27.1.11

Heróis aos pontapés

O problema de Portugal é não se poder fazer a Revolução pelo voto. E, no entanto, a Revolução está na ordem do dia, esconsa nas mansardas de muitos que aparentam estar conformes. O conservadorismo parece instalado no coração e nos intestinos dos portugueses. É o reaccionarismo astucioso dos que enchem a barriga, defendendo o prédio e a banca, o conformismo apático dos que estão de barriga vazia com medo de passarem mais fome. Todos esses pertencem à Legião do «deixa lá».
As eleições podiam ser momentos de mudança radical, mas os interesses que se transformam em boletins eleitorais são sempre os mesmos, mesmo com outras caras, cada vez mais com caras mais anónimas. Vota-se ordeiramente em todo o País, mesmo quando se vota pouco.
Vocifera-se, isso sim, raivosamente nos intervalos da ida à urna, mas é na urna funerária do voto que a revolta se enterra com flores murchas no primeiro dia das novas legislaturas.
Tornamo-nos acomodatícios, plebicistando o que detestamos porque aprendemos a viver à conta disso. Na Ditadura vendia-se a liberdade na democracia aluga-se a consciência.
O problema de Portugal é que a Revolução é possível. Com Machado dos Santos sozinho na Rotunda, Gomes da Costa a caminho de Lisboa, Salgueiro da Maia cercando o Quartel do Carmo. Uma faísca e o povo explode.
O problema de Portugal é que um dia perdemos a vergonha de sermos tratados como europeus de segunda e exigimos ser tratados como portugueses de primeira.
A vida nacional é gerida por funcionários em Bruxelas e por empregados do Poder em Lisboa: os de lá decidem o quê os daqui o como. A estes juntam-se os credores, seus patrões finais.
Depois é a tristeza, o deânimo e o desespero que nos torna os cantores do fado vadio e os ouvintes da sua melopeia deprimente. Os portugueses sofrem pelos amores funestos e pela alegria breve.
Claro que ainda há o futebol que é a nossa forma de sermos heróis aos pontapés. A todas as horas em todos os dias, boquiabertos de imbecilidade, até ao dia em que alguém invadirá o relvado.

25.1.11

Fomos nós!

Que idade têm aqueles de quem a minha geração fez cobaias das experiências pedagógicas dos propedêuticos e dos cívicos, das passagens administrativas e do entrar-se nas faculdades sem positivas e com facilitismos, os dos 12º anos dados de borla e todo o cortejo de "borlas" e de "copianços"? Aqueles que são veterinários porque o lobby médico impôs o numerus clausus e com ele os cubanos e eslavos que fazem hoje a medicina que é negada aos nossos nacionais? Os que trabalham nos "call centres" e nas caixas de supermercados com mestrados inúteis, a "geração canguru" que vive na dependência e no cravanço, infantilizada mas por lei maior e capaz de votar e validar políticos e políticas? Os que cursaram universidades a estudarem por fotocópias e apontamentos sem nunca terem lido um livro?
Por onde anda a «geração rasca», insolente e mal comportada, que abaixava as calças e mostrava o rabo nas manifestações públicas, como se a coragem hoje fosse não dar a cara mas as nádegas? Por onde os frutos do consumismo, que atulhámos com tudo o que nos extorquiram, chantageando os nossos complexos de culpa? Onde os do «que se lixe a politik que eu quero o joystick?». Onde? Onde?
São esses que estão no mando, no poder, na decisão. Os poucos que escaparam à maré-negra que nós gerámos, vivem subjugados como pássaros a tiritar a morte por sufocação ante o crude da insolência, do oportunismo e  do aproveitamento.
Arrogantes que fomos com os nossos pais, é isto que deixamos como fruto. Escapar a isto é ser herói ou louco. O País afunda-se e nós fingimos que não fomos nós.

17.1.11

O País do Rei Momo

Não sei se algum Presidente de República foi respeitado. De Costa Gomes dizia-se que era «o rolha» por ter sido crachat de ouro da PIDE e depois ícone sagrado da esquerda no PREC. De Spínola que era o «caco» por causa do monóculo prussiano a que o pingalim de Cavalaria dava ares, os tiques e os toques que o infiltrado Gunter Walraff gozou até mais não, quando ele caiu nas malhas do inconsequente ELP/MDLP. De Eanes gozou-se o ser de Alcains e de cenho fechado, mais a desajeitada tentativa de monopolizar a ética no PRD, que faliu sem glória, com Soares a tentar demonstrar que ele, para além de um hirto robotizado, nem um livro ler saberia. De Soares gozou-se tudo, desde os pecados da "descolonização exemplar" até àquilo que Rui Mateus verteu em livro com resultado zero e que meteriam qualquer um na cadeia, o acusador ou o acusado, só que o País virou a cara para o lado.
Uma coisa é certa. Talvez nunca o gozo público tenha sido letal. O sistema não caiu, o Estado aguentou-se, e se não houve um regime que tenha sucedido ao antigo regime a culpa não foi dos apoucantes nem dos apoucados.
Dói nos intervalos de meter nojo o que se está a passar em matéria de presidenciais. Tenta ganhar o que mais baldes de trampa lança para cima do candidato do lado.
A Chefia do Estado era das poucas coisas que sobreviviam. Todos os poderes estavam já na lama do desprestígio. A receita é fácil: ataca-se um, a matula generaliza a todos: padres, professores, juízes, procuradores, militares e guarda-nocturnos, nada resiste, tudo esbraceja no vilipêndio. A receita é fácil. Joga-se um à canalha, a sangrar um pecado, e a matilha estraçalha, em arruaça, a classe toda, na base do «isto anda tudo ao mesmo», «o que eles querem e precisam sei eu!».
Lentamente, as duas sementes do fascismo florescem no Carnaval da democracia: o pessimismo e a ânsia de ruptura. Ninguém quer isto, todos querem qualquer coisa que seja.
O primeiro pirómano que surgir, incendeia a cidade. No dia seguinte, dissipado o fumo, começam os enforcamentos contra os suspeitos de sobrevivência. Ao Rei Momo em Belém sucedem os gatos pingados de Quarta-Feira de Cinzas.

20.12.10

Macau: foi há onze anos!

Foi há onze anos que Macau, território chinês sob administração portuguesa, foi devolvido à República Popular da China. Formalmente era uma zona híbrida na lógica do nosso Direito Ultramarino.
Há muitos modos de comemorar o facto ou apenas de o referir. No primeiro caso com alegria, no segundo com nostalgia. Há quem chore ainda perda da bandeira, como há quem chore a perda da carteira. Há quem ria por inconsciência alarve ou sorria por já nem querer saber.
Para o sub-consciente colectivo, amálgama irracional onde se forma a ideia de Pátria e se deforma, através do Estado, a de Nação, com o fim de Macau Portugal reduziu-se ao ponto de partida. Fechou-se o ciclo do Império. Passámos a ser os portugueses enjoados em terra que nunca iriam à Índia, mais os portugueses náufragos desanimados que de lá voltaram.
Claro que a minha Pátria é, como disse Pessoa, a língua portuguesa e o que ela simboliza. Gastaram-se milhões em Macau para que ficasse essa língua de Camões mas ela só resiste por imposição do Estado e por ainda haver ali portugueses na Administração e na vida empresarial. Em todas as outras colónias o português ficou naturalmente, fruto do amor e da mestiçagem, ali, na zona do Sol Nascente, só porque politica e legislativamente convém. Não é uma língua franca mas uma língua fraca. Ai de quem não souber ao menos inglês.
Sonhou-se que Macau seria, enfim, um caso de "descolonização exemplar", livre do opróbio do abandono, mas a sombra suja das negociatas a alto nível e da pilhagem à "árvore das patacas" criou uma macha que levará tempo a diluir-se como a água do Lilau, a que impede o esquecimento. Tempos houve em que ir para a Cidade do Santo Nome de Deus era sacrifício militar ou exílio de amores. Macau foi laboratório onde se gerou a moral rapinante que hoje sobrevooa Portugal.
Há, porém, um Macau de que pouco se fala, dos abnegados que lutaram na guarita do seu posto ou na enxerga do seu recolhimento, os que ali deixaram o espólio do seu amor àquela cultura e àquela gente. O Macau dos desterrados da sorte e dos opiados da má fortuna. Aqueles para quem a Fazenda foi madrasta e para os quais o Palácio foi indiferente. Esse Macau que gerou o macaense, língua de "papaeação", esse Macau que foi o nosso modo de ser colonial. O Macau missionário mesmo sem missas.
Foi há onze anos. Houve quem trouxesse contentores carregados de valores, houve quem se contentasse com o que a memória guarda.
Comemoro hoje Macau. Tenho comigo a "Estátua de Sal" de Maria Ondina Braga que ali viveu, como professora, em reclusão de alma, o coração em dor. «Assomaram-me as lágrimas a primeira vez que vi a "cidade dos barcos"», escreve. A cidade dos barcos é a cidade flutuante, a dos miseráveis, para quem cada pequena embarcação é casa e loja e caixão. A cidade dos que se amarram mais aos filhos ao madeirame flutuante quando toca a tufão e com ele o grito pavoroso de morte. Um pouco adiante dessa tragédia humana que bóia e assim sobrevive, o Casino, as jóias e as antiguidades, o ar condicionado e tudo quanto é luxo tecnológico e suas luzes meretrizes. Há onze anos estavam e ainda estão. É o Macau indiferente, para quem nenhum Império foi Lei nenhuma Senhoria abrigo. Devolvemos à China a galinha dos ovos de ouro. Depois de os ingleses terem devolvido Hong-Kong. Os diplomatas rejubilam com essa mísera vitória. Para a China eterna nada conta. A unificação da Mãe Pátria tem um nome e não está longe. Chama-se Taiwan. Um destes ouvir-se-à falar. Acreditem. É só Dragão acordar, vivificado.

19.12.10

Quando a Alemanha se fartar...

A Alemanha começa a fartar-se dos caloteiros que financia e daqueles que o Deutsche Bank julgava serem bons devedores. Berlim Recriou a velha Europa e está a ver-se afundar com ela. Por causa das dívidas que o Tratado de Versalhes a obrigou a pagar inventou o Adolph Hitler. Um destes dias os Jünkers da Prússia arrancam para Ocidente. De novo. Um novo homem levantar-se-à, messiânico e enlouquecido, saído da multidão..

13.12.10

Neo-realismo

Era domingo e chovia. Mas fomos visitar o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. Para mim uma vez mais, mas sempre uma primeira vez. Rever o que foi a luta cívica e a sua expressão na arte. Capas de livros que são marcos desse combate. Filmes, músicas, pintura, tapeçaria. A batalha pelo conteúdo, pelo significado, a batalha pela forma, pelo significante. E lembro-me que ainda apanhei os estilhaços dessa polémica:os que achavam que a Arte não podia ser panfleto, evitando ser ideologia para poder ser política por outros meios. Ali estavam tantos, mesmo um que veio, cordeiro arregimentado, da Mocidade Portuguesa, outro que se perdeu, cavalo em espanto, pelo labirinto do dadaísmo ou coisa como tal sentida.
Procurei-a, porque tinha de estar, a Seara Nova, ainda de capa singela, sem imagem nem cor, a Vértice, obrigatória, de Joaquim Namorado.
E ei-lo, ali estava, "António Vale", uma das mais lúcidas inteligências que o País produziu, carácter temperado a aço, a pôr ordem naquelas desordenadas hostes, em que também vogavam boémios improdutivos e reprógrafos burocratizados, a mostrar caminho, como se houvesse uma moral superior dos artistas que desse disciplina e clarim àquele pequeno pelotão. Foram poucos, mas tinham uma consciência social e uma cidadania a cumprir. O culto da personalidade era uma perversão. Hoje entrou na moda, o individualismo burguês a torná-lo exibição e espectáculo indecoroso.

1.12.10

Viva Portugal!

Não importa que seja hoje. Não interessa que se misture ou tenha misturado em tempos no mesmo dia o Camões, a Raça, as Comunidades. Quero lá saber que os nacionalistas e os internacionalistas se não entendam. Desinteresso-me de me preocupar se a perda da independência foi uma mera confusão de sangues reais ou de conveniências matrimoniais entre casas reinantes. Não é minha a polémica que consiste em saber se a nobreza portuguesa nos vendeu à Espanha ou foi o nobre povo quem nos livrou dos Filipes. São enigmas o saber porque é que não gostamos de ingleses e foram eles quem nos ajudou a desembaraçar dos invasores franceses que, apesar disso, marcaram a nossa cultura, durante séculos.
Há só duas coisas que importam quando uma pessoa se pergunta porque é que hoje é feriado: como é possivel que sejamos a mais velha Nação independente da Europa e estejamos em vias de perder o respeito por nós próprios, sujeitos a uma classe dirigente de tão baixo nível, a uma Pátria que a Fazenda amesquinhou, a um Povo que corre o risco de se tornar, pedintes, nos romenos do Ocidente, à porta das igrejas, agarrado ao sebastianismo da Fé?
Hoje, dia primeiro de Dezembro, não é só dia de Portugal, é dia de pensar como se salvará Portugal! A bem ou a mal...

28.11.10

O baixo preço

O capitalismo ocidental enriqueceu à conta da exploração cruel da produção asiática e africana, acumulando com os seus salários de fome. Hoje vêm dali os novos senhores, quantos cleptocratas, que tudo compram. Mas por maior que seja a fome em Portugal a deles é sempre maior: é a fome das populações por alimento, a fome de uns quantos dirigentes por lucro fácil. O nosso baixo custo é o seu alto preço.

19.11.10

Ajoelhar, que é o Rei!

Quando há uns anos fiz parte do grupo de ligação luso-chinês, até ser corrido pelo ministro Jaime Gama que achou que outro devia aquecer o lugar, aliás gratuito, tivemos uma reunião em Pequim e um passeio à Manchúria. Do programa fazia parte acordar cedo, sermos metidos numas carrinhas e fazermos uma viagem a um lago, onde desfrutaríamos a vista não fosse estar uum tal nevoeiro que seria lógico aparecer o Loch Ness em vez do tigre da Manchúria.
Á saída do Hotel dei como uma cena extraordinária: uma fila gigantesca de automóveis cujos pachorrentos condutores aguardavam há horas na faixa esquerrda que Suas Excelência - nós - passássemos na faixa direita. Nem um sinal de impaciência, antes a asiática resignação marcava aqueles rostos inexpressivos.
Quando regressámos à noite, a cidade dormitava, as ruas desertas, os batedores que marcavam a dianteira ligaram as sirenes atroando os ares com um insuportável chinfrim.
Porquê? Porque o poder marca a sua presença assim. Imagino que nos tempos antigos a soldadesca da guarda entraria na casa dos habitantes e os varreria a varapau só para se lembrarem entre nódoas negras e ossos partidos que vinha lá o Mandarim.
Aqui no chamado Ocidente como hoje estamos mais brandos pára o trânsito e fecham-se as ruas a ponto tal que quando Suas Excelências passam por cima do chão as toupeiras humanas que frequentam o metro ficam inibidos de usar esse rastejante meio de transporte subterrâneo.
Tudo isto cheira menos a medidas de segurança mais a opressão e arrogância. Como somos o submundo, falidos e pedintes, submetemo-nos, à chinesa, para nos irmos preparando porque vem aí a China. Haja pois no rosto de cada um sorriso sínico.

6.11.10

O famélico garnizé

O Senhor Deng-Xiao-Ping explicou um dia à Senhora Tatcher que Macau e Hong-Kong eram duas galinhas que punham ovos de ouro e os chineses gostavam de ovos. Ora sucedia que as galinhas punham ovos de ouro sendo apascentadas de modo capitalista e colonialista. E os chineses continentais não sabiam tal modo de apascentar tais galinhas. Por isso, elas haveriam de ficar durante cinquenta anos entregues ao cuidado dos capitalistas e colonialistas portugueses e ingleses que vinham delas tratando.
Vigoraria assim na China o princípio «um país dois sistemas».
E porquê cinquenta anos? Porque era o tempo de que a China precisava para alcançar as metas de crescimento ocidentais.
Ei-los, pois, agora, os chineses, a comprarem tudo quanto há, incluindo o que em Portugal mais há: a dívida.
Gorda que está, a galinha compra o próprio dono do galinheiro, o famélico garnizé.

A tenda dos tintins

Espantam-se? Mas que geração é esta que está hoje no poder e no mando no sector público, mesmo onde eram dispensáveis, e no sector privado onde conseguiram tornar-se úteis porque necessários? Aquela que gerámos, cobaias na instrução do propedêutico e do serviço cívico e do unificado, fruto na educação dos nossos complexos de progenitores liberais e permissivos. A que aprendeu a arregimentar-se nos partidos como forma de fazer carreira, os partidos a que demos existência, entregando-lhes primeiro o Estado, depois o País. Os consumistas, egoístas, aqueles que não passam os apontamentos das aulas aos colegas para que eles não lhes passem à frente na classificação. Os que se colam aos pais e deles vivem, incapazes de deitar a mão ao esforço do sustento próprio. O fruto da desagregação dos nossos lares. Aqueles para quem o último mestrado corresponde o primeiro desemprego. 
Somos, enquanto País, a mistura complexa de cinquenta anos de ditadura de Estado que caiu de podre e de vinte e cinco de socialismo de Estado que se desmoronou. À lógica do funcionalismo somámos a do clientelismo.  
Falido e desacreditado esse Estado, damos connosco a boiar no charco liberal da desregulação, no pântano do mercado e suas monstruosas criaturas: a economia sufocada pelas finanças, a produção ao serviço da dívida.
A República Popular da China compra a dívida externa de Portugal, porque a Nação dos Portugueses se tornou numa tenda de tintins. O Fundo Monetário Internacional pode tomar conta disto, porque tal como os que vão aos Casinos de Macau, na roleta do mercado de capitais, estamos nas mãos das casas de penhores. As seitas encarregam-se do resto.

5.10.10

Republicanos pela República

Assim como não tivemos uma só Monarquia não há uma só República. Temos sim um regime que atravessou a parte final da Monarquia e se consagrou republicanamente, o da partidocracia que, em rotativismo devorista, vai depredando os bens da Nação distribuindo o grosso pela cacicagem e as sobras pelas clientelas. O Salazarismo com a ideia da União Nacional que não era partido tentou a ficção de um Estado fora dos interesses, devotado abstractamente à Nação. Só que a União dos Interesses Económicos tem mais força e mais tentáculos. A liberdade cedeu ante os monopólios, a democracia ante as cliques partidárias, a fraternidade ante o egoísmo consumista.
Resta, hoje, dia 5 de Outubro, ao entardecer, a ideia de revolução, que se é o que hoje se comemora, é justo seja comemorado! Republicanos pela República contra a nova casta senhorial, às armas!

A União dos Interesses Económicos

Assim como não tivemos uma só Monarquia não há uma só República. Temos sim um regime que atravessou a parte final da Monarquia e se consagrou, o da partidocracia que em rotativismo devorista vai depredando os bensda Nação distribuindo o grosso pela cacicagem e as sobras pelas clientelas. O Salazarismo com a ideia da União Nacional que não era partido tentou a ficção de um Estado fora dos interesses, devotado abstractamente à Nação. Só que a União dos Interesses Económicos tem mais força e mais tentáculos. A liberdade cedeu ante os monopólios, a democracia ante as cliques partidárias, a fraternidade ante o egoísmo consumista. Temos um Estado que sai caro à Nação! A frase não é minha.

Saúde e fraternidade

Hoje, dia da República, e com ela da liberdade cidadã, preso a trabalhar porque tenho uma profissão liberal, fui - ó deformação profissional esta - buscar a um velho fólio que o Barbosa de Magalhães e o Pedro de Castro compilaram, os primeiros diplomas legais do novo regime.
A 5 ei-la a proclamação, pelas onze horas da manhã - hora precisamente a que acordei hoje, iracundo, não diria de barrete frígio que não uso nem na cama que, aliás, pouco tenho frequentado para dormir - gritada, como se sabe dos Paços do Concelho.
Mas logo a 7 um decreto a rezar - rezar não calha bem pois viria logo a 8 o diploma contra a apodada «reacção clerical» - a prorrogação «por 10 dias ou 3 audiências os prazos judiciais de qualquer natureza, os quais estando a correr nos dias 4 a 7 do corrente, deviam ou devam findar desde 4 a 13 do mesmo corrente mês».
Retroactivo, processual, judiciário, o Governo Provisório lá teve que cuidar dos prazos nos tribunais para que os republicanos revolucionários e os talassas reaccionários não ficassem à mercê da indiferença forense.
Comemorando a República com os prazos correntes, permita-se-me o grito que a 8 teve força de lei quando a 8 um decreto estipulava que a correspondência oficial terminaria «com as palavras "Saúde e Fraternidade". Viva!

25.9.10

A vida simplificada

Vejo numa personagem de um romance de Vergílio Ferreira aquilo que deve estar na cabeça de muita gente que faz com sejamos o País que somos: «os que chegam a constituir uma elite efectiva, devem assegurar às massas inferiores a felicidade na aproximação dos irracionais, mantendo-lhes a vida simplificada».

21.9.10

A Censurável Censura

Este texto ilustrou uma exposição que se realizou em Faro, no Pátio de Letras, no dia 25 de Abril, a propósito da Censura Prévia. Expostos livros de um notável livreiro da cidade e um homem bom, Duarte Infante.

Por um lado o controlo do espírito, por outro a engenharia das almas. A censura ao pensamento garrotava a liberdade de expressão, asfixiava a criação. O 25 de Abril trouxe, enfim, a liberdade
Em Portugal a mordaça tem uma longa tradição.
Quando, a 5 de Abril de 1768, o Marquês de Pombal centralizou no Estado o sistema de controlo ao conteúdo dos livros abria-se a época moderna na repressão do espírito. Criou-se a Real Mesa Censória, confiada a Frei Manuel do Cenáculo, para «livros e papéis perniciosos». Veja-se.
A Igreja perdia o poder de censura que até então gozava o chamado Santo Ofício da Inquisição e que o seu Index Librorum Prohibitoru , de obras vedadas à impressão ou à venda, saído do Concílio de Trento, bem expressava. Esclarecedor.
A liberdade de imprensa só seria proclamada com a Constituição de 1822, mas duraria apenas até 1924. Restabelecida com a Carta Constitucional de 1826, cairia de novo para não mais vigorar até à República. Quer por leis, quer por actos administrativos, quer por vias de facto, o exame prévio e a apreensão de livros proibidos continuariam. Com a ditadura de João Franco o governo monárquico encarniça-se na luta contra a propaganda adversa, congregando um juiz para o efeito, o célebre Veiga, que dirigia o Juízo de Instrução Criminal.
A liberdade republicana, que a Constituição de 1910 legalizaria, teria também duração efémera pois logo em 1912, por lei, «dezenas de jornais não republicanos, especialmente monárquicos e católicos, mas também sindicalistas e anarquistas, foram encerrados e os seus proprietários presos e deportados».
O advento do governo de Sidónio Pais, em 1917, daria base legal ao afinamento do sistema censório, a entrada de Portugal na I Guerra justificaria mais apertado controlo aos livros e demais publicações.
O Estado Novo restabeleceu o exame prévio em Setembro de 1926. A Constituição de 1933 abria a porta à legitimação de uma “política do espírito”, que uma apertada vigilância às publicações controlava, impedindo a divulgação do contrário à Situação. Um Decreto de Abril de 1933 sujeitava a censura prévia as publicações que «versem assuntos de carácter político e social». Os próprios livreiros eram intimados a controlarem o que vendiam, sob pena de pesadas multas. A PIDE e outras polícias frequentemente efectuavam apreensões nas livrarias e tipografias. Pode ver-se.
Após a morte de Salazar e com a liberalização do regime, em 1972, sob o governo de Marcelo Caetano, pouco mudaria salvo alguma abertura de critério, mesmo assim hesitante. O lápis azul dos censores à imprensa mantinha-se no mundo editorial. A Direcção dos Serviços de Censura e seu Gabinete de Leitura Especializada, A Direcção-Geral de Segurança e os Tribunais Plenários, encarregavam-se da evolução na continuidade. Naturalmente.
Haverá hoje quem se lembre do que é não ter a liberdade de escrever nem a possibilidade de poder ler?

Como se fazia a Censura aos livros? O Regime que o 25 de Abril depôs usou todos os instrumentos. Serviços públicos, polícias, auto-vigilância por parte dos livreiros, dos tipógrafos, dos escritores, dos próprios leitores


Primeiro a criação dos Serviços de Censura que com Marcelo Caetano se passou a chamar eufemísticamente de Exame Prévio.
Depois a atribuição do julgamento dos crimes de imprensa a um tribunal especial o famigerado Tribunal Plenário, sito na Boa-Hora, onde eram julgados os crimes contra a segurança do Estado. Ilustrativo.
Além disso, um sistema de auto-policiamento pelo qual as tipografias e os próprios livreiros arriscavam pesadas multas e o próprio encerramento no caso de permitirem que viessem à luz livros proibidos e inconvenientes para os padrões de moralidade oficial e para a subsistência do próprio regime político.
Quantos livros proibidos foram vendidos «por baixo do balcão» a leitores em quem se poderia confiar? Quantas tipografias clandestinas? Sabe-e lá.
Em 1934 a Direcção Geral de Censura à Imprensa enviava uma circular aos livreiros apelando a que fossem «colaboradores preciosos» da Censura, a bem da «valorização moral da Nação».
Em 1972 o Ministro do Interior, Gonçalves Rapazote dava instruções à Direcção-Geral de Segurança (ex-PIDE) para «organizar um plano de visitas» a tipografias que se dedicam à impressão de «livros suspeitos – pornográficos ou subversivos» e que fosse informado os Grémios das Artes Gráficas e dos Editores e Livreiros «da acção de repressão que vai ser desencadeada contra os responsáveis pela impressão, distribuição ou venda de publicações pornográficas ou subversivas». A política não mudava.
Enfim, uma prática de intimidação e de provocação, junto dos escritores e dos próprios leitores.
Quantas vezes se forravam os livros mais perigosos a papel pardo para não se verem as capas? Erro o medo de ler.
A Sociedade Portuguesa de Escritores foi extinta em 1965 pelo Governo e assaltada e desmantelada por elementos ligados à PIDE e à Legião, depois de atribuição de um prémio ao escritor angolano Luandino Vieira. Veja-se.
Um escritor católico, conservador, Alçada Baptista, escreveu no seu livro Conversas com Marcelo Caetano, de quem era amigo, acerca do Exame Prévio: «é um poderoso elemento de redução de mim próprio (…) e que vai ao ponto de sentir inibições quanto se trataria de aplaudir os poderes nas coisas que mereceriam o meu aplauso, ou de criticar a oposição naquilo que mereceria a minha crítica»
Hoje, que estamos em democracia e na sociedade digital, a Censura acabou ou sofisticou-se?

16.8.10

A vida sobejante

Pela noite sente-se o seu pesado arrastar. Levam no seu bojo o resto, os sobejos e os remanescentes, o que já não se quer, o que nunca se quis. Há neles o que tantos desejariam, o que muitos nem sabem que existe. Em alguns fins de jantar é um festim de desperdícios. Muitos chegam cheirar bem. São a demonstração da generosidade involuntária, da oferta inútil. Às vezes homens e cães lutam pela posse das suas entranhas. Irmanados na necessidade, rosnam contentamento. Depois esvaziam-nos indiferentes homens nocturnos, madrugadores, profissionais da remoção. Uma vida sobejante termina na nitreira. No dia seguinte recomeça o ciclo da podridão.

4.8.10

O pato coxo

Foi só uma pancadinha seca. No instante um tiro. O «rac-rac-rac» e o andar à pato-coxo mostrou logo o que se tinha passado. Um segundo de distracção e claro uma cacetada da jante numa esquina do passeio e lá vai pneu. Nesta matéria, como nos sapatos, nunca basta um. Pelo menos dois. «Só que eles já andam um pedaço carecas». Como eu! Quatro. «Olhe o meu filho outro dia pediu-me uns ténis a 120 euros cada um», disse-me o homem do reboque. Pois o meu SAAB deve calçar-se na NIKE e ainda mais, pela certa.

1.8.10

E viva El Gordo!

Houve tempos em que uma pessoa acreditava porque estava cientificamente provado. Por exemplo que beber leite fazia bem à osteoporose. Agora decobriram que os adultos não devem beber leite e juntá-lo ao café gera enfartamento, inchaço no ventre e flatulência. Agora uma pessoa espreita as notícias e lê que «dormir mais e menos de sete horas por noite aumenta o risco de doença cardiovascular, a principal causa de morte nos Estados Unidos, revela um estudo americano hoje divulgado» e logo antes que «Os suplementos de cálcio podem aumentar o risco de sofrer um ataque cardíaco (infarto do miocárdio), afirma estudo publicado nesta quinta-feira no Jornal Médico Britânico, periódico da Associação Médica Britânica».
Houve tempos em que a filosofia era apenas uma impressão, a ciência a razão. Hoje uma pessoa conclui que a ciência é um interesse. É que foram as vacas loucas e vieram as pandemias de sei que outras alimárias. Concluiu-se que a norte do Mediterrâneo ia tudo desertificar e agora chove que os cães a bebem de pé.
Depois há a Rainha Vitória que bebia gin à farta e o Winston Chuchill que fumava charutos copiosos e de velhos morreram.
Houve tempos em que uma pessoa tinha fé no saber. Hoje limita-se a ter caridade pela ignorância.
No meio disto tudo uma notícia alegra: «A praia chama-se Saúde e foi um dos locais escolhidos para a campanha da Associação de Doentes Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO) contra a Obesidade, uma doença que em Portugal afecta já 17 por cento da população, escreve a Lusa».
Emagrecer é divertido, dizem...

25.7.10

A Sinarquia

Claro que quando em 30 de Novembro de 1807 o general francês Andoche Junot ocupou Lisboa, consumando a primeira invasão francesa e uma deputação de maçons lhe foi apresentar cumprimentos, e no ano seguinte uma delegação oficial do Grande Oriente o foi saudar, por ele ser «irmão» também e aventalado e com pretensões ao Grão-Mestrado da que passaria a ser, extinta a Casa de Bragança, o ex-reino de Portugal, a associação da pedreiragem passou por um dos seus piores momentos em termos de respeitabilidade e de integridade.
Não foi menor o aperto quando em 1935 o Presidente da Assembleia Nacional, o professor de Direito José Alberto dos Reis, ele também "filho da viúva" viu o hemiciclo aprovar a lei José Cabral dita contra as «associações secretas» mas que visava reduzir à inactividade os sob os auspícios do Grande Arquitecto do Universo se reuniam em loja. Lei que o ex-maçon Presidente da República Óscar Fragoso Carmona promulgou.
Foram estes entre outros momentos que se reviveram ontem acaloradamente em Faro até pelas uma e meia da manhã quando da apresentação do livro do Luís de Matos. Houve quem clamasse que já estava tudo nos Protocolos de Sião. A ideia do autor é a de uma Maçonaria Invisível que assegure o governo do Mundo. Chama-lhe Sinarquia. Não no sentido de uma cavalaria espiritual redentora. Espécie, sim, do Governo dos mais sábios. O problema é se dá em ser o governo dos mais espertos. Disso já temos. Obrigado.

20.7.10

A vergonhosa homenagem

Nasci em Angola. Sai da terra onde nasci quando começou a guerra que levaria à independência do País. Nunca me senti "menino branco" em terra africana. Não sou negro de raça. Compreendi as razões da revolta local por ter visto em miúdo dísticos no cinema a dizerem «probida a entrada a indígenas», quando vi os tais «indígenas» a levarem palmatoadas - como se crianças fossem em escolas de educação violenta - dadas por cipaios à porta da Administração do Concelho. Compreendi a contra violência quando me chegavam ecos de brancos serrados ao meio e com os olhos arrancados que livros como "Sangue no Capim" nos traziam como memória. Percebi tudo quando vi o poder branco a cair de podre com a chegada dos belgas, espavoridos, a Malanje, vindos em fuga em carripanas com tudo o que podiam trazer, sobretudo a própria pele. Deixei de entender quando ouvia de noite a metralhadora no quartel e me falavam entre dentes na vala comum, quando me explicavam que a PIDE e militares interrogavam negros arrancando-lhes as unhas com um alicate. Entendia ainda quando percebi que para o meu pai, aos sessenta anos, era já Angola e não Viseu a sua terra. Compreendi, enfim, muita coisa quando soube, ao estudar, que os EUA e a URSS tinham partilhado Portugal e as suas colónias e caiu como um tordo Vasco Gonçalves e os cubanos largaram Angola, a geo-estratégia imperial a ditar a sorte das Pátrias alheias.
Assisti ao Conselho de Ministros que aprovou a independência de Angola, ouvi a seráfica explicação do general Costa Gomes, «crachat de ouro» de PIDE, agora Presidente da República da democracia, perorando, frio, em prol do reconhecimento do governo do MPLA, e corajosa intervenção de Salgado Zenha em defesa da dignidade de Portugal, ele que estivera preso com Agostinho Neto em Caxias.
Choca-me que Aníbal Cavaco Silva tenha ido a Angola prestar vassalagem. Por mais alto que falem os interesses, por mais esperanças que tenhamos que os caloteiros angolanos nos paguem, por mais País que o dinheiros dos plutocratas angolanos esteja a comprar.
Ofende-me que tenha ido prestar homenagem a Agostinho Neto quando o Estado que Agostinho Neto inaugurou ainda não teve para connosco a decência do reconhecimento.
Ante os escombros de uma Nação à mercê da miséria e da rapina, haja a decência de exaltar o que os portugueses fizeram por Angola. Colonizadores, colonialistas, negreiros, miscigenámo-nos, amámos aquela terra, demos-lhe o que nunca teve o que ainda não conseguiu ter. Haja vergonha, pois!

18.7.10

A velha bicicleta

Passeava no Jardim da Estrela. Pedalava uma velha bicicleta. Empinado na "burra", os olhos como faróis olhava um ponto situado num qualquer infinito em frente a si. Ia a escrever um ponto abstracto, mas aquele era concreto, se bem que imperscrutável. Perseguia-o zaranguitando pelas ruelas arborizadas. Na frente do biciclo um rádio, sanfona roufenha, verbena a pilhas, roncava umas irreconhecíveis musicatas.  
Perseguidor do sossego, imaginei-o uma força do Destino contra a minha pessoa, os outros indiferentes, vindo das retretes da vida dejecta para a folhagem morna desta tarde modorrenta.
Depois percebi. No dorso da camisola laranja anunciava uma tasca de caracóis. Caracóis com baba, dos que sabem a urina e cheiram a desolação. Um mundo publicitário volteava em torno de mim, infernal, em soltura ofensiva, caracoleante.

22.6.10

O vagabundo

Tantos são eles, os sem abrigo! É uma vergonha!
Na rua da livraria Pó dos Livros há outro. Exalam, ele e os papelões sujos de que faz casa, um cheiro fétido.
Tudo aquilo é miséria e álcool. A sua casa é um vão de escada de um prédio onde fica um anafado Banco. Na mesma rua a Igreja de Fátima, onde se vai pregar o Reino da Bondade e a Caridade entre os Homens.
Um dia destes masturbava-se de pé virado para a rua, indiferente a tudo, que o corpo de um vagabundo tem apelos que nem a fome nem a loucura matam.
Pior escândalo do que aquele triste sexo virado para a rua é a miséria em que ele vive, a miséria da nossa indiferença, masturbando-nos, quantos de nós, indiferentes passeantes, com titilantes ideais contemplativos! Nisso, eu pecador me confesso, um de tantos outros!

27.5.10

Volta D. João VI

Em Novembro de 1807, D. João VI transferiu-se para o Brasil, evitando ser aprisionado com toda a família real e o governo. Salvou a independência de Portugal. Lá criou o Banco do Brasil em 1808. Agora é José Sócrates que vai, de mão estendida, tentar a ajuda do capital. A História repete-se sempre duas vezes, a primeira como tragédia a segunda como comédia. Disse-o Karl Marx.

21.5.10

A hora do não

Foi preciso isto bater no fundo por razões externas e por motivos internos para, enfim, a demagogia e o irrealismo deixarem de imperar, impunes.
O demagogo que nos governa susteve enfim o discurso do oásis, cantata dos inconscientes, homilia dos trapalhões. Os governados que a sua retórica engana perceberam agora que os calotes são para pagar e o crédito ao consumo não é um saco sem fundo.
À agiotagem nacional, que foi enforcando consumistas locais, sucede a agiotagem internacional, que sabe afundar Estados e os compra depois de os arruinar.
Os bancos vivem horas nocturnas pavorosas para se refinanciarem. Compra-se dinheiro a qualquer preço. O fecho das Bolsas é um estertor e uma agonia.
Até o Governador do Banco de Portugal que ora nos mostrava luz ora escuridão, no pisca-pisca das estatísticas convenientes, parece, enfim, preocupado com tudo menos com o seu futuro.
De Berlim chega o alarme e Berlim é a locomotiva europeia: a Europa está em perigo.
Vem aí mais uma vaga de futebol. É a última esperança do Governo. As televisões que sirvam esse anestésico embebedando o País, dia e noite.
O líder da oposição, que parecia estar no sim com o Governo, diz agora que está totalmente no não.
Vendedores de mentiras, os políticos começam a ter medo. Um dia destes são socados na rua, fartos todos nós de palhaçadas.

20.5.10

A saloia resolução

Um Parlamento de provincianismos e de espírito de campanário eis o que se revela hoje no Diário da República: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo a manutenção do Serviço de Finanças de Viseu 2 em actividade».
Claro que se calhar o Serviço de Finanças de Viseu 2 faz muita falta, tanta quanta a estação de Coimbra B ou o ramal do Entroncamento.
Mas um Parlamento que se imiscui nos meandros miúdos da Administração é bem a mostra de uma representação nacional que se degrada ao específico quando há tanto no geral ao abandono.
A imagem do deputado inerte e inútil que uma vez por ano, com o hemiciclo às moscas e os seus próprios colegas de bancada distraídos, perora sobre os regionalismos da região que o levou ao poiso ainda se compreendia: era a gratidão do eleito face aos eleitores. Agora com os deputados escolhidos pelas sedes partidárias, os localismos meras câmaras de ressonância de interesses políticos e outros mais do que centralizados, porque pregará pelo chafariz, pelo hospital ou pelo tribunal?
No fundo continuamos a ser isto. Um país de arrivismos. Viseu sabe que tudo se decide em Lisboa. Como não é no Terreiro do Paço que se logra efeito, mete-se a cunha no Largo das Cortes. Viseu 2 e as suas finanças terão de continuar. Já agora, porquê, já que isso não no-lo explica a saloia resolução? 

PS. Estudei em Viseu, sou filho e neto de provincianos. Cheguei à capital do Império com dezassete anos. Nasci na remota Angola. Sei, porém, o que é ser-se pacóvio. É isto mesmo: o Parlamento, a mais alta representação da democracia sufragada, depois da chefia do Estado, pensar a este nível. Quando o País se afunda financeiramente resolve-se ali sobre as Finanças de Viseu 2.

18.5.10

O triolismo político

O Presidente da República tentou a lógica: para os homosexuais legalizarem as suas uniões não é preciso chamar-se a tal «casamento». Se as palavras ainda tiverem uma semântica neste mundo de verbosidade oca, seja. Com a mesma lógica então o partido que se diz chamar socialista tem de mudar urgentemente o nome que usurpa.
O Presidente da República tentou a pedagogia: os partidos na Assembleia da República bem poderiam ter tentado encontrar um consenso nesta matéria. Pois poderiam, se não fossem partidos e o tema não fosse dos que parte e que Belém não se iluda.
O Presidente da Republica tentou a dignidade: em nome da grave crise financeira que é o que ela é, promulgou a lei para unir os portugueses. De união se trata, de facto, sexual e pessoal.
Ora valha-me Deus. Para encontrar argumento Cavaco Silva escusava de se encostar à crise. Bastava dizer que se rendeu às conveniências, todos percebíamos e já ninguém se importava.
Ante a possibilidade enfim do casamento gay José Sócrates está feliz: a sua união nacional com o PSD é agora um jogo a três com Belém na mesma cama.

O pequeno portunhês

Finalmente o sol, o calor, a esperança de primavera! No íntimo a incerteza porque amanhã pode de repente chover, um sismo pode mandar Lisboa ao chão, as praças financeiras podem atirar Portugal para o lixo.
Optimista mesmo quando patético, casquinando subserviente um castelhano de rir só o primeiro-ministro. Ele é o sempre em pé!
Já se percebeu que o centro da soberania se joga em Bruxelas, o centro dos interesses em Madrid, o futuro disto tudo em Berlim.
José Sócrates escolheu uma vez mais o palco ibérico para o seu número de confiança. Atrapalhados também financeiramente, os espanhóis têm sobre nós esta particular vantagem: a arrogância de nos tratarem como província.
José Sócrates na capital da Ibéria alinha em conformidade: comporta-se como um provinciano, tentando ter graça, uma graça servil, com o seu portunhol. Ora coño!

13.5.10

A côngrua forçada

Estava na tropa em Mafra. Enfiaram-nos nuns helicópetros para voos pelas imediações. Ambiente de euforia. Quando se aterrou, a malta ainda exaltada de entusiasmo, leram as especialidades. Muitas significavam embarque para a frente de combate. Calhou-me armas pesadas de infantaria. Com o país em ambiente de Papa o Governo anunciou o pacote para a crise. Armas pesadas de infantaria também. Vem aí Nambuangongo.
No fundo é uma espécie de côngrua eclesiástica forçada. Já o cânone 1260 do Código de Direito Canónico reza: «a Igreja tem o direito originário de exigir dos fiéis o que é necessário para os seus fins próprios». Leu bem? Exigir! No Estado é parecido, com a diferença: mesmo os não devotos pagam!

10.5.10

Caçada real, caçada legal

Para um reforma se vender é preciso haver algo que os jornais comprem. Normalmente um nome e uma frase citável. Para isso o Governo tem hoje as suas agências de comunicação, que o vendem como notícia nos media.
O Governo quer simplificar o processo legislativo. E para isso inventou-se um nome: Simplegis. E para tal inventou-se uma frase: «Governo quer acabar, por ano, com 300 leis».
A ideia do nome percebe-se: é uma variante do Simplex, nome que já terá entrado no ouvido e nada como uma marca conhecida para dar credibilidade ao produto. A ideia das 300 leis entende-se: é que nada como um número para dar a imagem de que a coisa é séria e até já há contas para o demonstrar.
Ao ler isto lembrei-me quando estive no grupo de ligação luso-chinês. Como com a Declaração Conjunta sobre a questão de Macau a parte chinesa tinha garantido à parte portuguesa que seriam respeitados durante cinquenta anos os usos e costumes do território, quer dizer as leis que os portugueses tinham aprovado para Macau, a delegação chinesa, com cínica candura, pedia aos diplomatas portugueses que lhe entregassem a lista das leis em vigor.
«A lista?». Claro que não há uma lista das leis em vigor, porque no Ocidente com as revogações implícitas e as derrogações nunca se sabe bem o que vigora nem quando.
«Não têm uma lista», perguntavam os cínicos sínicos.
«Quer-se dizer...», balbuciavam os tugas, embaraçados...
Vem agora o Simplegis. À razão de 300 por ano, dentro de um século tá tudo revogado. A Nação poderá repousar, pois viu-se livre do Estado. Talvez então a Pátria se salve. Sem lei nem rei.




1.5.10

Uma economia humana

Uma economia que cresce gerando lucros sem pleno emprego não pode ser legítima, em função de nenhum critério de humanidade. Seja este o patamar comum de revolta para um dia 1º de Maio, que una mesmo os que, não provindo do marxismo, se revêm numa qualquer concepção que tome o homem como a medida e o fim de todas as coisas.

28.4.10

E que tal mudarem de nome?

«Juros da dívida portuguesa já superam os dos gregos quando pediram ajuda», reza o Público, em título. Com o novo líder do PSD a seu lado o primeiro-ministro «antecipa 'cortes' nas prestações sociais» esclarece o DN. Eis o bloco central a resolver a crise dos ricos com o ataque aos pobres. Chama-se a isto um governo socialista apoiado por uma oposição social-democrata. Como se nota, claro!

27.4.10

Esta noite o País está só

O País levou esta tarde um abanão financeiro tão forte quanto um sismo. A cotação do Estado português foi degradada para níveis próximos do alerta total. A cotação de cinco maiores bancos degradada foi em consequência.
Discutível que seja, a verdade é que os responsáveis internacionais convergem na ideia de que Portugal se aproxima da banca rota.
O triunfo das finanças sobre a economia, a geração de riqueza virtual e como tal especulativa, o ilimitado crédito, a demagogia governamental, a generalização do materialismo consumista, eis a receita explosiva.
Esta noite o primeiro-ministro, se tivesse o sentido da responsabilidade tinha aparecido na TV a dar a cara. Não esteve. Ele sabe que já não incute qualquer confiança. O demagógico e irresponsável discurso do optimismo balofo deu isto. Ele sabe que a aparecer seria motivo de desconfiança. Por isso esconde-se. O Presidente da República calado está. O País esta noite está sozinho a assistir à chegada do desastre. Portugal está à deriva.

26.4.10

Mente-se por medo

Nos círculos do poder murmura-se que o País atravessa uma situação altamente perigosa. O Presidente da República fala em «dúvidas quanto ao futuro do País». A possibilidade de Portugal abrir falência é afirmada já na praça pública internacional, na boca de responsáveis ligados à finança internacional. De há muito que se sabia. Medina Carreira tem-se farto de o dizer. Acusam-no de pessimista. É mais fácil fingir que se está bem ante a vergonha de se estar péssimo. Os Estados como as pessoas. Mentem.

24.4.10

Amanhã é o dia 25 de Abril

Comemora-se amanhã mais um 25 de Abril. Cada um comemora o seu. Muitos dos que estavam pesarosos e apreensivos nesse dia em 1974 comemorarão agora os seus actuais dias de contentamento e bem-estar porque, vistas as coisas, nada lhes aconteceu durante ou tudo se recuperou depois. Estão bem na vida ao lado dos novos ricos que a Revolução fabricou e que o sector público sustenta.
Ao Alentejo dos latifundiários sucede o Alentejo dos mesmos latifundiários, mais os montes e suas piscinas dos citadinos burguesas exibicionistas.
A questão são os que se alegraram naquela pálida madrugada, os que acreditaram e afinal se iludiram. Os que foram enganados. Os que erraram no caminho.
Morre-se hoje de tristeza em Portugal.
Tristeza pela paródia em que a democracia se tornou, prisioneira dos partidos que se entrincheiraram no Governo, estes ao seviço de interesses questionáveis. Tristeza pela bancarrota que se aproxima. Tristeza pelo baixo nível da classe dirigente. Tristeza pelo banditismo, pela insegurança, pela rapina. Tristeza porque o Estado está à mercê de negociatas. Tristeza porque estão no poder pessoas a quem nenhuma empresa inteligente daria emprego. Tristeza pelo aviltamento da autoridade nas ruas, nas famílias, nas escolas.
Tristeza porque nunca o povo consumiu tanta alarvice nunca a cultura tão sustentada. Tristeza quando se liga a televisão, tristeza quando se ouvem conversas de rua.
Tristeza porque já ninguém quer saber de coisa alguma, todos acham que todos aldrabam, todos querem o quinhão que conseguem os aldrabões.
Tristeza pelas fábricas falidas, pelo comércio arruinado, pelas famílias endividadas até às orelhas, a viverem do crédito e do calote.
Comemora-se amanhã o dia 25 de Abril. Cada um comemora o seu.
Das catacumbas da portugalidade haverá seguramente os que pensam na agonia que tudo isto lhes causa e se perguntam como se fabricam bombas. Ante a miséria da Pátria o País tem direito à revolta, à Nação exige-se-lhe a Revolução. Está em causa a sobrevivência de Portugal.
Somos o mais velho país da Europa povoado por gente que perdeu o respeito ao que isso significa, liderado por gente que nem sabe quanto isso vale.
Amanhã, dia 25 de Abril, quantos já não comemoram publicamente o que foi, prepararam clandestinamente o que há que ser.

22.4.10

Comissões para lamentar

Quando os deputados que integram uma comissão parlamentar de inquérito se permitem expressar publicamente o seu pensamento sobre o que há para decidir antes de a comissão iniciar funções e mal a mesma deu os primeiros passos, quando citam para justificar as posições que tomam o pensamento da bancada parlamentar de onde são oriundos, sem distância nem resguardo, quando fazem apartes e se permitem piadas de mau tom e pior timbre, pergunto: acham que é assim que se honra a norma segundo a qual «as comissões parlamentares de inquérito gozam dos poderes de investigação das autoridades judiciais que a estas não estejam constitucionalmente reservados»?
Imagine-se um cidadão ante uma autoridade judicial que se permitisse tais liberdades! Tais anúncios prévios do que pensa quem o insta e decidirá, tal manifestações de quanto o inquiridor e decisor é porta-voz de pensamento alheio! Tais graçolas entre eles e com todos os demais...
Tentando ter dos tribunais os tiques, as comissões parlamentares de inquérito permitem-se intimar magistrados para serem ouvidos, requisitam cópias de processos criminais num tu-cá-tu-lá com o poder judiciário legítimo, invocando a lei. Terão para isso a autoridade formal e mais alguma. Falta-lhe a legitimação substancial, a da isenção e da independência, até a das boas maneiras.
Eis o que penso como cidadão e como jurista. Razão de ciência: o que tenho visto em directo e ao vivo!
Sejamos claros: é o mundo da verdade conveniente, um meio que permite desacreditar os tribunais.

11.4.10

Ânsia de martírio

No apontamento que publicou no número da Nova Águia dedicado a Teixeira de Pascoaes, um advogado que procurou asilo na escrita, Jesué Pinharanda Gomes diz, a propósito da Ordem dos Frades Menores, vulgo Franciscanos: que depois de se terem instalado em Portugal em 1217, em Alenquer e Guimarães e dois anos depois em Lisboa e Coimbra, «os frades apostados na missionação em Marrocos, onde foram martirizados (1220) este martírio prestigiando a Ordem».
Ficou-me esta expressão «este martírio prestigiando a Ordem».
Se atentarmos bens, quer nas pessoas colectivas, quer nas individuais, a ânsia de martírio é amiúde uma forma mascarada do desejo de apreço, uma forma de realização da honra. Assim como há quem não suporte ser amado há quem não conviva consigo sem sentir-se detestado.
Nasce daí aquela forma inamistosa de ser, em solilóquio de catacumba ou em vociferante guerrear.
O dia da imolação é o dia da exaltação!

10.4.10

A doçura do dever

«Há homens que parecem sempre prontos a comandar uma frota e a cortar uma perna; há outros que só fazem quando a obrigação das situações se converte num prazer». A frase é de Agustina Bessa-Luís. Resume a doçura agónica dos deveres. O herói é quantas as vezes um autómato a inexorabilidade a sua única fonte de contentamento.

6.4.10

A lei corrupta

Tenho sempre medo de comentar notícias de jonais. É que temos muita imprensa do «diz-se». E depois fica a responsabiliadde do comentário e a irresponsabilidade do que se comentou.
A ser verdade o que diz-se por aí o PS quer obrigar os juízes e procuradores a declararem rendimentos antes e depois do início de funções. Alega que isso é para combater a corrupção. Ora é patente que uma tal medida não visa combater corrupção alguma, sim rebaixar os que combatem a corrupção.
É uma medida de vingança política não de legitimidade jurídica.
Não que os juízes em democracia estejam acima de suspeita.Ninguém está.
A questão é outra. É que se for assim vamos a isto. Que todos declarem: políticos e não políticos, tudo quanto mexe em dinheiro ou em poder, na vida pública ou privada, militares, empresários, padres e infiéis, meninas da vida para o caso de traficarem influência no segredo das alcovas, garotos de programa para o caso de amaciarem os canais do poder.
Sejamos claros: a razão que levou o Estado a legislar no sentido de obrigar os políticos a entregarem declarações de riqueza foi a evidência que se tornava grave suspeita a de haver uns cidadãos que chegavam à vida pública com uma mão atrás e outra à frente e em breve trecho estavam milionários.
Foi uma lei para afastar uma suspeita que estava criada, uma lei defensiva que os políticos aprovaram para si próprios para que pelo cruzamento de dois papéis se lhes passasse carta de seriedade.
Ora que suspeitas há quanto a juízes que justifiquem esta lei? Digam-me quantos foram condenados, quantos acusados, quantos investigados? Nenhumas que eu saiba.
Vergonha pois e falta de pudor. A lei contra a corrupção dos magistrados é a lei de uma democracia corrupta. Nada como os viciosos para não acreditarem na virtude.

Uma notícia de...

Houve tempos em que era luxo. Davam champanhe. Brindes. Saquinhos e maletas com etiquetas da companhias. Uma pessoa que viajava de avião sentia-se importante. Mesmo na turística. As hospedeiras eram lindas, os comandantes aprumados.
Agora uma pessoa é descalçada antes de entrar, a comida é uma lata, os joelhos encostados à boca, um halo a gado, lúgubre, a desregulação aérea a meter medo.
A notícia entretanto chegou: «A Ryanair está a trabalhar com a Boeing, para equipar a sua frota de aviões 737-800 com casas de banho activadas com uma moeda de €1 / £1».
Claro que tudo na vida tem uma razão: «Daniel Carvalho, director de comunicação da Ryanair, refere ao LowCostPortugal que a medida visa desencorajar o uso de casa de banho de forma a adicionar uma a duas filas, cerca de seis a 12 lugares. Para tal, tem de se passar a utilizar menos o WC».
A regra é esta: fezes por passageiros. Um admirável mundo novo vem aí. Que ... de mundo!




O País e a Nação

Portugal é um País que sai caro à Nação. A frase, genial, é do Ruben A. no seu magnífico romance Kaos. O escritor morreu entristecido com muita coisa. Perseguido pelo regime anterior não se conseguiu identificar com o que saíu do 25 de Abril. Teve de se vexar a pedir e humilhar-se ao ver negar.
A sua escrita é magnífica de riso e extraordinária de dor. Fizeram-no efémero Director-Geral por equívoco, ele fundou o jornal «Expresso» por brincadeira.
A diferença entre País e Nação há muitos à esquerda que não a conhecem, julgando que só há classes sociais. Mas também há disso à direita, julgando os místicos da ordem que há uma Pátria acima da Nação e convindo aos pragmáticos dos negócios que venham quaisquer apátridas trabalhar para o País, seja qual for a sua Nação.
Depois há os patriotas quando joga a selecção nacional de futebol e os nacionalistas quando o Santander compra o Totta. Ah! E o Zé-Macho, personagem crucial do romance que se pergunta ante a ideia da luta de classes se vão à luta a terceira e a quarta classes da primária. Coisas que já não há, claro. Tudo cai, a Pátria, a Nação, o País, por esta ordem. Um dia estamos todos na Eurolândia, excepto os que fugiram para a mata porque a luta continua.

3.4.10

Os dias miseráveis

Ligue-se a televisão e veja-se a carga feroz de violência que é despejada no écran. Saia-se à rua e sinta-se o descontrolo nervoso que anda por aí à solta em cada incidente de trânsito. Leiam-se jornais e veja-se como são cometidos hoje os crimes, a reiteração, a brutalidade. Seja-se professor e sinta-se o medo de dar aulas, receio de sair da escola sozinho. Tenha-se idade avançada ou menor idade e viva-se a dúvida sobre se será seguro fazer-se à rua, sentar-se num jardim.
Tudo é o mesmo. Miúdos matam virtualmente em jogos em que o assassino é herói, impune, imortal. Um dia pega-se numa faca, e a morte deixou de custar. É só um frio na espinha num primeiro instante, depois a alegria infinita de ter acertado.
Estamos a ser uma sociedade de bandidos. Os que o permitem julgam-se decentes na sua cobardia. Depois somos impiedosos intervaladamente. A tolerância para com tudo traduz-se na  impiedade para com alguns. É esse o desespero dos que ainda restam. A sua decência é uma dor de alma e um espectáculo triste.
A crucificação é uma forma de gozar a longa agonia, prolongando a dor e a volúpia de quem a causa.

2.4.10

A misericórdia e a esperança

Censora, acusadora, justiceira, guardiã da inocência, a Igreja que queimou vivos quantos prevaricaram, que excomungou os que divorciaran e anatemizou os que ousaram duvidar, a mesma Igreja cai hoje de joelhos aos pés da cruz.
Pede perdão mais do que a Deus, pede misericórdia à memória dos que condenou. A pompa abate-se, inútil, o báculo abate-se, bengala de trôpego banido.
Eu leio: «Por isso os apóstolos trancaram as portas com medo. Nada estava concluído apesar de Jesus dizer que “tudo está consumado”. Apenas estranhos como o Centurião e Nicode-mos trabalhavam na sombra a convicção de que ali não estava o fim. Um dos ladrões também, mas tinha partido. Um silêncio descrente se apoderou de todos, inclusive dos que desconfiavam dos guardas do túmulo que poderiam deixar escapar, por roubo, o corpo desse Nazareno que veio roubar a tranquilidade à cidade ocupada onde pouco acontecia. Outra vez fora adiada a vinda do Messias». É o editorial do Padre António Rego, da Agência Ecclesia, a fonte de notícias da Igreja Católica em Portugal.
Infinita seja a misericórdia e a esperança. Se não houver Deus, é o reino de Satanás em plena glória e esplendor.

27.3.10

A funesta ilusão

Indecisos ante o presente, receosos face ao futuro, incertos quanto ao próprio passado, eis os portugueses. Há homens que em novos julgaram defender a Pátria em África e com orgulho, e acreditam hoje, a ficarem velhos, que afinal perpetuavam apenas o colonialismo e têm disso vergonha; há pais que não sabem como irão subsistir os seus filhos com tantos cursos e tanto desemprego, há tantos que se perguntam para que vale a pena qualquer sacrifício num mundo em que se dá crédito bancário à inconsciência e em que se elegem inconscientes cobradores de ilusões.
Descrentes nos dirigentes, desconfiados uns dos outros, os portugueses não acreditam nos seus cidadãos, defendem-se já do género humano. Ninguém é totalmente bom, poucos inocentes, nenhum ingénuo, todos estão manchados pela desonra, nem que seja a da inércia e da indiferença.
Chegou agora, porém, o último anel desses círculos de sombras, labiríntico; o medo dos elementos, da Natureza, da coexistência do nosso pequeno Universo, a chegada do Caos.
Esta tarde a terra tremeu no Alentejo. Nada de especial, afinal. Outro dia tremeu no Algarve. Também nada de especial também. Há mais de duzentos anos que a falha sísmica em cima da qual somos País não nos arrasa. Nada especial, enfim.
Um dia destes, talvez de noite, um tossicar alérgico das entranhas da Terra e serão uns milhares de mortos, um bocejo na estatística da existência. Os que sobrevirerem continuarão,a na madrugada dos escombros, com a mesma indiferença e a mesma mesquinhez, o desabamento e a depredação notícias e entretenimento de todos os outros.
A esperança de que não surja a morte que renova a vida é uma das funestas ilusões dos medíocres. Neles a máxima grandeza é sobreviverem.

24.3.10

O esgar afivelado

O País está parado. Tirando o que vai suceder na comissão parlamentar de inquérito e algum sobressalto de mais uma nota baixa das agências de rating, nada é notícia que valha a pena saber. O Governo perdeu a iniciativa política, o primeiro-ministro está sitiado. Como um autómato que tenha sobejado num centro comercial cujo tecto abateu, José Sócrates repete o discurso da confiança até à exaustão. Já ninguém o ouve e já nem ele espera ser ouvido. O poder tem a sua mecânica, o ritual do facies, da pose, da oportunidade. Quando falha o fundo fica a forma. Sócrates é um corredor de forma, perseguindo uma meta inatingível. Antes dele, Pedro Santana Lopes corria para salvar a vida, sabendo o cadafalso que o esperava. Para o actual habitante da Rua da Imprensa à Estrela é a longa agonia do corredor da morte. Nem comutação nem execução. Apenas uma dolorosa espera, o esgar afivelado de um optimismo feito subsistência. Faz dó.

23.3.10

A moral utilitária

Escrevi aqui um post sobre um fulano que, sendo hoje um áspero e impiedoso crítico da moralidade de todos nós, tem um rabo de palha no seu início de carreira por causa do qual devia ter a língua menos afiada e sobretudo mais vergonha na cara.
Se quisesse tinha posto o nome, atirando a pessoa em causa para o pelourinho da infâmia. Só que não está em causa aquela pessoa mas sim aquele tipo de pessoas. Por isso ficamos assim.
Lamentavelmente há muitos a quem o modelo se aplica pelo que corro o risco da chamada generalização.
O curioso da história não é esse, o de me invectivaram a revelar de quem se trata. Curioso foi perguntar-me um amigo meu se não era um tal fulano e, tendo eu dito que não era, se ter logo desinteressado da questão e da conversa. É que fosse aquele em quem ele pensava dava muito jeito, pois «ele tem andado a dizer por aí umas coisas e já agora...».
Dizem dos chineses que têm uma moral utilitária: o bem e o mal dependem de quem é aquele de quem estamos falando. Aqui é o caso: ainda se fosse este...agora assim que se lixem os que ainda se preocupam.

20.3.10

O quisto repelente

Actualmente tem coluna cativa num jornal. de quando em vez aparece na TV. Sempre como Catão, lutador pela moralidade, perseguidor da incoerência, polícia dos bons costumes em matéria política. Vocifera, enxovalha, ridiculariza.
Pouquíssimos sabem que purga um quisto repelente, uma sífilis de juventude, purulenta, pestífera. Queria então ser assistente universitário. A vigilante PIDE não deixou. O rapaz não se conformou. Era uma carreira que lhe vedavam. Meteu requerimento. Na António Maria Cardoso, onde foi pelo seu pé, ajoelhou, servil. Jurou fidelidade à Constituição de 1933, abjurou, justificou com inconsciências o que eram ousadias radicais. Denunciou colegas. A polícia tinha organizado uns autos que, para macaquearem os dos tribunais, ostentavam na capa o título «autos de revisão». O jovem candidato indicou testemunhas. Só uma se dignou, respondendo por escrito, por ser juiz conselheiro. Fez um cínico depoimento de ouvir dizer: que lhe diziam que o rapaz hoje era outro, que só queria livros e boas maneiras, conformismo, obediência. O outro, director dos serviços de Censura à imprensa, nem lá pôs os pés. No final os «pides» opinaram que sim, que o colaborador rapaz já oferecia garantias de cooperar «na realização dos fins superiores do Estado».
Seguiu-se uma biografia. Uma típica biografia. Hoje tem o fígado carcomido, no que a maldade ajuda. É desta massa que eles se fazem. Produto da polícia é ele próprio um «chui».
Se adivinharem quem é não tem importância. Ele há tantos....

Vingança pluvial

Uma pessoa abre a janela e pergunta-se o que é que ainda haverá mais para chover. Parece que a Natureza quer que finalmente se abata, desmoronando-se, toda a velharia imobiliária degradada e perigosa, fruto de rendas imorais pagas por gente que nem toda pode tão pouco, mostrar que criminoso foi, pela ganância dos construtores, edificar-se em cima das linhas de água, vidas e haveres em risco de serem levados pela torrente. Carros de bombeiros num vai-vém, o sistema de saneamento por vezes colapsa, devolvendo o fétido a quem ele pertence. Faz-se justiça ao menos, excrementária. Pena é que seja sobre os danados da terra, as vítimas do costume.

19.3.10

A revolta surda

Há um sentimento de revolta surda do País, mas há, mais sentido, mais dorido, e talvez mais calado, um sentimento de profundo desânimo. Excepto os que se movem na área dos partidos de governo, que ainda se animam e entusiasmam com velhacarias e outras canalhices do assalto ao poder, a verdade é uma profunda indiferença, uma apática ausência de esperança. O não querer saber passou a ser a filosofia nacional por excelência. Tirando as misérias quotidianas próprias e as oportunidades de golo no futebol, ninguém quer saber de mais nada. Militantes de causas, catequistas de ideias, são cada vez menos, ali os indefectíveis comunistas, além uns exasperados bloquistas, mais adiante uns mansos católicos. No mais misturam-se pregadores de seitas com vendedores ao domicílio. Não há mais.
Há é, para além disso, pessoas que se entusiasmam por crónicas tremendistas à Vasco Pulido Valente ou à António Barreto. Entusiasmavam-se, quero eu dizer. Porque hoje a maioria desses leitores acham que elas não levam a parte alguma e lêem-nas enfastiados para se desenfastiarem.
O livro de Henrique Medina Carreira esgota-se em reedições, mas os problemas que ele ali denuncia, reditam-se ainda mais.
Operações como Vamos Limpar Portugal ainda poderiam abrir via para uma grande limpeza. Mas já nem isso ou a ironia disso acontece. Escândalos escancaram-se. Ninguém é poupado. Primeiro foi a política, hoje a Justiça e também a imprensa que os denuncia. Quem julga é julgado, quem denuncia é denunciado.
Houve tempos em que a alma portuguesa era sebastianista porque esperava um dia de nevoeiro. Hoje não pára de chover.

15.3.10

Quem se mete com o PSD, leva!

Eu não acompanhei o Congresso do PSD mas sei que adopataram a doutrina Jorge Coelho! Lembram-se quando aquele dirigente socialista lançou a célebre frase «quem se mete com o PS, leva!». Pois agora com os laranjas é o mesmo, com uma variante: «quem se meter com o PSD sendo social-democrata, leva!». Em período de eleições, claro.
A proposta veio do inenarrável Dr. Santana Lopes que só com essa atirou o partido para o charco quando parecia levantar-se. Queria calar a boca a alguns dos seus, abriu as goelas aos socialistas. Vitalino Canas veio à televisão acusar seraficamente a ideia de estalinista, disfarçando que é um júbilo poderem safar Sócrates do labéu de autoritário e manipulador.
Na Soeiro Pereira Gomes esta noite por um instante devem ter pensado que aquilo do estalinismo era com eles. Desta vez não é. Aliás os comunistas nem precisam votar moções parecidas. Lá quem critica o partido nunca foi do partido. Está resolvido o problema no ovo.

Um País sem ontem

Os números oficias do Gabinete de Segurança do Ministério da Educação dizem que «registaram-se, no ano lectivo 2004/2005, mais de 1 200 casos de violência escolar nos estabelecimentos de ensino portugueses. Estes obrigaram um total de 191 alunos, professores e funcionários a receber tratamento hospitalar devido a agressões».
Isto aconteceu em 2005! Escrevi sobre em 10 de Setembro de 2006, quando os números foram divulgados. Está aqui.
Sabem o que aconteceu não sabem? Nada! Por isso há professores que se suicidam, alunos que se atiram ao rio.
A única coisa é que em cada dia os portugueses estão mais esquecidos. É um País sem ontem, caminho aberto para ser uma Nação sem amanhã.

13.3.10

Vendedores de prazos

Não é privativo de proprietários ou de patrões, e nisso enganam-se os marxistas, porque há operários burgueses. Não é privativo de quem tem muito, pois há explorados miseráveis de mentalidade aburguesada.
São todos aqueles para quem a pecúnia e a vida material são a razão da vida, os infectados pela ambição do mais, doentes pelo virus da inveja, os aritméticos da acumulação, os que só conhecem o quantitativo, a comparação, os números. Usurários da própria vida, alugando-a a qualquer vida para que frutique o capital do fácil viver, parasitariamente se necessário.
O juro é o preço do tempo. Por isso a burguesia tem uma regra de ouro: aguentar, a qualquer custo, mesmo sob o escárnio, o ódio, o vitupério moral. A longo prazo só a falência das suas presas lhe retira o rendimento. Na vida política é assim também. Todos os negócios são uma forma de comprar tempo, uma forma de saber durar. O vendedor é sempre o mesmo, mudam sim os intermediários.

9.3.10

Desemprego, oferece-se

Estava à porta de uma loja de artigos para casa. Meteu conversa com uma senhora com quem simpatizou ou ela com ele. Quando ouvi o conversado já se tinham despedido com amabilidades mútuas, ela de cadeira de rodas. «Tem o quarto ano de arquitectura mas teve de esconder as habilitações para arranjar este trabalho». Voltámos à nave central do centro comercial. Saraivadas de gente nova, alguma esperta, activa, promissora, de serviço a lojas de nenhuma venda em troca de raquíticos ordenados. Muitos com cursos superiores. Mesmo assim eram bonitos, de uma beleza ofensiva num mundo feio, alguns sorriam.
A instrução hoje é uma burla: oferecem-se desempregos a quem pagar o ensino. Para muitos casos exigem-se licenciaturas. Terminadas estas, não há trabalho. Tira-se então um mestrado, ou dois, mesmo um doutoramento. De vez em quando surge a magnífica oportunidade de um «call centre», que é uma forma de vender o que nunca se terá.

Portugal no prego

Até aqui os portugueses pensavam que o perímetro das coisas que não prestavam terminava no Governo. Claro que o português achava que o seu país era «uma merda». Mas isso era só uma ideia geral porque em outros momentos o mesmo português achava que o seu país era «o máximo».
Agora o aludido português começa a surpreender-se em relação ao dito País que é Portugal. Lê na imprensa financeira que as agências de «rating» consideram que Portugal é perigoso e que por isso o dinheiro emprestado deve supor mais garantias o que significa sair mais caro.
Há tempos o Dr. Medina Carreira demonstrou com base em números e quadros - feitos que me lembre alguns pelo Dr. António Mendonça que é membro deste subsistente Governo - que estamos a viver fiado, em rigor a comer fiado.
Por ser assim os portugueses, que são a soma lógica de todos os portugueses, mesmo dos que não querem saber e aqueles que acham sempre que não é bem assim, começam a ter medo.
Deitam-se a pensar que um dia vem aí um sismo, acordam para pensarem que um dia vem a banca-rota.
Autómato, José Sócrates debita a sua cantata. À falta de melhor argumento insultam-se os que não elogiam.
Encalacrado, o ministro das Finanças sonha empenhar já os dedos, idos os anéis.

6.3.10

José Sócrates: o corpo e a sombra

Do ponto de vista humano o estertor de José Sócrates é um caso patético. Imagina-se quanto aquilo a que tem estado sujeito o estará a desequilibrar, a estraçalhar a sua imagem aos seus próprios olhos.
Não é por causa da política que segue, dos maus resultados das medidas do seu Governo, da incapacidade dos seus ministros. É por causa dele.
São já defeitos de carácter aquilo de que o acusam, vícios de personalidade que lhe atribuem, é a moral, a honestidade, a honradez, aquilo que vê posto em causa. O professor Marcelo Rebelo de Sousa ter-lhe chamado «mentirosos» passa por ser o menor de todos os casos.
De todos os primeiros-ministros de Portugal nunca outro antes se viu acossado a tal ponto no âmago da sua pessoa.
«Tenham dó, tenham piedade», implorou ele em Maputo aos jornalistas que o cercavam. Dir-se-ia que era a propósito de Manuela Moura Guedes que suplicava. Há gritos, porém, que são apelos da alma.
Este homem está perdido. Vive sob chantagem, a pior de todas, o seu corpo é a própria sombra.
José Sócrates ainda é o primeiro-ministro mas já o tratam como o último dos cidadãos. Tempos houve em que se dizia um «animal feroz». Não supunha o cruel destino: o circo.

Feras à solta

Comprem o Correio da Manhã. Comprem mesmo aqueles que têm vergonha porque, julgando-se «intelectuais», acham que um «intelectual» só pode ler o Público. Comprem e leiam as primeiras páginas. Vejam o estendal de crimes violentos que ali se relatam, a ferocidade que eles indiciam, a insegurança, o perigo.
Em meia-dúzia de anos Portugal tornou-se de «país de brandos costumes» numa Nação de feras à solta.
Dizem por aí que é a polícia que não vigia, os juízes que não prendem, as cadeias que não emendam. Dizem que são os estrangeiros e os negros. Dizem muitas coisas. Mas o que não dizem é a verdade. A verdade é que há ódio a generalizar-se nos corações, há animalidade onde devia haver pessoas. Cada história que se lê é mais sinistra do que a anterior.
Dirão também que não é de agora. Lembro que aqui há uns anos, ao visitar um estabelecimento prisional, me perguntaram se eu quereria defender um certo violador que estava sem advogado. Respondi que não. Pensando que a recusa se deveria à natureza do crime, perguntaram então se eu não quereria defender antes um esquartejador.
Dirão isso do antes e do agora, mas não dirão que agora a ousadia é mais descarada, a impunidade mais ofensiva.
Leiam pois o Correio da Manhã e vejam como as estatísticas mentem. Não é uma questão de muitos ou de menos, é uma questão da bestialização em que se está a tornar Portugal.

3.3.10

José Sócrates: um dia o tecto cai-lhe em cima!

Lê-se no jornal: «A zona das consultas externas do novo hospital de Cascais, inaugurado há uma semana, foi hoje evacuada devido à queda de uma parte do tecto. Uma fonte desta unidade de saúde assumiu à Lusa ter existido um problema técnico».
Sim, um problema técnico, diz a notícia. Mas é mentira. Do que se trata é de um problema político, o da magnitude das promessas, das esperanças com que se deu a inauguração, as pompas governamentais.
Uma semana depois da inauguração, a zona de consultas externas era evacuada por causa de uma inundação. Agora cai o tecto.
Na altura da abertura deste hospital o primeiro-ministro disse descaradamente que estava em curso o «maior investimento de sempre do Estado na qualidade da rede hospitalar», considerando que esta é «a melhor forma de responder à crise».
Mais: no acto da inauguração do novo Hospital de Cascais, José Sócrates defendeu que a «credibilidade política» se conquista «com acção, empenhamento e resultados». Claro. Estes resultados! O tecto a cair. Eis a credibilidade!



28.2.10

A Justiça na encruzilhada

Há quem diga que a Justiça está numa encruzilhada. O problema não é novo. A questão essencial, a filosófica, está aqui, exactamente no momento final, haja paciência de ver tudo. É a dúvida existencial, o e agora?.

It's medal time!

Uma amiga minha perguntava-se outro dia porque é que isto aqui aconteceu? Tentei muitas explicações, mas esqueci-me desta aqui.

Um Deus maldoso

Aqui há uns meses era a gripe que ia exterminar da humanidade uma parte substancial da população, a dos mais fracos, os vulneráveis, os sujeitos ao chamado factor de risco. Sobretudo no Inverno diziam. Lembro-me de ter ido a Inglaterra e ter ficado espantado por não andar tudo de mascarilha como os cirurgiões nos blocos operatórios, à excepção dos japoneses que, desde que foram contaminados pela bomba atómica ficaram alérgicos a toda a poluição ocidental, excepto o consumismo.
Agora ninguém fala na gripe. O pavor é dos sismos, a paranóia dos terramotos, o receio dos tsunamis.
Lembro-me que o ano passado os estudos científicos alertavam para a desertificação da Europa do Sul. O Alentejo seria em pouco tempo uma continuação do Sahara, incluindo os camelos. Hoje chove lá como aqui que até os cães a bebem de pé.
A sensação é que os pavores sociais são induzidos pelos media, a curto prazo ninguém acredita em nada. Pedro e o Lobo é uma história para crianças que os adultos haverão de aprender.
Um dos últimos territórios de crença da Humanidade, a ciência, degrada-se. Para o senso comum os cientistas são tão pantomineiros como os políticos.
Da histeria gripal diz-se que serviu para vender vacinas.
Um dia destes Lisboa acorda esfacelada em ruínas, sem vivos que cheguem para enterrarem os mortos. Nesse dia a ciência terá uma teoria. Explicará como é que não foi possível prever. Um Deus maldoso rir-se-á de todos nós.

27.2.10

Um vento asssassino

Não são as raivas humanas, os escândalos da política, a babugem anã dos salões e sua maledicência.
É a Natureza, fonte e fruto de tudo quanto vive, a desabar, em sismos e enxurradas, violenta, transformadora, como a querer aniquilar o que está para o tornar no que poderá ser.
Há um vento assassino a formar-se nos ares, exala-se um inesperado calor onde ontem se enregelava, as entranhas da terra a prometerem fogo depois de gelo.
Visto à escala cósmica, é apenas um tossicar breve do mundo tal como o conhecemos. No meio disto, povoa-nos a fauna humana atrevida, e entre ela campeia a ousadia dos rapinantes, esfacela-se o patético dos libidinosos, os primeiros a esconderem pelo gamanço os segundos pelo exibicionismo a sua incapacidade de chegarem lá por outros meios, e tudo dorme, indiferente, narcotizados pelo medo, pela preguiça, embriagados pelo desmazelo.
Pela rua do putedo, chulos rapinam o que podem. No meio do alvoroço, a farda encharcada, um polícia faz de conta que este aqui, filado pelos gargomilos, são todos os outros.
Há um requiem da almas penadas, místicos sem êxtase, em busca de uma fé, à mercê da caridade.

26.2.10

O estado do Estado

É a natureza do Estado burguês, a questão. Diria melhor, é a natureza do Estado, a questão. Lugar autoritário dos arranjos de interesses, não é palco de imoralidade ocasional, ele traduz a própria imoralidade da luta intestina pela posse dos bens, pela titularidade das relações de domínio, pelo poder.
Espaço privado da mercantilização da vida, tudo nele é jogo de predação, de transacção, de compensação.
Quando no Governo se nomeiam amigos e se compram inimigos, a lógica argentária é a mesma.
Na bolsa de mercadorias em que se transformou a vida política há uma só regra que é a de manter de pé a livre e sã concorrência, distribuindo o saque por todos na proporção da força de cada um, para que todos se calem quanto ao essencial. A fome é má conselheira e o primeiro insatisfeito é  o primeiro delator.
O Estado nunca foi, salvo nos compêndios de alguns abstraccionistas, uma realidade em si. Ele é o instrumento de uma cristalização de interesses, de classe ou de bando. Os partidos são a forma civilizada de organizar a animalidade das comedorias. As imaterialidades não venais essas que cuide delas a sociedade civil.
É por isso que a educação pública é péssima e a saúde pública um vómito: é que elas são para os que estão fora do jogo do poder, os desapossados.
É por isso que há quem, estando no Estado, saque vantagens e file comissões. Não é por falta de ética. É porque o Estado é deles, para viverem à conta dele e através dele que tudo é asim, negócio particular num Estado privatizado. 
Claro que de vez em quando as autoridades perseguem a corrupção descarada e a prevaricação excessiva. Nessa altura o negócio torna-se mais caro, o «spread» do acesso ao Estado mais alto.
Por altura das eleições, investe-se no futuro comprando propaganda. Os que não estão no Estado não conseguem pôr o Estado a pagá-la. Os outros acham isso natural. Tão natural como a sua sede de mando e de oportunidade.
O mais, é literatura e espanto.

Zoologia jurídica

O Direito tem esta coisa notável é ser uma invenção humana. Alguns iludem-se a procurar-lhe uma razoabilidade para além do voluntarismo autoritário, outros uma antropologia que o retire como grandeza da estante trivial das banais coisas sociológicas. Coitados deles.
Vem isto a propósito desta notícia: «Dois jovens de Matsinho, Gondola, centro de Moçambique, foram apanhados pela polícia a manter relações sexuais com uma cabra e agora os donos do animal exigem indemnização e casamento. O caso está em tribunal».
Mas vem sobretudo ainda mais a propósito desta segunda parte da mesma notícia: «"Recebi o caso e já remeti ao tribunal. Mas os jovens serão ouvidos em juízo por furto simples qualificado e não necessariamente por prática sexual, pois a nossa Constituição não acomoda este tipo de acto", disse à Agência Lusa Leonides Mapasse. Fora do processo-crime, acrescentou o magistrado, o ofendido (proprietário da cabra) pode intentar processo civil e moral contra os dois jovens pela prática sexual com a cabra».
Ora ante esta inconstitucionalidade por omissão, segundo a qual a Lei Fundamental de Moçambique não protege as cabras de serem fornicadas, que tolo sou quando me ria, há algum tempo, porque um maduro procurador da República se lembrou de acusar alguém de furto porque as suas ovelhas pastavam no prado de um vizinho. «Crime que se consumava por regurgitação», casquinou o advogado que por causa do chiste levou com uma participação disciplinar.
Ora Portugal tem muitos defeitos. Mas defende melhor as suas ovelhas penalmente do que Moçambique as suas cabras constitucionalmente.

24.2.10

O paradoxo do mentiroso

O primeiro-ministro é acusado mais do que mentir, de ser um mentiroso. O Procurador-Geral da República exige que os jornais reponham a verdade, os jornais dizem que os jornais mentem. A Casa Civil da Presidência da República vem a público dizer que as afirmações de um jornalista são de há muito falsas. Um pouco abaixo leio que até os adeptos do Futebol Clube do Porto exigem a reposição da verdade desportiva.
Em Portugal já ninguém escapa ao labéu da aldrabice, à suspeita da pantomina, à fama da patranha. Até António Benedito Afonso de Eça de Queiroz esclarecia outro dia dúvidas sobre a orientação sexual do seu bisavô.
Teatro de sombras e de espelhos, entre robertos e polichinelos, não se sabe já o que é falsete nem onde estão os ventríloquos. Mercado de ilusões, passa o pechibeque por ouro de lei, o crédito por saldo, o mini-prato por refeição decente.O Orçamento mente aos contribuintes, os contribuintes enganam o Orçamento. No meio, fica a política como arte do embuste.
Caminhamos para o ponto em que quem disser que está mentindo é o que diz a verdade. É o paradoxo da tanga.

22.2.10

Cansados de ganhar

Tremendo, pessimista, triste, amante do faduncho, casado com o Destino, o português mascara o complexo de inferioridade com a arrogância de se julgar o maior. Olhando-se ao espelho ri-se do outro.
Este mesmo português perdedor com argumento e derrotado com razão, certo de que nem Deus lhe vale porque há horas do Diabo, deve ter-se revisto nas palavras do treinador do Benfica segundo o qual no clube encarnado estavam «cansados de ganhar muitas vezes».
Fiquei, porém, com uma grave dúvida. Segundo o Público, a frase foi «estamos cansados mas é de ganhar muitas vezes»; para o Diário de Notícias o dito foi «cansados só se for de ganhar muitas vezes».
Há, e os linguistas que me socorram, uma substancial diferença nas duas formas de dizer, mesmo estilística, porque o «mas é», qual salto à vara verbal, projecta o corpo além da sombra que o persegue, é rebarbativo ao retorquir; já o «só se for» traz um sabor reticente, justificativo, como quem se desculpa pelo acto e pede perdão pelo facto.
«Igual a si próprio» escreve o Record, eis Jorge Jesus, um dos muitos portugueses que estão cansados de ganhar.
Entretanto José Mourinho levou três jogos de suspensão. «Só se for» pelos protestos teatrais, pensarão uns. «Mas é» mesmo por causa disso pensou melhor ainda o árbitro Gianpaolo Tose. Também ele estará cansado de ganhar. Agora faz gestos, arrogantes, carregado de complexos, inferiores.

21.2.10

Fúrias

Quando li os vários volumes da biografia de António de Oliveira Salazar, escrita pelo falecido Embaixador Franco Nogueira, impressionou-me constatar os períodos de depressão a que o chefe do Governo era dado, com estadas de reclusão na sua modesta casa em Santa Comba Dão, quase incomunicável, e deixando os seus poucos colaboradores angustiados quanto ao que fazer.
Agora há o risco de ser a histeria, a doença que começou por ser uma forma de furor uterino. A classe política pelos vistos sofre de acessos de cólera que se não indiciam isso deixam dúvidas suficientes. Eram conhecidas as fúrias de Mário Soares, são conhecidas as de José Sócrates. Os jornais à falta das primeiras noticiam as de Gordon Brown. «Os alegados ataques de fúria e gestos de intimidação contra colaboradores atribuídos a Gordon Brown obrigaram o primeiro-ministro britânico a defender-se na televisão, garantindo que "nunca" bateu em ninguém», diz o Público, aqui. Dizem os psicanalistas que a histeria é uma feminilidade fálica. As vítimas das fúrias, compreende-se, podem não gostar.