16.10.08

Freitas e o jogo de cartas

Por mais vontade que se tenha de gostar, Portugal desaponta. Ou então são os portugueses. Ou então são aqueles portugueses que dão a imagem de Portugal. Talvez assim esteja certo. Ao certo não se sabe bem o que é o país. Tem-se uma ideia ao ouvir excertos na rádio, momentos de televisão, pedaços de jornal. Julga-se que Portugal são sempre os mesmos, mas há outro, o Portugal anónimo que os suporta quando os não despreza.
Há pouco no intervalo de uma tarde de recolhimento, para desanuviar o espírito, passei os olhos pelas «breves». Parece que vai haver escândalo com a publicação das cartas que Marcelo Caetano escreveu e onde fala de Diogo Freitas do Amaral, seu dilecto discípulo.
Diogo iniciou-se na vida adulta agarrado à labita do seu mestre, como tantos outros. Se o regime político de que o professor foi Presidente do Conselho tivesse subsistido, teria sido um dos eleitos. Ele como mais uns quantos. Seguia o cursus honorum para tal. Tinha a formação, a linhagem, os credos, os tiques, a pose, a ambição. Era, em suma, um jovem promissor para um mundo prometido.
Teve o azar de o 25 de Abril o surpreender, a sorte de ser habilidoso, escapar-se em ceroulas nocturnas da alcova nupcial com o Estado Novo e dar o salto para os braços adúlteros da jovem e apetecível democracia. Muitos fizeram o mesmo. Marcelo ficou magoado, porque até no vira-casaquismo não tem que haver ingratidão nem parricídio. Quantos houve! As cartas dirão isso mesmo.
Mas é isto notícia? Não, não é. Quando a Monarquia deu em República aconteceu o mesmo. Acontece todas as vezes que a coisa não está a dar.
Há umas cartas a Marcelo Caetano que li até ao fim. Não são as que Freire Antunes publicou, não, sim as de uma mulher que o amou, editadas pela Verbo, creio eu. Ao menos nelas há humanidade, o resto é a animalidade do interesse. Volto para os meus livros. Uma noite descansada para todos.

13.10.08

A crise e a fava

A economia de mercado tem destas: a força da economia transforma-se na fraqueza dos mercados financeiros. Em caso de crise, entra o intervencionismo do Estado, à conta dos contribuintes. À lógica, que chegou a ser bandeira da UDP - «os ricos que paguem a crise» - sucede a técnica actual: os pobres que paguem as favas.

6.10.08

O ilusionismo, essa bela arte de viver

Houve tempos em que as pessoas ficavam um dia inteiro em casa e o telefone mal retinia. Hoje os telefones não retinem, cantam e gargarejam e ninguém está em casa salvo excepções. Houve tempos em que, a horas combinadas, um vulto feminino assomava, discreto, a uma janela. Hoje as janelas saltam impúdicas e chamam-se «pop up's», assim não se ponha ocupado no msn. Houve tempos em que as pessoas para se encontrarem avisavam com cartão e agradeciam com flores. Hoje está-se nessa, bora, na minha ou na tua, tanto faz.
Houve tempos em que o acto de estar era um reduto inexpugnável da individualidade, o receber uma condescendência social à civilidade, o aparecer uma forma de entretenimento para tornar todos contentes.
Era o tempo das visitas de cerimónia às famílias, do salão em que Madame pontificava, explêndida, do clube de ambiente inalado a conhaque e charuto para os cavalheiros, do chá das cinco remediado a scones entre amigas, o jantar formal em que meninos não entravam, tempos do piquenique com formigas de onde por vezes surgiam inesperados meninos.
Se calhar não houve um tempo com nada disto. Mas há um tempo em que a nostalgia de tudo isto já faz sentido, mesmo que impossível, mesmo que inaceitável, a ilusão uma arte de viver.

3.10.08

Uma manhã de aflição

O carro tinha de ir necessariamente à revisão. Os automóveis agora só vão à revisão aos trinta mil quilómetros. Um dia destes já nem vão: compram-se e passado uns milhares de quilómetros vão à inspecção, chumbam e entram directamente na sucata. Li um dia, sei lá agora onde, a nostalgia do tempo em que se fabricavam automóveis e não electro-domésticos auto-motorizados. A minha mãe dizia que o do meu avô até jarras tinha e cortinas.
O carro veio da revisão. Vinha lindo, brilhante, senhorial. Na conta explicavam que tinha sido lavado. Uma lavagem VIP, diziam: noventa e cinco euros de lavagem, à mão desarmada.
O carro está escondido agora na garagem. Tenho receio de metê-lo à estrada, ao pó que manchará o capot, aos insectos que se esborracharão no pára-brisas, à água que enlameará os pneus. Noventa e cinco euros de aflição esta manhã. Olho para a janela apavorado com a ideia que pode chover. E se eu fosse de comboio?

24.9.08

Portugueses, e o amor?

Não é diletantismo, mas deixei de estar a par de assuntos correntes. Há factos, porém, que despertam uma qualquer campainha no portão da atenção. Assim sucedeu este começo de manhã, porque o meu despertador se enganou nas horas e não viu que ainda era de noite.
Acordado que estava, fui fazer o que não fazia há muito, ver a imprensa on line. Sob o título «Mortes superam os nascimentos» o Diário de Notícias dava conta do que é a inversão da razão demográfica, o que «em termos técnicos, significa que a nossa taxa de crescimento natural é negativa (-0,01%)».
Ora um homem acorda com a doçura de um despertador, lê o DN e obviamente precipita-se para o lugar onde despertou com o dever social e patriótico de fazer gente.
Com uma notícia destas, nasce pela certa um movimento cívico, uma outra esperança nova! Portuguesas e Portugueses, hoje, amanhã e sempre, que os vossos serões tenham um destino! A oficial RTP que mude a programação, já não cantando loas noticiososas à senhora governação, mas entre a seguir ao jantar com filmes animadores, educativos, de bolinha no canto do écran, instigando ao acto. Recolhidas mais cedo as criancinhas, entre suspiros de alegria, os papás de Portugal, antes de se virarem as costas, darão novos mundos ao mundo.
Há só um particular que pode dar confusão. Diz o jornal que já foi o de Augusto de Castro e de José Saramago: «Portugal já hoje cresce à custa dos imigrantes, sobretudo africanos. Em 2007, a percentagem de filhos nascidos de casais mistos foi de 11,8%, mais três pontos que em 2002» e a propósito subtitula: «Mais velhos, mais escuros». Atenção, pois! Quando estiverem no auge do amplexo criador, quase em vias de lançar no ventre vivificador as sementes de novos lusitanos, acendam a luz. O DN agradece. Entretanto aqui fica o meu contributo musical, só para criar ambiente.

9.9.08

Angola a votos

Nasci em Angola, mas perdi o contacto com aquela minha terra. Os horrores da guerra conheci-os em 1961, por terem começado na Baixa de Cassange e eu morar em Malanje. Lembro-me da chegada dos primeiros caçadores especiais, lembro os belgas em fuga, lembro as primeiras matanças, de um lado e do outro. Talvez tenha sofrido relativamente pouco, apenas o terror, as noites espavoridas, nunca vi a violência diante dos olhos, apenas dentro da cabeça. Cada vez aprendo mais que nunca as nossas dores são tantas quanto as dos que verdadeiramente sofrem. É uma imodéstia do eu julgarmo-nos doridos.
Mas não era sobre isto que queria escrever, sim sobre ter ouvido há uns dias, na rádio, a deputada europeia Ana Gomes a vociferar contra o modo como haviam decorrido as eleições em Angola e ter ouvido, acho que um dia depois, a representante da Eurolândia e mais um pouco toda a gente, incluindo o nosso Presidente da República, a cumprimentar José Eduardo dos Santos pelo exemplo de democracia e de Ana Gomes não ter ouvido mais nada. Ana Gomes tem um blog onde tem escrito agora apenas Vital Moreira. O seu último post foi a cumprimentar Paulo Pedroso, o anterior sobre «a lasca do Alasca». Está aqui. Tudo isto que eu escrevo talvez faça sentido. É de facto triste que faça.

31.8.08

Um café para seis

A Lisboa pelintra, a Lisboa dos parvenus, a Lisboa do vale mais parecer tem os seus cronistas e invade a melhor literatura de costumes. Encontramo-la no Fialho de Almeida e no Eça. Toda ela está no Gervásio Lobato e no Armando Ferreira. No Leitão de Barros. É uma Lisboa que se alimenta a açúcar em vez de bife, por se ter esgotado o cartão de crédito, é a Lisboa das imposturices de personalidade em prol de um bom engate, a Lisboa de uma passagem pela cama na noite de sexta-feira que segunda-feira já acabou ó tu como é que disseste que te chamavas. Estamos já na segunda-geração e na terceira geração da família Piranga e da sua trupe.
E depois há os literatos decadentes, unidos em gangs, felinos de dentuça afiada em luta pelo território de uma consagração. E há as meninas com um palminho de cara e os meninos com um palminho de corpo, vindos do anonimato, em busca da glória e da fama na arte, na moda ou na TV, entre as estonteantes luzes do estrelato decadente, libidinoso velho e predador. A Lisboa ociosa, a estafar o resto do que ainda sobra da herança dos tios e do subsídio que há-de vir, a Lisboa chula sustentada, a Lisboa fadista fina, enfastiada de tédio e enojada do próprio brasão, fazendo de proletária e fingindo-se plebeia, em ré menor, a do fado corrido na viela do expediente, do calote pé descalço e da falperra afidalgada.
Sob toda esta Lisboa, há a Lisboa marçana, da mercearia de bairro à espera da misericórdia da ASAE que lhe dê o golpe da eutanásia, a Lisboa funcionária, a que sobreviveu ao quadro de adidos e à pré-reforma e ao quadro de excedentes e aos ministros novos cheios de velhas ideias inovadoras. A Lisboa dos africanos e a dos eslavos e a dos vindos dos Brasis, que limpa e constrói e sorri e serve numa Lisboa suja, a destruir-se e que perdeu a capacidade de rir.
Lembrei-me disto tudo esta manhã quando, a rebentar de dores de cabeça, me assaltava, obsessivamente como os latejos de uma nojenta enxaqueca, a frase explêndida do António Ferro - ai! ó chuis do politicamente correcto, flics do que se pode dizer, quem eu fui citar! - a frase explêndida do António Ferro, dizia, na sua crónica sobre o café Martinho, o da Arcada, o do Pessoa, esse «onde o Ponce Leão, filho, portanto o Kronprinz, pede, de mistura com a morte dos empresários que não lhe aceitam as peças, um café para seis quando não é para oito...».
É a Lisboa eterna, a que disfarça em dieta o não haver já sequer para a paparoca, a Lisboa que pouco trabuca e que nada manduca, a Lisboa que dá ganas de vomitar. E vomitei mesmo, convicta e revoltadamente.

30.8.08

Poesia higiénica

No número de Janeiro/Junho de 2002 da revista Colóquio, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, vem, a propósito de Tomaz de Figueiredo – e em oneroso fac-simile – um chamado poema que ele dedicou ao último Presidente do Conselho de Ministros antes do 25 de Abril.
Uns excertos bastam para se aquilatar do seu fino recorte literário e subtileza poética: «apoiaste o reviralho, ó meu cara de trabalho, aumentaste a confusão”, “Marcelo, mar de marmelo, marmelada de chinelo”; “Marcelo Alves José, lava a cara no bidé, onde hás-de lavá-la tu”; “depois da posta mamada, pão as mamas da criada [?], vai servir o comunismo, Marcelo José cinismo».
Um naco destes, só mesmo em extra-texto, para lhe dar realce, pois claro!
Só que, se me permitem, há uma pequena falha tipográfica. É que ele há «poemas» que ficariam melhor se impressos em papel absorvente e picotado. É o caso deste.
Arte e poesia sim, mas no caso para estarem sempre mas sempre ao serviço das necessidades essenciais do povo português! E por isso o papel higiénico ajuda.

29.8.08

O Fisco e as capelas

Na Igreja Católica a indulgência é a remissão dos pecados em contrapartida de - .
Ora o problema está precisamente no de.
Há indulgências plenárias perpétuas e que se aplicam inclusivamente a mortos, como se pode ver aqui. Morto no Purgatório pode ser resgatado para o Céu, se os vivos aceitarem o de.
Ora houve tempo em que o frade Johann Tetzel foi recrutado para viajar através dos territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. Rebelando-se contra isto Martinho Lutero abriu na Fé o fosso do Protestantismo. Foi com as 95 teses que afixou na Igreja Castelo de Winterberg no dia 1 de Outubro de 1517.
O negócio da troca do perdão das almas pecadoras por dinheiro dos outros pecadores mostrou uma Igreja mercantilizada, a salvação confundida com a pecúnia, os 30 dinheiros feitos prática litúrgica e fonte de financiamento.
Provocador e arguto, Lutero perguntava então, na sua tese 86: «Por que razão o Papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?».
Tempos idos, esses, em que a mística se impunha à conta de talha dourada e outras pompas. Hoje, em Portugal, a Nação que tem as chagas de Cristo na bandeira e Nossa Senhora de Fátima como padroeira: «O fisco tem à venda imóveis e viaturas a preços de saldo. Há até uma capela, na Nossa Senhora das Dores, em Valpaços, que vai a leilão com um preço base de nove euros e 40 cêntimos». Vem na TSF.
Os ímpios da Fazenda não perdoam. Não há indulgências plenárias para a Administração Fiscal, nem excomunhão da Santa Sé que os atrapalhe. Hereges!

19.8.08

A noite da indiferença

Uma pessoa entra na urgência do Hospital Amadora Sintra pelas 18:00, para ali transportada pelo INEM, o serviço de emergência médica. Queixa-se de uma dor no peito e de um agonia na zona do coração. Seis horas depois é, enfim, atendida por um médico, para uma observação que não chega a durar um minuto. Segue para recolha de sangue e um electrocardiograma. Feito este, diagnosticam, de súbito, um enfarte em curso há horas. A lentidão transforma-se agora em pressa, o desinteresse em preocupação: surgem, das entranhas do corredor, um monitor cardíaco, um disfribilhador, oxigénio, soro.
Essa pessoa está internada nos cuidados intensivos. Tem 85 anos de idade.
Seis horas depois de ter entrado na urgência hospitalar, a urgência viu que, afinal, era urgente.
Podia ser a história de toda a gente que tem a desgraça de nascer em Portugal e de acreditar nas reformas do Serviço Nacional de Saúde. No caso é a minha mãe.
Quando pelas onze e meia fui saber o que se passava, uma feroz funcionária atendia aos rompantes uma jovem mãe, negra, o filhito ao colo assustado sem saber que para além do medo que sentia, deveria ter medo, sim, mas do lugar onde estava. No corredor dois médicos conversavam tranquilos, a longa noite da indiferença prosseguia o seu ritmo.

9.8.08

O pecado da vaidade

Vim no comboio a ler, porque é isso que os comboios têm de bom o permitirem ler, um livro auto-biográfico do Serafim Ferreira, editor. É um inventário das grandezas e misérias dos que arriscaram o tempo, o dinheiro e a paciência no mercado dos livros. Quase nenhumas das histórias acaba bem, mas algumas proprocionam momenos irónicos. Uma é a do tipógrafo Manuel Rodrigues que em 1927 criou a Editorial Minerva, sob cuja chancela saíu o Borda de Água, e tantos outros.
Mas dizia eu, por falar em ironia, que o Serafim Ferreira conta, a propósito da Minerva, que esta editora: «publicou alguns autores portugueses e de todos eles o mais lembrado deve ser hoje o livro de estreia literária de José Saramago que foi A Terra do Pecado, saído em mil novecentos e quarenta e sete e o autor de Levantado do Chão dele se arrependera, porque o retirou da sua bibliografia e só lá o encaixou passado muito tempo para assim poder justificar as celebrações de cinquenta anos de actividade literária». Pois é.
É de rir! Ou de chorar?

8.8.08

Parece um cartoon, mas é um cartão

Finalmente a insistência dos que se preocupam comigo venceu: decidi-me a ter um cartão do Serviço Nacional de Saúde.
Lá fui, pela manhã, ao centro de saúde da minha residência. Um sorriso de amabillidade esperava-me. Só que tinha-me esquecido da prova de residência. O cartão de eleitor não chegava. Um recibo comprovativo de que pagava eletricidade, sim. Fui buscar. Há dias em que um homem tem toda a paciência do mundo quanto às suas insuficiências de identificação. Voltei para encontrar o mesmo sorriso e muita eficiência. Num ápice estavam os meus dados introduzidos no sistema. Depois perguntaram pelo meu regime de segurança social. Ora eu acho que não tenho regime nenhum. Mostrei, a medo, o cartão de beneficiário da Caixa de Previdência dos Advogados. Não servia. «Mas deixe que fica em branco». Concordei. Afinal nesse campo estava, de facto, em branco. E a amabilidade dera em compreensão e eu não queria atrapalhar por uma questão de regime.
Funcionou, então, rápida, a impressora. «Aqui tem, é o provisório, tem de andar sempre com ele. Depois virá o definitivo». «Ah!» respondi, ao olhar para uma folha em A4 que era difícil que me coubesse na carteira. «E o outro, quando vem?», arrisquei. «O definitivo? Cerca de três anos».
«Três meses...», tentei, inseguro, corrigir. «Não, não. Três anos!».
Foi esta sexta-feira, em Lisboa.
O cartão definitivo, note-se, é um pedaço de plástico, onde estão os dados que aquele computador tinha aceite e impresso em papel. Leva três anos a imprimir!
Dado que a legislatura vai durar menos do que o cartão, não se poderá fechar, entretanto, o Ministério da Saúde, ou lá como é que se chama, ou para obras ou para nova gerência, ou criar um Secretário de Estado para a Plastificação?

1.8.08

Pois olhem, à pata!

O caso de José Sá Fernandes é a última das desilusões para os últimos dos inocentes.
Primeiro, vimo-lo paladino de causas cívicas. Muitos julgaram-no o advogado dos sem-abrigo na política, o defensor impoluto contra o meio ambiente poluído, o combatente vermelho pelo que é verde, em suma, o cavaleiro andante da moralidade pública.
Depois, vimo-lo político e as pessoas desconfiaram se a defesa de tudo aquilo, do verde ao vermelho, não era o ataque a um lugar, uma conduta de amarelo.
Durante pouco tempo durou a dúvida.
José Sá Fernandes começou iracundo na barricada do Bloco de Esquerda, num fósforo ei-lo em intimidades suaves com o partido do Governo, o do menino de ouro.
No princípio José Sá Fernandes falava muito, alto e grosso; agora pia muito fininho, se é que pia.
Para os poucos crentes nos partidos burgueses, percam definitivamente as ilusões; o radicalismo burguês de fachada socialista dá nisto: o meu reino por um cavalo, para já de preferência a mula do poder.
Só que há um senão futuro: é que ajoujada com tantos arrivistas, um dia a besta alimária que a palha da Fazenda Nacional alimenta, ajoelha de exangue. Nesse dia, tudo como dante: os apeados mudam de montada, à falta de corcel, vai-se de burro, que à pata é que ninguém quer.

31.7.08

É preciso avisar toda a gente!

De repente a Presidência da República fez surgir o psico-drama de que o Presidente ia dirigir uma mensagem ao País. O País esperou-o diante da TV, às 20. Nada transpirara da comunicação «secreta» dizia uma locutora da RTP.
Minutos depois estava tudo acabado: o Presidente tinha sentido necessidade de informar o País que nos Açores estavam a tentar fazer passar legislação que lhe retirava poderes, diminuindo-lhe a função.
O País percebeu que o Presidente afinal não tem força, estava à janela a gritar por socorro. Qualquer Assembleia Regional o pode sitiar.
Há coisas que é bom pensar melhor antes de as fazer.
Cavaco Silva não quer que os Açores criem um precedente. Já criaram, este, de o Chefe de Estado gritar ao povo para que o acudam para não morrer às mãos dos políticos. Ao que isto chegou.

26.7.08

Seara de vento

Lia-a. Esgotava-a na totalidade, cada uma e todas as páginas. Tinha dezanove anos. Era um tempo em que, tendo pouco, apreciava o pouco que tinha. Lembro-me, nela, de tanta coisa: do número dos anos trinta, que li na Biblioteca Nacional, em que a capa é a efígie do Mussolini com aquele ar de amuo esgazeado e a legenda «Mussolini, a sua cara é a melhor demonstração das suas ideias»; daquelas edições em que se publicou uma polémica entre o pintor Lima de Freitas, que escrevia do Carvoeiro, que durante muito tempo seria o único Algarve que eu conhecia, e um tal J. J. Colaço, que atacava a partir de Boston, quesília que quando há uns dez anos reproduzi ao magnífico artista ele, atónito, já nem se lembrava de ter ocorrido, gabando-me, enganado, a prodigiosa memória; daquele número magrinho, retalhado pela Censura, ornando na capa, em raivosa mensagem aos leitores, um desenho à pena sob o título «A Cegueira da Crítica e a Cegueira da Crítica» sobre o António Feliciano de Castilho, visconde. Lembro-me do Sottomayor Cardia, do Ulpiano Nascimento. A pedido do Francisco Salgado Zenha escrevi um artigo, assinando-o sob pseudónimo, que me custou ter perdido um emprego, do que nunca falei e hoje aqui fica.
Eu era então um ninguém extasiado ante o que lia, o típico leitor. Guardei-as todas e um dia um desenlace da vida fez com que ficassem nem sei em que casa, inúteis, como a vida nela vivida.
Lembro-me do prazer de a comprar e sentir quanto nisso se marcava a diferença face a um O Tempo e o Modo, a revista dos «católicos progressistas», por mim olhados na altura de soslaio, por serem católicos e, como tal, impossíveis progressistas. Lembro-me do orgulho de a trazer debaixo do braço, gesto de cidadania, tal como ler a República, do Raúl Rego, por militância necessária e o Diário de Lisboa para a informação possível.

23.7.08

«Eia, gado brasileiro!»

Chegou-me por falar na Clarice Lispector, a cuja escrita dedico um blog, de frequência ocasional, errática. Mas é digno de registo, pelo humor, pela ironia, a menção a Clarice quase no fim: «Todo candidato a qualquer cargo público deveria fazer um “estágio” obrigatório, ou seja, viver como um cidadão comum», escreve e diz porquê. Chama-se Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda. Li-a aqui, nesta tarde de calor. Poder-se-ia dizer: eia, gado português!

22.7.08

Vazio de sentido

Distraídos da distracção pela distracção. A frase pertence a T. S. Eliot e está no seu poema Quatro Quartetos. O poema é belíssimo e o excerto vem aqui: «Over the strained time-ridden faces/Distracted from distraction by distraction/Filled with fancies and empty of meaning/Tumid apathy with no concentration».
Li isto num artigo sobre o mundo digital de hoje, em que as pessoas vivem soterradas pelos mil e um sinais que lhes chegam entre sms's, emails, para não falar em tudo o que a comunicação social despeja, em catadupas, em alertas/Google, em RSS's, em newsletters.
Mal a manhã raia, liga-se o computador e ei-lo atulhado, o primeiro trabalho seleccionar e apagar os emails da noite. O telefone em breve começará a retinir entre mensagens escritas, de voz e pessoas que ligam, reiteradas, insistentes, sem deixar recado até que a falta de paciência consiga que sejam atendidas. E por aí fora durante o dia, a imprensa on line vai matraqueando a última hora e o aviso circula entre amigos do já viste, os furiosos das «breaking news».
O irrequietismo circundante é tal que, às tantas, tudo é igual a nada, unidimensional e nivelado, desaparece a importância, o urgente submerge o importante, o mundo do incompreensível tumultuoso sucede-se em voraz espiral. Vazio de sentido, «empty of meaning».

20.7.08

As causas da Júlia

A Júlia Coutinho, que tem um blog de intervenção cívica muito activo e atractivo, teve a gentileza de sugerir que eu comentasse um seu post sobre o Eduardo Lourenço. Somos de perspectivas diversas da vida e talvez por isso o meu texto tenha um sabor a contra-ponto. Mas temos referências comuns e isso faz com que a divergência fomente o diálogo. Agradeço-lhe por isso, ter-me franqueado a porta à conversa, como um dos leitores que aprecia o seu espírito militante. Ante a apatia reinante, viva!

15.7.08

O Bando

As gralhas são uma coisa terrível. Que o diga eu que sou disléxico na escrita e dou erros de embarda, trocando letras e comendo palavras. Li algures que um jornal britânico dava um prémo chorudo a quem apresentasse um livro isento de gralhas.
Mas há algumas que devem gerar lauta risota e grandes sarilhos. Imagine-se o que é o site noticioso da RTP publicar com título de notícia: «Bando de Portugal: PSD diz que desalento se acentua e medidas do Governo não resolvem os problemas».
Exactamente assim: «bando». A esta hora seguramente que o link já leva para a notícia emendada, pelo que é o chamado riso de curta duração.
Mas..um momento! Agora que leio que a notícia refere que: «António Borges sublinhou que "nunca Portugal teve um endividamento tão alto todos os anos como está a ter" e disse que "a dívida externa, que se aproxima de cem por cento do PIB (...)», não será mesmo «o bando de Portugal»?.

3.7.08

O elogio

Saía de casa já zangado com a vida por ser tarde e estar cansado e mal dormido e sobretudo começar o dia atrasado quando a vi.
Dirigiu-se-me com um sorriso aberto, jovial, uma forma de sorrir com a boca, nos olhos um reluzir contente que lhe vinha da alma.
«Posso dar-lhe um elogio?», perguntou-me, eu encabulado e sem saber porque razão poderia ou se deveria dizer que não. «Adorei-o ontem na televisão!». E sem que eu tivesse tido tempo de explicar que não tinha estado nem ontem nem sequer há muito tempo,em qualquer televisão, rematou: «eu, e aliás toda a minha família, adorámos o que disse sobre a economia portuguesa! Muitos parabéns pela sua inteligência».
Não tive coragem de a desapontar e calei-me com o imerecido elogio. Saíu feliz, a ver-me escapulir para o estacionamento, alegre por ter dito, radiante por ter encontrado ali ao seu alcance o objecto da sua admiração.
Não sei se a esta hora já se terá apercebido de que eu não sou o Dr. Medina Carreira, com quem me confundiu.
Para não ficar na posse do que não me pertence, já telefonei a este, a dar o seu a seu dono. E espero que ele, da próxima vez que for à televisão pense em mim, na minha reputação, na minha imagem pública, porque no dia em que disser asneira ainda levo à conta dele uma tunda, numa esquina, de um espectador inconformado! E depois, será justo que lhe endosse essa indevida trepa, admirando- como admiro tanto? Não é justo! Nesse dia, como e calo, que assim é que é ser amigo.