28.11.11

A Europa do FEDER

Quero lá saber que me chamem nomes por citar o que vou citar. Não me chamarão seguramente é mentiroso. Porque ante o servilismo que a "democracia" portuguesa demonstra face ao poder do capital trans-atlântico, lembro este excerto de História, quando, finda a 2ª Guerra, Washington quis "ajudar" a reconstruir "a [sua] Europa", tendo Portugal sido convidado para integrar o número dos contemplados com o Plano Marshall e tendo o Presidente do Conselho manifestado ostensivas reticências.
Cita quem soube o que relatava: «Alguns ministros, mais directamente ligados ao fomento, inclinar-se-iam para aceitar a aplicação do Plano Marshall ao país. Salazar segue, no entanto, um ponto de vista diverso. Tem o chefe do governo suspeitas dos objectivos americanos: receia que a penetração dos Estados Unidos no sentido da Europa constitua, mais do que um auxílio a esta, um desígnio imperial de Washington; teme que uma preponderância económica e financeira americana no Ocidente europeu seja apenas uma forma de acesso às posições europeias no continente africano; e apavora-o a ideia de que a vulnerabilidade das estruturas portuguesas possa tornar estas presa fácil de um credor poderoso, que para mais se julga predestinado ao exercício da hegemonia global». 
Vem tudo aqui, para quem quiser mais do que chavões e sobre-simplificações maniqueístas dessa falsificação a que alguns chamam de "História Contemporânea". 
Ante esta aguda compreensão sobre os objectivos imperialistas da "ajuda" e a relutância em aceitá-la, e o seguidismo com que nos integrámos na Europa do FEDER, é caso para concluir como regredimos em inteligência e nos agachámos em dignidade. Com os resultados agora à vista.

20.11.11

Os dias da rádio

Escrevi neste blog um texto que me surpreendeu pela divulgação que conheceu. Chamei-lhe A Trapeira do Job. Talvez por ter ido de encontro ao sentimento de frustração, revolta, desânimo de tantos portugueses andou de mão em mão. O texto está aqui.
Era um texto saudosista, talvez, mas um convite a que tivéssemos saudades do futuro. Um texto que me fez pensar, eu que fui o seu primeiro leitor, os caminhos por onde tenho trilhado mais os meus.
A gentileza da Dina Maria da Rádio Sempre permitiu que pudesse ser não lido mas ouvido aqui
A rádio foi parte da minha infância e companhia em tantas horas. Ao sentimento de gratidão juntou-se a memória de um tempo feliz. Tinha-o escrito aqui.

18.11.11

Das Kapital!

A democracia que gerou os Berlusconi deste mundo entregou, no dizer de hoje de Zapatero, o poder ao Conselho Europeu e ao Banco Central Europeu. A Itália e a Grécia têm, por isso, governos nomeados pelo capital, que nenhuma urna legitimou. Tecnocratas dos credores para garantir que os devedores possam pagar.
Tudo é incerto. Como David Rosenberg disse, a volatilidade dos mercados é tal que a situação inverte-se em seis horas e meia. 
Idílico, António José Seguro, clama ainda por uma Europa da economia e não apenas monetária, como se neste momento a economia não estivesse a ser esganada pela política fiscal ao serviço das finanças.
Isto porque a acumulação do capital leva à crise endémica do capitalismo. Marx estava certo no diagnóstico, Lénine profundamente errado nas ilações. Por alguma razão o plutocrata Engels financiou o autor de Das Kapital. O marxismo que gerou a defunta Rússia soviética explica a moribunda Europa alemã.

10.11.11

O homem do Campo Pequeno

Um antigo professor de ginástica da Legião Portuguesa que se converteu primeiro à causa democrática que deu na Revolução de Abril de 1974 e depois depois no chefe da tirania do COPCON [e depois disso é melhor ficarmos calados quanto ao que foi a sua vida], veio agora fazer apelo a uma outra Revolução. 
Há quem esteja escandalizado. Eu não. A biografia cómica deste homem é a História trágica do País. 
É que, quando confrontado com ter dado as ditas aulas de ginástica a uma Legião que fora criada em 1936 para combater os «comunistas» e à pala disso tudo quanto era oposição a Salazar, Otelo Saraiva de Carvalho defendeu-se que o tinha feito pelo dinheiro que assim ganhava e de que precisava. 
A barca do venha a nós em que a Legião se transformara, apodrecido que estava o regime do Estado Novo, e que ele assim serviu mercenariamente, fez-lhe nascer o espírito de revolta e assim nasceu um revolucionário.
A História repete-se sempre duas vezes. Hoje Otelo lembra que Portugal precisa de Salazar e de uma Revolução, afinal, os dois pilares que o elevaram ao Panteão do Poder. São saudades do que foi.
Vindo isto da sua boca nem chega a fazer pena. Coitadinhos foi dos que o idolatraram, pensando que com o caminho que ele abriu e com o que se seguiu haveria um 25 de Abril que não retornaria ao 28 de Maio. Uma tourada.

6.11.11

Portugal tem medo!

Sabem o que é o fim da democracia? É as pessoas terem perdido a esperança de que Portugal pode mudar a partir do interior dos partidos. É as pessoas não acreditarem que os partidos possam mudar a partir de dentro de si mesmos.
Sabem o que é o fim da democracia? É as pessoas referendarem em eleições por uma cruzinha num cartão pessoas que não escolheram, como quem num restaurante come o que a lista lhe oferece e tem sido sempre o «prato do dia» em todas as refeições, votarem nos nomes, cada vez piores, que lhes são apresentados pelos que dos partidos se apoderaram.
Sabem o que é o fim da democracia? É o acto eleitoral ser um negócio pelo qual vendo o meu voto em troca de não querer saber mais da causa pública, salvo para me lamuriar e ficar inerte, com excepção, para alguns, dos dias de greve e de manif.
Sabem o que é o fim da democracia? É ver-mo-los chegar à política com uma mão atrás e outra à frente, vagas de desconhecidos, treparem esses vultos através das velhacarias em que os aparelhos dos partidos do governo se tornaram, e uns tempos depois, publicitados, travestidos pelo "marketing", aí estão cheios como odres ou em santuários de bom viver.
Sabem o que é o fim da democracia? É ninguém ter votado que se aceitassem a aniquilação da nossa agricultura e, corruptos, aceitámos, submissos, da Europa do capital o seu dinheiro para a destruir, mais a frota pesqueira, mais a capacidade de produzir até o que comemos e hoje vivermos do calote e do fiado, iludidos uns que era a modernidade que assim chegava, a da tecnocracia post-moderna a este cantinho nosso de labregos, e mais do que certos outros de que o dinheiro para a formação e para a reconversão tecnológica daria para uns anos de desbunda privada e ostentação pública.
Sabem o que é o fim da democracia? É uma pessoa escrever isto e haver quem receie que lhe chamem fascista e se ter criado um clima oculto de intimidação pelo qual se aluga o silêncio e se compra a complacência e ser mais barato fazer de conta e sobretudo mais rendoso.
Sabem o que é o fim da democracia? É estarmos em República a ser governados pela «troika» estrangeira, como na Monarquia pelos Filipes espanhóis e já não comemorarmos o 25 de Abril e ainda não ter chegado quem queira um 1640.
Sabem o que é o fim da democracia? É ter-se enterrado com os Fernando Nobre a ilusão de que nas AMI's deste mundo ainda haveria um resto de gente que se podia organizar e tirar este país do estado comatoso em que se encontrava, até se ter descoberto que, afinal, era mais um, a mesma ambição pessoal, a mesma incapacidade de agir, a mesma derrocada moral, o mesmo desânimo.
Sabem o que é o fim da democracia? É que os que podiam pegar nas armas do combate contra os que a puseram na viela escusa da má fama, em nome da democracia suicidarem-se com essas armas, por vergonha, por desespero, por já não aguentarmos mais.
Somos um povo de suicidas escreveu Unamuno e conheceu-nos como a Manuel Laranjeira, outro que acabou consigo, como se matou Antero de Quental com um tiro e Alexandre Herculano ao exilar-se. Somos de facto: lentamente rende-mo-nos à morte lenta, ao doce veneno de nos vermos à noite a morrer, em directo e na TV.
Sabem o que é o fim da democracia? É a democracia ter-se, afinal, tornado, através da farsa do voto, uma forma de reorganização mundial do capital à conta de quem trabalha. Entre o euro e o dólar, nos subterrâneos das praças financeiras, eis aí o combate nos esgotos pelo verdadeiro poder.
Ao longe, a milenária China espera o seu momento para nos vender como nas lojas de trezentos. Mais perto, os Árabes que, em nome da Cristandade chacinámos pelas Cruzadas, anseiam o momento da vingança.
Hoje, ante a liturgia da falência e seus coveiros, no cortejo funerário da miséria, reina um silêncio profundo, o silêncio dos cemitérios. Portugal tem medo.

25.10.11

A teoria do cano roto

Digam-me que não somos um mundo de loucos à solta? Permitimos o fabrico, a publicidade, o comércio de automóveis que na quase totalidade atingem mais de duzentos quilómetros horas. O que não é permitido em circunstância alguma. Depois para controlar os excessos de velocidade mobilizamos recursos humanos [polícias, magistrados, funcionários], técnicos [placas de sinalização, radares], legais, e tudo isso custa uma fortuna aos contribuintes.
Não seria mais fácil e mais barato pura e simplesmente proibir tais carros, metendo na cadeia quem os fabricasse ou adaptasse para tais velocidades, e apreendendo-lhes o brinquedo?
Há quem pense que seria uma violência. Assim como está é que está bem! Entre mortos e feridos por excesso de velocidade, cujas vítimas os tribunais indemnizam ao desbarato, combustível desperdiçado, o Estado lucra com impostos e perde-o na despesa. É a teoria do cano roto!

23.10.11

A faísca e o incêndio

Primeiro, foi a mão de obra clandestina que importámos para as grandes obras do cavaquismo e que tinham de estar prontas a tempo dos calendários políticos de inauguração e digo Cavaco sim, porque parece que este que está em Belém não se lembra que é o mesmo que esteve em São Bento. Milhares de homens, desenraizados, sem família, negros, eslavos, não importa de onde, tudo gente para o trabalho braçal, a viverem sem mulher, sem o aconchego de um lar, em trabalhos duríssimos, habitando na degradação da periferia. Gente que acumulou ressentimentos, que construíram o luxo para os outros vivendo na miséria própria, que criou o seu "ghetto", pelos bairros que são hoje barris de pólvora.
Depois, foi o coração generoso de António Guterres a criar o rendimento mínimo garantido, e a viverem dele, e a continuarem a viver dele, além dos que realmente precisam - e tantos milhares são de uma, pobreza afrontosa - , uma camarilha de exploradores, muitos marginais mesmo, a compensarem aquele vencimento certo com uns "biscates" de quando em vez e umas malfeitoriais sempre que podiam. Gente que se habituou a não trabalhar, a poder ficar manhãs até tarde na cama, a gozar de noitadas. E que agora,ao saberem pelas notícias que o que era doce acabou-se vai entrar no bom e no bonito da ressaca e com ela na violência, porque os hábitos de trabalho foram-se com o regabofe que a permissividade do Estado Social foi consentindo. A que se juntaram os que usaram e abusaram do subsídio de desemprego porque nunca encontravam emprego por não quererem encontrar emprego.
Enfim as mulas de carga do sistema, que alombaram com o trabalho de que saiu o que o País produziu, a sacrificarem-se para além das horas em empregos insuportáveis, a saírem estafados de um turno para entrarem noutro para que houvesse em casa mais pão, a aceitarem trocas para receberem mais algum, os que ainda tinham um "extra" ao sábado e ao domingo, gente que cozia roupa para as grandes superfícies, que fazia limpezas fora do horário nos empregos e noitada em segurança, os que davam explicações depois das aulas, os que se agarravam doze e catorze horas a um táxi. Gente que mesmo assim se endividou, gente que vai agora para o olho da rua por causa da gestão danosa de quem esteve no poder, gente que vive no terror de não poder pagar a casa, gente que já não paga a escola dos filhos, gente que, mesmo no come-em-pé se fica por uma sopa.
Não sei onde, não sei quando, bastará uma faísca para que um incêndio consuma o País no Inverno.
Leio na impressa que o coronel Vasco Lourenço pede aos militares se coloquem ao lado do povo no caso de uma alteração da ordem pública. Dir-se-à que é um sinal, ou uma sugestão, ou um aproveitamento.
Não sei que militares temos ainda num País que terá mais oficiais do que soldados. E se os militares não foram entretanto capados pelos civis e hoje não são apenas o Exército da indiferença, travando a batalha de naval nas repartições ociosas.
Sei sim o povo que temos. E sinto que a revolta está na ordem do dia. Não a das manifestações de rua da greve geral que o aparelho da CGTP e os apparatchicks do PCP conseguem ainda enquadrar, a bem da ordem pública e do sistema, mas a revolta sem partido nem ideologia, a revolta que é a mais que a de extremismos políticos, a revolta sem política e contra tudo, a explosão pura do já não aguentar mais.
O melhor sinal, o mais audível, veio da Igreja. Tem-lhe cabido apontar o Mundo como sacrifício e o Céu como promessa e oferecer rezas e novenas como método, cuidando, através das Misericórdias, dos mais urgentemente necessitados. Ora são da Igreja as vozes de onde surge o alerta. Quando o Patriarcado já não acredita em milagres, talvez não haja Virgem de Fátima que nos valha.
Não sei em que dia nem como nem porquê. Mas ou o Governo pára e pensa que está a ir para além do que lhe é permitido ao carregar nos que mais precisam e ao apoucar-nos continuando a abrir excepções em favor dos mesmos de sempre ou isto acaba mal. Muito mal mesmo.

22.10.11

Alemanha: entre o ressentimento e a dependência

Mas as pessoas esquecem, ao avaliar hoje a psicologia do povo alemão, as imposições a que sujeitaram os alemães, em 1919, com o Tratado de Versalhes, nomeadamente o pagamento aos países vencedores, principalmente à França e à Inglaterra, uma indemnização pelos prejuízos causados durante a guerra, no valor de 269 bilhões de marcos? Se esquecem, é só lerem aqui e aqui.
As pessoas esquecem em que medida esse opróbio gerou um sentimento de revolta que é uma das géneses do nazismo?
As pessoas esquecem que foi o dinheiro americano do Plano Marshall [1,448 milhões de dólares, entre 1948 e 1951, valor à época] que permitiu a reconstrução alemã e da Europa em geral?
Mas as pessoas são amnésicas ou incultas?
Entre o ressentimento face aos outros europeus e a dependência face aos americanos, eis a Alemanha, esse animal encurralado em busca do seu espaço vital, maior em ambição e capacidade do que o espaço territorial onde nasceu.

20.10.11

A trapeira do Job

Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente. 
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam ainda da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio e de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que, ao mudar-se de sala, se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça. 
Foram anos em que o campo se tornou num imenso ressort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O País que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade, vindos dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e, às vezes, nem obrigado. 
O País que produzia o que se podia transaccionar esse ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente.
Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria industrial pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado, que caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho ungénito e mais uma trinitária pomba.
Às tantas os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa porque estávamos a importar brasileiros, não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista, trocado pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende. 
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois, que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o mando, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura em Bizâncio discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

15.10.11

Bon chic, bon genre

Confesso que o homem me irrita. E confesso que ainda mais me irrita a corte de quantos o deificam, nele vêem o Catão das virtudes, o Moralista por excelência, o Polícia dos costumes. E acreditam que o dizer mal de tudo decorre de uma pureza de alma e de uma coerência de carácter.
Não é só ele. Há pelo País uma pleiade façanhuda de gente mal disposta e mal encarada que, por um lado, têm sempre opinião sobre todas as coisas e, segundo, se julgam o relicário das virtudes. E com lugar cativo na imprensa, doutorais e papais.
Um dia passo-me e conto a história pregressa do Vasco Pulido Valente Correia Guedes. Do que fez para chegar a assistente de Económicas. E do mais e quanto tudo isso foi de vergonhoso e como foi a história de uma ambição feita método.
Dir-se-à que isso que eu contar foram estouvadices do seu passado juvenil, como o deveria mencionar a testemunha abonatória que então indicou à PIDE/DGS, nos autos ali abertos, a seu pedido, e chamados de revisão, o Dr. António Martinha, dos Serviços de Censura, colega na mesma do pide António Barbieri Cardoso.
Não! É que houve quem, nesses anos de chumbo, comeu o pão que o Diabo amassou e foi expulsa da Universidade e corrida de empregos públicos e até na privada se lhe fecharam as portas. 
Gente que aguentou firme, não delatou, não jurou fidelidade à Constituição de 1933, não traiu. Gente da classe média que ele hoje despreza, com a sua arrogância patrícia de bon chic bon genre, como se lê na sua crónica de hoje no jornal Público.
A farsa do diletantismo é o circo das democracias caducas. Nela há duas regras de vida: o epicurismo burguês e o desprezo pela criadagem. Que eles, os snobs malcriados, acham somos todos nós.
Detesto falar de pessoas. No caso falo de uma encenação.

O Estado e a Revolução

Encostada à parede, a classe média é o terreno fértil onde pode florescer a semente do revanchismo autoritário. Foi assim que surgiu nos anos vinte o totalitarismo ateu alemão, o fascismo concordatário italiano e a rural ditadura católica salazarista.
Há nela, a pequena burguesia, o desprezo pela plutocracia argentária e o arrogância face ao operariado bolchevista.
Não é de excluir que a revolta surja daí, partindo-se o País pelo seu elo mais fraco. 
Além disso, obediente à troika o Governo eximiu-se de carregar no capital, por pensar que a crise financeira se resolve com a acumulação do capital. Por muito que tenha errado, o marxismo já tinha demonstrado que era o inverso. Ontem o primeiro-ministro mostrou quem vai ser sangrado para que esse capital se encontre.
Ademais Portugal é uma Nação governada por funcionários endividados e administrada por políticos que são funcionários dos credores.
Tudo junto, basta uma faísca não importa em que Grécia, ou uma primeira rixa de rua, a revolta torna-se em insurreição.

26.9.11

A cavalo dado...

Estará aqui a solução. Ou pelo menos um esforço para o encontrar. Vinda dos States, como o Plano Marshall. Uma mistura de globalização, monetarismo, aforro e tudo em doses cavalares. Temos visto cavalos com ideias bem piores...


24.9.11

Os dilectos "filhos do povo"

Se, neste momento em que a  Eurolândia se desmorona, Durão Barroso, um radical de que os americanos se serviram para, através do MRPP, combaterem o marxismo em Portugal, for o amigo útil ao tio Sam em Bruxelas, deverá pensar olhando para o "tigre de papel" que é o capitalismo a arder, tal como o Presidente Mao, seu líder espiritual:  «devemos apoiar tudo que o inimigo combate, e combater tudo o que o inimigo apoia». 
E ler o livro de Henry Kissinger, a amoralidade feita política de ping-pong...
O seu pensamento aos dezassete anos torna-se acção aos cinquenta e cinco.

20.9.11

A rumba

Gastou-se, esbanjou-se, "à tripa forra". O Estado e os particulares. A Administração central, a local e a regional. Fizeram-se estádios de futebol, poli-desportivos, rotundas, centros culturais. Viveu-se do cartão de crédito, do compre já e pague depois, das férias no Verão que pagará no Natal. 
Os políticos sabiam e queriam. As entidades de supervisão, de fiscalização, de investigação, sabiam e deixavam. Dava para todos. Os do costume alombavam com a carga da poupança, do pagamento a tempo e horas, com o que ainda se produzia, bestas de carga de um país de tantos burgueses anafados e muitos operários aburguesados.
De vez em quando um fazia de bombo da festa nos tribunais ou nos jornais, para que a festa continuasse.
A vaca leiteira da CEE alimentou o sistema, a grande teta da política e dos partidos do governo, os empresários "da formação profissional", os "agricultores do monte alentejano mais o jeep", as micro-empresas de coisíssima nenhuma.
Portugal tornou-se "gourmet", epicurista, inventou-se um "Allgarve" alarve. Uma geração de "yupees" tecnocráticos tomou conta da economia virtual, do mundo novo em rede, das finanças e da bolsa. O velho mundo do real e do tangível sujava demasiado as mãos. Tornou-se tudo capa de revista em papel "couché".
Depois foi a ressaca da bebedeira.
Primeiro as famílias endividadas até não poderem mais; agora é o Estado falido.
O País que se decapitou na capacidade de produção por se ter corrompido à Eurolândia é o mesmo País que sustenta hordas de chulos a viverem do erário público, alegando tudo menos vontade de trabalhar.
Só faltava a imoralidade. Eis a hora. Rendido à agiotagem, pela administração danosa, o Estado mostra agora que  aldrabão é, porque escondeu calotes, ocultou a realidade da sua falência, mesmo na hora de negociar com os onzeneiros tenta fingir que não está tão endividado.  O último primeiro-ministro mentiu até rebentar, o actual tenta que acreditemos que só agora os que o rodeiam sabiam a verdade.
É o tempo da borrasca e da rixa, o "chic" a dar em tasca. A maior parte dos que cá andavam, jogam-se, porém, para fora da taberna. São todos inocentes, porque não sabiam. São todos inocentes porque foi o partido do outro. São todos inocentes porque era no tempo da anterior direcção do seu partido.
Alberto João Jardim, esse, faz de Rei Momo, o seu papel preferido. Pergunta porque não lhe perdoam já que perdoaram às colónias. O nosso complexo ante a sua insularidade é o mesmo complexo ante as colónias, o receio de não querermos parecer colonialistas. Dele, como das autoridades das ex-colónias ouvimos tudo, no mínimo enxovalhos e insultos. Com a diferença: nas colónias andámos aos tiros contra eles, na Madeira, "cubanos" que somos de mentalidade, sustentámos a rumba política  e a cachaça eleitoral.

6.9.11

O Império da Lei

São países em que os governos estão sujeitos não só ao controlo parlamentar mas a fiscalização de legalidade pura. Veja-se o que se passa na Alemanha e a ansiedade com que é esperada a decisão do Tribunal Constitucional quanto aos compromissos que o Governo Merkel assume no quadro do seu envolvimento financeiro na crise da União Europeia.
Citando:
«One week after German Chancellor Angela Merkel’s Cabinet ratified additional measures to combat the euro-area debt crisis, the nation’s top court will rule on whether her government was right to take part in the rescues at all.The Federal Constitutional Court in Karlsruhe will issue a ruling on last year’s bail-out packages tomorrow. While anxiously anticipated by lawmakers and scholars, investors believe the judges are likely to rubber-stamp German participation in the bailouts, said Kai Schaffelhuber, a capital markets lawyer at Allen & Overy LLP in Frankfurt.» Toda a história aqui.

Situações que dificilmente se imaginariam aqui onde o Governo goza de um estado de complacência tradicional face ao controlo jurisdicional.

23.8.11

E esta hein?

Um destes dias ouvi na rádio uma entrevista em que o entrevistado contava como é que Salazar, curioso que estava ante a personalidade de Agostinho da Silva, na altura exilado no Brasil, arranjou um modo clandestino, à revelia da PIDE (sic), combinado com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, para que o exilado professor visitasse o País. 
Segundo o entrevistado a coisa só não resultou porque, ao chegar ao aeroporto, Agostinho da Silva foi preso pela PIDE, que não saberia dos secretos manejos a alto nível. E, ante esse inesperado facto, Franco Nogueira, em traje cerimonioso de soirée, pois estava num banquete oficial na Ajuda, lá teve de ir ao aeroporto tentar remediar a situação.
Perguntou o entrevistador, da Antena 2: «e o professor foi recebido por Salazar?». Esclareceu o entrevistado: «não, porque depois do que sucedeu com a PIDE já não seria possível...foi recebido sim pelo ministro Franco Nogueira...».
Que pensar disto tudo?
Que é mentira, uma inventona, dirão! 
Claro que o entrevistado cita a fonte: foi o próprio Franco Nogueira quem lho contou.
E claro que o entrevistado tem escrito livros sobre Salazar, que têm sido recebidos com muita bonomia pela própria esquerda política, et pour cause
E claro que o entrevistado sabe do que fala, porque sendo da terra da Dona Maria, a lendária governanta do Presidente do Conselho de Ministros, ia a São Bento amiúde até para explicar ao homem de Santa Comba como ia a agricultura.
E, esquecia-me, o entrevistado chama-se Fernando Dacosta, jornalista.
Ante isto, como diria o Fernando Pessa: «e esta hein?»

16.8.11

A hora da indecência

«É roupa usada mas está em bom estado», dizia-se do lado de cá, pensando que, por ser um lar de freiras que recolhiam idosos estariam imbuídas do sentimento da caridade e porque há pobreza em Portugal e pouco quem pense nela. Cruel engano. Ríspida, a resposta cortou cerce a ilusão: «Se for um saco ou dois, está bem, mais não!». E para que não houvesse dúvida de que a antipatia da voz correspondia à antipatia da atitude, atalhou «e vejam lá se aparecem a horas decentes», querendo dizer com a noção de decência antes das oito da noite!
Ah! que ira cristã, a mesma do próprio Cristo quando empunhou o azorrague contra os vendilhões no Templo, ele que era o arauto da religião dos mansos!
Vergonha e indecência! Se alguém conhecer quem precise e queira, porque é roupa usada mas em bom estado e vamos a horas decentes e entregamos no local. E entregaremos a quem disser representar o Diabo porque destas representantes de Deus estará o Inferno cheio.


13.7.11

O colossal desvio

A política é arte da argumentação. Visa o governo da Nação, através do Estado mas mediante a adesão do Povo. Mesmo quando se impõe o mal a uns há outros que aceitam essa imposição que outros rejeitam sofrer. Mesmo quando se sacrifica uma geração presente parte-se do pressuposto do aplauso da geração futura.
Até os ditadores não se livram deste contrato social implícito. Para eles é a Pátria ou o próprio Deus a fonte da aquiescência.
Por se moverem na arte de argumentação e no domínio da retórica os políticos têm de ter cuidado com as palavras. Manuela Ferreira Leite passou um mau bocado quando sugeriu que a democracia se interrompesse para bem do País. E ela teve de se interromper porque o acordo com a troika foi firmado fora da anuência parlamentar e apenas referendado a posteriori indirectamente em eleições. Já a adesão à então CEE aconteceu em tempos como política de facto, puramente governamental, ante um País que imaginava que tal só traria o El Dorado dos subsídios, mesmo à conta do suicídio da mais séria das autonomias, a alimentar. 
Voltando às palavras. Sabe-se como um ministro perdeu o seu lugar por causa de uma anedota sobre alentejanos, como outro teve o mesmo destino por via da linguagem gestual de cunho taurino.
Vem isto a propósito de Passos Coelho - que pensa que para se ser ouvido multiplicadamenete se deve falar superlativamente - ter lançado para os ares que os do Governo deram conta de um desvio «colossal» nas contas públicas face àquilo que o anterior Governo apregoava, enquanto que Miguel Frasquilho - mais técnico e por isso mais prudente - teve de vir dizer que o desvio «colossal» era, afinal... um «grande» desvio.
A oposição começou já o batuque em torno da palavra. Já se clama por explicações, idas ao Parlamento, enfim espectáculo político.
E o País que está esfaimado de substantivos vai assistir a mais uma ridícula e essa sim colossal batalha de adjectivos.O primeiro-ministro tem de aprender a ter tento na língua. Já dei comigo a pensar nisso por mais de uma vez. Não é que a minha observação conte. Sou ninguém e não quero ser alguém. É apenas porque, quer no espaço nacional quer na cena internacional, há quem leve as coisas a sério e esteja sobretudo à espera de uma palavra que revele ainda mais o nosso estado comatoso.

1.7.11

Os 50% de verdade

Eu não sei em que medida é que o Governo cuida da sua própria imagem e da forma como comunica com os cidadãos, meio pelo qual se ganha por vezes uma péssima imagem.
Mas esta madrugada vejo esta notícia: afinal o subsídio de Natal não será cortado em metade. Apenas será cobrado 50% do valor que excede o salário mínimo nacional. Vem aqui
Confesso que tudo isto é bizarro! Um Governo que sabe que o País começa a viver em alarme permanente. Que deixa que desde líderes de oposição até ao pobre Zé da esquina se angustiem, revoltem, desesperem ao verem o dinheiro com que já contavam - quantas vezes nem para Natal sequer! - a ir-se em metade e só agor, estando a procissão do protesto já no adro é que se lembra de vir esclarecer!
Continuem assim que não vão longe!
É que das últimas uma: ou era uma falsa notícia e havia que desmenti-la logo no ovo ou então era uma verdade de que o Governo se arrepende e então é melhor terem melhor cabeça para não terem a breve prazo que terem pés para fugir à ira popular.

25.6.11

Governar com os jornais

O primeiro-ministro tem de ter muito cuidado com os efeitos mediáticos que cria ou que deixa que se criem. Esta do viajar em turística é um delas.
Num instante um efeito tornou-se noutro; o primeiro, vantajoso e encorajador, o segundo prejudicial e desmoralizador.
Soube-se que Passos Coelho viajaria para Bruxelas em turística. Muitos saudaram como um notável exemplo de parcimónia nos gastos e de contenção de despesa, de moralização, afinal, das Finanças do Estado.
Como os contribuintes estão desconfiados, surgiu logo no instante a insidiosa dúvida: mas viajará sempre doravante em turística?
Ante isto, Passos Coelho, que navegava nas águas reconfortantes das boas maneiras, teve de entrar logo à defesa, fazendo explicar que era só na Europa. Naturalmente, porque ninguém supõe que um primeiro-ministro se canse fazendo viagens de longo curso na incómoda cadeira e no confinado espaço do moderno transporte de massas em que o avião se converteu.
Claro que, melhor informado de qual era, na verdade, a real economia com este gesto simbólico de poupança, Passos Coelho teve de fazer clarificar que, afinal, do que se tratava era de deixar livre um lugar na executiva, para que a TAP o vendesse e não fosse ocupado pela sua pessoa. Ou N lugares consoante a comitiva... Ou seja, já não era poupar o pagar, porque não pagava, era apenas dar à companhia transportadora a oportunidade de gerir a diferença de preço entre uma classe e outra. Isto é, o gesto tinha mais som do que tom.
Mas o difícil estaria para vir. Fonte ligada ao anterior executivo - que não revelou o nome (claro..) - explicaria que, afinal, os do governo não pagavam quando viajavam na TAP. Escândalo!
Ante isso, Passos Coelho teve de encostar às tábuas do mutismo. O seu gabinete já não prestou declarações. A TAP já não prestou declarações. Pior, um seu assessor veio dizer que não foi o gabinete do PM quem fizera aquela fuga de informação, a inculcar a ideia "a contrario" de que o gabinete faz fugas de informação, o que é confessar um incómodo que ainda vai custar caro!
Enfim!
Desejei a Passos Coelho e ao seu Governo a melhor sorte.
Louvo aqueles que aceitaram ser Governo nesta tremenda situação. Vão enfrentar a ira popular, sabem que se falharem cai tudo. É um Governo de última oportunidade.
É bom que não estraguem o importante com improvisos.
Se Pedro Passsos Coelho quer agir sobre este tópico há um modo muito simples. Neste caso havia, porque já se estragou metade do que poderia ter sido.
Primeiro, informa-se quanto a quem paga à TAP; no caso de haver quem viaje à borla, legisla e politicamente acaba com o abuso. Em nome da transparência das contas públicas. Para que a arruinada TAP receba por todo o serviço que presta, para que o Estado pague toda a despesa que cria.
No mesmo instante, estabelece critérios gerais quanto a quem tem direito a viajar em que classe. Porque é ridículo o primeiro-ministro viajar em turística e na executiva irem directores-gerais e gente das empresas públicas. No mesmo avião em que vão familiares de pessoal da TAP à borla.
E, enfim, quando falar ao País, o País percebe que não é um gesto é toda uma atitude que mudou e de que o primeiro-ministro é o primeiro exemplo: mais verdade nas finanças, mais restrição na despesa, mais moralidade no Estado.
Na política não basta ter boas intenções é preciso saber pô-las em prática. Quando usamos os jornais para Governar, é bom que se saiba que é um mundo de papel em que se arde muito depressa.