22.4.08

Bilhete de ida

A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível era sobretudo a dos países asiáticos e africanos, cujos melhores filhos tinham uma hipótese de estudarem na Europa e nos Estados Unidos da América de onde já não voltavam, para ajudar as suas pátrias a sairem do ghetto da miséria. Depois fizeram-me chegar este momento de um depoimento do meu amigo Luiz Moniz Pereira, com quem trabalhei no final dos anos sessenta num Centro de Estudos de Cibernética, albergado no Instituto Superior Técnico e a quem devo leituras sobre a teoria geral dos sistemas do Ludwig von Bertalanffy, a teoria dos jogos do von Neumann, a teoria da comunicação do Colin Cherry e sei lá quantas outras coisas que sairam a partir da intuição genial do Nobert Wiener.
Disse o Luiz, que entretanto se doutorou em inteligência artificial, enquanto se vai degradando com a passagem dos anos a minha inteligência natural: «O país tem promovido a formação de investigadores a um ritmo importante, de quase 1.000 novas bolsas de doutoramento por ano, muitas delas no estrangeiro. Por outro lado, quase metade dos investigadores portugueses (45 por cento) que trabalham no estrangeiro afirmam que não tencionam voltar a Portugal a médio prazo devido à "falta de oportunidades de emprego" e de "progressão na carreira", revela um estudo recente do Instituto de Ciências Sociais (ICS) pela socióloga Ana Delicado».
A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível partia do facto de eu ter esquecido Portugal.

7.4.08

A GNR apaga os seus buracos

Se calhar já veio nos jornais, mas eu leio poucos jornais; se calhar já muita gente falou nisso, mas eu, salvo por razões profissionais, falo com relativamente pouca gente, ao viver bastante isolado.
A verdade é que fui jantar pelo Largo do Carmo e reparei que o edifício da GNR estava rebocado e pintado e que sumiram os buracos das balas disparadas pela coluna do capitão Salgueiro Maia quando ali estava sitiado no dia 25 de Abril de 1974 o Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, que, para que o poder não caísse na rua, entregou o mandato que não detinha - pois o Chefe do Estado ausentara-se - ao general António Spínola, que só a Revolução em curso legitimou que o recebesse assim de pessoa a pessoa.
Tudo isso é História e não há reboco nem tinta que a apague.
Se a GNR se sente envergonhada ou honrada por ter sido metralhada pelos militares é uma questão de honra que tem de dirimir. Manteve-se fiel a um regime legal, que a Revolução fizera perder a legitimidade. Mas a GNR faz como tantos outros de diversos quadrantes: branqueiam a verdade do que se passou. Agora que se clama por aí que tudo deveria ser criminalizado, que tal criar no Código Penal um crime de «branqueamento da História», a ser investigado com absoluta prioridade, segundo a próxima Lei de Política Criminal?
Quanto à sede da PIDE, que colaborava com os militares na guerra em África, e de quem o Marechal Costa Gomes, sucessor de Spínola na Presidência da República, havia recebido o «crachat» de ouro, essa já está totalmente transformada em local de «charme». Um dia, em vez da pouca História que se ensina nas escolas aos nossos meninos, lecciona-se Arqueologia Portuguesa, a começar pelo 25 de Abril.

2.4.08

O Rilhafoles

Eu, frequentemente, por obrigações da profissão de que faço ganha-pão tenho de submergir. Afundo-me em trabalho e o tempo que me resta, em vez de dormir decentemente, aplico-o a ler e a escrevinhar. Mas claro que de quando em vez as notícias atingem-me.E desta feita perdi-me: são consultores e avenças e bancos e mais partidos e governos tudo junto com denúncias, mais o subprime e o sector energético fora o chumbo na Comissão Europeia e um senhor que, em bicos de pés, de vez em quando parece querer ser líder e outro que, qual sempre em pé, parece nunca deixar de o ser. Definitivamente desisto. A noite passada estive a ler mais uma folhas do César Machado, desta feita sobre o Rilhafoles. Sempre é mais instrutivo. Gostei muito da parte dos «furiosos», mas a que recomendo é aquela que trata dos «idiotas». Até amanhã. Desta vez, vou mesmo dormir, que este País parece que está entregue a sonâmbulos.

29.3.08

O devaneio

Depois de dias de leituras forçadas, que, malditas sejam, ainda prosseguem, como soldado de infantaria por caminho pedregoso, carregando a mochila da sua ignorância, parei. Esta noite que findou há bocado, tomei em mãos o Júlio César Machado, na sua «Lisboa na Rua», na belíssima edição da Frenesi, que tem na capa um foto do Passeio Público, ali onde hoje é a Avenida da Liberdade, com portões gradeados e tudo, que dois porteiros abriam ao raiar da aurora, não sem antes fazerem uma acocorada inspecção em busca de beatas de charutos do anafado burguês, do remediado visconde ou do pelintra marchante, essas espécie de gente, figuras que ainda hoje subsistem escondidos sob outros nomes e as mesmas comendas.´
Foi uma barrigada de riso em cada folha, aquele rir saudável porque inaudível, o riso só nosso a que nada escapa e que ninguém poupa.
Adormeci com o texto sobre a tasca, a lídima, suja, covil de «chinfrim amiúdo», hedionda e escura, a do feijão com repolho e onde há pipis e fressura, a cova funda das das tosgas, dos pifões e das peruas. Nela, morto o preto caiador, que por orçamento certo estendia a sua brocha de artista do pincel pelas fachadas, empenas e sótãos desta alfacinha cidade, os outros, irmãos de raça e camaradas de copo, entre quartilhos do pastoso tinto e decalitros do irónico branco, tudo decantado a aguardente, choravam, o dormente tasqueiro por mudo ouvinte, a sorte do Cosme que «foi para aqueli lugar onde o tabirneiro não ralha com o moço por encher o copo do freguês até à borda!».
Coitado do Cosme, de «imponente carraspana, permanente, inalterável» a aliená-lo do mundo dos outros, coitado de mim, condenado a viver a vida sóbrio para ela mais me doer, coitados de todos, um bom sábado, mesmo que seja a Água das Pedras ou lá pela tarde agarrados ao devaneio da vossa loirinha, com tremoços.

24.3.08

O fundo do mar

O Jorge Palma sentiu o suficiente para ter escrito «Ai Portugal, Portugal, de que é tu estás à espera? tens um pé numa galera e outro no fundo do mar». A interpretação mais poderosa foi em 1993, ao vivo, no Johnny Guitar. Doze anos depois, o som ainda abala, a letra ainda impressiona, repto jovem a um país envelhecido. Quinze anos passaram sobre tudo isto. Estamos irreconhecíveis.

19.3.08

O novo caso da vírgula

Li hoje de manhã a Resolução da Assembleia da República n.º 10/2008, que anuncia tratar do acompanhamento da situação de pobreza em Portugal.
Vá lá ao menos não há eufemismos, está lá com todas as letras a palavra: p-o-b-r-e-z-a!
Nos termos da dita Resolução: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, o seguinte:1 — Assumir a missão específica de observação permanente e acompanhamento da situação da pobreza em Portugal, no âmbito parlamentar».
Note-se: vírgula, no âmbito parlamentar! Ele há cada uma...

6.3.08

O «Avante!» ao alcance de qualquer PC

«No dia em que o PCP assinala o seu 87º aniversário, 6 de Março, o PCP disponibiliza no seu sítio na internet o «Avante!» clandestino, correspondente ao período 1931-1974 (I, II e VI série)», informa o site oficial dos comunistas. Ei-lo aqui. Já estava aqui. Quem vir com atenção nota que, apresentando-se como um índice cronológico do jornal entre 1931 - 1974 o jornal não se publicou entre Maio de 1938 e Setembro de 1941, pois só nessa altura é que, com a reorganização do Partido se voltou a editar. É bom que «o partido com paredes de vidro» abra os seus arquivos. Em tempos perguntei a Luís Sá, já falecido tão jovem e de tão saudosa memória, onde estavam os comunistas quando o SOE britânico recrutou para o combate clandestino anti-Eixo forças revolucionárias e homens de esquerda, como Cândido de Oliveira, sobre o qual escrevi um artigo. Respondeu-me com uma pergunta: «quais dos comunistas?». Fiquei sem resposta.

5.3.08

A Cidade Sitiada

Fui à Byblos, preparado para dizer mal, porque ouvi gente a dizer que era um «bluff» no conteúdo, fria no ambiente, um hiper-mercado de trivialidades. Só que encontrei lá o que não encontavai em outras livrarias: um livro da Clarice Lispector editado em 2 000 pela Indícios de Oiro e outro dela também, «A Cidade Sitiada», saído em 1 998 na Rocco brasileira. Tanto bastou para que o sítio se tornasse amável, o conteúdo sobejante, o lugar acolhedor. Fui à Byblos encontrar-me com ela, como se tivesemos combinado um «sim, Clarice, em frente às Amoreiras, eu sei». No mais, gosto das outras livrarias, de todas as livrarias, mesmo as que vendem livros no chão, essas sim, as maiores livrarias de Lisboa, a cidade inteira o seu balcão.

2.3.08

O cão e o gato

Estive hoje a ver notícias da política e do que à política vai parar. Fi-lo, no intervalo de um trabalho que me tem consumido e por causa do qual ainda tenho de lêr a Novela de Belfagor.
Ao escrever o seu Anti-Maquiavel, Frederico, que viria a ser o II da Prússia, lembrou que em certo momento Amsterdão foi governada por um gato e explica como: o burgomestre era muito sensível aos conselhos da mulher, esta era dominada pela criada que tinha sobre ela um «ascendente absoluto», tal como sobre a serviçal o gato da casa. Atribui-se ao mesmo Frederico como última palavra antes de morrer, a frase: «enterrem-me junto dos meus cães». Eis o meu domingo, no mundo animalesco.

26.2.08

A PT

Fica-se com o telefone de casa avariado. Telefona-se para a PT. Um simpático assistente, daqueles que não nos tratam por «senhor José», mas sempre acrescentam ao nome o apelido, diz-nos que vai tomar nota da avaria e que aguardemos que nos será comunicado dentro de momentos o número da reparação. Aguardamos, ouvimos música calmante, tomamos nota. Telefonamos depois a saber, porque os dias passam. De novo um assistente, de novo música, enfim que temos de aguardar porque a reparação vai levar uns dias. Dias depois, muitos dias depois é preciso que esteja alguém em casa entre as 9 e as 11, não podem garantir hora. A linha telefónica está finalmente reparada. Já posso voltar ao mundo. «Esperamos a sua compreensão, não temos equipas que cheguem». Tenho a certeza que não. Devem ter-se mudado todas para a concorrência.

24.2.08

A rua

Há uma lei que proíbe fumar dentro de espaços fechados. Há por causa disso uma nova realidade social, visível sobretudo onde abundam lojas e escritórios, locais onde as pessoas passam mais tempo do que nas suas casas: são os fumadores de porta, plantados aos magotes, a baforar, a imagem da sua triste marginalidade exposta, como outrora os bandidos nos pelourinhos. Do ponto de vista do fumador é a condenação à ignomínia, imagem do cão que vem para a rua alçar a pata e assim lançar fora os seus dejectos. Quanto ao fumador passivo, é a exposição ao lugar infecto, a rua que os automóveis já empestavam, impunes, e onde agora se acumula o que se não quer dentro de casa.
As cidades estão a transformar-se em interiores assépticos e nitreiras exteriores. Ai de quem não entra e saia de garagem a garagem em automóvel com ar condicionado: se não correr o risco de regressar ao lar assaltado e espancado, vem pela certa com um cancro no pulmão.

21.2.08

A pedra filosofal

As histórias, sim, são como as cerejas e esse, o tempo imediatamente após o 25 de Abril, foi um momento de grandes histórias: invulgaridades inesperadas, cenas de almas torturadas por sofrimentos doridos e vergonhosos, queixumes amargos de deslocados, de quem o desleixo fez perder a respeitabilidade pela sua sorte, todo um cortejo humano de rancores, súplicas, de ânsias.
Um dia chegou ao Ministério um requerimento de um guarda prisional, que em papel selado se queixava do mísero casebre que o Estado lhe fornecia, como se guarda sendo, de reclusos, cão de guarda fosse, na sua casota, acorrentado ao dever carcerário, sob um periclitante tecto, tudo velho, desamparado, desconsiderado.
Escrito em cuidada caligrafia, pois que nesses tempos ensinava-se na escola a escrever cursivamente e sem pontapés na gramática, o requerimento lá expunha, como podia, um desejo a melhor habitação.
Um entre tantos, lá foi, por nós secretários de ministro encaminhado, para a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, então e hoje ali ao Torel, «para informar«.
Informação por vir, eis que chega um segundo requerimento. Citava o primeiro, lamentava a ausência de resposta, dizia confiar ainda numa decisão e para que o Ministro da Justiça se não esquecesse, o requerente no canto inferior direito do almaço azul encimado pela esfera armilar - como isto parece jurássico! - recortou, a lâmina, um rendilhado no meio do qual se inseria uma tímida fitinha vermelha com a legenda «para Vossa Excelência não se esquecer de mim».
Entre a risota catártica por causa da fitinha, o lamentar rotineiro por mais aquele caso de mediania serventuária, lá se mandou a segunda exposição de novo «à Direcção Geral dos Serviços Prisionais, insistindo pela resposta ao requerido».
O tempo passou e um longo silêncio ecoava tanto da parte do requerente como da entidade oficiada. O caso parecia ter entrado na montanha dos problemas por resolver, cada vez mais graves.
Um dia, entra o Costa, o dedicado contínuo, que constava havia sido polícia e que, quando chamado pela campainha, tinha ainda a pose de mãos atrás das costas, como se em estilo de formatura militar aguardasse de nós um «firme! sentido!» a todo o instante. Creio que já andávamos pelo ano da brasa, 1975, em que, pior do que em Rio Maior, onde a moca era argumento político, a norte urdia a rede bombista. Entra o Costa, ajoujado com pesado embrulho, estranho, suspeito, quase parecendo que fazia tic-tac.
Susto entre os secretários! Que seria? Quem queria fazer mal ao nosso Salgado Zenha, que conseguira do Vaticano o divórcio para os católicos, mas de alguns «saneados» a ira pelo que lhes sucedera.
Posto em cima da mesa, o pacote que esgotara do Costa os bofes, encimava-o, ao papel pardo que lhe servia de embrulho, um requerimento, mais um, em papel selado, como sempre, do mesmo guarda prisional. Rezava mais ou menos isto: «Senhor Ministro da Justiça, Excelência, eu sou aquele guarda prisional que sem sucesso tem escrito várias vezes a esse Ministério na esperança que o 25 de Abril, que tanta alegria e esperança trouxe aos nossos corações de servidores do Estado, nos desse a Justiça que merecemos e no meu caso uma habitação decente para mim e para a minha família, porque a casa que me atribuiram está a cair. Ora ontem, senhor ministro, precisamente este pedregulho, que anexo junto, caíu mesmo em cima da mesa da casa de jantar e saiba Vossa Excelência que foi por sorte (...)».
Não sei o que é feito do requerimento e da pedra. Talvez aguardem ainda, «à consideração superior, com a informação de que o processo disciplinar instaurado ante a remoção não autorizada de parte integrante de edifício pertencente ao domínio público do Estado, ainda que com a finalidade de instruir petição legal, aguarda emissão de avaliação da Direcção Geral do Património no que refere ao valor do dano assim causado pelo arguido, tendo em vista a prolação de decisão final, na qual possa ser conhecida então, como questão prévia, a matéria da prescrição do procedimento, suscitada na defesa, conforme acórdão transitado para uniformização de jurisprudência (...)».

20.2.08

O riso e o cuidado

No primeiro Governo Provisório após o 25 de Abril ao Ministério da Justiça confluiu toda uma série de cidadãos que reclamavam e exigiam, alegando uns injustiças sofridas por causa do regime deposto, outro na expectativa de que a democracia desse àquela instituição meios de actuação para lhes resolver problemas da mais diversa natureza.
Nessa altura eu tinha 25 anos de esperanças e estava secretário do ministro, o meu saudoso patrono na advocacia, Dr. Francisco Salgado Zenha.
Ora uma tarde surgiu a notícia de que estava na salinha de espera um sujeito que tinha um grave e urgente problema que exigia actuação ministerial imediata.
Já cansado, porque no meio de problemas graves e sérios e alguns dramáticos, havia também algumas bizarrias que levavam o contínuo, criatura transitada da «antiga senhora», o velho Costa - que é feito dele ? e da mulher que era telefonista - a dizer «este é, senhor doutor, o ministério dos loucos!», eis-me a ter de ir atender o impetrante, para explicar que o senhor ministro não estava - por acaso naquele dia tinha ido, lembro-me, a Belém, a uma reunião com o Presidente da República, o general António de Spínola - mas que fizesse o favor de explicar que eu, solícito, tomaria nota.
Assomando ao umbral da porta dei com ele: criatura invulgar, com um ar de angústia, ensimesmado, a viver alguma perseguição, homem mais velho do que eu sou hoje, olheiras vincadas, cabelo crespo, uma roupa que tentava passar por cuidada.
«Senhor secretário, peço-lhe por tudo, ajude-me que tenho a BBC dentro da cabeça, de dia e de noite, e o zumbido não me deixa dormir!».
Tinha já atendido muito tema, dos mais diversos aos menos esperados, mas aquele era novo, entre o patético e o risível.
Voltei para dentro, para conciliábulo com o outro secretário, o velho José António Pombinho, homem de Portel - comunista puro e duro, a facies do Lénine, cuja casa e o «nosso partido» - como ele dizia - se confundiam, a bandeira da foice e do martelo à varanda!
Regressei, momentos após, com a solução milagrosa: «esteja descansado! Escusámos de incomodar o senhor ministro. Ligámos já para os Negócios Estrangeiros e ainda hoje vão desligar a emissão!».
Saíu às arrecuas, grato por um momento de atenção, tanto bastava, era só isso antes de estoirar aquela cabeça à qual os zumbidos já não davam descanso.
Hoje está quase tudo morto, Zenha, Pombinho, Spínola, talvez ele, menos a minha memória saudosa dos tempos em que isto foi possível e eu me preocupava, entre o riso e o cuidado.

12.2.08

Manchas de memória

Há mais de quarenta anos acordei uma manhã às manchas. Manchas generalizadas, estranhas, a disseminar um aspecto equívoco, contagioso, pestífero. Minado moralmente, quase incapaz de me mostrar à comunidade dos humanos, como se lazarento fora, encurralado na gafaria dos meus pavores, acabei por procurar, sob o crepúsculo protector do entardecer e embuçado com o possível, um médico que me desse a extrema-unção clínica daquele meu estado a meus olhos pré-putrefacto.
Sujeito bonacheirão, careca luzidia, mãos sapudas que esfregava, voluntarioso, uma na outra, como se em eterno contentamento consigo, ei-lo o dermatologista procurado, ali para a Cova da Moura, comigo na sua frente, ele de olho clínico, eu em pilau, a totalidade da minha erupção cutânea ali exposta ante a luz crua do consultório, apto à anamnese, ansioso pelo diagnóstico
Foi então que se deu o inesperado. Como se num grito de guerra de estranha língua, lançou para todos os gabinetes daquela populosa policlínica, um «pitiríase rósea de Gibert!», a cujo brado acorreram, como se das crateras de Hipócrates viessem, colegas eles e elas também, todos num súbita roda prescrutadora, em torno da minha envergonhada nudez.
Foi, naquela comunidade científica um delírio de aprendizado. «Colegas», proclamava o meu doutor, ante o círculo de todos os outros, batas brancas a ladearem-me como um cerco índio ao carro coberto, «Colegas! Tal como vem nos manuais! Cor-de-rosa triste!».
Sim, era essa a cor, a minha desgraçada côr.
Lembrei-me disto ao ver esta noite, por um momento em televisão alheia, o general Ramalho Eanes falar do estado de depressão que grassa no país e eu a lembrar-me do animado Governo que temos e que se diz socialista: cor-de-rosa triste, poderia ele ter dito do que por anda!
Com uma diferença! A pitiríase rósea de Gibert, cura-se por si, o Governo, esse, só com eleições.

A lição de Dili

Uma das coisas que se nota em Dili é ser tudo muito pequeno, tudo muito perto, tudo muito comentado, como é típico nos meios pequenos. Mas o que sobressai é, como estando tudo tão próximo, tudo é tão confuso, tudo tão distorcido, tudo na base do parece que, no ouvi dizer, na intriga permanente, na luta pelo poder.
O território parece um país ocupado, à chegada sente-se um ambiente de guerra iminente. No dia dos atentados, às primeiras horas não havia policiamento, os «internacionais» pairavam expectantes.
Nota-se que não há Estado quando a segurança falha; mas o Estado já falhou quando se criaram as condições para que a segurança não seja possível.
Nisso Portugal tem de aprender com Timor. A desagregação de uma Nação velha como a nossa não é diferente da incapacidade de agregação de uma Nação jovem. Basta a irresponsabilidade dos dirigentes.

7.2.08

Dia de silêncio

Há dias em que, mesmo quem tem muito onde escrever não tem nada para dizer. Espantam-me, por isso, os cronistas por obrigação, os opinadores de serviço, os avençados da coluna, e de entre todos, os da opinião geral e universal. Deve ser um tormento uma pessoa amanhecer com notícias e deitar-se com opiniões. A meio da noite devem ter pesadelos com o que se passa nas Américas onde ainda é dia ou na Ásia onde a noite se aproxima. Depois é a política externa e os escândalos internos, as resmas livros de que se tem de conhecer ao menos a capa e a badana. São os condenados às galés do ter ideias, o corvo da realidade a bicar-lhes o fígado da imaginação, amarrados, qual Sísifos modernos, ao rochedo do fazerem-se ouvir.

6.2.08

O fidalgo aprendiz

Para demonstrar, num seu livro recente, que o povo português é, na sua intrínseca filosofia, incompatível com o espírito «maquiavélico», o professor Martim de Albuquerque, depois de refutar todos os «pretendidos» maquiavelistas do nosso Renascimento em diante, conclui dizendo que é o facto de termos criado a figura do «fidalgo» que melhor o demonstra. Ao ter descoberto ontem pela noite que essa era a conclusão, eu que, tinha visto no Isaiah Berlin que o Secretário florentino já foi apodado de tudo, de angélico arquitecto da cidade perfeita, como Piero de la Francesca e desenhou, até ao satânico inspirador do massacre de São Barolomeu, vou ler o livro e depressa, se não em busca do Príncipe, pelo menos para saber por onde pára o fidalgo, que de há muito lhe perdi o rasto.

5.2.08

A língua de Camões

Quando cheguei a Macau, há vinte anos, nem os polícias na rua falavam português. Estávamos na recta final para entregar Macau à China. Macau era «território chinês, sob administração portuguesa». A partir da Declaração Conjunta admitiu-se, por razões políticas, o bi-linguismo como forma oficial de convivência das duas culturas. Gastaram-se milhões em traduções, no ensino do português, na difusão da literatura de Portugal. Floreseceram fundações, entre elas a Fundação Oriente. O seu presidente, Carlos Monjardino, proclamou agora, segundo o revela a agência Lusa, esta frase redonda: «Em Macau, onde as pessoas estão num contexto de utilização do cantonense (dialecto do sul da China), que têm de aprender mandarim (língua oficial chinesa) e inglês há cada vez menos margem para aprender ainda o português». Esta frase visou explicar que «mesmo não sendo muitos, a Escola Portuguesa tem vindo a perder alunos». Só na escola a Fundação diz ter investido 8,7 milhões de euros.
Aquilo que era presivível, está a suceder, apesar dos discursos de então.
Terra de intriga, havia quem ironicamente chamasse a Macau a zona do bifidismo. Com mais naturalidade se fala o português em África, sem que os portugueses disso se dêm conta, ou nisso gastem um chavo de jeito.

3.2.08

Sentido único

José António Pinto Ribeiro está Ministro. Veio de administrador da Fundação Berardo. O que parece mal é ir-se da pública para a privada. «Hello!»

2.2.08

Godos e romanos

Manuel Buiça, que era de Vinhais, disparou sobre o Rei D. Carlos. Alberto Martins, deputado, que também é de Vinhais, disparou sobre a aprovação parlamentar de uma homenagem ao rei morto, que alguns desejavam ver decretada no mesmo hemiciclo onde já foram as Cortes.
O Parlamento republicano não quis que uma homenagem ao rei fosse uma homenagem contra a República, já que corria o risco de, antecipando 1910 a 1908, entroncar, no subconsciente da nação, a sua legitimidade política, não numa proclamação feita das varandas do Município, mas sim num homicídio régio no quarteirão ao lado, tudo nesta pequena Lisboa.
Esta manhã lembrei-me da coincidência transmontana de Vinhais.
Escrevendo para a Seara Nova, em 1922, Aquilino Ribeiro, a quem não é indiferente na sua escrita telúrica, a origem das espécies que por ela desfilam, descreve o regicida como «este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais persistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa de gerações, genuíno, inquieto e batalhadora como a flor estremece da raça».
Li isto e, por falar em godos, lembrei-me do Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, quando ele descreve o momento em que os romanos derrotados conseguiram absorver esses rudes homens godos de «afectos ardentes e profundos» numa só nação com os decadentes césares do meio-dia.
Fui buscá-lo à estante e lá estava o momento que se me vincou no espírito, uma vez mais: «a civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral».
Eis a miscigenação que torna a questão do regime indiferente, a diferença entre os governos nula, os Buiças deste mundo - de novo Aquilino - «argamassado, a um grau extremo, das virtudes e falhas da raça».

1.2.08

O reino do medo

Há no livro da Margarida Magalhães Ramalho sobre o regicídio, a cujo lançamento hoje assisti, neste fim de tarde inesperadamente livre, uma frase polémica e corajosa. Ela cita-a das Memórias de Raul Brandão, que ontem vi à venda numa livraria aqui ao pé de minha casa - livraria ainda de pouca clientela e onde me alegro cada vez que vejo entrar gente - e que é assim: «o Rei tinha, na verdade, defeitos, mas - diga-se! Diga-se - não foram os seus defeitos que o mataram, sim as suas qualidades». Brandão, cujas memórias eu hei-de comprar, mesmo agora que já ando a refrear tanto gasto em livros, tem na obra citada uma outra frase notável, que mostra quem manda, enfim, quando do caos: «quem governa agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Majestade o Medo».

27.1.08

O regicídio: o processo e a fuga

Como se sabe o processo criminal do regicídio desapareceu. Ao que parece teriam sido feitas várias cópias. Nenhuma subsiste. No site do centenário dão-se pormenores sobre o que teria sido o destino de cada uma dessas cópias. A 30 de Janeiro será lançado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal o livro «Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido», um livro que se enuncia como tendo 348 páginas e 400 ilustrações e resultar de dois anos de investigação de uma equipa que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, e 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Estive ontem a ler um estudo sobre o regicídio da autoria de Miguel Sanches de Baêna. Num certo momento da sua narrativa e falando das actas do julgamento escreve: «essas mesmas actas apareceram nas mãos de um particular, que permitiu, a título privado, a sua consulta». E antes cita Aquilino Ribeiro [citado nas Memórias de Raul Brandão, II] «existe uma acta do regicídio que me trouxeram aqui à biblioteca [Nacional] para eu ver». Baêna não diz quem é o particular que tem as actas e que o deixou lê-las. Aquilino não disse quem lhe levou o documento ou porquê. O livro de Baêna é prefaciado por António Reis, Grão-Mestre da Maçonaria.
Mais diz Baêna que a carabina Winchester utlizada por Buiça para matar o rei, com o n.º de série 2137, comprada na espingardaria de Heitor Ferreira, que ainda hoje existe, junto à estação de caminho de ferro, no Rossio «está actualmente na posse de um particular».
A espingardaria, diz, passou a chamar-se «Espingardaria A. Montês», de António Eduardo Montês, antigo empregado de Ferreira, o local da sua sede o actual Largo D. João da Câmara, então chamado Largo de Camões. Quanto ao particular dono da relíquia, fica na penumbra.
Eis pois.
A 1 de Fevereiro, umas centenas de metros do local da compra das armas, no Terreiro do Paço, dava-se a «sinfonia da morte», morrendo D. Carlos e o Príncipe Luis Filipe. A Justiça encarregar-se-ia, tansformando o crime em processo, de não descobrir os mandantes. Manuel dos Reis da Silva Buiça, professor, assassino do Rei e Alfredo Luís da Costa, comissionista, que matou o Príncipe, foram condenados sumariamente no local, mortos logo a tiro, sofrendo a morte que deram.
Já com os corpos no Arsenal, compareceu o Ministério todo, excepto o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho. Escreveu Dom Manuel II, sucessor no trono, no seu diário íntimo «isso não poderei nunca esquecer é que fazendo parte do Ministério do meu querido Pai quando foi assassinado não foi ao Arsenal! Diz-se (não o quero afirmar) que fugiu para as águas-furtadas do Ministério da Fazenda e ali fechou a porta à chave! Seja como for agora seis meses que Meu Pai e Meu Irmão de chorada memória foram assassinados e nunca mais aqui pôs os pés!».
É a lei do eterno fugir, uns a não verem outros a não saberem, todos a não serem. Viva Portugal.

26.1.08

O Bastonário e suas declarações

Desempenho, como é sabido, funções de Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Exerço a advocacia. Sou cidadão. A primeira qualidade não exclui as duas seguintes. Tenho é de tornar claro que há um local e um meio de o Presidente do Conselho Superior se exprimir. Não é este, não é aqui.
Mesmo levando isso em conta e podendo refugiar-me numa qualidade não oficial, não vou comentar as afirmações do Bastonário da Ordem dos Advogados, nem o facto de, por causa delas, o Procurador Geral da República ter ordenado a instauração de um inquérito criminal.
É que sobre isso, no plano público, está tudo dito. Resta aguardar que as instituições funcionem. Essa, sim, é a questão. Até aqui, são afirmações e um comunicado. Ponto.

25.1.08

O Ministério do Interior

Houve tempos em que o Ministério da Justiça era o Ministério das Leis. Depois, com Santana Lopes como Secretário de Estado, as leis passaram para a Presidência do Conselho de Ministros. Almeida Santos e Mário Raposo passaram a ser os últimos guarda-selos da legalidade.
Um dia, ironizando, escrevi que o Ministério da Justiça era o Ministério dos Equipamentos Judiciários - por mandar construir tribunais e mobilá-los - e dos Monumentos Legislativos - por encomendar Códigos a professores e a comissões -.
Vem agora o líder do PSD sugerir que se integrem num Ministério só o da Justiça e o da Administração Interna.
No bojo de tal pensamento não está tornar a segurança interna uma dependência da Justiça, fazendo triunfar a Lei sobre a Ordem. Está precisamente o contrário.
A seguir-se este caminho, os juízes, os procuradores e os advogados, que de vez em quando ainda pensam que é Alberto Costa o seu interlocutor, que se preparem. No futuro tratarão dos seus assuntos directamente no Governo Civil.
José Sócrates bem pode agradecer a Luís Filipe Menezes. Ambos são o verso e o reverso do mesmo, a ânsia de autoridade, o triunfo da ambição.
Gonçalves Rapazote era capaz de ter vergonha de pensar isso. Tinha Manuel Cavaleiro de Ferreira e António de Oliveira Salazar que não lhe permitiriam tanto.

20.1.08

Piadas fedorentas

Houve tempos em que havia temas que eram objecto de recato, um deles as convicções religiosas. Não que a Literatura não haja denunciado o abuso do pároco, a licenciosidade clerical, a falsa devoção de sacristia, o frei glutão. Mas fazia-o em nome do respeito à fé alheia, para que se não ofendesse a intimidade das convicções, em nome do perfeito, do justo, do divino. A seriedade do sagrado era o limite à ironia do profano.
Há pouco vi uma palhaçada ridícula no canal público de televisão de achincalhamento grosseiro, inútil, desnecessário e vil a Ordens Religiosas. Chamava-se «E tudo o convento levou».
O Ocidente está no seu estretor. Passado o Mediterrâneo, esse antigo lago romano, há quem dê a vida pela fé. A vida própria e a dos outros.
Aqui confundimos alarvice com piada, boçalidade com humor. Isto no canal do serviço público, o tal canal.

18.1.08

A República e o Feudo

Quando o ministro da Justiça diz, numa «boutade» que «Portugal não é uma República de Procuradores», eis uma grande notícia, porque a frase diverte, sobretudo os que acham que Portugal se está a tornar numa «República de procurados».
Quando o Procurador-Geral da República disse que o Ministério Público é «um feudo de condes, viscondes e marquesas», a frase divertiu muito mais, sobretudo os que acham que a Justiça se está a tornar num campo pedregoso de servos da gleba da courela forense.
Mas quando o Procurador-Geral da República, depois de alimentar fartas expectativas de que o Governo ia mudar na legislação penal que impôs ao país, volta das alcatifas do Ministério, vazio de esperanças e diminuído na sua fé, percebemos tudo: à falta de ideias, vivemos de «bocas», à falta de resultados, de «modos de dizer».
Não são altos dirigentes, são fazedores de títulos de jornal, em caixa alta. Uma chamada à primeira página é o seu dia de glória.

Uma aventura dos cinco

Vieram a Lisboa, chamando-se «cinco rapazes da província» para dizerem a Lisboa que, para vergonha de Portugal, tinham criado uma editora no Algarve.
É que vieram contar, no Museu da República e da Resistência em Lisboa, onde se reuniram então para apresentarem a sua editora, que foi no Algarve impresso o primeiro livro nesta Nação, o Pentateuco e no mesmo Algarve, hoje, desertificado, não havia sequer uma editora.
Surgiu pois a editora deles. Chamaram-lhe «Gente Singular», por causa do conto homónimo do Manuel Teixeira-Gomes, de Portimão, escritor e presidente que foi da República, que como aperitivo saboroso, deram à estampa.
É deles, como primeiro livro, a tese do António Rosa Mendes sobre um fidalgote cultivado.
Estive ontem, eu que nem sou de Lisboa mas de Portugal tantas vezes envergonhado, no Algarve da sua editora e já tinham um segundo livro, de versos, do Fernando Cabrita.
São cinco rapazes que se julgam «da província», quando somos nós, os labregos de Lisboa, impantes de basófia a ter de aprender com eles. Paulo Custódio, Rogério Silva, Carlos Lopes, para além daqueles dois, se isso é a província, abram lugar para mim!

17.1.08

Aviso aos legisladores!

Qual caixeiro-viajante do Direito, em viagem do Norte ao Sul, ouvi na rádio que no Parlamento encomendaram dísticos para afixarem dizendo que é proibido fumar. Milhares de euros em dísticos.
Espantoso que os do local de onde saem as leis, tenham de ter avisos para não se esquecerem de cumpri-la, à dita lei segundo a qual é proibido fumar em lugar onde funcionam órgãos de soberania. Só se for porque o artigo 4º da refeida lei, ao falar em lugares proibidos, estabelece uma dicotomia entre lugares onde funcionam os órgãos de soberania e os locais de trabalho e o legislador esteja em grave dúvida interpretativa sobre o segundo caso não engloba o primeiro.
Citando, para melhor rir:
«1 — É proibido fumar:a) Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da Administração Pública e pessoas colectivas públicas; b) Nos locais de trabalho; c) Nos locais de atendimento directo ao público [...]»!

15.1.08

As sementes do fascismo

Há em cada país os limites do suportável.
Os portugueses habituaram-se à degradação da vida política, com escândalos sobre escândalos sobre a competência e a honorabilidade de membros do Governo e sobre figuras da sua vida pública. Já ninguém liga.
Os portugueses engrossam o pelotão dos que assistem às baixas pontuações dadas à eficácia da Justiça, à sua celeridade, à sua previsibilidade. Ninguém quer saber.
Os portugueses deixaram de ter Forças Armadas que sejam um símbolo da sua Pátria, por julgarem que elas são forças de polícia internacional ou corpo de baile para cerminónias comemorativas que meta palanque e desfile. Quase ninguém se importa.
Os portugueses não confiam no ensino nem na educação, nem conseguem impedir que haja filhos seus a agredir professores, nem que tantos deles saiam das universidades para o desemprego; são os mesmos portugueses que esperam nas urgências como se na antecâmara da morgue, a moral em baixo, a expectativa pouca, a demora imensa. Ninguém lhes liga.
Faltavam os bancos, onde estão os créditos de muitos ricos, as hipotecas da maioria dos remediados, as poupanças de tantos anónimos.
Varridos por operações de polícia, os bancos estão agora à mercê da sarjeta argumentativa e dos jogos de poder dos partidos. Eles também são hoje parte do grande circo.
O medo, o intrínseco medo pelo pé-de-meia, sem o qual nada há que resista instala-se, grosso, na classe média. Os donos do dinheiro, esses sabem quanto rende o caos.
Pode parecer que não, mas as sementes do fascismo estão aí: populismo e demagogia na política, insegurança e medo nas consciências, saudades do passado, rendição a quem vier e que mande nisto, o capital sem moral, o trabalho sem valor.

13.1.08

O sobressalto

«Há muito que se tornou um clássico da nossa política: um concurso que envolve o Estado é ganho, por mero acaso e feliz coincidência, por um ex-sócio de um ministro», escreve-se no editorial do jornal «Expresso» deste fim-de-semana.
Olho para as personagens envolvidas na história, que lentamente vai caindo no conveniente esquecimento, e lembro-me de há vinte anos, quando tudo começou, eram eles umas remediadas criaturas, as vidas modestas, as ambições imensas. Hoje estão todos ricos de importância, fortuna e poder.
«Alguém tem de romper o ciclo», acrescenta, em armas, o editorialista que num assomo, como se fosse de realismo militante, conclui: «eu sei que isto parece lunático, sobretudo em Portugal, mas enquanto não houver aquilo que Mário Soares costumava designar por 'sobressalto' - uma atitude radical e exemplar contra esta espécie de submundo de interesses económicos cruzados com a política, onde lóbistas subterrâneos conseguem o que querem, como querem, tantas vezes à custa dos contribuintes -, o desenvolvimento do país continuará em crise».
O que é preciso, pois, segundo o «Expresso» é um «sobressalto», como Mário Soares «costumava designar». Li e sobressaltei-me agora! Você, Henrique Monteiro, disse «Mário Soares»?

12.1.08

A memória do que li

Lembrei-me agora, sabe-se lá porquê que o Homero Serpa está morto. Fui visitá-lo através do seu livro de contos «Largo da Memória», lugar simbólico ali ao lado da Ajuda.
Jornalista desportivo, Serpa escreveu a biografia de Cândido de Oliveira, esse lendário inspector dos correios, fundador de «A Bola», agente secreto dos ingleses, por causa do que foi parar ao Tarrafal.
Esta sua obra de ficção é sobre «cursos de inquietação, de sofrimento, se esquecidas resistências, de sorrisos também», como a história do Messias sobre o qual «aos indiscretos» os vizinhos diziam que «ensandecera por ter livros e mais livros entranhados na mioleira».
Estou com ele agora neste bocado de noite, livro «das sacristias, onde ele jurava não entrar nem na posição horizontal», volume já lido em tempos, a rever-lhe os sublinhados, eu que leio sublinhando e pelo que sublinho concluo se valeu a pena ter lido.
Lembrei-me agora que tenho de acabar este livro, porque a memória do que li, leva-me à inquietação do que ficou por ler.

10.1.08

Cadeia

Neste país de más-línguas, ainda dizem que há excesso de presos! O Ministério da Justiça sempre o negou. Ora vêm, como o Ministério tem razão? Pois se até as cadeias se vendem, à melhor oferta...

O eufemismo

Miguel Beleza disse esta noite numa entrevista televisiva que é uma pessoa que costuma ser escutada com muita atenção. Falava de si próprio, se calhar para si próprio. Só podia ser e num momento de falta de atenção.

6.1.08

Morreu o Pacheco

Morreu o Luiz Pacheco.
Quanto pequeno-burguês e grande burguesa não faziam da sua escrita onanismo secreto, sob os lençóis mornos da conveniência social, em gritinhos de abafada volúpia de salão, por também terem lido, ó gozo libidinoso, minha querida, «o Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor», como se não fosse essa prosa o seu pesadelo do «como morrerei», o seu epitáfio no desespero, o «descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cim,a o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridões, loucura».
Morreu o Luiz Pacheco.
Quanto predador de antiqualhas vendáveis, farejador de raridades impressas, corretor de agiotagens bibliográficas, não açambarcou, avaro, filisteu, os seus livros, fazendo da magra tiragem negócio futuro, e ele «acantanonado em locais de asilo forçado» a rir-se com o «escrevi muito. Por necessidade da pedincha, aguentar a sobrevivência, conversar com Amigos distantes», fartai pois, vilanagem livreira!
Morreu Luiz Pacheco de quem Rui Zink disse que estava doente há muito, de um grave bacilo que se chama «a literatura portuguesa», que conhecia como poucos, rasgando livros à força da raiva de os ler.
Morreu, morreu sim, e a Ângela Caires a ter dito em 1991 que «há 40 anos que o Pacheco se "moribunda" e está a enterrar-nos a todos» e ele a gozar em 1962 «tentando uma nova experiência, entre a morte e a vida, o mesmo é dizer, no duplo, ambíguo papel de moribundo-convalescente».
Foi-se o «repórter sensacionista» na «cidade mexicana de Mitrena», o dos «textos de guerrilha», da «literatura comestível», do «sonâmbulo chupista», o do grupo de amigos «empenhados em desempenhar» a sua companheira máquina de escrever.
Morreu, enfim, neste mundo em que «há gente feliz a mais» o dos amigos do crava «vintes» e «cenzes», o do «recebida carta e nota anexa; esta foi um maná para Tribu dos Pachecos», náufragos na jangada promíscua de uma mesma cama, pelo Massamá da vida.
Está morto. Surgirão agora, no ritual abjecto da rememoração, os necrófilos untuosos, os doutorais arquivistas, dissecando-lhe da criação as tripas, do delírio a mioleira, do triste amar o seco sexo e jogando-o, enfim morto, para a gaveta das anedotas bonacheironas, que amanhã é segunda-feira e continua por aí a variante reiterativa de «o caso das criancinhas desaparecidas».

5.1.08

Condução perigosa

O Direito deve ser uma coisa que as pessoas conheçam, compreendam, interiorizem e possam, por isso, aplicar como o ar que respiram.
Mas não. O Direito tornou-se num mundo que já nem os juristas compreendem. Já nem falo pela qualidade complexa do mesmo ou confusa das suas prescrições. Falo em função desse maravilhoso reino da quantidade.
Leio por aí que «O Conselho de Ministros aprovou ontem uma proposta de revisão do Código da Estrada». Outra?! Mas alguém já se deu ao trabalho de contar quantas vezes foi mexido o desgraçado Código da Estrada, que é um dos se supõe mais corriqueiro, mais de todos nós, mais do dia a dia?
Se houvesse multas para a condução legislativa, era caso de se aplicar uma, já não digo por excesso de velocidade, sim por andar aos zig-zagues.

3.1.08

No Casino das leis

O Director da ASAE foi apanhado a fumar num Casino e isso deu escândalo.
O Director da ASAE acha que a lei anti-tabágica não se aplica aos que fumem nos casinos e isso está a ser escandaloso.
O Director-Geral de Saúde acha que o Director da ASAE não terá razão e eis o escândalo a aumentar.
O Director-Geral de Saúde atreveu-se a contradizer o Director da ASAE e o escândalo deu em escandaleira.
Certos senhores deputados acham, iluminadamente, que para resolver um escândalo grosso nada melhor do que um escândalo maior ainda: se há um Director apanhado em flagrante de ilegalidade duvidosa, altere-se a lei.
Para já o Director-Geral de Saúde vai ao Parlamento explicar-se.
Uma só voz ecoou nos Passos Perdidos a clamar contra esta imoralidade. Chama-se Antónia de Almeida Santos. Um abraço, de parabéns pela coragem.

2.1.08

Já fumega!

A esta hora já o país inteiro se ri à sucapa, pois ao que parece o fundamentalista director da ASAE foi apanhado a fumar num sítio onde se não podia fumegar.
A coisa ganhou foros de escândalo porque a ASAE é actualmente o braço armado do Estado no que respeita à nova moral higiénica e sanitária.
É, na sua moderna expressão, a revivescência do velho dito anti-clerical: «faz o que eu te digo, não o que me vires fazer».
Ao menos o dos gatos fedorentos foi filado pelo balão em flagrante de litro, tem melhor defesa: quem goza com a ordem, bem pode descuidar-se com a lei.

31.12.07

Fogo!

Daqui a pouco, quando a pirotecnia inundar de fogo os ares feéricos, entra em vigor a proibição de fumar. Há um provérbio que diz que não há fumo sem fogo. Urge acrescentar: mas há fogo sem fumo.

O novo senhor da Justiça

Ao terminar o ano civil, o ministro da Justiça tem razões para estar contente, cercado de pessoas que parecia não conseguir tornar felizes.
À partida, muitos pensaram que o seu passado iria liquidar-lhe o futuro. Não sabiam, ingénuos, o que é a política.
No meio do percurso, muitos pensaram que o primeiro-ministro se iria desembaraçar dele, remodelando-o. Ignoravam até que ponto, a teimosia vence, e José Sócrates é, no filme complexo da governação, o chamativo trailer da propaganda, reiterativo, simplificador, vocativo.
Por pouco tempo aliás, muitos imaginaram que o então ministro da Administração Interna, António Costa, o iria colonizar: está edil, numa Câmara falida, fora da órbita governamental.
Alberto Bernardes Costa continua, de pedra e cal.
O Governo decretou, como política oficial, o combate às corporações e seus privilégios.
O ano termina, com o Bastonário cessante a elogiar-lhe os códigos, as leis a sucederem-se em catadupa, nenhuma até agora revogada.
Claro que há os vociferantes críticos. Mas nenhum conseguiu, até agora, que a política se alterasse, apenas que o discurso amaciasse, o ar carrancudo substituído por um esgar condescendente. Lamentavelmente, ou estão anémicos, ou deprimidos ou comprometidos.
O toque final do sucesso da política do Governo na área da Justiça, deu-o a entrevista de Pinto Monteiro ao Correio da Manhã. Finalmente uma entrevista de Procurador-Geral, sem ruídos esquisitos no telefone.
O jornal, que agora se transformou num diário de referência e o mais lido no país, que os ditos intelectuais gostam de ler mas não de mostrar, eleva-o a a homem do ano.
A partir desta entrevista histórica, uma coisa fica clara: o PGR é quem responde pelo sucesso ou insucesso do combate ao crime, pela segurança da cidadania, em suma, pela justiça dos tribunais. Sobre tudo isso, não mais se irá mais questionar o ministro que da Justiça usa o nome. O contrário é o que vai suceder. Pinto Monteiro põe-se a jeito com uma frase: «o poder político pode e deve inquirir o procurador sobre a Justiça».
Emfim, em termos de justiça, os jornais primeiro, os eleitores a seguir, que telefonem a Pinto Monteiro. Ele já disse, nessa entrevista, que «o que dá prestígio ao Ministério Público é a opinião do pedreiro, do médico, do taxista». Nem imagina quanto isso agrada aos políticos, por falar em pedreiros, quando chegar a hora da pedrada, a intifada popular sobre alguma justiça que há.

30.12.07

A privada

«O Banco de Portugal era uma instituição privada, que obedecia ao Governo». Assim sucedeu no tempo em que Alves dos Reis praticou a sua burla. Di-lo Francisco Teixeira da Mota na página 45 da sua notável biografia desta extraordinária personagem, que estou a ler, pois o autor amavelmente pediu-me que lhe apresentasse a obra.
Hoje, a dar crédito ao que por aí se diz, o Banco de Portugal não é uma instituição privada.

27.12.07

O banco

Estar num banco de Hospital e ver entrar a vida e a morte, agarrados a uma maca, as bocas encovadas por desdentação, ali já num murmúrio de respiração, além no sufoco esganado que os olhos traduzem num grito silencioso de acudam.
Estar num banco de hospital feito consultório de ocasião pelos que se tentam evadir da fila dos condenados do que se chamam, com amável eufesmismo, as listas de espera.
Estar num banco de hospital e ouvir pedir comida e ouvir dizer que ja não há comida.
Estar num banco de hospital, entre os que gritam e os que já nem sabem gritar, no meio, o passarinhar errático do pessoal de bata branca, de bata azul, de bata que já nem tem cor.
Estar num banco de hospital pela noite dentro e à chamada de «médico aos directos», acorrer, como se em passeio público, a medicina rotineira ao encontro do trivial morrer-se, no meio a probabilidade de ainda se cruzarem a tempo.
Estar num banco de hospital, onde se nasce, onde se morre, onde se sente o que é viver por enquanto.

25.12.07

As frases aladas

«O que queres que eu te ofereça, tu que nunca queres nada?», perguntou-me ela, desejosa de se livrar do acto de dar. Nenhum outro como quem é nosso para não saber o que queremos, como se julgasse termos já tudo. «Dá-me o Lobo Antunes», respondi-lhe, depois de remoer, como se me faltasse tanta coisa, na imensidão de ter tão pouco. «Qual deles?», inquirou ela, na sua juventude cultivada, querendo falar dos muitos livros do António, nem se lembrando que existe, pelo menos, o João, também médico, também escritor. «Qualquer um, tanto faz!», respondi-lhe, talvez por ser Natal e eu querer, enfim, reconciliar-me com uma escrita que, sem saber porquê, tenho desprezado, por não gostar, quase sem o conhecer, da pessoa do seu escritor.
A noite passada comecei a ler, amigável, mas desconfiado. Teimei em seguir no pequeno livro, todas as linhas, quase soletrando cada uma das suas muitas palavras, rendendo-me, reconheço, ao modo tumultuoso de fazer sentir, admirando, é verdade, aquele torrencial desfilar de frases aladas , vibrando, enfim, com o estilo, mesmo quando errático, perdoando-me pelo mal que pensei e absolvendo-me do que venha a pensar.
Foi então que, depois de lidos chorrilhos infindos de palavrões, surgiu o «quando é que eu me fodi?, perguntou-se o psiquiatra». Parei aí, lembrando-me do pobre do Vergílio Ferreira, que deixou no seu diário que aquilo era uma escrita de «caralhices» de um homem «com entradas de Lobo e saídas de Antunes», e eu ainda na fase lupina dessa prosa hoje aureolada.
Ia na página 26 da edição da «Memória de Elefante», texto que uma «comissão» consagrou como sendo a «ne varietur», imortalizando a obra na sua fixidez tipográfica, fora ela o mausoléu de si própria, enfim morta!
Mas não desisto e hei-de lê-lo todo! Hoje não, porque é Natal e o Menino Jesus, coitadinho, é inocente e tem a vida toda para aprender com os romanos impropérios e com os filisteus outras obscenidades. Terminará na cruz, sem se perguntar como se perguntou o psiquiatra. Mas hoje, ele é pequenino e dorme aqui a meu lado, desde a minha infância, entre palhinhas, a vaca, o burro e uns pais que foram-no, afinal, sem o terem sido sequer, tão misteriosamente quanto a pomba, que seria ele não o sendo, todos o mesmo, todos divinos, um deles humano.

23.12.07

Os deserdados da rua

Escrevendo sobre a sua família, os de Médicis e falando de Ana Luísa, eleitora palatina, que faleceu em Fevereiro de 1743, Lorenzo, homónimo do «Magnífico», lembra a ingratidão de Florença em relação aos seus, que a eles tanto deve pelo mecenato e pela generosidade sem os quais ela mais não seria do que uma cidade como a de uma província qualquer: «a Ana Luísa não foi dedicada qualquer rua ou praça e nenhuma estátua recorda ao passante o que a cidade deve a esta mulher».
Última da estirpe, esta estupenda criatura legou uma colossal fortuna, tal como os seus antecessores haviam patrocinado os grandes vultos do Renascimento, confundindo-se com ele.
Mas é no momento em que, neste livro singelo, leitura de domingo, se refere como o monge Savonarola, em nome da teocracia, que fazia dele o enviado da Salvação, e enlouquecido por uma moral rígida que diabolizava o hedonismo, a fruição e o prazer, se apossou do poder, com o apoio da rua, de cujos deserdados se fez voz, em 1494, para ser queimado vivo, logo cinco anos depois, pela mesma turba que o glorificara como se ao Messias, na Praça da Senhoria, que se entende o que é o ilusório poder e a vã crença na fidelidade humana.

12.12.07

Compulsivo maledicente

Houve um leitor que, com amabilidade, me deu conta de se ter chocado, ao ver-me usar a expressão «compulsivo maledicente» a propósito do escritor Jorge de Sena.
Revi o que escrevi e peso agora o que disse. Terei sido impensado e por isso injusto?
Jorge de Sena foi uma escritor com valor, na prosa, na poesia. Não conheço toda a sua obra, mas o que li causou-me viva impressão, pela força motora das palavras, pela forma de escrever. Em nada o diminuo, a obra só por si aumenta o homem.
Quando vi na Cinemateca o filme que Joana Pontes realizou sobre a sua pessoa, já eu estava hesitante. É que há aspectos na sua escrita e vida que me ofenderam a sensibilidade.
Primeiro, a introdução que escreveu à poesia de António Gedeão, em que, sei lá se contagiado por serem ambos homens de ciência, se entreteve a contar na obra apresentada versos e palavras, chegando à média de dezasseis versos por poema, cálculo feito a partir de uma fracção que começa com 5px8 v+4 px12 v+5 px 16... e assim sucessivamente, praticamente assassinando o que há de beleza profunda e singela na poética do autor da Pedra Filosofal.
Gedeão, que fora, enquanto Rómulo Vasco da Gama Carvalho, professor de Sena no Liceu de Camões enviara-lhe aliás em 1956, de modo anónimo, o seu livro de estreia «Movimento Perpétuo», ansioso por um comentário. Tornara-se-iam amigos.
Depois, há a ensombrar a meus olhos a imagem de Sena, o ter-se permitido, ao escrever em 1959, um ensaio sobre a poesia portuguesa, tirado em livro pela Ática - que aliás citei aqui - ter começado com um «devo dizer, para começar, que não sou grande leitor de poesia, naquele sentido em que o são quantos devoram os produtos poéticos (...)», o que ainda se tolera, para logo rematar com «o tempo não me sobra para viver recluso na poesia dos outros». Não consigo desligar este modo de dizer de uma certa soberba intelectual, que relativiza, pela forma de analisar, o valor da análise.
Finalmente, foram os «Diários», editados por Mécia de Sena e impressos pela Caixotim em 2004, onde, atónito o vejo, aos trinta e quatro anos, a recusar assinar uma petição contra a Censura para não prejudicar um convite do Governo para ir à Índia, em missão oficial, viagem de que acabou por não beneficiar e logo a seguir a acrescentar coisas deste teor: «Telefonou o Saraiva a contar que esteve preso desde domingo até ontem. Fora com mais 50 pessoas ao aeroporto fazer recepção à Maria Lamas. Foi tudo engavetado em Caxias, de onde ele saiu, mas onde ainda muitos ficaram. Claro que o nosso Silas está lá. E também, o Keil e Maria Keil, e O'Neill, o Cortesão Casimiro, etc., etc. Em todo o caso creio que, se os não tivessem prendido - o que é uma coisa ridícula - teriam ficado desconsoladíssimos, pelo menos alguns como o Silas».
Ao ler isto, caiu-me em cacos o mito do anti-fascista sem mácula e o humano, demasiado humano, ocupou, desolador, o seu lugar.
Espantará assim que, falando do António Alvim, Sena diga que «do Leonardo, este herdou a desvergonha, como o Álvaro Ribeiro, a velharia teocrática. O Marinho é que herdou a retórica provinciana»?
E não será lógico que fale dos «Cidades, Nemésios, Prados Coelhos e Kins, como «cães falhados mesmo como cães»?
E coerente quando vitupera contra «O Avante inundíssimo» e junte provocatoriamente, referindo-se aos comunistas presos que: «é pena que as pessoas não mereçam as perseguições que as dignificam»?
Digo mais, ou ainda passo por ser eu o compulsivo maledicente?
Obrigado, meu leitor. Vamos concluir os dois, tal como o Fernando Pessoa que nunca nos iludimos, porque felizmente nunca cegámos!

4.12.07

Ademanes solipsistas

Hoje há um blog que aproveita para desancar na Maria Filomena Mónica e num livro que ela terá escrito sobre o Cesário Verde. Na sua linguagem acerada acusa-a de «caprichismo burguês» e «ademanes solipsistas». Sobre o Cesário em si diz que o pobre teve uma «curta vida, aliás, pouco entusiasmante», «inexcitante», e que ela se apaixonou pelos seus versos como uma «previsível adolescente».
Já Jorge de Sena, um compulsivo maledicente, em 1951 havia escrito, num estudo dedicado à poesia portuguesa, editado pela defunta Arcádia que, o poeta era expoente do «romantismo de capelista».
O facto de Fernando Pessoa ter escrito no Livro do Desassossego que «vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele», não conta.
«Escarnecido em vida», Verde ficou amarrado ao facto de ter sido filho do dono de uma loja de ferragens.
Hoje lá está na rua número 7 do Cemitério dos Prazeres, com a naturalidade de quem de todo o natural fazia versos, que em vida nunca viu aliás publicados, um camponês perdido numa Lisboa de gente que fala de livros dizendo ufanamente «que não tenciono ler».

25.11.07

O músculo cardíaco

Uma zanga pessoal entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares deu azo a uma crítica sulfúrica feita por aquele ao último livro deste. Um amigo meu que leu o livro diz que há nele mais outras imprecisões históricas, geográficas e de referência do que as que cita a valente crítica, citando-me algumas, desde a descrição de locais, à data em que surgiu uma certa marca de charuto fumado por uma das personagens.
De tudo isto, retiro uma pergunta: não tivesse havido a zanga, haveria a crítica?
Ou, talvez numa variante mais geral: quantos livros, imprecisos, mal escritos, insuportáveis de mediocridade, não andam por aí impunes, porque o crítico se não zangou com o autor?
Ou, agora num diferente e provocador modo de dizer: quanta crítica amável e complacente não coexiste com o inaceitável escrito e o mal amanhado estilo, por não haver zanga mas amizade, ódio mas amor?
Nos tempos da «Crónica Feminina», revistinha barata para corações pobres mas palpitantes, havia o «consultório sentimental». É isso que dita os tiques de alguma da nossa cultura e do nosso modo de ser crítico. O pensarmos também com o músculo cardíaco.
No meu caso assumo-o: gosto de ler o Vasco Pulido Valente, apesar de ele me irritar, nunca leio o Miguel Sousa Tavares, precisamente pelo facto de ele me irritar.
Eu sei que é um sentimento irritante este meu, mas só uma coisa me salva: nunca me zanguei com nenhum dos dois, pois não os conheço pessoalmente, a um só pela prosa, aos dois pela pose. E chega.

8.11.07

E viva o maxismo!

«Se o trabalho dá saúde e faz crescer os dentes, rapazes viva o descanso e que trabalhem os doentes». Acordei com esta, pelas cinco e tal da manhã. É do Max, não do Marx que foi causa de grandes desilusões amargas a muitos da minha geração, mas sim do Max, o risonho madeirense autor daquele notável conceito feito canção que dá pelo nome de «A Mula da Cooperativa». Tal e qual. A mula na cooperativa, a que deu dois coices no telhado, «ai és tão linda».

3.11.07

Militância diária

«O Partido não encerra para férias, está no combate diário contra estas políticas, no esclarecimento e na mobilização das populações em defesa dos serviços públicos de proximidade e com qualidade, contra as políticas caritativas». Só podia ser o PCP, na sua actividade militante. Lê-se em O Militante, o número dedicado à Revolução de Outubro, os dez dias que abalaram o mundo, num artigo escrito no Verão, a propósito da 31ª Festa do Avante.

30.10.07

Poucos serão os escolhidos

O Presidente da República diz que se recusa a intervir na questão das escolhas para o Conselho de Estado. Acto de prudência e distância. Por ele já tem as suas escolhas feitas, a de Manuel Dias Loureiro, por exemplo.

25.10.07

Pinto Monteiro e a verdade

Aquilo em que muitos viram uma ligeireza do PGR numa matéria que o PR considerou «delicada», foi recuperado como se tivesse sido um acto intencional praticado de caso pensado para gerar um «alerta» sobre a questão das escutas telefónicas. Daí a AR convoca o PGR para lhe pedir explicações sobre o assunto.
O momento é exemplar.
Pinto Monteiro é juiz conselheiro, desempenha funções num dos lugares de vértice da Justiça portuguesa.
Exige-se-lhe probidade, honestidade, e não duvidamos que tenha tais qualidades em altíssimo grau.
Por isso, quando se sentar ante os políticos deputados, para se explicar, deve marcar a diferença começando por clarificar: ou aquela do ruídos no telemóvel lhe «saíu», ao baixar as guardas da atenção ante a amabilidade dos entrevistadores, ou é, como prontamente disseram alguns dos exegetas do seu pensamento, algo que disse pensando no que dizia e nas consequências desejadas do dizer.
Não há outra via: a verdade está diante dele, como um espelho ante a sua imagem! Se fosse mais um dos muitos políticos, Pinto Monteiro teria várias formas de dar a volta ao dito, ao sentar-se entre os deputados. Esperamos que não o seja e diga o que foi tal como é!
Entrar em sofismas argumentativos e justificativos iria torná-lo igual ao que não desejará ser.

23.10.07

O SIS e a escutas

«Em Portugal, só a Polícia Judiciária por ordem dos juízes e os serviços de informações podem fazer escutas legais». Disse-o o professor Marcelo Rebelo de Sousa, num momento de comentador. Ou é verdade e é grave, ou é engano, e é grave. Em qualquer caso, não tem importância.

21.10.07

Ruídos estranhos

O Dr. Pinto Monteiro ouve ruídos estranhos no telefone e não está seguro de que não tenha o telefone sob escuta.
Claro que o Dr. Pinto Monteiro podia queixar-se ao PGR e pedir-lhe providências. Mas será que ele acredita que o PGR tem força e poder para conseguir evitar que lhe ponham o telefone sob escuta?
Fiquei com a ideia, ao ouvir falar na entrevista que deu a um semanário, que não acredita muito e receará que a sua queixa possa ficar à mercê de algum barão, duque ou marquês do Palácio de Palmela, onde, segundo nos disse, ainda impera a ordem feudal.

20.10.07

João, vamos fazer um jornal

«(...) João Coito era um conservador, eu fui-me tornando um radical. João Coito era um católico, eu senti-me abandonado por Deus. João Coito escrevia maravilhosamente, eu ainda ando a aprender a escrever.
João Coito era meu amigo e eu, amigo João Coito, estou triste desde o dia em que o perdi: uma tristeza feita de saudades, nascida na revolta ante o inevitável.
Eis a vida. Um dia encontramo-nos neste processo em que a Vida faz brotar vida nova das vidas que se foram.
Talvez possamos fazer um jornal: será o João o meu Director, dê-me então uma coluna, voltamos ao duro combate pela decência social, contra o vira-casaquismo, pelo esmero de maneiras na vida pública, por uma república de homens-bons» (...) .
Escrevi, para que saia na próxima 3ª feira no jornal «O Diabo», de que foi regular colunista, depois de uma vida no «Diário de Notícias», este momento de tardia homenagem, um artigo de que aqui fica um excerto, «À Esquina da Memória».

19.10.07

Rule Britannia

O caso Maddie é um assunto criminal sujeito às autoridades judiciárias, envolvendo cidadãos privados ingleses. Só que como são pessoas muito bem relacionadas com o primeiro-ministro britânico, este permitiu-se falar ao primeiro-ministro português, que é actualmente o presidente da União Europeia, sobre o assunto e ambos consentiram que isso fosse conhecido publicamente, com grande ênfase, não vá o recado passar despercebido.
Dizem que a conversa foi só para se certificarem que as polícias dos dois países estão a cooperar bem.
Claro que há todos aqueles casos dos anónimos e dos malquistos em que a justiça portuguesa está a receber uma cooperação péssima das justiças de outros países. Mas disso não cuidam os primeiro-ministros.
Quanto às senhoras autoridades judiciárias e policiais portuguesas estão muito caladas, como calados estão todos os que encontram em muito menos a sombra de intromissões governamentais em tudo.
O exemplo está dado! Se houvesse uma bandeira para o Estado de Direito, deviam hasteá-la hoje a meia-haste.

15.10.07

A guerra em vão

O Joaquim Furtado fez em televisão uma série de episódios que vão rasgar feridas que estão ainda mal saradas na pele dos portugueses. Trata-se da guerra, a do Ultramar, a colonial, a de libertação, a guerra. Uma guerra em que ele procurou não glorificar um dos campos contendores, o que corre o risco de desagradar a todos, aos que sentem merecer em troca do sofrimento os louros de uma medalha, para que tudo não haja sido em vão.

14.10.07

Assobios em Fátima

Houve quem se abismasse porque os peregrinos de Fátima, cansados de esperar pelo momento de poderem entrar na nova basílica, apuparam e assobiaram. Ao domingo é assim no futebol, qual dia será assim na Santíssima Missa. Na Cova da Iria foi apenas a zona do meio entre a reverência devida a um Santuário e a feira pagã dos pagadores de promessas, mercadejando com Deus favores em troca de oferendas. O culto de massas tem destas: quem promete milagres vende impaciências.
Uma coisa é a fé pura, a crença na salvação, a esperança numa vida melhor, a redenção pelo sacrifício. Outra é a massificação de um lugar, a ocupação do templo, o divino espiritual à mercê da boçalidade do profano.

13.10.07

Adeus, amigos

Levantei-me tarde, porque mais do que precisar, senti que merecia dormir. Acabei agora de almoçar, o meu garoto mais novo a partilhar comigo o gosto de não gostarmos de alface a não ser sem tempero, a adorarmos carne assada fatiada mas fria, a promessa do irmos daqui a pouco dar uma volta pelo jardim aqui em frente, e passarmos pela loja do chinês, em busca de frascos para o armário da nossa despensa.
Sentei-me a folhear jornais que compro para os olhar em diagonal, o mundo que me interessa reduzido a muito pouco.
Foi então que tudo aconteceu. Atónito, vejo numa página a fotografia do Fausto Correia e a do João Coito. Mortos. Mortos como o Raúl Durão que conhecia pior. Não sabia, ninguém me disse, não li, sufocado de trabalho, soterrado de obrigações.
Uma densa tristeza povoa-me a alma. Por segundos vi-me ali, morto também, velando-lhes o corpo ido, mais mortos do que é possível morrer-se.
Conheci ambos. Do Fausto recebia sempre uma palavra todas as vezes que lhe escrevia, sempre que era uma ocasião. Maçon, conhecemo-nos independentemente disso, socialista, admirava-o mesmo quando eu já renegava o partido que do socialismo usurpa hoje o nome. Via nele a arte de viver este mundo, disponível para todos os mundos possíveis, a bonomia feita acção, a Coimbra boémia, sedutora como miragem.
Do João Coito recebi sempre uma palavra de estima, de apreço, de admiração, mesmo quando soube que lhe era difícil manifestá-la. Católico, consevador, ensinou-me o que é escrever, o que é saber carregar a fundo sobre o injusto e o indesejável, com elegância, boas maneiras e requintada educação. Combinámos jantar, o convite mantinha-se, adiava-se, lembrava-me disso cada vez que a minha mãe me telefonava, orgulhosa, a dizer «José António, o João Coito, falou outra vez bem de ti».
Vou sair. Talvez o jardim, a loja do chinês, os frascos para a minha despensa, me ajudem por uma horas à ilusão que é estar-se ainda vivo, perdido o momento de escrever ao Fausto, de telefonar ao João, adeus amigos, que isto de se estar triste é uma coisa que não mereceis. Adeus, adeus.

5.10.07

O dia do nada

Ainda a comemoração do 5 de Outubro: soube agora que o primeiro-ministro chegou tarde ao acto, já o Presidente da República discursava, a nova direcção do PSD não sabia do convite, nem sabia que tinha de lá ir. São na aparência falhas de protocolo, são na verdade, a imagem da degradação a que chegou o cerimonial público. São as condecorações à dúzia, o cumprir oficial das efemérides. À falta da adesão popular, eis os militares, as forças militarizadas, os sapadores bombeiros, qual corpo de baile. Os discursos têm menos a ver com o que se comemora, são momentos para os políticos darem recados uns aos outros através da comunicação social. Foi assim com o 28 de Maio, está a ser com o 25 de Abril, com o 10 de Junho. Um destes dias, inaugura-se o dia do nada, o zero absoluto dos que com nada se importam.

Uma praça vazia

Ao ver, vazio, o Largo do Município, as altas figuras do Estado com um ar de enfado neste dia feriado, o Presidente da República a discursar, hirto, para um corpo de GNR's, arregimentados para o efeito, vi a que ponto estamos em matéria de fervor republicano.
A rematar o seu «directo», a SIC Notícias deu-nos o caricato: o Chefe de Governo, enfim aliviado da pose comemorativa, a brincar, como se com um pendericalho, com a medalha da Cidade de Lisboa que António Costa trazia ao peito. Riam, todos, prazenteiros, com o fetiche, excepto Jaime Gama, que aprendeu a substituir o riso por um esgar.
Acho que se os monárquicos tivessem organizado uma romagem para evocarem o regicídio eram capazes de ir mais mobilizados e em maior número.
A República deixou de ser comemorável, por uma razão: ninguém se apercebe hoje que ela existe, tal como todos ignoram que o senhor de barbicha que a anunciou se chama, entre os Relvas, Miguel Relvas. O «devorismo» tornou-nos semelhantes ao agonizar da Monarquia.

1.10.07

Sexo na cidade

Eu mal vejo televisão, não por pedanteria, mas por ter pouco tempo e preferir ler, quando posso. Sou como aqueles fumadores passivos, vejo a televisão que estão a ver nos sítios onde estou, a maioria das vezes como ruído de fundo.
Outro dia foi-me impossível não notar. Umas senhoras falavam do sabor do esperma dos homens com quem tinham estado.
Era uma série de renome, ao que me apercebi, que traz as mulheres pelo beicinho, e que muitos homens não perdem.
Eis os serões nocturnos, a televisão no pico de audiência, a verdadeira hora de ponta.
Hoje de manhã ouvi na rádio que o Governo quer fomentar a natalidade. Não há pois esperma a desperdiçar. A televisão, nisso, a continuar assim, não ajuda os superiores interesses do país.

30.9.07

Um mimo

Segundo leio numa bela forma de dizer no site da TSF «morreu ontem, em Paris, o pierrot do século XX. Nasceu como Marcel Mangel, em Estrasburgo no ano de 1923, e morre como Marcel Marceau em Paris, em 2007».
Há um filme de Mel Brooks, «Silent Movie», em que de todas as personagens ele é o único que fala.
Com ele aprende-se a dizer com a expressão, olhos nos olhos, a alma entreaberta.

26.9.07

Encostados à parede

Numa parede em frente a minha casa, alguém escreveu com fina ironia e inteligente humor: «tu não és o conteúdo da tua carteira». Todos os dias passam em frente a essa parede lúgubres criaturas, os resignados com a vida, conformados com o presente, indiferentes ao passado, receosos do futuro. Transporta-os a Carris para empregos que nos fariam sentir infelizes e onde ganham o pouco com que alugam a ilusão de felicidade. Hipotecados à banca por causa dos apartamentos onde dormem, são magros de conteúdo como a magreza das suas carteiras. As suas vidas desmentem o que os seus olhos lêm, fora do mundo do ser e estranhos ao universo do ter.

24.9.07

Ao passar pelo DCIAP, um susto!

Hoje pela hora do jantar, ao subir a Rua Alexandre Herculano, passado o SIS, onde se vê quem, sendo secreto é topado a entrar, e querendo ser discreto é surpreendido a sair, estando já no topo da rua, antes de chegar ao célebre Chafariz dos tiroteios revoltosos, ainda sem a sede do Partido que está no poder à vista, no passeio oposto à escondida sinagoga, eis uma série de carros de exteriores das televisões, de parabólicas em riste.
Como é ali o DCIAP, dei um salto. Pronto! Acabou de vez o segredo de justiça, pensei: agora os processos criminais estão a ser transmitidos em directo e ao vivo, qual reality show, os procuradores e os defensores, os arguidos e as vítimas num verdadeiro prós e contras, a audiência - porque não? - num jogo de apostas sobre quem sai acusado ou se livra com um arquivamento, os comentadores do costume - os que têm opinião sobre tudo o que há neste mundo terreste, aquático, subterrâneo e inter-galáctico - a botarem sentenças.
Intrigado, liguei a rádio, até por haver um magote de jornalistas à porta: falavam num recurso de uma condenação. Os meus piores augúrios, por um momento, pareciam confirmar-se.
Mas não, afinal era ali mesmo, mas na Federação Portuguesa de Futebol, que partilha com o DCIAP a porta do lado. Gilberto Madaíl falava sobre Luis Felipe Scolari. Portugal futebolístico apoiava o recurso do Filipão.
Vá lá. Desta, a culpa não é do Código de Processo Penal, sou eu que já ando a ver atrás de cada folha da floresta jurídica uma cascavel.

23.9.07

Santana a sério

Como tenho pouco tempo para ler jornais há coisas, sobretudo as da política, que me escapam, ou que leio de soslaio. Pareceu-me que Pedro Santana Lopes tinha falado de não sei o quê «a sério». Afinal era para dizer que «ou se faz oposição a sério na AR ou não vale a pena estar lá"». O jornal onde li acrescenta que «Pedro Santana Lopes admite avançar para a presidência do grupo parlamentar do PSD». Aí sim, eu pergunto: a sério? Mesmo?

8.9.07

A CP e o sutiã

Uma pessoa pensa que um blog é um diário e na prática pode ser. Mas exige um computador ou um telefone pelo qual se enviem os textos. Ora um telefone arranja-se e eu tenho um. Exige sobretudo tempo, mas tempo sempre se inventa, porque um post escreve-se num minuto. Exige-se um estado de alma, mas isso também se adapta, pois da escrita intimista à risonha, da revoltosa à desesperada, há de todos os géneros.
Posto isto, ontem não escrevi. Porquê? Porque vim na CP onde a linha telefónica é como aqueles sutiãs que dão um toque de malícia feminina expondo na mulher, sem alças cortando a extensão do visual, os ombros nus: cai-cai!

6.9.07

A CP faz impressão

A CP está um prodígio tecnológico! Abre-se o site e compra-se um bilhete on line. Vê-se o horário, escolhe-se o comboio, selecciona-se o lugar, à janela ou na coxia, com ficha telefónica para o computador nos comboios Alfa, na carruagem um ou na dois, no sentido da marcha, ou às arrecuas. Paga-se, enfim, por cartão de crédito. Tudo no computador, sem sair de casa, sem «bichas», sem «multibanco fora de serviço». Depois o bilhete é enviado por email ou por sms para o telefone.
Chega-se enfim à carruagem e eis o simpático revisor, pois já não temos pela pela frente o passado «trinca-bilhetes», mas alguém que olhando para o écrando telemóvel confere com a lista que traz com o que a CP nos enviou digitalmente e nos responde um «sim senhor, obrigado, nuito boa viagem». Às vezes, por precaução pede-nos, sempre amável, «o BI, desculpe», só para ter certeza de que nós somos nós.
Admirável mundo novo, ferroviário na marcha, electrónico na bilheteira.
Agora exprimentem só a cancelar a viagem, porque não vão viajar. On line já não pode ser. Chega-se à bilheteira, espera-se a vez na «bicha». O homem que atende já não é tão simpático: «Reembolso, tem de preencher o formulário!». Venha ele. «Leva alguns dias». Não faz mal! Quantos? «Não posso dizer, sei lá. E tem de mostrar o bilhete!». Está aqui no sms... «Não vale! Tem de ser impresso!». Mas eu aqui não tenho impressora! «Isso de estar aí não interessa, só impresso». Mas, se eu viajasse o que está aqui no telemóvel valia, era só mostrar ao revisor!. «Olhe lá, já lhe disse, ouviu, não interessa nada disso, o nosso regulamento exige que o formulário leve o bilhete impresso, o que é que quer mais!». Eu? Mas os senhores no vosso computador sabem que eu tinha bilhete e ia viajar, para quê o impresso e, pode ver, está aqui no telefone o bilhete, com o código da compra, o número do lugar. «Olhe desculpe, ou tem bilhete impresso, ou não há reembolso!». Mas eu aqui em férias não tenho impressora! «Ah! E tem de pagar quatro euros e meio!».
A CP está um prodígio tecnológico de vender impressoras! A jactos de tinta, em esguicho, que um tipo passa-se com esta gente e com este país.
P. S. Reclamei da CP para a CP! Veio a resposta da CP, rápida, eficiente, on line, no dia seguinte. De acordo com o regulamento da CP teria de juntar bilhete impresso e pagar à CP uma «taxa de reembolso», para a CP me reembolsar! Descarrilei de vez.

A banca rota!

Há coisas que uma pessoa lê e a boca abre-se-lhe até à orelhas. Vejam este mimo de prosa: «A Associação Portuguesa de Bancos (ABP) "não está preocupada" com a vaga de assaltos a instituições bancárias, garante João Salgueiro. Contudo, sublinha o presidente da APB, "o país deve estar preocupado", porque estamos perante "um problema público, um problema de polícia, um problema de criminalidade"».
Reproduzindo o espírito da notícia, a imprensa titulou «"Assaltos a bancos devem preocupar o paíse não a Banca".
Das três uma: ou o Dr. João Salgueiro se baralhou e a esta hora já se arrependeu de não se ter explicado convenientemente à imprensa, ou o jornalista tresleu o que ouviu e baralhou-se ao escrever, ou então, como diria o Dr. Alberto João Jardim no seu estilo impune de falar «está tudo grosso».
Ou então, esperem cá, ainda há pior: será que para a banca um assalto passou a ser algo de naturalmente despreocupante?
E eu que me levantei às seis da manhã para trabalhar em vez de ir ali à banca da esquina, trabuco em riste, mãos ao ar, passa para cá o taco e não te preocupes ó caixa, que o País que se incomode, que este já cá canta!

3.9.07

O infinitamente pequeno

Uma pessoa vive diariamente a angustiosa comparação entre si e os outros, entre os desejos e a realidade, entre o que está e o que é. Li hoje numa parede em Setúbal: «os nossos sonhos não cabem no vosso mundo». No milagre desta afirmação resolveu-se, na minha cansada cabeça, o nó górdio da vida. Sobeja sonho ao mundo que há para o viver. Se isto não leva um humano ao infinito, é porque há a pequenez do nosso interior irrealizado.

1.9.07

Laranjas?

Li algures que o português que se fala no Brasil é mais puro do que o que nós linguajamos na Europa, por ainda conter a base que lhes levámos no século dezasseis.
Se calhar esta minha ciência de leitura é a expressão de uma refinada estupidez, sobretudo porque há coisas naquele português de além-mar que ainda não entendo e me confundem.
Vejam o que li a propósito do combate à corrupção política brasileira: «após o deputado federal Dagoberto Nogueira Filho (PDT/MS) defender moralização da classe política, os conselheiros do Conselho Seccional da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul) pregaram penas mais duras para políticos corruptos. O conselheiro Geraldo Escobar, por exemplo, apresentou a sugestão de que políticos envolvidos em corrupção fiquem, no mínimo, dois mandatos impossibilitados de concorrer a qualquer cargo eletivo. Já o conselheiro Renato Chagas sugeriu o fim do foro privilegiado em todos os níveis porque se trata da sustentação da impunidade. Enquanto o conselheiro Marco Aurélio apresentou como sugestão que, a exemplo do que ocorre com os narcotraficantes, os políticos corruptos sejam processados criminalmente e percam os bens em favor da União, mesmo no caso em que usem “testas de ferro” e “laranjas”».
Ora esta? Laranjas?!

Sentado num banco de jardim

Um Banco é uma das instituições mais sérias de um país: estão lá os dinheiros de quem os tem, as dívidas de quem vive a crédito. Para muitos, o banco é o terror nocturno da letra por pagar, a provisão do cheque que garante salários, a possibilidade de sonhar uma felicidade emprestada.
Claro que há quem viva numa servidão da gleba contemporânea, amarrado à hipoteca para o resto da vida activa. Há quem, penhorado, se lesse Bertold Brecht concordaria que «tão crime é assaltar um banco, como fundar um banco».
Agora uma coisa é certa! Na banca, não desobedecerás ao senhor teu criador!
Paulo Teixeira Pinto não aprendeu o que ensinou José Maria Escrivà de Balaguer: «no Apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal» (Caminho, 936)». Cumprirá agora uma longa penitência.

31.8.07

O dolce fare niente

Há uns infelizes que são sempre o objecto do gozo alheio pela sua calma, pela lentidão, pela tranquilidade, pela preguiça, numa escala crescente que começa nas características e termina sendo um catálogo de defeitos.
Os povos do sul, neste aspecto, são sempre o bombo da festa dos nortenhos. Estes, porque se julgam mais perto dos céus, tendem sempre a endeusar-se, qual raça superior, sacerdotes da Montanha Mágica, senhores das alturas.
A última veio na forma de uma gracinha: nesta terra até os cães ladram sentados! É verdade, mas não mordem.

30.8.07

Durão Barroso, especialista em fugas

Leio na imprensa, que o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, alertou para a fuga de cérebros europeus para outras regiões do mundo. Ele, que se escapou do país para Bruxelas sabe bem do que fala.
Quando escrevia no «Diário de Notícias» uma coluna que tinha o nome deste blog, e precisamente no momento em que ele hesitava entre ficar a governar-nos em Portugal ou governar-se no estrangeiro, publiquei um artigo a que chamei, em boa terminologista maoista: Durão, o grande salto em frente.
Parecerá imodéstia que o lembre hoje?
«Durão Barroso vive um dos mais cruéis dramas que um homem pode enfrentar: está dividido entre uma lealdade e uma ambição.
A lealdade, essa é ao cargo que desempenha, e foi isso que ele jurou diante do Chefe do Estado, no acto da sua posse: o desempenhar com lealdade as funções que lhe foram confiadas.
A ambição, é face à sua fulgurante carreira política, e foi isso que ele terá jurado a si próprio, no dia em que trocou o desalinho verbal do «radicalismo pequeno burguês de fachada socialista» pela pose composta de estadista de recorte conformista.
O drama tem objecto, o que não se sabe se tem é profundidade.
Em nome da ambição, Barroso aceita a presidência da Comissão; em nome da lealdade, Barroso recusa-a.
Por causa disso, Barroso vive já um grave problema pessoal.
Seguramente que Bruxelas apetece e Lisboa aborrece.
Entre ambas as capitais, a europeia e a portuguesa, não há comparação que resista.
Conviver com os grandes sempre foi melhor que aturar os pequenos. E nesse aspecto Barroso é um «dandy» intelectual.
Além do mais, Barroso sabe o que o futuro lhe traz: de Lisboa por certo sairá sempre mal, de Bruxelas é possível que possa sair-se bem. Portugal está farto dos seus líderes, a Europa anseia liderança.
O que está em dúvida, no momento, é saber se Barroso, líder que é de um partido, pode escolher. Uma fonte desse partido disse à imprensa que o PSD não lhe perdoaria: percebe-se, porquê. Sem ele, o partido, pior do que não ter alternativa de liderança, parece que tem apenas Pedro Santana Lopes para oferecer.
Nesse aspecto, no PS foi mais fácil, porque ali há uma lei dinástica há muito estabelecida: rei que perde, morre, rei que ganha, é morto.
O exemplo recente é, aliás, edificante: na noite da vitória socialista, na mesma em que na nave central se cantavam exéquias ao candidato europeu falecido, na sacristia, já uma tríade de candidatos à liderança afiava facas para o assalto ao poder.
Ora é nestas amarras da política que Durão Barroso se encontra cercado.
Para já, Barroso optou por uma atitude prudente e inteligente: mandou dizer que não é candidato.
A diferença é subtil: não está escrito em sítio algum que para o cargo de Presidente da Comissão não se possa ser eleito sem se ser candidato.
Daí decorre um efeito: Barroso não disse que não aceitaria o cargo, apenas disse que não se candidatava a ele.
O que, em si, implica uma consequência: o máximo da vitória é ser-se eleito para aquilo para que nem sequer nos candidatámos. Se o vierem buscar a casa e o coroarem imperador da Europa, Barroso mais do que eleito, terá sido aclamado.
Claro que vista de Lisboa, da solidão angustiante do seu gabinete na Rua da Imprensa, em certos momentos, a Europa deve parecer-lhe um apetecível refúgio: Durão Barroso se não quer concorrer à Europa, quer é que o tirem de Lisboa. E quanto mais depressa melhor.
Com uma variante: é que se for para Barroso não ir, ao menos ganhe António Vitorino, porque os dois juntos em Lisboa, isso, é demais: pior do que o desapontamento de um, ao não ter ido, é a frustração do outro, ao ter vindo
».
Ao reler isto só posso tirar uma conclusão: há quem não goste mesmo de mim, e eu até sei porquê!

27.8.07

Parece mal, mesmo!

Nós sabemos que a imprensa nem sempre é rigorosa. O Jornal de Negócios, pois tem muitas notícias, algumas publicitárias, sobre advogados, deveria sê-lo. Fica mal escrever-se: «o bastonário da Ordem dos Advogados, que representa a Teixeira Duarte», em vez de «Rogério Alves que representa a Teixeira Duarte! É a confusão total. Parece que há Advogados Bastonários e Bastonários Advogados.

26.8.07

Um mundo a sério

Segundo li esta manhã na imprensa «houve pessoas que esperaram duas horas para ter lugar» na Feira Erótica do Algarve. Mais: «o anúncio de que ia haver uma sessão de sexo ao vivo deixou o público da feira «Sexy 2007» em alvoroço». Mais ainda: «durante a feira erótica, que dura até domingo, existem «stands» de venda de artigos e acessórios sexuais e realizam-se «castings» para a produção nacional «O melhor filme pornográfico do mundo».
Quanto aos «castings», sublinhei esta parte: «os homens candidatam-se mais na brincadeira, mas as mulheres levam isto mais a sério», observou.
Numa feira em que «na zona de «swing», reservada apenas a casais, um casal de actores convida outros casais a compartilhar a cama e realizar novas experiências, num pavilhão recatado e longe do olhar do público em geral», percebo o que é o «isto», fico é sem perceber o que é o levar isso «mais a sério». Eu a pensar que era tudo a brincar!

25.8.07

O SLB e o Sigmund Freud

O freudismo acabaria por chegar ao futebol, ainda que pela pena dos cronistas.
Na edição on line do blog do Expresso vejo a pergunta «Será o Benfica um clube «gay» em processo de saída do armário?».
Pensava eu, leitor superficial, que a coisa teria a vêr com a mudança da cor das camisolas, mas não só, pois há na prosa mais adjuvantes argumentativos.
O primeiro, vem no texto: «OPA de Joe Berardo e as suas declarações que tumultuaram o balneário do clube, são evidências de que o pândego madeirense assume que o clube é mulher. Outra explicação não arranjo para o facto de o querer fecundar (é o verbo mais educado que arranjo para descrever as intenções do empresário face ao Glorioso)».
O segundo, vem no lead: «A assunção da sua feminilidade terá o condão de por o SLB em perfeita sintonia e harmonia com o sexo da zona onde tem implantada a sua catedral (a Luz), o seu ícone (a águia) e a sua cidade (Lisboa)». [fim de citação].
Lê-se e hesita-se.
O que vale é que, neste mundo, tudo serve para justificar tudo, e quanto a tudo se pode dizer que é entre o sério e o a brincar!
É uma análise «gay» esta, no sentido de brincalhona, claro. Mas a partir dela, as ilustres senhoras que a tiverem lido, ao verem que os seus queridos esposos, amantes, namorados ou passeantes ocasionais, trocam o leito amoroso pelo sofá da TV, as delícias de uma carícia por um remate do Paulo Bento, o erotismo da sua macia fêmea pelos onze musculados do Camacho, terão um motivo plausível de queixa e uma razão de grave desconfiança.
O pobre do médico de Viena, sobre cuja sexualidade já há quem desconfie, bem se pode revolver na tumba, onde bem estaria inumado num sofá, mais a sua ciência sempre com o falo na cabeça.
Depois da investigação sobre registos de um hotel na Suiça, um sociólogo julgou ter descoberto a prova escandalosa de que ele teria mantido uma relação incestuosa com a própria cunhada. A tese terá convencido o seu biógrafo oficial. O biógrafo chama-se, ironia do Destino, Peter Gay! Sobre isso vem tudo aqui. Quem quiser que acredite e, entretanto, viva o Benfica!
Ah! O dito cronista continua: «um clube de futebol ser mulher não é, em si, nada de mau, convençam-se disso, meus preclaros amigos benfiquistas». E eu a pensar que os gay eram, como dizia a Simone Beauvoir, o «terceiro sexo»!
Definitivamente desisto! Antes ver o «Sexo na Cidade», que não vejo, e tenho raiva a quem vê!

21.8.07

Santíssimo Sacramento, como isto vai!

Houve um ministro, que ainda é ministro, que se notabilizou pela frase «esta não é a minha polícia», a mesma polícia que o tivera como ministro.
Ora, ou eu me engano muito ou, qualquer dia, há no MP quem ainda se notabilize por vir a público dizer a mesma frase, na variante «esta não é a minha Judiciária».
Entretanto todos falam na cooperação institucional entre a Procuradoria e os OPC's com um ar composto e de muito notáveis silêncios forçados.
Como disse o Maquiavel no livro que escreveu para o Lorenzo de Médicis, «a guerra não se evita, apenas se adia»!
Cytoiens, aux armes, portanto!

20.8.07

Sinais exteriores

Segundo a imprensa, «os funcionários públicos que apresentem sinais exteriores de riqueza «não condizentes com a declaração de rendimentos» poderão ser alvo de processos disciplinares, segundo a nova Lei Geral Tributária».
Percebe a lógica quem entender o país em que vivemos.
O que subjaz a uma tal política é o triunfo da «riqueza encapotada», a «falsa modéstia», os muros altos e entrada discreta a esconder, por detrás, a sumptuosa vivenda e a piscina coberta, as lautas ceias e a garagem nutrida, o círculo privado para onde se levam os «visons», onde se exibem as jóias e outros adereços.
É que o que se persegue uma vez mais, são os «sinais exteriores», o mostrar e o exibir, não o ter.
É a máxima do «desde que eu não saiba», mãe de todas as hipocrisias, a benção às públicas virtudes.
Há nisto tudo, por outro lado, algo de chocante: é tornarem-se como destinatários de uma tal perseguição os «funcionários», muitos dos quais almoçam no come-em-pé para pagarem a letra do carro, vivem o resto do mês com o cartão de crédito do mês seguinte.
Porque os outros, os que mostram mesmo e se pavoneiam de facto, esses, de pessoal, pessoal, pessoal, mesmo, coitados, nada possuem. São na grande maioria «consultores» das suas, perdão, das empresas do sei lá de quem.
O tempo dos «bens ao luar» esse já foi, ante o eclipse fiscal que agora deu, o Estado esganado por dinheiro, os contribuintes a quererem esganar o Estado.

18.8.07

Ser ou não ser engenheiro: uma questão de colocação social

Estudioso amador da filosofia portuguesa e deixando num blog algumas notas esparsas sobre as ainda dispersas leituras, encontrei ontem, ao sair do barbeiro, imagine-se!, numa livraria que devia frequentar mais, uma colectânea de artigos, conferências discursos e cartas da autoria do filósofo portuense Leonardo Coimbra. Compilou tudo, com devoção e humildade, Pinharanda Gomes que nesse paciente trabalho mostra como é um grande homem, ao encarregar-se destes trabalhos que outros considerariam menores. Editou-o a Fundação Lusíada.
Hoje, sábado de tarde, deixei-me ficar por casa, depois de algumas surtidas utilitárias à chamada «rua», com o desejo de escrever e a vontade de ler.
Fui então dar uma espreitadela ao livro, folheando-o, como é por vezes meu hábito, de trás para a frente.
As últimas páginas são dedidacas à conversão ao catolicismo daquele que viveu uma vida inteira como se sem Deus e de quem Deus parecia ter-se esquecido ao condenar-lhe um filho a uma grave doença quase fatal; conversão a que se seguiria a morte a curto trecho.
Mas não foi por aí que me fiquei.
Revirando folhas, dei com este momento histórico. Vejam só as malhas que o acaso tece.
Como se pode ver melhor aqui «em 1924, a lei n.º 1638, de 23 de Julho, veio conferir o título de engenheiro auxiliar aos diplomados pelos institutos industriais e incluindo os condutores nessa designação. A reacção dos engenheiros não tardou. Os alunos do IST mobilizaram-se numa greve académica, cujos efeitos, prolongando-se para lá do golpe militar de 28 de Maio de 1926, conduziram à efectiva protecção legal do título de engenheiro em exclusivo para os diplomados pelas escolas de ensino superior e conferindo o título de agente técnico de engenharia aos antigos condutores e aos diplomados pelos institutos industriais».
Ora foi neste ambiente de insurreição entre engenheiros e agentes técnicos que num opúsculo sem data intitulado «Aos legisladores da República Portuguesa», consignou o seguinte parecer: «concordo plenamente com tudo o que seja marcar pelo seu verdadeiro nome cada indivíduo e cada profissão. A ordem nas sociedades depende da boa colocação social de cada competência e o lugar social da competência é marcado por um título ou diploma. Eis pois porque vos dou razão».
Não pensem que fiz de propósito! Estou inocente! A vida e os seus ensinamentos é que vieram ao meu encontro. Juro!