27.5.12

A frutificação dos 30 dinheiros

Leio na imprensa que foi preso o mordomo do Papa, alcunhado de O Corvo. A Cúria hesita em relaxá-lo ao "braço secular", isto é, entregá-lo à Justiça italiana. Estava na posse de documentos secretos, segundo consulto na fonte directa, o Serviço de Notícias da Santa Sé, aqui.
E li também que foi irradiado, sem que se saiba ainda porquê, o presidente do Banco do Vaticano, Gotti Tedeschi. A segunda notícia leio-a na agência de notícias da Igreja Católica, a Ecclesia, aqui. A qual esclarece que não se trata de um banco em sentido técnico, mas do Instituto para as Obras Religiosas
Trata-se, no que ao IOR respeita de um discreto lugar instalado na torre Nicolò V na Cidade Papal, entidade financeira do tipo das encarregadas da gestão de fortunas.
Sobre a pessoa de Tedeschi, membro do Opus Dei, e as suas ligações, cito da versão italiana do seguramente bem informado Wall Street Journal o artigo publicado quando da sua nomeação:

«Gotti Tedeschi, 54 anni, ex McKinsey, e' il rappresentante in Italia del Banco Santander Central Hispano (di proprieta' della cattolicissima famiglia spagnola Botin), ex fondatore della milanese Akros, banca di investimenti nata per fare concorrenza alla "laica" Mediobanca. Co-fondatore di Akros fu anche Gian Mario Roveraro, assassinato due anni fa in un delitto rimasto misterioso, pare legato a un ricatto finanziario. Gotti Tedeschi e' in grande sintonia con il governo Berlusconi, soprattutto grazie al ministro dell'Economia Giulio Tremonti. E' editorialista del quotidiano della Santa Sede l'"Osservatore Romano", insegna etica della finanza all'Università Cattolica di Milano. Dal 2004 al 2007 e' stato consigliere di amministrazione indipendente, nominato dal ministro dell'Economia, della Cassa Depositi e Prestiti, di cui e' di nuovo nel Cda dal 2009. Insieme a Rino Camilleri nel 2004 ha scritto il libro "Denaro e Paradiso: L'economia globale e il mondo cattolico".» [texto integral da notícia aqui].

A ligação entre uma notícia e outra, a da detenção do mordomo e a resignação do banqueiro, vejo-a, porém, aqui, na CNN: o agora detido poderia ter sido uma das fontes de que se serviu um jornalista italiano, Gianluigi Nuzzi, para ter escrito um livro chamado Sua Santità [aqui], periodista que já escrevera um livro chamado Vaticano, SA, o qual está traduzido em português, como se vê aqui. Em ambos os casos dúvidas e suspeitas sobre os negócios financeiros da Santa Sé, intriga política, escândalos.
O autor, ao falar do livro, aqui, dava já conta da fonte segura das suas informações.
Em causa, em suma, a faceta financeira da Igreja de Pedro, a gestão do que lhe permite o poder, facilita o luxo.
Hoje é domingo. Para os católicos praticantes, é dia santo, do seu encontro semanal com Deus, através da sua Igreja.
Baptizado, Crismado, educado num Colégio de missionários, tenho para com o Indizível uma relação íntima, de angústia feita de dúvidas e esperanças, de desencontros mútuos. A ser sombra, é, porém, a de uma criatura simples, pobre como Job, disposto a dar a sua vida pela salvação dos outros, como Cristo, pura mística sem figuração, como o Espírito Santo. A ser esperança, não tendo onde cair morto, é, no entanto, a minha certeza da eterna vida. A ser força, é, enfim, a do filho de um carpinteiro que empunhou, irado, o azorrague para varrer à vergastada os vendilhões do templo.
Creio no que para ser não precisa de ter. Se o máximo esplendor desse Ser é o máximo despojamento do que se tem, que eu siga as pegadas do monge, refugie-me no covil do eremita, porque abomino o ouro opulento misturado com religião, a venalidade a babujar a fé, a frutificação final dos trinta dinheiros.

26.5.12

Os devoristas

A crise de valores morais num País atinge-se quando ante a imoralidade já ninguém reage. A crise dos valores num País chega quando já ninguém está seguro de quem diz a verdade. Senti isto esta manhã ao ler, atrasado já, a notícia sobre o custo das refeições que se pratica no Parlamento. Veio revelada num jornal, aqui, mas a fonte terá sido o blog Má Despesa Pública, que sucessivamente publicou notícias sobre isso aqui e aqui e também aqui. O blog Porta da Loja, adita aqui, mais elementos.
Não vou transcrever o que dizem essas revelações. Peço apenas que leiam. Eu sei que temos todos pouco tempo, mas perdemos tanto tempo em coisas sem interesse. Ademais o dia de hoje está murcho. É uma visita guiada ao nojo, previno. Já agora, confira aqui, no site da Assembleia da República.
Cada um dos que lerem sabe o estado em que está o País, o estado de carência económica, a fome. Os deputados também sabem. Sabem que podem pagar, que devem pagar refeições que não sejam àquele escandaloso preço. Sabem que aquelas ementas requintadas são de restaurantes "gourmet", e que as refeições que no Parlamento se sirvam a preço bonificado devem ser dignas mas frugais, por serem refeições em local de trabalho. Sabem que a diferença entre o luxo que usufruem e o preço que pagam é suportado pelos contribuintes que somos todos nós outros. Sabem que comparando com o que estão a penar milhares e milhares de portugueses, aquele requinte sumptuário mais do que um escândalo é uma provocação.
Os deputados sabem isto tudo mas não se importam. Sabem que fazem parte de um sistema político que ofende o nome da democracia chamando-se democracia. Sabem que integram uma longa família de privilegiados que, em rotativismo permanente, vêm ocupando o poder, com umas franjas irrelevantes para os que estejam fora do sistema. E mesmo quanto a esses sabem que a lei do come e cala-te ainda é a grande lei para os comprometer, comprando-lhes o compromisso.
Os deputados, os governantes, aqueles que a política eleva a cargos e coloca em altas funções sabem que estão por cima de um estábulo de mansos bois que é o que resta do Povo português, que rumina sobre a palha seca do dia a dia e se conforma a mugir lugubremente o fadinho da pouca sorte.
Comensais do luxo, ruminantes da sem-vergonha, cevantes do aproveitanço, na hora da digestão nem uma crise de consciência os afectará, quantos folheando jornais já no hemiciclo, tantos passeando na net, nos intervalos do instante fugaz do «bate rabo» do quem vota a favor, quem vota contra, quem se abstém, a ladainha sonolenta sobre o trabalho legislativo em que pouquíssimos trabalham e em que se vota como o partido manda votar, tantos por cabeça.
Não, os deputados frequentadores dos restaurantes parlamentares não têm  disso que lhes atrapalhe a gorja, aflija as entranhas, amargue o fígado, gazeei as tripas. É que a deputação nacional terá seguramente sanitários adequados em que, com trânsito regular dos que querem lá saber, exprimem, vindo do eu íntimo, o que sentem quanto a todos nós.
Um dia, um dia estou certo, quando os famintos cercarem o hemiciclo para porem termo, a pontapé que seja, à grande bouffe desta imoralidade nojenta, talvez os apanhem com as calças na mão.

20.5.12

Um dia mau em Rio Mau

Sabia que era perto de Vila do Conde. Há um local com o mesmo nome em Penafiel. Viajámos até lá. O propósito era encontrar a igreja, românica, fotografar-lhe as representações, de uma insólita icononografia sagrada, de que falarei em outro lugar. Em São Cristóvão de Rio Mau.
Estava, porém, fechada. Chovia mansamente. Mesmo assim, segurando um no guarda-chuva, fotografou-se, uma a uma o que eram no exterior, incluindo o tímpano, as imagens talhadas na pedra.
Já em cabisbaixa retirada, por nos estar vedado o interior, cruzá-mo-nos, elas a sair do cemitério em frente, com duas paroquianas idosas, semblante amável. «Está fechada a Igreja...», arrisquei dirigindo-me a uma delas, na esperança de um informação. Sim estava, mas fosse à casa ao lado, a do padre, batesse à porta que «a criada» tinha a chave e viria abrir.
Assim fomos. Educadamente, polidamente, humildemente, um toque de campainha.
Surgiu a dita à janela, moçoila, cabeça atirada para fora em gesto de rompante, como se fossemos intrusos, logo vociferante porque era meio-dia, e que se isto eram horas, e que estava a fazer o almoço e num sei quê mais de imprecações.
Entre desculpas encolhidas minhas, lá veio, entretanto, abrir, sempre com o arrazoado censuratório quanto à inconveniência da hora, que a igreja é visitada por milhares «de estrangeiros» mas que eles não batem àquela hora «que nisso são são mais organizados». 
Tornei a pedir desculpa, desta vez já nem sei se desculpa por não ser estrangeiro. Debalde, porém, porque a arenga continuava, que «estava a fazer o almoço para pessoas de noventa anos e se isto são horas...»
«Mas podiam pôr um letreiro com o horário...», ainda arrisquei, timorato, receando a resposta que não tardou. «Não é preciso letreiro nenhum! Isto são coisas que se aprendem de pequenino! Não se bate à porta da casa das pessoas ao meio-dia». 
E que bem nos tinha visto meia-hora antes a chegar, atravessou, mentindo agora, sempre no mesmo tom de toque a rebate, como se não tivesse bastado ter-nos dito que agora não podia e que voltássemos mais tarde.
Fotografámos apressados, quais ladrões furtivos. 
Agradeci muito, renovei desculpas. 
Faltava o final do responso: que nós não valorizamos o que temos, mas os estrangeiros «esses sim dão valor.». E eu português, afinal, um mísero português...
Regressámos aturdidos, ofendidos, humilhados.
Da casa do vigário de Cristo na Terra, aliás uma bela casa de quinta, de automóvel à porta, tinha vindo aquela emissária, a receber com aquele modo desabrido quem vinha procurando a simbologia da divindade com nove séculos de vida. 
Nem me atrevi a dizer porque estava ali. Mais do que inútil, era sujeitar-me a invocar a decência espiritual do argumento a quem me tratava como se eu fosse uma besta ímpia e sem modos.
Fosse o próprio Jesus Cristo seria recebido do mesmo modo, com duas pedras na mão. Uma vergonha. Vim dizê-lo aqui pelo respeito que me merece o que é sagrado. Diz a lenda que o lugar chama-se Rio Mau por haver ali túneis guardados por dragões e serpentes.

28.4.12

A pedra tumular

Pela boca do General António Ramalho Eanes veio a lume a memória sobre o livro que Rui Mateus escreveu sobre o que viu na vida do Partido Socialista de então, nomeadamente a propósito de Mário Soares. Revelações graves, escandalosas as dessa obra.
O livro teve um destino curioso, sintomático.
Não conheço qualquer desmentido aos factos que ai se revelam.
Na altura, porque a serem verdadeiros os factos revelados poderiam integrar crime, o Procurador-Geral da República, Cunha Rodrigues, disse que iria mandar ler o livro. Nunca se soube o que resultou da leitura.
Para conforto de muitos Rui Mateus entrou, porém, na galeria dos insolentes ressabiados, por isso sem credibilidade. Virou-se assim a página. No entanto no livro relata o que viveu, não se excluindo do que se passou. E os seus leitores não o esqueceram.
Recentemente Mário Soares veio a público tentar desqualificá-lo. Sobre isso escrevi aqui, um postal a que chamei O Perfume Barato do Contar.
Rui Mateus, entretanto, desapareceu e foi eliminado dos registos públicos, como escrevi aqui. O livro desapareceu, como se lê aqui, e só pode ser lido na net, como por exemplo aqui.
De vez em quando o assunto regressa num breve furor para morrer em silêncio a seguir.
O que ninguém se pergunta é:
-» Qual a razão pela qual Rui Mateus escreveu o livro em causa, estando pendente à data o processo criminal do aeroporto de Macau e dos alegados pagamentos da Weidelplan, o célebre caso do fax no qual foi um dos envolvidos, tal como o foi o governador de Macau, Carlos Melancia? [ver aqui].
-» Qual a razão pela qual se não contam as tentativas que foram feitas para evitar que ele publicasse o livro?
-» Qual a razão pela qual nem Rui Mateus foi alguma vez processado e condenado como caluniador nem aberta averiguação sobre o que ele ali escreveu?
Um dia a História encarregar-se-à de tudo isto. A pedra tumular do silêncio, por mais pesada que seja, não é eterna no cemitério das misérias humanas.

Portugal, vive!

Custa-me escrever isto porque está recente a morte de uma pessoa e poderão pensar que a desrespeito. Mas bem pelo contrário. Falo do Miguel Portas, mas o que quero dizer tem a ver com a generalidade dos factos não com a individualidade da sua pessoa. 
Sobre ele pouco posso dizer. Não o conhecia salvo pela dimensão pública. Acompanhava ocasionalmente as suas intervenções. Pareciam-me mais sólidas do que muitos dos partido a que pertencia. Apercebi-me da doença e o seu desfecho. 
Dói a morte de quem tem valor. Dói a morte de uma pessoa. Mas só assim a vida se cumpre, retomando o ciclo de onde a vida surge. Pena que a vida não deixe, durando mais, que melhor se realizem certas vidas. Como sucedeu com ele.
O que quero dizer, porém, tem outro registo. Reparei nas exéquias públicas a seu respeito, no espraiar do sentimento de condolência pelas redes sociais, pelos comentários na imprensa, nas declarações públicas, no pesar que urdiu em tantos e tantos que, como eu, não o conheciam ou vagamente se tinham apercebido da sua existência e dos que, sabendo-o, recebiam com antagonismo o seu contributo para a causa pública. 
Teve o destino, afinal, de tantos portugueses que, uma vez idos, são colocados no Panteão da glória pelos mesmos pelos que os desconsideraram quando estavam entre nós em Portugal.
Miguel Unamuno, esse notável amigo dos portugueses, escreveu que somos um País de suicidas. Referia-se a todos e a cada um de nós. Amamos a morte, detestamos a vida. Os nossos heróis são os que foram. Dom Sebastião é a mítica do salvador que regressa do campo da morte, o Alcácer-Quibir da nossa esperança.
Um País que venera os seus mortos é um País com honra. Uma Nação que despreza os seus vivos, é uma Pátria morta.

25.4.12

Portugueses. de pé!



Escrevi isto neste blog faz precisamente um ano. Então como hoje.


«Escrevo isto com a tristeza de hoje ser o dia 25 de Abril. Nesse dia, em 1974, por causa da PIDE eu estava em Armas Pesadas de Infantaria no Quartel em Mafra.
Um regime que não garante nem emprego nem futuro à esmagadora maioria dos seus jovens, arrastando-os para a infantil dependência dos pais e para o perpétuo desemprego, um regime em que os jovens machos se imbecilizam com jogos virtuais violentíssimos e os adultos se idiotizam com o futebol na tv em doses cavalares e em que a coscuvilhice feita jornalismo rosa alimenta a ociosidade e a falta de sonho da feminilidade solitária.
Um regime que endividou o Estado até ao osso depois de o ter deixado pilhar por meia dúzia de novos ricos e agora faz todos pagarmos a conta do festim.
Um regime que tem as famílias falidas, porque enforcadas em hipotecas imobiliárias, e estraçalhadas por causa do crédito ao consumo e desejosos de mais gasto e mais compras.
Um regime de publicanos e filisteus, todos na ânsia do ganho, da renda e do lucro.
Um regime em que dois partidos que não se diferenciam nem distinguem pelas ideias e são iguais na ganância e na sede de poder rendoso, são, afinal, o partido único, a União Nacional dos tempos de hoje.
Um regime em que uma faixa significativa dos seus nacionais nos venderia à Espanha em troca de um prato de lentilhas.
Um regime que saqueia a Nação com impostos e em que os contribuintes aldrabam o Estado nos impostos, achando-o ladrão.
Um regime em que já não se sabe quantos anónimos bichos-careta foram Secretários de Estado ou até ministros e menos ainda quem eram ou de onde vinham, mas em que se percebe depois ao que vinham.
Um regime que capou os militares, achincalha os tribunais e domesticou a Igreja.
Um regime com estes e tantos outros males está minado pela pior lepra que é ele ser a gafa que tudo contamina.
Um regime destes e não este ou aquele Governo ou este ou aquele partido ou aqueloutra coligação tem de se deposto. A bem ou a mal.
A tarefa patriótica para os poucos a quem restem forças e esperança não é o que fazer nas próximas eleições.
Um regime destes clama, exige e merece uma Revolução. Chegou ao ponto em que ele é a semente da sua destruição. Não uma revolta cívica ou o lento corroer das manifestações de rua. Uma Revolução.
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Foi por isto assim que surgiu o 28 de Maio. 
Portugueses, de pé!»

10.4.12

Rádio Renascença: parabéns!

Presidia ao Conselho de Ministros o Almirante Pinheiro de Azevedo. Na extensa mesa circular, no pólo oposto, estava eu, Secretário do Conselho. Tempos conturbados os desse sexto governo provisório. Cabia-me fazer a acta das sessões, circular os projectos de diplomas legais de todos os ministérios, recolher as observações e críticas, circulá-las, preparar os dossiers para a discussão, sintetizando os pontos em controvérsia. E sobretudo assistir a esses tempos históricos em que seu deu o cerco da Constituinte, em que estive, também eu, aprisonado na Residência Oficial, na Rua da Imprensa, uma betoneira a barricar o portão, milhares de manifestantes a cercarem São Bento.
Foi num desses conturbados Conselhos - de que um dia talvez conte mais - que a cena ocorreu. Os SUV, sigla para a organização clandestina Soldados Unidos Vencerão [ver aqui e aqui] tinham ocupado a Rádio Renascença. A partir dali emitiam propaganda revolucionária, incendiando o País, provocando a Igreja Católica. Protestos surgiam, incluindo os da Nunciatura Apostólica. Nesse dia o assunto estava em agenda. 
Grave, ligeiramente tombado sobre a mesa, como era seu hábito, as mãos segurando as abas do casaco, qual comandante na ponte do seu navio, o primeiro-ministro ouvia a ladainha lamurienta ministerial quanto ao que se devia mas não se podia fazer. Foi aí que, iracundo, se soergueu. Com um dos seus «Vítor Alves [então ministro da Educação] ficas aqui a tomar conta destes senhores [os ministros] abandonou a sala». Voltou momentos depois. Reocupando a presidência da reunião, atirou como que atónito: «ainda a discutirem o mesmo, homens? Tá resolvido, porra!». Tava, de facto.
No dia seguinte soube-se como. Resolvido à bomba. 
A sabotagem das antenas silenciou o pio à aos que proclamavam a luta «com todos os trabalhadores pela preparação de condições que permitam a destruição do Exército burguês e a criação do braço armado do poder dos trabalhadores». 
Dizem-me que terá sido o então major Jaime Neves, dos Comandos da Amadora. Ou os Fuzileiros Navais. Quem souber que conte. Nesse dia a Rádio Renascença, a Emissora Católica Portuguesa sobreviveu.
Não sou católico, sim baptizado. Até por isso, deste canto que é o meu espaço de liberdade cívica, lhes endereço, para a Rua Capelo, como ondas para o éter, num aceno fraternal, votos de parabéns! Muitos anos de vida.

18.3.12

A suprema ousadia

Houve tempos em que Pedro Santana Lopes ser primeiro-ministro me causou uma revolta interior a rondar o insurreccional. Escrevi-o quando muitos ainda contemporizavam com o facto, expectantes do que viria e do que lhes calharia. Hoje ler que se dispõe para Presidente da República deixa-me indiferente. Não por ele, que continua igual ao que é, pelo País e no que se tornou. 
Santana Chefe do Estado, Supremo Magistrado da Nação, Chefe Supremo das Forças Armadas, símbolo da Pátria, no que isto deu, é normal. Normalíssimo mesmo. Até um dia, uma pálida madrugada.

10.3.12

A Resposta do Jeca Tatu

Como diz o cabôco: "Diz qui", há muito tempo, um tal Senadô andô falano num jornal qualquer, qui o rocêro, o caipira, é... um priguiçôso, um indolente, um que só vive incostado... um punhado de coisas, enfim. O grande poeta Catullo da Paixão Cearense colocou, então, na boca de um desses brasileiros, lá do sertão, uma resposta... bem assim: 

Seu dotô, venho dos brêdo, 
Só pra mode arrespondê 
Toda aquela fardunçage 
Qui vancê foi inscrevê! 

Num teje vancê jurgano 
Qui eu sô argum cangussú! 
Num sô não, Seu Conseiêro. 
Sô norte, sô violêro 
e vivo naquelas mata, 
como veve um sanhaçu! 
Vassucê já mi cunhece: 
Eu sô o Jeca Tatu! 

Cum tôda essa má piáge, 
Vassucê, Seu Senadô, 
Nunca, um dia, se alembrô, 
Qui, lá naquelas parage, 
A gente morre de fome 
E de sêde, sin sinhô! 

Vassuncê só abre o bico, 
Pra cantá, como um cancão, 
Quano qué fazê seu ninho, 
Nos gáio duma inleição! 

Vassuncê, qui sabe tudo, 
É capaiz de arrespondê 
Quando é que se ouve, 
Nos mato, 
O canto do zabelê? 

Em qui hora é qui o macuco 
Se põe-se mais a piá? 
E quando é que a jacutinga 
Tá mio de se caçá? 
Quando o uru, entre as foiage, 
Sabe mais asubiá? 

Qualé, de todas as arve, 
A mais derêita, inpinada? 
A qui tem o pau mais duro, 
E a casca mais incorada? 

Hem? 

Vancê nun sabe quá é 
A madêra qui é mais boa, 
Pra se fazê uma canôa! 

Vancê, no meio das tropa, 
Dos cavalo, Seu Dotô, 
Oiano pros animá, 
Sem vê um só se movê, 
Num é capáiz de iscuiê 
Um cavalo iquipadô! 

Eu quiria vê vancê, 
No meio de uma burrada, 
Somente pur um isturro, 
Dizê, em conta ajustada, 
Quantos ano, quantas manha, 
Quantos fio tem um burro! 

Vancê só sabe de lêzes, 
Qui si faiz cum as duas mão! 
Mais, porém, nun sabe as lêzes 
Da Natureza, e qui Deus 
Fêiz pra nóis, cum o coração! 

Vancê nun sabe cantá, 
Mais mió qui um curió, 
Gemeno à bêra da istrada! 
Vancê nun sabe inscrevê, 
Num papé, feito de terra, 
Quano a tinta é o do suó, 
E quano a pena é uma inxada! 

Se vancê nun sabe disso, 
Num pode me arrespondê: 
Óia aqui, Seu Conseiêro: 
Deus nun fêiz as mão do home, 
Somente pra ele inscrevê 

Vassuncê é um Senadô, 
É um Conseiêro, é um Dotô, 
É mais do qui um Imperadô, 
É o mais grande cirdadão, 
Mais, porém, eu lhi agaranto, 
Qui nada disso siría, 
Naquelas mata bravia, 
Das terra do meu Sertão. 

A miséria, Seu Dotô, 
Tombém a gente consola. 
O orgúio é qui mata a gente! 
Vancê qué sê persidente? 
Eu sô quero ser... 
Rocêro e tocadô de viola! 

Você tem todo dereito 
De ganhá cem mil pru dia! 
Pra mió podê falá. 
Mais, porém, o qui nun pode 
É a inguinorânça insurtá, 
A gente, Seu Conseiêro, 
Tá cansado de isperá! 

Vancê diz que a gente 
Véve cum a mão no quêxo, 
Assentado, sem fazê causo das coisa 
Qui vancê diz no Senado. 
E vassuncê tem razão! 
Si nóis tudo é anarfabeto, 
Cumo é que a gente vai lê 
Toda aquela falação? 

Priguiçôso? Maracêro? 
Não sinhô, Seu Conseiêro! 

É pruquê vancê nun sabe 
O qui seja um boiadêro 
Criá cum tanto cuidado, 
Cum amô e aligria, 
Umas cabeça de gado... 
E, dipôis, a impidimia 
Carregá tudo, cos diabo, 
In mêno de quato dia!... 

É pruquê vancê nun sabe 
O trabáio disgraçado 
Qui um home tem, Seu Dotô, 
Pra incoivará um roçado... 
E quano o ôro do mío 
Vai ficano inbunecado, 
Pra gente, intoce, coiê, 
O mío morre de sêde, 
Pulo só isturricado, 
Sequinho, como vancê! 

É pruquê vancê nun sabe 
O quanto é duro, um pai sofrê, 
Veno seu fio crescendo, 
Dizeno sempre: 
Papai, vem mi insiná o ABC! 

Si eu subesse, meu sinhô, 
Inscrevê, lê e contá, 
Intonce, sim, eu havéra 
Di sabê como assuntá! 
Tarvêis vancê nun dexasse 
O sertanejo morrendo, 
Mais pió qui um animá! 

Pru módi a puliticaia, 
Vancê qué qui um home saia 
Do Sertão, pra vim... votá?... 
In Juaquim, Pêdo, ou Francisco, 
Quano vem a sê tudo iguá?... 

Priguiçôso? Madracêro? 
Não!.. Não sinhô, Seu Conseiêro! 

Vancê nun sabe di nada! 
Vancê nun sabe a corage 
Qui é perciso um home tê, 
Pra corrê nas vaquejada! 
Vossa Incelênça nun sabe 
O valô di um sertanejo, 
Acerano uma queimada! 

Vamicê tem um casarão! 
Tem um jardim, tem uma cháca. 
Tem um criado de casaca 
E ganha, todos os dia, 
Quer chova, quer faça só, 
Só pra falá... cem mirré! 

Eu trabáio o ano intero, 
Somente quando Deus qué! 
Eu vivo, no meu roçado, 
Mi isfarfando, como um burro, 
Pra sustentá oito fio, 
Minha mãe, minha muié! 

Eu drumo inriba de um côro, 
Numa casa de sapé! 
Vancê tem seu... ortromóvi! 
Eu, pra vim no povoado, 
Ando dez légua, de pé! 

O sór, têve tão ardente, 
Lá pras banda do sertão, 
Qui, in meno de quinze dia, 
Perdi toda a criação! 

Na semana retrasada, 
O vento tanto ventô, 
Qui a paia, qui cobre a choça, 
Foi pus mato... avuô! 

Minha muié tá morrendo, 
Só pru farta de mezinha! 
E pru farta de um dotô! 
Minha fia, qui é bunita, 
Bunita, como uma frô, 
Seu Dotô, nun sabe lê! 

E o Juquinha, qui inda tá 
Cherano mêmo a cuêro, 
E já puntêia uma viola... 
Si entrasse lá, pruma iscola, 
Sabia mais que vancê! 

Priguiçôso? He... Madracêro? 
Não... Não sinhô, Seu Conseiêro!... 

Vancê diga aus cumpanhêro, 
Qui um cabra, o Zé das Cabôca, 
Anda cantano esses verso, 
Qui hoje, lá no Sertão, 
Avôa, de boca em boca: 

(cantado) 

Eu prantei a minha roça, 
O tatu tudo cumeu! 
Prante roça, quem quisé, 
Qui o tatu, hoje, sou eu! 

Vassuncê sabe onde tá o buraco 
Adonde véve o tatu esfomeado? 
Han?... Tá nos paláço da Côrte, 
Dessa porção de ricaço, 
Qui fêiz aquele palaço, 
Cum sangre do disgraçado! 

Vancês tem rio de açude, 
Tem os dotô da Ingêna, 
Qui é pra cuidá da saúde... 
E nóis?... O qui tem? Arresponda! 

No tempo das inleição, 
Qui é o tempo da bandaiêra, 
Nós só tem uma cangaia, 
Qui é pra levá todas porquêra, 
Dos Dotô Puliticáia!... 

Sinhô Dotô Conseiêro, 
De lêzes, eu nun sei nada! 
Meu derêito é minha inxada, 
Meu palaço é de sapé! 
Quem dá lêzes pra famía 
É a minha boa muié! 

Vancê qué ser persidente? 
Apois, seja! 
Apois seja, Meu Patrão! 
A nossa terra, o Brasí, 
Já tem muita inteligênça, 
Muito home de sabença, 
Qui só dá pra... ó, ispertaião! 
Leva o Diabo, a falação! 
Pra sarvá o mundo intêro, 
Abasta tê... coração! 

Prus home di intiligênça, 
Trago comigo essa figa: 
Esses home tem cabeça. 
Mais, porém, o qui é mais grande 
Do que a cabeça... é a barriga! 

Seu Conseiêro... um consêio: 
Dêxe toda a birbotéca dos livro! 
E, se um dia, vancê quisé 
Passá ums dia de fome, 
De fome e, tarvêiz de sêde, 
E drumi lá, numa rêde, 
Numa casa de sapê, 

Vá passá comigo uns tempo, 
Nos mato do meu sertão, 
Que eu hei de lhe abri a porta 
Da choça... e do coração! 

Eu vorto pros matagá... 
Mais, porém, oiça premêro: 
Vancê pode nos xingá, 
Chamá nóis de madraçêro. 
Purquê nóis, Seu Conseiêro, 
Nun qué sê mais bestaião! 
Não!.. Inquanto os home di riba 
Dexá nóis tudo mazombo, 
E só cuidá dos istombo, 
E só tratá di inleição... 

Seu Conseiêro hái de vê, 
Pitano seu cachimbão, 
O Jeca-Tatu se rindo, 
Si rindo... cuspindo 
Sempre cuspindo, 
Co quêxo inriba da mão! 

Eu sei que sô um animá, 
Eu nem sei mêmo o que eu sô. 
Mais, porém, eu lhe agaranto 
Qui o qui vancê já falô, 
E o qui ainda tem de falá, 
O qui ainda tem de inscrevê, 
Todo, todo o seu sabê, 
E toda a sua saranha... 
Não vale uma palavrinha, 
Daquelas coisa bunita, 
Qui Jesuis, numa tardinha, 
Disse, inriba da montanha!..