10.5.10

Caçada real, caçada legal

Para um reforma se vender é preciso haver algo que os jornais comprem. Normalmente um nome e uma frase citável. Para isso o Governo tem hoje as suas agências de comunicação, que o vendem como notícia nos media.
O Governo quer simplificar o processo legislativo. E para isso inventou-se um nome: Simplegis. E para tal inventou-se uma frase: «Governo quer acabar, por ano, com 300 leis».
A ideia do nome percebe-se: é uma variante do Simplex, nome que já terá entrado no ouvido e nada como uma marca conhecida para dar credibilidade ao produto. A ideia das 300 leis entende-se: é que nada como um número para dar a imagem de que a coisa é séria e até já há contas para o demonstrar.
Ao ler isto lembrei-me quando estive no grupo de ligação luso-chinês. Como com a Declaração Conjunta sobre a questão de Macau a parte chinesa tinha garantido à parte portuguesa que seriam respeitados durante cinquenta anos os usos e costumes do território, quer dizer as leis que os portugueses tinham aprovado para Macau, a delegação chinesa, com cínica candura, pedia aos diplomatas portugueses que lhe entregassem a lista das leis em vigor.
«A lista?». Claro que não há uma lista das leis em vigor, porque no Ocidente com as revogações implícitas e as derrogações nunca se sabe bem o que vigora nem quando.
«Não têm uma lista», perguntavam os cínicos sínicos.
«Quer-se dizer...», balbuciavam os tugas, embaraçados...
Vem agora o Simplegis. À razão de 300 por ano, dentro de um século tá tudo revogado. A Nação poderá repousar, pois viu-se livre do Estado. Talvez então a Pátria se salve. Sem lei nem rei.




1.5.10

Uma economia humana

Uma economia que cresce gerando lucros sem pleno emprego não pode ser legítima, em função de nenhum critério de humanidade. Seja este o patamar comum de revolta para um dia 1º de Maio, que una mesmo os que, não provindo do marxismo, se revêm numa qualquer concepção que tome o homem como a medida e o fim de todas as coisas.

28.4.10

E que tal mudarem de nome?

«Juros da dívida portuguesa já superam os dos gregos quando pediram ajuda», reza o Público, em título. Com o novo líder do PSD a seu lado o primeiro-ministro «antecipa 'cortes' nas prestações sociais» esclarece o DN. Eis o bloco central a resolver a crise dos ricos com o ataque aos pobres. Chama-se a isto um governo socialista apoiado por uma oposição social-democrata. Como se nota, claro!

27.4.10

Esta noite o País está só

O País levou esta tarde um abanão financeiro tão forte quanto um sismo. A cotação do Estado português foi degradada para níveis próximos do alerta total. A cotação de cinco maiores bancos degradada foi em consequência.
Discutível que seja, a verdade é que os responsáveis internacionais convergem na ideia de que Portugal se aproxima da banca rota.
O triunfo das finanças sobre a economia, a geração de riqueza virtual e como tal especulativa, o ilimitado crédito, a demagogia governamental, a generalização do materialismo consumista, eis a receita explosiva.
Esta noite o primeiro-ministro, se tivesse o sentido da responsabilidade tinha aparecido na TV a dar a cara. Não esteve. Ele sabe que já não incute qualquer confiança. O demagógico e irresponsável discurso do optimismo balofo deu isto. Ele sabe que a aparecer seria motivo de desconfiança. Por isso esconde-se. O Presidente da República calado está. O País esta noite está sozinho a assistir à chegada do desastre. Portugal está à deriva.

26.4.10

Mente-se por medo

Nos círculos do poder murmura-se que o País atravessa uma situação altamente perigosa. O Presidente da República fala em «dúvidas quanto ao futuro do País». A possibilidade de Portugal abrir falência é afirmada já na praça pública internacional, na boca de responsáveis ligados à finança internacional. De há muito que se sabia. Medina Carreira tem-se farto de o dizer. Acusam-no de pessimista. É mais fácil fingir que se está bem ante a vergonha de se estar péssimo. Os Estados como as pessoas. Mentem.

24.4.10

Amanhã é o dia 25 de Abril

Comemora-se amanhã mais um 25 de Abril. Cada um comemora o seu. Muitos dos que estavam pesarosos e apreensivos nesse dia em 1974 comemorarão agora os seus actuais dias de contentamento e bem-estar porque, vistas as coisas, nada lhes aconteceu durante ou tudo se recuperou depois. Estão bem na vida ao lado dos novos ricos que a Revolução fabricou e que o sector público sustenta.
Ao Alentejo dos latifundiários sucede o Alentejo dos mesmos latifundiários, mais os montes e suas piscinas dos citadinos burguesas exibicionistas.
A questão são os que se alegraram naquela pálida madrugada, os que acreditaram e afinal se iludiram. Os que foram enganados. Os que erraram no caminho.
Morre-se hoje de tristeza em Portugal.
Tristeza pela paródia em que a democracia se tornou, prisioneira dos partidos que se entrincheiraram no Governo, estes ao seviço de interesses questionáveis. Tristeza pela bancarrota que se aproxima. Tristeza pelo baixo nível da classe dirigente. Tristeza pelo banditismo, pela insegurança, pela rapina. Tristeza porque o Estado está à mercê de negociatas. Tristeza porque estão no poder pessoas a quem nenhuma empresa inteligente daria emprego. Tristeza pelo aviltamento da autoridade nas ruas, nas famílias, nas escolas.
Tristeza porque nunca o povo consumiu tanta alarvice nunca a cultura tão sustentada. Tristeza quando se liga a televisão, tristeza quando se ouvem conversas de rua.
Tristeza porque já ninguém quer saber de coisa alguma, todos acham que todos aldrabam, todos querem o quinhão que conseguem os aldrabões.
Tristeza pelas fábricas falidas, pelo comércio arruinado, pelas famílias endividadas até às orelhas, a viverem do crédito e do calote.
Comemora-se amanhã o dia 25 de Abril. Cada um comemora o seu.
Das catacumbas da portugalidade haverá seguramente os que pensam na agonia que tudo isto lhes causa e se perguntam como se fabricam bombas. Ante a miséria da Pátria o País tem direito à revolta, à Nação exige-se-lhe a Revolução. Está em causa a sobrevivência de Portugal.
Somos o mais velho país da Europa povoado por gente que perdeu o respeito ao que isso significa, liderado por gente que nem sabe quanto isso vale.
Amanhã, dia 25 de Abril, quantos já não comemoram publicamente o que foi, prepararam clandestinamente o que há que ser.

22.4.10

Comissões para lamentar

Quando os deputados que integram uma comissão parlamentar de inquérito se permitem expressar publicamente o seu pensamento sobre o que há para decidir antes de a comissão iniciar funções e mal a mesma deu os primeiros passos, quando citam para justificar as posições que tomam o pensamento da bancada parlamentar de onde são oriundos, sem distância nem resguardo, quando fazem apartes e se permitem piadas de mau tom e pior timbre, pergunto: acham que é assim que se honra a norma segundo a qual «as comissões parlamentares de inquérito gozam dos poderes de investigação das autoridades judiciais que a estas não estejam constitucionalmente reservados»?
Imagine-se um cidadão ante uma autoridade judicial que se permitisse tais liberdades! Tais anúncios prévios do que pensa quem o insta e decidirá, tal manifestações de quanto o inquiridor e decisor é porta-voz de pensamento alheio! Tais graçolas entre eles e com todos os demais...
Tentando ter dos tribunais os tiques, as comissões parlamentares de inquérito permitem-se intimar magistrados para serem ouvidos, requisitam cópias de processos criminais num tu-cá-tu-lá com o poder judiciário legítimo, invocando a lei. Terão para isso a autoridade formal e mais alguma. Falta-lhe a legitimação substancial, a da isenção e da independência, até a das boas maneiras.
Eis o que penso como cidadão e como jurista. Razão de ciência: o que tenho visto em directo e ao vivo!
Sejamos claros: é o mundo da verdade conveniente, um meio que permite desacreditar os tribunais.

11.4.10

Ânsia de martírio

No apontamento que publicou no número da Nova Águia dedicado a Teixeira de Pascoaes, um advogado que procurou asilo na escrita, Jesué Pinharanda Gomes diz, a propósito da Ordem dos Frades Menores, vulgo Franciscanos: que depois de se terem instalado em Portugal em 1217, em Alenquer e Guimarães e dois anos depois em Lisboa e Coimbra, «os frades apostados na missionação em Marrocos, onde foram martirizados (1220) este martírio prestigiando a Ordem».
Ficou-me esta expressão «este martírio prestigiando a Ordem».
Se atentarmos bens, quer nas pessoas colectivas, quer nas individuais, a ânsia de martírio é amiúde uma forma mascarada do desejo de apreço, uma forma de realização da honra. Assim como há quem não suporte ser amado há quem não conviva consigo sem sentir-se detestado.
Nasce daí aquela forma inamistosa de ser, em solilóquio de catacumba ou em vociferante guerrear.
O dia da imolação é o dia da exaltação!

10.4.10

A doçura do dever

«Há homens que parecem sempre prontos a comandar uma frota e a cortar uma perna; há outros que só fazem quando a obrigação das situações se converte num prazer». A frase é de Agustina Bessa-Luís. Resume a doçura agónica dos deveres. O herói é quantas as vezes um autómato a inexorabilidade a sua única fonte de contentamento.

6.4.10

A lei corrupta

Tenho sempre medo de comentar notícias de jonais. É que temos muita imprensa do «diz-se». E depois fica a responsabiliadde do comentário e a irresponsabilidade do que se comentou.
A ser verdade o que diz-se por aí o PS quer obrigar os juízes e procuradores a declararem rendimentos antes e depois do início de funções. Alega que isso é para combater a corrupção. Ora é patente que uma tal medida não visa combater corrupção alguma, sim rebaixar os que combatem a corrupção.
É uma medida de vingança política não de legitimidade jurídica.
Não que os juízes em democracia estejam acima de suspeita.Ninguém está.
A questão é outra. É que se for assim vamos a isto. Que todos declarem: políticos e não políticos, tudo quanto mexe em dinheiro ou em poder, na vida pública ou privada, militares, empresários, padres e infiéis, meninas da vida para o caso de traficarem influência no segredo das alcovas, garotos de programa para o caso de amaciarem os canais do poder.
Sejamos claros: a razão que levou o Estado a legislar no sentido de obrigar os políticos a entregarem declarações de riqueza foi a evidência que se tornava grave suspeita a de haver uns cidadãos que chegavam à vida pública com uma mão atrás e outra à frente e em breve trecho estavam milionários.
Foi uma lei para afastar uma suspeita que estava criada, uma lei defensiva que os políticos aprovaram para si próprios para que pelo cruzamento de dois papéis se lhes passasse carta de seriedade.
Ora que suspeitas há quanto a juízes que justifiquem esta lei? Digam-me quantos foram condenados, quantos acusados, quantos investigados? Nenhumas que eu saiba.
Vergonha pois e falta de pudor. A lei contra a corrupção dos magistrados é a lei de uma democracia corrupta. Nada como os viciosos para não acreditarem na virtude.

Uma notícia de...

Houve tempos em que era luxo. Davam champanhe. Brindes. Saquinhos e maletas com etiquetas da companhias. Uma pessoa que viajava de avião sentia-se importante. Mesmo na turística. As hospedeiras eram lindas, os comandantes aprumados.
Agora uma pessoa é descalçada antes de entrar, a comida é uma lata, os joelhos encostados à boca, um halo a gado, lúgubre, a desregulação aérea a meter medo.
A notícia entretanto chegou: «A Ryanair está a trabalhar com a Boeing, para equipar a sua frota de aviões 737-800 com casas de banho activadas com uma moeda de €1 / £1».
Claro que tudo na vida tem uma razão: «Daniel Carvalho, director de comunicação da Ryanair, refere ao LowCostPortugal que a medida visa desencorajar o uso de casa de banho de forma a adicionar uma a duas filas, cerca de seis a 12 lugares. Para tal, tem de se passar a utilizar menos o WC».
A regra é esta: fezes por passageiros. Um admirável mundo novo vem aí. Que ... de mundo!




O País e a Nação

Portugal é um País que sai caro à Nação. A frase, genial, é do Ruben A. no seu magnífico romance Kaos. O escritor morreu entristecido com muita coisa. Perseguido pelo regime anterior não se conseguiu identificar com o que saíu do 25 de Abril. Teve de se vexar a pedir e humilhar-se ao ver negar.
A sua escrita é magnífica de riso e extraordinária de dor. Fizeram-no efémero Director-Geral por equívoco, ele fundou o jornal «Expresso» por brincadeira.
A diferença entre País e Nação há muitos à esquerda que não a conhecem, julgando que só há classes sociais. Mas também há disso à direita, julgando os místicos da ordem que há uma Pátria acima da Nação e convindo aos pragmáticos dos negócios que venham quaisquer apátridas trabalhar para o País, seja qual for a sua Nação.
Depois há os patriotas quando joga a selecção nacional de futebol e os nacionalistas quando o Santander compra o Totta. Ah! E o Zé-Macho, personagem crucial do romance que se pergunta ante a ideia da luta de classes se vão à luta a terceira e a quarta classes da primária. Coisas que já não há, claro. Tudo cai, a Pátria, a Nação, o País, por esta ordem. Um dia estamos todos na Eurolândia, excepto os que fugiram para a mata porque a luta continua.

3.4.10

Os dias miseráveis

Ligue-se a televisão e veja-se a carga feroz de violência que é despejada no écran. Saia-se à rua e sinta-se o descontrolo nervoso que anda por aí à solta em cada incidente de trânsito. Leiam-se jornais e veja-se como são cometidos hoje os crimes, a reiteração, a brutalidade. Seja-se professor e sinta-se o medo de dar aulas, receio de sair da escola sozinho. Tenha-se idade avançada ou menor idade e viva-se a dúvida sobre se será seguro fazer-se à rua, sentar-se num jardim.
Tudo é o mesmo. Miúdos matam virtualmente em jogos em que o assassino é herói, impune, imortal. Um dia pega-se numa faca, e a morte deixou de custar. É só um frio na espinha num primeiro instante, depois a alegria infinita de ter acertado.
Estamos a ser uma sociedade de bandidos. Os que o permitem julgam-se decentes na sua cobardia. Depois somos impiedosos intervaladamente. A tolerância para com tudo traduz-se na  impiedade para com alguns. É esse o desespero dos que ainda restam. A sua decência é uma dor de alma e um espectáculo triste.
A crucificação é uma forma de gozar a longa agonia, prolongando a dor e a volúpia de quem a causa.

2.4.10

A misericórdia e a esperança

Censora, acusadora, justiceira, guardiã da inocência, a Igreja que queimou vivos quantos prevaricaram, que excomungou os que divorciaran e anatemizou os que ousaram duvidar, a mesma Igreja cai hoje de joelhos aos pés da cruz.
Pede perdão mais do que a Deus, pede misericórdia à memória dos que condenou. A pompa abate-se, inútil, o báculo abate-se, bengala de trôpego banido.
Eu leio: «Por isso os apóstolos trancaram as portas com medo. Nada estava concluído apesar de Jesus dizer que “tudo está consumado”. Apenas estranhos como o Centurião e Nicode-mos trabalhavam na sombra a convicção de que ali não estava o fim. Um dos ladrões também, mas tinha partido. Um silêncio descrente se apoderou de todos, inclusive dos que desconfiavam dos guardas do túmulo que poderiam deixar escapar, por roubo, o corpo desse Nazareno que veio roubar a tranquilidade à cidade ocupada onde pouco acontecia. Outra vez fora adiada a vinda do Messias». É o editorial do Padre António Rego, da Agência Ecclesia, a fonte de notícias da Igreja Católica em Portugal.
Infinita seja a misericórdia e a esperança. Se não houver Deus, é o reino de Satanás em plena glória e esplendor.

27.3.10

A funesta ilusão

Indecisos ante o presente, receosos face ao futuro, incertos quanto ao próprio passado, eis os portugueses. Há homens que em novos julgaram defender a Pátria em África e com orgulho, e acreditam hoje, a ficarem velhos, que afinal perpetuavam apenas o colonialismo e têm disso vergonha; há pais que não sabem como irão subsistir os seus filhos com tantos cursos e tanto desemprego, há tantos que se perguntam para que vale a pena qualquer sacrifício num mundo em que se dá crédito bancário à inconsciência e em que se elegem inconscientes cobradores de ilusões.
Descrentes nos dirigentes, desconfiados uns dos outros, os portugueses não acreditam nos seus cidadãos, defendem-se já do género humano. Ninguém é totalmente bom, poucos inocentes, nenhum ingénuo, todos estão manchados pela desonra, nem que seja a da inércia e da indiferença.
Chegou agora, porém, o último anel desses círculos de sombras, labiríntico; o medo dos elementos, da Natureza, da coexistência do nosso pequeno Universo, a chegada do Caos.
Esta tarde a terra tremeu no Alentejo. Nada de especial, afinal. Outro dia tremeu no Algarve. Também nada de especial também. Há mais de duzentos anos que a falha sísmica em cima da qual somos País não nos arrasa. Nada especial, enfim.
Um dia destes, talvez de noite, um tossicar alérgico das entranhas da Terra e serão uns milhares de mortos, um bocejo na estatística da existência. Os que sobrevirerem continuarão,a na madrugada dos escombros, com a mesma indiferença e a mesma mesquinhez, o desabamento e a depredação notícias e entretenimento de todos os outros.
A esperança de que não surja a morte que renova a vida é uma das funestas ilusões dos medíocres. Neles a máxima grandeza é sobreviverem.

24.3.10

O esgar afivelado

O País está parado. Tirando o que vai suceder na comissão parlamentar de inquérito e algum sobressalto de mais uma nota baixa das agências de rating, nada é notícia que valha a pena saber. O Governo perdeu a iniciativa política, o primeiro-ministro está sitiado. Como um autómato que tenha sobejado num centro comercial cujo tecto abateu, José Sócrates repete o discurso da confiança até à exaustão. Já ninguém o ouve e já nem ele espera ser ouvido. O poder tem a sua mecânica, o ritual do facies, da pose, da oportunidade. Quando falha o fundo fica a forma. Sócrates é um corredor de forma, perseguindo uma meta inatingível. Antes dele, Pedro Santana Lopes corria para salvar a vida, sabendo o cadafalso que o esperava. Para o actual habitante da Rua da Imprensa à Estrela é a longa agonia do corredor da morte. Nem comutação nem execução. Apenas uma dolorosa espera, o esgar afivelado de um optimismo feito subsistência. Faz dó.

23.3.10

A moral utilitária

Escrevi aqui um post sobre um fulano que, sendo hoje um áspero e impiedoso crítico da moralidade de todos nós, tem um rabo de palha no seu início de carreira por causa do qual devia ter a língua menos afiada e sobretudo mais vergonha na cara.
Se quisesse tinha posto o nome, atirando a pessoa em causa para o pelourinho da infâmia. Só que não está em causa aquela pessoa mas sim aquele tipo de pessoas. Por isso ficamos assim.
Lamentavelmente há muitos a quem o modelo se aplica pelo que corro o risco da chamada generalização.
O curioso da história não é esse, o de me invectivaram a revelar de quem se trata. Curioso foi perguntar-me um amigo meu se não era um tal fulano e, tendo eu dito que não era, se ter logo desinteressado da questão e da conversa. É que fosse aquele em quem ele pensava dava muito jeito, pois «ele tem andado a dizer por aí umas coisas e já agora...».
Dizem dos chineses que têm uma moral utilitária: o bem e o mal dependem de quem é aquele de quem estamos falando. Aqui é o caso: ainda se fosse este...agora assim que se lixem os que ainda se preocupam.

20.3.10

O quisto repelente

Actualmente tem coluna cativa num jornal. de quando em vez aparece na TV. Sempre como Catão, lutador pela moralidade, perseguidor da incoerência, polícia dos bons costumes em matéria política. Vocifera, enxovalha, ridiculariza.
Pouquíssimos sabem que purga um quisto repelente, uma sífilis de juventude, purulenta, pestífera. Queria então ser assistente universitário. A vigilante PIDE não deixou. O rapaz não se conformou. Era uma carreira que lhe vedavam. Meteu requerimento. Na António Maria Cardoso, onde foi pelo seu pé, ajoelhou, servil. Jurou fidelidade à Constituição de 1933, abjurou, justificou com inconsciências o que eram ousadias radicais. Denunciou colegas. A polícia tinha organizado uns autos que, para macaquearem os dos tribunais, ostentavam na capa o título «autos de revisão». O jovem candidato indicou testemunhas. Só uma se dignou, respondendo por escrito, por ser juiz conselheiro. Fez um cínico depoimento de ouvir dizer: que lhe diziam que o rapaz hoje era outro, que só queria livros e boas maneiras, conformismo, obediência. O outro, director dos serviços de Censura à imprensa, nem lá pôs os pés. No final os «pides» opinaram que sim, que o colaborador rapaz já oferecia garantias de cooperar «na realização dos fins superiores do Estado».
Seguiu-se uma biografia. Uma típica biografia. Hoje tem o fígado carcomido, no que a maldade ajuda. É desta massa que eles se fazem. Produto da polícia é ele próprio um «chui».
Se adivinharem quem é não tem importância. Ele há tantos....

Vingança pluvial

Uma pessoa abre a janela e pergunta-se o que é que ainda haverá mais para chover. Parece que a Natureza quer que finalmente se abata, desmoronando-se, toda a velharia imobiliária degradada e perigosa, fruto de rendas imorais pagas por gente que nem toda pode tão pouco, mostrar que criminoso foi, pela ganância dos construtores, edificar-se em cima das linhas de água, vidas e haveres em risco de serem levados pela torrente. Carros de bombeiros num vai-vém, o sistema de saneamento por vezes colapsa, devolvendo o fétido a quem ele pertence. Faz-se justiça ao menos, excrementária. Pena é que seja sobre os danados da terra, as vítimas do costume.

19.3.10

A revolta surda

Há um sentimento de revolta surda do País, mas há, mais sentido, mais dorido, e talvez mais calado, um sentimento de profundo desânimo. Excepto os que se movem na área dos partidos de governo, que ainda se animam e entusiasmam com velhacarias e outras canalhices do assalto ao poder, a verdade é uma profunda indiferença, uma apática ausência de esperança. O não querer saber passou a ser a filosofia nacional por excelência. Tirando as misérias quotidianas próprias e as oportunidades de golo no futebol, ninguém quer saber de mais nada. Militantes de causas, catequistas de ideias, são cada vez menos, ali os indefectíveis comunistas, além uns exasperados bloquistas, mais adiante uns mansos católicos. No mais misturam-se pregadores de seitas com vendedores ao domicílio. Não há mais.
Há é, para além disso, pessoas que se entusiasmam por crónicas tremendistas à Vasco Pulido Valente ou à António Barreto. Entusiasmavam-se, quero eu dizer. Porque hoje a maioria desses leitores acham que elas não levam a parte alguma e lêem-nas enfastiados para se desenfastiarem.
O livro de Henrique Medina Carreira esgota-se em reedições, mas os problemas que ele ali denuncia, reditam-se ainda mais.
Operações como Vamos Limpar Portugal ainda poderiam abrir via para uma grande limpeza. Mas já nem isso ou a ironia disso acontece. Escândalos escancaram-se. Ninguém é poupado. Primeiro foi a política, hoje a Justiça e também a imprensa que os denuncia. Quem julga é julgado, quem denuncia é denunciado.
Houve tempos em que a alma portuguesa era sebastianista porque esperava um dia de nevoeiro. Hoje não pára de chover.

15.3.10

Quem se mete com o PSD, leva!

Eu não acompanhei o Congresso do PSD mas sei que adopataram a doutrina Jorge Coelho! Lembram-se quando aquele dirigente socialista lançou a célebre frase «quem se mete com o PS, leva!». Pois agora com os laranjas é o mesmo, com uma variante: «quem se meter com o PSD sendo social-democrata, leva!». Em período de eleições, claro.
A proposta veio do inenarrável Dr. Santana Lopes que só com essa atirou o partido para o charco quando parecia levantar-se. Queria calar a boca a alguns dos seus, abriu as goelas aos socialistas. Vitalino Canas veio à televisão acusar seraficamente a ideia de estalinista, disfarçando que é um júbilo poderem safar Sócrates do labéu de autoritário e manipulador.
Na Soeiro Pereira Gomes esta noite por um instante devem ter pensado que aquilo do estalinismo era com eles. Desta vez não é. Aliás os comunistas nem precisam votar moções parecidas. Lá quem critica o partido nunca foi do partido. Está resolvido o problema no ovo.

Um País sem ontem

Os números oficias do Gabinete de Segurança do Ministério da Educação dizem que «registaram-se, no ano lectivo 2004/2005, mais de 1 200 casos de violência escolar nos estabelecimentos de ensino portugueses. Estes obrigaram um total de 191 alunos, professores e funcionários a receber tratamento hospitalar devido a agressões».
Isto aconteceu em 2005! Escrevi sobre em 10 de Setembro de 2006, quando os números foram divulgados. Está aqui.
Sabem o que aconteceu não sabem? Nada! Por isso há professores que se suicidam, alunos que se atiram ao rio.
A única coisa é que em cada dia os portugueses estão mais esquecidos. É um País sem ontem, caminho aberto para ser uma Nação sem amanhã.

13.3.10

Vendedores de prazos

Não é privativo de proprietários ou de patrões, e nisso enganam-se os marxistas, porque há operários burgueses. Não é privativo de quem tem muito, pois há explorados miseráveis de mentalidade aburguesada.
São todos aqueles para quem a pecúnia e a vida material são a razão da vida, os infectados pela ambição do mais, doentes pelo virus da inveja, os aritméticos da acumulação, os que só conhecem o quantitativo, a comparação, os números. Usurários da própria vida, alugando-a a qualquer vida para que frutique o capital do fácil viver, parasitariamente se necessário.
O juro é o preço do tempo. Por isso a burguesia tem uma regra de ouro: aguentar, a qualquer custo, mesmo sob o escárnio, o ódio, o vitupério moral. A longo prazo só a falência das suas presas lhe retira o rendimento. Na vida política é assim também. Todos os negócios são uma forma de comprar tempo, uma forma de saber durar. O vendedor é sempre o mesmo, mudam sim os intermediários.

9.3.10

Desemprego, oferece-se

Estava à porta de uma loja de artigos para casa. Meteu conversa com uma senhora com quem simpatizou ou ela com ele. Quando ouvi o conversado já se tinham despedido com amabilidades mútuas, ela de cadeira de rodas. «Tem o quarto ano de arquitectura mas teve de esconder as habilitações para arranjar este trabalho». Voltámos à nave central do centro comercial. Saraivadas de gente nova, alguma esperta, activa, promissora, de serviço a lojas de nenhuma venda em troca de raquíticos ordenados. Muitos com cursos superiores. Mesmo assim eram bonitos, de uma beleza ofensiva num mundo feio, alguns sorriam.
A instrução hoje é uma burla: oferecem-se desempregos a quem pagar o ensino. Para muitos casos exigem-se licenciaturas. Terminadas estas, não há trabalho. Tira-se então um mestrado, ou dois, mesmo um doutoramento. De vez em quando surge a magnífica oportunidade de um «call centre», que é uma forma de vender o que nunca se terá.

Portugal no prego

Até aqui os portugueses pensavam que o perímetro das coisas que não prestavam terminava no Governo. Claro que o português achava que o seu país era «uma merda». Mas isso era só uma ideia geral porque em outros momentos o mesmo português achava que o seu país era «o máximo».
Agora o aludido português começa a surpreender-se em relação ao dito País que é Portugal. Lê na imprensa financeira que as agências de «rating» consideram que Portugal é perigoso e que por isso o dinheiro emprestado deve supor mais garantias o que significa sair mais caro.
Há tempos o Dr. Medina Carreira demonstrou com base em números e quadros - feitos que me lembre alguns pelo Dr. António Mendonça que é membro deste subsistente Governo - que estamos a viver fiado, em rigor a comer fiado.
Por ser assim os portugueses, que são a soma lógica de todos os portugueses, mesmo dos que não querem saber e aqueles que acham sempre que não é bem assim, começam a ter medo.
Deitam-se a pensar que um dia vem aí um sismo, acordam para pensarem que um dia vem a banca-rota.
Autómato, José Sócrates debita a sua cantata. À falta de melhor argumento insultam-se os que não elogiam.
Encalacrado, o ministro das Finanças sonha empenhar já os dedos, idos os anéis.

6.3.10

José Sócrates: o corpo e a sombra

Do ponto de vista humano o estertor de José Sócrates é um caso patético. Imagina-se quanto aquilo a que tem estado sujeito o estará a desequilibrar, a estraçalhar a sua imagem aos seus próprios olhos.
Não é por causa da política que segue, dos maus resultados das medidas do seu Governo, da incapacidade dos seus ministros. É por causa dele.
São já defeitos de carácter aquilo de que o acusam, vícios de personalidade que lhe atribuem, é a moral, a honestidade, a honradez, aquilo que vê posto em causa. O professor Marcelo Rebelo de Sousa ter-lhe chamado «mentirosos» passa por ser o menor de todos os casos.
De todos os primeiros-ministros de Portugal nunca outro antes se viu acossado a tal ponto no âmago da sua pessoa.
«Tenham dó, tenham piedade», implorou ele em Maputo aos jornalistas que o cercavam. Dir-se-ia que era a propósito de Manuela Moura Guedes que suplicava. Há gritos, porém, que são apelos da alma.
Este homem está perdido. Vive sob chantagem, a pior de todas, o seu corpo é a própria sombra.
José Sócrates ainda é o primeiro-ministro mas já o tratam como o último dos cidadãos. Tempos houve em que se dizia um «animal feroz». Não supunha o cruel destino: o circo.

Feras à solta

Comprem o Correio da Manhã. Comprem mesmo aqueles que têm vergonha porque, julgando-se «intelectuais», acham que um «intelectual» só pode ler o Público. Comprem e leiam as primeiras páginas. Vejam o estendal de crimes violentos que ali se relatam, a ferocidade que eles indiciam, a insegurança, o perigo.
Em meia-dúzia de anos Portugal tornou-se de «país de brandos costumes» numa Nação de feras à solta.
Dizem por aí que é a polícia que não vigia, os juízes que não prendem, as cadeias que não emendam. Dizem que são os estrangeiros e os negros. Dizem muitas coisas. Mas o que não dizem é a verdade. A verdade é que há ódio a generalizar-se nos corações, há animalidade onde devia haver pessoas. Cada história que se lê é mais sinistra do que a anterior.
Dirão também que não é de agora. Lembro que aqui há uns anos, ao visitar um estabelecimento prisional, me perguntaram se eu quereria defender um certo violador que estava sem advogado. Respondi que não. Pensando que a recusa se deveria à natureza do crime, perguntaram então se eu não quereria defender antes um esquartejador.
Dirão isso do antes e do agora, mas não dirão que agora a ousadia é mais descarada, a impunidade mais ofensiva.
Leiam pois o Correio da Manhã e vejam como as estatísticas mentem. Não é uma questão de muitos ou de menos, é uma questão da bestialização em que se está a tornar Portugal.

3.3.10

José Sócrates: um dia o tecto cai-lhe em cima!

Lê-se no jornal: «A zona das consultas externas do novo hospital de Cascais, inaugurado há uma semana, foi hoje evacuada devido à queda de uma parte do tecto. Uma fonte desta unidade de saúde assumiu à Lusa ter existido um problema técnico».
Sim, um problema técnico, diz a notícia. Mas é mentira. Do que se trata é de um problema político, o da magnitude das promessas, das esperanças com que se deu a inauguração, as pompas governamentais.
Uma semana depois da inauguração, a zona de consultas externas era evacuada por causa de uma inundação. Agora cai o tecto.
Na altura da abertura deste hospital o primeiro-ministro disse descaradamente que estava em curso o «maior investimento de sempre do Estado na qualidade da rede hospitalar», considerando que esta é «a melhor forma de responder à crise».
Mais: no acto da inauguração do novo Hospital de Cascais, José Sócrates defendeu que a «credibilidade política» se conquista «com acção, empenhamento e resultados». Claro. Estes resultados! O tecto a cair. Eis a credibilidade!



28.2.10

A Justiça na encruzilhada

Há quem diga que a Justiça está numa encruzilhada. O problema não é novo. A questão essencial, a filosófica, está aqui, exactamente no momento final, haja paciência de ver tudo. É a dúvida existencial, o e agora?.

It's medal time!

Uma amiga minha perguntava-se outro dia porque é que isto aqui aconteceu? Tentei muitas explicações, mas esqueci-me desta aqui.

Um Deus maldoso

Aqui há uns meses era a gripe que ia exterminar da humanidade uma parte substancial da população, a dos mais fracos, os vulneráveis, os sujeitos ao chamado factor de risco. Sobretudo no Inverno diziam. Lembro-me de ter ido a Inglaterra e ter ficado espantado por não andar tudo de mascarilha como os cirurgiões nos blocos operatórios, à excepção dos japoneses que, desde que foram contaminados pela bomba atómica ficaram alérgicos a toda a poluição ocidental, excepto o consumismo.
Agora ninguém fala na gripe. O pavor é dos sismos, a paranóia dos terramotos, o receio dos tsunamis.
Lembro-me que o ano passado os estudos científicos alertavam para a desertificação da Europa do Sul. O Alentejo seria em pouco tempo uma continuação do Sahara, incluindo os camelos. Hoje chove lá como aqui que até os cães a bebem de pé.
A sensação é que os pavores sociais são induzidos pelos media, a curto prazo ninguém acredita em nada. Pedro e o Lobo é uma história para crianças que os adultos haverão de aprender.
Um dos últimos territórios de crença da Humanidade, a ciência, degrada-se. Para o senso comum os cientistas são tão pantomineiros como os políticos.
Da histeria gripal diz-se que serviu para vender vacinas.
Um dia destes Lisboa acorda esfacelada em ruínas, sem vivos que cheguem para enterrarem os mortos. Nesse dia a ciência terá uma teoria. Explicará como é que não foi possível prever. Um Deus maldoso rir-se-á de todos nós.

27.2.10

Um vento asssassino

Não são as raivas humanas, os escândalos da política, a babugem anã dos salões e sua maledicência.
É a Natureza, fonte e fruto de tudo quanto vive, a desabar, em sismos e enxurradas, violenta, transformadora, como a querer aniquilar o que está para o tornar no que poderá ser.
Há um vento assassino a formar-se nos ares, exala-se um inesperado calor onde ontem se enregelava, as entranhas da terra a prometerem fogo depois de gelo.
Visto à escala cósmica, é apenas um tossicar breve do mundo tal como o conhecemos. No meio disto, povoa-nos a fauna humana atrevida, e entre ela campeia a ousadia dos rapinantes, esfacela-se o patético dos libidinosos, os primeiros a esconderem pelo gamanço os segundos pelo exibicionismo a sua incapacidade de chegarem lá por outros meios, e tudo dorme, indiferente, narcotizados pelo medo, pela preguiça, embriagados pelo desmazelo.
Pela rua do putedo, chulos rapinam o que podem. No meio do alvoroço, a farda encharcada, um polícia faz de conta que este aqui, filado pelos gargomilos, são todos os outros.
Há um requiem da almas penadas, místicos sem êxtase, em busca de uma fé, à mercê da caridade.

26.2.10

O estado do Estado

É a natureza do Estado burguês, a questão. Diria melhor, é a natureza do Estado, a questão. Lugar autoritário dos arranjos de interesses, não é palco de imoralidade ocasional, ele traduz a própria imoralidade da luta intestina pela posse dos bens, pela titularidade das relações de domínio, pelo poder.
Espaço privado da mercantilização da vida, tudo nele é jogo de predação, de transacção, de compensação.
Quando no Governo se nomeiam amigos e se compram inimigos, a lógica argentária é a mesma.
Na bolsa de mercadorias em que se transformou a vida política há uma só regra que é a de manter de pé a livre e sã concorrência, distribuindo o saque por todos na proporção da força de cada um, para que todos se calem quanto ao essencial. A fome é má conselheira e o primeiro insatisfeito é  o primeiro delator.
O Estado nunca foi, salvo nos compêndios de alguns abstraccionistas, uma realidade em si. Ele é o instrumento de uma cristalização de interesses, de classe ou de bando. Os partidos são a forma civilizada de organizar a animalidade das comedorias. As imaterialidades não venais essas que cuide delas a sociedade civil.
É por isso que a educação pública é péssima e a saúde pública um vómito: é que elas são para os que estão fora do jogo do poder, os desapossados.
É por isso que há quem, estando no Estado, saque vantagens e file comissões. Não é por falta de ética. É porque o Estado é deles, para viverem à conta dele e através dele que tudo é asim, negócio particular num Estado privatizado. 
Claro que de vez em quando as autoridades perseguem a corrupção descarada e a prevaricação excessiva. Nessa altura o negócio torna-se mais caro, o «spread» do acesso ao Estado mais alto.
Por altura das eleições, investe-se no futuro comprando propaganda. Os que não estão no Estado não conseguem pôr o Estado a pagá-la. Os outros acham isso natural. Tão natural como a sua sede de mando e de oportunidade.
O mais, é literatura e espanto.

Zoologia jurídica

O Direito tem esta coisa notável é ser uma invenção humana. Alguns iludem-se a procurar-lhe uma razoabilidade para além do voluntarismo autoritário, outros uma antropologia que o retire como grandeza da estante trivial das banais coisas sociológicas. Coitados deles.
Vem isto a propósito desta notícia: «Dois jovens de Matsinho, Gondola, centro de Moçambique, foram apanhados pela polícia a manter relações sexuais com uma cabra e agora os donos do animal exigem indemnização e casamento. O caso está em tribunal».
Mas vem sobretudo ainda mais a propósito desta segunda parte da mesma notícia: «"Recebi o caso e já remeti ao tribunal. Mas os jovens serão ouvidos em juízo por furto simples qualificado e não necessariamente por prática sexual, pois a nossa Constituição não acomoda este tipo de acto", disse à Agência Lusa Leonides Mapasse. Fora do processo-crime, acrescentou o magistrado, o ofendido (proprietário da cabra) pode intentar processo civil e moral contra os dois jovens pela prática sexual com a cabra».
Ora ante esta inconstitucionalidade por omissão, segundo a qual a Lei Fundamental de Moçambique não protege as cabras de serem fornicadas, que tolo sou quando me ria, há algum tempo, porque um maduro procurador da República se lembrou de acusar alguém de furto porque as suas ovelhas pastavam no prado de um vizinho. «Crime que se consumava por regurgitação», casquinou o advogado que por causa do chiste levou com uma participação disciplinar.
Ora Portugal tem muitos defeitos. Mas defende melhor as suas ovelhas penalmente do que Moçambique as suas cabras constitucionalmente.

24.2.10

O paradoxo do mentiroso

O primeiro-ministro é acusado mais do que mentir, de ser um mentiroso. O Procurador-Geral da República exige que os jornais reponham a verdade, os jornais dizem que os jornais mentem. A Casa Civil da Presidência da República vem a público dizer que as afirmações de um jornalista são de há muito falsas. Um pouco abaixo leio que até os adeptos do Futebol Clube do Porto exigem a reposição da verdade desportiva.
Em Portugal já ninguém escapa ao labéu da aldrabice, à suspeita da pantomina, à fama da patranha. Até António Benedito Afonso de Eça de Queiroz esclarecia outro dia dúvidas sobre a orientação sexual do seu bisavô.
Teatro de sombras e de espelhos, entre robertos e polichinelos, não se sabe já o que é falsete nem onde estão os ventríloquos. Mercado de ilusões, passa o pechibeque por ouro de lei, o crédito por saldo, o mini-prato por refeição decente.O Orçamento mente aos contribuintes, os contribuintes enganam o Orçamento. No meio, fica a política como arte do embuste.
Caminhamos para o ponto em que quem disser que está mentindo é o que diz a verdade. É o paradoxo da tanga.

22.2.10

Cansados de ganhar

Tremendo, pessimista, triste, amante do faduncho, casado com o Destino, o português mascara o complexo de inferioridade com a arrogância de se julgar o maior. Olhando-se ao espelho ri-se do outro.
Este mesmo português perdedor com argumento e derrotado com razão, certo de que nem Deus lhe vale porque há horas do Diabo, deve ter-se revisto nas palavras do treinador do Benfica segundo o qual no clube encarnado estavam «cansados de ganhar muitas vezes».
Fiquei, porém, com uma grave dúvida. Segundo o Público, a frase foi «estamos cansados mas é de ganhar muitas vezes»; para o Diário de Notícias o dito foi «cansados só se for de ganhar muitas vezes».
Há, e os linguistas que me socorram, uma substancial diferença nas duas formas de dizer, mesmo estilística, porque o «mas é», qual salto à vara verbal, projecta o corpo além da sombra que o persegue, é rebarbativo ao retorquir; já o «só se for» traz um sabor reticente, justificativo, como quem se desculpa pelo acto e pede perdão pelo facto.
«Igual a si próprio» escreve o Record, eis Jorge Jesus, um dos muitos portugueses que estão cansados de ganhar.
Entretanto José Mourinho levou três jogos de suspensão. «Só se for» pelos protestos teatrais, pensarão uns. «Mas é» mesmo por causa disso pensou melhor ainda o árbitro Gianpaolo Tose. Também ele estará cansado de ganhar. Agora faz gestos, arrogantes, carregado de complexos, inferiores.

21.2.10

Fúrias

Quando li os vários volumes da biografia de António de Oliveira Salazar, escrita pelo falecido Embaixador Franco Nogueira, impressionou-me constatar os períodos de depressão a que o chefe do Governo era dado, com estadas de reclusão na sua modesta casa em Santa Comba Dão, quase incomunicável, e deixando os seus poucos colaboradores angustiados quanto ao que fazer.
Agora há o risco de ser a histeria, a doença que começou por ser uma forma de furor uterino. A classe política pelos vistos sofre de acessos de cólera que se não indiciam isso deixam dúvidas suficientes. Eram conhecidas as fúrias de Mário Soares, são conhecidas as de José Sócrates. Os jornais à falta das primeiras noticiam as de Gordon Brown. «Os alegados ataques de fúria e gestos de intimidação contra colaboradores atribuídos a Gordon Brown obrigaram o primeiro-ministro britânico a defender-se na televisão, garantindo que "nunca" bateu em ninguém», diz o Público, aqui. Dizem os psicanalistas que a histeria é uma feminilidade fálica. As vítimas das fúrias, compreende-se, podem não gostar.

20.2.10

A voz da ambição

A política, a porca da política perverteu tudo. 
Ainda com os mortos por enterrar na Madeira, por causa da tragédia desta madrugada, com a televisão a passar imagens lancinantes da inundação, ouço declarações em série, de políticos locais da oposição quanto à medida em que a desregulação urbanística de que o Governo madeirense é culpado foi responsável pelo desfecho. O Governo
Alguns dizem que não querem fazer política, mas estão a fazê-la.
Impressiona! Ofende.
Não digo que, ante o sucedido, não se deva fazer um balanço. Não hesito em que os privados, os funcionários e os políticos, todos quantos, não devam ser chamados a responsabilidade.
Mas haja ao menos um período de luto em nome da comiseração.
Dir-se-á que é a voz da raiva a que fala. Não acredito. É antes a voz da ambição. Para esta gente trinta e dois mortos não é um horror, é uma oportunidade, um tempo de antena. Para as TV's desde Entre-os-Rios que não tinham uma tal fresta.
O Presidente da República acaba de dar um exemplo de dignidade.
Malditos os que entre cadáveres e destroços, rabuscam a babugem dos votos! Malditos sejam!

O tempo dos cómicos

Todos quanto escrevem num registo pessimista, tremendista, apocalíptico, todos os que profetizam desgraças e anunciam o fim dos tempos, todos os que vaticinam a queda do Governo ou o ocaso da civilização ocidental escrevem e falam e quase não dão conta para um mundo diferente, o mundo das pessoas que têm medo.
É por isso que a decadência que revelam continua e cada vez mais decadente, as vergonhas denunciadas continuam sem vergonha.
O medo faz com que as pessoas se conformem por dormência do sentir, anemia do querer, ganância dos interesses, rendição à necessidade de sobreviver.
O tempo dos cómicos, soezes que sejam, do burlesco, bizarro que possa ser, das piadas de tasca para ouvidos de salão, ele aí está.
Há um Portugal do Gato Fedorento, por causa do fedor. Um cheiro a latrina onde acaba o cheiro a cadáver.
Entre risos estrepitosos as classes que se julgam altas rebolam-se, minguadas, pela baixaria, o baixo nível trepa, voraz, pelas escadarias do poder.

Fernando Nobre: o sintomático e o insólito

Não sendo ingénuo pode pensar-se o que irá manter a candidatura do médico Fernando Nobre à Presidência da República. Dir-se-à que ela serve para roubar espaço a outros candidatos, como é o caso de Manuel Alegre e só assim encontrará apoios, financeiros nomeadamente, porque uma candidatura é cara, pois há a campanha eleitoral. Veremos.
Algo há nela, porém, de sintomático e, por isso, interessante: ter-se anunciado como sendo a de quem acha que Portugal precisa de «um Presidente que venha verdadeiramente da sociedade civil, que seja independente, que nada precise da política».
Ante esta candidatura, que é uma exautoração moral ao que há, Alfredo Barroso, um soarista congénito, proclamou que tem «um certo receio dos candidatos que se apresentam a defender valores acima dos partidos ou além dos partidos». Dos partidos disse ele. E propõe Carvalho da Silva.

19.2.10

Uma mentira pegada

Não é possível manter mais tempo o silêncio, nem me convenço que, nada tendo de importante a dizer, havendo tantos que o possam dizer melhor, faça sentido continuar calado.
Há momentos em que o silêncio significa aquiescência, complacência e tudo isso rima com indecência.
Não serei mais um a dizer que tenho vergonha do Governo que temos. Tenho. Mas não posso deixar de me envergonhar de todos os que na Oposição ou na Chefia do Estado, parecendo estar absolutamente contra isto permitem que isto continue.
Um destes dias o professor Marcelo Rebelo de Sousa na TV dizia que o primeiro-ministro é um mentiroso. A Dra. Manuela Ferreira Leite, também na TV, dizia um pouco menos, que o primeiro-ministro mentia. O professor Marcelo dizia que até Junho a mentira tinha de continuar a ser governo, a Dra. Ferreira Leite está a um passo de deixar de ser verdadeira oposição.
Um país governado por um homem de quem se pode dizer que é um mentiroso é um país ignominioso, tanto por ser dirigido pelo que mente, como por aqueles que o deixam continuar a mentir.
Um destes dias, no espectáculo rufia em que se tornou a vida política, aparecerá um que virá para dizer a verdade. Normalmente surgem acompanhados por uma qualquer polícia de fé.

30.5.09

A infâmia pública

Selecção, estigmatização, exemplaridade: eis os três Cavaleiros do Apocalipse do nosso pensamento social contemporâneo. Muitas pessoas pensam o que os jornais pensam, outras só pensam o que se pensa na televisão. Eis os efeitos.
Primeiro, as conversas do dia são sempre vocais e inaugurais, na lógica da abertura de telejornal: retumbantes, é o mundo em tchan!
Depois, os temas são sempre fulanizados: não há mais mundo que o dos suspeitos do costume, eternos símbolos do mal, arquétipos da malignidade, para benefício da simplificação do discurso e para descanso de todos os outros, poupados à ignomínia de existirem.
Finalmente, o raciocínio é sempre inconclusivo: isto vai mal, pior do que quando estava mal, donde está péssimo a ponto de não haver saída, de outro modo não estaria tão mal.
A moral pública é a do pelourinho: os amarrados à infâmia colectiva subrogam-se aos pecados dos que serão os primeiros a atirar a primeira pedra.
A hipocrisia é todos se sentirem juízes do que não conhecem, depois de terem sido acusadores pelo que ouviram dizer e testemunhas do que lhes parece que é.
O ridículo é ninguém notar a triste figura que faz. É por isso que se fala tanto. É por isso que alguns fazem de falar uma profissão milionária. Chamam-se comentadores.

25.5.09

O aforrador nato

Já não ia a Tróia há tanto tempo que Tróia me pareceu uma novidade. O ferry era verde e grande e a cabine do piloto parecia uma ampla sala de jantar. E havia em Tróia edifícios magníficos como em Singapura e nunca estive em Singapura ou no Dubai, digo eu que nunca estive no Dubai.
Ameaçava chuviscar, mas o haver uma marina é um raio de sol a iluminar-nos por dentro em dia de passeio, dando ânsias de alto mar. O que não vi em Tróia foram pessoas, salvo um casal que se escapulia por um canto do cenário, a caminho da terra de ninguém da sua invisibilidade. Além disso, os edifícios magníficos estavam vazios, como cabeças sem ideias.
Como era sábado e por estar em Tróia e não haver em Tróia muito para fazer, optei por comprar um qualquer jornal, porque vi ali em Tróia, um quiosque vistoso no meio do daquela triste solidão. Não sei o que me deu para perguntar, talvez estarem-se a acabar as notas de banco: há por aqui multibanco? «Não senhor», respondeu o sonolento empregado. «Aqui, não há nenhum». E banco, arrisquei? «Isso ainda menos», retorquiu, iluminando-me o espírito.
Naquele universo de nada, afinal, entre a beleza urbana e a quietude marítima, ainda sobrava o espaço do ainda menos, forma de estar perto de coisa nenhuma. Umas horas depois arroz de polvo e vinho branco ocupavam-se de mim, preenchendo a sensação de ausência.
Uma sesta repôs a crença e a fé, como num sonho. «Não faz mal, antigamente também não havia e éramos todos felizes. Menos se gasta!».

16.5.09

Apetite voraz

O jornal Expresso desta semana anuncia na revista Única um livro de Mafalda Pinto Leite chamado Cozinha para quem quer poupar. O tema, claro, é a crise. Segundo se relata ali, o livro tem mais de 450 receitas e «nenhuma ultrapassa os 5 euros». Até aí bem e bom. E barato. Só que na página direita vem uma receita intrigante. O poupado leitor julga-a uma generosidade do artigo, revelando, em antecipação, um dos dos segredos do livro. Só que a dúvida surge com os ingredientes: Dois blocos de massa folhada, farinha sem fermento, 2 chávenas de ervilhas congeladas quatro cebolas, duzentos gramas de crème fraiche e mais salsa picada e limão.E um ovo batido. E, eis, 800 gramas de salmão.
Custará isto tudo menos de cinco euros? Um requinte ao alcance de todas as bolsas? Talvez. Amanhã saio de casa com apetite voraz e uma nota de cinco. E convido amigalhaços para uma jantarada. É que, anuncia-se, dá para seis pessoas. Um festim!
Bom, o problema, porém, não é individual, meu, antes, social, nosso: é que se o salmão passa a comida de pobre, adeus chic, adeus gourmet, adeus exquisite cuisine.

6.5.09

166 anos de Boa-Hora

A Boa-Hora faz 166 anos e ainda paira a ameaça de o edifício ter como destino ser um hotel. Uma coisa é certa: o tribunal que conheceu o melhor e o pior da Justiça Penal vai ser armazenado na antiga Expo, ao Parque das Nações. Sob a aparência de modernidade das instalações, a velha tradição de mal instalar. Para evitar o pior e para que fique uma palavra de memória pelo nosso património cultural, organizou-se um movimento cívico. Juntei-me a ele. Nos dias 14 e 21 deste mês há iniciativas culturais para assinalar o adeus e organizar a esperança.
Pediram-me que escrevesse uma peça de teatro para ser representada na segunda noite. Sinto as pancadas de Molière como pauladas pelo atrevimento. Oxalá eu parta uma perna!

2.5.09

Uma tarde no Lidl

A menina da caixa registadora tinha um sorriso bonito e um nariz adunco. Descobri, pela conversa da senhora que me antecedia, que fazia anos. A senhora que me antecedia tinha uma mãe com uma saca profunda, onde se afundou uma carteira de onde não mais saía um cartão multi-banco, com que pagava as contas que me pareciam ser as da filha. Tinha cara de mau humor. Eu esperava paciente e ruminante. E a aniversariante menina sorria, esperando também, ela e o inevitável nariz adunco. Só a senhora e sua mãe alegadamente pagante pareciam não sorrir nem pagar. A fila ameaçava aumentar.
Entre nós, expectantes, um casal que conversara antes sobre coberturas de tábuas de passar a ferro, problematizava agora o irem amanhã almoçar a casa não fixei de quem. No meio disto, eu hesitava se as batatas não pesariam demais na minha coluna. Acabei por levá-las fritas enquanto o cartão não aparecia e todos com duas excepções sorriam amareladamente. Salgadas, fazem mal à saúde, mas não à coluna. De qualquer modo são fritas e amarelas, em azeite. Dão saúde ao que diz o rótulo. Estou verde. A fila dos sorridentes era agora engrossada por um fecho éclair entreaberto ao limite do prometedor e um corpo de passerelle encavalitado nuns saltos altos, olhando-nos panorâmicamente num sorriso em madeixas. Um súbito porra que a velha não desengoma tirou-nos o sorriso. Num instante um ar zangado, adunco, aniversariante, panorâmico, engomador, passou a ferro a mãe, a filha e a carteira. Ah! Afinal está aqui, eis a anciã com um ar prazenteiro, sacando uma tirinha de plástico completamente verde. Verde código verde. Nessa altura já tamborilava em chinela o salto alto da entreaberta. Mais uns segundos, pantera ansiosa, arriava a giga, pousando-as, magníficas, no chão, duas cestas carregadas de banalidades. Olhei para trás: era do companheiro da dos saltos altos, meão de altura, rufia de maneiras, carregado de possibilidades a voz da qual o porra saíra.
Eis o meu fim de tarde no Liddl: aqui a qualidade é barata. Ah! Quem quer sacos paga-os. Aceita-se pagamento com multi-banco.

1.5.09

Uma Feira do Livro

Hoje a Feira do Livro abre popularmente após o almoço e oficialmente à noite. Sendo 1º de Maio há um travo simbólico nesta dicotomia entre o oficial nocturno e o popular diurno. Gostaria de ir lá, ver os livros, reencontrar os que, ano após ano, continuam sem quem os queira, os que foram perdendo a graça, os que caíram em graça e a quem tudo se perdoa. Depois há escritores sentados a escreverem autógrafos, os passeantes que aproveitam o ensejo do desconto do livro do dia. Hoje, vivendo entre livros, poderia levantar os taipais da minha feira, expondo domesticamente a minha livraria. Entre o folhear displicente talvez encontrasse motivo para uma tarde. O dia escoa-se. Soube que havia Feira do Livro. Tínhamos chegado a Maio.

27.4.09

L'air du temps

Já li algures que a História se fará um dia com as pequenas frases, os diários, as cartas. Diria eu com excertos de algumas entrevistas. Falando do a seguir ao 25 de Abril - expressão que em si mesma encerra um conceito e um tema - o poeta Manuel António Pina diz, numa entrevista à revista Pública, que vem distribuída com o jornal Público de domingo, que só hoje li: «Estava à venda uma casa que cobiçava imenso, por 600 contos, que era muitíssimo barato [sic]. Sabe por que é que não a comprei?». Porquê, pergunta a entrevistadora: «Estava sinceramente convencido de que vinha aí socialismo e que não precisava de comprar casa. A militância não foi só por causa de l'air du temps. Eu acreditava mesmo no poder popular».
Ora aí está uma moral política notável: o socialismo e o poder popular como meio de arranjar casa à borla, metendo ao bolso 600 contos.
Isto, entenda-se, à custa daqueles - e o poeta nisso é muito explícito e nada poético - que com o 25 de Abril «fugiram em debandada final como se fossem baratas, e abandonavam coisas que vendiam por tuta e meia».
A meio da entrevista eu ainda pensava conhecer melhor a obra de Manuel Pina. Agora não. Ele acrescenta que hoje tem «até uma hostilidade em relação à política»; eu uma hostilidade em relação aos seus versos.

Argumentos e factos

Normalmente não leio muito jornais. Mas desta vez comprei e acabei por afunilar para domingo à noite a leitura de um semanário, um diário e duas revistas sem história. Vinha também carregado com livros e mais umas publicações que nem sei bem como chamar-lhes. A esta hora ainda a leitura não acabou. Se tivesse a oportunidade de ir dar uma volta pela blogoesfera teria pela frente ainda muito mais para ler. Mais os jornais on line, o twitter, os sms e bom não esquecer o que chega por email e as pessoas que dão notícias pelo telefone.
O mundo contemporâneo é, em suma, um mundo de factos. A pergunta é: quantos factos me interessam de todos aqueles outros que me chegam ao conhecimento?
Por exemplo. O suplemento sobre economia do Expresso titulando «Hilton processada por espionagem» dá conta com largura de dois terços de página, que [e assim reza o lead] que «ASAE apreende n Hiton de Vilamoura ficheiros confidenciais do Sheraton Algarve. Uma réplica do escândalo que abala os gigantes hotéis nos EUA».
Vejamos. Eu já nem me pergunto sobre se será verdade ou mentira o que o jornal relata, se a história está bem ou mal contada. A dúvida é só esta: interessam-me saber isto? É-me útil esta informação? Faz-me falta, para quê? E a ideia a ela subjacente, o conceito de que as empresas comerciais se espiam, tenho-o já adquirido ou é preciso ler a notícia para ficar a sabê-lo?
Mas se fosse só isso! Sigo pelo jornal fora, passo para o diário, folheio as revistas: é a vida privada de um, a fatiota de outra, os implantes mamários de uma terceira, duas páginas com foto a uma menina que fundou um clube de virgens, uma breve a informar-nos que Isaltino diz que Marques Mendes não existe. Ah! E as crónicas, os artigos de opinião, comentários, análises, tudo muito extenso, muito carregado de saber e de afirmação. Para quê? Posso saber?
O que quero eu dizer? No fundo que não me apetece ler mais! Já confundo tudo, não fixo nomes, e no meio desta babel fica-me a última coisa que li. Teresa Caeiro, deputada pelo CDS disse na Assembleia da República: «alguns revolucionários de ontem são os poderosos de hoje, com a original diferença de se comportarem como novos autoritários». Bingo! Já me passou a azia de factos, com uma tão borbulhenta opinião! Claro que isto é ler jornal para encontrar aquilo com que se concorda. Talvez. Antes isso do que ler jornal para me cruzar com o facto que não me interessa e ficar iludido a pensar que, ao menos estando informado, estou a participar neste mundo inenarrável.
Argumentos e factos, eis o nosso mundo; é além disso o título de um jornal russo, que anda por aqui.

25.4.09

25 de Abril: contas com a História

Para comemorar o 25 de Abril de 2006 escrevi isto. O de 2007 isto. O de 2008 isto. Hoje releio tudo e pergunto-me sobre o que escrever. Esta manhã a ideia ocorreu, vinda de ontem.
Como disse num dos posts que agora refiro, sendo dos que tem prova documental de que a polícia política do anterior regime não gostava de mim por eu não gostar dela, nunca quis ir à Torre do Tombo conferir o meu processo. Acabei por vê-lo este ano. Uma investigadora tinha-o pedido para consulta. Avisou-me e, amiga, invectivou-me a que fosse consultá-lo. Lá fui, aos Arquivos Nacionais, hesitante, uma tarde destas.
Confesso que ia inquieto. É sempre embaraçoso vermos o nosso retrato tirado pelos outros. Podemos não nos reconhecer. Além disso, os polícias nem sempre são bons fotógrafos, os «bufos» adoram apanhar-nos em roupa interior, num à la minute grotesco.
Abri a capa dos autos. Fantástica surpresa e lição do que a vida nos reserva. O meu processo é comum ao Eduardo Ferro Rodrigues, ali juntos por um momento, o futuro a encarregar-se de nos separar.
Abri-o. Não tem muita coisa. Em causa a actividade associativa, ali documentada com uns comunicados reprografados a stencil - a malta nova saberá o que é o stencil, que se emendava com verniz de unhas? - e umas quantas folhas volantes, da classe do «lê e passa».
No fim, lá estava, a evidência das vezes em que a DGS teve de se pronunciar sobre a minha conformidade política, uma porque concorri a um manhoso lugar de delegado interino do Procurador da República em qualquer ignorada comarca, a começar pela das Flores, outra - já nem me lembrava - porque a minha amiga Rosário tentou, ingénua, que eu encontrasse o almejado pão nosso num lugar no Ministério então chamado das Corporações, no qual, atentos eles e informados, nem da entrevista de selecção passei e, finalmente, uma terceira quando se tratou de ser colocado no Centro de Informática do Ministério da Justiça, por causa do que andara a escrever, desde 1969, sobre o binómio cibernética/Direito e outras insólitas bizarrias na altura basto esquisitas.
Falta dizer, porém, o que me leva a escrever este post, o que me doeu, ainda dói e faço por esquecer.
No meio daquela pouca papelada lá estava um auto de declarações. Ele fora ouvido. Fazia parte do Movimento Associativo, como eu. Se me perguntassem se ele tinha corrido também, Alameda abaixo, rumo à Rua de Malpique, das vezes em que a Polícia de Choque entrou em Direito, à vergastada e com cães, juraria que sim. Estou certo, isso sim, de que sempre foi um indómito radical, à esquerda de todos nós, o sorriso trocista ante as nossas hesitações conservadores, na sua boca reaccionárias, claro, pequeno-burgueses, por certo. Reservado, de poucas falas, esteve sempre perto de nós, próximo.
Só que desta feita, saído do cuidado silêncio que lhe conhecíamos, abrira-se, falador. Contara tudo, denunciara, à desbunda. Mentira, emporcalhando inocentes. Bamboleando-se ante os interrogadores, para se tornar apetecível, fizera-se de santo. No meio daquilo, lá vinha o Barreiros em reuniões onde nem me lembro de ter estado, contado ao pormenor, e a menção a todos os outros, tantos outros que o tínhamos por amigo, confidente, camarada, tudo agora ali, com nomes, com acusações, delações.
Aturdido, tentei saber se tinha sofrido violências, maus tratos que justificassem ter rachado. Garantem que não, os que eram seus íntimos. Pior do que um fraco só um merdas. E ele fora um merdas fraco, dos que o são mais do que para safar a pele, muito mais do que por um instinto de sobrevivência, mas pelo interesse em agradar, antecâmara do subir na vida.
Com o 25 de Abril encontrei-o muitas vezes. Revolucionário de língua, era figura gorda num partido da extrema esquerda, a pose e o paleio ajustados. Revi-o mais tarde em Macau, gordo, rico, advogado de sucesso, mas sempre à esquerda, claro, trocista, conspirador, acusador das heterodoxias alheias, indicador!
Fiz sessenta anos uns tempos depois de ter lido estes fólios, uma idade cruel, em que se olha para trás.
Hesito se lhe hei-de dizer na cara o que sei, procurando-o para o efeito. Apenas para que ajustemos contas com a História, a nossa história.
Denunciante, chibo, seguirá uma vida de colaboracionismo. Deve estar hoje a comemorar o 25 de Abril. Enquanto eu, estou a escrever sobre isto carregado de tristeza, envergonhado por ele ser parte do que é a minha geração.

24.4.09

Escrita económica

«O Facebook e o Twitter são mundos enclausuradamente abertos. Existe um eu hiper-enfático, numa arrogância existencial, como se o mundo girasse à volta do ego e se interessasse por cada passo, cada impressão ou cada sentimento do indivíduo. E assim se transformam os mais insignificantes pormenores do quotidiano em algo digno de ser noticiado e comentado, muitas vezes numa voluntária abdicação da privacidade». Vi isto aqui. É rigorosamente o que penso. Mesmo em relação à blogoesfera, descontando os amigos que gentilmente nos acompanham, quantas vezes surge a dúvida sobre se este gritar para as estrelas não é, afinal, uma manifestação de hipertrofia do eu.
Houve tempos em que o próprio papel era caro. As pessoas aproveitavam-no e as cartas eram escritas quase sem margens, quantas vezes quase de um lado e do outro da folha. Reversos de fotocópias eram lugar ideal para escrita económica.
Hoje, com os meios poderosos da tecnologia, posso lançar para o Espaço a minha biblioteca de inutilidades, o manancial da minha insignificância. Mais: pensar que assim se salva o mundo e se granjeiam amigos. Arrogância existencial, eis!

Vida de cão

Honra e glória à Pátria dos portugueses por estarmos na Casa Branca. Sei que é um cão, mas é um cão português. Num país minguado de orgulho qualquer motivo serve para entusiasmar. Mais: pouco tempo depois de ser o «primeiro cão» - creio que como há a «primeira dama», terá de haver o presidencial «primeiro cão» - já tens honras de biografia. O livro está anunciado aqui. Vi a notícia aqui, no January Magazine. O que é interessante notar é que, de acordo com o insuspeito Telegraph de Londres, os Obama só com dois livros já fizeram um encaixe de 2.5 milhões de dólares. É caso para se dizer «not bad for a start».

23.4.09

Coisas para engenheiros!

Eu sei que o cidadão tem de conhecer a lei. E sei que a ignorância da lei não escusa. Mas não estaremos a ir longe demais quando se abre a folha oficial, que devia ser, num Estado de Direito, uma espécie de jornal ao chá e torradas do pequeno almoço de cada um, antes mesmo do matutino ao gosto, e dá de caras com esta? Esta mesmo: «P 427-A/2009 - Segunda alteração à Portaria nº 229-B/2008, de 6 de Março, que aprova o Regulamento de Aplicação da Medida nº 2.2, «Valorização de Modos de Produção», do Subprograma nº 2 do Programa de Desenvolvimento Rural do Continente (PRODER), Que Integra a Acção nº 2.2.1, Designada «Alteração de Modos de Produção Agrícola», e a Acção nº 2.2.2, Designada «Protecção da Biodiversidade Doméstica».
Confesso que ainda fui lá ler. Como vi que tratava de «práticas culturais» interessei-me, vicioso. Mas triste engano! Práticas culturais quer dizer agora, neste neologismo eurolândico, práticas de cultivo! Segundo uma das tabelas anexas uma delas é assim: «A sementeira com mobilização e reviramento do solo em parcelas com: x IQFP > 3 não é permitida; x IQFP = 3 só será autorizada se feita segundo as curvas de nível, em faixasmobilizar e instalar alternadamente, umas num ano, outras no ano seguinte».
Ai tadinha da agricultura que isto agora é só para engenheiros e com o curso todo!

12.4.09

Deus lhe pague

Estamos defendidos, eu sei, com o «não tenho» definitivo, qual o «já dei» desculpabilizante. A simples pergunta dubitativa «mas é mesmo para uma sopa?» afasta-os aos mendigos homens, quantos novos, mesmo alguns velhos, sobretudo aos de indumentária duvidosa, barba crescida e mesmo às rastejantes romenas elas e os filhos eternamente adormecidos em súplica lancinante mas de fraco rendimento. A esses basta o silêncio, fingindo não entender o gesto por causa da diferença linguística.
Claro que hoje era domingo de Páscoa e eu tinha concluído que o Pingo Doce estava fechado e nem o Lidl estava aberto sequer e talvez nem fosse pelos raids da ASAE mas por se comemorar a Ressurreição. E estava sol, um sol que nem o vento afugentara. E ela seguia digna o seu caminho como se indiferente à rua vazia, o porte tão altivo quanto lhe consentia a necessidade. Dei por si quando, segundos depois de cruzarmos, já os seus olhos fora do alcance do meu olhar, me perguntou se eu tinha cinquenta cêntimos para um garoto. Dei-lhe o euro que tinha, acanhado por fazê-lo. Ficou o murmúrio de um «Deus lhe pague» a afastar-nos eu a caminho de minha casa. Não sei onde haverá hoje um café aberto nestes quarteirões vazios. No gesto de dar julguei-a uma velha avó para quem o mês é mais comprido do que a sua pensão, tantas que há por aqui, a modéstia acanhada de vergonha. Agora que escrevo isto sinto que talvez tenha pouco mais do que a minha idade.

A nossas virgens!

Existem na China mais 32 milhões de homens do que mulheres. De acordo com um especialista citado pela agência de notícias Associated Press tão alta dosagem de testosterona pode levar à multiplicação da violência e do crime! A confirmar-se cientificamente esta asserção quanto ao que se chama o gender gap, e a legitimar-se a correlação entre a secreção hormonal viril a violência e o crime, eis o novo fantasma para o Ocidente: a defesa das suas virgens.

7.4.09

À sapatada!

Ora aí está: um jornalista não gostou da falta de resposta de um ministro e atirou-lhe um sapato! Vê-se bem aqui, quase a dois terços do vídeo. É um método, discutível sem dúvida, sobretudo deprimente quando os ministros já estão metidos num grande par de botas. Assim mesmo.

5.4.09

Alberto Costa: demissão e revogação

Não costumo usar os blogs ao serviço de questões pessoais. É estranho, mas é um modo de ser. Só que desta feita está em causa algo de nobre: a verdade num assunto de Estado.
Não quero entrar, nem entrei, por razões compreensíveis na questão Freeport, nem na matéria das pressões ou que se aleguem terem sido pressões. Não conheço os factos e só falo do que sei. Além do mais, desempenho um cargo na Ordem dos Advogados que me obriga ao dever de reserva.
Ora sucede que na sua edição de hoje o jornal Público recorda a demissão de Alberto Costa, actual ministro da Justiça, por despacho meu. Sob o título «Alberto Costa foi demitido de director da Justiça em Macau, há 21 anos, por pressões sobre juiz», o jornal relata as razões da demissão e a sequência da mesma.
O texto, que está todo aqui, tem, porém, uma omissão, pelo que na memória dos que lerem, ficará assim a pairar uma versão incorrecta dos factos e sobretudo uma versão que o demitido tentou passar para a imprensa quando de uma visita oficial sua ao território de Macau, em 2005 e que tive de desmentir então: a de que o acto de demissão fora, afinal, ilegal, e por iso anulado pelos tribunais.
Terei permitido tal omissão ao não ter aceite falar com o jornalista? Talvez. A discrição tem destes efeitos.
Cito, pois, aquilo que acabo de comunicar ao jornal, esperando publicação e para que fique assim mais substanciada a verdade:
«Demiti Alberto Costa por despacho fundamentado, que se baseava no que foi adquirido por um inquérito realizado pelo Procurador-Geral Adjunto do território: contactara um juiz por duas vezes com o propósito de que este arquivasse um processo e soltasse os dois arguidos presos. Estava em causa a televisão de Macau e a ligação desta a uma empresa de que eram sócios várias criaturas gradas ligadas ao partido socialista, mais uma empresa de um senhor chamado Robert Maxwell, que morreria mais tarde em condições estranhas. Após a minha saída do território o Governador Carlos Melancia revogou o meu despacho na parte em que fundamentava a demissão, não ignorando que isso abria a porta ao que veio a suceder: o demitido veio a recorrer para o STA e obviamente ganhou a causa, recebendo choruda indemnização.
Em suma: a razão substancial da demissão de Alberto Bernardes Costa não foi anulada pelos tribunais, foi anulada, sim, a habilidade do Governador, pela qual o meu despacho de demissão foi substituído por outro apto a ser anulado por vício de forma, ou seja por falta de fundamentação.
Quem quiser ler os documentos, pois está tudo documentado, é só ir aqui. Agradeço o favor de ser reposta toda a verdade».

31.3.09

A glória do génio

A 20 de Dezembro de 1944, Mircea Eliade, conselheiro cultural da Embaixada da Roménia em Lisboa, prolífico filósofo do misticismo e do esotérico, historiador, romancista, registava no seu diário uma palavra de tanto sofrimento ante a morte de sua mulher Nina Mares, ocorrida um mês antes. Parte da agonia começara ainda em Lisboa, no nº 147 da Avenida Elias Garcia, com os sinos da Igreja de Fátima ali ao lado a dobrarem pelo desenlace. À dor íntima por um longo amor agora só memória segue-se a angústia da pobreza. «Estamos cheios de dívidas. Ainda não paguei ao hospital (as transfusões) e a uma série de médicos. Escolho o primeiro lote de livros para ser vendido. Encontro uma casinha em Cascais por 100 escudos por mês», escreve ainda nesse dia. Eis a residência da Rua da Saudade, n.º 13, em Cascais. Leio isto no Diário Lusitano, o seu jornal editado em Portugal há um ano. Em 5 de Setembro de 1945 consigna nele «o último banho em Cascais». Terminaria nos Estados Unidos. Hoje fica dele a glória do génio.

26.3.09

Deputados: saúde e fraternidade

Fantástico! A folha oficial hoje traz o regime jurídico das faltas dos deputados. Lembram-se que se perderam votações com o hemiciclo às moscas e outras escandaleiras?
Diz o dito normativo, a propósito de justificação de faltas: «a palavra do Deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais».
Ora assim é que é! Respeitabilidade para quem merece respeito. Um deputado não mente! O ridículo é que «quando for invocado o motivo de doença, poderá, porém, ser exigido atestado médico caso a situação se prolongue por mais de uma semana». Está tudo aqui.
Riam-se, pois o caso não é para menos. Quer dizer: se o deputado invocar uma qualquer razão não médica, a sua palavra é de lei! Mas no caso de dizer que está doente a sério, alto lá! Pode exigir-se a prova.
Sabem porquê? Porque como os nossos deputados são umas pessoas muito saudáveis, se vieram alegar doença séria, que dure há mais de uma semana é caso para desconfiar que podem estar a exagerar. A exagerar digo, a trabalhar, porque a mentir, isso nunca!
Assim como assim e numa lógica a contrario como dizem os juristas o regime é este: os pais da pátria podem faltar sim, desde que o façam saudavelmente.

24.3.09

A barca do venha a nós!

Esta noite li uma entrevista antiga em que o Augusto Ferreira Gomes demonstrava que o João Gaspar Simões não tinha razão quando afirmou na monumental biografia do Fernando Pessoa que este não passara fome. O António Mega Ferreira deu-se há tempos ao trabalho até de escrever um livro para mostrar em que medida é que o poeta da Mensagem tinha tido vários empreendimentos mais ou menos lucrativos, incluindo uma tipografia. Caramba!
Ser pobre é, em certos meios, uma honra para o próprio, uma vergonha para os outros. Na cultura é muito assim. Há quem tenha necessidade de mostrar que o sucesso dos laureados é sinónimo de riqueza e de bem-estar na vida. Às vezes, prosaicamente, o remedeio é um facto, mas a necessidade de demonstrar é uma forma de justificar-se o demonstrador.
Na política vai o mesmo. A actual situação convive mal com a ideia de que no regime que terminou em 1974 nem Salazar nem Caetano, defeitos que tenham, enriqueceram com a política. Isso explica que haja uma biografia de Marcelo Caetano cuja autora, segundo um jornal de hoje, diz «ter ficado surpreendida com o que descobriu sobre os seis anos de exílio do ex-chefe do Governo, contrariando a ideia de que teve um exílio penoso e com dificuldades financeiras».
«Exílio produtivo no Brasil», assim lhe chama o prestável Público ao noticiar o livro, que é da jornalista Manuela Goucha Soares e se chama «Marcello Caetano - O Homem que Perdeu a Fé»
Que a descoberta tem valor político mostra-o o facto de o ministro da Defesa Nacional apresentar o livro.
Não faz mal. Um dia a História os julgará.

23.3.09

A globalização do plágio

Plágio? Isso era antigamente. Agora com a globalização e as modernas teconologias de comunicações e sofisticação de software a realidade é outra. O próprio escusa de se maçar. Quer comprar uma tese universitária, um ensaio académico, um simples trabalho escolar, ou um relatório profissional. É fácil? Através da net consegue-o a preços módicos. Não importa onde está o ghost writer. Há sempre uma agência que consegue satisfazer a encomenda. Leia aqui e fique a saber tudo. Mais: um sistema de tratamento de texto apaga a possibilidade de se encontrarem semelhanças. Melhor do que poderem ser trabalhos originais, são trabalhos que parecem originais.

22.3.09

O país em chamas

Chega-se a casa, espreitam-se as notícias e vê-se que há quinze incêndios activos no nosso país. E estamos na Primavera. Não tenho outro fundamento para dizê-lo salvo uma intuição: Portugal não pode estar a arder por acaso. Suspeita-se disso quando há razões de canícula para a nossa terra estar em chamas. Mas agora? Dito isto e porque vejo poucas notícias fica-me só esta dúvida: ante uma situação em que agora as florestas amanhã os espíritos, tudo arde, algum responsável já apareceu a dizer que urge encontrar responsáveis pelos incêndios? Não digo pelo fogo posto, ao menos pelo deixa arder.

21.3.09

Coragem, angolanos!

Houve um tempo em que se me pedissem dinheiro para a fome em Angola, eu talvez desse. Não por ter nascido lá, mas por me sentir condoído com a miséria. Ou talvez não desse porque de Angola havia dirigentes com má fama. Mas hesitava em não dar.
Hoje é o dinheiro de Angola que compra empresas, bancos e jornais em Portugal. Estão ricos.
A mesma geração que chorou Angola, hoje nem pena chega a ter de Portugal. Agora está lá o Papa. José Eduardo dos Santos tem motivos para estar feliz. Bento XVI apelando aos jovens angolanos pediu-lhe «coragem». Claro! A de Cristo na cruz.

20.3.09

Tanques ou tractores

Em 22 de Junho de 1934 o Dr. Ferdinand Porsche aceitou criar o carro do povo para Adolph Hitler. Saiu o Volkswagen, cujo nome quer dizer precisamente isso, o carro do povo. A ideia era criar um utilitário barato que pudesse ser comprado com as poupanças de qualquer trabalhador. Cinco marcos por semana de aforro bastavam: «Fünf Mark die Woche musst Du sparen, willst Du im eigenen Wagen fahren» [cinco marcos por semana deves poupar se quiseres guiar um carro, eis o lema que o nacional socialismo prodigalizaria].
Em 1928 a BMW [Bayerische Motoren Werke] lançou-se na produção de automóveis, por ter sido impedida pelo Tratado de Versalhes de produzir aviões. Voltaria a produzir motores para a aviação militar alemã, a Luftwaffe, a partir de 1930.
Este ano, segundo a imprensa financeira, «os lucros da Volkswagen (VW) cresceram 26 por cento no primeiro trimestre de 2008, para 929 milhões de euros», mas mesmo assim a companhia vai pedir ajuda ao Governo alemão; enquanto isso, a BMW admitiu esta quarta-feira que «teve uma quebra de 90 por cento nos lucros».
A continuar assim a depressão económica não é de estranhar que haja quem pense, revivendo do keynesianismo o lado macabro, no efeito multiplicador de uma guerra: por um lado estabiliza a demografia por outro fomenta a produção. Fabricar tanques ou tractores tem sido sempre a hesitação de muitos estrategas. Na América Obama fala já em produzir um milhão de automóveis eléctricos até 2015. Oliveira Salazar diria numa carta ao nosso Embaixador em Washington:«cuidado, senhor Embaixador, os americanos não são um povo iluminado por Deus, sim pela electricidade». Fim de citação.
P. S. Claro que há o pacifismo cínico, que o Boris Vian ironizava ao dizer: «la guerre ça doît être trés nuisible au commerçant, car elle détruit le client!». Infelizmente no campo dos horrores humanos, a paz também é um negócio.

19.3.09

Um país que estava sem tino

Um jornal noticia: «Tino de Rans é candidato independente em Valongo». Aqui.
Ora houve um tempo em que o Tino de Rans podia ser objecto da chacota e do riso, da chalaça e da mofa. Hoje dilui-se na paisagem local. Aquilo que fazia dele objecto de culto pela negativa, era ser o anverso dos citadinos pipis da política. «Eu só vou cumprimentar o engenheiro António Guterres mas, perdoem-me, eu mereço!», foi um dos seus momentos altos e de glória. Para ver mais, aqui.

Provedor: e depois do adeus!

O Provedor é eleito pelo Parlamento e deixou-se eleger. O Parlamento é formado por partidos. O Provedor não mais é substituído pelo Parlamento, apesar de o seu prazo de validade ter terminado, porque os partidos não se entendem. Agora o Provedor que se deixou eleger pelos partidos atira-se a um dos partidos, no caso ao PS, porque nunca mais o deixam sair. Está tudo na TSF.
O Provedor tem razão em querer ir embora, mas ao Dr. Nascimento Rodrigues não fica bem dizer o que diz. Dir-se-á que esperava dos partidos outra atitude. Talvez tivesse essa ingenuidade. Mas onde o fundamento resvala é quando o ainda Provedor sugere que seja outro partido, o PSD, agora a escolher o seu sucessor.
Ora aí está. O Provedor da cidadania passa a Provedor da partidocracia.
No meio desta tristeza, tenho uma melhor ideia: extinga-se o cargo. Em nome já não de valores, mas sim de interesses, o dos contribuintes não terem de suportar aquilo que, nisso Nascimento Rodrigues tem razão, é uma «comédia à portuguesa». É verdade que o cargo de Provedor vem na Constituição. Mas não faz mal. Há tanta coisa que vem na Constituição...
P.S. A dita TSF noticia, a fechar a sua prosa: «Recorde-se que, Nascimento Rodrigues foi nomeado pelo governo de António Guterres em 2000». Riam-se. Quando a própria imprensa já acha que o Provedor não é eleito pelo Parlamento mas sim nomeado pelo Governo está tudo dito!

La donna e mobile

Lê-se na imprensa económica que «as pop up stores Reebok são lojas temporárias, cujo tempo de permanência não excede um mês mesmo local, e vão estar presentes em diversos centros comerciais do país, e numa primeira fase, no primeiro semestre de 2009 (entre Março e Maio), refere o comunicado». Cito: «As lojas têm o formato de quiosque, com cerca de 15 a 20 metros quadrados e foram concebidas especialmente para o sexo feminino».
Neste ambiente de crise e de falências, lojas que não ficam muito tempo no mesmo lugar é o que há mais. Agora, pelos vistos, o conceito de instabilidade perde a sua carga necrológica para ganhar um tónus de vida, de modernidade, «concebidas especialmente para o sexo feminino». Fantástico! «La donna è mobile qual piuma al vento, muta d'accento e di pensiero».

28.2.09

O país de encarcerados

Quando o Canjica barbeiro, Porfírio Caetano das Neves de seu nome, que comandou a revolta contra a Casa Verde, «essa bastilha da razão humana», invectivou o padre Lopes querendo saber se sua Reverendíssima não estaria contra a nova situação revolucionária ou se aceitaria celebrar um Te Deum que conjugasse, numa só voz, o poder espiritual oriundo do Céu com o novo poder temporal ansioso de legimitação ao menos celeste, o mundo mostrou o que é.
Esperando, de «aspecto tenebroso» a resposta do vigário de Cristo, ouviu-lhe o novo cônsul, auto-proclamado protector da vila em nome de Sua Majestade e do povo, a sábia fala: «como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?»
O conto de Machado de Assis, é a história da revolta popular contra o alienista Simão Bacamarte, que lentamente esvaziava a cidade da sua população sã, em todos descobrindo loucuras, internando-os.
Lei da natureza humana, a que a experiência do padre Lopes absorvera, «dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo». Um outro barbeiro surgiria dizendo abertamente pelas ruas que o Porfírio estava vendido ao outro do Bacamarte. Duas horas depois o Porfírio, médico que estudara por Coimbra e Pádua, com banca agora em Itaguaí, onde se enraivecera no encarceramento das patologias cerebrais, caía.
Descobri isto entre os livros que tenho para acabar de ler. Daqui a pouco vou fazer um esforço e tentar ler jornais, para ver como vão os Bacamartes e os barbeiros no nosso país de encarcerados.

24.2.09

A folia

A ideia de Carnaval traz dentro dela duas outras ideias: a de mascarar e a de divertir. A ideia de mascarar traz no bojo dela a ideia de divertir. No fundo as pessoas mascaram-se para a coberto de um outro ser conseguirem o que, confiadas a si próprias, não conseguem: rir-se.
A particularidade final e por isso mais digna de nota é, porém, outra: a ideia de divertir traz dentro no seu âmago a ideia de mascarar. Fecha-se o círculo. As pessoas riem-se para simularem a dor que trazem dentro. A folia é para esses heróis anónimos uma forma de loucura.

18.2.09

Portugal me mata

O país de brando costumes transformou-se, agora na escala dos que têm maior taxa de homicídios na Europa Ocidental, num país de bando e curtumes.
Portugal é um país de suicidas escreveu Unamuno, amigo de Manuel Laranjeira, suicida também. Portugal é um país de homicidas escreveria hoje o pobre viajante.
O fado anavalhado transformou esta raça de deprimidos em casta de enraivecidos.
Claro que há os estrangeiros aqui emigrados. Não fui ver as estatísticas para concluir quem mata mais. Complexado como é, o português ficaria pesaroso se, até no matar o outro, não fossemos os primeiros, mesmo que pelas últimas razões. O português julga-se o melhor e pensa de si o pior. Quando não morre de desgosto mata de raiva.

11.2.09

A torradeira da Obama

A ânsia de esperança dá na facilidade da desilusão. Está a suceder isso, rapidamente, com o presidente dos EUA. Esta madrugada a Agência Financeira titulava: «Wall Street fecha muito desanimada com Plano Obama».
No capitalismo, a bolsa de valores, é o boudoir dos sentimentos. A falta de crença traduz-se logo em dinheiro, a euforia em riqueza. É um sistema que sente no bolso.
Claro que estamos a entrar num túnel de imprevisível saída. Segundo reporta a TSF esta noite: a «Nike vai despedir cerca de 1400 pessoas em todo o mundo»
A Nike, como se sabe, nasceu através de um treinador de atletismo universitário, Bill Bowerman e o seu sócio Phil Knight, que «efectuaram várias experiências com a torradeira elétrica na casa de Bill, usando materiais como cimento, borracha a fim de descobrir uma sola melhor adaptativa à performance desportiva e ao bem estar».
A Casa Branca ensaia também, agora com a sua nova torradeira eléctrica. A Europa espera ansiosa, em Portugal a laracha da propaganda e da demagogia desfaz-se em ilusões funestas, convencendo-se no que não acredita.

8.2.09

Nobres metais

A rua é larga e cruza a Avenida da República. Quase na esquina, serpenteando entre os automóveis que param ante os semáforos, ei-lo. Tem dia certo. É sempre aos domingos de tarde. No Inverno veste uma samarra com gola de pele. Tem um aspecto cuidado, um toque de camponês em Lisboa, mas dos camponeses que são a senhoria das aldeias. Não fala. Estende as mãos, em cada uma pendente um saquinho em plástico contendo o que oferece: bolacha americana. Muito de vez em quando há quem compre. Indiferente ao seu magro comércio, este homem, perdido no tempo, numa Lisboa já estranha e mais estranha ainda porque domingueira, prossegue o seu bailado, volteando, ágil, refugiando-se no passeio à iminência do sinal verde. Hoje, pois chovia, tinha uma mão ocupada com um elegante guarda-chuva. Na outra, esperançados em que alguém os levasse, dois sacos, quais aves presas pelas patas aguardando freguês, reluziam à morrinha que o fim de tarde tornava prata, a ornar aquele coração de ouro.