3.10.08

Uma manhã de aflição

O carro tinha de ir necessariamente à revisão. Os automóveis agora só vão à revisão aos trinta mil quilómetros. Um dia destes já nem vão: compram-se e passado uns milhares de quilómetros vão à inspecção, chumbam e entram directamente na sucata. Li um dia, sei lá agora onde, a nostalgia do tempo em que se fabricavam automóveis e não electro-domésticos auto-motorizados. A minha mãe dizia que o do meu avô até jarras tinha e cortinas.
O carro veio da revisão. Vinha lindo, brilhante, senhorial. Na conta explicavam que tinha sido lavado. Uma lavagem VIP, diziam: noventa e cinco euros de lavagem, à mão desarmada.
O carro está escondido agora na garagem. Tenho receio de metê-lo à estrada, ao pó que manchará o capot, aos insectos que se esborracharão no pára-brisas, à água que enlameará os pneus. Noventa e cinco euros de aflição esta manhã. Olho para a janela apavorado com a ideia que pode chover. E se eu fosse de comboio?

24.9.08

Portugueses, e o amor?

Não é diletantismo, mas deixei de estar a par de assuntos correntes. Há factos, porém, que despertam uma qualquer campainha no portão da atenção. Assim sucedeu este começo de manhã, porque o meu despertador se enganou nas horas e não viu que ainda era de noite.
Acordado que estava, fui fazer o que não fazia há muito, ver a imprensa on line. Sob o título «Mortes superam os nascimentos» o Diário de Notícias dava conta do que é a inversão da razão demográfica, o que «em termos técnicos, significa que a nossa taxa de crescimento natural é negativa (-0,01%)».
Ora um homem acorda com a doçura de um despertador, lê o DN e obviamente precipita-se para o lugar onde despertou com o dever social e patriótico de fazer gente.
Com uma notícia destas, nasce pela certa um movimento cívico, uma outra esperança nova! Portuguesas e Portugueses, hoje, amanhã e sempre, que os vossos serões tenham um destino! A oficial RTP que mude a programação, já não cantando loas noticiososas à senhora governação, mas entre a seguir ao jantar com filmes animadores, educativos, de bolinha no canto do écran, instigando ao acto. Recolhidas mais cedo as criancinhas, entre suspiros de alegria, os papás de Portugal, antes de se virarem as costas, darão novos mundos ao mundo.
Há só um particular que pode dar confusão. Diz o jornal que já foi o de Augusto de Castro e de José Saramago: «Portugal já hoje cresce à custa dos imigrantes, sobretudo africanos. Em 2007, a percentagem de filhos nascidos de casais mistos foi de 11,8%, mais três pontos que em 2002» e a propósito subtitula: «Mais velhos, mais escuros». Atenção, pois! Quando estiverem no auge do amplexo criador, quase em vias de lançar no ventre vivificador as sementes de novos lusitanos, acendam a luz. O DN agradece. Entretanto aqui fica o meu contributo musical, só para criar ambiente.

9.9.08

Angola a votos

Nasci em Angola, mas perdi o contacto com aquela minha terra. Os horrores da guerra conheci-os em 1961, por terem começado na Baixa de Cassange e eu morar em Malanje. Lembro-me da chegada dos primeiros caçadores especiais, lembro os belgas em fuga, lembro as primeiras matanças, de um lado e do outro. Talvez tenha sofrido relativamente pouco, apenas o terror, as noites espavoridas, nunca vi a violência diante dos olhos, apenas dentro da cabeça. Cada vez aprendo mais que nunca as nossas dores são tantas quanto as dos que verdadeiramente sofrem. É uma imodéstia do eu julgarmo-nos doridos.
Mas não era sobre isto que queria escrever, sim sobre ter ouvido há uns dias, na rádio, a deputada europeia Ana Gomes a vociferar contra o modo como haviam decorrido as eleições em Angola e ter ouvido, acho que um dia depois, a representante da Eurolândia e mais um pouco toda a gente, incluindo o nosso Presidente da República, a cumprimentar José Eduardo dos Santos pelo exemplo de democracia e de Ana Gomes não ter ouvido mais nada. Ana Gomes tem um blog onde tem escrito agora apenas Vital Moreira. O seu último post foi a cumprimentar Paulo Pedroso, o anterior sobre «a lasca do Alasca». Está aqui. Tudo isto que eu escrevo talvez faça sentido. É de facto triste que faça.

31.8.08

Um café para seis

A Lisboa pelintra, a Lisboa dos parvenus, a Lisboa do vale mais parecer tem os seus cronistas e invade a melhor literatura de costumes. Encontramo-la no Fialho de Almeida e no Eça. Toda ela está no Gervásio Lobato e no Armando Ferreira. No Leitão de Barros. É uma Lisboa que se alimenta a açúcar em vez de bife, por se ter esgotado o cartão de crédito, é a Lisboa das imposturices de personalidade em prol de um bom engate, a Lisboa de uma passagem pela cama na noite de sexta-feira que segunda-feira já acabou ó tu como é que disseste que te chamavas. Estamos já na segunda-geração e na terceira geração da família Piranga e da sua trupe.
E depois há os literatos decadentes, unidos em gangs, felinos de dentuça afiada em luta pelo território de uma consagração. E há as meninas com um palminho de cara e os meninos com um palminho de corpo, vindos do anonimato, em busca da glória e da fama na arte, na moda ou na TV, entre as estonteantes luzes do estrelato decadente, libidinoso velho e predador. A Lisboa ociosa, a estafar o resto do que ainda sobra da herança dos tios e do subsídio que há-de vir, a Lisboa chula sustentada, a Lisboa fadista fina, enfastiada de tédio e enojada do próprio brasão, fazendo de proletária e fingindo-se plebeia, em ré menor, a do fado corrido na viela do expediente, do calote pé descalço e da falperra afidalgada.
Sob toda esta Lisboa, há a Lisboa marçana, da mercearia de bairro à espera da misericórdia da ASAE que lhe dê o golpe da eutanásia, a Lisboa funcionária, a que sobreviveu ao quadro de adidos e à pré-reforma e ao quadro de excedentes e aos ministros novos cheios de velhas ideias inovadoras. A Lisboa dos africanos e a dos eslavos e a dos vindos dos Brasis, que limpa e constrói e sorri e serve numa Lisboa suja, a destruir-se e que perdeu a capacidade de rir.
Lembrei-me disto tudo esta manhã quando, a rebentar de dores de cabeça, me assaltava, obsessivamente como os latejos de uma nojenta enxaqueca, a frase explêndida do António Ferro - ai! ó chuis do politicamente correcto, flics do que se pode dizer, quem eu fui citar! - a frase explêndida do António Ferro, dizia, na sua crónica sobre o café Martinho, o da Arcada, o do Pessoa, esse «onde o Ponce Leão, filho, portanto o Kronprinz, pede, de mistura com a morte dos empresários que não lhe aceitam as peças, um café para seis quando não é para oito...».
É a Lisboa eterna, a que disfarça em dieta o não haver já sequer para a paparoca, a Lisboa que pouco trabuca e que nada manduca, a Lisboa que dá ganas de vomitar. E vomitei mesmo, convicta e revoltadamente.

30.8.08

Poesia higiénica

No número de Janeiro/Junho de 2002 da revista Colóquio, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, vem, a propósito de Tomaz de Figueiredo – e em oneroso fac-simile – um chamado poema que ele dedicou ao último Presidente do Conselho de Ministros antes do 25 de Abril.
Uns excertos bastam para se aquilatar do seu fino recorte literário e subtileza poética: «apoiaste o reviralho, ó meu cara de trabalho, aumentaste a confusão”, “Marcelo, mar de marmelo, marmelada de chinelo”; “Marcelo Alves José, lava a cara no bidé, onde hás-de lavá-la tu”; “depois da posta mamada, pão as mamas da criada [?], vai servir o comunismo, Marcelo José cinismo».
Um naco destes, só mesmo em extra-texto, para lhe dar realce, pois claro!
Só que, se me permitem, há uma pequena falha tipográfica. É que ele há «poemas» que ficariam melhor se impressos em papel absorvente e picotado. É o caso deste.
Arte e poesia sim, mas no caso para estarem sempre mas sempre ao serviço das necessidades essenciais do povo português! E por isso o papel higiénico ajuda.

29.8.08

O Fisco e as capelas

Na Igreja Católica a indulgência é a remissão dos pecados em contrapartida de - .
Ora o problema está precisamente no de.
Há indulgências plenárias perpétuas e que se aplicam inclusivamente a mortos, como se pode ver aqui. Morto no Purgatório pode ser resgatado para o Céu, se os vivos aceitarem o de.
Ora houve tempo em que o frade Johann Tetzel foi recrutado para viajar através dos territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro, em Roma. Rebelando-se contra isto Martinho Lutero abriu na Fé o fosso do Protestantismo. Foi com as 95 teses que afixou na Igreja Castelo de Winterberg no dia 1 de Outubro de 1517.
O negócio da troca do perdão das almas pecadoras por dinheiro dos outros pecadores mostrou uma Igreja mercantilizada, a salvação confundida com a pecúnia, os 30 dinheiros feitos prática litúrgica e fonte de financiamento.
Provocador e arguto, Lutero perguntava então, na sua tese 86: «Por que razão o Papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?».
Tempos idos, esses, em que a mística se impunha à conta de talha dourada e outras pompas. Hoje, em Portugal, a Nação que tem as chagas de Cristo na bandeira e Nossa Senhora de Fátima como padroeira: «O fisco tem à venda imóveis e viaturas a preços de saldo. Há até uma capela, na Nossa Senhora das Dores, em Valpaços, que vai a leilão com um preço base de nove euros e 40 cêntimos». Vem na TSF.
Os ímpios da Fazenda não perdoam. Não há indulgências plenárias para a Administração Fiscal, nem excomunhão da Santa Sé que os atrapalhe. Hereges!

19.8.08

A noite da indiferença

Uma pessoa entra na urgência do Hospital Amadora Sintra pelas 18:00, para ali transportada pelo INEM, o serviço de emergência médica. Queixa-se de uma dor no peito e de um agonia na zona do coração. Seis horas depois é, enfim, atendida por um médico, para uma observação que não chega a durar um minuto. Segue para recolha de sangue e um electrocardiograma. Feito este, diagnosticam, de súbito, um enfarte em curso há horas. A lentidão transforma-se agora em pressa, o desinteresse em preocupação: surgem, das entranhas do corredor, um monitor cardíaco, um disfribilhador, oxigénio, soro.
Essa pessoa está internada nos cuidados intensivos. Tem 85 anos de idade.
Seis horas depois de ter entrado na urgência hospitalar, a urgência viu que, afinal, era urgente.
Podia ser a história de toda a gente que tem a desgraça de nascer em Portugal e de acreditar nas reformas do Serviço Nacional de Saúde. No caso é a minha mãe.
Quando pelas onze e meia fui saber o que se passava, uma feroz funcionária atendia aos rompantes uma jovem mãe, negra, o filhito ao colo assustado sem saber que para além do medo que sentia, deveria ter medo, sim, mas do lugar onde estava. No corredor dois médicos conversavam tranquilos, a longa noite da indiferença prosseguia o seu ritmo.

9.8.08

O pecado da vaidade

Vim no comboio a ler, porque é isso que os comboios têm de bom o permitirem ler, um livro auto-biográfico do Serafim Ferreira, editor. É um inventário das grandezas e misérias dos que arriscaram o tempo, o dinheiro e a paciência no mercado dos livros. Quase nenhumas das histórias acaba bem, mas algumas proprocionam momenos irónicos. Uma é a do tipógrafo Manuel Rodrigues que em 1927 criou a Editorial Minerva, sob cuja chancela saíu o Borda de Água, e tantos outros.
Mas dizia eu, por falar em ironia, que o Serafim Ferreira conta, a propósito da Minerva, que esta editora: «publicou alguns autores portugueses e de todos eles o mais lembrado deve ser hoje o livro de estreia literária de José Saramago que foi A Terra do Pecado, saído em mil novecentos e quarenta e sete e o autor de Levantado do Chão dele se arrependera, porque o retirou da sua bibliografia e só lá o encaixou passado muito tempo para assim poder justificar as celebrações de cinquenta anos de actividade literária». Pois é.
É de rir! Ou de chorar?

8.8.08

Parece um cartoon, mas é um cartão

Finalmente a insistência dos que se preocupam comigo venceu: decidi-me a ter um cartão do Serviço Nacional de Saúde.
Lá fui, pela manhã, ao centro de saúde da minha residência. Um sorriso de amabillidade esperava-me. Só que tinha-me esquecido da prova de residência. O cartão de eleitor não chegava. Um recibo comprovativo de que pagava eletricidade, sim. Fui buscar. Há dias em que um homem tem toda a paciência do mundo quanto às suas insuficiências de identificação. Voltei para encontrar o mesmo sorriso e muita eficiência. Num ápice estavam os meus dados introduzidos no sistema. Depois perguntaram pelo meu regime de segurança social. Ora eu acho que não tenho regime nenhum. Mostrei, a medo, o cartão de beneficiário da Caixa de Previdência dos Advogados. Não servia. «Mas deixe que fica em branco». Concordei. Afinal nesse campo estava, de facto, em branco. E a amabilidade dera em compreensão e eu não queria atrapalhar por uma questão de regime.
Funcionou, então, rápida, a impressora. «Aqui tem, é o provisório, tem de andar sempre com ele. Depois virá o definitivo». «Ah!» respondi, ao olhar para uma folha em A4 que era difícil que me coubesse na carteira. «E o outro, quando vem?», arrisquei. «O definitivo? Cerca de três anos».
«Três meses...», tentei, inseguro, corrigir. «Não, não. Três anos!».
Foi esta sexta-feira, em Lisboa.
O cartão definitivo, note-se, é um pedaço de plástico, onde estão os dados que aquele computador tinha aceite e impresso em papel. Leva três anos a imprimir!
Dado que a legislatura vai durar menos do que o cartão, não se poderá fechar, entretanto, o Ministério da Saúde, ou lá como é que se chama, ou para obras ou para nova gerência, ou criar um Secretário de Estado para a Plastificação?

1.8.08

Pois olhem, à pata!

O caso de José Sá Fernandes é a última das desilusões para os últimos dos inocentes.
Primeiro, vimo-lo paladino de causas cívicas. Muitos julgaram-no o advogado dos sem-abrigo na política, o defensor impoluto contra o meio ambiente poluído, o combatente vermelho pelo que é verde, em suma, o cavaleiro andante da moralidade pública.
Depois, vimo-lo político e as pessoas desconfiaram se a defesa de tudo aquilo, do verde ao vermelho, não era o ataque a um lugar, uma conduta de amarelo.
Durante pouco tempo durou a dúvida.
José Sá Fernandes começou iracundo na barricada do Bloco de Esquerda, num fósforo ei-lo em intimidades suaves com o partido do Governo, o do menino de ouro.
No princípio José Sá Fernandes falava muito, alto e grosso; agora pia muito fininho, se é que pia.
Para os poucos crentes nos partidos burgueses, percam definitivamente as ilusões; o radicalismo burguês de fachada socialista dá nisto: o meu reino por um cavalo, para já de preferência a mula do poder.
Só que há um senão futuro: é que ajoujada com tantos arrivistas, um dia a besta alimária que a palha da Fazenda Nacional alimenta, ajoelha de exangue. Nesse dia, tudo como dante: os apeados mudam de montada, à falta de corcel, vai-se de burro, que à pata é que ninguém quer.

31.7.08

É preciso avisar toda a gente!

De repente a Presidência da República fez surgir o psico-drama de que o Presidente ia dirigir uma mensagem ao País. O País esperou-o diante da TV, às 20. Nada transpirara da comunicação «secreta» dizia uma locutora da RTP.
Minutos depois estava tudo acabado: o Presidente tinha sentido necessidade de informar o País que nos Açores estavam a tentar fazer passar legislação que lhe retirava poderes, diminuindo-lhe a função.
O País percebeu que o Presidente afinal não tem força, estava à janela a gritar por socorro. Qualquer Assembleia Regional o pode sitiar.
Há coisas que é bom pensar melhor antes de as fazer.
Cavaco Silva não quer que os Açores criem um precedente. Já criaram, este, de o Chefe de Estado gritar ao povo para que o acudam para não morrer às mãos dos políticos. Ao que isto chegou.

26.7.08

Seara de vento

Lia-a. Esgotava-a na totalidade, cada uma e todas as páginas. Tinha dezanove anos. Era um tempo em que, tendo pouco, apreciava o pouco que tinha. Lembro-me, nela, de tanta coisa: do número dos anos trinta, que li na Biblioteca Nacional, em que a capa é a efígie do Mussolini com aquele ar de amuo esgazeado e a legenda «Mussolini, a sua cara é a melhor demonstração das suas ideias»; daquelas edições em que se publicou uma polémica entre o pintor Lima de Freitas, que escrevia do Carvoeiro, que durante muito tempo seria o único Algarve que eu conhecia, e um tal J. J. Colaço, que atacava a partir de Boston, quesília que quando há uns dez anos reproduzi ao magnífico artista ele, atónito, já nem se lembrava de ter ocorrido, gabando-me, enganado, a prodigiosa memória; daquele número magrinho, retalhado pela Censura, ornando na capa, em raivosa mensagem aos leitores, um desenho à pena sob o título «A Cegueira da Crítica e a Cegueira da Crítica» sobre o António Feliciano de Castilho, visconde. Lembro-me do Sottomayor Cardia, do Ulpiano Nascimento. A pedido do Francisco Salgado Zenha escrevi um artigo, assinando-o sob pseudónimo, que me custou ter perdido um emprego, do que nunca falei e hoje aqui fica.
Eu era então um ninguém extasiado ante o que lia, o típico leitor. Guardei-as todas e um dia um desenlace da vida fez com que ficassem nem sei em que casa, inúteis, como a vida nela vivida.
Lembro-me do prazer de a comprar e sentir quanto nisso se marcava a diferença face a um O Tempo e o Modo, a revista dos «católicos progressistas», por mim olhados na altura de soslaio, por serem católicos e, como tal, impossíveis progressistas. Lembro-me do orgulho de a trazer debaixo do braço, gesto de cidadania, tal como ler a República, do Raúl Rego, por militância necessária e o Diário de Lisboa para a informação possível.

23.7.08

«Eia, gado brasileiro!»

Chegou-me por falar na Clarice Lispector, a cuja escrita dedico um blog, de frequência ocasional, errática. Mas é digno de registo, pelo humor, pela ironia, a menção a Clarice quase no fim: «Todo candidato a qualquer cargo público deveria fazer um “estágio” obrigatório, ou seja, viver como um cidadão comum», escreve e diz porquê. Chama-se Maria Olívia Garcia Ribeiro de Arruda. Li-a aqui, nesta tarde de calor. Poder-se-ia dizer: eia, gado português!

22.7.08

Vazio de sentido

Distraídos da distracção pela distracção. A frase pertence a T. S. Eliot e está no seu poema Quatro Quartetos. O poema é belíssimo e o excerto vem aqui: «Over the strained time-ridden faces/Distracted from distraction by distraction/Filled with fancies and empty of meaning/Tumid apathy with no concentration».
Li isto num artigo sobre o mundo digital de hoje, em que as pessoas vivem soterradas pelos mil e um sinais que lhes chegam entre sms's, emails, para não falar em tudo o que a comunicação social despeja, em catadupas, em alertas/Google, em RSS's, em newsletters.
Mal a manhã raia, liga-se o computador e ei-lo atulhado, o primeiro trabalho seleccionar e apagar os emails da noite. O telefone em breve começará a retinir entre mensagens escritas, de voz e pessoas que ligam, reiteradas, insistentes, sem deixar recado até que a falta de paciência consiga que sejam atendidas. E por aí fora durante o dia, a imprensa on line vai matraqueando a última hora e o aviso circula entre amigos do já viste, os furiosos das «breaking news».
O irrequietismo circundante é tal que, às tantas, tudo é igual a nada, unidimensional e nivelado, desaparece a importância, o urgente submerge o importante, o mundo do incompreensível tumultuoso sucede-se em voraz espiral. Vazio de sentido, «empty of meaning».

20.7.08

As causas da Júlia

A Júlia Coutinho, que tem um blog de intervenção cívica muito activo e atractivo, teve a gentileza de sugerir que eu comentasse um seu post sobre o Eduardo Lourenço. Somos de perspectivas diversas da vida e talvez por isso o meu texto tenha um sabor a contra-ponto. Mas temos referências comuns e isso faz com que a divergência fomente o diálogo. Agradeço-lhe por isso, ter-me franqueado a porta à conversa, como um dos leitores que aprecia o seu espírito militante. Ante a apatia reinante, viva!

15.7.08

O Bando

As gralhas são uma coisa terrível. Que o diga eu que sou disléxico na escrita e dou erros de embarda, trocando letras e comendo palavras. Li algures que um jornal britânico dava um prémo chorudo a quem apresentasse um livro isento de gralhas.
Mas há algumas que devem gerar lauta risota e grandes sarilhos. Imagine-se o que é o site noticioso da RTP publicar com título de notícia: «Bando de Portugal: PSD diz que desalento se acentua e medidas do Governo não resolvem os problemas».
Exactamente assim: «bando». A esta hora seguramente que o link já leva para a notícia emendada, pelo que é o chamado riso de curta duração.
Mas..um momento! Agora que leio que a notícia refere que: «António Borges sublinhou que "nunca Portugal teve um endividamento tão alto todos os anos como está a ter" e disse que "a dívida externa, que se aproxima de cem por cento do PIB (...)», não será mesmo «o bando de Portugal»?.

3.7.08

O elogio

Saía de casa já zangado com a vida por ser tarde e estar cansado e mal dormido e sobretudo começar o dia atrasado quando a vi.
Dirigiu-se-me com um sorriso aberto, jovial, uma forma de sorrir com a boca, nos olhos um reluzir contente que lhe vinha da alma.
«Posso dar-lhe um elogio?», perguntou-me, eu encabulado e sem saber porque razão poderia ou se deveria dizer que não. «Adorei-o ontem na televisão!». E sem que eu tivesse tido tempo de explicar que não tinha estado nem ontem nem sequer há muito tempo,em qualquer televisão, rematou: «eu, e aliás toda a minha família, adorámos o que disse sobre a economia portuguesa! Muitos parabéns pela sua inteligência».
Não tive coragem de a desapontar e calei-me com o imerecido elogio. Saíu feliz, a ver-me escapulir para o estacionamento, alegre por ter dito, radiante por ter encontrado ali ao seu alcance o objecto da sua admiração.
Não sei se a esta hora já se terá apercebido de que eu não sou o Dr. Medina Carreira, com quem me confundiu.
Para não ficar na posse do que não me pertence, já telefonei a este, a dar o seu a seu dono. E espero que ele, da próxima vez que for à televisão pense em mim, na minha reputação, na minha imagem pública, porque no dia em que disser asneira ainda levo à conta dele uma tunda, numa esquina, de um espectador inconformado! E depois, será justo que lhe endosse essa indevida trepa, admirando- como admiro tanto? Não é justo! Nesse dia, como e calo, que assim é que é ser amigo.

30.6.08

Ter e ser

O Presidente do Governo Regional da Madeira, sempre jovial, disse que a riqueza e a religião dão felicidade aos portugueses. O Miguel de Unamuno, de que estive a ler um destes dias passados os textos pessimistas sobre Portugal, escreveu que se pode ser socialista por amor aos pobres, para que o não sejam, ou por amor aos ricos para que deixem de o ser.
São dois mundos inconciliáveis: o primeiro a supor que a riqueza traz felicidade, o segundo a supor que o ter devora o ser e há que libertar os ricos da infelicidade que é terem.
Pensava eu nisto porque me disseram, já nem sei há quantos dias atrás, que se cada indiano comer um bife por semana, o mundo entra em colapso, por não haver que chegue para que tantos comam.
Já nem sei se isto é uma comédia verbal, se uma tragédia existencial. Enquanto isto, Manuel Dias Loureiro comove-se com a afectividade de José Sócrates.

22.6.08

Back to the USSR!

Uma das particularidades que se atribuem aos portugueses é conseguirem conviver com a vida corrente, sobretudo a política, através da geração diária de anedotas, piadas e outras graçolas. Tenho a ideia, por outras razões, que o povo russo tem traços de semelhança connosco, ideia empírica oriunda daquela forma de pensar que é o palpite, que dá a alguns a «taluda» e a outros o «entalanço».
Mas neste domingo de sol e de boa disposição - deve ser seguramente do ananás! - comecei a rir e a rir continuo, ao dar conta que houve um sujeito que se deu ao trabalho de viajar pela antiga URSS e coleccionar em livro uma caterva de anedotas anti-soviéticas.
Uma delas é o flash «o marxismo leninismo é científico? Claro que não, pois de outro modo experimentavam-no primeiro em animais!». A outra é «qual a diferença entre o capitaismo e o comunismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem, o comunismo é exactamente o contrário».
Quem quiser saber mais, é só ir aqui. Boas gargalhadas, e que me perdoem os que não saibam que só o riso é revolucionário.
P.S. Algumas das piadas são universais: é verdade que metade do nosso Governo [perdão! do Politburo] são idiotas? É falso! Metade do nosso Governo não são idiotas! [risos]

O Tempo das Cerejas

Deu-me esta manhã para visitar os que me visitam. E dei conta, ao passar pelo belíssimo blog do Vítor Dias, O Tempo das Cerejas, que o Vasco Pulido Valente terá posto a correr que o PCP aproveitou o Europeu para «lançar uma campanha contra o futebol».
Ora se lançou, não dei conta, porque estou cada menos informado de acontecimentos correntes e futebol é coisa de que não me informo, porque uso esse tempo, mais o dos prolongamentos dos desafios, para fazer outras coisas mais variadas e mais urgentes. A minha vida diária é, aliás, sempre decidida a penalties.
A verdade é que o Vítor Dias ainda me fez sorrir, levando a sério as diabruras do VPV e dando-se por isso ao trabalho de indagar se era verdadeira a atoarda. Minuciosa busca leva-o a concluir: «como se poderá ver nas imagens abaixo, a «campanha contra o futebol» por parte do PCP foi de tal maneira oficial, pública, notória, forte, intensa e desabrida que um folheto de promoção da Festa do Avante! 2008 (concebido e editado por um estrutura directamente dependente da direcção do PCP) até incluia um calendário dos jogos do Europeu !».
Sorri-me, porque amanhã, que se comemoram cinquenta anos da morte de Cândido de Oliveira, o jornal Público editará, assim espero, um artigo que para lá enviei a lembrar que aquele anti-fascista foi parar ao Tarrafal por ter trabalhado como agente secreto ao serviço da causa aliada, na rede clandestina do SOE; e curiosamente, ele é um dos grandes conhecidos do futebol e um dos grandes esquecidos da Tarrafal, sobre o qual escreveu um livro, editado em 1974, prefaciado pelo falecido advogado José Magalhães Godinho, que tive ainda o privilégio de conhecer e ter como amigo, irmão do historiador Vitorino Magalhães Godinho.
É uma das ironias da História. Esta omissão do nome de Mestre Cândido em relação aos tarrafalistas, disse-a eu, de viva voz - permitam-me esta particularidade - a Jerónimo de Sousa quando a «Editorial Avante!» me convidou para o lançamento, no Centro de Trabalho Vitória, do livro sobre o dito «Pântano da Morte». Fez-me confusão de facto que, unidos na comum desgraça, até a morte os separe, sempre os nossos e os outros. A memória histórica deveria ter lágrimas iguais.
Um abraço ao Vítor Dias e um bom domingo para todos.

13.6.08

Navegantes do acaso

Nesta época que se costuma chamar da globalização, em que em cada momento do dia e da noite todo o mundo comunica com toda a gente, em que a hora de fecho das bolsas de valores americanas se articula com a das europeias, e no mercado de capitais, funcionam as transferências «overnight», em que pela madrugada a BBC transmite noticiários e programas de actualidades para a Ásia, porque lá é dia, e o meu amigo Eduardo, que deu em macaense, vai daqui a pouco dormir quando eu acabei de acordar mas os nossos emails num segundo de tu cá tu lá ignoram isso, nesta época, dizia eu, um feriado municipal é como nos tempos medievais em que as cidades fechavam as suas portas, encerrando-se intra muros. Um estrangeiro desprevenido que telefone hoje para cá pensa que Lisboa sumiu, o terramoto de 1755 teria regressado.
Em dias como hoje, a malta habitante vai em bandos para fora de portas, engarrafar-se em locais de distância variável na razão directa das posses, muitos para além do que já podem.
Ora é aqui que entra a diferença penalizadora. Nos tempos medievais, em que triunfava a noite escura, que é quando o espírito concebe as melhores ideias, era possível trancar tudo e não abrir. Punham-se archeiros à entrada, e seleccionavam-se a um e um, os que eram admitidos a reentrar.
Portugal repovoava-se como outrora se reflorestou: de feriado municipal em feriado municipal, restaria aquela multidão dos que ninguém quer e a quem nenhuma cidade permite franquia. Para esses, restava fazerem-se ao mar, qual raça de novos argonautas, navegantes do acaso em busca de desconhecido. Talvez por lá ficassem, a sua ausência mal notada, a sombra da sua presença vagamente comemorada.

10.6.08

10 de Junho

O ano passado, a propósito deste dia, escrevi assim:
«Houve tempos em que o dia de hoje era o dia de Portugal. Mais tarde passou a ser o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Seja qual for o nome, é mais um dia em que o país real sente com indiferença. As comemorações resumem-se aos actores políticos e seus funcionários, aos seus discursos, às condecorações, às paradas militares e de sapadores bombeiros.
Entre comendas e palavras o dia passa. Hoje a Natureza resolveu dar em chuva, para carregar de cinzento e de tristonho um dia de maçadoria oficial, o calendário fez recair num domingo este dia que nem sequer aumentou assim os dias de descanso da população.
Hoje, 10 de Junho, deveria ser o dia dos Portugueses. Não é. Hoje é dia do Estado fingir que é Portugal
».
A diferença entre há um ano e hoje remedeia-se aqui: «Hoje a Natureza resolveu dar em sol, para se rir de amarelo e de ironia de um dia de maçadoria oficial (...)». No mais, tudo na mesma, com a parte gorda do país em férias e muitos outras a não poderem tê-las. Ah! Ia-me esquecendo: e desta vez calhou à terça-feira.

2.6.08

O chupista

Uma amiga minha veio dar-me conta que há por aí um rapaz que escreveu um artigo sobre o mistério em torno da morte do Leslie Howard e que, citando inclusivamente na narrativa aquilo que é o título de um livro meu sobre o assunto, nem se dignou sequer referi-lo.
Claro que o que eu escrevi custou-me horas a fio de estudo nos Arquivos Britânicos, onde parte essencial do dossier referente ao trágico voo está sujeito à lei do segredo por 75 anos, a entrevistar pessoas que se ligaram aos acontecimentos, a ter comparado os dois livros que o filho e a filha do malogrado actor escreveram, este último lido na Biblioteca da Cinemateca Portuguesa, onde o livro foi apresentado, por palavras gentis do seu Director, o Dr. Bénard da Costa. Mais: dei-me ao trabalho de redigir o guião de uma banda desenhada, cuidando da minúcia dos detalhes de modo a que, quer a narrativa quer a BD, não tivessem erros factuais. Honrou-me o prefácio do professor norte-americano Douglas Wheeler, que estuda desde há anos o assunto. Documentei-me, estudei, trabalhei.
Ao dito rapaz custou apenas o contar agora a historieta e ter a falta de educação de fingir ignorar quem já cá anda há mais tempo e fez trabalho sério.
Não me espanta. Quando trouxe a prova documental de que o fundador do jornal «A Bola» tinha ido parar ao Tarrafal por ser um agente do SOE britânico, vi que numa biografia que foi, entretanto publicada, essa minha revelação sobre Cândido de Oliveira era olimpicamente ignorada.
Não é que eu queira ter direitos de autor e seguramente já cometi muitas indelicadezas ao não citar quem devia; é só porque Portugal é isto, esta miséria de se viver entre a ignorância e o copianço, uma escrita tão mais arrogante quanto é feita, parasitariamente, à conta do alheio.

1.6.08

Caminante non hay Camino

Fui à Feira do Livro e acho que ela está cada vez pior.
Ainda por cima era dia da criança e tinham anunciado sábado que abriam mais cedo no domingo, logo pela manhã.
Claro que era engano! Os pavilhões dedicados às ditas criancinhas - que cada vez lêm menos - lá estavam abertos; quanto aos outros, havia muitos fechados, abriam de tarde.
Ao topo do Parque, lá estava o conglomerado de uma empresa que comprou uma série de editores: estão todos da mesma cor, todos iguais, indiferenciados.
Houve tempos em que a «Caminho» fazia gala em ser diferente; agora vendeu-se ao sistema de que se quis alternativa, está cor-de-rosa. Houve tempos em que na «Caminho» havia filas para autógrafos, desta vez estava às moscas.
Falo da «Caminho», porquê? Porque acho que é simbolicamente a que mostra, com a sua atitude, o que há para se saber sobre as relações entre a ideologia e o capital. Começaram com o Marx, terminaram com o «marketing»! Quanto ao Saramago está na sua Fundação afundado!

21.5.08

Venha enterrar-se em Lisboa

Já dei conta que vejo mal como se diz «ao pé» e por isso passei a usar óculos, culpando o computador pelo cansaço da vista e a mania de escrever por ter de usar computador. Agora começo a concluir que vejo mal ao longe.
Vinha eu a entrar em Lisboa, vindo de sul, venço a ponte que já foi do antes 25 de Abril, coitada dela, e ao terminar o tabuleiro, o casario degradado à vista, vejo do lado esquerdo uma placa em azul. Anúncio publicitário, tá visto. Mas a quê? Propagandeando o quê?
Aquele azul, pálido, celeste, turquesa, hipnotizou-me. Tentei concentrar-me, um olho na estrada, outro nas letras, como se no consultório do optometrista. Sim, começava com um jiboiante «S», e a seguir um «E». E a seguir» Um «P» ou um «R»?
O automóvel seguia ronceiro, a fila à frente obrigou a abrandar, mais tempo para decifrar o enigma, a frase a compor-se, hesitante, tremelicante.
De repente li tudo. Estava eu a entrar em Lisboa: «Servilusa, agência funerária»!!
Dizia eu um anúncio ou abrenúncio? Apre! Será um patrocínio da Prevenção Rodoviária Portuguesa?

20.5.08

De língua de fora

Ela escreve ainda «mãi» e «pae», tal como se lê, exactamente como se escrevia quando aprendeu a escrever, numa remota aldeia alentejana.
De há muito que a língua normativa, imposta por doutoral decreto, resumida nos implacáveis prontuários e nas ampliadas gramáticas, policiada pelos revisores de provas e objecto de pugilato polémico entre leitores puristas do verbo e escritores desleixados na prosa, lhe retirou a razão.
Mas quando falo dela não digo que é a minha «mãe», mas, de facto, a minha «mãi». E os que perguntam carinhosamente indagam «como vai a sua mãizinha», tal qual com o «i» que marca a fonética que retine no palato como o trinar de uma campainha.
Chama-se Maria Ernestina.
Agora, tenho que consultar o Diário da República para ver se não lhe mudaram o nome. Um destes dias o Ministério das Finanças regula a Lei do Acordo Ortográfico, prevendo umas coimas a quem não o cumprir. O Ministério de Pinto Ribeiro ficará incumbido da cobrança, a ASAE policiará os livros com as vírgulas fora do lugar. Agentes encapuçados, de G3 nas unhas, entram livrarias adentro, num «mãos ao ar! e ninguém toca nas estantes» que é tudo para apreender, se é que apreender ainda se escreve com dois «ee»'s, pois já nem sei e já é tarde para saber.

17.5.08

O negócio da fome

Sabemos que há miséria, há dificuldades económicas, gente com fome. As notícias estão cheias disso, a oposição reclama, o Governo disfarça.
Mas há a exploração comercial do fantasma da fome, o aproveitamento interesseiro da penúria, o miserável negócio da miséria.
Esta noite estava meio distraído, com a televisão em frente, e assisto a uma notícia segundo a qual havia dificuldades económicas crescentes e por isso havia pessoas que começavam a fazer pão em casa.
O pão é, quase por simbologia bíblica, a ideia do alimento em si, o pão para a boca, o pão nosso de cada dia, o comer o pão que o diabo amassou.
Idiota teleespectador condoí-me: a ideia de já nem para pão haver dinheiro moeu-me a consciência. Mas foram só uns segundos: era, afinal, um anúncio encapotado a uma máquina de fazer pão, um electro-doméstico novo, à venda no mercado.
A reportagem mostrava o vendedor pressuroso, a doméstica feliz, o padeiro receoso. Balanço final: compre, porque sai mais barato e o pão é mais fofinho!
Tudo isto na RTP, a estação do serviço público.
Mas já se perdeu de vez a vergonha, ou pensarão que somos todos atrasados mentais, uns fofinhos nas mãos da negociata pseudo-noticiosa?

16.5.08

Assim NAM vale!

Um dos problemas da velhice é a perda de memória. Um dos sintomas da esperteza é a memória selectiva! Uma das vantagens dos que já cá andam há muito é o não se esquecerem. Uma coisa boa para memória é o fósforo. Tem é um problema. Um descuido e fica tudo em cinzas. É o risco dos que brincam com o fogo...

A Feira da Ladra

Para muita gente ainda era a hipótese de comprar o seu livrito mais barato, economizando uns tostões; para algumas editoras era a eventualidade de escoarem alguns dos monos, a saldos, compensando os seus prejuízos; para muitos autores era a oportunidade de uma tarde ao sol, à espera de leitores, um amigo ou dois a ladeá-los, naquele velório da sua defunta obra, por vezes invendável, mesmo quando excelente; para os rapaces coleccionadores de primeiras edições autografadas, o investimento de futuro, para os mirones o cumprimentarem gente ilustre.
Era a Feira do Livro, mercado ao ar livre, o livro do dia com desconto, a enciclopédia a crédito, o compre dois e pague um, enfim, a Literatura em montra, popular e barateira, espécie de trottoir em que os anónimos se cruzavam, desconfiados, com a reluzente livraria, esta a fazer olhinhos sedutores, a prometer gozos e sonhos e fábulas de ilusão ao alcance da mão.
Agora paira a ameaça de que pode nem haver Feira, por causa de uma grande patroa, que quer acabar com aquelas modestas casinhas de meia-porta.
Não faz mal! Sugiro que, para a troca, se faça uma Feira de Autores, daqueles que, recebendo dez dos cem por cento que custa o livro a quem o compra, tanta vez ficam, com o Tejo à vista, encerrada a Feira, a ver navios, porque, baixados os taipais dos pavilhões, muitos feirantes ferram o calote, porque «isto está mau, ninguém lê e nada se vende, vamos lá a ver se agora pelo Natal a coisa melhora...».
Feira de Autores, pois! E como local sugiro Santa Clara, ali mesmo, entre o adelo e o espólio, a velharia e o sabe-se lá de onde, a Feira da Ladra, que tem a glória vã do o Panteão à vista, e espraiando-se em realidade alfacinha, o Largo do Outeirinho da Amendoeira, as Escadinhas do Arco de Dona Rosa e sobretudo a Travessa do Paraíso!

14.5.08

A triste história da burguesia

Era uma vez uns filhos de burgueses que na idade da adolescência resolveram enfrentar os antiquados papás e a lei e a ordem que imperava à mesa lá de casa. Lei e Ordem, diga-se, que eram a garantia do negócio rendoso ou do emprego tranquilo do papá, da domesticidade submissa e beata da mamã, da castidade expectante da mana, à espera de um bom partido que a levasse dali, e das heranças que, mortos os velhos, lhes dariam, enfim, divididas em grande zanga, um começo de vida sem as sovinices mesquinhas ou outras privações que se contavam dos avós, sustentados a côdea ratada, a sardinha moída, a pobreza envergonhada alumiada a pavio de azeite.
Ora por essa altura esses filhos de burgueses, não sabendo que eram burgueses ou para fingir que não eram burgueses resolveram travestir-se de trabalhadores.
Muitos deles não trabalhavam nada, nem sequer nos livros, salvo pelo fim do ano para que por causa do «chumbo» não fosse tirada a mesada; mas porque as calças de ganga são tão ganga como as gangas dos fatos-macaco do proletariado, bastava só a camisola esbeiçada e uns sapatos cambos e, pelo menos, máscara já havia e, se não eram trabalhadores, pareciam trabalhadores. Trabalhadores no desemprego, claro, porque com o capital não se colabora!
Foi assim que esses burgueses filhos de burgueses se atiraram à sociedade burguesa que os sustentava e aturava. E lá vieram os Maio's de 68, como forma de fugir à polícia e pedir o impossível como o máximo da ideologia revolucionária.
Queimaram-se em noites de interminável discussão sobre as variantes dos «ismos», às olheiras do acordar tarde juntava-se o medo de passar por reaccionário.
A seu lado, o proletariado real, esse comia o pão que o diabo amassou, e levava no lombo a sério, quando a repressão se abatia.
Toda uma geração formou-se assim e anda por aí: burgueses, filhos de burgueses, ei-los burgueses. Só que com uma diferença.
Na idade de fazerem filhos, educaram-nos na liberdade de que a vida é bela e há que curtir, porque para atraso e pobreza já bastavam os remediados avós.
E é por isso que está aí, a tomar conta aos poucos das rédeas da sociedade uma geração que tem como personalidade o hedonismo, como moral a ambição, como método o individualismo, como critério o argentário. Olham para os pais e vêm como é possível ter mentido tanto.
São, coitados, todos uns tristes doutores de nada para coisa nenhuma, à procura de um país que não há, de empregos que não existem, todos herdeiros daqueles velhos burgueses, pais de burgueses e de burgueses avós, de cujas heranças, feita de aforrar de dia e amealhar à noite, se fez o que ainda há. Um dia, a ter sobrado algum, talvez isso lhes valha.
Era uma vez um mundo em que se dobravam os punhos e os colarinhos das camisas, se subiam e desciam as bainhas das saias, se ia para as termas só quando se estava doente e para a pensão quando calhava ir de férias. Um mundo em que se festejava o primeiro carro, a primeira telefonia, o ir jantar fora. Um mundo feito de abdicação, de sujeição, em que imperava o medo perante Vossa Excelência e a crença no à consideração superior.
O que fizemos nós de nós, para tudo isto ter um sabor amargo de ridículo e pastoso de verdadeiro? Como tudo isto passou do cocktail-Molotov para o cocktail-party!

13.5.08

A luta pela memória

Com o presente aprisionado, trava-se actualmente em Portugal um combate pelo que resta no país, que é a memória colectiva.
Falsifica-se a História, há avençados para a reescrever, omite-se, mente-se. Todas as comemorações servem, voltámos às romagens, aos encómios, aos assassínios de carácter.
Um dia as gerações futuras far-nos-ão pagar por isto tudo.
Neste ambiente, não é de estranhar que uma tentativa de lembrar o passado, dando-lhe sítio e voz, desencadeie uma luta entre listas, grupos e tendências. É o combate corpo a corpo pela posse das consciências. É lamentável e um tristíssimo espectáculo, indigno do que foi a resistência.

O Petromax

Reparei que o primeiro-ministro voltou à Venezuela por causa do petróleo e que o Dr. Mário Soares também já tinha tratado do petróleo com a Venezuela.
Antigamente havia os que andavam com um burro e um tambor, de rua em rua, a aviarem aos decilitros o precioso combustível. Ganhavam uns patacos e chamavam-se os pitrolinos.
Como está tudo tão melhor neste querido Portugal e sobretudo mais sofisticado.

Os sinos da minha aldeia

A minha aldeia tem árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular. A rua onde eu moro não é uma perpendicular, é uma espécie de cotovelo curto e não tem árvores mas tem uma frutaria, e tem em frente dela um jardim grande, com não muitas mas algumas árvores, muitos verdes e poucas flores.
O dono desse jardim, que fica em frente à janela de onde eu vejo a rua e tudo o que nela há, não deve gostar de flores, porque escondeu umas pálidas roseiras no meio de um matagal onde está uma estátua de homenagem a um pila gorda, tristonha e pendente.
Por detrás da minha rua, na minha aldeia, há uma igreja grande, com painéis do senhor Almada Negreiros, que já morreu e nunca viveu na minha rua.
Hoje pela manhã repicavam, alegres, os sinos, num tlim sincopado e reiterado e num tlão final em oito vezes.
Daqui a um pouco a minha aldeia está infestada de automóveis e de empregados, funcionários e outros iguais e os seus parecidos, despejados tantos na paragem do autocarro. Inundam então os cafés e outros comes-em-pé, alimentados, ao desjejum, a farinha frita, amido, muito açúcar, regado tudo a café porque há que resistir a mais um dia. Por volta dos cinquenta anos, começam a ter achaques, flatos e muitas dores no peito e na barriga.
Na minha aldeia, naquela igreja, onde repicam os sinos, há uma capela mortuária. Não sei se é só para os que moram aqui. Se for, os outros haverão de ir morrer longe: vêm aqui só para se matarem.

10.5.08

Um país sem fins nem meios

Ia a entrar em casa, vindo do supermercado, quando vi, na nesga da porta da papelaria, a manchete do «Diário de Notícias», a dizer qualquer coisa como que Portugal não tem meios para expulsar os emigrantes ilegais. É um apelo descarado à invasão geral! Mas já nem é isso que me irrita neste dia em que acordei irritado. É que esta cantata da falta de meios há um momento em que, desculpem o desabafo, já mete nojo.
Tornou-se no alibi que alimenta oposições e sustenta Governos. Faz parte do fadinho nacional, justifica a preguiça, legitima a falta de espírito empreendor, dá a benção à inércia, a extrema unção à falência.
E no entanto não é que não haja carência financeira, desgoverno, roubalheira no que resta e um grupo de idiotas a aguentarem, pela noite fora, o que ainda está de pé. Sabemos isso. Há departamentos que estoiram em turismo pseudo-formativo e congregativo o que podiam aplicar a cumprir as suas missões. A globalização tornou-se uma mina para os que fazem a reunião preparatória do congresso inter-departamental em Helsínquia, o dito congresso na Riviera e as reuniões de «follow up» um pouco por todo o lado onde seja agradável ir arejar. Depois, mudam os directores-gerais, porque cairam os ministros e os relatórios das conclusões que já vinham preparadas, apodrecem às resmas, encarquilhando-se nas estantes, entre mil outros papéis inúteis. De quando em vez faz-se um livro com sólida encadernação que à última da hora é mandado recolher e lá se vai o gasto pelo qual ninguém responde.
Portugal não tem meios para expulsar emigrantes ilegais! Pois venham eles que precisamos mudar de povo! É que um dia destes, ao entrar em casa a manchete que me espera é «Portugal não tem meios para ser Portugal».

8.5.08

A remoção dos sobejos

Da janela de minha casa vejo as janelas que me circundam, o prédio em arquitectura chamada contemporânea ali ao canto, com evidentes metais e muitos vidros, que é quase uma janela feita casa, a correnteza esboroada aqui em frente, que parece uma serpente adormecida que se diria um armazém, e que tem a ver com o Hospital além e onde, a horas incertas da noite, se acendem frios néons de um cinzento morto, como se fossem almas esquecidas de doentes que tivessem ido embora desta vida.
Da janela da minha casa vejo-os também, mais durante o dia, os passageiros dos autocarros, galgos mecânicos que batem, ao passar, na caixa do colector, fazendo um tac-tac que pela noite me embala e me adormece, e neles a senhora gorda com as mãos cruzadas no colo da indiferença de mais não ter, o braço atrevido descendo ombro abaixo da rapariga contente por ter naquele namorado o seu mais que tudo, o leitor de qualquer jornal, tanto faz porque são à borla, os que dormem por cansaço e acordam com fastio, os que vão de pé, os que gostariam de um lugar sentado.
Pelas quatro da madrugada, entram poucas imagens, a luz timorata dos automóveis que aceleram avenida fora, a ideia de que aquele faz uma noitada e amanhã entra às nove, a suspeita de que ali se esqueceram de desligar o candeeiro. É então a hora da passarada. Cantam como se a um Deus da Alegria, uma hossana de gorgeios pelo nascer de mais um dia. Daqui a pouco chega o carro do lixo e com ele a remoção dos sobejos da vida que se viveu.

2.5.08

Blogar mata!

Já cá faltava: «A morte de alguns autores de blogues profissionais muito populares nos EUA por ataque cardíaco está a preocupar a comunidade bloguer norte-americana, que acredita que a necessidade de actualizar constantemente estas páginas poderá estar a afectar a sua saúde. O tema começou a ser discutido quando dois autores de blogues relacionados com as tecnologias, actividade que exerciam a nível profissional, faleceram vítimas de ataque de coração».
Num mundo de anormais que se esfalfam a comer lixo de ingestão rápida e que atulham o bandulho enganando a fome ao juntar-lhe bebidas gaseificadas, que depois ficam como zombies catalépticos horas a fio, jiboiando diante do pequeno écran, a sublimar o seu raquitismo diante de mil canais todos iguais com os seus heróis decadentes e cambados, e heroínas avantajadas em silicone, palonços boçais que a malta goza pela sua estupidez bacoca e ganância concursal, mais as matanças sem nexo, a faca, o sangue, as balas e o encéfalo esborrachado mesmo ali contra o plasma da TV, fora o futebol dia sim dia e sim e as novelas todas as noites, os sentimentos enfim embotados, que nenhuma violência já abala, nenhuma mortandade fere, nenhum ridículo atormenta, só faltavam, digo, vindas desses tais, estas preocupações sanitárias quanto ao blogar.
Blogar mata! E eu a pensar que era por causa de provocar cancro nos dedos de tanto teclar! E eu a julgar que era de doença na espinal medula de tanto lombo curvado para chegar com os olhos à janelinha do chat! E eu a imaginar que blogar matava de tédio, que um tipo se não ficasse morto de riso, matava-se a treplicar aos que tinham replicado aos que tinham comentado os primeiros que enfrentaram os comentadores do post até à exaustão final do desisto que ninguém se entende e isto a continuar assim ou passo a moderar a coisa, ou bloqueio isto de vez, porque eu não admito, ouviram?
Não! Blogar mata pelo coração!
No tabaco começou assim.
Qualquer dia estamos todos na sala de chuto a seringar-nos uns aos outros, numa trip pelo ciber-espaço, até que, de clique em clique, de link em link, se ouça, das profundezas dos céus, vinda do princípio de todo o ser, ofuscada por uma irradiante luz, uma voz cava e profunda a dizer: abençoado sejas tu, irmão, agá tê tê pê barra barra. E numa litania coral, em uníssono, recitaremos: dot com, Senhor!

1.5.08

O 1º de Maio é vermelho!

Originariamente a ideia de haver um «Dia do Trabalhador» assentava na ideia de que havia os que trabalhavam e os que viviam à conta do trabalho dos outros.
No 1º de Maio as ruas enchiam-se com o enorme exército daqueles, para vergonha destes, que se trancavam em casa ou nos clubes, deixando a cidade entregue às insolentes gangas que comemoravam a revolta com assomos de fraternal confraternização.
Hoje, com o Estado social à mistura e a sofisticação da economia a baralhar, há quem já não se consiga entender no meio da Babel sociológica em que vivemos.
Claro que ainda há o velho operariado, o paradigma duro do metalúrgico, do mineiro, o ferroviário, restos da Revolução Industrial, a pedreiragem e os moços de servente, ao lado dos distribuidores de pizzas, operadores de tele-marketing e agentes da Bolsa de Valores e dos mercados on line. Uns e outros recebem ordens, reconhecem em algum outro um chefe, um capataz, poucos sabem quem é verdadeiramente o patrão. A sociedade contemporânea criou um exército de dependentes que não sabem bem de quem dependem. Quando alguém responsabilizar alguém, são todos consultadores ou procuradores.
Depois, há a colmeia dos desempregados, cujo pagador é a Segurança Social, os que conjugam o biscate não declarado com o estarem cronicamente sem emprego e desse rotativismo espertalhão fazem modo de vida. Trabalhadores de nada, engrossam as estatísticas que envergonham governos e mostram como o capitalismo explora a mais valia e gera a sub-ocupação da mão de obra.
Além disso, temos os que estudam para serem chefes e acabam por se tornarem índios, licenciados em caixas registadoras, mestrados para andarem a vender ao balcão, sonhos de patrão, pesadelos de amanuenses.
Há finalmente, todos os que para aqui migraram, os que fazem o trabalho em que os nossos não pegam, os brasileiros que alimentam a restauração, os eslavos que seguram na construção civil, e mais as que as fazem madrugadas nas limpezas, sujando-se na nossa escória, ou noitadas trabalhando no comércio do sexo, o corpo em aluguer com opção de compra.
Hoje é primeiro de Maio. Estão muitos na rua, pelo trabalho contra o capital, outros em casa, a passar roupa a ferro porque amanhã é dia de trabalho, a dormir porque ao menos hoje não há que amanhecer, ou porque não, a terem, enfim, um momento de amor, agarrados ao seu parceiro ou a um aparelho de televisão.

29.4.08

A luz e a sombra

Um site francês chamado «Vie de Merde», dá a todos a oportunidade de defecarem os seus lamentos. «Ma vie c'est de la merde, et je vous emmerde» é o lema do lugar, que pode ser encontrado aqui. Muitos dos escritos são sobre desencantos sentimentais. Talvez haja neste irado lugar mais voyeurs do que escritores. Sucede, aliás, isso mesmo, todas as vezes que nos queixamos: há sempre alguém que aproveita para nos mostrar que está pior e fazer-nos envergonhar do atrevimento de ter estado mal. Acho que é por isso precisamente que há velhos contentes com o seu mundo de sombras, por verem tantos jovens infelizes com todo o universo de luz.

25.4.08

25 de Abril, sempre!

No dia 25 de Abril não foi o «levantamento nacional anti-fascista» quem fez cair o regime, sim os militares que o serviam. Uns dias depois, a 1 de Maio, aquilo que era um golpe do que começou por ser o «movimento dos capitães» transformou-se na «aliança Povo-MFA» e entrou-se rumo ao socialismo de Estado, com a desordem a instalar-se e a tropa a ser incapaz de dominar uma situação a ganhar foros de insurreição Depois, foi o 11 de Março e 25 de Novembro, os milicianos, os do Quadro Permanente no meio da turba desordenada, apparatchiks armados a tentarem ser a muralha de aço de uma cada vez mais próxima república de sovietes.
Hoje cá estamos. Morreu Salgueiro da Maia, morreu Melo Antunes, morreu Galvão de Melo, morreu António de Spínola, morreu Adelino da Palma Carlos, morreu Vasco Gonçalves, morreu Francisco da Costa Gomes, morreu Álvaro Cunhal, morreu Emídio Guerreiro, morreu Sá Carneiro, morreram Marcelo Caetano, Américo Tomás, Franco Nogueira.
Feito o balanço do sucedido, cada um que tire as conclusões que entender: os que dizem que Abril nos trouxe a liberdade de expressão, queixam-se que reina o medo de se falar; os que dizem que acabou a alienação do povo, encharcam-se de tele-lixo e futebol pela noite fora; os que que querem mostrar que hoje se vive melhor, sabem que as famílias portuguesas estão falidas de dívidas à banca.
Claro que há muita coisa boa, como o engenheiro Sócrates ter presidido à Europa, porque todos os países da Eurolândia presidem num jogo circular de fingimento, como comanditários de quem realmente manda. E, claro, não há a PIDE enquanto polícia torcionária, mas multiplicaram-se as polícias de informações, as escutas telefónicas a serem as novas moscas de uma falsa liberdade.
Hoje comemora-se aquela gloriosa madrugada. Nesse dia estava eu no Quartel em Mafra em Armas Pesadas de Infantaria, mau grado pesar 48 quilos. Quando me fui queixar, percebi que graças à António Maria Cardoso, tinha carimbo e ficha que me puniam por aquela forma, o canhão sem recuo como companhia, o morteiro como esperança. Quando requeri um manhoso lugar de delegado interino do procurador da República não importa onde, a mesma ficha funcionou. Nunca pedi na Torre do Tombo para ver o meu processo. Não quero confrontar-me com o saber quem terão sido os «bufos». Já me bastou ver muitos daqueles que, alegremente, entraram para cargos sob o beneplático do regime que há 34 anos caíu, a estarem hoje muito à esquerda, alguns anafadamente à esquerda de mim, censores da nova Ordem, polícias das ortodoxias.
Estou só, sempre o fui, um individualista marginal. Neste meu canto, vendo as comemorações cada mais oficiais, cada vez menos populares, cada vez no ghetto, pergunto-me sombriamente: Abril valeu a pena? Respondo: valeu, apesar de tudo, sim, valeu! E por ter valido a pena e para ser totalmente honesto, justifica-se hoje, ante a miséria política, a bandalheira de valores, o espírito de argentarismo burguês, o vira-casaquismo partidário, face à nova Legião que corrompe Portugal, que haja, furiosamente redentor, um novo 25 de Abril que nos tire desta miséria vergonhosa em que nos atolámos.

22.4.08

Bilhete de ida

A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível era sobretudo a dos países asiáticos e africanos, cujos melhores filhos tinham uma hipótese de estudarem na Europa e nos Estados Unidos da América de onde já não voltavam, para ajudar as suas pátrias a sairem do ghetto da miséria. Depois fizeram-me chegar este momento de um depoimento do meu amigo Luiz Moniz Pereira, com quem trabalhei no final dos anos sessenta num Centro de Estudos de Cibernética, albergado no Instituto Superior Técnico e a quem devo leituras sobre a teoria geral dos sistemas do Ludwig von Bertalanffy, a teoria dos jogos do von Neumann, a teoria da comunicação do Colin Cherry e sei lá quantas outras coisas que sairam a partir da intuição genial do Nobert Wiener.
Disse o Luiz, que entretanto se doutorou em inteligência artificial, enquanto se vai degradando com a passagem dos anos a minha inteligência natural: «O país tem promovido a formação de investigadores a um ritmo importante, de quase 1.000 novas bolsas de doutoramento por ano, muitas delas no estrangeiro. Por outro lado, quase metade dos investigadores portugueses (45 por cento) que trabalham no estrangeiro afirmam que não tencionam voltar a Portugal a médio prazo devido à "falta de oportunidades de emprego" e de "progressão na carreira", revela um estudo recente do Instituto de Ciências Sociais (ICS) pela socióloga Ana Delicado».
A ideia que eu tinha sobre a pobreza irredutível partia do facto de eu ter esquecido Portugal.

7.4.08

A GNR apaga os seus buracos

Se calhar já veio nos jornais, mas eu leio poucos jornais; se calhar já muita gente falou nisso, mas eu, salvo por razões profissionais, falo com relativamente pouca gente, ao viver bastante isolado.
A verdade é que fui jantar pelo Largo do Carmo e reparei que o edifício da GNR estava rebocado e pintado e que sumiram os buracos das balas disparadas pela coluna do capitão Salgueiro Maia quando ali estava sitiado no dia 25 de Abril de 1974 o Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, que, para que o poder não caísse na rua, entregou o mandato que não detinha - pois o Chefe do Estado ausentara-se - ao general António Spínola, que só a Revolução em curso legitimou que o recebesse assim de pessoa a pessoa.
Tudo isso é História e não há reboco nem tinta que a apague.
Se a GNR se sente envergonhada ou honrada por ter sido metralhada pelos militares é uma questão de honra que tem de dirimir. Manteve-se fiel a um regime legal, que a Revolução fizera perder a legitimidade. Mas a GNR faz como tantos outros de diversos quadrantes: branqueiam a verdade do que se passou. Agora que se clama por aí que tudo deveria ser criminalizado, que tal criar no Código Penal um crime de «branqueamento da História», a ser investigado com absoluta prioridade, segundo a próxima Lei de Política Criminal?
Quanto à sede da PIDE, que colaborava com os militares na guerra em África, e de quem o Marechal Costa Gomes, sucessor de Spínola na Presidência da República, havia recebido o «crachat» de ouro, essa já está totalmente transformada em local de «charme». Um dia, em vez da pouca História que se ensina nas escolas aos nossos meninos, lecciona-se Arqueologia Portuguesa, a começar pelo 25 de Abril.

2.4.08

O Rilhafoles

Eu, frequentemente, por obrigações da profissão de que faço ganha-pão tenho de submergir. Afundo-me em trabalho e o tempo que me resta, em vez de dormir decentemente, aplico-o a ler e a escrevinhar. Mas claro que de quando em vez as notícias atingem-me.E desta feita perdi-me: são consultores e avenças e bancos e mais partidos e governos tudo junto com denúncias, mais o subprime e o sector energético fora o chumbo na Comissão Europeia e um senhor que, em bicos de pés, de vez em quando parece querer ser líder e outro que, qual sempre em pé, parece nunca deixar de o ser. Definitivamente desisto. A noite passada estive a ler mais uma folhas do César Machado, desta feita sobre o Rilhafoles. Sempre é mais instrutivo. Gostei muito da parte dos «furiosos», mas a que recomendo é aquela que trata dos «idiotas». Até amanhã. Desta vez, vou mesmo dormir, que este País parece que está entregue a sonâmbulos.

29.3.08

O devaneio

Depois de dias de leituras forçadas, que, malditas sejam, ainda prosseguem, como soldado de infantaria por caminho pedregoso, carregando a mochila da sua ignorância, parei. Esta noite que findou há bocado, tomei em mãos o Júlio César Machado, na sua «Lisboa na Rua», na belíssima edição da Frenesi, que tem na capa um foto do Passeio Público, ali onde hoje é a Avenida da Liberdade, com portões gradeados e tudo, que dois porteiros abriam ao raiar da aurora, não sem antes fazerem uma acocorada inspecção em busca de beatas de charutos do anafado burguês, do remediado visconde ou do pelintra marchante, essas espécie de gente, figuras que ainda hoje subsistem escondidos sob outros nomes e as mesmas comendas.´
Foi uma barrigada de riso em cada folha, aquele rir saudável porque inaudível, o riso só nosso a que nada escapa e que ninguém poupa.
Adormeci com o texto sobre a tasca, a lídima, suja, covil de «chinfrim amiúdo», hedionda e escura, a do feijão com repolho e onde há pipis e fressura, a cova funda das das tosgas, dos pifões e das peruas. Nela, morto o preto caiador, que por orçamento certo estendia a sua brocha de artista do pincel pelas fachadas, empenas e sótãos desta alfacinha cidade, os outros, irmãos de raça e camaradas de copo, entre quartilhos do pastoso tinto e decalitros do irónico branco, tudo decantado a aguardente, choravam, o dormente tasqueiro por mudo ouvinte, a sorte do Cosme que «foi para aqueli lugar onde o tabirneiro não ralha com o moço por encher o copo do freguês até à borda!».
Coitado do Cosme, de «imponente carraspana, permanente, inalterável» a aliená-lo do mundo dos outros, coitado de mim, condenado a viver a vida sóbrio para ela mais me doer, coitados de todos, um bom sábado, mesmo que seja a Água das Pedras ou lá pela tarde agarrados ao devaneio da vossa loirinha, com tremoços.

24.3.08

O fundo do mar

O Jorge Palma sentiu o suficiente para ter escrito «Ai Portugal, Portugal, de que é tu estás à espera? tens um pé numa galera e outro no fundo do mar». A interpretação mais poderosa foi em 1993, ao vivo, no Johnny Guitar. Doze anos depois, o som ainda abala, a letra ainda impressiona, repto jovem a um país envelhecido. Quinze anos passaram sobre tudo isto. Estamos irreconhecíveis.

19.3.08

O novo caso da vírgula

Li hoje de manhã a Resolução da Assembleia da República n.º 10/2008, que anuncia tratar do acompanhamento da situação de pobreza em Portugal.
Vá lá ao menos não há eufemismos, está lá com todas as letras a palavra: p-o-b-r-e-z-a!
Nos termos da dita Resolução: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, o seguinte:1 — Assumir a missão específica de observação permanente e acompanhamento da situação da pobreza em Portugal, no âmbito parlamentar».
Note-se: vírgula, no âmbito parlamentar! Ele há cada uma...

6.3.08

O «Avante!» ao alcance de qualquer PC

«No dia em que o PCP assinala o seu 87º aniversário, 6 de Março, o PCP disponibiliza no seu sítio na internet o «Avante!» clandestino, correspondente ao período 1931-1974 (I, II e VI série)», informa o site oficial dos comunistas. Ei-lo aqui. Já estava aqui. Quem vir com atenção nota que, apresentando-se como um índice cronológico do jornal entre 1931 - 1974 o jornal não se publicou entre Maio de 1938 e Setembro de 1941, pois só nessa altura é que, com a reorganização do Partido se voltou a editar. É bom que «o partido com paredes de vidro» abra os seus arquivos. Em tempos perguntei a Luís Sá, já falecido tão jovem e de tão saudosa memória, onde estavam os comunistas quando o SOE britânico recrutou para o combate clandestino anti-Eixo forças revolucionárias e homens de esquerda, como Cândido de Oliveira, sobre o qual escrevi um artigo. Respondeu-me com uma pergunta: «quais dos comunistas?». Fiquei sem resposta.

5.3.08

A Cidade Sitiada

Fui à Byblos, preparado para dizer mal, porque ouvi gente a dizer que era um «bluff» no conteúdo, fria no ambiente, um hiper-mercado de trivialidades. Só que encontrei lá o que não encontavai em outras livrarias: um livro da Clarice Lispector editado em 2 000 pela Indícios de Oiro e outro dela também, «A Cidade Sitiada», saído em 1 998 na Rocco brasileira. Tanto bastou para que o sítio se tornasse amável, o conteúdo sobejante, o lugar acolhedor. Fui à Byblos encontrar-me com ela, como se tivesemos combinado um «sim, Clarice, em frente às Amoreiras, eu sei». No mais, gosto das outras livrarias, de todas as livrarias, mesmo as que vendem livros no chão, essas sim, as maiores livrarias de Lisboa, a cidade inteira o seu balcão.

2.3.08

O cão e o gato

Estive hoje a ver notícias da política e do que à política vai parar. Fi-lo, no intervalo de um trabalho que me tem consumido e por causa do qual ainda tenho de lêr a Novela de Belfagor.
Ao escrever o seu Anti-Maquiavel, Frederico, que viria a ser o II da Prússia, lembrou que em certo momento Amsterdão foi governada por um gato e explica como: o burgomestre era muito sensível aos conselhos da mulher, esta era dominada pela criada que tinha sobre ela um «ascendente absoluto», tal como sobre a serviçal o gato da casa. Atribui-se ao mesmo Frederico como última palavra antes de morrer, a frase: «enterrem-me junto dos meus cães». Eis o meu domingo, no mundo animalesco.

26.2.08

A PT

Fica-se com o telefone de casa avariado. Telefona-se para a PT. Um simpático assistente, daqueles que não nos tratam por «senhor José», mas sempre acrescentam ao nome o apelido, diz-nos que vai tomar nota da avaria e que aguardemos que nos será comunicado dentro de momentos o número da reparação. Aguardamos, ouvimos música calmante, tomamos nota. Telefonamos depois a saber, porque os dias passam. De novo um assistente, de novo música, enfim que temos de aguardar porque a reparação vai levar uns dias. Dias depois, muitos dias depois é preciso que esteja alguém em casa entre as 9 e as 11, não podem garantir hora. A linha telefónica está finalmente reparada. Já posso voltar ao mundo. «Esperamos a sua compreensão, não temos equipas que cheguem». Tenho a certeza que não. Devem ter-se mudado todas para a concorrência.

24.2.08

A rua

Há uma lei que proíbe fumar dentro de espaços fechados. Há por causa disso uma nova realidade social, visível sobretudo onde abundam lojas e escritórios, locais onde as pessoas passam mais tempo do que nas suas casas: são os fumadores de porta, plantados aos magotes, a baforar, a imagem da sua triste marginalidade exposta, como outrora os bandidos nos pelourinhos. Do ponto de vista do fumador é a condenação à ignomínia, imagem do cão que vem para a rua alçar a pata e assim lançar fora os seus dejectos. Quanto ao fumador passivo, é a exposição ao lugar infecto, a rua que os automóveis já empestavam, impunes, e onde agora se acumula o que se não quer dentro de casa.
As cidades estão a transformar-se em interiores assépticos e nitreiras exteriores. Ai de quem não entra e saia de garagem a garagem em automóvel com ar condicionado: se não correr o risco de regressar ao lar assaltado e espancado, vem pela certa com um cancro no pulmão.

21.2.08

A pedra filosofal

As histórias, sim, são como as cerejas e esse, o tempo imediatamente após o 25 de Abril, foi um momento de grandes histórias: invulgaridades inesperadas, cenas de almas torturadas por sofrimentos doridos e vergonhosos, queixumes amargos de deslocados, de quem o desleixo fez perder a respeitabilidade pela sua sorte, todo um cortejo humano de rancores, súplicas, de ânsias.
Um dia chegou ao Ministério um requerimento de um guarda prisional, que em papel selado se queixava do mísero casebre que o Estado lhe fornecia, como se guarda sendo, de reclusos, cão de guarda fosse, na sua casota, acorrentado ao dever carcerário, sob um periclitante tecto, tudo velho, desamparado, desconsiderado.
Escrito em cuidada caligrafia, pois que nesses tempos ensinava-se na escola a escrever cursivamente e sem pontapés na gramática, o requerimento lá expunha, como podia, um desejo a melhor habitação.
Um entre tantos, lá foi, por nós secretários de ministro encaminhado, para a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, então e hoje ali ao Torel, «para informar«.
Informação por vir, eis que chega um segundo requerimento. Citava o primeiro, lamentava a ausência de resposta, dizia confiar ainda numa decisão e para que o Ministro da Justiça se não esquecesse, o requerente no canto inferior direito do almaço azul encimado pela esfera armilar - como isto parece jurássico! - recortou, a lâmina, um rendilhado no meio do qual se inseria uma tímida fitinha vermelha com a legenda «para Vossa Excelência não se esquecer de mim».
Entre a risota catártica por causa da fitinha, o lamentar rotineiro por mais aquele caso de mediania serventuária, lá se mandou a segunda exposição de novo «à Direcção Geral dos Serviços Prisionais, insistindo pela resposta ao requerido».
O tempo passou e um longo silêncio ecoava tanto da parte do requerente como da entidade oficiada. O caso parecia ter entrado na montanha dos problemas por resolver, cada vez mais graves.
Um dia, entra o Costa, o dedicado contínuo, que constava havia sido polícia e que, quando chamado pela campainha, tinha ainda a pose de mãos atrás das costas, como se em estilo de formatura militar aguardasse de nós um «firme! sentido!» a todo o instante. Creio que já andávamos pelo ano da brasa, 1975, em que, pior do que em Rio Maior, onde a moca era argumento político, a norte urdia a rede bombista. Entra o Costa, ajoujado com pesado embrulho, estranho, suspeito, quase parecendo que fazia tic-tac.
Susto entre os secretários! Que seria? Quem queria fazer mal ao nosso Salgado Zenha, que conseguira do Vaticano o divórcio para os católicos, mas de alguns «saneados» a ira pelo que lhes sucedera.
Posto em cima da mesa, o pacote que esgotara do Costa os bofes, encimava-o, ao papel pardo que lhe servia de embrulho, um requerimento, mais um, em papel selado, como sempre, do mesmo guarda prisional. Rezava mais ou menos isto: «Senhor Ministro da Justiça, Excelência, eu sou aquele guarda prisional que sem sucesso tem escrito várias vezes a esse Ministério na esperança que o 25 de Abril, que tanta alegria e esperança trouxe aos nossos corações de servidores do Estado, nos desse a Justiça que merecemos e no meu caso uma habitação decente para mim e para a minha família, porque a casa que me atribuiram está a cair. Ora ontem, senhor ministro, precisamente este pedregulho, que anexo junto, caíu mesmo em cima da mesa da casa de jantar e saiba Vossa Excelência que foi por sorte (...)».
Não sei o que é feito do requerimento e da pedra. Talvez aguardem ainda, «à consideração superior, com a informação de que o processo disciplinar instaurado ante a remoção não autorizada de parte integrante de edifício pertencente ao domínio público do Estado, ainda que com a finalidade de instruir petição legal, aguarda emissão de avaliação da Direcção Geral do Património no que refere ao valor do dano assim causado pelo arguido, tendo em vista a prolação de decisão final, na qual possa ser conhecida então, como questão prévia, a matéria da prescrição do procedimento, suscitada na defesa, conforme acórdão transitado para uniformização de jurisprudência (...)».

20.2.08

O riso e o cuidado

No primeiro Governo Provisório após o 25 de Abril ao Ministério da Justiça confluiu toda uma série de cidadãos que reclamavam e exigiam, alegando uns injustiças sofridas por causa do regime deposto, outro na expectativa de que a democracia desse àquela instituição meios de actuação para lhes resolver problemas da mais diversa natureza.
Nessa altura eu tinha 25 anos de esperanças e estava secretário do ministro, o meu saudoso patrono na advocacia, Dr. Francisco Salgado Zenha.
Ora uma tarde surgiu a notícia de que estava na salinha de espera um sujeito que tinha um grave e urgente problema que exigia actuação ministerial imediata.
Já cansado, porque no meio de problemas graves e sérios e alguns dramáticos, havia também algumas bizarrias que levavam o contínuo, criatura transitada da «antiga senhora», o velho Costa - que é feito dele ? e da mulher que era telefonista - a dizer «este é, senhor doutor, o ministério dos loucos!», eis-me a ter de ir atender o impetrante, para explicar que o senhor ministro não estava - por acaso naquele dia tinha ido, lembro-me, a Belém, a uma reunião com o Presidente da República, o general António de Spínola - mas que fizesse o favor de explicar que eu, solícito, tomaria nota.
Assomando ao umbral da porta dei com ele: criatura invulgar, com um ar de angústia, ensimesmado, a viver alguma perseguição, homem mais velho do que eu sou hoje, olheiras vincadas, cabelo crespo, uma roupa que tentava passar por cuidada.
«Senhor secretário, peço-lhe por tudo, ajude-me que tenho a BBC dentro da cabeça, de dia e de noite, e o zumbido não me deixa dormir!».
Tinha já atendido muito tema, dos mais diversos aos menos esperados, mas aquele era novo, entre o patético e o risível.
Voltei para dentro, para conciliábulo com o outro secretário, o velho José António Pombinho, homem de Portel - comunista puro e duro, a facies do Lénine, cuja casa e o «nosso partido» - como ele dizia - se confundiam, a bandeira da foice e do martelo à varanda!
Regressei, momentos após, com a solução milagrosa: «esteja descansado! Escusámos de incomodar o senhor ministro. Ligámos já para os Negócios Estrangeiros e ainda hoje vão desligar a emissão!».
Saíu às arrecuas, grato por um momento de atenção, tanto bastava, era só isso antes de estoirar aquela cabeça à qual os zumbidos já não davam descanso.
Hoje está quase tudo morto, Zenha, Pombinho, Spínola, talvez ele, menos a minha memória saudosa dos tempos em que isto foi possível e eu me preocupava, entre o riso e o cuidado.

12.2.08

Manchas de memória

Há mais de quarenta anos acordei uma manhã às manchas. Manchas generalizadas, estranhas, a disseminar um aspecto equívoco, contagioso, pestífero. Minado moralmente, quase incapaz de me mostrar à comunidade dos humanos, como se lazarento fora, encurralado na gafaria dos meus pavores, acabei por procurar, sob o crepúsculo protector do entardecer e embuçado com o possível, um médico que me desse a extrema-unção clínica daquele meu estado a meus olhos pré-putrefacto.
Sujeito bonacheirão, careca luzidia, mãos sapudas que esfregava, voluntarioso, uma na outra, como se em eterno contentamento consigo, ei-lo o dermatologista procurado, ali para a Cova da Moura, comigo na sua frente, ele de olho clínico, eu em pilau, a totalidade da minha erupção cutânea ali exposta ante a luz crua do consultório, apto à anamnese, ansioso pelo diagnóstico
Foi então que se deu o inesperado. Como se num grito de guerra de estranha língua, lançou para todos os gabinetes daquela populosa policlínica, um «pitiríase rósea de Gibert!», a cujo brado acorreram, como se das crateras de Hipócrates viessem, colegas eles e elas também, todos num súbita roda prescrutadora, em torno da minha envergonhada nudez.
Foi, naquela comunidade científica um delírio de aprendizado. «Colegas», proclamava o meu doutor, ante o círculo de todos os outros, batas brancas a ladearem-me como um cerco índio ao carro coberto, «Colegas! Tal como vem nos manuais! Cor-de-rosa triste!».
Sim, era essa a cor, a minha desgraçada côr.
Lembrei-me disto ao ver esta noite, por um momento em televisão alheia, o general Ramalho Eanes falar do estado de depressão que grassa no país e eu a lembrar-me do animado Governo que temos e que se diz socialista: cor-de-rosa triste, poderia ele ter dito do que por anda!
Com uma diferença! A pitiríase rósea de Gibert, cura-se por si, o Governo, esse, só com eleições.

A lição de Dili

Uma das coisas que se nota em Dili é ser tudo muito pequeno, tudo muito perto, tudo muito comentado, como é típico nos meios pequenos. Mas o que sobressai é, como estando tudo tão próximo, tudo é tão confuso, tudo tão distorcido, tudo na base do parece que, no ouvi dizer, na intriga permanente, na luta pelo poder.
O território parece um país ocupado, à chegada sente-se um ambiente de guerra iminente. No dia dos atentados, às primeiras horas não havia policiamento, os «internacionais» pairavam expectantes.
Nota-se que não há Estado quando a segurança falha; mas o Estado já falhou quando se criaram as condições para que a segurança não seja possível.
Nisso Portugal tem de aprender com Timor. A desagregação de uma Nação velha como a nossa não é diferente da incapacidade de agregação de uma Nação jovem. Basta a irresponsabilidade dos dirigentes.

7.2.08

Dia de silêncio

Há dias em que, mesmo quem tem muito onde escrever não tem nada para dizer. Espantam-me, por isso, os cronistas por obrigação, os opinadores de serviço, os avençados da coluna, e de entre todos, os da opinião geral e universal. Deve ser um tormento uma pessoa amanhecer com notícias e deitar-se com opiniões. A meio da noite devem ter pesadelos com o que se passa nas Américas onde ainda é dia ou na Ásia onde a noite se aproxima. Depois é a política externa e os escândalos internos, as resmas livros de que se tem de conhecer ao menos a capa e a badana. São os condenados às galés do ter ideias, o corvo da realidade a bicar-lhes o fígado da imaginação, amarrados, qual Sísifos modernos, ao rochedo do fazerem-se ouvir.

6.2.08

O fidalgo aprendiz

Para demonstrar, num seu livro recente, que o povo português é, na sua intrínseca filosofia, incompatível com o espírito «maquiavélico», o professor Martim de Albuquerque, depois de refutar todos os «pretendidos» maquiavelistas do nosso Renascimento em diante, conclui dizendo que é o facto de termos criado a figura do «fidalgo» que melhor o demonstra. Ao ter descoberto ontem pela noite que essa era a conclusão, eu que, tinha visto no Isaiah Berlin que o Secretário florentino já foi apodado de tudo, de angélico arquitecto da cidade perfeita, como Piero de la Francesca e desenhou, até ao satânico inspirador do massacre de São Barolomeu, vou ler o livro e depressa, se não em busca do Príncipe, pelo menos para saber por onde pára o fidalgo, que de há muito lhe perdi o rasto.

5.2.08

A língua de Camões

Quando cheguei a Macau, há vinte anos, nem os polícias na rua falavam português. Estávamos na recta final para entregar Macau à China. Macau era «território chinês, sob administração portuguesa». A partir da Declaração Conjunta admitiu-se, por razões políticas, o bi-linguismo como forma oficial de convivência das duas culturas. Gastaram-se milhões em traduções, no ensino do português, na difusão da literatura de Portugal. Floreseceram fundações, entre elas a Fundação Oriente. O seu presidente, Carlos Monjardino, proclamou agora, segundo o revela a agência Lusa, esta frase redonda: «Em Macau, onde as pessoas estão num contexto de utilização do cantonense (dialecto do sul da China), que têm de aprender mandarim (língua oficial chinesa) e inglês há cada vez menos margem para aprender ainda o português». Esta frase visou explicar que «mesmo não sendo muitos, a Escola Portuguesa tem vindo a perder alunos». Só na escola a Fundação diz ter investido 8,7 milhões de euros.
Aquilo que era presivível, está a suceder, apesar dos discursos de então.
Terra de intriga, havia quem ironicamente chamasse a Macau a zona do bifidismo. Com mais naturalidade se fala o português em África, sem que os portugueses disso se dêm conta, ou nisso gastem um chavo de jeito.

3.2.08

Sentido único

José António Pinto Ribeiro está Ministro. Veio de administrador da Fundação Berardo. O que parece mal é ir-se da pública para a privada. «Hello!»

2.2.08

Godos e romanos

Manuel Buiça, que era de Vinhais, disparou sobre o Rei D. Carlos. Alberto Martins, deputado, que também é de Vinhais, disparou sobre a aprovação parlamentar de uma homenagem ao rei morto, que alguns desejavam ver decretada no mesmo hemiciclo onde já foram as Cortes.
O Parlamento republicano não quis que uma homenagem ao rei fosse uma homenagem contra a República, já que corria o risco de, antecipando 1910 a 1908, entroncar, no subconsciente da nação, a sua legitimidade política, não numa proclamação feita das varandas do Município, mas sim num homicídio régio no quarteirão ao lado, tudo nesta pequena Lisboa.
Esta manhã lembrei-me da coincidência transmontana de Vinhais.
Escrevendo para a Seara Nova, em 1922, Aquilino Ribeiro, a quem não é indiferente na sua escrita telúrica, a origem das espécies que por ela desfilam, descreve o regicida como «este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais persistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa de gerações, genuíno, inquieto e batalhadora como a flor estremece da raça».
Li isto e, por falar em godos, lembrei-me do Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, quando ele descreve o momento em que os romanos derrotados conseguiram absorver esses rudes homens godos de «afectos ardentes e profundos» numa só nação com os decadentes césares do meio-dia.
Fui buscá-lo à estante e lá estava o momento que se me vincou no espírito, uma vez mais: «a civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral».
Eis a miscigenação que torna a questão do regime indiferente, a diferença entre os governos nula, os Buiças deste mundo - de novo Aquilino - «argamassado, a um grau extremo, das virtudes e falhas da raça».

1.2.08

O reino do medo

Há no livro da Margarida Magalhães Ramalho sobre o regicídio, a cujo lançamento hoje assisti, neste fim de tarde inesperadamente livre, uma frase polémica e corajosa. Ela cita-a das Memórias de Raul Brandão, que ontem vi à venda numa livraria aqui ao pé de minha casa - livraria ainda de pouca clientela e onde me alegro cada vez que vejo entrar gente - e que é assim: «o Rei tinha, na verdade, defeitos, mas - diga-se! Diga-se - não foram os seus defeitos que o mataram, sim as suas qualidades». Brandão, cujas memórias eu hei-de comprar, mesmo agora que já ando a refrear tanto gasto em livros, tem na obra citada uma outra frase notável, que mostra quem manda, enfim, quando do caos: «quem governa agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Majestade o Medo».

27.1.08

O regicídio: o processo e a fuga

Como se sabe o processo criminal do regicídio desapareceu. Ao que parece teriam sido feitas várias cópias. Nenhuma subsiste. No site do centenário dão-se pormenores sobre o que teria sido o destino de cada uma dessas cópias. A 30 de Janeiro será lançado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal o livro «Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido», um livro que se enuncia como tendo 348 páginas e 400 ilustrações e resultar de dois anos de investigação de uma equipa que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, e 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Estive ontem a ler um estudo sobre o regicídio da autoria de Miguel Sanches de Baêna. Num certo momento da sua narrativa e falando das actas do julgamento escreve: «essas mesmas actas apareceram nas mãos de um particular, que permitiu, a título privado, a sua consulta». E antes cita Aquilino Ribeiro [citado nas Memórias de Raul Brandão, II] «existe uma acta do regicídio que me trouxeram aqui à biblioteca [Nacional] para eu ver». Baêna não diz quem é o particular que tem as actas e que o deixou lê-las. Aquilino não disse quem lhe levou o documento ou porquê. O livro de Baêna é prefaciado por António Reis, Grão-Mestre da Maçonaria.
Mais diz Baêna que a carabina Winchester utlizada por Buiça para matar o rei, com o n.º de série 2137, comprada na espingardaria de Heitor Ferreira, que ainda hoje existe, junto à estação de caminho de ferro, no Rossio «está actualmente na posse de um particular».
A espingardaria, diz, passou a chamar-se «Espingardaria A. Montês», de António Eduardo Montês, antigo empregado de Ferreira, o local da sua sede o actual Largo D. João da Câmara, então chamado Largo de Camões. Quanto ao particular dono da relíquia, fica na penumbra.
Eis pois.
A 1 de Fevereiro, umas centenas de metros do local da compra das armas, no Terreiro do Paço, dava-se a «sinfonia da morte», morrendo D. Carlos e o Príncipe Luis Filipe. A Justiça encarregar-se-ia, tansformando o crime em processo, de não descobrir os mandantes. Manuel dos Reis da Silva Buiça, professor, assassino do Rei e Alfredo Luís da Costa, comissionista, que matou o Príncipe, foram condenados sumariamente no local, mortos logo a tiro, sofrendo a morte que deram.
Já com os corpos no Arsenal, compareceu o Ministério todo, excepto o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho. Escreveu Dom Manuel II, sucessor no trono, no seu diário íntimo «isso não poderei nunca esquecer é que fazendo parte do Ministério do meu querido Pai quando foi assassinado não foi ao Arsenal! Diz-se (não o quero afirmar) que fugiu para as águas-furtadas do Ministério da Fazenda e ali fechou a porta à chave! Seja como for agora seis meses que Meu Pai e Meu Irmão de chorada memória foram assassinados e nunca mais aqui pôs os pés!».
É a lei do eterno fugir, uns a não verem outros a não saberem, todos a não serem. Viva Portugal.

26.1.08

O Bastonário e suas declarações

Desempenho, como é sabido, funções de Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Exerço a advocacia. Sou cidadão. A primeira qualidade não exclui as duas seguintes. Tenho é de tornar claro que há um local e um meio de o Presidente do Conselho Superior se exprimir. Não é este, não é aqui.
Mesmo levando isso em conta e podendo refugiar-me numa qualidade não oficial, não vou comentar as afirmações do Bastonário da Ordem dos Advogados, nem o facto de, por causa delas, o Procurador Geral da República ter ordenado a instauração de um inquérito criminal.
É que sobre isso, no plano público, está tudo dito. Resta aguardar que as instituições funcionem. Essa, sim, é a questão. Até aqui, são afirmações e um comunicado. Ponto.

25.1.08

O Ministério do Interior

Houve tempos em que o Ministério da Justiça era o Ministério das Leis. Depois, com Santana Lopes como Secretário de Estado, as leis passaram para a Presidência do Conselho de Ministros. Almeida Santos e Mário Raposo passaram a ser os últimos guarda-selos da legalidade.
Um dia, ironizando, escrevi que o Ministério da Justiça era o Ministério dos Equipamentos Judiciários - por mandar construir tribunais e mobilá-los - e dos Monumentos Legislativos - por encomendar Códigos a professores e a comissões -.
Vem agora o líder do PSD sugerir que se integrem num Ministério só o da Justiça e o da Administração Interna.
No bojo de tal pensamento não está tornar a segurança interna uma dependência da Justiça, fazendo triunfar a Lei sobre a Ordem. Está precisamente o contrário.
A seguir-se este caminho, os juízes, os procuradores e os advogados, que de vez em quando ainda pensam que é Alberto Costa o seu interlocutor, que se preparem. No futuro tratarão dos seus assuntos directamente no Governo Civil.
José Sócrates bem pode agradecer a Luís Filipe Menezes. Ambos são o verso e o reverso do mesmo, a ânsia de autoridade, o triunfo da ambição.
Gonçalves Rapazote era capaz de ter vergonha de pensar isso. Tinha Manuel Cavaleiro de Ferreira e António de Oliveira Salazar que não lhe permitiriam tanto.

20.1.08

Piadas fedorentas

Houve tempos em que havia temas que eram objecto de recato, um deles as convicções religiosas. Não que a Literatura não haja denunciado o abuso do pároco, a licenciosidade clerical, a falsa devoção de sacristia, o frei glutão. Mas fazia-o em nome do respeito à fé alheia, para que se não ofendesse a intimidade das convicções, em nome do perfeito, do justo, do divino. A seriedade do sagrado era o limite à ironia do profano.
Há pouco vi uma palhaçada ridícula no canal público de televisão de achincalhamento grosseiro, inútil, desnecessário e vil a Ordens Religiosas. Chamava-se «E tudo o convento levou».
O Ocidente está no seu estretor. Passado o Mediterrâneo, esse antigo lago romano, há quem dê a vida pela fé. A vida própria e a dos outros.
Aqui confundimos alarvice com piada, boçalidade com humor. Isto no canal do serviço público, o tal canal.

18.1.08

A República e o Feudo

Quando o ministro da Justiça diz, numa «boutade» que «Portugal não é uma República de Procuradores», eis uma grande notícia, porque a frase diverte, sobretudo os que acham que Portugal se está a tornar numa «República de procurados».
Quando o Procurador-Geral da República disse que o Ministério Público é «um feudo de condes, viscondes e marquesas», a frase divertiu muito mais, sobretudo os que acham que a Justiça se está a tornar num campo pedregoso de servos da gleba da courela forense.
Mas quando o Procurador-Geral da República, depois de alimentar fartas expectativas de que o Governo ia mudar na legislação penal que impôs ao país, volta das alcatifas do Ministério, vazio de esperanças e diminuído na sua fé, percebemos tudo: à falta de ideias, vivemos de «bocas», à falta de resultados, de «modos de dizer».
Não são altos dirigentes, são fazedores de títulos de jornal, em caixa alta. Uma chamada à primeira página é o seu dia de glória.

Uma aventura dos cinco

Vieram a Lisboa, chamando-se «cinco rapazes da província» para dizerem a Lisboa que, para vergonha de Portugal, tinham criado uma editora no Algarve.
É que vieram contar, no Museu da República e da Resistência em Lisboa, onde se reuniram então para apresentarem a sua editora, que foi no Algarve impresso o primeiro livro nesta Nação, o Pentateuco e no mesmo Algarve, hoje, desertificado, não havia sequer uma editora.
Surgiu pois a editora deles. Chamaram-lhe «Gente Singular», por causa do conto homónimo do Manuel Teixeira-Gomes, de Portimão, escritor e presidente que foi da República, que como aperitivo saboroso, deram à estampa.
É deles, como primeiro livro, a tese do António Rosa Mendes sobre um fidalgote cultivado.
Estive ontem, eu que nem sou de Lisboa mas de Portugal tantas vezes envergonhado, no Algarve da sua editora e já tinham um segundo livro, de versos, do Fernando Cabrita.
São cinco rapazes que se julgam «da província», quando somos nós, os labregos de Lisboa, impantes de basófia a ter de aprender com eles. Paulo Custódio, Rogério Silva, Carlos Lopes, para além daqueles dois, se isso é a província, abram lugar para mim!

17.1.08

Aviso aos legisladores!

Qual caixeiro-viajante do Direito, em viagem do Norte ao Sul, ouvi na rádio que no Parlamento encomendaram dísticos para afixarem dizendo que é proibido fumar. Milhares de euros em dísticos.
Espantoso que os do local de onde saem as leis, tenham de ter avisos para não se esquecerem de cumpri-la, à dita lei segundo a qual é proibido fumar em lugar onde funcionam órgãos de soberania. Só se for porque o artigo 4º da refeida lei, ao falar em lugares proibidos, estabelece uma dicotomia entre lugares onde funcionam os órgãos de soberania e os locais de trabalho e o legislador esteja em grave dúvida interpretativa sobre o segundo caso não engloba o primeiro.
Citando, para melhor rir:
«1 — É proibido fumar:a) Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da Administração Pública e pessoas colectivas públicas; b) Nos locais de trabalho; c) Nos locais de atendimento directo ao público [...]»!