18.2.09

Portugal me mata

O país de brando costumes transformou-se, agora na escala dos que têm maior taxa de homicídios na Europa Ocidental, num país de bando e curtumes.
Portugal é um país de suicidas escreveu Unamuno, amigo de Manuel Laranjeira, suicida também. Portugal é um país de homicidas escreveria hoje o pobre viajante.
O fado anavalhado transformou esta raça de deprimidos em casta de enraivecidos.
Claro que há os estrangeiros aqui emigrados. Não fui ver as estatísticas para concluir quem mata mais. Complexado como é, o português ficaria pesaroso se, até no matar o outro, não fossemos os primeiros, mesmo que pelas últimas razões. O português julga-se o melhor e pensa de si o pior. Quando não morre de desgosto mata de raiva.

11.2.09

A torradeira da Obama

A ânsia de esperança dá na facilidade da desilusão. Está a suceder isso, rapidamente, com o presidente dos EUA. Esta madrugada a Agência Financeira titulava: «Wall Street fecha muito desanimada com Plano Obama».
No capitalismo, a bolsa de valores, é o boudoir dos sentimentos. A falta de crença traduz-se logo em dinheiro, a euforia em riqueza. É um sistema que sente no bolso.
Claro que estamos a entrar num túnel de imprevisível saída. Segundo reporta a TSF esta noite: a «Nike vai despedir cerca de 1400 pessoas em todo o mundo»
A Nike, como se sabe, nasceu através de um treinador de atletismo universitário, Bill Bowerman e o seu sócio Phil Knight, que «efectuaram várias experiências com a torradeira elétrica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha a fim de descobrir uma sola melhor adaptativa à performance desportiva e ao bem estar».
A Casa Branca ensaia também, agora com a sua nova torradeira eléctrica. A Europa espera ansiosa, em Portugal a laracha da propaganda e da demagogia desfaz-se em ilusões funestas, convencendo-se no que não acredita.

8.2.09

Nobres metais

A rua é larga e cruza a Avenida da República. Quase na esquina, serpenteando entre os automóveis que param ante os semáforos, ei-lo. Tem dia certo. É sempre aos domingos de tarde. No Inverno veste uma samarra com gola de pele. Tem um aspecto cuidado, um toque de camponês em Lisboa, mas dos camponeses que são a senhoria das aldeias. Não fala. Estende as mãos, em cada uma pendente um saquinho em plástico contendo o que oferece: bolacha americana. Muito de vez em quando há quem compre. Indiferente ao seu magro comércio, este homem, perdido no tempo, numa Lisboa já estranha e mais estranha ainda porque domingueira, prossegue o seu bailado, volteando, ágil, refugiando-se no passeio à iminência do sinal verde. Hoje, pois chovia, tinha uma mão ocupada com um elegante guarda-chuva. Na outra, esperançados em que alguém os levasse, dois sacos, quais aves presas pelas patas aguardando freguês, reluziam à morrinha que o fim de tarde tornava prata, a ornar aquele coração de ouro.

1.2.09

O fungagá da bicharada

Quando esta manhã chovia que até fumegava, quando há pouco vi na meteorologia que ia continuar a chover, lembrei-me que aqui há uns tempos os futurólogos previam a desertificação de Portugal. Levando-os a sério, imaginava então um país sequioso, coberto de cactos e povoado de camelos. Não errei totalmente nessa minha fantasmagoria. Falhei sim, porque acreditei nesses fautores de possíveis apenas porque afinal chove que os cães a bebem em pé. Zoologicamente sempre faz a sua diferença, convenhamos.

20.1.09

A Xica

Antigamente escreviam-se cartas que seguiam pela mala postal do próximo vapor. Quando era muito urgente telegrafava-se.
Antigamente os sentimentos cumpriam o horários dos paquetes, dos comboios, dos correios.
Antigamente a hora de chegada do carteiro era o momento mais ansiado, mais odiado do dia.
Antigamente o abrir de um envelope era o instante do aperto do coração.
Antigamente escrevia-se em papel de carta muito fino para cada missiva não pesar mais, às vezes aproveitando o verso e o reverso da ténue folhinha.
Antigamente os que não escreviam, aproveitavam um canto final do que estava livre para acrescentarem os beijinhos, os abraços, os xis, as recomendações de todos os que se associavam de modo breve ao acto de se ter escrito.
Antigamente algumas cartas traziam fotografias, sujeitas à curiosidade, outras notas de banco escondidas, com risco de extravio.
Antigamente havia cartas perfumadas, cartas tarjadas de negro, cartas comerciais com facturas e outros efeitos na praça.
Hoje temos a internet e com ela o estarmos instantaneamente a toda a hora e por toda a forma em todo o lado.
Quando a rede falha e estamos longe, sentimo-nos abandonados à nossa sorte. Nem um aerograma, ao menos, em correio aéreo, nós por cá todos bem, saudades à mamã, à Xica e aos meninos...

19.1.09

Haja Deus

Claro que há a pobreza e a desordem e o desnível social. Há sobretudo a ideia de que o ser humano aqui arrisca muito por tão pouco, todos os dias, porque cada dia é uma aventura. Mas há a tabuleta de letras em amarelo, um toque mais de cor berrante entre filas desordenadas de barracas, lugares de habitação, de comércio, de tantas formas pelas quais se sobrevive, sob o calor e o pó: «Cabeleireiro Deus É Pai!». Dentro fazem-se prodígios de ondulação, maravilhas em madeixas. No momento em que passei, vinha o requebro de franjinha. Ria-se ela e ria-se em redor a Natureza, com tudo o que de humano aqui nela se inclui.
Nunca o meu pouco cabelo se sentiu tão só.

17.1.09

Os telhados de zinco

Nasci em Malanje. Quando a guerra começou na Baixa do Cassanje eu estava em Malanje. Vivi a chegada dos primeiros caçadores especiais, as primeiras imagens das chacinas, o ambos os lados da violência. À noite as mangas a cairem, pesadas de tão maduras nos telhados de zinco, pareciam tiros de canhangulos. Depois arrancaram os olhos a um taberneiro perto, chacinaram a metralhadora pela noite na ponte do rio Cuanza. O meu pai comprou uma espingarda 22 Long e seiscentas balas. Um dia acordei abraçado a ela, transido de medo.
Lembro isto porque de link em link, que os amigos mandam, vi imagens.
Passou por cima de nós a asa do avião, numa tarde de sábado, como hoje, a improvisada pista do campo de aviação, o chão esburacado, o risco iminente, o carro do meu pai e tantos outros a ladearem a pista, os faróis em oblíquo, para iluminarem o local da aterragem. Era escuro já. Murmurava-se que o Nordatlas trazia armamento para o quartel. Este Nordatlas. Ainda hoje guardo na memória o roncar dos motores.

16.1.09

A lindinha

Ouvia distraído rádio quando ele, futebolista, falava. Acho que tinha vindo de África ou do Brasil, esse pormenor não retive, mas tinha aquele entusiasmo tropical e, pelos vistos, aquela habilidade natural para dar pontapés e correr atrás de um bola que fazia dele e tantos iguais heróis de culto e figuras de luxo, pagos a ouro.
Vim aqui escrever porque, ao tentar dizer, numa frase só qual o seu grande objectivo em campo, aquela missão que dava a todos os seus músculos um fito e lhe povoava a cabeça de ideias tácticas fazendo de cada corrrida um propósito, de cada finta um instrumento, de cada remate uma apotesose, explicava que a ideia era «meter a lindinha lá dentro».
Rejubilei! Revi-me em êxtase, o estádio da vida em pé, eu, glorioso, olímpico, sumamente viril, a lindinha lá dentro.

14.1.09

O coveiro e o covil

Não resisto!
Chegou por várias fontes.
Circulará já na Net.
Mas aqui vai!
No aviso nº 11 466/2008 (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J. para um cargo de assessor, cujo vencimento anda à roda de 3500 euros. Na alínea 7 do dito aviso consigna-se que o método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na apreciação e discussão do currículo profissional do candidato.
Pois bem.
No aviso da pág. 26922, oriundo da Câmara Municipal de Lisboa anuncia-se concurso externo de ingresso para coveiro, cujo vencimento anda à roda de 450 euros mensais.
Ora o método de selecção neste caso é outro.
Primeiro, prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças;3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Além disso, claro, conhecimentos de transporte e remoção de restos mortais.
No final, exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato, não vá, claro, os mortos candidatarem-se.
Bem se ria o falecido Fernando Luso Soares num dos seus livros o Vontade de Ser Ministro, quando fantasiava, no quadro do antigo regime, com a história de um candidato a cargo por perbenda das senhoras autoridades e figuras gradas, que, ansioso por ser ministro, se viu convencido de que o lugar de inspector dos cemitérios era, na outra senhora, um dos lugares de maior importância política, sabido que os empedernidos e pertinazes reviralhiastas não perdiam pitada para armar motim no Alto de São João com discursatas republicanas, nos Prazeres com efemérides democráticas e por onde calhavam a pretexto de sepulcro lançar a simbólica de ornamentações amaçonadas e aventaleiras, que isto a pedreiragem, ademais jacobina e anti-talassa, tem artes de dianho.

12.1.09

O monumento à desumanidade

Há uma estação ferroviária que se chama Gare de Oriente. É um local inamistoso, em que um imenso pé direito simboliza a opressão de um céu de cimento, onde os grandes átrios são desertos gélidos para solitários viandantes. Acantonadas nos esconsos, como se escondidas de gente, bichos na floresta de betão, umas lojecas tristes, vendem sensaborias, algumas tragáveis como refeições.
Quem desenhou aquilo odiava comboios, tinha repugnância por viagens, rancor de todos os que são passageiros. Arquitecto da desolação fez ali o monumento à desumanidade.
Há a oriente de Lisboa e a Sul de Chelas um sarcófago por cima do qual passam comboios, nas tripas do qual passa o metropolitano, onde nos labirintos intermédios se atulham automóveis e nos entrefolhos urinados do qual estive eu e outros ensonados para a composição das sete e nove.
Na plataforma fazia frio. Quando não faz frio faz vento. Vindo de Auschwitz, os vagões entraram no horário, a caminho dos fornos crematórios das vidas queimadas a trabalhar. Alguns na ilusão da primeira classe.

7.1.09

Risco coberto

O meu pai costumava dizer que havia duas coisas de que não tencionava morrer, uma de susto, outra de parto.
Eu, naquela fase em que a virilidade se afirmava e com ela o gosto de exibir audácia, adorava repetir a graça. Depois foi ficando a piadinha, mesmo quando a masculinidade não precisava de demonstrações verbais.
Estava tudo muito certo até ter atentado no que me trouxe hoje o correio. Uma companhia de seguros, que cobre o meu futuro cadáver e a quem pago para gozo daqueles a quem o meu ser cadaveroso aproveite, explica-me, numa cartinha assinada por dois administradores que, entre outras coisas, me garante por apólice ressarcir do risco de parto. Isso mesmo.
Fico-me pois pelo susto. Ou melhor, já não fico.
De ora em diante vou precaver-me a sério, porque pior do que um parto de alto risco ainda é uma gravidez indesejada. E essa não sei se a seguradora, na hora do néné, não se tenta escapulir, entre as letras miudinhas, escrita a corpo oito.
Ele há coisas que nos seguram sem que um cristão saiba por onde!

28.12.08

Os livrinhos no sapatinho

Acabou o Natal e muitas crianças receberam livrinhos de Natal. E por serem crianças receberam livrinhos ditos para crianças, muitos que os amáveis ofertantes nem leram. Mas se lessem viam quantos eram livrinhos de papás, pépés, pipis, pópós e de pupús e não é a Cartilha Maternal de João de Deus de que falo. Livros para oligofrénicos.
Claro que as mesmas crianças receberam também em muitos casos jogos vídeos de uma inaudita violência, a morte ao alcance de um joystick, o sangue quase a jorrar do écran para o sofá.
Ora está na Fundação Gulbenkian uma interessante exposição em que logo no princípio se edita um explosivo texto do Fernando Pessoa sobre um livro do Afonso Lopes Vieira dedicado a crianças, O Naufrágio de Bartolomeu (Dias).
É uma defesa feroz da inteligência em nome das crianças, contra a idiotia dos adultos. Um texto zangado, porque Pessoa quando se irritava dragonizava-se, serpente alada, o mundo por debaixo em labaredas.
A ideia central da crítica é esta: «Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de cousas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser».
E isto porque, segundo Pessoa, «escrever como uma criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve ou não se publica ou se publica para adultos, psicólogos». Pelo que pergunta e bem: «E que interesse tem para crianças esta baba pedagógica?».
Ora aí está o que deveriam pensar muitos dos que idiotizam dentro de si a ideia de criança para escreverem para o lado idiota que em si julgam ser o de criança. Mais os ofertantes de livros imbecis para crianças tratadas como se fossem leitores de imbecilidades.
A sorte de muitos escritores e ofertantes é não haver hoje um Pessoa que escreva assim: «O Sr. Lopes Vieira é um criminoso. É-o por três razões. Está estragando, com o seu gato-por-lebre de simplicidade, o rudimentar senso estético de crianças, que, mesmo que sejam só duas, são classificáveis de inúmeras, ante o horror do crime. - Está tornando ridículos assuntos que conviria tratar com uma decência que a estupidez, mesmo quando involuntária, nunca tem. Pobres cães nossos amigos tinhosos de Lopes Vieira. Pobre Bartolomeu Dias, tão embobecido de pedagogias! - E, por último, para tudo de nocivo ser, o Sr. Lopes Vieira é até antipedagógico, porque quem escreve merece uma inquisição de professores».
Não sei como reagiu Vieira a Pessoa. «E visto que estes livros para crianças são o seu sono, bem se pode dizer que dorme como uma besta», atirou-lhe o autor da Mensagem. Em São Pedro de Muel o delicado Vieira, pai de País Lilás, Desterro Azul, só pode ter acordado sim, mas estremunhado.

27.12.08

Em palpos de aranha

Já era tarde mas ainda consegui ler antes de dormir aquele conto magnífico do Machado de Assis - e que arte difícil é dizer tanto num conto - que se chama A Sereníssima República. Já o tinha lido, varrera-se-me da memória. Foram os sublinhados que me fizeram recordar que jab andou por aqui e num livro que tem contos que outro livro, antológico, republica, em melhor papel e mais cuidada tipografia. Mas que importa! Li e voltei a ler!
O conto tem um arranque desconcertante, o de um homem que, por saber que um sábio inglês havia descoberto «a linguagem fónica dos insectos» - aqui começa o riso - , resolveu tornar pública, nas colunas de um jornal, a sua magnífica descoberta, a do «idioma aracneida», uma língua de aranhas que estava «gramaticando» - ah! a beleza em risota destes gerúndios ... - para uso das academias. Gozação total!
Só que, começando assim, tão prometedoramente e parodiando tudo, como ao citar uma inventada monografia de Büchner sobre «a vida psíquica dos animais» - são risadas sobre risadas ante um mundo tão surreal - , o conto dá de súbito uma guinada e entra na parte em que se organiza, em analogia com a república de Veneza, um regime governamental para as aranhas.
O leitor leva uma barrigada - olhem para esta palavra «barrigada», ela mesmo uma cólica em gargalhada! - quando Assis apresenta os partidos dessa comunidade das araneomórficas tecelãs de fios de seda. É que, como elas são geómetras - atente-se na estética ds teias, na simetria dos seus alinhados filamentos, na precisão matemática da moldura - nos partidos de governo é a geometria quem divide e separa.
Ideia genial! Na política das aranhas «uns entendem que as aranhas devem fazer as teias com fios rectos; é o partido rectilíneo; - outros pensam, ao contrário, que que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: as teias devem ser urdidas de fios rectos e com fios curvos; é o partido recto-curvilíneo».
Achámos a melhor designação para os do bloco central que entre nós ainda discutem se são mesmo socialistas, se sociais-democratas, ou um bocadinho das duas e afinal coisa nenhuma disso. São os recto-curvilíneos!

25.12.08

A miséria da televisão

Ontem à noite ao fechar o telejornal José Rodrigues dos Santos disse «se sente solidão, nós estamos aqui». Nós a RTP.
Um pouco antes tinha passado um dos momentos mais burlescos e ridículos que é possível ver-se em televisão, um concurso chamado o preço certo, espectáculo degradante em que adultos se transformam em crianças patetas, em que a única ideia é ganhar ganhar, a única conversa é quanto custa, quanto custa e tudo com muitos risos idiotas e muitos gritinhos histérios e saltinhos e ademanes, sem nexo nem propósito, uma paródia triste a macaquear emoção.
Durante o telejornal as reportagens sucediam-se, a puxarem ao sentimento, sobre a crise, e a falta de dinheiro e os pobrezinhos e os sem abrigo e o preço dos brinquedos e do que se come. Reportagens ocas, notícias de nada, informações de coisa nenhuma, apenas imagens a esmo e textos pindéricos. E José Rodrigues dos Santos fazia esgares e boquinhas a pontuar textos que legendavam com mais mediocridade ainda uma noite de televisão medíocre.
Foi no meio disto que ele surgiu. Barba crescida, roupa maltratada, a imagem do abandono.A ideia era mostrar que há pobreza e abandono. Que fazia ele na noite de Natal? Metia-se na cama. E ligava a televisão.
Compreende-se. Já que se vive na miséria, que nela se continue. Vê-se a RTP. Na noite de Natal.
Uma tristeza. É preciso não se ter vergonha na cara para oferecer esta degradação televisiva ao país e julgar que se faz serviço público: a penúria, o baixo nível, a pobreza, a ganância dos remediados, tudo feito farsa barata, mau entretenimento, péssima informação.

14.12.08

A idade da inocência

Rosselini, o da dolorosa Roma, Cidade Aberta, escreveu que as pessoas só sabem viver em sociedade onde há leis, não em comunidade onde há amor. Ouvi a frase no extraordinário documentário de Martin Scorsese sobre o cinema italiano. Só que alguns nem isso sabem. São os que nunca souberam viver. Ao olharem para trás o mundo é um vazio, a Pátria distante, o Lar despedaçado.

O reino dos animais

Insuportáveis, em número e em insolência, crocitantes criaturinhas, indigestos homúnculos, ei-los que chegam, em bando, ataviados em trajes já com halo a Natal, arrastando os indolentes pais e os contemplativos avós. Atroam os ares com guinchos, a alta voz é a forma de se fazerem ouvir.
São o produto infestante da passividade molenga os seus jovens progenitores, a eles submissos e ao resto indiferentes.
Correm e correm em demencial gincana, a invasão dos liliputes, atropelando cadeiras, em encontrões à minha tentativa de deles me abstrair. A meu lado um, pois os mais velhos da sua mesa conversavam vulgaridades, dele ausentes, dava palmadas rudes no tampo da mesa, fazendo desse tambor ritmo a pontuar uivos estridentes a mandá-los calar. Sem sucesso, porém, mas a minha gana de o esganar a crecer como um tornado na minha desértica alma, esta manhã, ansioso de a cevar nele ou noutro tanto pior que se rojava pelo chão como louco possesso e a maninha embevecida saltando a macaca, tudo em rodilhas, os meus nervos desfeitos.
Têm todos nomes que de quererem ser invulgares se tornaram comuns, irmana-os o chic da selvajaria de quem sente o mundo todo como casa sua, a paciência alheia um infinito inesgotável.
Rendi-me. À saída, a cabeça num volteio, cruzo-me com mais, novas hordas, aparelhados às famílias que ao meio dia e meia tomam o pequeno almoço porque ao sábado a comida é pelas quatro e ao jantar fica-se pelo cházinho e meias torradas.
Esfaimado de virulência insatisfeita lancei-me jardim fora em busca de paz. Um pouco adiante uma pata, tranquila e meiga, debicava na terra para os seus emplumados cuá-cuás, de serena amabilidade, aprenderem a comer. Era a pacata hora de almoço no reino dos animais.

10.12.08

Direitos humanos

As efemérides pelos Direitos Humanos correm o risco de ser um momento de intervalo no seu sistemático desrespeito e na sua sistemática indiferença. Hoje comemora-se o dia da Declaração Universal.
No imaginário dos juristas associam-se os direitos às liberdades, estas às garantias. Fosse esse o problema e já era penoso.
A questão surge quando a noção de direitos humanos, no seu conteúdo essencial, começa a incorporar os direitos sem os quais a vida não é possível, o quotidiano em que a liberdade se troca pela servidão, ao preço de um prato de sopa.

A remissão dos pecados

Um artigo na revista alemã Spiegel dá conta do facto de na cidade de Wittenberg, onde o monje Martinho Luter, fez há 500 anos a proclamação das suas Teses contra as indulgências da Igreja de Roma, pregando-as corajosamente na porta da Igreja local, haver hoje apenas dez por cento de protestantes.
Mas o artigo diz mais: que os restaurante locais servem um menu Lutero e há também pão Lutero, cerveja Lutero e não sei que mais de Lutero à venda.
Oficialmente a cidade é conhecida pelos alemães como a Lutherstadt, a cidade de Lutero. Percebe-se porquê. O comércio, sobretudo, entende-se muito bem com a ideia. A História é cruel.

4.12.08

Uma piada de morte!

Passeio nocturno, em piso chuviscoso, fora do meu habitat residencial. Vistas, a uma e uma, as casas, sob o sossego esclarecedor da noite, nota-se aqui a invulgar arquitectura e seu recorte modernista, além a degradação à espera de melhores rendas, mais adiante a curiosidade doméstica de uma janela, o insólito de uma montra e a garridice de suas cores.
Ora foi precisamente por ver montras, hábito alfacinha que os lisboetas contemporâneos perderam, que dei por ela: uma agência funerária, com tudo o que uma agência funerária pressupõe e exige, incluindo os telefones vinte e quatro horas por dia, que há muito quem morra a horas mortas, mais as imagens de santos e santinhos, Cristos e Senhoras de Fátima e, claro, porque a religiosidade lisboeta é forte, do Doutor Sousa Martins. Que não me lembro ter visto o Sidónio Pais, mas estava em espírito, pela certa.
Mas o apropósito deste post foi a magnífica surpresa que me reservava o canto escondido da montra. Encostados ao vidro, numa ala avançada de objectos de culto na base do vende-se aqui, ei-los. Eram odores ou essências, ou o que sejam de perfumados, para atrair clientela. Chamavam-se «chama freguês«.
Por um instante a minha alma abanou num tremor de espanta fantasmas, t'arrenego vital face àquela aparição chamativa! «Chama freguês» em montra de agência funerária. Apre!

2.12.08

Publicidade enganosa

Sai-se da auto-estrada onde a lei diz que se deve ir a não mais do que cento e vinte, mas na qual, parece haver tolerância até aos cento e quarenta. Entra-se, por inércia, no que parece ser uma via rápida. Não deve ser. Deve haver por ali, algures uma placa a dizer qualquer coisa a esse propósito. Para os que não repararem está lá de vez em quando a polícia. Desta vez, azar. estava mesmo. «Boa noite, senhor doutor. Documentos pessoais e da viatura, se faz favor». «Já sei. Vi o flash.Ia em excesso, calculo». «Pois. Ia a oitenta e quatro quilómetros». «Seja. Pago a multa». «São cento e vinte euros, senhor José. Quer coima ou depósito?». «Tanto faz, não quero reclamar. Se os senhores dizem é porque é. Aceitam multi-banco?». «Com certeza que sim. Paga coima. Está aqui o comprovativo. Pode reclamar à mesma, querendo. Boa viagem, senhor doutor».
Cumpriu-se a lei. O senhor José deu o exemplo. Da próxima tem que ir mais atento. Olhar para os cartazes publicitários dá nisto. Afixam-nos para os vermos, a cento e vinte euros cada um. Aquele em que reparei dizia «os nossos preços são imbatíveis». Mentira! Os da Brigada de Trânsito são muito mais baratos. Estes publicitários são, de facto, uns exagerados!