31.7.08

É preciso avisar toda a gente!

De repente a Presidência da República fez surgir o psico-drama de que o Presidente ia dirigir uma mensagem ao País. O País esperou-o diante da TV, às 20. Nada transpirara da comunicação «secreta» dizia uma locutora da RTP.
Minutos depois estava tudo acabado: o Presidente tinha sentido necessidade de informar o País que nos Açores estavam a tentar fazer passar legislação que lhe retirava poderes, diminuindo-lhe a função.
O País percebeu que o Presidente afinal não tem força, estava à janela a gritar por socorro. Qualquer Assembleia Regional o pode sitiar.
Há coisas que é bom pensar melhor antes de as fazer.
Cavaco Silva não quer que os Açores criem um precedente. Já criaram, este, de o Chefe de Estado gritar ao povo para que o acudam para não morrer às mãos dos políticos. Ao que isto chegou.

26.7.08

Seara de vento

Lia-a. Esgotava-a na totalidade, cada uma e todas as páginas. Tinha dezanove anos. Era um tempo em que, tendo pouco, apreciava o pouco que tinha. Lembro-me, nela, de tanta coisa: do número dos anos trinta, que li na Biblioteca Nacional, em que a capa é a efígie do Mussolini com aquele ar de amuo esgazeado e a legenda «Mussolini, a sua cara é a melhor demonstração das suas ideias»; daquelas edições em que se publicou uma polémica entre o pintor Lima de Freitas, que escrevia do Carvoeiro, que durante muito tempo seria o único Algarve que eu conhecia, e um tal J. J. Colaço, que atacava a partir de Boston, quesília que quando há uns dez anos reproduzi ao magnífico artista ele, atónito, já nem se lembrava de ter ocorrido, gabando-me, enganado, a prodigiosa memória; daquele número magrinho, retalhado pela Censura, ornando na capa, em raivosa mensagem aos leitores, um desenho à pena sob o título «A Cegueira da Crítica e a Cegueira da Crítica» sobre o António Feliciano de Castilho, visconde. Lembro-me do Sottomayor Cardia, do Ulpiano Nascimento. A pedido do Francisco Salgado Zenha escrevi um artigo, assinando-o sob pseudónimo, que me custou ter perdido um emprego, do que nunca falei e hoje aqui fica.
Eu era então um ninguém extasiado ante o que lia, o típico leitor. Guardei-as todas e um dia um desenlace da vida fez com que ficassem nem sei em que casa, inúteis, como a vida nela vivida.
Lembro-me do prazer de a comprar e sentir quanto nisso se marcava a diferença face a um O Tempo e o Modo, a revista dos «católicos progressistas», por mim olhados na altura de soslaio, por serem católicos e, como tal, impossíveis progressistas. Lembro-me do orgulho de a trazer debaixo do braço, gesto de cidadania, tal como ler a República, do Raúl Rego, por militância necessária e o Diário de Lisboa para a informação possível.

23.7.08

«Eia, gado brasileiro!»

Chegou-me por falar na Clarice Lispector, a cuja escrita dedico um blog, de frequência ocasional, errática. Mas é digno de registo, pelo humor, pela ironia, a menção a Clarice quase no fim: «Todo candidato a qualquer cargo público deveria fazer um “estágio” obrigatório, ou seja, viver como um cidadão comum», escreve e diz porquê. Chama-se Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda. Li-a aqui, nesta tarde de calor. Poder-se-ia dizer: eia, gado português!

22.7.08

Vazio de sentido

Distraídos da distracção pela distracção. A frase pertence a T. S. Eliot e está no seu poema Quatro Quartetos. O poema é belíssimo e o excerto vem aqui: «Over the strained time-ridden faces/Distracted from distraction by distraction/Filled with fancies and empty of meaning/Tumid apathy with no concentration».
Li isto num artigo sobre o mundo digital de hoje, em que as pessoas vivem soterradas pelos mil e um sinais que lhes chegam entre sms's, emails, para não falar em tudo o que a comunicação social despeja, em catadupas, em alertas/Google, em RSS's, em newsletters.
Mal a manhã raia, liga-se o computador e ei-lo atulhado, o primeiro trabalho seleccionar e apagar os emails da noite. O telefone em breve começará a retinir entre mensagens escritas, de voz e pessoas que ligam, reiteradas, insistentes, sem deixar recado até que a falta de paciência consiga que sejam atendidas. E por aí fora durante o dia, a imprensa on line vai matraqueando a última hora e o aviso circula entre amigos do já viste, os furiosos das «breaking news».
O irrequietismo circundante é tal que, às tantas, tudo é igual a nada, unidimensional e nivelado, desaparece a importância, o urgente submerge o importante, o mundo do incompreensível tumultuoso sucede-se em voraz espiral. Vazio de sentido, «empty of meaning».

20.7.08

As causas da Júlia

A Júlia Coutinho, que tem um blog de intervenção cívica muito activo e atractivo, teve a gentileza de sugerir que eu comentasse um seu post sobre o Eduardo Lourenço. Somos de perspectivas diversas da vida e talvez por isso o meu texto tenha um sabor a contra-ponto. Mas temos referências comuns e isso faz com que a divergência fomente o diálogo. Agradeço-lhe por isso, ter-me franqueado a porta à conversa, como um dos leitores que aprecia o seu espírito militante. Ante a apatia reinante, viva!

15.7.08

O Bando

As gralhas são uma coisa terrível. Que o diga eu que sou disléxico na escrita e dou erros de embarda, trocando letras e comendo palavras. Li algures que um jornal britânico dava um prémo chorudo a quem apresentasse um livro isento de gralhas.
Mas há algumas que devem gerar lauta risota e grandes sarilhos. Imagine-se o que é o site noticioso da RTP publicar com título de notícia: «Bando de Portugal: PSD diz que desalento se acentua e medidas do Governo não resolvem os problemas».
Exactamente assim: «bando». A esta hora seguramente que o link já leva para a notícia emendada, pelo que é o chamado riso de curta duração.
Mas..um momento! Agora que leio que a notícia refere que: «António Borges sublinhou que "nunca Portugal teve um endividamento tão alto todos os anos como está a ter" e disse que "a dívida externa, que se aproxima de cem por cento do PIB (...)», não será mesmo «o bando de Portugal»?.

3.7.08

O elogio

Saía de casa já zangado com a vida por ser tarde e estar cansado e mal dormido e sobretudo começar o dia atrasado quando a vi.
Dirigiu-se-me com um sorriso aberto, jovial, uma forma de sorrir com a boca, nos olhos um reluzir contente que lhe vinha da alma.
«Posso dar-lhe um elogio?», perguntou-me, eu encabulado e sem saber porque razão poderia ou se deveria dizer que não. «Adorei-o ontem na televisão!». E sem que eu tivesse tido tempo de explicar que não tinha estado nem ontem nem sequer há muito tempo,em qualquer televisão, rematou: «eu, e aliás toda a minha família, adorámos o que disse sobre a economia portuguesa! Muitos parabéns pela sua inteligência».
Não tive coragem de a desapontar e calei-me com o imerecido elogio. Saíu feliz, a ver-me escapulir para o estacionamento, alegre por ter dito, radiante por ter encontrado ali ao seu alcance o objecto da sua admiração.
Não sei se a esta hora já se terá apercebido de que eu não sou o Dr. Medina Carreira, com quem me confundiu.
Para não ficar na posse do que não me pertence, já telefonei a este, a dar o seu a seu dono. E espero que ele, da próxima vez que for à televisão pense em mim, na minha reputação, na minha imagem pública, porque no dia em que disser asneira ainda levo à conta dele uma tunda, numa esquina, de um espectador inconformado! E depois, será justo que lhe endosse essa indevida trepa, admirando- como admiro tanto? Não é justo! Nesse dia, como e calo, que assim é que é ser amigo.

30.6.08

Ter e ser

O Presidente do Governo Regional da Madeira, sempre jovial, disse que a riqueza e a religião dão felicidade aos portugueses. O Miguel de Unamuno, de que estive a ler um destes dias passados os textos pessimistas sobre Portugal, escreveu que se pode ser socialista por amor aos pobres, para que o não sejam, ou por amor aos ricos para que deixem de o ser.
São dois mundos inconciliáveis: o primeiro a supor que a riqueza traz felicidade, o segundo a supor que o ter devora o ser e há que libertar os ricos da infelicidade que é terem.
Pensava eu nisto porque me disseram, já nem sei há quantos dias atrás, que se cada indiano comer um bife por semana, o mundo entra em colapso, por não haver que chegue para que tantos comam.
Já nem sei se isto é uma comédia verbal, se uma tragédia existencial. Enquanto isto, Manuel Dias Loureiro comove-se com a afectividade de José Sócrates.

22.6.08

Back to the USSR!

Uma das particularidades que se atribuem aos portugueses é conseguirem conviver com a vida corrente, sobretudo a política, através da geração diária de anedotas, piadas e outras graçolas. Tenho a ideia, por outras razões, que o povo russo tem traços de semelhança connosco, ideia empírica oriunda daquela forma de pensar que é o palpite, que dá a alguns a «taluda» e a outros o «entalanço».
Mas neste domingo de sol e de boa disposição - deve ser seguramente do ananás! - comecei a rir e a rir continuo, ao dar conta que houve um sujeito que se deu ao trabalho de viajar pela antiga URSS e coleccionar em livro uma caterva de anedotas anti-soviéticas.
Uma delas é o flash «o marxismo leninismo é científico? Claro que não, pois de outro modo experimentavam-no primeiro em animais!». A outra é «qual a diferença entre o capitaismo e o comunismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem, o comunismo é exactamente o contrário».
Quem quiser saber mais, é só ir aqui. Boas gargalhadas, e que me perdoem os que não saibam que só o riso é revolucionário.
P.S. Algumas das piadas são universais: é verdade que metade do nosso Governo [perdão! do Politburo] são idiotas? É falso! Metade do nosso Governo não são idiotas! [risos]

O Tempo das Cerejas

Deu-me esta manhã para visitar os que me visitam. E dei conta, ao passar pelo belíssimo blog do Vítor Dias, O Tempo das Cerejas, que o Vasco Pulido Valente terá posto a correr que o PCP aproveitou o Europeu para «lançar uma campanha contra o futebol».
Ora se lançou, não dei conta, porque estou cada menos informado de acontecimentos correntes e futebol é coisa de que não me informo, porque uso esse tempo, mais o dos prolongamentos dos desafios, para fazer outras coisas mais variadas e mais urgentes. A minha vida diária é, aliás, sempre decidida a penalties.
A verdade é que o Vítor Dias ainda me fez sorrir, levando a sério as diabruras do VPV e dando-se por isso ao trabalho de indagar se era verdadeira a atoarda. Minuciosa busca leva-o a concluir: «como se poderá ver nas imagens abaixo, a «campanha contra o futebol» por parte do PCP foi de tal maneira oficial, pública, notória, forte, intensa e desabrida que um folheto de promoção da Festa do Avante! 2008 (concebido e editado por um estrutura directamente dependente da direcção do PCP) até incluia um calendário dos jogos do Europeu !».
Sorri-me, porque amanhã, que se comemoram cinquenta anos da morte de Cândido de Oliveira, o jornal Público editará, assim espero, um artigo que para lá enviei a lembrar que aquele anti-fascista foi parar ao Tarrafal por ter trabalhado como agente secreto ao serviço da causa aliada, na rede clandestina do SOE; e curiosamente, ele é um dos grandes conhecidos do futebol e um dos grandes esquecidos da Tarrafal, sobre o qual escreveu um livro, editado em 1974, prefaciado pelo falecido advogado José Magalhães Godinho, que tive ainda o privilégio de conhecer e ter como amigo, irmão do historiador Vitorino Magalhães Godinho.
É uma das ironias da História. Esta omissão do nome de Mestre Cândido em relação aos tarrafalistas, disse-a eu, de viva voz - permitam-me esta particularidade - a Jerónimo de Sousa quando a «Editorial Avante!» me convidou para o lançamento, no Centro de Trabalho Vitória, do livro sobre o dito «Pântano da Morte». Fez-me confusão de facto que, unidos na comum desgraça, até a morte os separe, sempre os nossos e os outros. A memória histórica deveria ter lágrimas iguais.
Um abraço ao Vítor Dias e um bom domingo para todos.

13.6.08

Navegantes do acaso

Nesta época que se costuma chamar da globalização, em que em cada momento do dia e da noite todo o mundo comunica com toda a gente, em que a hora de fecho das bolsas de valores americanas se articula com a das europeias, e no mercado de capitais, funcionam as transferências «overnight», em que pela madrugada a BBC transmite noticiários e programas de actualidades para a Ásia, porque lá é dia, e o meu amigo Eduardo, que deu em macaense, vai daqui a pouco dormir quando eu acabei de acordar mas os nossos emails num segundo de tu cá tu lá ignoram isso, nesta época, dizia eu, um feriado municipal é como nos tempos medievais em que as cidades fechavam as suas portas, encerrando-se intra muros. Um estrangeiro desprevenido que telefone hoje para cá pensa que Lisboa sumiu, o terramoto de 1755 teria regressado.
Em dias como hoje, a malta habitante vai em bandos para fora de portas, engarrafar-se em locais de distância variável na razão directa das posses, muitos para além do que já podem.
Ora é aqui que entra a diferença penalizadora. Nos tempos medievais, em que triunfava a noite escura, que é quando o espírito concebe as melhores ideias, era possível trancar tudo e não abrir. Punham-se archeiros à entrada, e seleccionavam-se a um e um, os que eram admitidos a reentrar.
Portugal repovoava-se como outrora se reflorestou: de feriado municipal em feriado municipal, restaria aquela multidão dos que ninguém quer e a quem nenhuma cidade permite franquia. Para esses, restava fazerem-se ao mar, qual raça de novos argonautas, navegantes do acaso em busca de desconhecido. Talvez por lá ficassem, a sua ausência mal notada, a sombra da sua presença vagamente comemorada.

10.6.08

10 de Junho

O ano passado, a propósito deste dia, escrevi assim:
«Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal
».
A diferença entre há um ano e hoje remedeia-se aqui: «Hoje a Natureza resolveu dar em sol, para se rir de amarelo e de ironia de um dia de maçadoria oficial (...)». No mais, tudo na mesma, com a parte gorda do país em férias e muitos outras a não poderem tê-las. Ah! Ia-me esquecendo: e desta vez calhou à terça-feira.

2.6.08

O chupista

Uma amiga minha veio dar-me conta que há por aí um rapaz que escreveu um artigo sobre o mistério em torno da morte do Leslie Howard e que, citando inclusivamente na narrativa aquilo que é o título de um livro meu sobre o assunto, nem se dignou sequer referi-lo.
Claro que o que eu escrevi custou-me horas a fio de estudo nos Arquivos Britânicos, onde parte essencial do dossier referente ao trágico voo está sujeito à lei do segredo por 75 anos, a entrevistar pessoas que se ligaram aos acontecimentos, a ter comparado os dois livros que o filho e a filha do malogrado actor escreveram, este último lido na Biblioteca da Cinemateca Portuguesa, onde o livro foi apresentado, por palavras gentis do seu Director, o Dr. Bénard da Costa. Mais: dei-me ao trabalho de redigir o guião de uma banda desenhada, cuidando da minúcia dos detalhes de modo a que, quer a narrativa quer a BD, não tivessem erros factuais. Honrou-me o prefácio do professor norte-americano Douglas Wheeler, que estuda desde há anos o assunto. Documentei-me, estudei, trabalhei.
Ao dito rapaz custou apenas o contar agora a historieta e ter a falta de educação de fingir ignorar quem já cá anda há mais tempo e fez trabalho sério.
Não me espanta. Quando trouxe a prova documental de que o fundador do jornal «A Bola» tinha ido parar ao Tarrafal por ser um agente do SOE britânico, vi que numa biografia que foi, entretanto publicada, essa minha revelação sobre Cândido de Oliveira era olimpicamente ignorada.
Não é que eu queira ter direitos de autor e seguramente já cometi muitas indelicadezas ao não citar quem devia; é só porque Portugal é isto, esta miséria de se viver entre a ignorância e o copianço, uma escrita tão mais arrogante quanto é feita, parasitariamente, à conta do alheio.

1.6.08

Caminante non hay Camino

Fui à Feira do Livro e acho que ela está cada vez pior.
Ainda por cima era dia da criança e tinham anunciado sábado que abriam mais cedo no domingo, logo pela manhã.
Claro que era engano! Os pavilhões dedicados às ditas criancinhas - que cada vez lêm menos - lá estavam abertos; quanto aos outros, havia muitos fechados, abriam de tarde.
Ao topo do Parque, lá estava o conglomerado de uma empresa que comprou uma série de editores: estão todos da mesma cor, todos iguais, indiferenciados.
Houve tempos em que a «Caminho» fazia gala em ser diferente; agora vendeu-se ao sistema de que se quis alternativa, está cor-de-rosa. Houve tempos em que na «Caminho» havia filas para autógrafos, desta vez estava às moscas.
Falo da «Caminho», porquê? Porque acho que é simbolicamente a que mostra, com a sua atitude, o que há para se saber sobre as relações entre a ideologia e o capital. Começaram com o Marx, terminaram com o «marketing»! Quanto ao Saramago está na sua Fundação afundado!

21.5.08

Venha enterrar-se em Lisboa

Já dei conta que vejo mal como se diz «ao pé» e por isso passei a usar óculos, culpando o computador pelo cansaço da vista e a mania de escrever por ter de usar computador. Agora começo a concluir que vejo mal ao longe.
Vinha eu a entrar em Lisboa, vindo de sul, venço a ponte que já foi do antes 25 de Abril, coitada dela, e ao terminar o tabuleiro, o casario degradado à vista, vejo do lado esquerdo uma placa em azul. Anúncio publicitário, tá visto. Mas a quê? Propagandeando o quê?
Aquele azul, pálido, celeste, turquesa, hipnotizou-me. Tentei concentrar-me, um olho na estrada, outro nas letras, como se no consultório do optometrista. Sim, começava com um jiboiante «S», e a seguir um «E». E a seguir» Um «P» ou um «R»?
O automóvel seguia ronceiro, a fila à frente obrigou a abrandar, mais tempo para decifrar o enigma, a frase a compor-se, hesitante, tremelicante.
De repente li tudo. Estava eu a entrar em Lisboa: «Servilusa, agência funerária»!!
Dizia eu um anúncio ou abrenúncio? Apre! Será um patrocínio da Prevenção Rodoviária Portuguesa?

20.5.08

De língua de fora

Ela escreve ainda «mãi» e «pae», tal como se lê, exactamente como se escrevia quando aprendeu a escrever, numa remota aldeia alentejana.
De há muito que a língua normativa, imposta por doutoral decreto, resumida nos implacáveis prontuários e nas ampliadas gramáticas, policiada pelos revisores de provas e objecto de pugilato polémico entre leitores puristas do verbo e escritores desleixados na prosa, lhe retirou a razão.
Mas quando falo dela não digo que é a minha «mãe», mas, de facto, a minha «mãi». E os que perguntam carinhosamente indagam «como vai a sua mãizinha», tal qual com o «i» que marca a fonética que retine no palato como o trinar de uma campainha.
Chama-se Maria Ernestina.
Agora, tenho que consultar o Diário da República para ver se não lhe mudaram o nome. Um destes dias o Ministério das Finanças regula a Lei do Acordo Ortográfico, prevendo umas coimas a quem não o cumprir. O Ministério de Pinto Ribeiro ficará incumbido da cobrança, a ASAE policiará os livros com as vírgulas fora do lugar. Agentes encapuçados, de G3 nas unhas, entram livrarias adentro, num «mãos ao ar! e ninguém toca nas estantes» que é tudo para apreender, se é que apreender ainda se escreve com dois «ee»'s, pois já nem sei e já é tarde para saber.

17.5.08

O negócio da fome

Sabemos que há miséria, há dificuldades económicas, gente com fome. As notícias estão cheias disso, a oposição reclama, o Governo disfarça.
Mas há a exploração comercial do fantasma da fome, o aproveitamento interesseiro da penúria, o miserável negócio da miséria.
Esta noite estava meio distraído, com a televisão em frente, e assisto a uma notícia segundo a qual havia dificuldades económicas crescentes e por isso havia pessoas que começavam a fazer pão em casa.
O pão é, quase por simbologia bíblica, a ideia do alimento em si, o pão para a boca, o pão nosso de cada dia, o comer o pão que o diabo amassou.
Idiota teleespectador condoí-me: a ideia de já nem para pão haver dinheiro moeu-me a consciência. Mas foram só uns segundos: era, afinal, um anúncio encapotado a uma máquina de fazer pão, um electro-doméstico novo, à venda no mercado.
A reportagem mostrava o vendedor pressuroso, a doméstica feliz, o padeiro receoso. Balanço final: compre, porque sai mais barato e o pão é mais fofinho!
Tudo isto na RTP, a estação do serviço público.
Mas já se perdeu de vez a vergonha, ou pensarão que somos todos atrasados mentais, uns fofinhos nas mãos da negociata pseudo-noticiosa?

16.5.08

Assim NAM vale!

Um dos problemas da velhice é a perda de memória. Um dos sintomas da esperteza é a memória selectiva! Uma das vantagens dos que já cá andam há muito é o não se esquecerem. Uma coisa boa para memória é o fósforo. Tem é um problema. Um descuido e fica tudo em cinzas. É o risco dos que brincam com o fogo...

A Feira da Ladra

Para muita gente ainda era a hipótese de comprar o seu livrito mais barato, economizando uns tostões; para algumas editoras era a eventualidade de escoarem alguns dos monos, a saldos, compensando os seus prejuízos; para muitos autores era a oportunidade de uma tarde ao sol, à espera de leitores, um amigo ou dois a ladeá-los, naquele velório da sua defunta obra, por vezes invendável, mesmo quando excelente; para os rapaces coleccionadores de primeiras edições autografadas, o investimento de futuro, para os mirones o cumprimentarem gente ilustre.
Era a Feira do Livro, mercado ao ar livre, o livro do dia com desconto, a enciclopédia a crédito, o compre dois e pague um, enfim, a Literatura em montra, popular e barateira, espécie de trottoir em que os anónimos se cruzavam, desconfiados, com a reluzente livraria, esta a fazer olhinhos sedutores, a prometer gozos e sonhos e fábulas de ilusão ao alcance da mão.
Agora paira a ameaça de que pode nem haver Feira, por causa de uma grande patroa, que quer acabar com aquelas modestas casinhas de meia-porta.
Não faz mal! Sugiro que, para a troca, se faça uma Feira de Autores, daqueles que, recebendo dez dos cem por cento que custa o livro a quem o compra, tanta vez ficam, com o Tejo à vista, encerrada a Feira, a ver navios, porque, baixados os taipais dos pavilhões, muitos feirantes ferram o calote, porque «isto está mau, ninguém lê e nada se vende, vamos lá a ver se agora pelo Natal a coisa melhora...».
Feira de Autores, pois! E como local sugiro Santa Clara, ali mesmo, entre o adelo e o espólio, a velharia e o sabe-se lá de onde, a Feira da Ladra, que tem a glória vã do o Panteão à vista, e espraiando-se em realidade alfacinha, o Largo do Outeirinho da Amendoeira, as Escadinhas do Arco de Dona Rosa e sobretudo a Travessa do Paraíso!

14.5.08

A triste história da burguesia

Era uma vez uns filhos de burgueses que na idade da adolescência resolveram enfrentar os antiquados papás e a lei e a ordem que imperava à mesa lá de casa. Lei e Ordem, diga-se, que eram a garantia do negócio rendoso ou do emprego tranquilo do papá, da domesticidade submissa e beata da mamã, da castidade expectante da mana, à espera de um bom partido que a levasse dali, e das heranças que, mortos os velhos, lhes dariam, enfim, divididas em grande zanga, um começo de vida sem as sovinices mesquinhas ou outras privações que se contavam dos avós, sustentados a côdea ratada, a sardinha moída, a pobreza envergonhada alumiada a pavio de azeite.
Ora por essa altura esses filhos de burgueses, não sabendo que eram burgueses ou para fingir que não eram burgueses resolveram travestir-se de trabalhadores.
Muitos deles não trabalhavam nada, nem sequer nos livros, salvo pelo fim do ano para que por causa do «chumbo» não fosse tirada a mesada; mas porque as calças de ganga são tão ganga como as gangas dos fatos-macaco do proletariado, bastava só a camisola esbeiçada e uns sapatos cambos e, pelo menos, máscara já havia e, se não eram trabalhadores, pareciam trabalhadores. Trabalhadores no desemprego, claro, porque com o capital não se colabora!
Foi assim que esses burgueses filhos de burgueses se atiraram à sociedade burguesa que os sustentava e aturava. E lá vieram os Maio's de 68, como forma de fugir à polícia e pedir o impossível como o máximo da ideologia revolucionária.
Queimaram-se em noites de interminável discussão sobre as variantes dos «ismos», às olheiras do acordar tarde juntava-se o medo de passar por reaccionário.
A seu lado, o proletariado real, esse comia o pão que o diabo amassou, e levava no lombo a sério, quando a repressão se abatia.
Toda uma geração formou-se assim e anda por aí: burgueses, filhos de burgueses, ei-los burgueses. Só que com uma diferença.
Na idade de fazerem filhos, educaram-nos na liberdade de que a vida é bela e há que curtir, porque para atraso e pobreza já bastavam os remediados avós.
E é por isso que está aí, a tomar conta aos poucos das rédeas da sociedade uma geração que tem como personalidade o hedonismo, como moral a ambição, como método o individualismo, como critério o argentário. Olham para os pais e vêm como é possível ter mentido tanto.
São, coitados, todos uns tristes doutores de nada para coisa nenhuma, à procura de um país que não há, de empregos que não existem, todos herdeiros daqueles velhos burgueses, pais de burgueses e de burgueses avós, de cujas heranças, feita de aforrar de dia e amealhar à noite, se fez o que ainda há. Um dia, a ter sobrado algum, talvez isso lhes valha.
Era uma vez um mundo em que se dobravam os punhos e os colarinhos das camisas, se subiam e desciam as bainhas das saias, se ia para as termas só quando se estava doente e para a pensão quando calhava ir de férias. Um mundo em que se festejava o primeiro carro, a primeira telefonia, o ir jantar fora. Um mundo feito de abdicação, de sujeição, em que imperava o medo perante Vossa Excelência e a crença no à consideração superior.
O que fizemos nós de nós, para tudo isto ter um sabor amargo de ridículo e pastoso de verdadeiro? Como tudo isto passou do cocktail-Molotov para o cocktail-party!