26.2.10

O estado do Estado

É a natureza do Estado burguês, a questão. Diria melhor, é a natureza do Estado, a questão. Lugar autoritário dos arranjos de interesses, não é palco de imoralidade ocasional, ele traduz a própria imoralidade da luta intestina pela posse dos bens, pela titularidade das relações de domínio, pelo poder.
Espaço privado da mercantilização da vida, tudo nele é jogo de predação, de transacção, de compensação.
Quando no Governo se nomeiam amigos e se compram inimigos, a lógica argentária é a mesma.
Na bolsa de mercadorias em que se transformou a vida política há uma só regra que é a de manter de pé a livre e sã concorrência, distribuindo o saque por todos na proporção da força de cada um, para que todos se calem quanto ao essencial. A fome é má conselheira e o primeiro insatisfeito é  o primeiro delator.
O Estado nunca foi, salvo nos compêndios de alguns abstraccionistas, uma realidade em si. Ele é o instrumento de uma cristalização de interesses, de classe ou de bando. Os partidos são a forma civilizada de organizar a animalidade das comedorias. As imaterialidades não venais essas que cuide delas a sociedade civil.
É por isso que a educação pública é péssima e a saúde pública um vómito: é que elas são para os que estão fora do jogo do poder, os desapossados.
É por isso que há quem, estando no Estado, saque vantagens e file comissões. Não é por falta de ética. É porque o Estado é deles, para viverem à conta dele e através dele que tudo é asim, negócio particular num Estado privatizado. 
Claro que de vez em quando as autoridades perseguem a corrupção descarada e a prevaricação excessiva. Nessa altura o negócio torna-se mais caro, o «spread» do acesso ao Estado mais alto.
Por altura das eleições, investe-se no futuro comprando propaganda. Os que não estão no Estado não conseguem pôr o Estado a pagá-la. Os outros acham isso natural. Tão natural como a sua sede de mando e de oportunidade.
O mais, é literatura e espanto.

Zoologia jurídica

O Direito tem esta coisa notável é ser uma invenção humana. Alguns iludem-se a procurar-lhe uma razoabilidade para além do voluntarismo autoritário, outros uma antropologia que o retire como grandeza da estante trivial das banais coisas sociológicas. Coitados deles.
Vem isto a propósito desta notícia: «Dois jovens de Matsinho, Gondola, centro de Moçambique, foram apanhados pela polícia a manter relações sexuais com uma cabra e agora os donos do animal exigem indemnização e casamento. O caso está em tribunal».
Mas vem sobretudo ainda mais a propósito desta segunda parte da mesma notícia: «"Recebi o caso e já remeti ao tribunal. Mas os jovens serão ouvidos em juízo por furto simples qualificado e não necessariamente por prática sexual, pois a nossa Constituição não acomoda este tipo de acto", disse à Agência Lusa Leonides Mapasse. Fora do processo-crime, acrescentou o magistrado, o ofendido (proprietário da cabra) pode intentar processo civil e moral contra os dois jovens pela prática sexual com a cabra».
Ora ante esta inconstitucionalidade por omissão, segundo a qual a Lei Fundamental de Moçambique não protege as cabras de serem fornicadas, que tolo sou quando me ria, há algum tempo, porque um maduro procurador da República se lembrou de acusar alguém de furto porque as suas ovelhas pastavam no prado de um vizinho. «Crime que se consumava por regurgitação», casquinou o advogado que por causa do chiste levou com uma participação disciplinar.
Ora Portugal tem muitos defeitos. Mas defende melhor as suas ovelhas penalmente do que Moçambique as suas cabras constitucionalmente.

24.2.10

O paradoxo do mentiroso

O primeiro-ministro é acusado mais do que mentir, de ser um mentiroso. O Procurador-Geral da República exige que os jornais reponham a verdade, os jornais dizem que os jornais mentem. A Casa Civil da Presidência da República vem a público dizer que as afirmações de um jornalista são de há muito falsas. Um pouco abaixo leio que até os adeptos do Futebol Clube do Porto exigem a reposição da verdade desportiva.
Em Portugal já ninguém escapa ao labéu da aldrabice, à suspeita da pantomina, à fama da patranha. Até António Benedito Afonso de Eça de Queiroz esclarecia outro dia dúvidas sobre a orientação sexual do seu bisavô.
Teatro de sombras e de espelhos, entre robertos e polichinelos, não se sabe já o que é falsete nem onde estão os ventríloquos. Mercado de ilusões, passa o pechibeque por ouro de lei, o crédito por saldo, o mini-prato por refeição decente.O Orçamento mente aos contribuintes, os contribuintes enganam o Orçamento. No meio, fica a política como arte do embuste.
Caminhamos para o ponto em que quem disser que está mentindo é o que diz a verdade. É o paradoxo da tanga.

22.2.10

Cansados de ganhar

Tremendo, pessimista, triste, amante do faduncho, casado com o Destino, o português mascara o complexo de inferioridade com a arrogância de se julgar o maior. Olhando-se ao espelho ri-se do outro.
Este mesmo português perdedor com argumento e derrotado com razão, certo de que nem Deus lhe vale porque há horas do Diabo, deve ter-se revisto nas palavras do treinador do Benfica segundo o qual no clube encarnado estavam «cansados de ganhar muitas vezes».
Fiquei, porém, com uma grave dúvida. Segundo o Público, a frase foi «estamos cansados mas é de ganhar muitas vezes»; para o Diário de Notícias o dito foi «cansados só se for de ganhar muitas vezes».
Há, e os linguistas que me socorram, uma substancial diferença nas duas formas de dizer, mesmo estilística, porque o «mas é», qual salto à vara verbal, projecta o corpo além da sombra que o persegue, é rebarbativo ao retorquir; já o «só se for» traz um sabor reticente, justificativo, como quem se desculpa pelo acto e pede perdão pelo facto.
«Igual a si próprio» escreve o Record, eis Jorge Jesus, um dos muitos portugueses que estão cansados de ganhar.
Entretanto José Mourinho levou três jogos de suspensão. «Só se for» pelos protestos teatrais, pensarão uns. «Mas é» mesmo por causa disso pensou melhor ainda o árbitro Gianpaolo Tose. Também ele estará cansado de ganhar. Agora faz gestos, arrogantes, carregado de complexos, inferiores.

21.2.10

Fúrias

Quando li os vários volumes da biografia de António de Oliveira Salazar, escrita pelo falecido Embaixador Franco Nogueira, impressionou-me constatar os períodos de depressão a que o chefe do Governo era dado, com estadas de reclusão na sua modesta casa em Santa Comba Dão, quase incomunicável, e deixando os seus poucos colaboradores angustiados quanto ao que fazer.
Agora há o risco de ser a histeria, a doença que começou por ser uma forma de furor uterino. A classe política pelos vistos sofre de acessos de cólera que se não indiciam isso deixam dúvidas suficientes. Eram conhecidas as fúrias de Mário Soares, são conhecidas as de José Sócrates. Os jornais à falta das primeiras noticiam as de Gordon Brown. «Os alegados ataques de fúria e gestos de intimidação contra colaboradores atribuídos a Gordon Brown obrigaram o primeiro-ministro britânico a defender-se na televisão, garantindo que "nunca" bateu em ninguém», diz o Público, aqui. Dizem os psicanalistas que a histeria é uma feminilidade fálica. As vítimas das fúrias, compreende-se, podem não gostar.

20.2.10

A voz da ambição

A política, a porca da política perverteu tudo. 
Ainda com os mortos por enterrar na Madeira, por causa da tragédia desta madrugada, com a televisão a passar imagens lancinantes da inundação, ouço declarações em série, de políticos locais da oposição quanto à medida em que a desregulação urbanística de que o Governo madeirense é culpado foi responsável pelo desfecho. O Governo
Alguns dizem que não querem fazer política, mas estão a fazê-la.
Impressiona! Ofende.
Não digo que, ante o sucedido, não se deva fazer um balanço. Não hesito em que os privados, os funcionários e os políticos, todos quantos, não devam ser chamados a responsabilidade.
Mas haja ao menos um período de luto em nome da comiseração.
Dir-se-á que é a voz da raiva a que fala. Não acredito. É antes a voz da ambição. Para esta gente trinta e dois mortos não é um horror, é uma oportunidade, um tempo de antena. Para as TV's desde Entre-os-Rios que não tinham uma tal fresta.
O Presidente da República acaba de dar um exemplo de dignidade.
Malditos os que entre cadáveres e destroços, rabuscam a babugem dos votos! Malditos sejam!

O tempo dos cómicos

Todos quanto escrevem num registo pessimista, tremendista, apocalíptico, todos os que profetizam desgraças e anunciam o fim dos tempos, todos os que vaticinam a queda do Governo ou o ocaso da civilização ocidental escrevem e falam e quase não dão conta para um mundo diferente, o mundo das pessoas que têm medo.
É por isso que a decadência que revelam continua e cada vez mais decadente, as vergonhas denunciadas continuam sem vergonha.
O medo faz com que as pessoas se conformem por dormência do sentir, anemia do querer, ganância dos interesses, rendição à necessidade de sobreviver.
O tempo dos cómicos, soezes que sejam, do burlesco, bizarro que possa ser, das piadas de tasca para ouvidos de salão, ele aí está.
Há um Portugal do Gato Fedorento, por causa do fedor. Um cheiro a latrina onde acaba o cheiro a cadáver.
Entre risos estrepitosos as classes que se julgam altas rebolam-se, minguadas, pela baixaria, o baixo nível trepa, voraz, pelas escadarias do poder.

Fernando Nobre: o sintomático e o insólito

Não sendo ingénuo pode pensar-se o que irá manter a candidatura do médico Fernando Nobre à Presidência da República. Dir-se-à que ela serve para roubar espaço a outros candidatos, como é o caso de Manuel Alegre e só assim encontrará apoios, financeiros nomeadamente, porque uma candidatura é cara, pois há a campanha eleitoral. Veremos.
Algo há nela, porém, de sintomático e, por isso, interessante: ter-se anunciado como sendo a de quem acha que Portugal precisa de «um Presidente que venha verdadeiramente da sociedade civil, que seja independente, que nada precise da política».
Ante esta candidatura, que é uma exautoração moral ao que há, Alfredo Barroso, um soarista congénito, proclamou que tem «um certo receio dos candidatos que se apresentam a defender valores acima dos partidos ou além dos partidos». Dos partidos disse ele. E propõe Carvalho da Silva.

19.2.10

Uma mentira pegada

Não é possível manter mais tempo o silêncio, nem me convenço que, nada tendo de importante a dizer, havendo tantos que o possam dizer melhor, faça sentido continuar calado.
Há momentos em que o silêncio significa aquiescência, complacência e tudo isso rima com indecência.
Não serei mais um a dizer que tenho vergonha do Governo que temos. Tenho. Mas não posso deixar de me envergonhar de todos os que na Oposição ou na Chefia do Estado, parecendo estar absolutamente contra isto permitem que isto continue.
Um destes dias o professor Marcelo Rebelo de Sousa na TV dizia que o primeiro-ministro é um mentiroso. A Dra. Manuela Ferreira Leite, também na TV, dizia um pouco menos, que o primeiro-ministro mentia. O professor Marcelo dizia que até Junho a mentira tinha de continuar a ser governo, a Dra. Ferreira Leite está a um passo de deixar de ser verdadeira oposição.
Um país governado por um homem de quem se pode dizer que é um mentiroso é um país ignominioso, tanto por ser dirigido pelo que mente, como por aqueles que o deixam continuar a mentir.
Um destes dias, no espectáculo rufia em que se tornou a vida política, aparecerá um que virá para dizer a verdade. Normalmente surgem acompanhados por uma qualquer polícia de fé.

30.5.09

A infâmia pública

Selecção, estigmatização, exemplaridade: eis os três Cavaleiros do Apocalipse do nosso pensamento social contemporâneo. Muitas pessoas pensam o que os jornais pensam, outras só pensam o que se pensa na televisão. Eis os efeitos.
Primeiro, as conversas do dia são sempre vocais e inaugurais, na lógica da abertura de telejornal: retumbantes, é o mundo em tchan!
Depois, os temas são sempre fulanizados: não há mais mundo que o dos suspeitos do costume, eternos símbolos do mal, arquétipos da malignidade, para benefício da simplificação do discurso e para descanso de todos os outros, poupados à ignomínia de existirem.
Finalmente, o raciocínio é sempre inconclusivo: isto vai mal, pior do que quando estava mal, donde está péssimo a ponto de não haver saída, de outro modo não estaria tão mal.
A moral pública é a do pelourinho: os amarrados à infâmia colectiva subrogam-se aos pecados dos que serão os primeiros a atirar a primeira pedra.
A hipocrisia é todos se sentirem juízes do que não conhecem, depois de terem sido acusadores pelo que ouviram dizer e testemunhas do que lhes parece que é.
O ridículo é ninguém notar a triste figura que faz. É por isso que se fala tanto. É por isso que alguns fazem de falar uma profissão milionária. Chamam-se comentadores.

25.5.09

O aforrador nato

Já não ia a Tróia há tanto tempo que Tróia me pareceu uma novidade. O ferry era verde e grande e a cabine do piloto parecia uma ampla sala de jantar. E havia em Tróia edifícios magníficos como em Singapura e nunca estive em Singapura ou no Dubai, digo eu que nunca estive no Dubai.
Ameaçava chuviscar, mas o haver uma marina é um raio de sol a iluminar-nos por dentro em dia de passeio, dando ânsias de alto mar. O que não vi em Tróia foram pessoas, salvo um casal que se escapulia por um canto do cenário, a caminho da terra de ninguém da sua invisibilidade. Além disso, os edifícios magníficos estavam vazios, como cabeças sem ideias.
Como era sábado e por estar em Tróia e não haver em Tróia muito para fazer, optei por comprar um qualquer jornal, porque vi ali em Tróia, um quiosque vistoso no meio do daquela triste solidão. Não sei o que me deu para perguntar, talvez estarem-se a acabar as notas de banco: há por aqui multibanco? «Não senhor», respondeu o sonolento empregado. «Aqui, não há nenhum». E banco, arrisquei? «Isso ainda menos», retorquiu, iluminando-me o espírito.
Naquele universo de nada, afinal, entre a beleza urbana e a quietude marítima, ainda sobrava o espaço do ainda menos, forma de estar perto de coisa nenhuma. Umas horas depois arroz de polvo e vinho branco ocupavam-se de mim, preenchendo a sensação de ausência.
Uma sesta repôs a crença e a fé, como num sonho. «Não faz mal, antigamente também não havia e éramos todos felizes. Menos se gasta!».

16.5.09

Apetite voraz

O jornal Expresso desta semana anuncia na revista Única um livro de Mafalda Pinto Leite chamado Cozinha para quem quer poupar. O tema, claro, é a crise. Segundo se relata ali, o livro tem mais de 450 receitas e «nenhuma ultrapassa os 5 euros». Até aí bem e bom. E barato. Só que na página direita vem uma receita intrigante. O poupado leitor julga-a uma generosidade do artigo, revelando, em antecipação, um dos dos segredos do livro. Só que a dúvida surge com os ingredientes: Dois blocos de massa folhada, farinha sem fermento, 2 chávenas de ervilhas congeladas quatro cebolas, duzentos gramas de crème fraiche e mais salsa picada e limão.E um ovo batido. E, eis, 800 gramas de salmão.
Custará isto tudo menos de cinco euros? Um requinte ao alcance de todas as bolsas? Talvez. Amanhã saio de casa com apetite voraz e uma nota de cinco. E convido amigalhaços para uma jantarada. É que, anuncia-se, dá para seis pessoas. Um festim!
Bom, o problema, porém, não é individual, meu, antes, social, nosso: é que se o salmão passa a comida de pobre, adeus chic, adeus gourmet, adeus exquisite cuisine.

6.5.09

166 anos de Boa-Hora

A Boa-Hora faz 166 anos e ainda paira a ameaça de o edifício ter como destino ser um hotel. Uma coisa é certa: o tribunal que conheceu o melhor e o pior da Justiça Penal vai ser armazenado na antiga Expo, ao Parque das Nações. Sob a aparência de modernidade das instalações, a velha tradição de mal instalar. Para evitar o pior e para que fique uma palavra de memória pelo nosso património cultural, organizou-se um movimento cívico. Juntei-me a ele. Nos dias 14 e 21 deste mês há iniciativas culturais para assinalar o adeus e organizar a esperança.
Pediram-me que escrevesse uma peça de teatro para ser representada na segunda noite. Sinto as pancadas de Molière como pauladas pelo atrevimento. Oxalá eu parta uma perna!

2.5.09

Uma tarde no Lidl

A menina da caixa registadora tinha um sorriso bonito e um nariz adunco. Descobri, pela conversa da senhora que me antecedia, que fazia anos. A senhora que me antecedia tinha uma mãe com uma saca profunda, onde se afundou uma carteira de onde não mais saía um cartão multi-banco, com que pagava as contas que me pareciam ser as da filha. Tinha cara de mau humor. Eu esperava paciente e ruminante. E a aniversariante menina sorria, esperando também, ela e o inevitável nariz adunco. Só a senhora e sua mãe alegadamente pagante pareciam não sorrir nem pagar. A fila ameaçava aumentar.
Entre nós, expectantes, um casal que conversara antes sobre coberturas de tábuas de passar a ferro, problematizava agora o irem amanhã almoçar a casa não fixei de quem. No meio disto, eu hesitava se as batatas não pesariam demais na minha coluna. Acabei por levá-las fritas enquanto o cartão não aparecia e todos com duas excepções sorriam amareladamente. Salgadas, fazem mal à saúde, mas não à coluna. De qualquer modo são fritas e amarelas, em azeite. Dão saúde ao que diz o rótulo. Estou verde. A fila dos sorridentes era agora engrossada por um fecho éclair entreaberto ao limite do prometedor e um corpo de passerelle encavalitado nuns saltos altos, olhando-nos panorâmicamente num sorriso em madeixas. Um súbito porra que a velha não desengoma tirou-nos o sorriso. Num instante um ar zangado, adunco, aniversariante, panorâmico, engomador, passou a ferro a mãe, a filha e a carteira. Ah! Afinal está aqui, eis a anciã com um ar prazenteiro, sacando uma tirinha de plástico completamente verde. Verde código verde. Nessa altura já tamborilava em chinela o salto alto da entreaberta. Mais uns segundos, pantera ansiosa, arriava a giga, pousando-as, magníficas, no chão, duas cestas carregadas de banalidades. Olhei para trás: era do companheiro da dos saltos altos, meão de altura, rufia de maneiras, carregado de possibilidades a voz da qual o porra saíra.
Eis o meu fim de tarde no Liddl: aqui a qualidade é barata. Ah! Quem quer sacos paga-os. Aceita-se pagamento com multi-banco.

1.5.09

Uma Feira do Livro

Hoje a Feira do Livro abre popularmente após o almoço e oficialmente à noite. Sendo 1º de Maio há um travo simbólico nesta dicotomia entre o oficial nocturno e o popular diurno. Gostaria de ir lá, ver os livros, reencontrar os que, ano após ano, continuam sem quem os queira, os que foram perdendo a graça, os que caíram em graça e a quem tudo se perdoa. Depois há escritores sentados a escreverem autógrafos, os passeantes que aproveitam o ensejo do desconto do livro do dia. Hoje, vivendo entre livros, poderia levantar os taipais da minha feira, expondo domesticamente a minha livraria. Entre o folhear displicente talvez encontrasse motivo para uma tarde. O dia escoa-se. Soube que havia Feira do Livro. Tínhamos chegado a Maio.

27.4.09

L'air du temps

Já li algures que a História se fará um dia com as pequenas frases, os diários, as cartas. Diria eu com excertos de algumas entrevistas. Falando do a seguir ao 25 de Abril - expressão que em si mesma encerra um conceito e um tema - o poeta Manuel António Pina diz, numa entrevista à revista Pública, que vem distribuída com o jornal Público de domingo, que só hoje li: «Estava à venda uma casa que cobiçava imenso, por 600 contos, que era muitíssimo barato [sic]. Sabe por que é que não a comprei?». Porquê, pergunta a entrevistadora: «Estava sinceramente convencido de que vinha aí socialismo e que não precisava de comprar casa. A militância não foi só por causa de l'air du temps. Eu acreditava mesmo no poder popular».
Ora aí está uma moral política notável: o socialismo e o poder popular como meio de arranjar casa à borla, metendo ao bolso 600 contos.
Isto, entenda-se, à custa daqueles - e o poeta nisso é muito explícito e nada poético - que com o 25 de Abril «fugiram em debandada final como se fossem baratas, e abandonavam coisas que vendiam por tuta e meia».
A meio da entrevista eu ainda pensava conhecer melhor a obra de Manuel Pina. Agora não. Ele acrescenta que hoje tem «até uma hostilidade em relação à política»; eu uma hostilidade em relação aos seus versos.

Argumentos e factos

Normalmente não leio muito jornais. Mas desta vez comprei e acabei por afunilar para domingo à noite a leitura de um semanário, um diário e duas revistas sem história. Vinha também carregado com livros e mais umas publicações que nem sei bem como chamar-lhes. A esta hora ainda a leitura não acabou. Se tivesse a oportunidade de ir dar uma volta pela blogoesfera teria pela frente ainda muito mais para ler. Mais os jornais on line, o twitter, os sms e bom não esquecer o que chega por email e as pessoas que dão notícias pelo telefone.
O mundo contemporâneo é, em suma, um mundo de factos. A pergunta é: quantos factos me interessam de todos aqueles outros que me chegam ao conhecimento?
Por exemplo. O suplemento sobre economia do Expresso titulando «Hilton processada por espionagem» dá conta com largura de dois terços de página, que [e assim reza o lead] que «ASAE apreende n Hiton de Vilamoura ficheiros confidenciais do Sheraton Algarve. Uma réplica do escândalo que abala os gigantes hotéis nos EUA».
Vejamos. Eu já nem me pergunto sobre se será verdade ou mentira o que o jornal relata, se a história está bem ou mal contada. A dúvida é só esta: interessam-me saber isto? É-me útil esta informação? Faz-me falta, para quê? E a ideia a ela subjacente, o conceito de que as empresas comerciais se espiam, tenho-o já adquirido ou é preciso ler a notícia para ficar a sabê-lo?
Mas se fosse só isso! Sigo pelo jornal fora, passo para o diário, folheio as revistas: é a vida privada de um, a fatiota de outra, os implantes mamários de uma terceira, duas páginas com foto a uma menina que fundou um clube de virgens, uma breve a informar-nos que Isaltino diz que Marques Mendes não existe. Ah! E as crónicas, os artigos de opinião, comentários, análises, tudo muito extenso, muito carregado de saber e de afirmação. Para quê? Posso saber?
O que quero eu dizer? No fundo que não me apetece ler mais! Já confundo tudo, não fixo nomes, e no meio desta babel fica-me a última coisa que li. Teresa Caeiro, deputada pelo CDS disse na Assembleia da República: «alguns revolucionários de ontem são os poderosos de hoje, com a original diferença de se comportarem como novos autoritários». Bingo! Já me passou a azia de factos, com uma tão borbulhenta opinião! Claro que isto é ler jornal para encontrar aquilo com que se concorda. Talvez. Antes isso do que ler jornal para me cruzar com o facto que não me interessa e ficar iludido a pensar que, ao menos estando informado, estou a participar neste mundo inenarrável.
Argumentos e factos, eis o nosso mundo; é além disso o título de um jornal russo, que anda por aqui.

25.4.09

25 de Abril: contas com a História

Para comemorar o 25 de Abril de 2006 escrevi isto. O de 2007 isto. O de 2008 isto. Hoje releio tudo e pergunto-me sobre o que escrever. Esta manhã a ideia ocorreu, vinda de ontem.
Como disse num dos posts que agora refiro, sendo dos que tem prova documental de que a polícia política do anterior regime não gostava de mim por eu não gostar dela, nunca quis ir à Torre do Tombo conferir o meu processo. Acabei por vê-lo este ano. Uma investigadora tinha-o pedido para consulta. Avisou-me e, amiga, invectivou-me a que fosse consultá-lo. Lá fui, aos Arquivos Nacionais, hesitante, uma tarde destas.
Confesso que ia inquieto. É sempre embaraçoso vermos o nosso retrato tirado pelos outros. Podemos não nos reconhecer. Além disso, os polícias nem sempre são bons fotógrafos, os «bufos» adoram apanhar-nos em roupa interior, num à la minute grotesco.
Abri a capa dos autos. Fantástica surpresa e lição do que a vida nos reserva. O meu processo é comum ao Eduardo Ferro Rodrigues, ali juntos por um momento, o futuro a encarregar-se de nos separar.
Abri-o. Não tem muita coisa. Em causa a actividade associativa, ali documentada com uns comunicados reprografados a stencil - a malta nova saberá o que é o stencil, que se emendava com verniz de unhas? - e umas quantas folhas volantes, da classe do «lê e passa».
No fim, lá estava, a evidência das vezes em que a DGS teve de se pronunciar sobre a minha conformidade política, uma porque concorri a um manhoso lugar de delegado interino do Procurador da República em qualquer ignorada comarca, a começar pela das Flores, outra - já nem me lembrava - porque a minha amiga Rosário tentou, ingénua, que eu encontrasse o almejado pão nosso num lugar no Ministério então chamado das Corporações, no qual, atentos eles e informados, nem da entrevista de selecção passei e, finalmente, uma terceira quando se tratou de ser colocado no Centro de Informática do Ministério da Justiça, por causa do que andara a escrever, desde 1969, sobre o binómio cibernética/Direito e outras insólitas bizarrias na altura basto esquisitas.
Falta dizer, porém, o que me leva a escrever este post, o que me doeu, ainda dói e faço por esquecer.
No meio daquela pouca papelada lá estava um auto de declarações. Ele fora ouvido. Fazia parte do Movimento Associativo, como eu. Se me perguntassem se ele tinha corrido também, Alameda abaixo, rumo à Rua de Malpique, das vezes em que a Polícia de Choque entrou em Direito, à vergastada e com cães, juraria que sim. Estou certo, isso sim, de que sempre foi um indómito radical, à esquerda de todos nós, o sorriso trocista ante as nossas hesitações conservadores, na sua boca reaccionárias, claro, pequeno-burgueses, por certo. Reservado, de poucas falas, esteve sempre perto de nós, próximo.
Só que desta feita, saído do cuidado silêncio que lhe conhecíamos, abrira-se, falador. Contara tudo, denunciara, à desbunda. Mentira, emporcalhando inocentes. Bamboleando-se ante os interrogadores, para se tornar apetecível, fizera-se de santo. No meio daquilo, lá vinha o Barreiros em reuniões onde nem me lembro de ter estado, contado ao pormenor, e a menção a todos os outros, tantos outros que o tínhamos por amigo, confidente, camarada, tudo agora ali, com nomes, com acusações, delações.
Aturdido, tentei saber se tinha sofrido violências, maus tratos que justificassem ter rachado. Garantem que não, os que eram seus íntimos. Pior do que um fraco só um merdas. E ele fora um merdas fraco, dos que o são mais do que para safar a pele, muito mais do que por um instinto de sobrevivência, mas pelo interesse em agradar, antecâmara do subir na vida.
Com o 25 de Abril encontrei-o muitas vezes. Revolucionário de língua, era figura gorda num partido da extrema esquerda, a pose e o paleio ajustados. Revi-o mais tarde em Macau, gordo, rico, advogado de sucesso, mas sempre à esquerda, claro, trocista, conspirador, acusador das heterodoxias alheias, indicador!
Fiz sessenta anos uns tempos depois de ter lido estes fólios, uma idade cruel, em que se olha para trás.
Hesito se lhe hei-de dizer na cara o que sei, procurando-o para o efeito. Apenas para que ajustemos contas com a História, a nossa história.
Denunciante, chibo, seguirá uma vida de colaboracionismo. Deve estar hoje a comemorar o 25 de Abril. Enquanto eu, estou a escrever sobre isto carregado de tristeza, envergonhado por ele ser parte do que é a minha geração.

24.4.09

Escrita económica

«O Facebook e o Twitter são mundos enclausuradamente abertos. Existe um eu hiper-enfático, numa arrogância existencial, como se o mundo girasse à volta do ego e se interessasse por cada passo, cada impressão ou cada sentimento do indivíduo. E assim se transformam os mais insignificantes pormenores do quotidiano em algo digno de ser noticiado e comentado, muitas vezes numa voluntária abdicação da privacidade». Vi isto aqui. É rigorosamente o que penso. Mesmo em relação à blogoesfera, descontando os amigos que gentilmente nos acompanham, quantas vezes surge a dúvida sobre se este gritar para as estrelas não é, afinal, uma manifestação de hipertrofia do eu.
Houve tempos em que o próprio papel era caro. As pessoas aproveitavam-no e as cartas eram escritas quase sem margens, quantas vezes quase de um lado e do outro da folha. Reversos de fotocópias eram lugar ideal para escrita económica.
Hoje, com os meios poderosos da tecnologia, posso lançar para o Espaço a minha biblioteca de inutilidades, o manancial da minha insignificância. Mais: pensar que assim se salva o mundo e se granjeiam amigos. Arrogância existencial, eis!

Vida de cão

Honra e glória à Pátria dos portugueses por estarmos na Casa Branca. Sei que é um cão, mas é um cão português. Num país minguado de orgulho qualquer motivo serve para entusiasmar. Mais: pouco tempo depois de ser o «primeiro cão» - creio que como há a «primeira dama», terá de haver o presidencial «primeiro cão» - já tens honras de biografia. O livro está anunciado aqui. Vi a notícia aqui, no January Magazine. O que é interessante notar é que, de acordo com o insuspeito Telegraph de Londres, os Obama só com dois livros já fizeram um encaixe de 2.5 milhões de dólares. É caso para se dizer «not bad for a start».

23.4.09

Coisas para engenheiros!

Eu sei que o cidadão tem de conhecer a lei. E sei que a ignorância da lei não escusa. Mas não estaremos a ir longe demais quando se abre a folha oficial, que devia ser, num Estado de Direito, uma espécie de jornal ao chá e torradas do pequeno almoço de cada um, antes mesmo do matutino ao gosto, e dá de caras com esta? Esta mesmo: «P 427-A/2009 - Segunda alteração à Portaria nº 229-B/2008, de 6 de Março, que aprova o Regulamento de Aplicação da Medida nº 2.2, «Valorização de Modos de Produção», do Subprograma nº 2 do Programa de Desenvolvimento Rural do Continente (PRODER), Que Integra a Acção nº 2.2.1, Designada «Alteração de Modos de Produção Agrícola», e a Acção nº 2.2.2, Designada «Protecção da Biodiversidade Doméstica».
Confesso que ainda fui lá ler. Como vi que tratava de «práticas culturais» interessei-me, vicioso. Mas triste engano! Práticas culturais quer dizer agora, neste neologismo eurolândico, práticas de cultivo! Segundo uma das tabelas anexas uma delas é assim: «A sementeira com mobilização e reviramento do solo em parcelas com: x IQFP > 3 não é permitida; x IQFP = 3 só será autorizada se feita segundo as curvas de nível, em faixasmobilizar e instalar alternadamente, umas num ano, outras no ano seguinte».
Ai tadinha da agricultura que isto agora é só para engenheiros e com o curso todo!

12.4.09

Deus lhe pague

Estamos defendidos, eu sei, com o «não tenho» definitivo, qual o «já dei» desculpabilizante. A simples pergunta dubitativa «mas é mesmo para uma sopa?» afasta-os aos mendigos homens, quantos novos, mesmo alguns velhos, sobretudo aos de indumentária duvidosa, barba crescida e mesmo às rastejantes romenas elas e os filhos eternamente adormecidos em súplica lancinante mas de fraco rendimento. A esses basta o silêncio, fingindo não entender o gesto por causa da diferença linguística.
Claro que hoje era domingo de Páscoa e eu tinha concluído que o Pingo Doce estava fechado e nem o Lidl estava aberto sequer e talvez nem fosse pelos raids da ASAE mas por se comemorar a Ressurreição. E estava sol, um sol que nem o vento afugentara. E ela seguia digna o seu caminho como se indiferente à rua vazia, o porte tão altivo quanto lhe consentia a necessidade. Dei por si quando, segundos depois de cruzarmos, já os seus olhos fora do alcance do meu olhar, me perguntou se eu tinha cinquenta cêntimos para um garoto. Dei-lhe o euro que tinha, acanhado por fazê-lo. Ficou o murmúrio de um «Deus lhe pague» a afastar-nos eu a caminho de minha casa. Não sei onde haverá hoje um café aberto nestes quarteirões vazios. No gesto de dar julguei-a uma velha avó para quem o mês é mais comprido do que a sua pensão, tantas que há por aqui, a modéstia acanhada de vergonha. Agora que escrevo isto sinto que talvez tenha pouco mais do que a minha idade.

A nossas virgens!

Existem na China mais 32 milhões de homens do que mulheres. De acordo com um especialista citado pela agência de notícias Associated Press tão alta dosagem de testosterona pode levar à multiplicação da violência e do crime! A confirmar-se cientificamente esta asserção quanto ao que se chama o gender gap, e a legitimar-se a correlação entre a secreção hormonal viril a violência e o crime, eis o novo fantasma para o Ocidente: a defesa das suas virgens.

7.4.09

À sapatada!

Ora aí está: um jornalista não gostou da falta de resposta de um ministro e atirou-lhe um sapato! Vê-se bem aqui, quase a dois terços do vídeo. É um método, discutível sem dúvida, sobretudo deprimente quando os ministros já estão metidos num grande par de botas. Assim mesmo.

5.4.09

Alberto Costa: demissão e revogação

Não costumo usar os blogs ao serviço de questões pessoais. É estranho, mas é um modo de ser. Só que desta feita está em causa algo de nobre: a verdade num assunto de Estado.
Não quero entrar, nem entrei, por razões compreensíveis na questão Freeport, nem na matéria das pressões ou que se aleguem terem sido pressões. Não conheço os factos e só falo do que sei. Além do mais, desempenho um cargo na Ordem dos Advogados que me obriga ao dever de reserva.
Ora sucede que na sua edição de hoje o jornal Público recorda a demissão de Alberto Costa, actual ministro da Justiça, por despacho meu. Sob o título «Alberto Costa foi demitido de director da Justiça em Macau, há 21 anos, por pressões sobre juiz», o jornal relata as razões da demissão e a sequência da mesma.
O texto, que está todo aqui, tem, porém, uma omissão, pelo que na memória dos que lerem, ficará assim a pairar uma versão incorrecta dos factos e sobretudo uma versão que o demitido tentou passar para a imprensa quando de uma visita oficial sua ao território de Macau, em 2005 e que tive de desmentir então: a de que o acto de demissão fora, afinal, ilegal, e por iso anulado pelos tribunais.
Terei permitido tal omissão ao não ter aceite falar com o jornalista? Talvez. A discrição tem destes efeitos.
Cito, pois, aquilo que acabo de comunicar ao jornal, esperando publicação e para que fique assim mais substanciada a verdade:
«Demiti Alberto Costa por despacho fundamentado, que se baseava no que foi adquirido por um inquérito realizado pelo Procurador-Geral Adjunto do território: contactara um juiz por duas vezes com o propósito de que este arquivasse um processo e soltasse os dois arguidos presos. Estava em causa a televisão de Macau e a ligação desta a uma empresa de que eram sócios várias criaturas gradas ligadas ao partido socialista, mais uma empresa de um senhor chamado Robert Maxwell, que morreria mais tarde em condições estranhas. Após a minha saída do território o Governador Carlos Melancia revogou o meu despacho na parte em que fundamentava a demissão, não ignorando que isso abria a porta ao que veio a suceder: o demitido veio a recorrer para o STA e obviamente ganhou a causa, recebendo choruda indemnização.
Em suma: a razão substancial da demissão de Alberto Bernardes Costa não foi anulada pelos tribunais, foi anulada, sim, a habilidade do Governador, pela qual o meu despacho de demissão foi substituído por outro apto a ser anulado por vício de forma, ou seja por falta de fundamentação.
Quem quiser ler os documentos, pois está tudo documentado, é só ir aqui. Agradeço o favor de ser reposta toda a verdade».

31.3.09

A glória do génio

A 20 de Dezembro de 1944, Mircea Eliade, conselheiro cultural da Embaixada da Roménia em Lisboa, prolífico filósofo do misticismo e do esotérico, historiador, romancista, registava no seu diário uma palavra de tanto sofrimento ante a morte de sua mulher Nina Mares, ocorrida um mês antes. Parte da agonia começara ainda em Lisboa, no nº 147 da Avenida Elias Garcia, com os sinos da Igreja de Fátima ali ao lado a dobrarem pelo desenlace. À dor íntima por um longo amor agora só memória segue-se a angústia da pobreza. «Estamos cheios de dívidas. Ainda não paguei ao hospital (as transfusões) e a uma série de médicos. Escolho o primeiro lote de livros para ser vendido. Encontro uma casinha em Cascais por 100 escudos por mês», escreve ainda nesse dia. Eis a residência da Rua da Saudade, n.º 13, em Cascais. Leio isto no Diário Lusitano, o seu jornal editado em Portugal há um ano. Em 5 de Setembro de 1945 consigna nele «o último banho em Cascais». Terminaria nos Estados Unidos. Hoje fica dele a glória do génio.

26.3.09

Deputados: saúde e fraternidade

Fantástico! A folha oficial hoje traz o regime jurídico das faltas dos deputados. Lembram-se que se perderam votações com o hemiciclo às moscas e outras escandaleiras?
Diz o dito normativo, a propósito de justificação de faltas: «a palavra do Deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais».
Ora assim é que é! Respeitabilidade para quem merece respeito. Um deputado não mente! O ridículo é que «quando for invocado o motivo de doença, poderá, porém, ser exigido atestado médico caso a situação se prolongue por mais de uma semana». Está tudo aqui.
Riam-se, pois o caso não é para menos. Quer dizer: se o deputado invocar uma qualquer razão não médica, a sua palavra é de lei! Mas no caso de dizer que está doente a sério, alto lá! Pode exigir-se a prova.
Sabem porquê? Porque como os nossos deputados são umas pessoas muito saudáveis, se vieram alegar doença séria, que dure há mais de uma semana é caso para desconfiar que podem estar a exagerar. A exagerar digo, a trabalhar, porque a mentir, isso nunca!
Assim como assim e numa lógica a contrario como dizem os juristas o regime é este: os pais da pátria podem faltar sim, desde que o façam saudavelmente.

24.3.09

A barca do venha a nós!

Esta noite li uma entrevista antiga em que o Augusto Ferreira Gomes demonstrava que o João Gaspar Simões não tinha razão quando afirmou na monumental biografia do Fernando Pessoa que este não passara fome. O António Mega Ferreira deu-se há tempos ao trabalho até de escrever um livro para mostrar em que medida é que o poeta da Mensagem tinha tido vários empreendimentos mais ou menos lucrativos, incluindo uma tipografia. Caramba!
Ser pobre é, em certos meios, uma honra para o próprio, uma vergonha para os outros. Na cultura é muito assim. Há quem tenha necessidade de mostrar que o sucesso dos laureados é sinónimo de riqueza e de bem-estar na vida. Às vezes, prosaicamente, o remedeio é um facto, mas a necessidade de demonstrar é uma forma de justificar-se o demonstrador.
Na política vai o mesmo. A actual situação convive mal com a ideia de que no regime que terminou em 1974 nem Salazar nem Caetano, defeitos que tenham, enriqueceram com a política. Isso explica que haja uma biografia de Marcelo Caetano cuja autora, segundo um jornal de hoje, diz «ter ficado surpreendida com o que descobriu sobre os seis anos de exílio do ex-chefe do Governo, contrariando a ideia de que teve um exílio penoso e com dificuldades financeiras».
«Exílio produtivo no Brasil», assim lhe chama o prestável Público ao noticiar o livro, que é da jornalista Manuela Goucha Soares e se chama «Marcello Caetano - O Homem que Perdeu a Fé»
Que a descoberta tem valor político mostra-o o facto de o ministro da Defesa Nacional apresentar o livro.
Não faz mal. Um dia a História os julgará.

23.3.09

A globalização do plágio

Plágio? Isso era antigamente. Agora com a globalização e as modernas teconologias de comunicações e sofisticação de software a realidade é outra. O próprio escusa de se maçar. Quer comprar uma tese universitária, um ensaio académico, um simples trabalho escolar, ou um relatório profissional. É fácil? Através da net consegue-o a preços módicos. Não importa onde está o ghost writer. Há sempre uma agência que consegue satisfazer a encomenda. Leia aqui e fique a saber tudo. Mais: um sistema de tratamento de texto apaga a possibilidade de se encontrarem semelhanças. Melhor do que poderem ser trabalhos originais, são trabalhos que parecem originais.

22.3.09

O país em chamas

Chega-se a casa, espreitam-se as notícias e vê-se que há quinze incêndios activos no nosso país. E estamos na Primavera. Não tenho outro fundamento para dizê-lo salvo uma intuição: Portugal não pode estar a arder por acaso. Suspeita-se disso quando há razões de canícula para a nossa terra estar em chamas. Mas agora? Dito isto e porque vejo poucas notícias fica-me só esta dúvida: ante uma situação em que agora as florestas amanhã os espíritos, tudo arde, algum responsável já apareceu a dizer que urge encontrar responsáveis pelos incêndios? Não digo pelo fogo posto, ao menos pelo deixa arder.

21.3.09

Coragem, angolanos!

Houve um tempo em que se me pedissem dinheiro para a fome em Angola, eu talvez desse. Não por ter nascido lá, mas por me sentir condoído com a miséria. Ou talvez não desse porque de Angola havia dirigentes com má fama. Mas hesitava em não dar.
Hoje é o dinheiro de Angola que compra empresas, bancos e jornais em Portugal. Estão ricos.
A mesma geração que chorou Angola, hoje nem pena chega a ter de Portugal. Agora está lá o Papa. José Eduardo dos Santos tem motivos para estar feliz. Bento XVI apelando aos jovens angolanos pediu-lhe «coragem». Claro! A de Cristo na cruz.

20.3.09

Tanques ou tractores

Em 22 de Junho de 1934 o Dr. Ferdinand Porsche aceitou criar o carro do povo para Adolph Hitler. Saiu o Volkswagen, cujo nome quer dizer precisamente isso, o carro do povo. A ideia era criar um utilitário barato que pudesse ser comprado com as poupanças de qualquer trabalhador. Cinco marcos por semana de aforro bastavam: «Fünf Mark die Woche musst Du sparen, willst Du im eigenen Wagen fahren» [cinco marcos por semana deves poupar se quiseres guiar um carro, eis o lema que o nacional socialismo prodigalizaria].
Em 1928 a BMW [Bayerische Motoren Werke] lançou-se na produção de automóveis, por ter sido impedida pelo Tratado de Versalhes de produzir aviões. Voltaria a produzir motores para a aviação militar alemã, a Luftwaffe, a partir de 1930.
Este ano, segundo a imprensa financeira, «os lucros da Volkswagen (VW) cresceram 26 por cento no primeiro trimestre de 2008, para 929 milhões de euros», mas mesmo assim a companhia vai pedir ajuda ao Governo alemão; enquanto isso, a BMW admitiu esta quarta-feira que «teve uma quebra de 90 por cento nos lucros».
A continuar assim a depressão económica não é de estranhar que haja quem pense, revivendo do keynesianismo o lado macabro, no efeito multiplicador de uma guerra: por um lado estabiliza a demografia por outro fomenta a produção. Fabricar tanques ou tractores tem sido sempre a hesitação de muitos estrategas. Na América Obama fala já em produzir um milhão de automóveis eléctricos até 2015. Oliveira Salazar diria numa carta ao nosso Embaixador em Washington:«cuidado, senhor Embaixador, os americanos não são um povo iluminado por Deus, sim pela electricidade». Fim de citação.
P. S. Claro que há o pacifismo cínico, que o Boris Vian ironizava ao dizer: «la guerre ça doît être trés nuisible au commerçant, car elle détruit le client!». Infelizmente no campo dos horrores humanos, a paz também é um negócio.

19.3.09

Um país que estava sem tino

Um jornal noticia: «Tino de Rans é candidato independente em Valongo». Aqui.
Ora houve um tempo em que o Tino de Rans podia ser objecto da chacota e do riso, da chalaça e da mofa. Hoje dilui-se na paisagem local. Aquilo que fazia dele objecto de culto pela negativa, era ser o anverso dos citadinos pipis da política. «Eu só vou cumprimentar o engenheiro António Guterres mas, perdoem-me, eu mereço!», foi um dos seus momentos altos e de glória. Para ver mais, aqui.

Provedor: e depois do adeus!

O Provedor é eleito pelo Parlamento e deixou-se eleger. O Parlamento é formado por partidos. O Provedor não mais é substituído pelo Parlamento, apesar de o seu prazo de validade ter terminado, porque os partidos não se entendem. Agora o Provedor que se deixou eleger pelos partidos atira-se a um dos partidos, no caso ao PS, porque nunca mais o deixam sair. Está tudo na TSF.
O Provedor tem razão em querer ir embora, mas ao Dr. Nascimento Rodrigues não fica bem dizer o que diz. Dir-se-á que esperava dos partidos outra atitude. Talvez tivesse essa ingenuidade. Mas onde o fundamento resvala é quando o ainda Provedor sugere que seja outro partido, o PSD, agora a escolher o seu sucessor.
Ora aí está. O Provedor da cidadania passa a Provedor da partidocracia.
No meio desta tristeza, tenho uma melhor ideia: extinga-se o cargo. Em nome já não de valores, mas sim de interesses, o dos contribuintes não terem de suportar aquilo que, nisso Nascimento Rodrigues tem razão, é uma «comédia à portuguesa». É verdade que o cargo de Provedor vem na Constituição. Mas não faz mal. Há tanta coisa que vem na Constituição...
P.S. A dita TSF noticia, a fechar a sua prosa: «Recorde-se que, Nascimento Rodrigues foi nomeado pelo governo de António Guterres em 2000». Riam-se. Quando a própria imprensa já acha que o Provedor não é eleito pelo Parlamento mas sim nomeado pelo Governo está tudo dito!

La donna e mobile

Lê-se na imprensa económica que «as pop up stores Reebok são lojas temporárias, cujo tempo de permanência não excede um mês mesmo local, e vão estar presentes em diversos centros comerciais do país, e numa primeira fase, no primeiro semestre de 2009 (entre Março e Maio), refere o comunicado». Cito: «As lojas têm o formato de quiosque, com cerca de 15 a 20 metros quadrados e foram concebidas especialmente para o sexo feminino».
Neste ambiente de crise e de falências, lojas que não ficam muito tempo no mesmo lugar é o que há mais. Agora, pelos vistos, o conceito de instabilidade perde a sua carga necrológica para ganhar um tónus de vida, de modernidade, «concebidas especialmente para o sexo feminino». Fantástico! «La donna è mobile qual piuma al vento, muta d'accento e di pensiero».

28.2.09

O país de encarcerados

Quando o Canjica barbeiro, Porfírio Caetano das Neves de seu nome, que comandou a revolta contra a Casa Verde, «essa bastilha da razão humana», invectivou o padre Lopes querendo saber se sua Reverendíssima não estaria contra a nova situação revolucionária ou se aceitaria celebrar um Te Deum que conjugasse, numa só voz, o poder espiritual oriundo do Céu com o novo poder temporal ansioso de legimitação ao menos celeste, o mundo mostrou o que é.
Esperando, de «aspecto tenebroso» a resposta do vigário de Cristo, ouviu-lhe o novo cônsul, auto-proclamado protector da vila em nome de Sua Majestade e do povo, a sábia fala: «como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?»
O conto de Machado de Assis, é a história da revolta popular contra o alienista Simão Bacamarte, que lentamente esvaziava a cidade da sua população sã, em todos descobrindo loucuras, internando-os.
Lei da natureza humana, a que a experiência do padre Lopes absorvera, «dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo». Um outro barbeiro surgiria dizendo abertamente pelas ruas que o Porfírio estava vendido ao outro do Bacamarte. Duas horas depois o Porfírio, médico que estudara por Coimbra e Pádua, com banca agora em Itaguaí, onde se enraivecera no encarceramento das patologias cerebrais, caía.
Descobri isto entre os livros que tenho para acabar de ler. Daqui a pouco vou fazer um esforço e tentar ler jornais, para ver como vão os Bacamartes e os barbeiros no nosso país de encarcerados.

24.2.09

A folia

A ideia de Carnaval traz dentro dela duas outras ideias: a de mascarar e a de divertir. A ideia de mascarar traz no bojo dela a ideia de divertir. No fundo as pessoas mascaram-se para a coberto de um outro ser conseguirem o que, confiadas a si próprias, não conseguem: rir-se.
A particularidade final e por isso mais digna de nota é, porém, outra: a ideia de divertir traz dentro no seu âmago a ideia de mascarar. Fecha-se o círculo. As pessoas riem-se para simularem a dor que trazem dentro. A folia é para esses heróis anónimos uma forma de loucura.

18.2.09

Portugal me mata

O país de brando costumes transformou-se, agora na escala dos que têm maior taxa de homicídios na Europa Ocidental, num país de bando e curtumes.
Portugal é um país de suicidas escreveu Unamuno, amigo de Manuel Laranjeira, suicida também. Portugal é um país de homicidas escreveria hoje o pobre viajante.
O fado anavalhado transformou esta raça de deprimidos em casta de enraivecidos.
Claro que há os estrangeiros aqui emigrados. Não fui ver as estatísticas para concluir quem mata mais. Complexado como é, o português ficaria pesaroso se, até no matar o outro, não fossemos os primeiros, mesmo que pelas últimas razões. O português julga-se o melhor e pensa de si o pior. Quando não morre de desgosto mata de raiva.

11.2.09

A torradeira da Obama

A ânsia de esperança dá na facilidade da desilusão. Está a suceder isso, rapidamente, com o presidente dos EUA. Esta madrugada a Agência Financeira titulava: «Wall Street fecha muito desanimada com Plano Obama».
No capitalismo, a bolsa de valores, é o boudoir dos sentimentos. A falta de crença traduz-se logo em dinheiro, a euforia em riqueza. É um sistema que sente no bolso.
Claro que estamos a entrar num túnel de imprevisível saída. Segundo reporta a TSF esta noite: a «Nike vai despedir cerca de 1400 pessoas em todo o mundo»
A Nike, como se sabe, nasceu através de um treinador de atletismo universitário, Bill Bowerman e o seu sócio Phil Knight, que «efectuaram várias experiências com a torradeira elétrica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha a fim de descobrir uma sola melhor adaptativa à performance desportiva e ao bem estar».
A Casa Branca ensaia também, agora com a sua nova torradeira eléctrica. A Europa espera ansiosa, em Portugal a laracha da propaganda e da demagogia desfaz-se em ilusões funestas, convencendo-se no que não acredita.

8.2.09

Nobres metais

A rua é larga e cruza a Avenida da República. Quase na esquina, serpenteando entre os automóveis que param ante os semáforos, ei-lo. Tem dia certo. É sempre aos domingos de tarde. No Inverno veste uma samarra com gola de pele. Tem um aspecto cuidado, um toque de camponês em Lisboa, mas dos camponeses que são a senhoria das aldeias. Não fala. Estende as mãos, em cada uma pendente um saquinho em plástico contendo o que oferece: bolacha americana. Muito de vez em quando há quem compre. Indiferente ao seu magro comércio, este homem, perdido no tempo, numa Lisboa já estranha e mais estranha ainda porque domingueira, prossegue o seu bailado, volteando, ágil, refugiando-se no passeio à iminência do sinal verde. Hoje, pois chovia, tinha uma mão ocupada com um elegante guarda-chuva. Na outra, esperançados em que alguém os levasse, dois sacos, quais aves presas pelas patas aguardando freguês, reluziam à morrinha que o fim de tarde tornava prata, a ornar aquele coração de ouro.

1.2.09

O fungagá da bicharada

Quando esta manhã chovia que até fumegava, quando há pouco vi na meteorologia que ia continuar a chover, lembrei-me que aqui há uns tempos os futurólogos previam a desertificação de Portugal. Levando-os a sério, imaginava então um país sequioso, coberto de cactos e povoado de camelos. Não errei totalmente nessa minha fantasmagoria. Falhei sim, porque acreditei nesses fautores de possíveis apenas porque afinal chove que os cães a bebem em pé. Zoologicamente sempre faz a sua diferença, convenhamos.

20.1.09

A Xica

Antigamente escreviam-se cartas que seguiam pela mala postal do próximo vapor. Quando era muito urgente telegrafava-se.
Antigamente os sentimentos cumpriam o horários dos paquetes, dos comboios, dos correios.
Antigamente a hora de chegada do carteiro era o momento mais ansiado, mais odiado do dia.
Antigamente o abrir de um envelope era o instante do aperto do coração.
Antigamente escrevia-se em papel de carta muito fino para cada missiva não pesar mais, às vezes aproveitando o verso e o reverso da ténue folhinha.
Antigamente os que não escreviam, aproveitavam um canto final do que estava livre para acrescentarem os beijinhos, os abraços, os xis, as recomendações de todos os que se associavam de modo breve ao acto de se ter escrito.
Antigamente algumas cartas traziam fotografias, sujeitas à curiosidade, outras notas de banco escondidas, com risco de extravio.
Antigamente havia cartas perfumadas, cartas tarjadas de negro, cartas comerciais com facturas e outros efeitos na praça.
Hoje temos a internet e com ela o estarmos instantaneamente a toda a hora e por toda a forma em todo o lado.
Quando a rede falha e estamos longe, sentimo-nos abandonados à nossa sorte. Nem um aerograma, ao menos, em correio aéreo, nós por cá todos bem, saudades à mamã, à Xica e aos meninos...

19.1.09

Haja Deus

Claro que há a pobreza e a desordem e o desnível social. Há sobretudo a ideia de que o ser humano aqui arrisca muito por tão pouco, todos os dias, porque cada dia é uma aventura. Mas há a tabuleta de letras em amarelo, um toque mais de cor berrante entre filas desordenadas de barracas, lugares de habitação, de comércio, de tantas formas pelas quais se sobrevive, sob o calor e o pó: «Cabeleireiro Deus É Pai!». Dentro fazem-se prodígios de ondulação, maravilhas em madeixas. No momento em que passei, vinha o requebro de franjinha. Ria-se ela e ria-se em redor a Natureza, com tudo o que de humano aqui nela se inclui.
Nunca o meu pouco cabelo se sentiu tão só.

17.1.09

Os telhados de zinco

Nasci em Malanje. Quando a guerra começou na Baixa do Cassanje eu estava em Malanje. Vivi a chegada dos primeiros caçadores especiais, as primeiras imagens das chacinas, o ambos os lados da violência. À noite as mangas a cairem, pesadas de tão maduras nos telhados de zinco, pareciam tiros de canhangulos. Depois arrancaram os olhos a um taberneiro perto, chacinaram a metralhadora pela noite na ponte do rio Cuanza. O meu pai comprou uma espingarda 22 Long e seiscentas balas. Um dia acordei abraçado a ela, transido de medo.
Lembro isto porque de link em link, que os amigos mandam, vi imagens.
Passou por cima de nós a asa do avião, numa tarde de sábado, como hoje, a improvisada pista do campo de aviação, o chão esburacado, o risco iminente, o carro do meu pai e tantos outros a ladearem a pista, os faróis em oblíquo, para iluminarem o local da aterragem. Era escuro já. Murmurava-se que o Nordatlas trazia armamento para o quartel. Este Nordatlas. Ainda hoje guardo na memória o roncar dos motores.

16.1.09

A lindinha

Ouvia distraído rádio quando ele, futebolista, falava. Acho que tinha vindo de África ou do Brasil, esse pormenor não retive, mas tinha aquele entusiasmo tropical e, pelos vistos, aquela habilidade natural para dar pontapés e correr atrás de um bola que fazia dele e tantos iguais heróis de culto e figuras de luxo, pagos a ouro.
Vim aqui escrever porque, ao tentar dizer, numa frase só qual o seu grande objectivo em campo, aquela missão que dava a todos os seus músculos um fito e lhe povoava a cabeça de ideias tácticas fazendo de cada corrrida um propósito, de cada finta um instrumento, de cada remate uma apotesose, explicava que a ideia era «meter a lindinha lá dentro».
Rejubilei! Revi-me em êxtase, o estádio da vida em pé, eu, glorioso, olímpico, sumamente viril, a lindinha lá dentro.

14.1.09

O coveiro e o covil

Não resisto!
Chegou por várias fontes.
Circulará já na Net.
Mas aqui vai!
No aviso nº 11 466/2008 (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J. para um cargo de assessor, cujo vencimento anda à roda de 3500 euros. Na alínea 7 do dito aviso consigna-se que o método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na apreciação e discussão do currículo profissional do candidato.
Pois bem.
No aviso da pág. 26922, oriundo da Câmara Municipal de Lisboa anuncia-se concurso externo de ingresso para coveiro, cujo vencimento anda à roda de 450 euros mensais.
Ora o método de selecção neste caso é outro.
Primeiro, prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças;3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Além disso, claro, conhecimentos de transporte e remoção de restos mortais.
No final, exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato, não vá, claro, os mortos candidatarem-se.
Bem se ria o falecido Fernando Luso Soares num dos seus livros o Vontade de Ser Ministro, quando fantasiava, no quadro do antigo regime, com a história de um candidato a cargo por perbenda das senhoras autoridades e figuras gradas, que, ansioso por ser ministro, se viu convencido de que o lugar de inspector dos cemitérios era, na outra senhora, um dos lugares de maior importância política, sabido que os empedernidos e pertinazes reviralhiastas não perdiam pitada para armar motim no Alto de São João com discursatas republicanas, nos Prazeres com efemérides democráticas e por onde calhavam a pretexto de sepulcro lançar a simbólica de ornamentações amaçonadas e aventaleiras, que isto a pedreiragem, ademais jacobina e anti-talassa, tem artes de dianho.

12.1.09

O monumento à desumanidade

Há uma estação ferroviária que se chama Gare de Oriente. É um local inamistoso, em que um imenso pé direito simboliza a opressão de um céu de cimento, onde os grandes átrios são desertos gélidos para solitários viandantes. Acantonadas nos esconsos, como se escondidas de gente, bichos na floresta de betão, umas lojecas tristes, vendem sensaborias, algumas tragáveis como refeições.
Quem desenhou aquilo odiava comboios, tinha repugnância por viagens, rancor de todos os que são passageiros. Arquitecto da desolação fez ali o monumento à desumanidade.
Há a oriente de Lisboa e a Sul de Chelas um sarcófago por cima do qual passam comboios, nas tripas do qual passa o metropolitano, onde nos labirintos intermédios se atulham automóveis e nos entrefolhos urinados do qual estive eu e outros ensonados para a composição das sete e nove.
Na plataforma fazia frio. Quando não faz frio faz vento. Vindo de Auschwitz, os vagões entraram no horário, a caminho dos fornos crematórios das vidas queimadas a trabalhar. Alguns na ilusão da primeira classe.

7.1.09

Risco coberto

O meu pai costumava dizer que havia duas coisas de que não tencionava morrer, uma de susto, outra de parto.
Eu, naquela fase em que a virilidade se afirmava e com ela o gosto de exibir audácia, adorava repetir a graça. Depois foi ficando a piadinha, mesmo quando a masculinidade não precisava de demonstrações verbais.
Estava tudo muito certo até ter atentado no que me trouxe hoje o correio. Uma companhia de seguros, que cobre o meu futuro cadáver e a quem pago para gozo daqueles a quem o meu ser cadaveroso aproveite, explica-me, numa cartinha assinada por dois administradores que, entre outras coisas, me garante por apólice ressarcir do risco de parto. Isso mesmo.
Fico-me pois pelo susto. Ou melhor, já não fico.
De ora em diante vou precaver-me a sério, porque pior do que um parto de alto risco ainda é uma gravidez indesejada. E essa não sei se a seguradora, na hora do néné, não se tenta escapulir, entre as letras miudinhas, escrita a corpo oito.
Ele há coisas que nos seguram sem que um cristão saiba por onde!

28.12.08

Os livrinhos no sapatinho

Acabou o Natal e muitas crianças receberam livrinhos de Natal. E por serem crianças receberam livrinhos ditos para crianças, muitos que os amáveis ofertantes nem leram. Mas se lessem viam quantos eram livrinhos de papás, pépés, pipis, pópós e de pupús e não é a Cartilha Maternal de João de Deus de que falo. Livros para oligofrénicos.
Claro que as mesmas crianças receberam também em muitos casos jogos vídeos de uma inaudita violência, a morte ao alcance de um joystick, o sangue quase a jorrar do écran para o sofá.
Ora está na Fundação Gulbenkian uma interessante exposição em que logo no princípio se edita um explosivo texto do Fernando Pessoa sobre um livro do Afonso Lopes Vieira dedicado a crianças, O Naufrágio de Bartolomeu (Dias).
É uma defesa feroz da inteligência em nome das crianças, contra a idiotia dos adultos. Um texto zangado, porque Pessoa quando se irritava dragonizava-se, serpente alada, o mundo por debaixo em labaredas.
A ideia central da crítica é esta: «Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de cousas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser».
E isto porque, segundo Pessoa, «escrever como uma criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve ou não se publica ou se publica para adultos, psicólogos». Pelo que pergunta e bem: «E que interesse tem para crianças esta baba pedagógica?».
Ora aí está o que deveriam pensar muitos dos que idiotizam dentro de si a ideia de criança para escreverem para o lado idiota que em si julgam ser o de criança. Mais os ofertantes de livros imbecis para crianças tratadas como se fossem leitores de imbecilidades.
A sorte de muitos escritores e ofertantes é não haver hoje um Pessoa que escreva assim: «O Sr. Lopes Vieira é um criminoso. É-o por três razões. Está estragando, com o seu gato-por-lebre de simplicidade, o rudimentar senso estético de crianças, que, mesmo que sejam só duas, são classificáveis de inúmeras, ante o horror do crime. - Está tornando ridículos assuntos que conviria tratar com uma decência que a estupidez, mesmo quando involuntária, nunca tem. Pobres cães nossos amigos tinhosos de Lopes Vieira. Pobre Bartolomeu Dias, tão embobecido de pedagogias! - E, por último, para tudo de nocivo ser, o Sr. Lopes Vieira é até antipedagógico, porque quem escreve merece uma inquisição de professores».
Não sei como reagiu Vieira a Pessoa. «E visto que estes livros para crianças são o seu sono, bem se pode dizer que dorme como uma besta», atirou-lhe o autor da Mensagem. Em São Pedro de Muel o delicado Vieira, pai de País Lilás, Desterro Azul, só pode ter acordado sim, mas estremunhado.

27.12.08

Em palpos de aranha

Já era tarde mas ainda consegui ler antes de dormir aquele conto magnífico do Machado de Assis - e que arte difícil é dizer tanto num conto - que se chama A Sereníssima República. Já o tinha lido, varrera-se-me da memória. Foram os sublinhados que me fizeram recordar que jab andou por aqui e num livro que tem contos que outro livro, antológico, republica, em melhor papel e mais cuidada tipografia. Mas que importa! Li e voltei a ler!
O conto tem um arranque desconcertante, o de um homem que, por saber que um sábio inglês havia descoberto «a linguagem fónica dos insectos» - aqui começa o riso - , resolveu tornar pública, nas colunas de um jornal, a sua magnífica descoberta, a do «idioma aracneida», uma língua de aranhas que estava «gramaticando» - ah! a beleza em risota destes gerúndios ... - para uso das academias. Gozação total!
Só que, começando assim, tão prometedoramente e parodiando tudo, como ao citar uma inventada monografia de Büchner sobre «a vida psíquica dos animais» - são risadas sobre risadas ante um mundo tão surreal - , o conto dá de súbito uma guinada e entra na parte em que se organiza, em analogia com a república de Veneza, um regime governamental para as aranhas.
O leitor leva uma barrigada - olhem para esta palavra «barrigada», ela mesmo uma cólica em gargalhada! - quando Assis apresenta os partidos dessa comunidade das araneomórficas tecelãs de fios de seda. É que, como elas são geómetras - atente-se na estética ds teias, na simetria dos seus alinhados filamentos, na precisão matemática da moldura - nos partidos de governo é a geometria quem divide e separa.
Ideia genial! Na política das aranhas «uns entendem que as aranhas devem fazer as teias com fios rectos; é o partido rectilíneo; - outros pensam, ao contrário, que que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: as teias devem ser urdidas de fios rectos e com fios curvos; é o partido recto-curvilíneo».
Achámos a melhor designação para os do bloco central que entre nós ainda discutem se são mesmo socialistas, se sociais-democratas, ou um bocadinho das duas e afinal coisa nenhuma disso. São os recto-curvilíneos!

25.12.08

A miséria da televisão

Ontem à noite ao fechar o telejornal José Rodrigues dos Santos disse «se sente solidão, nós estamos aqui». Nós a RTP.
Um pouco antes tinha passado um dos momentos mais burlescos e ridículos que é possível ver-se em televisão, um concurso chamado o preço certo, espectáculo degradante em que adultos se transformam em crianças patetas, em que a única ideia é ganhar ganhar, a única conversa é quanto custa, quanto custa e tudo com muitos risos idiotas e muitos gritinhos histérios e saltinhos e ademanes, sem nexo nem propósito, uma paródia triste a macaquear emoção.
Durante o telejornal as reportagens sucediam-se, a puxarem ao sentimento, sobre a crise, e a falta de dinheiro e os pobrezinhos e os sem abrigo e o preço dos brinquedos e do que se come. Reportagens ocas, notícias de nada, informações de coisa nenhuma, apenas imagens a esmo e textos pindéricos. E José Rodrigues dos Santos fazia esgares e boquinhas a pontuar textos que legendavam com mais mediocridade ainda uma noite de televisão medíocre.
Foi no meio disto que ele surgiu. Barba crescida, roupa maltratada, a imagem do abandono.A ideia era mostrar que há pobreza e abandono. Que fazia ele na noite de Natal? Metia-se na cama. E ligava a televisão.
Compreende-se. Já que se vive na miséria, que nela se continue. Vê-se a RTP. Na noite de Natal.
Uma tristeza. É preciso não se ter vergonha na cara para oferecer esta degradação televisiva ao país e julgar que se faz serviço público: a penúria, o baixo nível, a pobreza, a ganância dos remediados, tudo feito farsa barata, mau entretenimento, péssima informação.

14.12.08

A idade da inocência

Rosselini, o da dolorosa Roma, Cidade Aberta, escreveu que as pessoas só sabem viver em sociedade onde há leis, não em comunidade onde há amor. Ouvi a frase no extraordinário documentário de Martin Scorsese sobre o cinema italiano. Só que alguns nem isso sabem. São os que nunca souberam viver. Ao olharem para trás o mundo é um vazio, a Pátria distante, o Lar despedaçado.

O reino dos animais

Insuportáveis, em número e em insolência, crocitantes criaturinhas, indigestos homúnculos, ei-los que chegam, em bando, ataviados em trajes já com halo a Natal, arrastando os indolentes pais e os contemplativos avós. Atroam os ares com guinchos, a alta voz é a forma de se fazerem ouvir.
São o produto infestante da passividade molenga os seus jovens progenitores, a eles submissos e ao resto indiferentes.
Correm e correm em demencial gincana, a invasão dos liliputes, atropelando cadeiras, em encontrões à minha tentativa de deles me abstrair. A meu lado um, pois os mais velhos da sua mesa conversavam vulgaridades, dele ausentes, dava palmadas rudes no tampo da mesa, fazendo desse tambor ritmo a pontuar uivos estridentes a mandá-los calar. Sem sucesso, porém, mas a minha gana de o esganar a crecer como um tornado na minha desértica alma, esta manhã, ansioso de a cevar nele ou noutro tanto pior que se rojava pelo chão como louco possesso e a maninha embevecida saltando a macaca, tudo em rodilhas, os meus nervos desfeitos.
Têm todos nomes que de quererem ser invulgares se tornaram comuns, irmana-os o chic da selvajaria de quem sente o mundo todo como casa sua, a paciência alheia um infinito inesgotável.
Rendi-me. À saída, a cabeça num volteio, cruzo-me com mais, novas hordas, aparelhados às famílias que ao meio dia e meia tomam o pequeno almoço porque ao sábado a comida é pelas quatro e ao jantar fica-se pelo cházinho e meias torradas.
Esfaimado de virulência insatisfeita lancei-me jardim fora em busca de paz. Um pouco adiante uma pata, tranquila e meiga, debicava na terra para os seus emplumados cuá-cuás, de serena amabilidade, aprenderem a comer. Era a pacata hora de almoço no reino dos animais.

10.12.08

Direitos humanos

As efemérides pelos Direitos Humanos correm o risco de ser um momento de intervalo no seu sistemático desrespeito e na sua sistemática indiferença. Hoje comemora-se o dia da Declaração Universal.
No imaginário dos juristas associam-se os direitos às liberdades, estas às garantias. Fosse esse o problema e já era penoso.
A questão surge quando a noção de direitos humanos, no seu conteúdo essencial, começa a incorporar os direitos sem os quais a vida não é possível, o quotidiano em que a liberdade se troca pela servidão, ao preço de um prato de sopa.

A remissão dos pecados

Um artigo na revista alemã Spiegel dá conta do facto de na cidade de Wittenberg, onde o monje Martinho Luter, fez há 500 anos a proclamação das suas Teses contra as indulgências da Igreja de Roma, pregando-as corajosamente na porta da Igreja local, haver hoje apenas dez por cento de protestantes.
Mas o artigo diz mais: que os restaurante locais servem um menu Lutero e há também pão Lutero, cerveja Lutero e não sei que mais de Lutero à venda.
Oficialmente a cidade é conhecida pelos alemães como a Lutherstadt, a cidade de Lutero. Percebe-se porquê. O comércio, sobretudo, entende-se muito bem com a ideia. A História é cruel.

4.12.08

Uma piada de morte!

Passeio nocturno, em piso chuviscoso, fora do meu habitat residencial. Vistas, a uma e uma, as casas, sob o sossego esclarecedor da noite, nota-se aqui a invulgar arquitectura e seu recorte modernista, além a degradação à espera de melhores rendas, mais adiante a curiosidade doméstica de uma janela, o insólito de uma montra e a garridice de suas cores.
Ora foi precisamente por ver montras, hábito alfacinha que os lisboetas contemporâneos perderam, que dei por ela: uma agência funerária, com tudo o que uma agência funerária pressupõe e exige, incluindo os telefones vinte e quatro horas por dia, que há muito quem morra a horas mortas, mais as imagens de santos e santinhos, Cristos e Senhoras de Fátima e, claro, porque a religiosidade lisboeta é forte, do Doutor Sousa Martins. Que não me lembro ter visto o Sidónio Pais, mas estava em espírito, pela certa.
Mas o apropósito deste post foi a magnífica surpresa que me reservava o canto escondido da montra. Encostados ao vidro, numa ala avançada de objectos de culto na base do vende-se aqui, ei-los. Eram odores ou essências, ou o que sejam de perfumados, para atrair clientela. Chamavam-se «chama freguês«.
Por um instante a minha alma abanou num tremor de espanta fantasmas, t'arrenego vital face àquela aparição chamativa! «Chama freguês» em montra de agência funerária. Apre!

2.12.08

Publicidade enganosa

Sai-se da auto-estrada onde a lei diz que se deve ir a não mais do que cento e vinte, mas na qual, parece haver tolerância até aos cento e quarenta. Entra-se, por inércia, no que parece ser uma via rápida. Não deve ser. Deve haver por ali, algures uma placa a dizer qualquer coisa a esse propósito. Para os que não repararem está lá de vez em quando a polícia. Desta vez, azar. estava mesmo. «Boa noite, senhor doutor. Documentos pessoais e da viatura, se faz favor». «Já sei. Vi o flash.Ia em excesso, calculo». «Pois. Ia a oitenta e quatro quilómetros». «Seja. Pago a multa». «São cento e vinte euros, senhor José. Quer coima ou depósito?». «Tanto faz, não quero reclamar. Se os senhores dizem é porque é. Aceitam multi-banco?». «Com certeza que sim. Paga coima. Está aqui o comprovativo. Pode reclamar à mesma, querendo. Boa viagem, senhor doutor».
Cumpriu-se a lei. O senhor José deu o exemplo. Da próxima tem que ir mais atento. Olhar para os cartazes publicitários dá nisto. Afixam-nos para os vermos, a cento e vinte euros cada um. Aquele em que reparei dizia «os nossos preços são imbatíveis». Mentira! Os da Brigada de Trânsito são muito mais baratos. Estes publicitários são, de facto, uns exagerados!

28.11.08

A morte virtual

No mesmo dia em que vejo o título de uma notícia que refere «robôs quase humanos» vejo outra que fala numa professora agredida a murro e a pontapé por um aluno de dezasseis anos. Fosse um caso e já era mau. Não é. Houvesse possibilidade de controlar a situação, mas não há. A violência doméstica, escolar, nas ruas está disseminada. A violência banalizou-se. As mesmas pessoas que se impressionam com os mortos em Bombaim que lhes chegam nos noticiários da TV assistem impávidas a cenas de mortandade sanguinolenta todas as noites na mesma TV e dormem refasteladas. Há um ponto em que a morte real e a morte virtual se confundem. Os pilotos de bombardeiros sabem isso. Os alvos são apenas pontos num écran. A dor não é um dado e a destruição de vidas é um número.

20.11.08

6 a 2

Vinha hoje a remoer na sentimentalidade doentia e depressiva do povo português ante os 6-2 que levámos ontem em face do Brasil, em futebol. Os políticos que vivem a oferecer alegrias e amanhãs devem estar preocupados. O futebol é um meio de catarse dos sentimentos cívicos quando em baixa, um entretém das frustrações privadas, uma sublimação da raiva social a que a política não dá saída.
Os pregos no caixão da portugalidade pontapeante terem sido martelados pelos brasileiros tem, porém, um acréscimo de opróbio, o de ser um filho a bater no pai.
Eu sei que a selecção portuguesa tem tantos portugueses quanto, um destes dias, a Nação portuguesa é, afinal, um aglomerado de estrangeiros a trabalhar entre nacionais desocupados. Mas mesmo assim dói!

18.11.08

Seis meses é um pulo, no inferno!

Tenho lido poucos jornais, sei pouco de acontecimentos correntes, estou muito afastado da política. Não por pedantismo ou por incivilidade, mas porque a informação de que preciso é a que tenho: alguns jornais, uns tantos acontecimentos, pouca política. Descobri que tinha lido poucos livros, como quem descobre que tem vivido pouco a vida. Ah! E descobri há pouco, ao passar por aqui, que ao PSD fazia-lhe bem seis meses sem Manuela Ferreira Leite. Podia ser que assim sobrasse alguma coisa do que já foi em tempos um grande partido nacional.

Sábios e Governo

Há cargos cujo nome envergonha quem deles faça parte. António Vitorino terá proposto «criação de uma comissão de sábios [sic] que teria como objectivo alcançar um acordo sobre a questão polémica relacionada com o processo de avaliação de professores». Isto, segundo diz a notícia que vi «em nome da independência e da razão».
No tempo de António Guterres o lema era «razão e coração». Agora o PS ficou sem «coração», trocando-o pela «independência».
Mas o que duvido é que alguém com independência perca a razão por fazer parte de uma comissão de pessoas chamadas de «sábios».
Quem for verdadeiramente sábio que se livre. A sapiência é saber distinguir a inteligência da esperteza.
Quanto a mim se fosse Governo demitia-me. Ter que me ver arbitrado por sábios só pode ser fazerem de mim estúpido.

15.11.08

As nossas vidas nas suas mãos

Calhou viajar de autocarro até ao Algarve e de autocarro regressar no mesmo dia, na mesma viatura, o mesmo condutor. Saímos de Lisboa pela treze, chegámos quase pelas dezoito, com praticamente uma hora de atraso. Regressei a Lisboa era meia-noite. Vinha cansado de tantas horas sentado, algumas a dormir, outras a ler.
Quer tudo isto dizer que aquele condutor fez nove horas totais de volante e sofreu um dia de trabalho de onze horas.
E depois querem os senhores da Prevenção Rodoviária, e os do Governo, e todos os da polícia, e as associações que se preocupam com as mortes nas estradas, para não falar nas vítimas, nas seguradoras, nos da Justiça, em que uns perdem, outros ganham, outros exibem-se neste macabro massacre de mortes nas estradas, que não haja acidentes?
Como é possível que um homem destes resista? Como é possível que isto seja permitido? Como é possível que haja tanta gente a fazer de conta?
Regressei esgotado e com vergonha de o dizer. Ali mesmo, fiel da minha vida e dos poucos soturnos passageiros, havia um ser humano a quem doía mais.

13.11.08

Fernando Pessoa em leilão

Tudo se reduz ao que vale o que sobeja. Fernando Pessoa teria de passar pelo vexame póstumo de ver os bens leiloados pela família e o leilão interrompido por providências judiciais. Li isto esta noite, por não ter podido trabalhar que assim sucedeu.
Talvez por isso, regressado a casa, tenha ido folhear, como num consolo possível, o livro de Luís Pedro Moitinho de Almeida sobre o poeta, que o falecido advogado e estremosa criatura conheceu ainda rapaz, empregado de uma firma de seu pai, sita no primeiro andar do número 71 da Rua da Prata.
Estão ali, não os modos de «fazer pela vida», com que António Mega Ferreira tentou reconstruir uma imagem banal e empresarial de quem escreveu os Poemas Dramáticos, mas sim os «vales à caixa», promissórias mendicantes de quem com isso alimentava o seu viver distante.
Fernando António Nogueira Pessoa morreu no Hospital de São Luís dos Franceses. Faltava só matá-lo, a golpes de licitação póstuma. Agora já está.

A primeira dama

É simpático um homem com as responsabilidades do Presidente dos Estados Unidos da América, na hora da despedida, dizer que errou nisto ou naquilo por não ter escutado a mulher. Dá um toque carinhoso, familiar, humano. O mundo que o detestou emociona-se. Os que o ridicularizaram como a um animal de circo perdoam tudo. É a América mental na sua pior expressão, mais infantil.
Mas claro que há o outro lado da questão. É que um homem com as responsabilidades do Presidente dos Estados da América tem por detrás de si compromissos legais, um programa, uma plétora de conselheiros, o Congresso, a História do seu país. Mas que vale isto ante a opinião íntima da sua mulher?
A alcova tem peso na política, na diplomacia, na geoestratégia. Por causa dela fizeram-se guerras, desfizeram-se impérios. Nela se forma também, por outra forma, a lógica da canhonheira, a retórica da tensão e do apaziguamento.
Perante isso que vale o Pentágono, a Sala Oval, o Departamento de Estado? Pior do que as Monarquias que têm duquesas são as Repúblicas com os seus cônjuges.

16.10.08

Freitas e o jogo de cartas

Por mais vontade que se tenha de gostar, Portugal desaponta. Ou então são os portugueses. Ou então são aqueles portugueses que dão a imagem de Portugal. Talvez assim esteja certo. Ao certo não se sabe bem o que é o país. Tem-se uma ideia ao ouvir excertos na rádio, momentos de televisão, pedaços de jornal. Julga-se que Portugal são sempre os mesmos, mas há outro, o Portugal anónimo que os suporta quando os não despreza.
Há pouco no intervalo de uma tarde de recolhimento, para desanuviar o espírito, passei os olhos pelas «breves». Parece que vai haver escândalo com a publicação das cartas que Marcelo Caetano escreveu e onde fala de Diogo Freitas do Amaral, seu dilecto discípulo.
Diogo iniciou-se na vida adulta agarrado à labita do seu mestre, como tantos outros. Se o regime político de que o professor foi Presidente do Conselho tivesse subsistido, teria sido um dos eleitos. Ele como mais uns quantos. Seguia o cursus honorum para tal. Tinha a formação, a linhagem, os credos, os tiques, a pose, a ambição. Era, em suma, um jovem promissor para um mundo prometido.
Teve o azar de o 25 de Abril o surpreender, a sorte de ser habilidoso, escapar-se em ceroulas nocturnas da alcova nupcial com o Estado Novo e dar o salto para os braços adúlteros da jovem e apetecível democracia. Muitos fizeram o mesmo. Marcelo ficou magoado, porque até no vira-casaquismo não tem que haver ingratidão nem parricídio. Quantos houve! As cartas dirão isso mesmo.
Mas é isto notícia? Não, não é. Quando a Monarquia deu em República aconteceu o mesmo. Acontece todas as vezes que a coisa não está a dar.
Há umas cartas a Marcelo Caetano que li até ao fim. Não são as que Freire Antunes publicou, não, sim as de uma mulher que o amou, editadas pela Verbo, creio eu. Ao menos nelas há humanidade, o resto é a animalidade do interesse. Volto para os meus livros. Uma noite descansada para todos.

13.10.08

A crise e a fava

A economia de mercado tem destas: a força da economia transforma-se na fraqueza dos mercados financeiros. Em caso de crise, entra o intervencionismo do Estado, à conta dos contribuintes. À lógica, que chegou a ser bandeira da UDP - «os ricos que paguem a crise» - sucede a técnica actual: os pobres que paguem as favas.

6.10.08

O ilusionismo, essa bela arte de viver

Houve tempos em que as pessoas ficavam um dia inteiro em casa e o telefone mal retinia. Hoje os telefones não retinem, cantam e gargarejam e ninguém está em casa salvo excepções. Houve tempos em que, a horas combinadas, um vulto feminino assomava, discreto, a uma janela. Hoje as janelas saltam impúdicas e chamam-se «pop up's», assim não se ponha ocupado no msn. Houve tempos em que as pessoas para se encontrarem avisavam com cartão e agradeciam com flores. Hoje está-se nessa, bora, na minha ou na tua, tanto faz.
Houve tempos em que o acto de estar era um reduto inexpugnável da individualidade, o receber uma condescendência social à civilidade, o aparecer uma forma de entretenimento para tornar todos contentes.
Era o tempo das visitas de cerimónia às famílias, do salão em que Madame pontificava, explêndida, do clube de ambiente inalado a conhaque e charuto para os cavalheiros, do chá das cinco remediado a scones entre amigas, o jantar formal em que meninos não entravam, tempos do piquenique com formigas de onde por vezes surgiam inesperados meninos.
Se calhar não houve um tempo com nada disto. Mas há um tempo em que a nostalgia de tudo isto já faz sentido, mesmo que impossível, mesmo que inaceitável, a ilusão uma arte de viver.

3.10.08

Uma manhã de aflição

O carro tinha de ir necessariamente à revisão. Os automóveis agora só vão à revisão aos trinta mil quilómetros. Um dia destes já nem vão: compram-se e passado uns milhares de quilómetros vão à inspecção, chumbam e entram directamente na sucata. Li um dia, sei lá agora onde, a nostalgia do tempo em que se fabricavam automóveis e não electro-domésticos auto-motorizados. A minha mãe dizia que o do meu avô até jarras tinha e cortinas.
O carro veio da revisão. Vinha lindo, brilhante, senhorial. Na conta explicavam que tinha sido lavado. Uma lavagem VIP, diziam: noventa e cinco euros de lavagem, à mão desarmada.
O carro está escondido agora na garagem. Tenho receio de metê-lo à estrada, ao pó que manchará o capot, aos insectos que se esborracharão no pára-brisas, à água que enlameará os pneus. Noventa e cinco euros de aflição esta manhã. Olho para a janela apavorado com a ideia que pode chover. E se eu fosse de comboio?

24.9.08

Portugueses, e o amor?

Não é diletantismo, mas deixei de estar a par de assuntos correntes. Há factos, porém, que despertam uma qualquer campainha no portão da atenção. Assim sucedeu este começo de manhã, porque o meu despertador se enganou nas horas e não viu que ainda era de noite.
Acordado que estava, fui fazer o que não fazia há muito, ver a imprensa on line. Sob o título «Mortes superam os nascimentos» o Diário de Notícias dava conta do que é a inversão da razão demográfica, o que «em termos técnicos, significa que a nossa taxa de crescimento natural é negativa (-0,01%)».
Ora um homem acorda com a doçura de um despertador, lê o DN e obviamente precipita-se para o lugar onde despertou com o dever social e patriótico de fazer gente.
Com uma notícia destas, nasce pela certa um movimento cívico, uma outra esperança nova! Portuguesas e Portugueses, hoje, amanhã e sempre, que os vossos serões tenham um destino! A oficial RTP que mude a programação, já não cantando loas noticiososas à senhora governação, mas entre a seguir ao jantar com filmes animadores, educativos, de bolinha no canto do écran, instigando ao acto. Recolhidas mais cedo as criancinhas, entre suspiros de alegria, os papás de Portugal, antes de se virarem as costas, darão novos mundos ao mundo.
Há só um particular que pode dar confusão. Diz o jornal que já foi o de Augusto de Castro e de José Saramago: «Portugal já hoje cresce à custa dos imigrantes, sobretudo africanos. Em 2007, a percentagem de filhos nascidos de casais mistos foi de 11,8%, mais três pontos que em 2002» e a propósito subtitula: «Mais velhos, mais escuros». Atenção, pois! Quando estiverem no auge do amplexo criador, quase em vias de lançar no ventre vivificador as sementes de novos lusitanos, acendam a luz. O DN agradece. Entretanto aqui fica o meu contributo musical, só para criar ambiente.

9.9.08

Angola a votos

Nasci em Angola, mas perdi o contacto com aquela minha terra. Os horrores da guerra conheci-os em 1961, por terem começado na Baixa de Cassange e eu morar em Malanje. Lembro-me da chegada dos primeiros caçadores especiais, lembro os belgas em fuga, lembro as primeiras matanças, de um lado e do outro. Talvez tenha sofrido relativamente pouco, apenas o terror, as noites espavoridas, nunca vi a violência diante dos olhos, apenas dentro da cabeça. Cada vez aprendo mais que nunca as nossas dores são tantas quanto as dos que verdadeiramente sofrem. É uma imodéstia do eu julgarmo-nos doridos.
Mas não era sobre isto que queria escrever, sim sobre ter ouvido há uns dias, na rádio, a deputada europeia Ana Gomes a vociferar contra o modo como haviam decorrido as eleições em Angola e ter ouvido, acho que um dia depois, a representante da Eurolândia e mais um pouco toda a gente, incluindo o nosso Presidente da República, a cumprimentar José Eduardo dos Santos pelo exemplo de democracia e de Ana Gomes não ter ouvido mais nada. Ana Gomes tem um blog onde tem escrito agora apenas Vital Moreira. O seu último post foi a cumprimentar Paulo Pedroso, o anterior sobre «a lasca do Alasca». Está aqui. Tudo isto que eu escrevo talvez faça sentido. É de facto triste que faça.

31.8.08

Um café para seis

A Lisboa pelintra, a Lisboa dos parvenus, a Lisboa do vale mais parecer tem os seus cronistas e invade a melhor literatura de costumes. Encontramo-la no Fialho de Almeida e no Eça. Toda ela está no Gervásio Lobato e no Armando Ferreira. No Leitão de Barros. É uma Lisboa que se alimenta a açúcar em vez de bife, por se ter esgotado o cartão de crédito, é a Lisboa das imposturices de personalidade em prol de um bom engate, a Lisboa de uma passagem pela cama na noite de sexta-feira que segunda-feira já acabou ó tu como é que disseste que te chamavas. Estamos já na segunda-geração e na terceira geração da família Piranga e da sua trupe.
E depois há os literatos decadentes, unidos em gangs, felinos de dentuça afiada em luta pelo território de uma consagração. E há as meninas com um palminho de cara e os meninos com um palminho de corpo, vindos do anonimato, em busca da glória e da fama na arte, na moda ou na TV, entre as estonteantes luzes do estrelato decadente, libidinoso velho e predador. A Lisboa ociosa, a estafar o resto do que ainda sobra da herança dos tios e do subsídio que há-de vir, a Lisboa chula sustentada, a Lisboa fadista fina, enfastiada de tédio e enojada do próprio brasão, fazendo de proletária e fingindo-se plebeia, em ré menor, a do fado corrido na viela do expediente, do calote pé descalço e da falperra afidalgada.
Sob toda esta Lisboa, há a Lisboa marçana, da mercearia de bairro à espera da misericórdia da ASAE que lhe dê o golpe da eutanásia, a Lisboa funcionária, a que sobreviveu ao quadro de adidos e à pré-reforma e ao quadro de excedentes e aos ministros novos cheios de velhas ideias inovadoras. A Lisboa dos africanos e a dos eslavos e a dos vindos dos Brasis, que limpa e constrói e sorri e serve numa Lisboa suja, a destruir-se e que perdeu a capacidade de rir.
Lembrei-me disto tudo esta manhã quando, a rebentar de dores de cabeça, me assaltava, obsessivamente como os latejos de uma nojenta enxaqueca, a frase explêndida do António Ferro - ai! ó chuis do politicamente correcto, flics do que se pode dizer, quem eu fui citar! - a frase explêndida do António Ferro, dizia, na sua crónica sobre o café Martinho, o da Arcada, o do Pessoa, esse «onde o Ponce Leão, filho, portanto o Kronprinz, pede, de mistura com a morte dos empresários que não lhe aceitam as peças, um café para seis quando não é para oito...».
É a Lisboa eterna, a que disfarça em dieta o não haver já sequer para a paparoca, a Lisboa que pouco trabuca e que nada manduca, a Lisboa que dá ganas de vomitar. E vomitei mesmo, convicta e revoltadamente.

30.8.08

Poesia higiénica

No número de Janeiro/Junho de 2002 da revista Colóquio, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, vem, a propósito de Tomaz de Figueiredo – e em oneroso fac-simile – um chamado poema que ele dedicou ao último Presidente do Conselho de Ministros antes do 25 de Abril.
Uns excertos bastam para se aquilatar do seu fino recorte literário e subtileza poética: «apoiaste o reviralho, ó meu cara de trabalho, aumentaste a confusão”, “Marcelo, mar de marmelo, marmelada de chinelo”; “Marcelo Alves José, lava a cara no bidé, onde hás-de lavá-la tu”; “depois da posta mamada, pão as mamas da criada [?], vai servir o comunismo, Marcelo José cinismo».
Um naco destes, só mesmo em extra-texto, para lhe dar realce, pois claro!
Só que, se me permitem, há uma pequena falha tipográfica. É que ele há «poemas» que ficariam melhor se impressos em papel absorvente e picotado. É o caso deste.
Arte e poesia sim, mas no caso para estarem sempre mas sempre ao serviço das necessidades essenciais do povo português! E por isso o papel higiénico ajuda.