ver que a arte filha desta nacionalidade a não renegava e a acompanhava na biltre existência de cogumelo social (...). Como ilação fatal deste modo de viver, fervilhava o elogio mútuo, a simbiose da malandragem, a hipocrisia, o mimetismo que garantisse a pilhagem deste magro desfazer de feira. Esse estado psíquico da nossa sociedade tinha a sua expressão nítida numa palavra - arranjar-se». Isto foi assim visto em 1902, num Portugal eterno nas virtudes, perene nos defeitos.

11.8.07

Ruínas urbanas

«Um robot que sobe e desce escadas e se desloca autonomamente em edifícios em ruínas vai ser apresentado pela equipa portuguesa que o concebeu numa demonstração que se realiza para a semana na Suíça». À atenção da Câmara Municipal de Lisboa, ao cuidado do departamento de urbanismo.

10.8.07

A morte do viril

Desde que a sociologia estatística fez a sua aparição com ares doutorais ela tem permitido provar tudo. A crendice supersticiosa do vulgo no positivismo que se apresente como ciência tem ajudado. Em nome disso orientam-se políticas e lançam-se detergentes, todos baseados na reconstituição do que as pessoas pensam. Em nome disso há ideologias persecutórias e de exclusão, racismos primitivos e imbecilidades domésticas. Nas noites eleitorais então é o auge do método: os resultados das urnas são sempre a mera confirmação das «sondagens» sociológicas.
Ninguém acredita na individualidade da pessoa, na liberdade do ser, no improvável da conduta humana. O «vocês são todos iguais», passa das zaragatas conjugais, ainda em pijama matinal, para os laboratórios universitários, de bata branca nocturna. Segundo este ramo do saber, nós não somos almas, somos números!
Por isso uma universidade, a de St. Andrews, conseguiu apurar e eis que o leio na imprensa da manhã, que «as mulheres consideram que os homens com traços efeminados são mais fiéis e susceptíveis de se empenharem numa relação longa do que os homens mais viris».
Mas mais: é que a mesma universidade conseguiu saber que «os homens com queixo quadrado, com nariz mais largo e olhos mais pequenos foram designados como mais dominantes, menos fiéis e com uma maior tendência para se revelarem maus pais, com personalidades menos calorosas».
Claro que o Lavater, fisiogonomista, que no século dezoito concluía sobre o carácter humano a partir das particularidades morfológicas do indivíduo, está hoje no mundo das velharias pseudo-científicas. E mesmo o Cesare Lombroso, quando encontra atavismos físicos em certos seres que os assemelhava à ferocidade animalesca, donde propensos à delinquência, já foi. Este último valorava a assimetria craneana e a pilosidade, como factores altamente relevantes. Os de St. Andrews, tal como os nazis, esses medem o queixo, e se os lábios são arredondados, os olhos maiores e as sobrancelhas mais curvadas. Talvez meçam outras coisas que não dizem.
Enfim, neste ler matutino há só uma coisa que me preocupa nesta manhã de sexta-feira, ao olhar-me ao espelho, e ao não me ver diáfano e imberbe, nem bem lançado de formas ou suave de maneiras. É que o raio do estudo conclui, pela boca do professor David Perret ,que «os nossos resultados contradizem as afirmações segundo as quais o machismo é sinónimo de boa forma física e de saúde».
É que com esta é que eles me arrumaram de vez: ser masculino de sexo e de aparência já eu tinha percebido que estava fora de moda, hoje entendi cientificamente o que sabia empiricamente o que nos põe debaixo do vigilante olho conjugal, mas, ó Céus, fiquei convencido universitariamente que nos larga no cemitério, antes dos outros.
Vou para a praia mais logo e quando me cruzar com um daqueles mandris musculados, de tanga, orangotangos peludos, de coleantes shorts, gorilas bronzeados, de bícepes ostensivos, ante o olhar guloso das mulheres dos outros e enxofrado das próprias, ainda os aviso, em nome da ciência, a bem da sobrevivência da espécie: «vais morrer pá! Não tarda nada, de tão macho tão macho que és, ficas teso que nem um pau, em rigor mortis perfeito, hirto e defunto, na quinta das tabuletas!».

7.8.07

No comboio descedente

Há quem ouça «No comboio descendente vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros e os outros sem ser por nada» e pense que se trata de um poema do José Afonso. Não é. Foi o Fernando Pessoa quem o escreveu. Termina assim: «No comboio descendente mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não – no comboio descendente de Palmela a Portimão».
Lembrei-me disto, no comboio descendente, de Entrecampos a Loulé. Lá dentro, escoltada entre mamã e avózinha uma insuportável criancinha, perfeito endemoninhado luciferino, que gritou, choramingou, pontapeou, mordeu, jogou-se ao chão, ante uma carruagem inteira capaz de se virar ao nângero à chapada mas a conter-se. Num momento único em que um sabujo passageiro foi, solícito e cortês, buscar entre os assentos um brinquedinho com que a vóvó tentava acalmar a besta fera ouviu-se, da boca da respeitável e complacente anciã, um murmúrio, como se lhe devessemos todos desculpas por irmos ali a gramar aquele infante delinquente: «são crianças, não é?». É, pensei eu, no comboio descendente, entre a grande reinação.

6.8.07

Heróis debaixo do mar, nobre povo!

Leio com júbilo patriótico que «Portugal passou formalmente a ter, desde Junho, a jurisdição sobre um pedaço do leito marinho fora da Zona Económica Exclusiva (ZEE), ou seja, para lá das 200 milhas consagradas na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), noticiou o jornal Público. Com a dimensão de 2215 hectares, este é só o primeiro passo de um alargamento muito maior do fundo marinho sob jurisdição portuguesa».
O «Diário de Notícias», citando amavelmente aquele seu jornal concorrente titula a notícia: «Portugal ganhou pedaço de território submerso».
Os Zarcos, os Gamas de hoje enfrentarão os Adamastores contemporâneos de escafandro! Nação valente e imortal!
A Pátria de Camões que «deu novos mundos ao Mundo», cujas naus sulcaram «por mares nunca antes navegados», segue hoje a gesta heróica debaixo de água. Sinal dos tempos, sem dúvida.

4.8.07

Ataque sobre a defesa central

Há um semanário que explica hoje aos leitores qual vai ser a minha linha de defesa num processo em que sou advogado. Como eu ainda não decidi qual vai ser a defesa, nem falei sobre isso com jornalista nenhum, resta-me explicar como é uma pessoa se deve defender dos jornalistas que inventam qual vai ser a nossa linha de defesa. Há um meio: não ler! É que há o risco de uma pessoa defender-se como eles sugerem e ainda se tramar com isso. Apre!

A charmosa Janaina

Eu sou Advogado e apesar de tentar levar a vida com bonomia, vivo num mundo de gente cinzenta, a maioria mal-disposta, quase todos sorumbáticos, de vestes talares, falas redondas e muito doutorais no verbo e barrocos no estilo. A maioria dos da Justiça não riem, quando muito fazem um esgar. Ora vejam só qual a minha surpresa ao ler na Gazeta Digital do Brasil a propósito da Ordem dos Advogados de Mato Grosso esta local: «a charmosa Janaina Gayva empresta seus conhecimentos à assessoria de imprensa da Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Mato Grosso. Diga-se de passagem vem sendo muito bem conduzida pela jovem profissional, que respalda o trabalho dos profissionais por todo Estado». Com a charmosa Gayva de Mato Grosso, a maioria dos advogados do Estado reformam-se para passarem o dia por ela respaldados, na Caixa. Melhor só se disfruta em Pernambuco ou em Belo Horizonte...

A Feira do betão

O ano passado, pelo Verão, vim à Feira do Livro de Vilamoura falar sobre um livro que tinha publicado, a biografia de uma russa, agente dupla, chamada Nathalie Sergueiew. A noite estava quente, tudo decorreu em animada conversa, numa tenda bem decorada e com uma assistência empenhada. Depois, dei uma volta pelos pavilhões onde havia livros que eu não conhecia, ao lado dos clássicos «monos» que os editores tentavam escoar. Lembro-me que saldavam ao preço da chuva a obra do Jorge Luís Borges, em português, que me recusei a comprar, porque queria adquiri-la na língua original, como venho a fazer, aos poucos. A noite rematou com uma estadia, paga pela organização, num quarto de Hotel contíguo, um hotel charmoso e com um toque de luxo.
Por uma noite imaginei-me um escritor de sucesso com público certo e dormida garantida.
Lamentei então apenas que a Feira estivesse num sítio esconso, mas mesmo assim os veraneantes que se passeavam e mostravam no vai-vém nocturno pelo paredão da Marina ainda davam lá um pulo.
Dissseram-me os habitantes vilamourenses que a dita Feira já havia sido nos jardins do Casino e por isso mais acessível e portanto mais concorrida. Mas estava bem.
Ontem à noite, lembrei-me da Feira, fui lá, mas para cair fulminado pela surpresa. Tudo se resumia agora a uma tenda, com livros a maioria fracos que meia dúzia de editores ali haviam conseguido colocar, às pressas, através de dois ou três distribuidores.
Explicação: a urbanização que apoiava a Feira do Livro havia sido vendida aos espanhóis e estes «sabe, estão mais interessadas na área imobiliária». Lá voltei para casa, macambúzio, com um Agostinho da Silva debaixo do braço, em que um um dos títulos de capítulo se chama «Tudo mudou e o diabo deste país não muda».

1.8.07

Férias exóticas

Com o chegar do mês de Agosto entra parte do país em férias reais, outros em férias imaginárias. Nos últimos anos os portugueses passaram, queiram ou não confessá-lo, a viver melhor; ou então há nesta divisão mundial de riqueza qualquer fenómeno novo. Dei conta que há pessoas com empregos modestos a passar férias nas Caraíbas, enquanto no tempo da minha infância as famílias provincianas, com o sacrifício do ano todo, alugavam uma casinha na Costa Nova, em Espinho ou os mais afortunados na Figueira, para irem a banhos, pai, mãe, filharada, os avós, a prima, a tia e até o cão e o gato. Comia-se em casa o jantar e almoçavam-se sandes. À noite os velhotes passeavam na marginal, os mais novos sentavam-se à volta de um café a noite inteira na esplanada do sítio. Regressados, dormiam nos mais improvisados locais, o WC um lugar de disputas ferozes e de discussões pestilentas.
Estaremos todos mais ricos? Ou com a aviação comercial a transportar gente como mercadorias e com o que aqui se pagaria por um pequeno almoço uma família desses paraísos tropicais poder comer a semana toda, a exploração do turismo exótico está ao alcance de todas as bolsas?

29.7.07

Malditos sejam!

No dia 28 de Dezembro de 1908 Manuel Laranjeira escreveu no jornal «O Norte» um artigo a que chamou «Mocidade Idealista». C omeçava, em estilo de parábola bíblica, «naquele tempo as gerações académicas eram profundamente revolucionárias» e ao aproximar-se do fim desse inflamado texto concluía que «naquele tempo a víscera revolucionária era o coração; agora, para uma fracção de briosa mocidade, pelo menos, começa a ser o estômago».
Lê-se estas palavras e vê-se desfilar ante a nossa mente o cortejo actual dos «corrompidos pela vida» que as «quadrilhas parasitárias que medram na política nacional» [de novo Laranjeira] arregimentam para as suas ambições sem causas.
É a legião estrangeira dos que fogem, manhosos, como se do pesadelo negro do seu passado, e cuidam, astutos, do sonho dourado do seu futuro. Não tendo morrido por um ideal alheio, aprenderam a viver por uma conveniência, a sua.
«Naquele tempo faziam-se romagens ao túmulo dos vencidos, agora fazem-se excursões aos arraiais dos vencedores», diz o médico de Espinho, companheiro de Guerra Junqueiro.
A mocidade académica, a mocidade idealista, passou e passa de Don Quixote a Sancho Pança. De novo Laranjeira: «E só assim se compreende que tantos, tendo sido revolucionários com as gerações da sua mocidade, ao começarem a chapinhar na lama da vida, renegassem essas nobres rapaziadas, estéreis como utopias de loucos, como quixotescas sentimentalidades».
Sim renegam, com orgulho, luzidios de contentamento, ante o aplauso cúmplice de outros tantos anónimos e abúlicos pequeno-burgueses e outros maltezes. Paquidermes complacentes, sujam com a sua boca as sagradas palavras do inconformismo, profanando-as, ode heróica de uma geração em que não estavam por engano mas só para enganar os outros. Malditos sejam!

21.7.07

De camarada a sócia

Não parece bem julgar pessoas, salvo quanto ao que elas simbolizam. Já escrevi aqui sobre o que penso de Zita Seabra, naquilo em que nela me impressiona ao ter estado uma vida no PCP e no dia seguinte no PSD. Mais! Ter dormido uma vida na camarata dura das ideias do marxismo-leninismo e folgar hoje no fofo colchão de penas da suite das conveniências burguesas.
Foi, por isso, que me violentei, para ler até ao fim a entrevista que Zita Seabra deu ao jornal «Sol». Texto fantástico, revelador, daqueles em que o leitor sente vergonha pelo entrevistado, há nele um passo revelador.
Pergunta a entrevistadora à ex-comunista e actual sócia de Manuel Dias Loureiro: «Como ingressa no PSD?». Responde a entrevistada: «Em plena liberdade, o primeiro-ministro Cavaco Silva convida-me para o Instituto de Cinema, e eu aproximo-me do PSD».
Mas será preciso ler-se mais para se compreender tudo?
Zita Seabra é feia! Muito feia mesmo!

15.7.07

Abstémios

A democracia é um modo de formar maiorias e legitima-se através delas. Com uma abstenção eleitoral superior a 60% os sinais de legitimação democrática começam a tornar-se preocupantes, sobretudo quando os votos se pulverizam. Claro que todos falam nisso como se de um fenómeno da ciência política se tratasse, mas ninguém quer extrair daí os efeitos ao nível da prática política de que se trata.
O modelo político actual é assim: uma minoria dos activistas governa a ampla maioria dos indiferentes. Nesta lógica, os abstencionistas, mesmo quando radicais de língua e alternativos de feitio, não são contra o sistema, eles são, o sistema, na sua melhor expressão. Nunca se embebedam de espírito cívico, porque são abstémios de civilidade.

12.7.07

O portuga de cócoras!

«Com muitas estrelas», a Antena 2 noticiava hoje de manhã que «Os Maias» de Eça de Queirós vão à cena, numa adaptação para teatro em Londres. Entrevistado o produtor, um português que reside na capital inglesa desde há vários anos, lá acedeu a dizer, visivelmente enfastiado, o nome de alguns dos actores. E, instado a dizer qualque coisinha mais ante tal momento de orgulho pátrio, explicou que a peça irá chamar-se «Lisbon», porque os produtores ingleses explicaram que as pessoas têm muita dificuldade em pronunciar palavras como «Os Maias» e que, por isso, não compram bilhetes, sobretudo agora «porque os adquirem através da Internet».
Santa subserviência pacóvia ante o estrangeiro, não há dúvida! Francamente, ao ouvir isto, ainda meio ensonado, pensei, ruminando com os meus botões, se já agoram não vão colocar no cartaz que se trata de uma obra-prima de um «ibérico» chamado Isa de Kyros, para que os «bifes» consigam, desdenhosos e impantes, entender do que se trata, sobretudo através da Internet!

11.7.07

O sentido do voto

Eu não faço campanha por ou contra qualquer das candidaturas à Câmara Municipal de Lisboa. Talvez por isso não deixei de sorrir ao ter lido na imprensa de hoje aquele apontamento de reportagem em que um munícipe se dirige a um candidato que o vem convencer ao voto na sua candidatura e lhe diz, defensivamente: «nós vamos votar em si, não precisamos das suas explicações».
Há nisto algo de duplamente irónico: por um lado, no que manifesta de apoio ao candidato para que ele não perca tempo a catequisar prosélitos; noutra dimensão, a de se poupar o votante a uma situação em que, ouvidas as explicações, ainda se decidir alerar o sentido do voto. É que há candidaturas que é melhor nem se explicarem muito! Basta mostrar a cara e dizer um vota em mim que depois perceberás porquê.

10.7.07

A bailarina

Comprei a biografia da Zita Seabra e tenciono lê-la, tendo vagar. Vim aqui só confessar um preconceito de irritação em relação à personagem, por reputar incompreensível que alguém, de um instante para o outro, se passe do PCP para o PSD.
Ao folhear a folha dos agradecimentos vem lá um ao José Carlos Espada que a teria iniciado no apreço ao Winston Chuchill.
Ora, não é por eu ter no meu gabinete de advogado, sabe-se lá porquê, não o busto do João das Regras, mas sim uma foto do Primeiro Lord do Almirantado, com aquela cara de velho bulldog com que a História o acolheu, mas a referência deu-me que pensar.
Como se sabe, a conservadora Grã-Bretanha aliou-se à comunista União Soviética, para combater a Alemanha nazi. Acontece que os comunistas russos, antes dessa aliança, tinham-se aliado a Hitler, através do infame pacto Molotov-Ribentropp. Por essa altura, em 1940, Álvaro Cunhal escrevia no jornal O Diabo, então um jornal pró-comunista, «mas haverá na verdade alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?».
Tudo visto, bate tudo certo. Percebi, pelo folhear distraído do livro de «memórias», que na juventude Zita Seabra quis ser bailarina. Parece que o terá conseguido.

8.7.07

Escutas: palavra de escuteiro!

Ontem estive num jantar onde o meu interlocutor me dizia que leu num jornal um historiador a explicar que o Hermano Saraiva cometia erros históricos graves nestas memórias que vem publicando para nossa ilustração e gáudio de alguns. O advogado e historiador, não será o da boa-memória, mas aproxima-se, pelo menos, e sobretudo há momentos do que escreve que fazem sorrir o espírito, forma de lavar a alma, suja que está neste país de escândalos. Sorri-me, de facto, quando ele deu conta, há uns números atrás dessas memórias auto-encomiásticas, como foi difícil conviver com a mudança de nome da organização de escuteiros, que passou de «Corpo Nacional de Scouts», para «Corpo Nacional de Escutas». Compreendo. Na altura a ideia de um corpo destinado a escutar a vida alheia tinha má fama. Hoje, na democracia, considera-se o escutar as pessoas durante milhares de horas, um elemento essencial de investigação criminal, fundamental mesmo para o Estado de Direito. O problema é se, como diz o povo, «quem escuta de si ouve». Nesse dia é melhor ouvir e calar.
Ontem estive num jantar. Hoje vou passear ao Alto do Duque, apanhar ar e falar sozinho, que as paredes têm ouvidos.

4.7.07

Acabou-se o papel!

Em 23 de Maio fiz ao Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social um pedido de um simples papel onde se dissessem que eu nada devo à dita. Isto porque, para um ente público me pagar um trabalho que eu fiz, quer saber se sou ou não caloteiro à SS.
Ora o tempo vem passando, eu já telefonei, mandei saber, pedi a quem pudesse pedir a quem pudesse pedir e nada: continuo sem papel.
Ora como o Estado não me diz se eu devo, o mesmo Estado não paga.
Claro que isto tudo é uma refinadíssima sem-vergonha, com os governantes a virem para a TV com as demagogias dos «simplexes» e de outros «prá-frentexes» a enganarem parvos e a criarem o mercado das ilusões eleitoralistas.
Eu sei que não sou só eu a ter que aturar isto tudo. Uma chusma de gado obediente como eu, lá está na bicha do conformismo, a maioria com medo de refilar, não vá a SS retaliar.
Por isso, com vossa licença, aproveito este espaço público para lançar um pedido de alvíssaras: a quem souber se eu devo ou não à Segurança Social, agradeço o favor de me mandar papel. Qualquer coisinha serve, mesmo em papel picotado. Pode mesmo dizer que «até agora não deve», «não deve, mas ainda pode vir a dever» ou até «é estranho de facto, mas realmente após porfiadas buscas, conclui-se que não deve». Desde que dê para eu entrar na outra bicha, que á a daqueles a quem o Estado não paga ou paga às pingas, já dá!

Os chefes e os índios

Há coisas fantásticas no que prende a atenção dos media. Um jornal diário de hoje noticiou o absentismo na Câmara Municipal de Lisboa. Primeiro, o leitor mais distraído fica com a ideia de que só aquela edilidade, só nas Câmaras Municipais é que os funcionários se baldam, quando o não pôr lá os cotos é pecha nacional em muitos serviços. Mas o mais curioso é o título da notícia: Chefias da Câmara de Lisboa faltam quase tanto ao trabalho como subordinados. Uma pessoa lê e pensa: mas porquê noticiar isto assim? Porque os chefes deveriam faltar menos, para darem o exemplo? Só pode ser ser, claro! Mas então se eles são chefes, e pagam-lhes para mandar trabalhar, não me digam que ainda por cima têm de estar lá? Qualquer dia ainda exigem que tenham de estar e trabalhar! E depois, queixam-se do desemprego!! A obrigarem os empregados e os chefes a trabalharem, onde é que há lugar para os outros, os que estão desempregados?

1.7.07

A política da ETAR

Há na política uma vertente de impostura farçolas através da qual se tenta seduzir o eleitorado. Pensei nisso este domingo da manhã, ao ler uma frase do «Álbum de Memórias» do José Hermano Saraiva onde ele dizia que «a verdade política é uma verdade fiduciária. É como uma nota de banco: diz que vale ouro, mas é inconvertível». E pensei por me ter vindo à mente uma imagem que outro dia passou pela imprensa da senhora arquitecta Helena Roseta a despejar caixotes do lixo.
Digam-me que não é um insulto à inteligência esta de colocar uma repimpada burguesa a fingir-se sofrida trabalhadora com um fotógrafo atrás para registar a mascarada.
Digam-me que não é uma ofensa à miséria dos que como trabalho têm aquele o aparecer por um instante de uma noite, o tempo de um «flash», uma excelentíssima senhora Dona, que no momento seguinte retoma o seu estatuto, o seu guarda-roupa, a sua pose, o seu bom cheiro.
Digam-me que isto não é da democracia o lixo! Digam-me que esta «fábrica de maiorias» [de novo o controverso Saraiva], com a sua central de branqueamento da mentira e propaganda não está a precisar de saneamento básico urgente!
Digam-me que, na hora do «olha o passarinho» para a caça ao voto, a frase do Oliveira Salazar, quando inaugurou o SNI «em política o que parece é» não lhes vem mesmo a matar.
P. S. Para que se entenda: não estou na política, não faço política, não vivo da política. Vou apenas votar. Sou é cidadão, dos que põem o lixo à porta e nunca encontrou nenhum político a recolhê-lo. Só isso.

29.6.07

Haja quem mande

A oposição ao Governo julga que gritando ao país que o primeiro-ministro quer controlar as instituições, apodando o chefe do Governo de autoritário e acusando-o que querer o poder total o enfraquece perante os votantes. Erro crasso! É só andar nas ruas. Cada vez mais os portugueses querem é que «haja quem mande!». Ao brincar com o fumo das palavras os partidos nem percebem que preparam o fogo que pode imolar desta democracia da qual vivem. Cada vez mais há mais gente com medo, não da perda da liberdade, sim da perda de rendimentos.

28.6.07

A perseguição tabaqueira

Eu não sendo dos que não fumo, não sou dos que fumam. Deve-se isso a ter começado a fumar cachimbo e achar desagradável o tom acre dos cigarros comuns. Daí resulta ter beneficiado de não haver fumadores de cachimbo compulsivos, como há os fumadores de cigarro em chaminé. Um fumador de cachimbo ao menos dá-se conta do que está a fazer!
Ora está agora na moda perseguir os fumadores como se marginais fossem, deliquentes do ambiente, suicidas perigosos. A mesma sociedade que deixa milhares de automóveis envenenarem o ar, finge-se amiga da Natureza e preocupada com a saúde face a um pitilho público. Hipocrisias, em suma, tantas elas são, é mais uma.
Não sei se a cultura proibicionista abrange o tabaco de mascar e o rapé de inalar. Não é que eu, pobra inalador ocasional tenha de encontrar aí a saída para o meu vício. É só por me lembrar de uma frase de uma minha bisavó que, ao ter apanhado o filho, garoto, a fumar às escondidas, lhe deu uma grande reprimenda que abriu com um «ai fumas? pois até cá atrás cheiravas!».
Não tive tempo, pois ando com trabalho a mais para a vontade que tenho, mas acho que um qualquer prontuário me salva explicando que «até cá atrás» quer dizer, até agora, até há pouco, no passado, antes, enfim, qualquer coisa que sendo recuado não seja traseiro.
E, a propósito, tanta perseguição tabaqueira, já começa a cheirar mal!

24.6.07

O culto dos mortos

No campo mimoso em que se torna a polémica pública em Portugal, uma pessoa já nem se surpreende. O futebol sempre foi o local psicológico da catarse das emoções, o libertador das pulsões primárias, a possibilidade de os cavalheiros refinados despejarem palavrões acumulados, o pretexto para eu estar sãmente contente pela alegria de o meu clube estar a ganhar e maldosamente feliz pois o clube do meu vizinho está a a perder.

Hoje de manhã, ao passar os olhos pela imprensa à borla a que pela Net se chega, vi que«o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, considerou que as acusações do seu homólogo do FC Porto, Pinto da Costa, são o «estrebuchar do morto» e de alguém que já pede a ajuda da justiça divina».

Ora como eu disse há pouco, depois de uma noitada, acabei o livro que o Wenceslau de Morais escreveu em 1914 sobre o culto dos mortos, onde a propósito se aprende que, o morto, mesmo quando incinerado, «fica em casa, fazendo parte da família».

O Presidente do SLB bem pode, pois, matar o seu homólogo no norte. Quanto mais morto, mais vive! Um dia esta gente aprenderá.