30.8.08

Poesia higiénica

No número de Janeiro/Junho de 2002 da revista Colóquio, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, vem, a propósito de Tomaz de Figueiredo – e em oneroso fac-simile – um chamado poema que ele dedicou ao último Presidente do Conselho de Ministros antes do 25 de Abril.
Uns excertos bastam para se aquilatar do seu fino recorte literário e subtileza poética: «apoiaste o reviralho, ó meu cara de trabalho, aumentaste a confusão”, “Marcelo, mar de marmelo, marmelada de chinelo”; “Marcelo Alves José, lava a cara no bidé, onde hás-de lavá-la tu”; “depois da posta mamada, pão as mamas da criada [?], vai servir o comunismo, Marcelo José cinismo».
Um naco destes, só mesmo em extra-texto, para lhe dar realce, pois claro!
Só que, se me permitem, há uma pequena falha tipográfica. É que ele há «poemas» que ficariam melhor se impressos em papel absorvente e picotado. É o caso deste.
Arte e poesia sim, mas no caso para estarem sempre mas sempre ao serviço das necessidades essenciais do povo português! E por isso o papel higiénico ajuda.

29.8.08

O Fisco e as capelas

Na Igreja Católica a indulgência é a remissão dos pecados em contrapartida de - .
Ora o problema está precisamente no de.
Há indulgências plenárias perpétuas e que se aplicam inclusivamente a mortos, como se pode ver aqui. Morto no Purgatório pode ser resgatado para o Céu, se os vivos aceitarem o de.
Ora houve tempo em que o frade Johann Tetzel foi recrutado para viajar através dos territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. Rebelando-se contra isto Martinho Lutero abriu na Fé o fosso do Protestantismo. Foi com as 95 teses que afixou na Igreja Castelo de Winterberg no dia 1 de Outubro de 1517.
O negócio da troca do perdão das almas pecadoras por dinheiro dos outros pecadores mostrou uma Igreja mercantilizada, a salvação confundida com a pecúnia, os 30 dinheiros feitos prática litúrgica e fonte de financiamento.
Provocador e arguto, Lutero perguntava então, na sua tese 86: «Por que razão o Papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?».
Tempos idos, esses, em que a mística se impunha à conta de talha dourada e outras pompas. Hoje, em Portugal, a Nação que tem as chagas de Cristo na bandeira e Nossa Senhora de Fátima como padroeira: «O fisco tem à venda imóveis e viaturas a preços de saldo. Há até uma capela, na Nossa Senhora das Dores, em Valpaços, que vai a leilão com um preço base de nove euros e 40 cêntimos». Vem na TSF.
Os ímpios da Fazenda não perdoam. Não há indulgências plenárias para a Administração Fiscal, nem excomunhão da Santa Sé que os atrapalhe. Hereges!

19.8.08

A noite da indiferença

Uma pessoa entra na urgência do Hospital Amadora Sintra pelas 18:00, para ali transportada pelo INEM, o serviço de emergência médica. Queixa-se de uma dor no peito e de um agonia na zona do coração. Seis horas depois é, enfim, atendida por um médico, para uma observação que não chega a durar um minuto. Segue para recolha de sangue e um electrocardiograma. Feito este, diagnosticam, de súbito, um enfarte em curso há horas. A lentidão transforma-se agora em pressa, o desinteresse em preocupação: surgem, das entranhas do corredor, um monitor cardíaco, um disfribilhador, oxigénio, soro.
Essa pessoa está internada nos cuidados intensivos. Tem 85 anos de idade.
Seis horas depois de ter entrado na urgência hospitalar, a urgência viu que, afinal, era urgente.
Podia ser a história de toda a gente que tem a desgraça de nascer em Portugal e de acreditar nas reformas do Serviço Nacional de Saúde. No caso é a minha mãe.
Quando pelas onze e meia fui saber o que se passava, uma feroz funcionária atendia aos rompantes uma jovem mãe, negra, o filhito ao colo assustado sem saber que para além do medo que sentia, deveria ter medo, sim, mas do lugar onde estava. No corredor dois médicos conversavam tranquilos, a longa noite da indiferença prosseguia o seu ritmo.

9.8.08

O pecado da vaidade

Vim no comboio a ler, porque é isso que os comboios têm de bom o permitirem ler, um livro auto-biográfico do Serafim Ferreira, editor. É um inventário das grandezas e misérias dos que arriscaram o tempo, o dinheiro e a paciência no mercado dos livros. Quase nenhumas das histórias acaba bem, mas algumas proprocionam momenos irónicos. Uma é a do tipógrafo Manuel Rodrigues que em 1927 criou a Editorial Minerva, sob cuja chancela saíu o Borda de Água, e tantos outros.
Mas dizia eu, por falar em ironia, que o Serafim Ferreira conta, a propósito da Minerva, que esta editora: «publicou alguns autores portugueses e de todos eles o mais lembrado deve ser hoje o livro de estreia literária de José Saramago que foi A Terra do Pecado, saído em mil novecentos e quarenta e sete e o autor de Levantado do Chão dele se arrependera, porque o retirou da sua bibliografia e só lá o encaixou passado muito tempo para assim poder justificar as celebrações de cinquenta anos de actividade literária». Pois é.
É de rir! Ou de chorar?

8.8.08

Parece um cartoon, mas é um cartão

Finalmente a insistência dos que se preocupam comigo venceu: decidi-me a ter um cartão do Serviço Nacional de Saúde.
Lá fui, pela manhã, ao centro de saúde da minha residência. Um sorriso de amabillidade esperava-me. Só que tinha-me esquecido da prova de residência. O cartão de eleitor não chegava. Um recibo comprovativo de que pagava eletricidade, sim. Fui buscar. Há dias em que um homem tem toda a paciência do mundo quanto às suas insuficiências de identificação. Voltei para encontrar o mesmo sorriso e muita eficiência. Num ápice estavam os meus dados introduzidos no sistema. Depois perguntaram pelo meu regime de segurança social. Ora eu acho que não tenho regime nenhum. Mostrei, a medo, o cartão de beneficiário da Caixa de Previdência dos Advogados. Não servia. «Mas deixe que fica em branco». Concordei. Afinal nesse campo estava, de facto, em branco. E a amabilidade dera em compreensão e eu não queria atrapalhar por uma questão de regime.
Funcionou, então, rápida, a impressora. «Aqui tem, é o provisório, tem de andar sempre com ele. Depois virá o definitivo». «Ah!» respondi, ao olhar para uma folha em A4 que era difícil que me coubesse na carteira. «E o outro, quando vem?», arrisquei. «O definitivo? Cerca de três anos».
«Três meses...», tentei, inseguro, corrigir. «Não, não. Três anos!».
Foi esta sexta-feira, em Lisboa.
O cartão definitivo, note-se, é um pedaço de plástico, onde estão os dados que aquele computador tinha aceite e impresso em papel. Leva três anos a imprimir!
Dado que a legislatura vai durar menos do que o cartão, não se poderá fechar, entretanto, o Ministério da Saúde, ou lá como é que se chama, ou para obras ou para nova gerência, ou criar um Secretário de Estado para a Plastificação?

1.8.08

Pois olhem, à pata!

O caso de José Sá Fernandes é a última das desilusões para os últimos dos inocentes.
Primeiro, vimo-lo paladino de causas cívicas. Muitos julgaram-no o advogado dos sem-abrigo na política, o defensor impoluto contra o meio ambiente poluído, o combatente vermelho pelo que é verde, em suma, o cavaleiro andante da moralidade pública.
Depois, vimo-lo político e as pessoas desconfiaram se a defesa de tudo aquilo, do verde ao vermelho, não era o ataque a um lugar, uma conduta de amarelo.
Durante pouco tempo durou a dúvida.
José Sá Fernandes começou iracundo na barricada do Bloco de Esquerda, num fósforo ei-lo em intimidades suaves com o partido do Governo, o do menino de ouro.
No princípio José Sá Fernandes falava muito, alto e grosso; agora pia muito fininho, se é que pia.
Para os poucos crentes nos partidos burgueses, percam definitivamente as ilusões; o radicalismo burguês de fachada socialista dá nisto: o meu reino por um cavalo, para já de preferência a mula do poder.
Só que há um senão futuro: é que ajoujada com tantos arrivistas, um dia a besta alimária que a palha da Fazenda Nacional alimenta, ajoelha de exangue. Nesse dia, tudo como dante: os apeados mudam de montada, à falta de corcel, vai-se de burro, que à pata é que ninguém quer.

31.7.08

É preciso avisar toda a gente!

De repente a Presidência da República fez surgir o psico-drama de que o Presidente ia dirigir uma mensagem ao País. O País esperou-o diante da TV, às 20. Nada transpirara da comunicação «secreta» dizia uma locutora da RTP.
Minutos depois estava tudo acabado: o Presidente tinha sentido necessidade de informar o País que nos Açores estavam a tentar fazer passar legislação que lhe retirava poderes, diminuindo-lhe a função.
O País percebeu que o Presidente afinal não tem força, estava à janela a gritar por socorro. Qualquer Assembleia Regional o pode sitiar.
Há coisas que é bom pensar melhor antes de as fazer.
Cavaco Silva não quer que os Açores criem um precedente. Já criaram, este, de o Chefe de Estado gritar ao povo para que o acudam para não morrer às mãos dos políticos. Ao que isto chegou.

26.7.08

Seara de vento

Lia-a. Esgotava-a na totalidade, cada uma e todas as páginas. Tinha dezanove anos. Era um tempo em que, tendo pouco, apreciava o pouco que tinha. Lembro-me, nela, de tanta coisa: do número dos anos trinta, que li na Biblioteca Nacional, em que a capa é a efígie do Mussolini com aquele ar de amuo esgazeado e a legenda «Mussolini, a sua cara é a melhor demonstração das suas ideias»; daquelas edições em que se publicou uma polémica entre o pintor Lima de Freitas, que escrevia do Carvoeiro, que durante muito tempo seria o único Algarve que eu conhecia, e um tal J. J. Colaço, que atacava a partir de Boston, quesília que quando há uns dez anos reproduzi ao magnífico artista ele, atónito, já nem se lembrava de ter ocorrido, gabando-me, enganado, a prodigiosa memória; daquele número magrinho, retalhado pela Censura, ornando na capa, em raivosa mensagem aos leitores, um desenho à pena sob o título «A Cegueira da Crítica e a Cegueira da Crítica» sobre o António Feliciano de Castilho, visconde. Lembro-me do Sottomayor Cardia, do Ulpiano Nascimento. A pedido do Francisco Salgado Zenha escrevi um artigo, assinando-o sob pseudónimo, que me custou ter perdido um emprego, do que nunca falei e hoje aqui fica.
Eu era então um ninguém extasiado ante o que lia, o típico leitor. Guardei-as todas e um dia um desenlace da vida fez com que ficassem nem sei em que casa, inúteis, como a vida nela vivida.
Lembro-me do prazer de a comprar e sentir quanto nisso se marcava a diferença face a um O Tempo e o Modo, a revista dos «católicos progressistas», por mim olhados na altura de soslaio, por serem católicos e, como tal, impossíveis progressistas. Lembro-me do orgulho de a trazer debaixo do braço, gesto de cidadania, tal como ler a República, do Raúl Rego, por militância necessária e o Diário de Lisboa para a informação possível.

23.7.08

«Eia, gado brasileiro!»

Chegou-me por falar na Clarice Lispector, a cuja escrita dedico um blog, de frequência ocasional, errática. Mas é digno de registo, pelo humor, pela ironia, a menção a Clarice quase no fim: «Todo candidato a qualquer cargo público deveria fazer um “estágio” obrigatório, ou seja, viver como um cidadão comum», escreve e diz porquê. Chama-se Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda. Li-a aqui, nesta tarde de calor. Poder-se-ia dizer: eia, gado português!

22.7.08

Vazio de sentido

Distraídos da distracção pela distracção. A frase pertence a T. S. Eliot e está no seu poema Quatro Quartetos. O poema é belíssimo e o excerto vem aqui: «Over the strained time-ridden faces/Distracted from distraction by distraction/Filled with fancies and empty of meaning/Tumid apathy with no concentration».
Li isto num artigo sobre o mundo digital de hoje, em que as pessoas vivem soterradas pelos mil e um sinais que lhes chegam entre sms's, emails, para não falar em tudo o que a comunicação social despeja, em catadupas, em alertas/Google, em RSS's, em newsletters.
Mal a manhã raia, liga-se o computador e ei-lo atulhado, o primeiro trabalho seleccionar e apagar os emails da noite. O telefone em breve começará a retinir entre mensagens escritas, de voz e pessoas que ligam, reiteradas, insistentes, sem deixar recado até que a falta de paciência consiga que sejam atendidas. E por aí fora durante o dia, a imprensa on line vai matraqueando a última hora e o aviso circula entre amigos do já viste, os furiosos das «breaking news».
O irrequietismo circundante é tal que, às tantas, tudo é igual a nada, unidimensional e nivelado, desaparece a importância, o urgente submerge o importante, o mundo do incompreensível tumultuoso sucede-se em voraz espiral. Vazio de sentido, «empty of meaning».

20.7.08

As causas da Júlia

A Júlia Coutinho, que tem um blog de intervenção cívica muito activo e atractivo, teve a gentileza de sugerir que eu comentasse um seu post sobre o Eduardo Lourenço. Somos de perspectivas diversas da vida e talvez por isso o meu texto tenha um sabor a contra-ponto. Mas temos referências comuns e isso faz com que a divergência fomente o diálogo. Agradeço-lhe por isso, ter-me franqueado a porta à conversa, como um dos leitores que aprecia o seu espírito militante. Ante a apatia reinante, viva!

15.7.08

O Bando

As gralhas são uma coisa terrível. Que o diga eu que sou disléxico na escrita e dou erros de embarda, trocando letras e comendo palavras. Li algures que um jornal britânico dava um prémo chorudo a quem apresentasse um livro isento de gralhas.
Mas há algumas que devem gerar lauta risota e grandes sarilhos. Imagine-se o que é o site noticioso da RTP publicar com título de notícia: «Bando de Portugal: PSD diz que desalento se acentua e medidas do Governo não resolvem os problemas».
Exactamente assim: «bando». A esta hora seguramente que o link já leva para a notícia emendada, pelo que é o chamado riso de curta duração.
Mas..um momento! Agora que leio que a notícia refere que: «António Borges sublinhou que "nunca Portugal teve um endividamento tão alto todos os anos como está a ter" e disse que "a dívida externa, que se aproxima de cem por cento do PIB (...)», não será mesmo «o bando de Portugal»?.

3.7.08

O elogio

Saía de casa já zangado com a vida por ser tarde e estar cansado e mal dormido e sobretudo começar o dia atrasado quando a vi.
Dirigiu-se-me com um sorriso aberto, jovial, uma forma de sorrir com a boca, nos olhos um reluzir contente que lhe vinha da alma.
«Posso dar-lhe um elogio?», perguntou-me, eu encabulado e sem saber porque razão poderia ou se deveria dizer que não. «Adorei-o ontem na televisão!». E sem que eu tivesse tido tempo de explicar que não tinha estado nem ontem nem sequer há muito tempo,em qualquer televisão, rematou: «eu, e aliás toda a minha família, adorámos o que disse sobre a economia portuguesa! Muitos parabéns pela sua inteligência».
Não tive coragem de a desapontar e calei-me com o imerecido elogio. Saíu feliz, a ver-me escapulir para o estacionamento, alegre por ter dito, radiante por ter encontrado ali ao seu alcance o objecto da sua admiração.
Não sei se a esta hora já se terá apercebido de que eu não sou o Dr. Medina Carreira, com quem me confundiu.
Para não ficar na posse do que não me pertence, já telefonei a este, a dar o seu a seu dono. E espero que ele, da próxima vez que for à televisão pense em mim, na minha reputação, na minha imagem pública, porque no dia em que disser asneira ainda levo à conta dele uma tunda, numa esquina, de um espectador inconformado! E depois, será justo que lhe endosse essa indevida trepa, admirando- como admiro tanto? Não é justo! Nesse dia, como e calo, que assim é que é ser amigo.

30.6.08

Ter e ser

O Presidente do Governo Regional da Madeira, sempre jovial, disse que a riqueza e a religião dão felicidade aos portugueses. O Miguel de Unamuno, de que estive a ler um destes dias passados os textos pessimistas sobre Portugal, escreveu que se pode ser socialista por amor aos pobres, para que o não sejam, ou por amor aos ricos para que deixem de o ser.
São dois mundos inconciliáveis: o primeiro a supor que a riqueza traz felicidade, o segundo a supor que o ter devora o ser e há que libertar os ricos da infelicidade que é terem.
Pensava eu nisto porque me disseram, já nem sei há quantos dias atrás, que se cada indiano comer um bife por semana, o mundo entra em colapso, por não haver que chegue para que tantos comam.
Já nem sei se isto é uma comédia verbal, se uma tragédia existencial. Enquanto isto, Manuel Dias Loureiro comove-se com a afectividade de José Sócrates.

22.6.08

Back to the USSR!

Uma das particularidades que se atribuem aos portugueses é conseguirem conviver com a vida corrente, sobretudo a política, através da geração diária de anedotas, piadas e outras graçolas. Tenho a ideia, por outras razões, que o povo russo tem traços de semelhança connosco, ideia empírica oriunda daquela forma de pensar que é o palpite, que dá a alguns a «taluda» e a outros o «entalanço».
Mas neste domingo de sol e de boa disposição - deve ser seguramente do ananás! - comecei a rir e a rir continuo, ao dar conta que houve um sujeito que se deu ao trabalho de viajar pela antiga URSS e coleccionar em livro uma caterva de anedotas anti-soviéticas.
Uma delas é o flash «o marxismo leninismo é científico? Claro que não, pois de outro modo experimentavam-no primeiro em animais!». A outra é «qual a diferença entre o capitaismo e o comunismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem, o comunismo é exactamente o contrário».
Quem quiser saber mais, é só ir aqui. Boas gargalhadas, e que me perdoem os que não saibam que só o riso é revolucionário.
P.S. Algumas das piadas são universais: é verdade que metade do nosso Governo [perdão! do Politburo] são idiotas? É falso! Metade do nosso Governo não são idiotas! [risos]

O Tempo das Cerejas

Deu-me esta manhã para visitar os que me visitam. E dei conta, ao passar pelo belíssimo blog do Vítor Dias, O Tempo das Cerejas, que o Vasco Pulido Valente terá posto a correr que o PCP aproveitou o Europeu para «lançar uma campanha contra o futebol».
Ora se lançou, não dei conta, porque estou cada menos informado de acontecimentos correntes e futebol é coisa de que não me informo, porque uso esse tempo, mais o dos prolongamentos dos desafios, para fazer outras coisas mais variadas e mais urgentes. A minha vida diária é, aliás, sempre decidida a penalties.
A verdade é que o Vítor Dias ainda me fez sorrir, levando a sério as diabruras do VPV e dando-se por isso ao trabalho de indagar se era verdadeira a atoarda. Minuciosa busca leva-o a concluir: «como se poderá ver nas imagens abaixo, a «campanha contra o futebol» por parte do PCP foi de tal maneira oficial, pública, notória, forte, intensa e desabrida que um folheto de promoção da Festa do Avante! 2008 (concebido e editado por um estrutura directamente dependente da direcção do PCP) até incluia um calendário dos jogos do Europeu !».
Sorri-me, porque amanhã, que se comemoram cinquenta anos da morte de Cândido de Oliveira, o jornal Público editará, assim espero, um artigo que para lá enviei a lembrar que aquele anti-fascista foi parar ao Tarrafal por ter trabalhado como agente secreto ao serviço da causa aliada, na rede clandestina do SOE; e curiosamente, ele é um dos grandes conhecidos do futebol e um dos grandes esquecidos da Tarrafal, sobre o qual escreveu um livro, editado em 1974, prefaciado pelo falecido advogado José Magalhães Godinho, que tive ainda o privilégio de conhecer e ter como amigo, irmão do historiador Vitorino Magalhães Godinho.
É uma das ironias da História. Esta omissão do nome de Mestre Cândido em relação aos tarrafalistas, disse-a eu, de viva voz - permitam-me esta particularidade - a Jerónimo de Sousa quando a «Editorial Avante!» me convidou para o lançamento, no Centro de Trabalho Vitória, do livro sobre o dito «Pântano da Morte». Fez-me confusão de facto que, unidos na comum desgraça, até a morte os separe, sempre os nossos e os outros. A memória histórica deveria ter lágrimas iguais.
Um abraço ao Vítor Dias e um bom domingo para todos.

13.6.08

Navegantes do acaso

Nesta época que se costuma chamar da globalização, em que em cada momento do dia e da noite todo o mundo comunica com toda a gente, em que a hora de fecho das bolsas de valores americanas se articula com a das europeias, e no mercado de capitais, funcionam as transferências «overnight», em que pela madrugada a BBC transmite noticiários e programas de actualidades para a Ásia, porque lá é dia, e o meu amigo Eduardo, que deu em macaense, vai daqui a pouco dormir quando eu acabei de acordar mas os nossos emails num segundo de tu cá tu lá ignoram isso, nesta época, dizia eu, um feriado municipal é como nos tempos medievais em que as cidades fechavam as suas portas, encerrando-se intra muros. Um estrangeiro desprevenido que telefone hoje para cá pensa que Lisboa sumiu, o terramoto de 1755 teria regressado.
Em dias como hoje, a malta habitante vai em bandos para fora de portas, engarrafar-se em locais de distância variável na razão directa das posses, muitos para além do que já podem.
Ora é aqui que entra a diferença penalizadora. Nos tempos medievais, em que triunfava a noite escura, que é quando o espírito concebe as melhores ideias, era possível trancar tudo e não abrir. Punham-se archeiros à entrada, e seleccionavam-se a um e um, os que eram admitidos a reentrar.
Portugal repovoava-se como outrora se reflorestou: de feriado municipal em feriado municipal, restaria aquela multidão dos que ninguém quer e a quem nenhuma cidade permite franquia. Para esses, restava fazerem-se ao mar, qual raça de novos argonautas, navegantes do acaso em busca de desconhecido. Talvez por lá ficassem, a sua ausência mal notada, a sombra da sua presença vagamente comemorada.

10.6.08

10 de Junho

O ano passado, a propósito deste dia, escrevi assim:
«Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal
».
A diferença entre há um ano e hoje remedeia-se aqui: «Hoje a Natureza resolveu dar em sol, para se rir de amarelo e de ironia de um dia de maçadoria oficial (...)». No mais, tudo na mesma, com a parte gorda do país em férias e muitos outras a não poderem tê-las. Ah! Ia-me esquecendo: e desta vez calhou à terça-feira.

2.6.08

O chupista

Uma amiga minha veio dar-me conta que há por aí um rapaz que escreveu um artigo sobre o mistério em torno da morte do Leslie Howard e que, citando inclusivamente na narrativa aquilo que é o título de um livro meu sobre o assunto, nem se dignou sequer referi-lo.
Claro que o que eu escrevi custou-me horas a fio de estudo nos Arquivos Britânicos, onde parte essencial do dossier referente ao trágico voo está sujeito à lei do segredo por 75 anos, a entrevistar pessoas que se ligaram aos acontecimentos, a ter comparado os dois livros que o filho e a filha do malogrado actor escreveram, este último lido na Biblioteca da Cinemateca Portuguesa, onde o livro foi apresentado, por palavras gentis do seu Director, o Dr. Bénard da Costa. Mais: dei-me ao trabalho de redigir o guião de uma banda desenhada, cuidando da minúcia dos detalhes de modo a que, quer a narrativa quer a BD, não tivessem erros factuais. Honrou-me o prefácio do professor norte-americano Douglas Wheeler, que estuda desde há anos o assunto. Documentei-me, estudei, trabalhei.
Ao dito rapaz custou apenas o contar agora a historieta e ter a falta de educação de fingir ignorar quem já cá anda há mais tempo e fez trabalho sério.
Não me espanta. Quando trouxe a prova documental de que o fundador do jornal «A Bola» tinha ido parar ao Tarrafal por ser um agente do SOE britânico, vi que numa biografia que foi, entretanto publicada, essa minha revelação sobre Cândido de Oliveira era olimpicamente ignorada.
Não é que eu queira ter direitos de autor e seguramente já cometi muitas indelicadezas ao não citar quem devia; é só porque Portugal é isto, esta miséria de se viver entre a ignorância e o copianço, uma escrita tão mais arrogante quanto é feita, parasitariamente, à conta do alheio.

1.6.08

Caminante non hay Camino

Fui à Feira do Livro e acho que ela está cada vez pior.
Ainda por cima era dia da criança e tinham anunciado sábado que abriam mais cedo no domingo, logo pela manhã.
Claro que era engano! Os pavilhões dedicados às ditas criancinhas - que cada vez lêm menos - lá estavam abertos; quanto aos outros, havia muitos fechados, abriam de tarde.
Ao topo do Parque, lá estava o conglomerado de uma empresa que comprou uma série de editores: estão todos da mesma cor, todos iguais, indiferenciados.
Houve tempos em que a «Caminho» fazia gala em ser diferente; agora vendeu-se ao sistema de que se quis alternativa, está cor-de-rosa. Houve tempos em que na «Caminho» havia filas para autógrafos, desta vez estava às moscas.
Falo da «Caminho», porquê? Porque acho que é simbolicamente a que mostra, com a sua atitude, o que há para se saber sobre as relações entre a ideologia e o capital. Começaram com o Marx, terminaram com o «marketing»! Quanto ao Saramago está na sua Fundação afundado!