6.1.12

Pedradas entre a pedreiragem


Sociedade iniciática destinada ao conhecimento esotérico, através de rituais simbólicos, associação benemerente, clube filosófico, deísta na tradição inglesa ou agnóstica na tradição francesa, a Maçonaria pode ser uma agremiação de pessoas de bem, afirma-se ser de «homens livres e de bons costumes», como consta de um dos seus textos fundadores. O problema é a definição do que sejam «bons costumes»
Fernando Pessoa, que não era maçon, defendeu-a honradamente num memorável escrito, quando foi promulgada legislação que levou à sua extinção pelo Estado Novo. 
Estado Novo, diga-se, de que muitas das suas figuras gradas pertenciam a lojas maçónicas e detinham altos graus. Foi maçon o próprio Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, foi maçon e fundador da loja Fernandes Tomás, na Figueira da Foz, o professor de Direito José Alberto dos Reis. O primeiro, promulgou a lei que ilegalizou a Maçonaria, o segundo presidiu à Assembleia Nacional onde se votou. Figuras da Igreja Católica, com grau de Bispo, foram membros da Maçonaria. Fiéis ao seu Deus e ao Supremo Arquitecto do Universo.
O facto de a sociedade dos pedreiros-livres se prestar a conluio e a perversões  é tão antiga como a sua existência. A sua defesa e os ataques contra ela são parte da História Contemporânea. Trata-se de uma entidade que já recebeu como irmão o ditador Augusto Pinochet e de que fizeram parte a quase totalidade dos Presidentes dos Estados Unidos da América e grande número de membros da Família Real Inglesa. Além de uma multidão de pessoas que, em termos de importância social, são nada. E gente decente que nada tira e tudo dá.
Há nela de tudo. E há sobretudo quem esteja nela pelas mais díspares razões, incluindo as moralmente honestas. E quem a abandone pelos mais variados motivos, incluindo os miseráveis e até pela inconsciência de ter estado. E o seu contrário. 
Alexandre Herculano, ao ter saído, mal entrara, escreveu, em 1876: «Uma das minhas rapaziadas foi ser pedreiro livre. Não tardei a deixá-la (à Maçonaria). Achei a coisa mais inepta, mais inútil e muito mais ridícula que uma irmandade de carolas». Sucedeu a muitos.
Salazar, um católico que o CADC animara, sobrepôs a sua ânsia de poder total à sua moderação conservadora, e fez decretar, através de uma Lei n.º 1901, proposta na Assembleia Nacional pelo deputado José Cabral, a extinção da Maçonaria, Lei das Associações Secretas, a votada sob Alberto dos Reis e firmada por Carmona, em nome da qual todos os funcionários públicos teriam de jurar não pertencer nem jamais pertencer-lhes. 
Foi por causa do jamais pertencer que o filósofo Agostinho da Silva, em nome da liberdade de poder vir a pertencer, se exilou no Brasil. Quis, já agora, o paradoxo que voltasse a Portugal para um encontro secreto com o mesmo Salazar, através de um arranjo organizado por Franco Nogueira, Ministro dos Negócios Estrangeiros do antigo regime, mas quiseram as fadas que o encontro não tivesse lugar, porque tinha havido uma indiscrição. E daí que esse encontro secreto tivesse passado a um momento discreto na vida do filósofo que não abjurara o secretismo, e que era, aliás, um grande homem e um notável vulto da Cultura.
Escrevo isto porque está na ordem do dia a questão de, a coberto da Maçonaria, poder haver arranjos interesseiros entre políticos, negócios e serviços secretos e outras tropelias. E estar em causa quem deve ou não pertencer. E discutir-se se o mal não é a Maçonaria em si ou aquelas ovelhas negras do rebanho laico.
Não faz dúvida ao meu espírito nada do que se discute. Por isso aqui estou.
Não há uma Maçonaria, sim lojas maçónicas. Cada uma tem autonomia e pode albergar uma corja de bandidos ou um grupo de ingénuos. Não há uma Maçonaria, sim várias Maçonarias, com várias orientações filosóficas e diversos rituais, de que os ritos Escocês Antigo e Aceito e o Francês são os mais difundidos em Portugal.
Não se trata em rigor de uma sociedade secreta, porque tudo o que ali se passa de regular e lícito consta de uma imensa biblioteca disponível em qualquer livraria e cada um é livre de declarar a sua pertença. O segredo da Maçonaria, a justa e perfeita, é outro, é o conhecimento gnóstico que a fraternal cadeia de união, através do ritual, permite alcançar, o mistério da morte e ressurreição, a transmutação da imperfeição, uma  alquimia em que se torna o chumbo corpóreo na alma aurífera. O tentar o encontro do homem com o Homem, a semente do Humanismo. Como se num êxtase, uma celebração, uma epifania. Quando sucede.
Problema é o que se possa passar nos bastidores, pior, nos esgotos dali. E que a natureza da organização torne suspeito porque menos claro. Daí que eu ache que magistrados não devem fazer parte de nada que não seja público, laico ou religioso. Porque não se podem expor à mínima dúvida.
Claro que, acossadas pela simplificação que os media servem e a política instiga, as pessoas perdem o fiel da balança mental que é o elemento comparativo. O medo ajuda a não pensar. E nada como quem não pensa muito para condenar depressa, tudo e todos.
Num país maioritariamente católico, ridiculariza-se o usar avental em cerimoniais, esquecendo que os padres católicos andam de saias, casulas, estolas e se munem de báculo e hissope e outros artefactos que, vistos de fora, podem ser tão absurdos como ridículos para os que perderam o respeito ao que é simbólico e cuja alarvice os levaria seguramente a rir à gargalhada quando, no momento agónico de uma missa, aquele sujeito assim vestido eleva os braços com uma roda de farinha e a um cálice e dele bebe o vinho! 
E com isso se faz blague e risota fácil.
A partir daí está aberta a porta à argumentação barata, mesmo vinda da boca dos que deveriam ter da inteligência um pouco mais de sobejos. Transformada, no arengar desses, em baile de máscaras, a Maçonaria degradada a Carnaval, os seus membros tornam-se palhaços idiotas enfeitados e o Zé Povinho ri, apoucando, às escâncaras, como se o circo tivesse descido à cidade.
Claro que tudo isto é fácil de passar a espectáculo nos meios de comunicação de massa onde se perdeu pudor na argumentação e sobretudo respeito, tudo afogado pela rudeza vil e pela insolência canalha. Basta ligar a TV e ver o lixo nauseabundo que é servido ao País como entretenimento, a devassa sórdida, a violência sanguinária, a repugnância verbal do palavrão a passar por humor, a demagogia.
 Mas não é só do ridículo que cuidam os que vêm para a praça pública por causa da Maçonaria. É que, segundo alguns, ela permite ilegalidades e crimes impunes, porque secreta. Ora está aí o ponto por causa do qual vim aqui.
É que os mesmíssimos que assim o proclamam são os que esquecem, em amnésia conveniente, que, em igual critério, a própria Igreja Católica escorre sangue e vergonha porque se comprometeu, em nome da Fé, com coisas bem mais graves do que negociatas e combinas, quando legitimou a carnificina das Cruzadas contra o Infiel ou o extermínio indiscriminado pela "Santa" Inquisição. Para não falar da pedofilia, em Papas sodomitas e assassinos. Houve tragicamente de tudo. 
Com uma diferença para pior. É que, na hora do apuramento das contas, dos maçons os honrados ainda podem dizer que, dada a discrição com que tudo se passa no seu seio, não sabiam do que de gravemente errado se passava na Obediência, e dada a autonomia de cada loja e seus triângulos poderão argumentar que só algumas estarão em crime de prevaricação e que ainda há quem se salve. 
Na Igreja Católica, das catedrais carregadas de ouro às capelinhas rurais despidas de qualquer adorno, tudo se passou e passa sempre de casa cheia e à vista de todos. Todos os que se ajoelham em oração ou no silêncio dos seus lares rezam ao santo da sua devoção não ignoram o que foi e o que é o Templo Universal a que pertencem e sobretudo a sua História. Impõe-se-lhes humildade e pedido de perdão. Quem estiver livre de pecado que atire a primeira pedra.
As centenas de milhares de seres humanos que, em nome da Fé Cristã, foram exterminados, no dia do Juízo Final levantarão, acusadores, o dedo, sim, para para toda a cristandade. O mesmo Deus que permitiu a matança terá de absolver os matadores.
Inocentes há seguramente também no catolicismo, os que estão na religião por uma união mística com o Divino, os da Igreja de Paulo pedindo perdão pela Igreja de Pedro. Os que rezam a Deus e não a sacerdotes, os que renegam o Bezerro de Ouro, os que clamam por Jesus Cristo e seu azorrague contra os Vendilhões do Templo. Como em todos aqueles cuja Fé passa por Igrejas e Templos.
Um dia, na aldeia de Abravezes, era eu garoto, ouvi, à porta de minha casa, a minha mãe, no dia de hoje precisamente e a esta hora entregue na mesa cirúrgica ao acaso da vida e da morte, rematar uma altercação violenta com o cura da paróquia, que se recusara a ir encomendar o corpo de um pobre tuberculoso, que vivia de esmolas num palheiro, por não ser dos que pagava a côngrua. Rematando o responso, ela que tinha ido ao cemitério, de livro na mão rezar o «dai-lhes Senhor eterno descanso», o que qualquer Baptizado pode fazer como última oração antes que o pó se torne pó, lançou-lhe, como se em danação moral, àquele vergonhoso vigário: «E saiba Senhor Padre, que a minha Religião é directamente com Deus, dispensa Padres!». 
É a diferença entre a Fé, os ideias, os princípios e as organizações humanas que dizem servi-los.
Eis o que nesta manhã, o meu coração íntimo dorido sentiu e a minha cabeça privada cansada pensou.
Enfim a parte cívica, pública, social: se há que denunciar vigarices, arranjismos, compadrios, pulhices a coberto de organizações, vamos a isso! Mas vamos a direito. Que não seja só nos serviços de informações. 
Há uma forma simples: cada um declara a sua pertença presente e passada e o porquê: mas que isso suceda nos jornais, nos tribunais, na política, nas organizações religiosas.
Quanto a mim o que havia para saber sabe-se e soube-se pela minha boca.
Mas, já agora, porque quando o Sol nasce é para todos e o de hoje teimou em chegar, há horas com este texto que arranco às entranhas da alma, não só ser maçon: que nada escape. Que se faça um varejo de alto a baixo da influência e penetração que tiveram outras organizações, essas à pala da religião, na vida portuguesa. 
Basta de hipocrisia, chega de velhacaria! 
A certos e determinados que estão silenciosos quais fantasmas, lembro-lhes, para incutir ânimo, o que o seu Jose Maria Escrivà de Ballaguer escreveu: «Vira as costas ao infame, quando sussurra aos teus ouvidos: "Para que te hás-de meter em complicações?"».  Venham esses também, para a praça pública, que agora é que isto está bom e sobretudo apetitoso e é a oportunidade sacrificial da mortificação. 
Querem portanto discutir os organismos de influência em Portugal e no Mundo? Embora, vamos a isso! Até por uma questão de higiene moral e cívica.
É pois hora de barrela!  Hora de arregaçar mangas, pôr a água a correr, venha a sabonária e a lixívia. 
Que este Pais, que mete nojo e cheira mal, está a precisar de uma boa esfrega!

4.1.12

Dies Irae

Chego a casa. Tento saber o que se passa do mundo de onde vim. Uma sensação de náusea profunda ante o abastardamento dos ideais, o afundamento dos princípios, a rarefacção da inocência, o emporcalhamento dos bons costumes. De Mozart apenas o Requiem é possível e dele um único andamento: o Dies Irae! 
Que a cólera se abata sobre os vendilhões do templo, de todos os templos. 



1.1.12

O Império da Inocência

Lê-se por todo o lado, no que se diz e escreve e no semblante abatido das pessoas, é a alma corroída, o sentimento de desânimo, a falta de esperança, a resignação. Até da revolta há receio, o medo do que amanhã possa trazer. 
Portugal perdeu a memória do passado e por isso receia o seu futuro. Um País assim teme pela existência.
Entristecemos. A saudade, esse característica do nosso modo de ser, tornou-se nevoeiro. Das praias de onde saiu a nau da Índia, olha-se hoje para as areias desérticas de Alcácer-Quibir. Masjá não se espera pela alvura de Dom Sebastião, mas pela vingança daqueles que ele, em funesta loucura, quis afrontar.
Suicidámos a glória vã depois da vil cobiça. Dilatámos uma Fé quando já tínhamos perdido a Esperança.
Só que oito séculos de Nação, quando não havia sequer Europa e da América nem o sonho, resistirão! Nem que, ao clamar da Pátria, se erga o Povo contra o Estado, pelo Império da Inocência!

28.12.11

O balcão dos despejos

Amanhã, segundo li aqui, o Conselho de Ministros aprovará um diploma legal que «tirará os despejos dos tribunais», criando um «Balcão de Despejos» ou coisa de nome semelhante, a cheirar a efluente.
Quer isto dizer que a cessação dos arrendamentos vai ser subtraída à competência dos tribunais. Em nome da celeridade, porque se concluiu que nos tribunais levam eternidades. Em nome da simplificação, porque a acção judicial respectiva estará pejada de incidentes e complexa tramitação.
Tudo isto poderia ser mudado mantendo-se a competência judicial.
Só que há só duas coisas que tudo isto esquece. Duas coisas que passaram a pertencer ao mundo da Humanidade, a um tempo em que havia pessoas e não números numa estatística.
Primeiro, que o que está em causa é o fim do conceito de lar. A ideia de que o fim de um arrendamento e a desocupação de uma habitação equivale ao desarticular de um lar passou a pertencer à História, ao passado das preocupações colectivas, neste mundo actual de indiferença ante a sorte dos outros, ao passado da existência de famílias estruturadas.
Hoje o capitalismo fundiário tudo perverteu. Temos inquilinos a explorarem senhorios, sub-arrendando a preços leoninos e auferindo lucros à conta das esmolas que pagam como rendas, os prédios a desmoronarem-se. Temos rendas proibitivas porque o custo de construção subiu exponencialmente ante a especulação imobiliária. Arrendamentos a prazo porque nada resiste e tudo é precário. Gente que muda de casa como quem muda de camisa, casas dos pais e avós desbaratadas no adelo, no alfarrabista, os tarecos à porta da rua, porque já nem há quem os queira.
Ao mundo em que havia lares sucedeu o mundo em que existem assoalhadas.
Outra realidade que se esquece é que a judicialização dos litígios sobre arrendamentos partia do pressuposto de que estava em causa um direito fundamental, constitucional mesmo, o direito à habitação. Os despejos administrativos eram excepções em nome de valores públicos urgentes. O juiz surgia para que não houvesse abuso.
Hoje tudo mudou.
O balcão dos despejos vai ser a fossa do esgoto em que se tornaram os dormitórios em desagregação, lugares onde chegam diariamente exaustos os explorados do sistema, onde explode a violência de dias de horror, de onde saem pela madrugada crianças ensonadas para serem, elas também despejadas, em quem «tome conta» delas, até que, a altas horas, um dos pais acresça ao castigo do dia o esforço de os «vir buscar». 
Aí chegarão os despejos da falta raivosa de dinheiro já para pagar a renda, da ira incontida dos senhorios que pagam para o serem, dos intermediários interesseiros, das agências, e tudo muito rápido, muito simples, muito através de funcionários, precários eles também, a despejar assim o sistema falhe ou já não seja preciso ou na política se mude de ideias.
Pouco a pouco tudo quanto é humano sai dos tribunais. Um dia, ao lado das máquinas que vendem enlatados haverá neles computadores a darem sentenças por sms

20.12.11

Macau: foi há doze anos

Esperei que fosse meia-noite e chegasse com ela o dia 20 de Dezembro para republicar o que aqui escrevi o ano passado. Talvez seja uma noite de revivalismo. Talvez porque alguma coisa mudou para que tudo ficasse precisamente na mesma. Foi há doze anos. Na foto a "Rua das Felicidades".


«Foi há onze anos que Macau, território chinês sob administração portuguesa, foi devolvido à República Popular da China. Formalmente era uma zona híbrida na lógica do nosso Direito Ultramarino.
Há muitos modos de comemorar o facto ou apenas de o referir. No primeiro caso com alegria, no segundo com nostalgia. Há quem chore ainda perda da bandeira, como há quem chore a perda da carteira. Há quem ria por inconsciência alarve ou sorria por já nem querer saber.
Para o sub-consciente colectivo, amálgama irracional, onde se forma a ideia de Pátria e se deforma, através do Estado, a de Nação, com o fim de Macau Portugal reduziu-se ao ponto de partida. Fechou-se o ciclo do Império. Passámos a ser os portugueses enjoados em terra que nunca iriam à Índia, mais os portugueses náufragos desanimados que de lá voltaram.
Claro que a minha Pátria é, como disse Pessoa, a língua portuguesa e o que ela simboliza. Gastaram-se milhões em Macau para que ficasse essa língua de Camões, mas ela só resiste por imposição do Estado e por ainda haver ali portugueses na Administração e na vida empresarial. Em todas as outras colónias o português ficou naturalmente, fruto do amor e da mestiçagem, ali, na zona do Sol Nascente, só porque politica e legislativamente convém. Não é uma língua franca mas uma língua fraca. Ai de quem não souber ao menos inglês.
Sonhou-se que Macau seria, enfim, um caso de "descolonização exemplar", livre do opróbio do abandono, mas a sombra suja das negociatas a alto nível e da pilhagem à "árvore das patacas" criou uma macha que levará tempo a diluir-se como a água do Lilau, a que impede o esquecimento. 
Tempos houve em que ir para a Cidade do Santo Nome de Deus era sacrifício militar ou exílio de amores. Macau foi laboratório de pilhagem onde se gerou a moral rapinante que hoje sobrevooa Portugal.
Há, porém, um Macau de que pouco se fala, dos abnegados que lutaram na guarita do seu posto ou na enxerga do seu recolhimento, os que ali deixaram o espólio do seu amor àquela cultura e àquela gente. O Macau dos desterrados da sorte e dos opiados da má fortuna. Aqueles para quem a Fazenda foi madrasta e para os quais o Palácio foi indiferente. Esse Macau que gerou o macaense, língua de "papaeação", esse Macau que foi o nosso modo de ser colonial. O Macau missionário mesmo sem missas.
Foi há onze anos. Houve quem trouxesse contentores carregados de valores, houve quem se contentasse com o que a memória guarda.
Comemoro hoje Macau. Tenho comigo a "Estátua de Sal" de Maria Ondina Braga que ali viveu, como professora, em reclusão de alma, o coração em dor. «Assomaram-me as lágrimas a primeira vez que vi a "cidade dos barcos"», escreve. 
A cidade dos barcos é a cidade flutuante, a dos miseráveis, para quem cada pequena embarcação é casa e loja e caixão. A cidade dos que se amarram mais aos filhos ao madeirame flutuante quando toca a tufão e com ele o grito pavoroso de morte. 
Um pouco adiante dessa tragédia humana que bóia e assim sobrevive, o Casino, as jóias e as antiguidades, o ar condicionado e tudo quanto é luxo tecnológico e suas luzes meretrizes. Há onze anos estavam e ainda estão. É o Macau indiferente, para quem nenhum Império foi Lei nenhuma Senhoria abrigo. 
Devolvemos à China a galinha dos ovos de ouro. Depois de os ingleses terem devolvido Hong-Kong. Os diplomatas rejubilam com essa mísera vitória. 
Para a China eterna nada conta. A unificação da Mãe Pátria tem um nome e não está longe. Chama-se Taiwan. Um destes ouvir-se-à falar. Acreditem. É só Dragão acordar, vivificado».

18.12.11

É fartar, vilanagem

Publico tal como me chegou. dúvidas que o Tribunal de Contas terá encontrado nas contas municipais. Resta conferir pelo documento oficial. A ser verdade, a porca da política é mamada até à morte.


ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO ALENTEJO, I. P.: aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€.

MATOSINHOS HABIT - MH: reparação de porta de entrada do edifício: 142.320,00 €.

UNIVERSIDADE DO ALGARVE - ESC. SUP. TECNOLOGIA - PROJECTO TEMPUS: viagem aérea Faro/Zagreb e regresso a Faro, para 1 pessoa no período de 3 a 6 de Dezembro de 2008: 33.745,00 €.

MUNICÍPIO DE LAGOA: 6 Kit de mala Piaggio Fly para as motorizadas do sector de águas: 106.596,00€

MUNICÍPIO DE ÍLHAVO: fornecimento de 3 Computadores, 1 impressora de talões, 9 fones, 2 leitores ópticos: 380.666,00 €.

MUNICÍPIO DE LAGOA: aquisição de fardamento para a fiscalização municipal: 391.970,00€.

CÂMARA MUNICIPAL DE LOURES: vinho tinto e branco 652.300,00 €.

MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA: aquisição de viatura ligeira de mercadorias 1.236.000,00 €.

CÂMARA MUNICIPAL DE SINES: aluguer de tenda para inauguração do Museu do Castelo de Sines: 1.236.500,00 €.

MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA: aquisição de uma viatura para o transporte de crianças por 2.922.000,00 €.

MUNICÍPIO DE BEJA: fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €.

P. S. Fazem-me saber que estes dados foram postos a circular já durante o anterior Governo e que os números têm as casas decimais intencionalmente ou  não deslocadas. A ser assim, tenho de me penitenciar por ter dado crédito ao insólito e tê-lo transposto para o FB, onde várias pessoas tomaram os números como reais e possíveis. Recebi o conteúdo publicado por email, enviado por alguém que tenho por credível. Mesmo assim, ante o insólito dos valores coloquei a ressalva inicial «a ser verdade» e a circunstância de faltar conferir o documento oficial. Aguardo, mas uma coisa é certa: há quem acredite, eu incluído, que isto é possível suceder. O que é sintoma do estado em que está o Estado.

A Pátria madrasta

O caso podia ser este ou podia ser outro. Como nos aterros em cima de lixo cada buraco que se cava é mais lixo que se encontra. E Portugal está a tornar-se numa nitreira.
«A portuguesa Sofia Escobar é candidata ao título de Melhor Actriz de Teatro Musical em Inglaterra pela representação de `Maria`, em West Side Story, refere hoje o portal de espectáculos britânico Whatsonstage». Veja-se mais sobre ela, aqui.

É dela, porém, esta carta:

«Estimados amigos, aqui fica um desabafo. Como vocês sabem, todas as noites actuo em Londres para 1500 pessoas, durante a minha carreira fui nomeada para um Olivier e foram-me atribuídos outros premios no campo do teatro musical. As criticas internacionais tem sido felizmente muito positivas. Durante todo este tempo sempre expressei um carinho especial pela minha cidade, por isso me entristece tanto que depois de varias tentativas de minha parte e do meu agente me tenha sido dito que "estão a fazer o possivel" para me incluir nos espectáculos da Capital Europeia Da cultura em Guimarães. Depois de todo o carinho que recebo dos Vimaranenses e dos Portugueses isto dói-me muito. E não consigo evitar expressar desta forma que isto me deixou desiludida e acima de tudo, triste».

15.12.11

Mário Soares: o perfume barato do contar...

Sabia que me iria irritar. Que o livro Um Político Assume-se seria uma forma de se justificar perante a História, já que não perante a sua consciência. Mesmo assim insisti em querer vê-lo. Foi esta noite. Fui directo à página onde, na obra que diz ser de memórias políticas,  Mário Soares trata do que eu conheço de perto, por ter vivido na pele parte da trama: a história da sua ligação, enquanto Presidente da República, ao território de Macau. Detive-me nas linhas que dedica ao caso Emaudio/TDM. Poucas linhas, esclarecedoras linhas.
Diz que foi afinal uma campanha lançada «pela extrema direita» contra ele, para o envolver na história. Mente, por contrariar a verdade. A questão não tem a ver com políticos de qualquer quadrante que se tenham mobilizado contra si, mas com os factos que não se conseguem iludir.
Acrescenta que na origem da campanha esteve o Rui Mateus. Mente por sobre-simplificar a verdade. O papel de Rui Mateus é prévio na próxima ligação à sua pessoa, contemporâneo com todo o caso e posterior com maior intensidade no que se refere ao caso da Weidelplan/Aeroporto de Macau, mas o assunto transcende-o e em muito.
Para enxovalhar Rui Mateus, Soares diz que o conheceu empregado de um restaurante e que teve uma ambição tal que quis ser ministro dos Negócios Estrangeiros do seu Governo. Mente por omissão da verdade. A ligação entre os dois é muitíssimo mais vasta, próxima, e, é só ler o livro que aquele escreveu, para concluir que em matéria de "comedorias" o conhecimento não se limitou a restaurantes.
Remata, enfim, dizendo que envolveram no assunto o então Governador de Macau, Carlos Montez Melancia, que seria absolvido judicialmente. Mente por adulteração da verdade. A história do processo judicial ainda está para ser contada, como a história dos processos judiciais que nunca existiram em torno do caso. E como é que a absolvição do Governador neste processo deu em condenação em outro, o "caso do fax".
No momento em que escrevo estas linhas hesito se contarei ou não toda a história desse aproveitamento político, económico e pessoal da televisão de Macau que o livro tenta branquear.
Confesso que o descaramento do livro me incendeia um sentido de revolta pessoal. Que a "reconstrução" da História  me repugna como cidadão, como o faz tanta historiografia oficial arregimentada que tem andado a ser escrita em relação ao que nem regime político chegou sequer a ser e hoje está em estilhaços, o estado cadaveroso do País.
Sei que se o fizer, contando o que sei, serei sujeito aos efeitos da difamação e do enxovalho, porque ele e este estilo de obra são o rosto de um modo de ser que define a actual Situação, o verso dos que a criaram, o anverso dos que a consentiram. Talvez haja um direito à tranquilidade, minha e dos meus, que eu deveria saber preservar.
Por outro lado estou perante uma figura pública idolatrada a quem tantos perdoaram tudo, à direita e à esquerda, com quem tantos se arranjaram para tanto. Ficarei isolado e à mercê.
Talvez haja, enfim, o respeito devido à idade, se não houvesse o respeito devido à Nação de todos nós. Apodar-me-ão de desapiedado, logo quanto a um livro em que o seu autor se fez cercar, no lançamento, da imagem inocente dos seus netos.
Vou tentar tranquilizar o espírito e logo verei. Até passar o hálito da sordidez do caso e do perfume barato com que agora o vejo contado.

11.12.11

Outra vez, amigo?

Esta história é uma das mil histórias com a qual nos cruzamos todos os dias. Estava caído junto ao muro do jardim da Gulbenkian. Meio dormente, tremia, mal conseguia articular palavra. Álcool, frio, escassa alimentação, encovado, o olhar ausente, a barba desgrenhada, sujo. Tinha trabalhado no Jardim Zoológico, foi o que consegui saber. Tratava então dos animais. Hoje estava reduzido a ser um deles, partilhando com eles e a rua e os caixotes. 
Chamei o 112. «Outra vez, amigo?», perguntaram, amáveis, quando chegaram e deram com ele. Outra vez, para ambos, os resíduos da sociedade, como o lixo do nosso consumismo que pela noite é removido pela Câmara Municipal. Neste caso era um dos corpos que consumimos, seres humanos que são aquilo de que nos servimos até já não servirem.
Momentos antes, um pai e seus dois filhos tinham-se cruzado com a situação. Protegendo as crias, o progenitor puxou-as para que, afastando-as do passeio, seguissem pela rua, fora do contágio que pela vista se consumaria. 
«O que é aquilo?», perguntou um dos meninos. «Nada!», respondeu o papá. 
Tudo afinal do mais verdadeiro na nomenclatura do mundo em que vivemos: «aquilo» e «nada». A linguagem a trair os sentimentos, estes calcados pelas ideias, as interesseiras desinteressadas.

P. S. [a foto, evidentemente, não é a do que vi, mas afinal do que poderia ter visto. A banalidade da miséria torna-se a nossa má consciência numa consciência má, pela indiferença].

1.12.11

A lógica do encosto...

Há famílias onde os anos dos meninos se comemoram em dia outro que não o dia em que os meninos fizeram anos, porque é assim que dá jeito. Porque no dia do aniversário os meninos tinham aulas e não podia ser. Porque nesse dia os papás não podiam e tinha de não ser. Porque os amigos assim no dia errado já podem vir à festa que no dia certo seria para não haver. Além dos desgraçados que nasceram a 29 de Fevereiro.
Foi com base nesta conveniência que há quem pense «encostar» [termo fantástico] os feriados aos sábados e domingo. Porque, assim, celebra-se o dia trabalhando para o esquecer e apouca-se a comemoração do dia com a farsa de que se o celebra descansando, sem pensar nele. 
Mas há uma coisa que esses luminosos tecnocratas se esqueceram. É que há um dia para tudo, forma de haver um dia para nada.
O Carnaval dos dias comemorativos está a tingir de ridículo esta nossa sociedade: é o dia disto e o dia daquilo e o dia de aqueloutro. Convencionou-se que há um dia para certas doenças, um dia para certas circunstâncias, um dia para certos factos. Tudo se transformou numa forma de nos dias seguintes ninguém querer saber do comemorado para coisíssima nenhuma. O 14 de Fevereiro é o Dia dos Namorados, o 2 de Fevereiro o Dia das Zonas Húmidas. O dia 21 de Março é o Dia Mundial do Sono o dia 23 o Dia da Meteorologia. O 3 de Maio o Dia Internacional do Sol o 4 o Dia Internacional do Bombeiro. A 22 de Maio comemora-se em simultâneo o Dia do Autor Português e o Dia da Diversidade Biológica.
Por isso tanto fez como fez. Há portugueses que já se perguntam que dia é quando não se trabalha por ser o Corpo de Deus, assim como há quem já se pergunte o que está a acontecer que justifique ser dia de não trabalho o 10 de Junho ou o 1º de Dezembro, tirando as condecorações e os regimentos de militares e sapadores bombeiros em formatura forçada, como soldadinhos de chumbo ao serviço do mundo oficial engalanado a contra-gosto.
Uma coisa li eu um dia destes num livro do Wenceslau de Moraes: que no Japão antigo se comemorava o aniversário de cada pessoa não no dia em que nascera mas no dia em que mudava o ano. Ora aí está uma ideia possível: concentravam-se todos os feriados no 1º de Janeiro e às badaladas da meia-noite era o bota-fora destas e doutras, porque é de Ano Novo Vida Nova que estamos todos a precisar.

28.11.11

A Europa do FEDER

Quero lá saber que me chamem nomes por citar o que vou citar. Não me chamarão seguramente é mentiroso. Porque ante o servilismo que a "democracia" portuguesa demonstra face ao poder do capital trans-atlântico, lembro este excerto de História, quando, finda a 2ª Guerra, Washington quis "ajudar" a reconstruir "a [sua] Europa", tendo Portugal sido convidado para integrar o número dos contemplados com o Plano Marshall e tendo o Presidente do Conselho manifestado ostensivas reticências.
Cita quem soube o que relatava: «Alguns ministros, mais directamente ligados ao fomento, inclinar-se-iam para aceitar a aplicação do Plano Marshall ao país. Salazar segue, no entanto, um ponto de vista diverso. Tem o chefe do governo suspeitas dos objectivos americanos: receia que a penetração dos Estados Unidos no sentido da Europa constitua, mais do que um auxílio a esta, um desígnio imperial de Washington; teme que uma preponderância económica e financeira americana no Ocidente europeu seja apenas uma forma de acesso às posições europeias no continente africano; e apavora-o a ideia de que a vulnerabilidade das estruturas portuguesas possa tornar estas presa fácil de um credor poderoso, que para mais se julga predestinado ao exercício da hegemonia global». 
Vem tudo aqui, para quem quiser mais do que chavões e sobre-simplificações maniqueístas dessa falsificação a que alguns chamam de "História Contemporânea". 
Ante esta aguda compreensão sobre os objectivos imperialistas da "ajuda" e a relutância em aceitá-la, e o seguidismo com que nos integrámos na Europa do FEDER, é caso para concluir como regredimos em inteligência e nos agachámos em dignidade. Com os resultados agora à vista.

20.11.11

Os dias da rádio

Escrevi neste blog um texto que me surpreendeu pela divulgação que conheceu. Chamei-lhe A Trapeira do Job. Talvez por ter ido de encontro ao sentimento de frustração, revolta, desânimo de tantos portugueses andou de mão em mão. O texto está aqui.
Era um texto saudosista, talvez, mas um convite a que tivéssemos saudades do futuro. Um texto que me fez pensar, eu que fui o seu primeiro leitor, os caminhos por onde tenho trilhado mais os meus.
A gentileza da Dina Maria da Rádio Sempre permitiu que pudesse ser não lido mas ouvido aqui
A rádio foi parte da minha infância e companhia em tantas horas. Ao sentimento de gratidão juntou-se a memória de um tempo feliz. Tinha-o escrito aqui.

18.11.11

Das Kapital!

A democracia que gerou os Berlusconi deste mundo entregou, no dizer de hoje de Zapatero, o poder ao Conselho Europeu e ao Banco Central Europeu. A Itália e a Grécia têm, por isso, governos nomeados pelo capital, que nenhuma urna legitimou. Tecnocratas dos credores para garantir que os devedores possam pagar.
Tudo é incerto. Como David Rosenberg disse, a volatilidade dos mercados é tal que a situação inverte-se em seis horas e meia. 
Idílico, António José Seguro, clama ainda por uma Europa da economia e não apenas monetária, como se neste momento a economia não estivesse a ser esganada pela política fiscal ao serviço das finanças.
Isto porque a acumulação do capital leva à crise endémica do capitalismo. Marx estava certo no diagnóstico, Lénine profundamente errado nas ilações. Por alguma razão o plutocrata Engels financiou o autor de Das Kapital. O marxismo que gerou a defunta Rússia soviética explica a moribunda Europa alemã.

10.11.11

O homem do Campo Pequeno

Um antigo professor de ginástica da Legião Portuguesa que se converteu primeiro à causa democrática que deu na Revolução de Abril de 1974 e depois depois no chefe da tirania do COPCON [e depois disso é melhor ficarmos calados quanto ao que foi a sua vida], veio agora fazer apelo a uma outra Revolução. 
Há quem esteja escandalizado. Eu não. A biografia cómica deste homem é a História trágica do País. 
É que, quando confrontado com ter dado as ditas aulas de ginástica a uma Legião que fora criada em 1936 para combater os «comunistas» e à pala disso tudo quanto era oposição a Salazar, Otelo Saraiva de Carvalho defendeu-se que o tinha feito pelo dinheiro que assim ganhava e de que precisava. 
A barca do venha a nós em que a Legião se transformara, apodrecido que estava o regime do Estado Novo, e que ele assim serviu mercenariamente, fez-lhe nascer o espírito de revolta e assim nasceu um revolucionário.
A História repete-se sempre duas vezes. Hoje Otelo lembra que Portugal precisa de Salazar e de uma Revolução, afinal, os dois pilares que o elevaram ao Panteão do Poder. São saudades do que foi.
Vindo isto da sua boca nem chega a fazer pena. Coitadinhos foi dos que o idolatraram, pensando que com o caminho que ele abriu e com o que se seguiu haveria um 25 de Abril que não retornaria ao 28 de Maio. Uma tourada.

6.11.11

Portugal tem medo!

Sabem o que é o fim da democracia? É as pessoas terem perdido a esperança de que Portugal pode mudar a partir do interior dos partidos. É as pessoas não acreditarem que os partidos possam mudar a partir de dentro de si mesmos.
Sabem o que é o fim da democracia? É as pessoas referendarem em eleições por uma cruzinha num cartão pessoas que não escolheram, como quem num restaurante come o que a lista lhe oferece e tem sido sempre o «prato do dia» em todas as refeições, votarem nos nomes, cada vez piores, que lhes são apresentados pelos que dos partidos se apoderaram.
Sabem o que é o fim da democracia? É o acto eleitoral ser um negócio pelo qual vendo o meu voto em troca de não querer saber mais da causa pública, salvo para me lamuriar e ficar inerte, com excepção, para alguns, dos dias de greve e de manif.
Sabem o que é o fim da democracia? É ver-mo-los chegar à política com uma mão atrás e outra à frente, vagas de desconhecidos, treparem esses vultos através das velhacarias em que os aparelhos dos partidos do governo se tornaram, e uns tempos depois, publicitados, travestidos pelo "marketing", aí estão cheios como odres ou em santuários de bom viver.
Sabem o que é o fim da democracia? É ninguém ter votado que se aceitassem a aniquilação da nossa agricultura e, corruptos, aceitámos, submissos, da Europa do capital o seu dinheiro para a destruir, mais a frota pesqueira, mais a capacidade de produzir até o que comemos e hoje vivermos do calote e do fiado, iludidos uns que era a modernidade que assim chegava, a da tecnocracia post-moderna a este cantinho nosso de labregos, e mais do que certos outros de que o dinheiro para a formação e para a reconversão tecnológica daria para uns anos de desbunda privada e ostentação pública.
Sabem o que é o fim da democracia? É uma pessoa escrever isto e haver quem receie que lhe chamem fascista e se ter criado um clima oculto de intimidação pelo qual se aluga o silêncio e se compra a complacência e ser mais barato fazer de conta e sobretudo mais rendoso.
Sabem o que é o fim da democracia? É estarmos em República a ser governados pela «troika» estrangeira, como na Monarquia pelos Filipes espanhóis e já não comemorarmos o 25 de Abril e ainda não ter chegado quem queira um 1640.
Sabem o que é o fim da democracia? É ter-se enterrado com os Fernando Nobre a ilusão de que nas AMI's deste mundo ainda haveria um resto de gente que se podia organizar e tirar este país do estado comatoso em que se encontrava, até se ter descoberto que, afinal, era mais um, a mesma ambição pessoal, a mesma incapacidade de agir, a mesma derrocada moral, o mesmo desânimo.
Sabem o que é o fim da democracia? É que os que podiam pegar nas armas do combate contra os que a puseram na viela escusa da má fama, em nome da democracia suicidarem-se com essas armas, por vergonha, por desespero, por já não aguentarmos mais.
Somos um povo de suicidas escreveu Unamuno e conheceu-nos como a Manuel Laranjeira, outro que acabou consigo, como se matou Antero de Quental com um tiro e Alexandre Herculano ao exilar-se. Somos de facto: lentamente rende-mo-nos à morte lenta, ao doce veneno de nos vermos à noite a morrer, em directo e na TV.
Sabem o que é o fim da democracia? É a democracia ter-se, afinal, tornado, através da farsa do voto, uma forma de reorganização mundial do capital à conta de quem trabalha. Entre o euro e o dólar, nos subterrâneos das praças financeiras, eis aí o combate nos esgotos pelo verdadeiro poder.
Ao longe, a milenária China espera o seu momento para nos vender como nas lojas de trezentos. Mais perto, os Árabes que, em nome da Cristandade chacinámos pelas Cruzadas, anseiam o momento da vingança.
Hoje, ante a liturgia da falência e seus coveiros, no cortejo funerário da miséria, reina um silêncio profundo, o silêncio dos cemitérios. Portugal tem medo.

25.10.11

A teoria do cano roto

Digam-me que não somos um mundo de loucos à solta? Permitimos o fabrico, a publicidade, o comércio de automóveis que na quase totalidade atingem mais de duzentos quilómetros horas. O que não é permitido em circunstância alguma. Depois para controlar os excessos de velocidade mobilizamos recursos humanos [polícias, magistrados, funcionários], técnicos [placas de sinalização, radares], legais, e tudo isso custa uma fortuna aos contribuintes.
Não seria mais fácil e mais barato pura e simplesmente proibir tais carros, metendo na cadeia quem os fabricasse ou adaptasse para tais velocidades, e apreendendo-lhes o brinquedo?
Há quem pense que seria uma violência. Assim como está é que está bem! Entre mortos e feridos por excesso de velocidade, cujas vítimas os tribunais indemnizam ao desbarato, combustível desperdiçado, o Estado lucra com impostos e perde-o na despesa. É a teoria do cano roto!

23.10.11

A faísca e o incêndio

Primeiro, foi a mão de obra clandestina que importámos para as grandes obras do cavaquismo e que tinham de estar prontas a tempo dos calendários políticos de inauguração e digo Cavaco sim, porque parece que este que está em Belém não se lembra que é o mesmo que esteve em São Bento. Milhares de homens, desenraizados, sem família, negros, eslavos, não importa de onde, tudo gente para o trabalho braçal, a viverem sem mulher, sem o aconchego de um lar, em trabalhos duríssimos, habitando na degradação da periferia. Gente que acumulou ressentimentos, que construíram o luxo para os outros vivendo na miséria própria, que criou o seu "ghetto", pelos bairros que são hoje barris de pólvora.
Depois, foi o coração generoso de António Guterres a criar o rendimento mínimo garantido, e a viverem dele, e a continuarem a viver dele, além dos que realmente precisam - e tantos milhares são de uma, pobreza afrontosa - , uma camarilha de exploradores, muitos marginais mesmo, a compensarem aquele vencimento certo com uns "biscates" de quando em vez e umas malfeitoriais sempre que podiam. Gente que se habituou a não trabalhar, a poder ficar manhãs até tarde na cama, a gozar de noitadas. E que agora,ao saberem pelas notícias que o que era doce acabou-se vai entrar no bom e no bonito da ressaca e com ela na violência, porque os hábitos de trabalho foram-se com o regabofe que a permissividade do Estado Social foi consentindo. A que se juntaram os que usaram e abusaram do subsídio de desemprego porque nunca encontravam emprego por não quererem encontrar emprego.
Enfim as mulas de carga do sistema, que alombaram com o trabalho de que saiu o que o País produziu, a sacrificarem-se para além das horas em empregos insuportáveis, a saírem estafados de um turno para entrarem noutro para que houvesse em casa mais pão, a aceitarem trocas para receberem mais algum, os que ainda tinham um "extra" ao sábado e ao domingo, gente que cozia roupa para as grandes superfícies, que fazia limpezas fora do horário nos empregos e noitada em segurança, os que davam explicações depois das aulas, os que se agarravam doze e catorze horas a um táxi. Gente que mesmo assim se endividou, gente que vai agora para o olho da rua por causa da gestão danosa de quem esteve no poder, gente que vive no terror de não poder pagar a casa, gente que já não paga a escola dos filhos, gente que, mesmo no come-em-pé se fica por uma sopa.
Não sei onde, não sei quando, bastará uma faísca para que um incêndio consuma o País no Inverno.
Leio na impressa que o coronel Vasco Lourenço pede aos militares se coloquem ao lado do povo no caso de uma alteração da ordem pública. Dir-se-à que é um sinal, ou uma sugestão, ou um aproveitamento.
Não sei que militares temos ainda num País que terá mais oficiais do que soldados. E se os militares não foram entretanto capados pelos civis e hoje não são apenas o Exército da indiferença, travando a batalha de naval nas repartições ociosas.
Sei sim o povo que temos. E sinto que a revolta está na ordem do dia. Não a das manifestações de rua da greve geral que o aparelho da CGTP e os apparatchicks do PCP conseguem ainda enquadrar, a bem da ordem pública e do sistema, mas a revolta sem partido nem ideologia, a revolta que é a mais que a de extremismos políticos, a revolta sem política e contra tudo, a explosão pura do já não aguentar mais.
O melhor sinal, o mais audível, veio da Igreja. Tem-lhe cabido apontar o Mundo como sacrifício e o Céu como promessa e oferecer rezas e novenas como método, cuidando, através das Misericórdias, dos mais urgentemente necessitados. Ora são da Igreja as vozes de onde surge o alerta. Quando o Patriarcado já não acredita em milagres, talvez não haja Virgem de Fátima que nos valha.
Não sei em que dia nem como nem porquê. Mas ou o Governo pára e pensa que está a ir para além do que lhe é permitido ao carregar nos que mais precisam e ao apoucar-nos continuando a abrir excepções em favor dos mesmos de sempre ou isto acaba mal. Muito mal mesmo.

22.10.11

Alemanha: entre o ressentimento e a dependência

Mas as pessoas esquecem, ao avaliar hoje a psicologia do povo alemão, as imposições a que sujeitaram os alemães, em 1919, com o Tratado de Versalhes, nomeadamente o pagamento aos países vencedores, principalmente à França e à Inglaterra, uma indemnização pelos prejuízos causados durante a guerra, no valor de 269 bilhões de marcos? Se esquecem, é só lerem aqui e aqui.
As pessoas esquecem em que medida esse opróbio gerou um sentimento de revolta que é uma das géneses do nazismo?
As pessoas esquecem que foi o dinheiro americano do Plano Marshall [1,448 milhões de dólares, entre 1948 e 1951, valor à época] que permitiu a reconstrução alemã e da Europa em geral?
Mas as pessoas são amnésicas ou incultas?
Entre o ressentimento face aos outros europeus e a dependência face aos americanos, eis a Alemanha, esse animal encurralado em busca do seu espaço vital, maior em ambição e capacidade do que o espaço territorial onde nasceu.

20.10.11

A trapeira do Job

Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente. 
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam ainda da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio e de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que, ao mudar-se de sala, se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça. 
Foram anos em que o campo se tornou num imenso ressort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O País que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade, vindos dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e, às vezes, nem obrigado. 
O País que produzia o que se podia transaccionar esse ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente.
Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria industrial pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado, que caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho ungénito e mais uma trinitária pomba.
Às tantas os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa porque estávamos a importar brasileiros, não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista, trocado pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende. 
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois, que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o mando, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura em Bizâncio discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

15.10.11

Bon chic, bon genre

Confesso que o homem me irrita. E confesso que ainda mais me irrita a corte de quantos o deificam, nele vêem o Catão das virtudes, o Moralista por excelência, o Polícia dos costumes. E acreditam que o dizer mal de tudo decorre de uma pureza de alma e de uma coerência de carácter.
Não é só ele. Há pelo País uma pleiade façanhuda de gente mal disposta e mal encarada que, por um lado, têm sempre opinião sobre todas as coisas e, segundo, se julgam o relicário das virtudes. E com lugar cativo na imprensa, doutorais e papais.
Um dia passo-me e conto a história pregressa do Vasco Pulido Valente Correia Guedes. Do que fez para chegar a assistente de Económicas. E do mais e quanto tudo isso foi de vergonhoso e como foi a história de uma ambição feita método.
Dir-se-à que isso que eu contar foram estouvadices do seu passado juvenil, como o deveria mencionar a testemunha abonatória que então indicou à PIDE/DGS, nos autos ali abertos, a seu pedido, e chamados de revisão, o Dr. António Martinha, dos Serviços de Censura, colega na mesma do pide António Barbieri Cardoso.
Não! É que houve quem, nesses anos de chumbo, comeu o pão que o Diabo amassou e foi expulsa da Universidade e corrida de empregos públicos e até na privada se lhe fecharam as portas. 
Gente que aguentou firme, não delatou, não jurou fidelidade à Constituição de 1933, não traiu. Gente da classe média que ele hoje despreza, com a sua arrogância patrícia de bon chic bon genre, como se lê na sua crónica de hoje no jornal Público.
A farsa do diletantismo é o circo das democracias caducas. Nela há duas regras de vida: o epicurismo burguês e o desprezo pela criadagem. Que eles, os snobs malcriados, acham somos todos nós.
Detesto falar de pessoas. No caso falo de uma encenação.