Plágio? Isso era antigamente. Agora com a globalização e as modernas teconologias de comunicações e sofisticação de software a realidade é outra. O próprio escusa de se maçar. Quer comprar uma tese universitária, um ensaio académico, um simples trabalho escolar, ou um relatório profissional. É fácil? Através da net consegue-o a preços módicos. Não importa onde está o ghost writer. Há sempre uma agência que consegue satisfazer a encomenda. Leia aqui e fique a saber tudo. Mais: um sistema de tratamento de texto apaga a possibilidade de se encontrarem semelhanças. Melhor do que poderem ser trabalhos originais, são trabalhos que parecem originais.
23.3.09
22.3.09
O país em chamas
Chega-se a casa, espreitam-se as notícias e vê-se que há quinze incêndios activos no nosso país. E estamos na Primavera. Não tenho outro fundamento para dizê-lo salvo uma intuição: Portugal não pode estar a arder por acaso. Suspeita-se disso quando há razões de canícula para a nossa terra estar em chamas. Mas agora? Dito isto e porque vejo poucas notícias fica-me só esta dúvida: ante uma situação em que agora as florestas amanhã os espíritos, tudo arde, algum responsável já apareceu a dizer que urge encontrar responsáveis pelos incêndios? Não digo pelo fogo posto, ao menos pelo deixa arder.
21.3.09
Coragem, angolanos!
Houve um tempo em que se me pedissem dinheiro para a fome em Angola, eu talvez desse. Não por ter nascido lá, mas por me sentir condoído com a miséria. Ou talvez não desse porque de Angola havia dirigentes com má fama. Mas hesitava em não dar.
Hoje é o dinheiro de Angola que compra empresas, bancos e jornais em Portugal. Estão ricos.
A mesma geração que chorou Angola, hoje nem pena chega a ter de Portugal. Agora está lá o Papa. José Eduardo dos Santos tem motivos para estar feliz. Bento XVI apelando aos jovens angolanos pediu-lhe «coragem». Claro! A de Cristo na cruz.
20.3.09
Tanques ou tractores
Em 22 de Junho de 1934 o Dr. Ferdinand Porsche aceitou criar o carro do povo para Adolph Hitler. Saiu o Volkswagen, cujo nome quer dizer precisamente isso, o carro do povo. A ideia era criar um utilitário barato que pudesse ser comprado com as poupanças de qualquer trabalhador. Cinco marcos por semana de aforro bastavam: «Fünf Mark die Woche musst Du sparen, willst Du im eigenen Wagen fahren» [cinco marcos por semana deves poupar se quiseres guiar um carro, eis o lema que o nacional socialismo prodigalizaria].
Em 1928 a BMW [Bayerische Motoren Werke] lançou-se na produção de automóveis, por ter sido impedida pelo Tratado de Versalhes de produzir aviões. Voltaria a produzir motores para a aviação militar alemã, a Luftwaffe, a partir de 1930.
Este ano, segundo a imprensa financeira, «os lucros da Volkswagen (VW) cresceram 26 por cento no primeiro trimestre de 2008, para 929 milhões de euros», mas mesmo assim a companhia vai pedir ajuda ao Governo alemão; enquanto isso, a BMW admitiu esta quarta-feira que «teve uma quebra de 90 por cento nos lucros».
A continuar assim a depressão económica não é de estranhar que haja quem pense, revivendo do keynesianismo o lado macabro, no efeito multiplicador de uma guerra: por um lado estabiliza a demografia por outro fomenta a produção. Fabricar tanques ou tractores tem sido sempre a hesitação de muitos estrategas. Na América Obama fala já em produzir um milhão de automóveis eléctricos até 2015. Oliveira Salazar diria numa carta ao nosso Embaixador em Washington:«cuidado, senhor Embaixador, os americanos não são um povo iluminado por Deus, sim pela electricidade». Fim de citação.
P. S. Claro que há o pacifismo cínico, que o Boris Vian ironizava ao dizer: «la guerre ça doît être trés nuisible au commerçant, car elle détruit le client!». Infelizmente no campo dos horrores humanos, a paz também é um negócio.
19.3.09
Um país que estava sem tino
Um jornal noticia: «Tino de Rans é candidato independente em Valongo». Aqui.
Ora houve um tempo em que o Tino de Rans podia ser objecto da chacota e do riso, da chalaça e da mofa. Hoje dilui-se na paisagem local. Aquilo que fazia dele objecto de culto pela negativa, era ser o anverso dos citadinos pipis da política. «Eu só vou cumprimentar o engenheiro António Guterres mas, perdoem-me, eu mereço!», foi um dos seus momentos altos e de glória. Para ver mais, aqui.
Provedor: e depois do adeus!
O Provedor é eleito pelo Parlamento e deixou-se eleger. O Parlamento é formado por partidos. O Provedor não mais é substituído pelo Parlamento, apesar de o seu prazo de validade ter terminado, porque os partidos não se entendem. Agora o Provedor que se deixou eleger pelos partidos atira-se a um dos partidos, no caso ao PS, porque nunca mais o deixam sair. Está tudo na TSF.
O Provedor tem razão em querer ir embora, mas ao Dr. Nascimento Rodrigues não fica bem dizer o que diz. Dir-se-á que esperava dos partidos outra atitude. Talvez tivesse essa ingenuidade. Mas onde o fundamento resvala é quando o ainda Provedor sugere que seja outro partido, o PSD, agora a escolher o seu sucessor.
Ora aí está. O Provedor da cidadania passa a Provedor da partidocracia.
No meio desta tristeza, tenho uma melhor ideia: extinga-se o cargo. Em nome já não de valores, mas sim de interesses, o dos contribuintes não terem de suportar aquilo que, nisso Nascimento Rodrigues tem razão, é uma «comédia à portuguesa». É verdade que o cargo de Provedor vem na Constituição. Mas não faz mal. Há tanta coisa que vem na Constituição...
P.S. A dita TSF noticia, a fechar a sua prosa: «Recorde-se que, Nascimento Rodrigues foi nomeado pelo governo de António Guterres em 2000». Riam-se. Quando a própria imprensa já acha que o Provedor não é eleito pelo Parlamento mas sim nomeado pelo Governo está tudo dito!
La donna e mobile
Lê-se na imprensa económica que «as pop up stores Reebok são lojas temporárias, cujo tempo de permanência não excede um mês mesmo local, e vão estar presentes em diversos centros comerciais do país, e numa primeira fase, no primeiro semestre de 2009 (entre Março e Maio), refere o comunicado». Cito: «As lojas têm o formato de quiosque, com cerca de 15 a 20 metros quadrados e foram concebidas especialmente para o sexo feminino».
Neste ambiente de crise e de falências, lojas que não ficam muito tempo no mesmo lugar é o que há mais. Agora, pelos vistos, o conceito de instabilidade perde a sua carga necrológica para ganhar um tónus de vida, de modernidade, «concebidas especialmente para o sexo feminino». Fantástico! «La donna è mobile qual piuma al vento, muta d'accento e di pensiero».
28.2.09
O país de encarcerados
Quando o Canjica barbeiro, Porfírio Caetano das Neves de seu nome, que comandou a revolta contra a Casa Verde, «essa bastilha da razão humana», invectivou o padre Lopes querendo saber se sua Reverendíssima não estaria contra a nova situação revolucionária ou se aceitaria celebrar um Te Deum que conjugasse, numa só voz, o poder espiritual oriundo do Céu com o novo poder temporal ansioso de legimitação ao menos celeste, o mundo mostrou o que é.
Esperando, de «aspecto tenebroso» a resposta do vigário de Cristo, ouviu-lhe o novo cônsul, auto-proclamado protector da vila em nome de Sua Majestade e do povo, a sábia fala: «como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?»
O conto de Machado de Assis, é a história da revolta popular contra o alienista Simão Bacamarte, que lentamente esvaziava a cidade da sua população sã, em todos descobrindo loucuras, internando-os.
Lei da natureza humana, a que a experiência do padre Lopes absorvera, «dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo». Um outro barbeiro surgiria dizendo abertamente pelas ruas que o Porfírio estava vendido ao outro do Bacamarte. Duas horas depois o Porfírio, médico que estudara por Coimbra e Pádua, com banca agora em Itaguaí, onde se enraivecera no encarceramento das patologias cerebrais, caía.
Descobri isto entre os livros que tenho para acabar de ler. Daqui a pouco vou fazer um esforço e tentar ler jornais, para ver como vão os Bacamartes e os barbeiros no nosso país de encarcerados.
24.2.09
A folia
A ideia de Carnaval traz dentro dela duas outras ideias: a de mascarar e a de divertir. A ideia de mascarar traz no bojo dela a ideia de divertir. No fundo as pessoas mascaram-se para a coberto de um outro ser conseguirem o que, confiadas a si próprias, não conseguem: rir-se.
A particularidade final e por isso mais digna de nota é, porém, outra: a ideia de divertir traz dentro no seu âmago a ideia de mascarar. Fecha-se o círculo. As pessoas riem-se para simularem a dor que trazem dentro. A folia é para esses heróis anónimos uma forma de loucura.
18.2.09
Portugal me mata
O país de brando costumes transformou-se, agora na escala dos que têm maior taxa de homicídios na Europa Ocidental, num país de bando e curtumes.
Portugal é um país de suicidas escreveu Unamuno, amigo de Manuel Laranjeira, suicida também. Portugal é um país de homicidas escreveria hoje o pobre viajante.
O fado anavalhado transformou esta raça de deprimidos em casta de enraivecidos.
Claro que há os estrangeiros aqui emigrados. Não fui ver as estatísticas para concluir quem mata mais. Complexado como é, o português ficaria pesaroso se, até no matar o outro, não fossemos os primeiros, mesmo que pelas últimas razões. O português julga-se o melhor e pensa de si o pior. Quando não morre de desgosto mata de raiva.
11.2.09
A torradeira da Obama
A ânsia de esperança dá na facilidade da desilusão. Está a suceder isso, rapidamente, com o presidente dos EUA. Esta madrugada a Agência Financeira titulava: «Wall Street fecha muito desanimada com Plano Obama».
No capitalismo, a bolsa de valores, é o boudoir dos sentimentos. A falta de crença traduz-se logo em dinheiro, a euforia em riqueza. É um sistema que sente no bolso.
Claro que estamos a entrar num túnel de imprevisível saída. Segundo reporta a TSF esta noite: a «Nike vai despedir cerca de 1400 pessoas em todo o mundo»
A Nike, como se sabe, nasceu através de um treinador de atletismo universitário, Bill Bowerman e o seu sócio Phil Knight, que «efectuaram várias experiências com a torradeira elétrica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha a fim de descobrir uma sola melhor adaptativa à performance desportiva e ao bem estar».
A Casa Branca ensaia também, agora com a sua nova torradeira eléctrica. A Europa espera ansiosa, em Portugal a laracha da propaganda e da demagogia desfaz-se em ilusões funestas, convencendo-se no que não acredita.
8.2.09
Nobres metais
A rua é larga e cruza a Avenida da República. Quase na esquina, serpenteando entre os automóveis que param ante os semáforos, ei-lo. Tem dia certo. É sempre aos domingos de tarde. No Inverno veste uma samarra com gola de pele. Tem um aspecto cuidado, um toque de camponês em Lisboa, mas dos camponeses que são a senhoria das aldeias. Não fala. Estende as mãos, em cada uma pendente um saquinho em plástico contendo o que oferece: bolacha americana. Muito de vez em quando há quem compre. Indiferente ao seu magro comércio, este homem, perdido no tempo, numa Lisboa já estranha e mais estranha ainda porque domingueira, prossegue o seu bailado, volteando, ágil, refugiando-se no passeio à iminência do sinal verde. Hoje, pois chovia, tinha uma mão ocupada com um elegante guarda-chuva. Na outra, esperançados em que alguém os levasse, dois sacos, quais aves presas pelas patas aguardando freguês, reluziam à morrinha que o fim de tarde tornava prata, a ornar aquele coração de ouro.
1.2.09
O fungagá da bicharada
Quando esta manhã chovia que até fumegava, quando há pouco vi na meteorologia que ia continuar a chover, lembrei-me que aqui há uns tempos os futurólogos previam a desertificação de Portugal. Levando-os a sério, imaginava então um país sequioso, coberto de cactos e povoado de camelos. Não errei totalmente nessa minha fantasmagoria. Falhei sim, porque acreditei nesses fautores de possíveis apenas porque afinal chove que os cães a bebem em pé. Zoologicamente sempre faz a sua diferença, convenhamos.
20.1.09
A Xica
Antigamente escreviam-se cartas que seguiam pela mala postal do próximo vapor. Quando era muito urgente telegrafava-se.
Antigamente os sentimentos cumpriam o horários dos paquetes, dos comboios, dos correios.
Antigamente a hora de chegada do carteiro era o momento mais ansiado, mais odiado do dia.
Antigamente o abrir de um envelope era o instante do aperto do coração.
Antigamente escrevia-se em papel de carta muito fino para cada missiva não pesar mais, às vezes aproveitando o verso e o reverso da ténue folhinha.
Antigamente os que não escreviam, aproveitavam um canto final do que estava livre para acrescentarem os beijinhos, os abraços, os xis, as recomendações de todos os que se associavam de modo breve ao acto de se ter escrito.
Antigamente algumas cartas traziam fotografias, sujeitas à curiosidade, outras notas de banco escondidas, com risco de extravio.
Antigamente havia cartas perfumadas, cartas tarjadas de negro, cartas comerciais com facturas e outros efeitos na praça.
Hoje temos a internet e com ela o estarmos instantaneamente a toda a hora e por toda a forma em todo o lado.
Quando a rede falha e estamos longe, sentimo-nos abandonados à nossa sorte. Nem um aerograma, ao menos, em correio aéreo, nós por cá todos bem, saudades à mamã, à Xica e aos meninos...
19.1.09
Haja Deus
Claro que há a pobreza e a desordem e o desnível social. Há sobretudo a ideia de que o ser humano aqui arrisca muito por tão pouco, todos os dias, porque cada dia é uma aventura. Mas há a tabuleta de letras em amarelo, um toque mais de cor berrante entre filas desordenadas de barracas, lugares de habitação, de comércio, de tantas formas pelas quais se sobrevive, sob o calor e o pó: «Cabeleireiro Deus É Pai!». Dentro fazem-se prodígios de ondulação, maravilhas em madeixas. No momento em que passei, vinha o requebro de franjinha. Ria-se ela e ria-se em redor a Natureza, com tudo o que de humano aqui nela se inclui.
Nunca o meu pouco cabelo se sentiu tão só.
17.1.09
Os telhados de zinco
Nasci em Malanje. Quando a guerra começou na Baixa do Cassanje eu estava em Malanje. Vivi a chegada dos primeiros caçadores especiais, as primeiras imagens das chacinas, o ambos os lados da violência. À noite as mangas a cairem, pesadas de tão maduras nos telhados de zinco, pareciam tiros de canhangulos. Depois arrancaram os olhos a um taberneiro perto, chacinaram a metralhadora pela noite na ponte do rio Cuanza. O meu pai comprou uma espingarda 22 Long e seiscentas balas. Um dia acordei abraçado a ela, transido de medo.
Lembro isto porque de link em link, que os amigos mandam, vi imagens.
Passou por cima de nós a asa do avião, numa tarde de sábado, como hoje, a improvisada pista do campo de aviação, o chão esburacado, o risco iminente, o carro do meu pai e tantos outros a ladearem a pista, os faróis em oblíquo, para iluminarem o local da aterragem. Era escuro já. Murmurava-se que o Nordatlas trazia armamento para o quartel. Este Nordatlas. Ainda hoje guardo na memória o roncar dos motores.
16.1.09
A lindinha
Ouvia distraído rádio quando ele, futebolista, falava. Acho que tinha vindo de África ou do Brasil, esse pormenor não retive, mas tinha aquele entusiasmo tropical e, pelos vistos, aquela habilidade natural para dar pontapés e correr atrás de um bola que fazia dele e tantos iguais heróis de culto e figuras de luxo, pagos a ouro.
Vim aqui escrever porque, ao tentar dizer, numa frase só qual o seu grande objectivo em campo, aquela missão que dava a todos os seus músculos um fito e lhe povoava a cabeça de ideias tácticas fazendo de cada corrrida um propósito, de cada finta um instrumento, de cada remate uma apotesose, explicava que a ideia era «meter a lindinha lá dentro».
Rejubilei! Revi-me em êxtase, o estádio da vida em pé, eu, glorioso, olímpico, sumamente viril, a lindinha lá dentro.
14.1.09
O coveiro e o covil
Não resisto!
Chegou por várias fontes.
Circulará já na Net.
Mas aqui vai!
No aviso nº 11 466/2008 (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J. para um cargo de assessor, cujo vencimento anda à roda de 3500 euros. Na alínea 7 do dito aviso consigna-se que o método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na apreciação e discussão do currículo profissional do candidato.
Pois bem.
No aviso da pág. 26922, oriundo da Câmara Municipal de Lisboa anuncia-se concurso externo de ingresso para coveiro, cujo vencimento anda à roda de 450 euros mensais.
Ora o método de selecção neste caso é outro.
Primeiro, prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças;3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Além disso, claro, conhecimentos de transporte e remoção de restos mortais.
Primeiro, prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças;3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Além disso, claro, conhecimentos de transporte e remoção de restos mortais.
No final, exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato, não vá, claro, os mortos candidatarem-se.
Bem se ria o falecido Fernando Luso Soares num dos seus livros o Vontade de Ser Ministro, quando fantasiava, no quadro do antigo regime, com a história de um candidato a cargo por perbenda das senhoras autoridades e figuras gradas, que, ansioso por ser ministro, se viu convencido de que o lugar de inspector dos cemitérios era, na outra senhora, um dos lugares de maior importância política, sabido que os empedernidos e pertinazes reviralhiastas não perdiam pitada para armar motim no Alto de São João com discursatas republicanas, nos Prazeres com efemérides democráticas e por onde calhavam a pretexto de sepulcro lançar a simbólica de ornamentações amaçonadas e aventaleiras, que isto a pedreiragem, ademais jacobina e anti-talassa, tem artes de dianho.
12.1.09
O monumento à desumanidade
Há uma estação ferroviária que se chama Gare de Oriente. É um local inamistoso, em que um imenso pé direito simboliza a opressão de um céu de cimento, onde os grandes átrios são desertos gélidos para solitários viandantes. Acantonadas nos esconsos, como se escondidas de gente, bichos na floresta de betão, umas lojecas tristes, vendem sensaborias, algumas tragáveis como refeições.
Quem desenhou aquilo odiava comboios, tinha repugnância por viagens, rancor de todos os que são passageiros. Arquitecto da desolação fez ali o monumento à desumanidade.
Há a oriente de Lisboa e a Sul de Chelas um sarcófago por cima do qual passam comboios, nas tripas do qual passa o metropolitano, onde nos labirintos intermédios se atulham automóveis e nos entrefolhos urinados do qual estive eu e outros ensonados para a composição das sete e nove.
Na plataforma fazia frio. Quando não faz frio faz vento. Vindo de Auschwitz, os vagões entraram no horário, a caminho dos fornos crematórios das vidas queimadas a trabalhar. Alguns na ilusão da primeira classe.
7.1.09
Risco coberto
O meu pai costumava dizer que havia duas coisas de que não tencionava morrer, uma de susto, outra de parto.
Eu, naquela fase em que a virilidade se afirmava e com ela o gosto de exibir audácia, adorava repetir a graça. Depois foi ficando a piadinha, mesmo quando a masculinidade não precisava de demonstrações verbais.
Estava tudo muito certo até ter atentado no que me trouxe hoje o correio. Uma companhia de seguros, que cobre o meu futuro cadáver e a quem pago para gozo daqueles a quem o meu ser cadaveroso aproveite, explica-me, numa cartinha assinada por dois administradores que, entre outras coisas, me garante por apólice ressarcir do risco de parto. Isso mesmo.
Fico-me pois pelo susto. Ou melhor, já não fico.
De ora em diante vou precaver-me a sério, porque pior do que um parto de alto risco ainda é uma gravidez indesejada. E essa não sei se a seguradora, na hora do néné, não se tenta escapulir, entre as letras miudinhas, escrita a corpo oito.
Ele há coisas que nos seguram sem que um cristão saiba por onde!
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