25.9.10

A vida simplificada

Vejo numa personagem de um romance de Vergílio Ferreira aquilo que deve estar na cabeça de muita gente que faz com sejamos o País que somos: «os que chegam a constituir uma elite efectiva, devem assegurar às massas inferiores a felicidade na aproximação dos irracionais, mantendo-lhes a vida simplificada».

21.9.10

A Censurável Censura

Este texto ilustrou uma exposição que se realizou em Faro, no Pátio de Letras, no dia 25 de Abril, a propósito da Censura Prévia. Expostos livros de um notável livreiro da cidade e um homem bom, Duarte Infante.

Por um lado o controlo do espírito, por outro a engenharia das almas. A censura ao pensamento garrotava a liberdade de expressão, asfixiava a criação. O 25 de Abril trouxe, enfim, a liberdade
Em Portugal a mordaça tem uma longa tradição.
Quando, a 5 de Abril de 1768, o Marquês de Pombal centralizou no Estado o sistema de controlo ao conteúdo dos livros abria-se a época moderna na repressão do espírito. Criou-se a Real Mesa Censória, confiada a Frei Manuel do Cenáculo, para «livros e papéis perniciosos». Veja-se.
A Igreja perdia o poder de censura que até então gozava o chamado Santo Ofício da Inquisição e que o seu Index Librorum Prohibitoru , de obras vedadas à impressão ou à venda, saído do Concílio de Trento, bem expressava. Esclarecedor.
A liberdade de imprensa só seria proclamada com a Constituição de 1822, mas duraria apenas até 1924. Restabelecida com a Carta Constitucional de 1826, cairia de novo para não mais vigorar até à República. Quer por leis, quer por actos administrativos, quer por vias de facto, o exame prévio e a apreensão de livros proibidos continuariam. Com a ditadura de João Franco o governo monárquico encarniça-se na luta contra a propaganda adversa, congregando um juiz para o efeito, o célebre Veiga, que dirigia o Juízo de Instrução Criminal.
A liberdade republicana, que a Constituição de 1910 legalizaria, teria também duração efémera pois logo em 1912, por lei, «dezenas de jornais não republicanos, especialmente monárquicos e católicos, mas também sindicalistas e anarquistas, foram encerrados e os seus proprietários presos e deportados».
O advento do governo de Sidónio Pais, em 1917, daria base legal ao afinamento do sistema censório, a entrada de Portugal na I Guerra justificaria mais apertado controlo aos livros e demais publicações.
O Estado Novo restabeleceu o exame prévio em Setembro de 1926. A Constituição de 1933 abria a porta à legitimação de uma “política do espírito”, que uma apertada vigilância às publicações controlava, impedindo a divulgação do contrário à Situação. Um Decreto de Abril de 1933 sujeitava a censura prévia as publicações que «versem assuntos de carácter político e social». Os próprios livreiros eram intimados a controlarem o que vendiam, sob pena de pesadas multas. A PIDE e outras polícias frequentemente efectuavam apreensões nas livrarias e tipografias. Pode ver-se.
Após a morte de Salazar e com a liberalização do regime, em 1972, sob o governo de Marcelo Caetano, pouco mudaria salvo alguma abertura de critério, mesmo assim hesitante. O lápis azul dos censores à imprensa mantinha-se no mundo editorial. A Direcção dos Serviços de Censura e seu Gabinete de Leitura Especializada, A Direcção-Geral de Segurança e os Tribunais Plenários, encarregavam-se da evolução na continuidade. Naturalmente.
Haverá hoje quem se lembre do que é não ter a liberdade de escrever nem a possibilidade de poder ler?

Como se fazia a Censura aos livros? O Regime que o 25 de Abril depôs usou todos os instrumentos. Serviços públicos, polícias, auto-vigilância por parte dos livreiros, dos tipógrafos, dos escritores, dos próprios leitores


Primeiro a criação dos Serviços de Censura que com Marcelo Caetano se passou a chamar eufemísticamente de Exame Prévio.
Depois a atribuição do julgamento dos crimes de imprensa a um tribunal especial o famigerado Tribunal Plenário, sito na Boa-Hora, onde eram julgados os crimes contra a segurança do Estado. Ilustrativo.
Além disso, um sistema de auto-policiamento pelo qual as tipografias e os próprios livreiros arriscavam pesadas multas e o próprio encerramento no caso de permitirem que viessem à luz livros proibidos e inconvenientes para os padrões de moralidade oficial e para a subsistência do próprio regime político.
Quantos livros proibidos foram vendidos «por baixo do balcão» a leitores em quem se poderia confiar? Quantas tipografias clandestinas? Sabe-e lá.
Em 1934 a Direcção Geral de Censura à Imprensa enviava uma circular aos livreiros apelando a que fossem «colaboradores preciosos» da Censura, a bem da «valorização moral da Nação».
Em 1972 o Ministro do Interior, Gonçalves Rapazote dava instruções à Direcção-Geral de Segurança (ex-PIDE) para «organizar um plano de visitas» a tipografias que se dedicam à impressão de «livros suspeitos – pornográficos ou subversivos» e que fosse informado os Grémios das Artes Gráficas e dos Editores e Livreiros «da acção de repressão que vai ser desencadeada contra os responsáveis pela impressão, distribuição ou venda de publicações pornográficas ou subversivas». A política não mudava.
Enfim, uma prática de intimidação e de provocação, junto dos escritores e dos próprios leitores.
Quantas vezes se forravam os livros mais perigosos a papel pardo para não se verem as capas? Erro o medo de ler.
A Sociedade Portuguesa de Escritores foi extinta em 1965 pelo Governo e assaltada e desmantelada por elementos ligados à PIDE e à Legião, depois de atribuição de um prémio ao escritor angolano Luandino Vieira. Veja-se.
Um escritor católico, conservador, Alçada Baptista, escreveu no seu livro Conversas com Marcelo Caetano, de quem era amigo, acerca do Exame Prévio: «é um poderoso elemento de redução de mim próprio (…) e que vai ao ponto de sentir inibições quanto se trataria de aplaudir os poderes nas coisas que mereceriam o meu aplauso, ou de criticar a oposição naquilo que mereceria a minha crítica»
Hoje, que estamos em democracia e na sociedade digital, a Censura acabou ou sofisticou-se?

16.8.10

A vida sobejante

Pela noite sente-se o seu pesado arrastar. Levam no seu bojo o resto, os sobejos e os remanescentes, o que já não se quer, o que nunca se quis. Há neles o que tantos desejariam, o que muitos nem sabem que existe. Em alguns fins de jantar é um festim de desperdícios. Muitos chegam cheirar bem. São a demonstração da generosidade involuntária, da oferta inútil. Às vezes homens e cães lutam pela posse das suas entranhas. Irmanados na necessidade, rosnam contentamento. Depois esvaziam-nos indiferentes homens nocturnos, madrugadores, profissionais da remoção. Uma vida sobejante termina na nitreira. No dia seguinte recomeça o ciclo da podridão.

4.8.10

O pato coxo

Foi só uma pancadinha seca. No instante um tiro. O «rac-rac-rac» e o andar à pato-coxo mostrou logo o que se tinha passado. Um segundo de distracção e claro uma cacetada da jante numa esquina do passeio e lá vai pneu. Nesta matéria, como nos sapatos, nunca basta um. Pelo menos dois. «Só que eles já andam um pedaço carecas». Como eu! Quatro. «Olhe o meu filho outro dia pediu-me uns ténis a 120 euros cada um», disse-me o homem do reboque. Pois o meu SAAB deve calçar-se na NIKE e ainda mais, pela certa.

1.8.10

E viva El Gordo!

Houve tempos em que uma pessoa acreditava porque estava cientificamente provado. Por exemplo que beber leite fazia bem à osteoporose. Agora decobriram que os adultos não devem beber leite e juntá-lo ao café gera enfartamento, inchaço no ventre e flatulência. Agora uma pessoa espreita as notícias e lê que «dormir mais e menos de sete horas por noite aumenta o risco de doença cardiovascular, a principal causa de morte nos Estados Unidos, revela um estudo americano hoje divulgado» e logo antes que «Os suplementos de cálcio podem aumentar o risco de sofrer um ataque cardíaco (infarto do miocárdio), afirma estudo publicado nesta quinta-feira no Jornal Médico Britânico, periódico da Associação Médica Britânica».
Houve tempos em que a filosofia era apenas uma impressão, a ciência a razão. Hoje uma pessoa conclui que a ciência é um interesse. É que foram as vacas loucas e vieram as pandemias de sei que outras alimárias. Concluiu-se que a norte do Mediterrâneo ia tudo desertificar e agora chove que os cães a bebem de pé.
Depois há a Rainha Vitória que bebia gin à farta e o Winston Chuchill que fumava charutos copiosos e de velhos morreram.
Houve tempos em que uma pessoa tinha fé no saber. Hoje limita-se a ter caridade pela ignorância.
No meio disto tudo uma notícia alegra: «A praia chama-se Saúde e foi um dos locais escolhidos para a campanha da Associação de Doentes Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO) contra a Obesidade, uma doença que em Portugal afecta já 17 por cento da população, escreve a Lusa».
Emagrecer é divertido, dizem...

25.7.10

A Sinarquia

Claro que quando em 30 de Novembro de 1807 o general francês Andoche Junot ocupou Lisboa, consumando a primeira invasão francesa e uma deputação de maçons lhe foi apresentar cumprimentos, e no ano seguinte uma delegação oficial do Grande Oriente o foi saudar, por ele ser «irmão» também e aventalado e com pretensões ao Grão-Mestrado da que passaria a ser, extinta a Casa de Bragança, o ex-reino de Portugal, a associação da pedreiragem passou por um dos seus piores momentos em termos de respeitabilidade e de integridade.
Não foi menor o aperto quando em 1935 o Presidente da Assembleia Nacional, o professor de Direito José Alberto dos Reis, ele também "filho da viúva" viu o hemiciclo aprovar a lei José Cabral dita contra as «associações secretas» mas que visava reduzir à inactividade os sob os auspícios do Grande Arquitecto do Universo se reuniam em loja. Lei que o ex-maçon Presidente da República Óscar Fragoso Carmona promulgou.
Foram estes entre outros momentos que se reviveram ontem acaloradamente em Faro até pelas uma e meia da manhã quando da apresentação do livro do Luís de Matos. Houve quem clamasse que já estava tudo nos Protocolos de Sião. A ideia do autor é a de uma Maçonaria Invisível que assegure o governo do Mundo. Chama-lhe Sinarquia. Não no sentido de uma cavalaria espiritual redentora. Espécie, sim, do Governo dos mais sábios. O problema é se dá em ser o governo dos mais espertos. Disso já temos. Obrigado.

20.7.10

A vergonhosa homenagem

Nasci em Angola. Sai da terra onde nasci quando começou a guerra que levaria à independência do País. Nunca me senti "menino branco" em terra africana. Não sou negro de raça. Compreendi as razões da revolta local por ter visto em miúdo dísticos no cinema a dizerem «probida a entrada a indígenas», quando vi os tais «indígenas» a levarem palmatoadas - como se crianças fossem em escolas de educação violenta - dadas por cipaios à porta da Administração do Concelho. Compreendi a contra violência quando me chegavam ecos de brancos serrados ao meio e com os olhos arrancados que livros como "Sangue no Capim" nos traziam como memória. Percebi tudo quando vi o poder branco a cair de podre com a chegada dos belgas, espavoridos, a Malanje, vindos em fuga em carripanas com tudo o que podiam trazer, sobretudo a própria pele. Deixei de entender quando ouvia de noite a metralhadora no quartel e me falavam entre dentes na vala comum, quando me explicavam que a PIDE e militares interrogavam negros arrancando-lhes as unhas com um alicate. Entendia ainda quando percebi que para o meu pai, aos sessenta anos, era já Angola e não Viseu a sua terra. Compreendi, enfim, muita coisa quando soube, ao estudar, que os EUA e a URSS tinham partilhado Portugal e as suas colónias e caiu como um tordo Vasco Gonçalves e os cubanos largaram Angola, a geo-estratégia imperial a ditar a sorte das Pátrias alheias.
Assisti ao Conselho de Ministros que aprovou a independência de Angola, ouvi a seráfica explicação do general Costa Gomes, «crachat de ouro» de PIDE, agora Presidente da República da democracia, perorando, frio, em prol do reconhecimento do governo do MPLA, e corajosa intervenção de Salgado Zenha em defesa da dignidade de Portugal, ele que estivera preso com Agostinho Neto em Caxias.
Choca-me que Aníbal Cavaco Silva tenha ido a Angola prestar vassalagem. Por mais alto que falem os interesses, por mais esperanças que tenhamos que os caloteiros angolanos nos paguem, por mais País que o dinheiros dos plutocratas angolanos esteja a comprar.
Ofende-me que tenha ido prestar homenagem a Agostinho Neto quando o Estado que Agostinho Neto inaugurou ainda não teve para connosco a decência do reconhecimento.
Ante os escombros de uma Nação à mercê da miséria e da rapina, haja a decência de exaltar o que os portugueses fizeram por Angola. Colonizadores, colonialistas, negreiros, miscigenámo-nos, amámos aquela terra, demos-lhe o que nunca teve o que ainda não conseguiu ter. Haja vergonha, pois!

18.7.10

A velha bicicleta

Passeava no Jardim da Estrela. Pedalava uma velha bicicleta. Empinado na "burra", os olhos como faróis olhava um ponto situado num qualquer infinito em frente a si. Ia a escrever um ponto abstracto, mas aquele era concreto, se bem que imperscrutável. Perseguia-o zaranguitando pelas ruelas arborizadas. Na frente do biciclo um rádio, sanfona roufenha, verbena a pilhas, roncava umas irreconhecíveis musicatas.  
Perseguidor do sossego, imaginei-o uma força do Destino contra a minha pessoa, os outros indiferentes, vindo das retretes da vida dejecta para a folhagem morna desta tarde modorrenta.
Depois percebi. No dorso da camisola laranja anunciava uma tasca de caracóis. Caracóis com baba, dos que sabem a urina e cheiram a desolação. Um mundo publicitário volteava em torno de mim, infernal, em soltura ofensiva, caracoleante.

22.6.10

O vagabundo

Tantos são eles, os sem abrigo! É uma vergonha!
Na rua da livraria Pó dos Livros há outro. Exalam, ele e os papelões sujos de que faz casa, um cheiro fétido.
Tudo aquilo é miséria e álcool. A sua casa é um vão de escada de um prédio onde fica um anafado Banco. Na mesma rua a Igreja de Fátima, onde se vai pregar o Reino da Bondade e a Caridade entre os Homens.
Um dia destes masturbava-se de pé virado para a rua, indiferente a tudo, que o corpo de um vagabundo tem apelos que nem a fome nem a loucura matam.
Pior escândalo do que aquele triste sexo virado para a rua é a miséria em que ele vive, a miséria da nossa indiferença, masturbando-nos, quantos de nós, indiferentes passeantes, com titilantes ideais contemplativos! Nisso, eu pecador me confesso, um de tantos outros!

27.5.10

Volta D. João VI

Em Novembro de 1807, D. João VI transferiu-se para o Brasil, evitando ser aprisionado com toda a família real e o governo. Salvou a independência de Portugal. Lá criou o Banco do Brasil em 1808. Agora é José Sócrates que vai, de mão estendida, tentar a ajuda do capital. A História repete-se sempre duas vezes, a primeira como tragédia a segunda como comédia. Disse-o Karl Marx.

21.5.10

A hora do não

Foi preciso isto bater no fundo por razões externas e por motivos internos para, enfim, a demagogia e o irrealismo deixarem de imperar, impunes.
O demagogo que nos governa susteve enfim o discurso do oásis, cantata dos inconscientes, homilia dos trapalhões. Os governados que a sua retórica engana perceberam agora que os calotes são para pagar e o crédito ao consumo não é um saco sem fundo.
À agiotagem nacional, que foi enforcando consumistas locais, sucede a agiotagem internacional, que sabe afundar Estados e os compra depois de os arruinar.
Os bancos vivem horas nocturnas pavorosas para se refinanciarem. Compra-se dinheiro a qualquer preço. O fecho das Bolsas é um estertor e uma agonia.
Até o Governador do Banco de Portugal que ora nos mostrava luz ora escuridão, no pisca-pisca das estatísticas convenientes, parece, enfim, preocupado com tudo menos com o seu futuro.
De Berlim chega o alarme e Berlim é a locomotiva europeia: a Europa está em perigo.
Vem aí mais uma vaga de futebol. É a última esperança do Governo. As televisões que sirvam esse anestésico embebedando o País, dia e noite.
O líder da oposição, que parecia estar no sim com o Governo, diz agora que está totalmente no não.
Vendedores de mentiras, os políticos começam a ter medo. Um dia destes são socados na rua, fartos todos nós de palhaçadas.

20.5.10

A saloia resolução

Um Parlamento de provincianismos e de espírito de campanário eis o que se revela hoje no Diário da República: «A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo a manutenção do Serviço de Finanças de Viseu 2 em actividade».
Claro que se calhar o Serviço de Finanças de Viseu 2 faz muita falta, tanta quanta a estação de Coimbra B ou o ramal do Entroncamento.
Mas um Parlamento que se imiscui nos meandros miúdos da Administração é bem a mostra de uma representação nacional que se degrada ao específico quando há tanto no geral ao abandono.
A imagem do deputado inerte e inútil que uma vez por ano, com o hemiciclo às moscas e os seus próprios colegas de bancada distraídos, perora sobre os regionalismos da região que o levou ao poiso ainda se compreendia: era a gratidão do eleito face aos eleitores. Agora com os deputados escolhidos pelas sedes partidárias, os localismos meras câmaras de ressonância de interesses políticos e outros mais do que centralizados, porque pregará pelo chafariz, pelo hospital ou pelo tribunal?
No fundo continuamos a ser isto. Um país de arrivismos. Viseu sabe que tudo se decide em Lisboa. Como não é no Terreiro do Paço que se logra efeito, mete-se a cunha no Largo das Cortes. Viseu 2 e as suas finanças terão de continuar. Já agora, porquê, já que isso não no-lo explica a saloia resolução? 

PS. Estudei em Viseu, sou filho e neto de provincianos. Cheguei à capital do Império com dezassete anos. Nasci na remota Angola. Sei, porém, o que é ser-se pacóvio. É isto mesmo: o Parlamento, a mais alta representação da democracia sufragada, depois da chefia do Estado, pensar a este nível. Quando o País se afunda financeiramente resolve-se ali sobre as Finanças de Viseu 2.

18.5.10

O triolismo político

O Presidente da República tentou a lógica: para os homosexuais legalizarem as suas uniões não é preciso chamar-se a tal «casamento». Se as palavras ainda tiverem uma semântica neste mundo de verbosidade oca, seja. Com a mesma lógica então o partido que se diz chamar socialista tem de mudar urgentemente o nome que usurpa.
O Presidente da República tentou a pedagogia: os partidos na Assembleia da República bem poderiam ter tentado encontrar um consenso nesta matéria. Pois poderiam, se não fossem partidos e o tema não fosse dos que parte e que Belém não se iluda.
O Presidente da Republica tentou a dignidade: em nome da grave crise financeira que é o que ela é, promulgou a lei para unir os portugueses. De união se trata, de facto, sexual e pessoal.
Ora valha-me Deus. Para encontrar argumento Cavaco Silva escusava de se encostar à crise. Bastava dizer que se rendeu às conveniências, todos percebíamos e já ninguém se importava.
Ante a possibilidade enfim do casamento gay José Sócrates está feliz: a sua união nacional com o PSD é agora um jogo a três com Belém na mesma cama.

O pequeno portunhês

Finalmente o sol, o calor, a esperança de primavera! No íntimo a incerteza porque amanhã pode de repente chover, um sismo pode mandar Lisboa ao chão, as praças financeiras podem atirar Portugal para o lixo.
Optimista mesmo quando patético, casquinando subserviente um castelhano de rir só o primeiro-ministro. Ele é o sempre em pé!
Já se percebeu que o centro da soberania se joga em Bruxelas, o centro dos interesses em Madrid, o futuro disto tudo em Berlim.
José Sócrates escolheu uma vez mais o palco ibérico para o seu número de confiança. Atrapalhados também financeiramente, os espanhóis têm sobre nós esta particular vantagem: a arrogância de nos tratarem como província.
José Sócrates na capital da Ibéria alinha em conformidade: comporta-se como um provinciano, tentando ter graça, uma graça servil, com o seu portunhol. Ora coño!

13.5.10

A côngrua forçada

Estava na tropa em Mafra. Enfiaram-nos nuns helicópetros para voos pelas imediações. Ambiente de euforia. Quando se aterrou, a malta ainda exaltada de entusiasmo, leram as especialidades. Muitas significavam embarque para a frente de combate. Calhou-me armas pesadas de infantaria. Com o país em ambiente de Papa o Governo anunciou o pacote para a crise. Armas pesadas de infantaria também. Vem aí Nambuangongo.
No fundo é uma espécie de côngrua eclesiástica forçada. Já o cânone 1260 do Código de Direito Canónico reza: «a Igreja tem o direito originário de exigir dos fiéis o que é necessário para os seus fins próprios». Leu bem? Exigir! No Estado é parecido, com a diferença: mesmo os não devotos pagam!

10.5.10

Caçada real, caçada legal

Para um reforma se vender é preciso haver algo que os jornais comprem. Normalmente um nome e uma frase citável. Para isso o Governo tem hoje as suas agências de comunicação, que o vendem como notícia nos media.
O Governo quer simplificar o processo legislativo. E para isso inventou-se um nome: Simplegis. E para tal inventou-se uma frase: «Governo quer acabar, por ano, com 300 leis».
A ideia do nome percebe-se: é uma variante do Simplex, nome que já terá entrado no ouvido e nada como uma marca conhecida para dar credibilidade ao produto. A ideia das 300 leis entende-se: é que nada como um número para dar a imagem de que a coisa é séria e até já há contas para o demonstrar.
Ao ler isto lembrei-me quando estive no grupo de ligação luso-chinês. Como com a Declaração Conjunta sobre a questão de Macau a parte chinesa tinha garantido à parte portuguesa que seriam respeitados durante cinquenta anos os usos e costumes do território, quer dizer as leis que os portugueses tinham aprovado para Macau, a delegação chinesa, com cínica candura, pedia aos diplomatas portugueses que lhe entregassem a lista das leis em vigor.
«A lista?». Claro que não há uma lista das leis em vigor, porque no Ocidente com as revogações implícitas e as derrogações nunca se sabe bem o que vigora nem quando.
«Não têm uma lista», perguntavam os cínicos sínicos.
«Quer-se dizer...», balbuciavam os tugas, embaraçados...
Vem agora o Simplegis. À razão de 300 por ano, dentro de um século tá tudo revogado. A Nação poderá repousar, pois viu-se livre do Estado. Talvez então a Pátria se salve. Sem lei nem rei.




1.5.10

Uma economia humana

Uma economia que cresce gerando lucros sem pleno emprego não pode ser legítima, em função de nenhum critério de humanidade. Seja este o patamar comum de revolta para um dia 1º de Maio, que una mesmo os que, não provindo do marxismo, se revêm numa qualquer concepção que tome o homem como a medida e o fim de todas as coisas.

28.4.10

E que tal mudarem de nome?

«Juros da dívida portuguesa já superam os dos gregos quando pediram ajuda», reza o Público, em título. Com o novo líder do PSD a seu lado o primeiro-ministro «antecipa 'cortes' nas prestações sociais» esclarece o DN. Eis o bloco central a resolver a crise dos ricos com o ataque aos pobres. Chama-se a isto um governo socialista apoiado por uma oposição social-democrata. Como se nota, claro!

27.4.10

Esta noite o País está só

O País levou esta tarde um abanão financeiro tão forte quanto um sismo. A cotação do Estado português foi degradada para níveis próximos do alerta total. A cotação de cinco maiores bancos degradada foi em consequência.
Discutível que seja, a verdade é que os responsáveis internacionais convergem na ideia de que Portugal se aproxima da banca rota.
O triunfo das finanças sobre a economia, a geração de riqueza virtual e como tal especulativa, o ilimitado crédito, a demagogia governamental, a generalização do materialismo consumista, eis a receita explosiva.
Esta noite o primeiro-ministro, se tivesse o sentido da responsabilidade tinha aparecido na TV a dar a cara. Não esteve. Ele sabe que já não incute qualquer confiança. O demagógico e irresponsável discurso do optimismo balofo deu isto. Ele sabe que a aparecer seria motivo de desconfiança. Por isso esconde-se. O Presidente da República calado está. O País esta noite está sozinho a assistir à chegada do desastre. Portugal está à deriva.

26.4.10

Mente-se por medo

Nos círculos do poder murmura-se que o País atravessa uma situação altamente perigosa. O Presidente da República fala em «dúvidas quanto ao futuro do País». A possibilidade de Portugal abrir falência é afirmada já na praça pública internacional, na boca de responsáveis ligados à finança internacional. De há muito que se sabia. Medina Carreira tem-se farto de o dizer. Acusam-no de pessimista. É mais fácil fingir que se está bem ante a vergonha de se estar péssimo. Os Estados como as pessoas. Mentem.