Um site francês chamado «Vie de Merde», dá a todos a oportunidade de defecarem os seus lamentos. «Ma vie c'est de la merde, et je vous emmerde» é o lema do lugar, que pode ser encontrado aqui. Muitos dos escritos são sobre desencantos sentimentais. Talvez haja neste irado lugar mais voyeurs do que escritores. Sucede, aliás, isso mesmo, todas as vezes que nos queixamos: há sempre alguém que aproveita para nos mostrar que está pior e fazer-nos envergonhar do atrevimento de ter estado mal. Acho que é por isso precisamente que há velhos contentes com o seu mundo de sombras, por verem tantos jovens infelizes com todo o universo de luz.
29.4.08
25.4.08
25 de Abril, sempre!
No dia 25 de Abril não foi o «levantamento nacional anti-fascista» quem fez cair o regime, sim os militares que o serviam. Uns dias depois, a 1 de Maio, aquilo que era um golpe do que começou por ser o «movimento dos capitães» transformou-se na «aliança Povo-MFA» e entrou-se rumo ao socialismo de Estado, com a desordem a instalar-se e a tropa a ser incapaz de dominar uma situação a ganhar foros de insurreição Depois, foi o 11 de Março e 25 de Novembro, os milicianos, os do Quadro Permanente no meio da turba desordenada, apparatchiks armados a tentarem ser a muralha de aço de uma cada vez mais próxima república de sovietes.
Hoje cá estamos. Morreu Salgueiro da Maia, morreu Melo Antunes, morreu Galvão de Melo, morreu António de Spínola, morreu Adelino da Palma Carlos, morreu Vasco Gonçalves, morreu Francisco da Costa Gomes, morreu Álvaro Cunhal, morreu Emídio Guerreiro, morreu Sá Carneiro, morreram Marcelo Caetano, Américo Tomás, Franco Nogueira.
Feito o balanço do sucedido, cada um que tire as conclusões que entender: os que dizem que Abril nos trouxe a liberdade de expressão, queixam-se que reina o medo de se falar; os que dizem que acabou a alienação do povo, encharcam-se de tele-lixo e futebol pela noite fora; os que que querem mostrar que hoje se vive melhor, sabem que as famílias portuguesas estão falidas de dívidas à banca.
Claro que há muita coisa boa, como o engenheiro Sócrates ter presidido à Europa, porque todos os países da Eurolândia presidem num jogo circular de fingimento, como comanditários de quem realmente manda. E, claro, não há a PIDE enquanto polícia torcionária, mas multiplicaram-se as polícias de informações, as escutas telefónicas a serem as novas moscas de uma falsa liberdade.
Hoje comemora-se aquela gloriosa madrugada. Nesse dia estava eu no Quartel em Mafra em Armas Pesadas de Infantaria, mau grado pesar 48 quilos. Quando me fui queixar, percebi que graças à António Maria Cardoso, tinha carimbo e ficha que me puniam por aquela forma, o canhão sem recuo como companhia, o morteiro como esperança. Quando requeri um manhoso lugar de delegado interino do procurador da República não importa onde, a mesma ficha funcionou. Nunca pedi na Torre do Tombo para ver o meu processo. Não quero confrontar-me com o saber quem terão sido os «bufos». Já me bastou ver muitos daqueles que, alegremente, entraram para cargos sob o beneplático do regime que há 34 anos caíu, a estarem hoje muito à esquerda, alguns anafadamente à esquerda de mim, censores da nova Ordem, polícias das ortodoxias.
Estou só, sempre o fui, um individualista marginal. Neste meu canto, vendo as comemorações cada mais oficiais, cada vez menos populares, cada vez no ghetto, pergunto-me sombriamente: Abril valeu a pena? Respondo: valeu, apesar de tudo, sim, valeu! E por ter valido a pena e para ser totalmente honesto, justifica-se hoje, ante a miséria política, a bandalheira de valores, o espírito de argentarismo burguês, o vira-casaquismo partidário, face à nova Legião que corrompe Portugal, que haja, furiosamente redentor, um novo 25 de Abril que nos tire desta miséria vergonhosa em que nos atolámos.
22.4.08
Bilhete de ida
A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível era sobretudo a dos países asiáticos e africanos, cujos melhores filhos tinham uma hipótese de estudarem na Europa e nos Estados Unidos da América de onde já não voltavam, para ajudar as suas pátrias a sairem do ghetto da miséria. Depois fizeram-me chegar este momento de um depoimento do meu amigo Luiz Moniz Pereira, com quem trabalhei no final dos anos sessenta num Centro de Estudos de Cibernética, albergado no Instituto Superior Técnico e a quem devo leituras sobre a teoria geral dos sistemas do Ludwig von Bertalanffy, a teoria dos jogos do von Neumann, a teoria da comunicação do Colin Cherry e sei lá quantas outras coisas que sairam a partir da intuição genial do Nobert Wiener.
Disse o Luiz, que entretanto se doutorou em inteligência artificial, enquanto se vai degradando com a passagem dos anos a minha inteligência natural: «O país tem promovido a formação de investigadores a um ritmo importante, de quase 1.000 novas bolsas de doutoramento por ano, muitas delas no estrangeiro. Por outro lado, quase metade dos investigadores portugueses (45 por cento) que trabalham no estrangeiro afirmam que não tencionam voltar a Portugal a médio prazo devido à "falta de oportunidades de emprego" e de "progressão na carreira", revela um estudo recente do Instituto de Ciências Sociais (ICS) pela socióloga Ana Delicado».
A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível partia do facto de eu ter esquecido Portugal.
7.4.08
A GNR apaga os seus buracos
Se calhar já veio nos jornais, mas eu leio poucos jornais; se calhar já muita gente falou nisso, mas eu, salvo por razões profissionais, falo com relativamente pouca gente, ao viver bastante isolado.
A verdade é que fui jantar pelo Largo do Carmo e reparei que o edifício da GNR estava rebocado e pintado e que sumiram os buracos das balas disparadas pela coluna do capitão Salgueiro Maia quando ali estava sitiado no dia 25 de Abril de 1974 o Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, que, para que o poder não caísse na rua, entregou o mandato que não detinha - pois o Chefe do Estado ausentara-se - ao general António Spínola, que só a Revolução em curso legitimou que o recebesse assim de pessoa a pessoa.
Tudo isso é História e não há reboco nem tinta que a apague.
Se a GNR se sente envergonhada ou honrada por ter sido metralhada pelos militares é uma questão de honra que tem de dirimir. Manteve-se fiel a um regime legal, que a Revolução fizera perder a legitimidade. Mas a GNR faz como tantos outros de diversos quadrantes: branqueiam a verdade do que se passou. Agora que se clama por aí que tudo deveria ser criminalizado, que tal criar no Código Penal um crime de «branqueamento da História», a ser investigado com absoluta prioridade, segundo a próxima Lei de Política Criminal?
Quanto à sede da PIDE, que colaborava com os militares na guerra em África, e de quem o Marechal Costa Gomes, sucessor de Spínola na Presidência da República, havia recebido o «crachat» de ouro, essa já está totalmente transformada em local de «charme». Um dia, em vez da pouca História que se ensina nas escolas aos nossos meninos, lecciona-se Arqueologia Portuguesa, a começar pelo 25 de Abril.
A verdade é que fui jantar pelo Largo do Carmo e reparei que o edifício da GNR estava rebocado e pintado e que sumiram os buracos das balas disparadas pela coluna do capitão Salgueiro Maia quando ali estava sitiado no dia 25 de Abril de 1974 o Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, que, para que o poder não caísse na rua, entregou o mandato que não detinha - pois o Chefe do Estado ausentara-se - ao general António Spínola, que só a Revolução em curso legitimou que o recebesse assim de pessoa a pessoa.
Tudo isso é História e não há reboco nem tinta que a apague.
Se a GNR se sente envergonhada ou honrada por ter sido metralhada pelos militares é uma questão de honra que tem de dirimir. Manteve-se fiel a um regime legal, que a Revolução fizera perder a legitimidade. Mas a GNR faz como tantos outros de diversos quadrantes: branqueiam a verdade do que se passou. Agora que se clama por aí que tudo deveria ser criminalizado, que tal criar no Código Penal um crime de «branqueamento da História», a ser investigado com absoluta prioridade, segundo a próxima Lei de Política Criminal?
Quanto à sede da PIDE, que colaborava com os militares na guerra em África, e de quem o Marechal Costa Gomes, sucessor de Spínola na Presidência da República, havia recebido o «crachat» de ouro, essa já está totalmente transformada em local de «charme». Um dia, em vez da pouca História que se ensina nas escolas aos nossos meninos, lecciona-se Arqueologia Portuguesa, a começar pelo 25 de Abril.
2.4.08
O Rilhafoles
Eu, frequentemente, por obrigações da profissão de que faço ganha-pão tenho de submergir. Afundo-me em trabalho e o tempo que me resta, em vez de dormir decentemente, aplico-o a ler e a escrevinhar. Mas claro que de quando em vez as notícias atingem-me.E desta feita perdi-me: são consultores e avenças e bancos e mais partidos e governos tudo junto com denúncias, mais o subprime e o sector energético fora o chumbo na Comissão Europeia e um senhor que, em bicos de pés, de vez em quando parece querer ser líder e outro que, qual sempre em pé, parece nunca deixar de o ser. Definitivamente desisto. A noite passada estive a ler mais uma folhas do César Machado, desta feita sobre o Rilhafoles. Sempre é mais instrutivo. Gostei muito da parte dos «furiosos», mas a que recomendo é aquela que trata dos «idiotas». Até amanhã. Desta vez, vou mesmo dormir, que este País parece que está entregue a sonâmbulos.
29.3.08
O devaneio
Depois de dias de leituras forçadas, que, malditas sejam, ainda prosseguem, como soldado de infantaria por caminho pedregoso, carregando a mochila da sua ignorância, parei. Esta noite que findou há bocado, tomei em mãos o Júlio César Machado, na sua «Lisboa na Rua», na belíssima edição da Frenesi, que tem na capa um foto do Passeio Público, ali onde hoje é a Avenida da Liberdade, com portões gradeados e tudo, que dois porteiros abriam ao raiar da aurora, não sem antes fazerem uma acocorada inspecção em busca de beatas de charutos do anafado burguês, do remediado visconde ou do pelintra marchante, essas espécie de gente, figuras que ainda hoje subsistem escondidos sob outros nomes e as mesmas comendas.´
Foi uma barrigada de riso em cada folha, aquele rir saudável porque inaudível, o riso só nosso a que nada escapa e que ninguém poupa.
Adormeci com o texto sobre a tasca, a lídima, suja, covil de «chinfrim amiúdo», hedionda e escura, a do feijão com repolho e onde há pipis e fressura, a cova funda das das tosgas, dos pifões e das peruas. Nela, morto o preto caiador, que por orçamento certo estendia a sua brocha de artista do pincel pelas fachadas, empenas e sótãos desta alfacinha cidade, os outros, irmãos de raça e camaradas de copo, entre quartilhos do pastoso tinto e decalitros do irónico branco, tudo decantado a aguardente, choravam, o dormente tasqueiro por mudo ouvinte, a sorte do Cosme que «foi para aqueli lugar onde o tabirneiro não ralha com o moço por encher o copo do freguês até à borda!».
Coitado do Cosme, de «imponente carraspana, permanente, inalterável» a aliená-lo do mundo dos outros, coitado de mim, condenado a viver a vida sóbrio para ela mais me doer, coitados de todos, um bom sábado, mesmo que seja a Água das Pedras ou lá pela tarde agarrados ao devaneio da vossa loirinha, com tremoços.
24.3.08
O fundo do mar
O Jorge Palma sentiu o suficiente para ter escrito «Ai Portugal, Portugal, de que é tu estás à espera? tens um pé numa galera e outro no fundo do mar». A interpretação mais poderosa foi em 1993, ao vivo, no Johnny Guitar. Doze anos depois, o som ainda abala, a letra ainda impressiona, repto jovem a um país envelhecido. Quinze anos passaram sobre tudo isto. Estamos irreconhecíveis.
19.3.08
O novo caso da vírgula
Li hoje de manhã a Resolução da Assembleia da República n.º 10/2008, que anuncia tratar do acompanhamento da situação de pobreza em Portugal.
Vá lá ao menos não há eufemismos, está lá com todas as letras a palavra: p-o-b-r-e-z-a!
Nos termos da dita Resolução: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, o seguinte:1 — Assumir a missão específica de observação permanente e acompanhamento da situação da pobreza em Portugal, no âmbito parlamentar».
Note-se: vírgula, no âmbito parlamentar! Ele há cada uma...
6.3.08
O «Avante!» ao alcance de qualquer PC
«No dia em que o PCP assinala o seu 87º aniversário, 6 de Março, o PCP disponibiliza no seu sítio na internet o «Avante!» clandestino, correspondente ao período 1931-1974 (I, II e VI série)», informa o site oficial dos comunistas. Ei-lo aqui. Já estava aqui. Quem vir com atenção nota que, apresentando-se como um índice cronológico do jornal entre 1931 - 1974 o jornal não se publicou entre Maio de 1938 e Setembro de 1941, pois só nessa altura é que, com a reorganização do Partido se voltou a editar. É bom que «o partido com paredes de vidro» abra os seus arquivos. Em tempos perguntei a Luís Sá, já falecido tão jovem e de tão saudosa memória, onde estavam os comunistas quando o SOE britânico recrutou para o combate clandestino anti-Eixo forças revolucionárias e homens de esquerda, como Cândido de Oliveira, sobre o qual escrevi um artigo. Respondeu-me com uma pergunta: «quais dos comunistas?». Fiquei sem resposta.
5.3.08
A Cidade Sitiada
Fui à Byblos, preparado para dizer mal, porque ouvi gente a dizer que era um «bluff» no conteúdo, fria no ambiente, um hiper-mercado de trivialidades. Só que encontrei lá o que não encontavai em outras livrarias: um livro da Clarice Lispector editado em 2 000 pela Indícios de Oiro e outro dela também, «A Cidade Sitiada», saído em 1 998 na Rocco brasileira. Tanto bastou para que o sítio se tornasse amável, o conteúdo sobejante, o lugar acolhedor. Fui à Byblos encontrar-me com ela, como se tivesemos combinado um «sim, Clarice, em frente às Amoreiras, eu sei». No mais, gosto das outras livrarias, de todas as livrarias, mesmo as que vendem livros no chão, essas sim, as maiores livrarias de Lisboa, a cidade inteira o seu balcão.
2.3.08
O cão e o gato
Estive hoje a ver notícias da política e do que à política vai parar. Fi-lo, no intervalo de um trabalho que me tem consumido e por causa do qual ainda tenho de lêr a Novela de Belfagor.
Ao escrever o seu Anti-Maquiavel, Frederico, que viria a ser o II da Prússia, lembrou que em certo momento Amsterdão foi governada por um gato e explica como: o burgomestre era muito sensível aos conselhos da mulher, esta era dominada pela criada que tinha sobre ela um «ascendente absoluto», tal como sobre a serviçal o gato da casa. Atribui-se ao mesmo Frederico como última palavra antes de morrer, a frase: «enterrem-me junto dos meus cães». Eis o meu domingo, no mundo animalesco.
26.2.08
A PT
Fica-se com o telefone de casa avariado. Telefona-se para a PT. Um simpático assistente, daqueles que não nos tratam por «senhor José», mas sempre acrescentam ao nome o apelido, diz-nos que vai tomar nota da avaria e que aguardemos que nos será comunicado dentro de momentos o número da reparação. Aguardamos, ouvimos música calmante, tomamos nota. Telefonamos depois a saber, porque os dias passam. De novo um assistente, de novo música, enfim que temos de aguardar porque a reparação vai levar uns dias. Dias depois, muitos dias depois é preciso que esteja alguém em casa entre as 9 e as 11, não podem garantir hora. A linha telefónica está finalmente reparada. Já posso voltar ao mundo. «Esperamos a sua compreensão, não temos equipas que cheguem». Tenho a certeza que não. Devem ter-se mudado todas para a concorrência.
24.2.08
A rua
Há uma lei que proíbe fumar dentro de espaços fechados. Há por causa disso uma nova realidade social, visível sobretudo onde abundam lojas e escritórios, locais onde as pessoas passam mais tempo do que nas suas casas: são os fumadores de porta, plantados aos magotes, a baforar, a imagem da sua triste marginalidade exposta, como outrora os bandidos nos pelourinhos. Do ponto de vista do fumador é a condenação à ignomínia, imagem do cão que vem para a rua alçar a pata e assim lançar fora os seus dejectos. Quanto ao fumador passivo, é a exposição ao lugar infecto, a rua que os automóveis já empestavam, impunes, e onde agora se acumula o que se não quer dentro de casa.
As cidades estão a transformar-se em interiores assépticos e nitreiras exteriores. Ai de quem não entra e saia de garagem a garagem em automóvel com ar condicionado: se não correr o risco de regressar ao lar assaltado e espancado, vem pela certa com um cancro no pulmão.
21.2.08
A pedra filosofal
As histórias, sim, são como as cerejas e esse, o tempo imediatamente após o 25 de Abril, foi um momento de grandes histórias: invulgaridades inesperadas, cenas de almas torturadas por sofrimentos doridos e vergonhosos, queixumes amargos de deslocados, de quem o desleixo fez perder a respeitabilidade pela sua sorte, todo um cortejo humano de rancores, súplicas, de ânsias.
Um dia chegou ao Ministério um requerimento de um guarda prisional, que em papel selado se queixava do mísero casebre que o Estado lhe fornecia, como se guarda sendo, de reclusos, cão de guarda fosse, na sua casota, acorrentado ao dever carcerário, sob um periclitante tecto, tudo velho, desamparado, desconsiderado.
Escrito em cuidada caligrafia, pois que nesses tempos ensinava-se na escola a escrever cursivamente e sem pontapés na gramática, o requerimento lá expunha, como podia, um desejo a melhor habitação.
Um entre tantos, lá foi, por nós secretários de ministro encaminhado, para a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, então e hoje ali ao Torel, «para informar«.
Informação por vir, eis que chega um segundo requerimento. Citava o primeiro, lamentava a ausência de resposta, dizia confiar ainda numa decisão e para que o Ministro da Justiça se não esquecesse, o requerente no canto inferior direito do almaço azul encimado pela esfera armilar - como isto parece jurássico! - recortou, a lâmina, um rendilhado no meio do qual se inseria uma tímida fitinha vermelha com a legenda «para Vossa Excelência não se esquecer de mim».
Informação por vir, eis que chega um segundo requerimento. Citava o primeiro, lamentava a ausência de resposta, dizia confiar ainda numa decisão e para que o Ministro da Justiça se não esquecesse, o requerente no canto inferior direito do almaço azul encimado pela esfera armilar - como isto parece jurássico! - recortou, a lâmina, um rendilhado no meio do qual se inseria uma tímida fitinha vermelha com a legenda «para Vossa Excelência não se esquecer de mim».
Entre a risota catártica por causa da fitinha, o lamentar rotineiro por mais aquele caso de mediania serventuária, lá se mandou a segunda exposição de novo «à Direcção Geral dos Serviços Prisionais, insistindo pela resposta ao requerido».
O tempo passou e um longo silêncio ecoava tanto da parte do requerente como da entidade oficiada. O caso parecia ter entrado na montanha dos problemas por resolver, cada vez mais graves.
Um dia, entra o Costa, o dedicado contínuo, que constava havia sido polícia e que, quando chamado pela campainha, tinha ainda a pose de mãos atrás das costas, como se em estilo de formatura militar aguardasse de nós um «firme! sentido!» a todo o instante. Creio que já andávamos pelo ano da brasa, 1975, em que, pior do que em Rio Maior, onde a moca era argumento político, a norte urdia a rede bombista. Entra o Costa, ajoujado com pesado embrulho, estranho, suspeito, quase parecendo que fazia tic-tac.
Susto entre os secretários! Que seria? Quem queria fazer mal ao nosso Salgado Zenha, que conseguira do Vaticano o divórcio para os católicos, mas de alguns «saneados» a ira pelo que lhes sucedera.
Posto em cima da mesa, o pacote que esgotara do Costa os bofes, encimava-o, ao papel pardo que lhe servia de embrulho, um requerimento, mais um, em papel selado, como sempre, do mesmo guarda prisional. Rezava mais ou menos isto: «Senhor Ministro da Justiça, Excelência, eu sou aquele guarda prisional que sem sucesso tem escrito várias vezes a esse Ministério na esperança que o 25 de Abril, que tanta alegria e esperança trouxe aos nossos corações de servidores do Estado, nos desse a Justiça que merecemos e no meu caso uma habitação decente para mim e para a minha família, porque a casa que me atribuiram está a cair. Ora ontem, senhor ministro, precisamente este pedregulho, que anexo junto, caíu mesmo em cima da mesa da casa de jantar e saiba Vossa Excelência que foi por sorte (...)».
Não sei o que é feito do requerimento e da pedra. Talvez aguardem ainda, «à consideração superior, com a informação de que o processo disciplinar instaurado ante a remoção não autorizada de parte integrante de edifício pertencente ao domínio público do Estado, ainda que com a finalidade de instruir petição legal, aguarda emissão de avaliação da Direcção Geral do Património no que refere ao valor do dano assim causado pelo arguido, tendo em vista a prolação de decisão final, na qual possa ser conhecida então, como questão prévia, a matéria da prescrição do procedimento, suscitada na defesa, conforme acórdão transitado para uniformização de jurisprudência (...)».
20.2.08
O riso e o cuidado
No primeiro Governo Provisório após o 25 de Abril ao Ministério da Justiça confluiu toda uma série de cidadãos que reclamavam e exigiam, alegando uns injustiças sofridas por causa do regime deposto, outro na expectativa de que a democracia desse àquela instituição meios de actuação para lhes resolver problemas da mais diversa natureza.
Nessa altura eu tinha 25 anos de esperanças e estava secretário do ministro, o meu saudoso patrono na advocacia, Dr. Francisco Salgado Zenha.
Ora uma tarde surgiu a notícia de que estava na salinha de espera um sujeito que tinha um grave e urgente problema que exigia actuação ministerial imediata.
Já cansado, porque no meio de problemas graves e sérios e alguns dramáticos, havia também algumas bizarrias que levavam o contínuo, criatura transitada da «antiga senhora», o velho Costa - que é feito dele ? e da mulher que era telefonista - a dizer «este é, senhor doutor, o ministério dos loucos!», eis-me a ter de ir atender o impetrante, para explicar que o senhor ministro não estava - por acaso naquele dia tinha ido, lembro-me, a Belém, a uma reunião com o Presidente da República, o general António de Spínola - mas que fizesse o favor de explicar que eu, solícito, tomaria nota.
Assomando ao umbral da porta dei com ele: criatura invulgar, com um ar de angústia, ensimesmado, a viver alguma perseguição, homem mais velho do que eu sou hoje, olheiras vincadas, cabelo crespo, uma roupa que tentava passar por cuidada.
«Senhor secretário, peço-lhe por tudo, ajude-me que tenho a BBC dentro da cabeça, de dia e de noite, e o zumbido não me deixa dormir!».
Tinha já atendido muito tema, dos mais diversos aos menos esperados, mas aquele era novo, entre o patético e o risível.
Voltei para dentro, para conciliábulo com o outro secretário, o velho José António Pombinho, homem de Portel - comunista puro e duro, a facies do Lénine, cuja casa e o «nosso partido» - como ele dizia - se confundiam, a bandeira da foice e do martelo à varanda!
Regressei, momentos após, com a solução milagrosa: «esteja descansado! Escusámos de incomodar o senhor ministro. Ligámos já para os Negócios Estrangeiros e ainda hoje vão desligar a emissão!».
Saíu às arrecuas, grato por um momento de atenção, tanto bastava, era só isso antes de estoirar aquela cabeça à qual os zumbidos já não davam descanso.
Hoje está quase tudo morto, Zenha, Pombinho, Spínola, talvez ele, menos a minha memória saudosa dos tempos em que isto foi possível e eu me preocupava, entre o riso e o cuidado.
12.2.08
Manchas de memória
Há mais de quarenta anos acordei uma manhã às manchas. Manchas generalizadas, estranhas, a disseminar um aspecto equívoco, contagioso, pestífero. Minado moralmente, quase incapaz de me mostrar à comunidade dos humanos, como se lazarento fora, encurralado na gafaria dos meus pavores, acabei por procurar, sob o crepúsculo protector do entardecer e embuçado com o possível, um médico que me desse a extrema-unção clínica daquele meu estado a meus olhos pré-putrefacto.
Sujeito bonacheirão, careca luzidia, mãos sapudas que esfregava, voluntarioso, uma na outra, como se em eterno contentamento consigo, ei-lo o dermatologista procurado, ali para a Cova da Moura, comigo na sua frente, ele de olho clínico, eu em pilau, a totalidade da minha erupção cutânea ali exposta ante a luz crua do consultório, apto à anamnese, ansioso pelo diagnóstico
Foi então que se deu o inesperado. Como se num grito de guerra de estranha língua, lançou para todos os gabinetes daquela populosa policlínica, um «pitiríase rósea de Gibert!», a cujo brado acorreram, como se das crateras de Hipócrates viessem, colegas eles e elas também, todos num súbita roda prescrutadora, em torno da minha envergonhada nudez.
Foi, naquela comunidade científica um delírio de aprendizado. «Colegas», proclamava o meu doutor, ante o círculo de todos os outros, batas brancas a ladearem-me como um cerco índio ao carro coberto, «Colegas! Tal como vem nos manuais! Cor-de-rosa triste!».
Sim, era essa a cor, a minha desgraçada côr.
Lembrei-me disto ao ver esta noite, por um momento em televisão alheia, o general Ramalho Eanes falar do estado de depressão que grassa no país e eu a lembrar-me do animado Governo que temos e que se diz socialista: cor-de-rosa triste, poderia ele ter dito do que por anda!
Com uma diferença! A pitiríase rósea de Gibert, cura-se por si, o Governo, esse, só com eleições.
A lição de Dili
Uma das coisas que se nota em Dili é ser tudo muito pequeno, tudo muito perto, tudo muito comentado, como é típico nos meios pequenos. Mas o que sobressai é, como estando tudo tão próximo, tudo é tão confuso, tudo tão distorcido, tudo na base do parece que, no ouvi dizer, na intriga permanente, na luta pelo poder.
O território parece um país ocupado, à chegada sente-se um ambiente de guerra iminente. No dia dos atentados, às primeiras horas não havia policiamento, os «internacionais» pairavam expectantes.
Nota-se que não há Estado quando a segurança falha; mas o Estado já falhou quando se criaram as condições para que a segurança não seja possível.
Nisso Portugal tem de aprender com Timor. A desagregação de uma Nação velha como a nossa não é diferente da incapacidade de agregação de uma Nação jovem. Basta a irresponsabilidade dos dirigentes.
7.2.08
Dia de silêncio
Há dias em que, mesmo quem tem muito onde escrever não tem nada para dizer. Espantam-me, por isso, os cronistas por obrigação, os opinadores de serviço, os avençados da coluna, e de entre todos, os da opinião geral e universal. Deve ser um tormento uma pessoa amanhecer com notícias e deitar-se com opiniões. A meio da noite devem ter pesadelos com o que se passa nas Américas onde ainda é dia ou na Ásia onde a noite se aproxima. Depois é a política externa e os escândalos internos, as resmas livros de que se tem de conhecer ao menos a capa e a badana. São os condenados às galés do ter ideias, o corvo da realidade a bicar-lhes o fígado da imaginação, amarrados, qual Sísifos modernos, ao rochedo do fazerem-se ouvir.
6.2.08
O fidalgo aprendiz
Para demonstrar, num seu livro recente, que o povo português é, na sua intrínseca filosofia, incompatível com o espírito «maquiavélico», o professor Martim de Albuquerque, depois de refutar todos os «pretendidos» maquiavelistas do nosso Renascimento em diante, conclui dizendo que é o facto de termos criado a figura do «fidalgo» que melhor o demonstra. Ao ter descoberto ontem pela noite que essa era a conclusão, eu que, tinha visto no Isaiah Berlin que o Secretário florentino já foi apodado de tudo, de angélico arquitecto da cidade perfeita, como Piero de la Francesca e desenhou, até ao satânico inspirador do massacre de São Barolomeu, vou ler o livro e depressa, se não em busca do Príncipe, pelo menos para saber por onde pára o fidalgo, que de há muito lhe perdi o rasto.
5.2.08
A língua de Camões
Quando cheguei a Macau, há vinte anos, nem os polícias na rua falavam português. Estávamos na recta final para entregar Macau à China. Macau era «território chinês, sob administração portuguesa». A partir da Declaração Conjunta admitiu-se, por razões políticas, o bi-linguismo como forma oficial de convivência das duas culturas. Gastaram-se milhões em traduções, no ensino do português, na difusão da literatura de Portugal. Floreseceram fundações, entre elas a Fundação Oriente. O seu presidente, Carlos Monjardino, proclamou agora, segundo o revela a agência Lusa, esta frase redonda: «Em Macau, onde as pessoas estão num contexto de utilização do cantonense (dialecto do sul da China), que têm de aprender mandarim (língua oficial chinesa) e inglês há cada vez menos margem para aprender ainda o português». Esta frase visou explicar que «mesmo não sendo muitos, a Escola Portuguesa tem vindo a perder alunos». Só na escola a Fundação diz ter investido 8,7 milhões de euros.
Aquilo que era presivível, está a suceder, apesar dos discursos de então.
Terra de intriga, havia quem ironicamente chamasse a Macau a zona do bifidismo. Com mais naturalidade se fala o português em África, sem que os portugueses disso se dêm conta, ou nisso gastem um chavo de jeito.
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