28.11.08

A morte virtual

No mesmo dia em que vejo o título de uma notícia que refere «robôs quase humanos» vejo outra que fala numa professora agredida a murro e a pontapé por um aluno de dezasseis anos. Fosse um caso e já era mau. Não é. Houvesse possibilidade de controlar a situação, mas não há. A violência doméstica, escolar, nas ruas está disseminada. A violência banalizou-se. As mesmas pessoas que se impressionam com os mortos em Bombaim que lhes chegam nos noticiários da TV assistem impávidas a cenas de mortandade sanguinolenta todas as noites na mesma TV e dormem refasteladas. Há um ponto em que a morte real e a morte virtual se confundem. Os pilotos de bombardeiros sabem isso. Os alvos são apenas pontos num écran. A dor não é um dado e a destruição de vidas é um número.

20.11.08

6 a 2

Vinha hoje a remoer na sentimentalidade doentia e depressiva do povo português ante os 6-2 que levámos ontem em face do Brasil, em futebol. Os políticos que vivem a oferecer alegrias e amanhãs devem estar preocupados. O futebol é um meio de catarse dos sentimentos cívicos quando em baixa, um entretém das frustrações privadas, uma sublimação da raiva social a que a política não dá saída.
Os pregos no caixão da portugalidade pontapeante terem sido martelados pelos brasileiros tem, porém, um acréscimo de opróbio, o de ser um filho a bater no pai.
Eu sei que a selecção portuguesa tem tantos portugueses quanto, um destes dias, a Nação portuguesa é, afinal, um aglomerado de estrangeiros a trabalhar entre nacionais desocupados. Mas mesmo assim dói!

18.11.08

Seis meses é um pulo, no inferno!

Tenho lido poucos jornais, sei pouco de acontecimentos correntes, estou muito afastado da política. Não por pedantismo ou por incivilidade, mas porque a informação de que preciso é a que tenho: alguns jornais, uns tantos acontecimentos, pouca política. Descobri que tinha lido poucos livros, como quem descobre que tem vivido pouco a vida. Ah! E descobri há pouco, ao passar por aqui, que ao PSD fazia-lhe bem seis meses sem Manuela Ferreira Leite. Podia ser que assim sobrasse alguma coisa do que já foi em tempos um grande partido nacional.

Sábios e Governo

Há cargos cujo nome envergonha quem deles faça parte. António Vitorino terá proposto «criação de uma comissão de sábios [sic] que teria como objectivo alcançar um acordo sobre a questão polémica relacionada com o processo de avaliação de professores». Isto, segundo diz a notícia que vi «em nome da independência e da razão».
No tempo de António Guterres o lema era «razão e coração». Agora o PS ficou sem «coração», trocando-o pela «independência».
Mas o que duvido é que alguém com independência perca a razão por fazer parte de uma comissão de pessoas chamadas de «sábios».
Quem for verdadeiramente sábio que se livre. A sapiência é saber distinguir a inteligência da esperteza.
Quanto a mim se fosse Governo demitia-me. Ter que me ver arbitrado por sábios só pode ser fazerem de mim estúpido.

15.11.08

As nossas vidas nas suas mãos

Calhou viajar de autocarro até ao Algarve e de autocarro regressar no mesmo dia, na mesma viatura, o mesmo condutor. Saímos de Lisboa pela treze, chegámos quase pelas dezoito, com praticamente uma hora de atraso. Regressei a Lisboa era meia-noite. Vinha cansado de tantas horas sentado, algumas a dormir, outras a ler.
Quer tudo isto dizer que aquele condutor fez nove horas totais de volante e sofreu um dia de trabalho de onze horas.
E depois querem os senhores da Prevenção Rodoviária, e os do Governo, e todos os da polícia, e as associações que se preocupam com as mortes nas estradas, para não falar nas vítimas, nas seguradoras, nos da Justiça, em que uns perdem, outros ganham, outros exibem-se neste macabro massacre de mortes nas estradas, que não haja acidentes?
Como é possível que um homem destes resista? Como é possível que isto seja permitido? Como é possível que haja tanta gente a fazer de conta?
Regressei esgotado e com vergonha de o dizer. Ali mesmo, fiel da minha vida e dos poucos soturnos passageiros, havia um ser humano a quem doía mais.

13.11.08

Fernando Pessoa em leilão

Tudo se reduz ao que vale o que sobeja. Fernando Pessoa teria de passar pelo vexame póstumo de ver os bens leiloados pela família e o leilão interrompido por providências judiciais. Li isto esta noite, por não ter podido trabalhar que assim sucedeu.
Talvez por isso, regressado a casa, tenha ido folhear, como num consolo possível, o livro de Luís Pedro Moitinho de Almeida sobre o poeta, que o falecido advogado e estremosa criatura conheceu ainda rapaz, empregado de uma firma de seu pai, sita no primeiro andar do número 71 da Rua da Prata.
Estão ali, não os modos de «fazer pela vida», com que António Mega Ferreira tentou reconstruir uma imagem banal e empresarial de quem escreveu os Poemas Dramáticos, mas sim os «vales à caixa», promissórias mendicantes de quem com isso alimentava o seu viver distante.
Fernando António Nogueira Pessoa morreu no Hospital de São Luís dos Franceses. Faltava só matá-lo, a golpes de licitação póstuma. Agora já está.

A primeira dama

É simpático um homem com as responsabilidades do Presidente dos Estados Unidos da América, na hora da despedida, dizer que errou nisto ou naquilo por não ter escutado a mulher. Dá um toque carinhoso, familiar, humano. O mundo que o detestou emociona-se. Os que o ridicularizaram como a um animal de circo perdoam tudo. É a América mental na sua pior expressão, mais infantil.
Mas claro que há o outro lado da questão. É que um homem com as responsabilidades do Presidente dos Estados da América tem por detrás de si compromissos legais, um programa, uma plétora de conselheiros, o Congresso, a História do seu país. Mas que vale isto ante a opinião íntima da sua mulher?
A alcova tem peso na política, na diplomacia, na geoestratégia. Por causa dela fizeram-se guerras, desfizeram-se impérios. Nela se forma também, por outra forma, a lógica da canhonheira, a retórica da tensão e do apaziguamento.
Perante isso que vale o Pentágono, a Sala Oval, o Departamento de Estado? Pior do que as Monarquias que têm duquesas são as Repúblicas com os seus cônjuges.

16.10.08

Freitas e o jogo de cartas

Por mais vontade que se tenha de gostar, Portugal desaponta. Ou então são os portugueses. Ou então são aqueles portugueses que dão a imagem de Portugal. Talvez assim esteja certo. Ao certo não se sabe bem o que é o país. Tem-se uma ideia ao ouvir excertos na rádio, momentos de televisão, pedaços de jornal. Julga-se que Portugal são sempre os mesmos, mas há outro, o Portugal anónimo que os suporta quando os não despreza.
Há pouco no intervalo de uma tarde de recolhimento, para desanuviar o espírito, passei os olhos pelas «breves». Parece que vai haver escândalo com a publicação das cartas que Marcelo Caetano escreveu e onde fala de Diogo Freitas do Amaral, seu dilecto discípulo.
Diogo iniciou-se na vida adulta agarrado à labita do seu mestre, como tantos outros. Se o regime político de que o professor foi Presidente do Conselho tivesse subsistido, teria sido um dos eleitos. Ele como mais uns quantos. Seguia o cursus honorum para tal. Tinha a formação, a linhagem, os credos, os tiques, a pose, a ambição. Era, em suma, um jovem promissor para um mundo prometido.
Teve o azar de o 25 de Abril o surpreender, a sorte de ser habilidoso, escapar-se em ceroulas nocturnas da alcova nupcial com o Estado Novo e dar o salto para os braços adúlteros da jovem e apetecível democracia. Muitos fizeram o mesmo. Marcelo ficou magoado, porque até no vira-casaquismo não tem que haver ingratidão nem parricídio. Quantos houve! As cartas dirão isso mesmo.
Mas é isto notícia? Não, não é. Quando a Monarquia deu em República aconteceu o mesmo. Acontece todas as vezes que a coisa não está a dar.
Há umas cartas a Marcelo Caetano que li até ao fim. Não são as que Freire Antunes publicou, não, sim as de uma mulher que o amou, editadas pela Verbo, creio eu. Ao menos nelas há humanidade, o resto é a animalidade do interesse. Volto para os meus livros. Uma noite descansada para todos.

13.10.08

A crise e a fava

A economia de mercado tem destas: a força da economia transforma-se na fraqueza dos mercados financeiros. Em caso de crise, entra o intervencionismo do Estado, à conta dos contribuintes. À lógica, que chegou a ser bandeira da UDP - «os ricos que paguem a crise» - sucede a técnica actual: os pobres que paguem as favas.

6.10.08

O ilusionismo, essa bela arte de viver

Houve tempos em que as pessoas ficavam um dia inteiro em casa e o telefone mal retinia. Hoje os telefones não retinem, cantam e gargarejam e ninguém está em casa salvo excepções. Houve tempos em que, a horas combinadas, um vulto feminino assomava, discreto, a uma janela. Hoje as janelas saltam impúdicas e chamam-se «pop up's», assim não se ponha ocupado no msn. Houve tempos em que as pessoas para se encontrarem avisavam com cartão e agradeciam com flores. Hoje está-se nessa, bora, na minha ou na tua, tanto faz.
Houve tempos em que o acto de estar era um reduto inexpugnável da individualidade, o receber uma condescendência social à civilidade, o aparecer uma forma de entretenimento para tornar todos contentes.
Era o tempo das visitas de cerimónia às famílias, do salão em que Madame pontificava, explêndida, do clube de ambiente inalado a conhaque e charuto para os cavalheiros, do chá das cinco remediado a scones entre amigas, o jantar formal em que meninos não entravam, tempos do piquenique com formigas de onde por vezes surgiam inesperados meninos.
Se calhar não houve um tempo com nada disto. Mas há um tempo em que a nostalgia de tudo isto já faz sentido, mesmo que impossível, mesmo que inaceitável, a ilusão uma arte de viver.

3.10.08

Uma manhã de aflição

O carro tinha de ir necessariamente à revisão. Os automóveis agora só vão à revisão aos trinta mil quilómetros. Um dia destes já nem vão: compram-se e passado uns milhares de quilómetros vão à inspecção, chumbam e entram directamente na sucata. Li um dia, sei lá agora onde, a nostalgia do tempo em que se fabricavam automóveis e não electro-domésticos auto-motorizados. A minha mãe dizia que o do meu avô até jarras tinha e cortinas.
O carro veio da revisão. Vinha lindo, brilhante, senhorial. Na conta explicavam que tinha sido lavado. Uma lavagem VIP, diziam: noventa e cinco euros de lavagem, à mão desarmada.
O carro está escondido agora na garagem. Tenho receio de metê-lo à estrada, ao pó que manchará o capot, aos insectos que se esborracharão no pára-brisas, à água que enlameará os pneus. Noventa e cinco euros de aflição esta manhã. Olho para a janela apavorado com a ideia que pode chover. E se eu fosse de comboio?

24.9.08

Portugueses, e o amor?

Não é diletantismo, mas deixei de estar a par de assuntos correntes. Há factos, porém, que despertam uma qualquer campainha no portão da atenção. Assim sucedeu este começo de manhã, porque o meu despertador se enganou nas horas e não viu que ainda era de noite.
Acordado que estava, fui fazer o que não fazia há muito, ver a imprensa on line. Sob o título «Mortes superam os nascimentos» o Diário de Notícias dava conta do que é a inversão da razão demográfica, o que «em termos técnicos, significa que a nossa taxa de crescimento natural é negativa (-0,01%)».
Ora um homem acorda com a doçura de um despertador, lê o DN e obviamente precipita-se para o lugar onde despertou com o dever social e patriótico de fazer gente.
Com uma notícia destas, nasce pela certa um movimento cívico, uma outra esperança nova! Portuguesas e Portugueses, hoje, amanhã e sempre, que os vossos serões tenham um destino! A oficial RTP que mude a programação, já não cantando loas noticiososas à senhora governação, mas entre a seguir ao jantar com filmes animadores, educativos, de bolinha no canto do écran, instigando ao acto. Recolhidas mais cedo as criancinhas, entre suspiros de alegria, os papás de Portugal, antes de se virarem as costas, darão novos mundos ao mundo.
Há só um particular que pode dar confusão. Diz o jornal que já foi o de Augusto de Castro e de José Saramago: «Portugal já hoje cresce à custa dos imigrantes, sobretudo africanos. Em 2007, a percentagem de filhos nascidos de casais mistos foi de 11,8%, mais três pontos que em 2002» e a propósito subtitula: «Mais velhos, mais escuros». Atenção, pois! Quando estiverem no auge do amplexo criador, quase em vias de lançar no ventre vivificador as sementes de novos lusitanos, acendam a luz. O DN agradece. Entretanto aqui fica o meu contributo musical, só para criar ambiente.

9.9.08

Angola a votos

Nasci em Angola, mas perdi o contacto com aquela minha terra. Os horrores da guerra conheci-os em 1961, por terem começado na Baixa de Cassange e eu morar em Malanje. Lembro-me da chegada dos primeiros caçadores especiais, lembro os belgas em fuga, lembro as primeiras matanças, de um lado e do outro. Talvez tenha sofrido relativamente pouco, apenas o terror, as noites espavoridas, nunca vi a violência diante dos olhos, apenas dentro da cabeça. Cada vez aprendo mais que nunca as nossas dores são tantas quanto as dos que verdadeiramente sofrem. É uma imodéstia do eu julgarmo-nos doridos.
Mas não era sobre isto que queria escrever, sim sobre ter ouvido há uns dias, na rádio, a deputada europeia Ana Gomes a vociferar contra o modo como haviam decorrido as eleições em Angola e ter ouvido, acho que um dia depois, a representante da Eurolândia e mais um pouco toda a gente, incluindo o nosso Presidente da República, a cumprimentar José Eduardo dos Santos pelo exemplo de democracia e de Ana Gomes não ter ouvido mais nada. Ana Gomes tem um blog onde tem escrito agora apenas Vital Moreira. O seu último post foi a cumprimentar Paulo Pedroso, o anterior sobre «a lasca do Alasca». Está aqui. Tudo isto que eu escrevo talvez faça sentido. É de facto triste que faça.

31.8.08

Um café para seis

A Lisboa pelintra, a Lisboa dos parvenus, a Lisboa do vale mais parecer tem os seus cronistas e invade a melhor literatura de costumes. Encontramo-la no Fialho de Almeida e no Eça. Toda ela está no Gervásio Lobato e no Armando Ferreira. No Leitão de Barros. É uma Lisboa que se alimenta a açúcar em vez de bife, por se ter esgotado o cartão de crédito, é a Lisboa das imposturices de personalidade em prol de um bom engate, a Lisboa de uma passagem pela cama na noite de sexta-feira que segunda-feira já acabou ó tu como é que disseste que te chamavas. Estamos já na segunda-geração e na terceira geração da família Piranga e da sua trupe.
E depois há os literatos decadentes, unidos em gangs, felinos de dentuça afiada em luta pelo território de uma consagração. E há as meninas com um palminho de cara e os meninos com um palminho de corpo, vindos do anonimato, em busca da glória e da fama na arte, na moda ou na TV, entre as estonteantes luzes do estrelato decadente, libidinoso velho e predador. A Lisboa ociosa, a estafar o resto do que ainda sobra da herança dos tios e do subsídio que há-de vir, a Lisboa chula sustentada, a Lisboa fadista fina, enfastiada de tédio e enojada do próprio brasão, fazendo de proletária e fingindo-se plebeia, em ré menor, a do fado corrido na viela do expediente, do calote pé descalço e da falperra afidalgada.
Sob toda esta Lisboa, há a Lisboa marçana, da mercearia de bairro à espera da misericórdia da ASAE que lhe dê o golpe da eutanásia, a Lisboa funcionária, a que sobreviveu ao quadro de adidos e à pré-reforma e ao quadro de excedentes e aos ministros novos cheios de velhas ideias inovadoras. A Lisboa dos africanos e a dos eslavos e a dos vindos dos Brasis, que limpa e constrói e sorri e serve numa Lisboa suja, a destruir-se e que perdeu a capacidade de rir.
Lembrei-me disto tudo esta manhã quando, a rebentar de dores de cabeça, me assaltava, obsessivamente como os latejos de uma nojenta enxaqueca, a frase explêndida do António Ferro - ai! ó chuis do politicamente correcto, flics do que se pode dizer, quem eu fui citar! - a frase explêndida do António Ferro, dizia, na sua crónica sobre o café Martinho, o da Arcada, o do Pessoa, esse «onde o Ponce Leão, filho, portanto o Kronprinz, pede, de mistura com a morte dos empresários que não lhe aceitam as peças, um café para seis quando não é para oito...».
É a Lisboa eterna, a que disfarça em dieta o não haver já sequer para a paparoca, a Lisboa que pouco trabuca e que nada manduca, a Lisboa que dá ganas de vomitar. E vomitei mesmo, convicta e revoltadamente.

30.8.08

Poesia higiénica

No número de Janeiro/Junho de 2002 da revista Colóquio, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, vem, a propósito de Tomaz de Figueiredo – e em oneroso fac-simile – um chamado poema que ele dedicou ao último Presidente do Conselho de Ministros antes do 25 de Abril.
Uns excertos bastam para se aquilatar do seu fino recorte literário e subtileza poética: «apoiaste o reviralho, ó meu cara de trabalho, aumentaste a confusão”, “Marcelo, mar de marmelo, marmelada de chinelo”; “Marcelo Alves José, lava a cara no bidé, onde hás-de lavá-la tu”; “depois da posta mamada, pão as mamas da criada [?], vai servir o comunismo, Marcelo José cinismo».
Um naco destes, só mesmo em extra-texto, para lhe dar realce, pois claro!
Só que, se me permitem, há uma pequena falha tipográfica. É que ele há «poemas» que ficariam melhor se impressos em papel absorvente e picotado. É o caso deste.
Arte e poesia sim, mas no caso para estarem sempre mas sempre ao serviço das necessidades essenciais do povo português! E por isso o papel higiénico ajuda.

29.8.08

O Fisco e as capelas

Na Igreja Católica a indulgência é a remissão dos pecados em contrapartida de - .
Ora o problema está precisamente no de.
Há indulgências plenárias perpétuas e que se aplicam inclusivamente a mortos, como se pode ver aqui. Morto no Purgatório pode ser resgatado para o Céu, se os vivos aceitarem o de.
Ora houve tempo em que o frade Johann Tetzel foi recrutado para viajar através dos territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. Rebelando-se contra isto Martinho Lutero abriu na Fé o fosso do Protestantismo. Foi com as 95 teses que afixou na Igreja Castelo de Winterberg no dia 1 de Outubro de 1517.
O negócio da troca do perdão das almas pecadoras por dinheiro dos outros pecadores mostrou uma Igreja mercantilizada, a salvação confundida com a pecúnia, os 30 dinheiros feitos prática litúrgica e fonte de financiamento.
Provocador e arguto, Lutero perguntava então, na sua tese 86: «Por que razão o Papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?».
Tempos idos, esses, em que a mística se impunha à conta de talha dourada e outras pompas. Hoje, em Portugal, a Nação que tem as chagas de Cristo na bandeira e Nossa Senhora de Fátima como padroeira: «O fisco tem à venda imóveis e viaturas a preços de saldo. Há até uma capela, na Nossa Senhora das Dores, em Valpaços, que vai a leilão com um preço base de nove euros e 40 cêntimos». Vem na TSF.
Os ímpios da Fazenda não perdoam. Não há indulgências plenárias para a Administração Fiscal, nem excomunhão da Santa Sé que os atrapalhe. Hereges!

19.8.08

A noite da indiferença

Uma pessoa entra na urgência do Hospital Amadora Sintra pelas 18:00, para ali transportada pelo INEM, o serviço de emergência médica. Queixa-se de uma dor no peito e de um agonia na zona do coração. Seis horas depois é, enfim, atendida por um médico, para uma observação que não chega a durar um minuto. Segue para recolha de sangue e um electrocardiograma. Feito este, diagnosticam, de súbito, um enfarte em curso há horas. A lentidão transforma-se agora em pressa, o desinteresse em preocupação: surgem, das entranhas do corredor, um monitor cardíaco, um disfribilhador, oxigénio, soro.
Essa pessoa está internada nos cuidados intensivos. Tem 85 anos de idade.
Seis horas depois de ter entrado na urgência hospitalar, a urgência viu que, afinal, era urgente.
Podia ser a história de toda a gente que tem a desgraça de nascer em Portugal e de acreditar nas reformas do Serviço Nacional de Saúde. No caso é a minha mãe.
Quando pelas onze e meia fui saber o que se passava, uma feroz funcionária atendia aos rompantes uma jovem mãe, negra, o filhito ao colo assustado sem saber que para além do medo que sentia, deveria ter medo, sim, mas do lugar onde estava. No corredor dois médicos conversavam tranquilos, a longa noite da indiferença prosseguia o seu ritmo.

9.8.08

O pecado da vaidade

Vim no comboio a ler, porque é isso que os comboios têm de bom o permitirem ler, um livro auto-biográfico do Serafim Ferreira, editor. É um inventário das grandezas e misérias dos que arriscaram o tempo, o dinheiro e a paciência no mercado dos livros. Quase nenhumas das histórias acaba bem, mas algumas proprocionam momenos irónicos. Uma é a do tipógrafo Manuel Rodrigues que em 1927 criou a Editorial Minerva, sob cuja chancela saíu o Borda de Água, e tantos outros.
Mas dizia eu, por falar em ironia, que o Serafim Ferreira conta, a propósito da Minerva, que esta editora: «publicou alguns autores portugueses e de todos eles o mais lembrado deve ser hoje o livro de estreia literária de José Saramago que foi A Terra do Pecado, saído em mil novecentos e quarenta e sete e o autor de Levantado do Chão dele se arrependera, porque o retirou da sua bibliografia e só lá o encaixou passado muito tempo para assim poder justificar as celebrações de cinquenta anos de actividade literária». Pois é.
É de rir! Ou de chorar?

8.8.08

Parece um cartoon, mas é um cartão

Finalmente a insistência dos que se preocupam comigo venceu: decidi-me a ter um cartão do Serviço Nacional de Saúde.
Lá fui, pela manhã, ao centro de saúde da minha residência. Um sorriso de amabillidade esperava-me. Só que tinha-me esquecido da prova de residência. O cartão de eleitor não chegava. Um recibo comprovativo de que pagava eletricidade, sim. Fui buscar. Há dias em que um homem tem toda a paciência do mundo quanto às suas insuficiências de identificação. Voltei para encontrar o mesmo sorriso e muita eficiência. Num ápice estavam os meus dados introduzidos no sistema. Depois perguntaram pelo meu regime de segurança social. Ora eu acho que não tenho regime nenhum. Mostrei, a medo, o cartão de beneficiário da Caixa de Previdência dos Advogados. Não servia. «Mas deixe que fica em branco». Concordei. Afinal nesse campo estava, de facto, em branco. E a amabilidade dera em compreensão e eu não queria atrapalhar por uma questão de regime.
Funcionou, então, rápida, a impressora. «Aqui tem, é o provisório, tem de andar sempre com ele. Depois virá o definitivo». «Ah!» respondi, ao olhar para uma folha em A4 que era difícil que me coubesse na carteira. «E o outro, quando vem?», arrisquei. «O definitivo? Cerca de três anos».
«Três meses...», tentei, inseguro, corrigir. «Não, não. Três anos!».
Foi esta sexta-feira, em Lisboa.
O cartão definitivo, note-se, é um pedaço de plástico, onde estão os dados que aquele computador tinha aceite e impresso em papel. Leva três anos a imprimir!
Dado que a legislatura vai durar menos do que o cartão, não se poderá fechar, entretanto, o Ministério da Saúde, ou lá como é que se chama, ou para obras ou para nova gerência, ou criar um Secretário de Estado para a Plastificação?

1.8.08

Pois olhem, à pata!

O caso de José Sá Fernandes é a última das desilusões para os últimos dos inocentes.
Primeiro, vimo-lo paladino de causas cívicas. Muitos julgaram-no o advogado dos sem-abrigo na política, o defensor impoluto contra o meio ambiente poluído, o combatente vermelho pelo que é verde, em suma, o cavaleiro andante da moralidade pública.
Depois, vimo-lo político e as pessoas desconfiaram se a defesa de tudo aquilo, do verde ao vermelho, não era o ataque a um lugar, uma conduta de amarelo.
Durante pouco tempo durou a dúvida.
José Sá Fernandes começou iracundo na barricada do Bloco de Esquerda, num fósforo ei-lo em intimidades suaves com o partido do Governo, o do menino de ouro.
No princípio José Sá Fernandes falava muito, alto e grosso; agora pia muito fininho, se é que pia.
Para os poucos crentes nos partidos burgueses, percam definitivamente as ilusões; o radicalismo burguês de fachada socialista dá nisto: o meu reino por um cavalo, para já de preferência a mula do poder.
Só que há um senão futuro: é que ajoujada com tantos arrivistas, um dia a besta alimária que a palha da Fazenda Nacional alimenta, ajoelha de exangue. Nesse dia, tudo como dante: os apeados mudam de montada, à falta de corcel, vai-se de burro, que à pata é que ninguém quer.