13.9.12

Vacórias...

A net proporcionou o anonimato, este abriu a porta ao pior que a alma humana tem. Até aí seria apenas a demonstração de que, embuçado, o Homem revela a sua pior faceta, o lado negro da alma: o ataque cobarde, lançando suspeitas, insídias, rumores, acusações mesmo, o que de identidade revelada se não faria; o atrevimento sórdido, exibindo um despudor, um desbragamento, uma falta de maneiras, que, sabendo-se quem é, nunca teria oportunidade de existir. 
O pior é quando isso gera a irresponsabilidade pelo dano que se causa, pelo mal que se pratica.
Os jornais on line, na sua ânsia de audiência e público, abrem porta ao descontrolado anonimato. É exactamente o mesmo que o demais espaço cibernético, mais a potenciação do efeito pelo fornecimento do meio público.
A questão é esta: ninguém controla, ninguém responde, ninguém repara o mal destes milhares de mascarilhas, valentes porque escondidos, ousados porque travestidos, desbragados porque irreconhecíveis?
Vem isto a propósito de um comentário que está numa notícia publicada num jornal dos de maior audiência nacional. Ei-lo tal e qual:

VACÓRIAS

13.09.2012/16:59

UMA PÉROLA: Tenho uma pequena empresa de confeções em braga e sei o que é aturar esta camabda de saloios que só querem dinheiro. Lá só trabalham 75 mulheres 9 horas por dia e vão começar a trabalhar ao sabado o dia todo. É preciso acorrenta-las ao trabalho porque se lhes dou 550 euros é para produzirem e trabalharem. E não para andarem sempre metidas na casa de banho a mandar mensagens aos pombinhos ou aos amantes. Fora aquelas que andam sempre com o periodo. Já as grávidas expulsei da fabrica e em breve vou-lhes anunciar que mulheres que venham com os periodos por mais de 5 dias , são expulsas da fábrica sem idemnização sem nada. O passos Coelho pede trabalho, Arduo trabalho esse que o obrigo a estas vacórias fazerem...

8.9.12

Comprar mais barato o trabalho alheio

O que passa a nível do Governo? A obediência do que foi determinado pela Europa do capital: transferência de meios financeiros dos trabalhadores para o Estado, através dos impostos e demais prestações, dos trabalhadores para a banca, directamente através do crédito e da dação em pagamento dos imóveis sob hipoteca, indirectamente, através dos apoios do Governo com o dinheiro que terá de ser pago a quem o adianta na mira do juro, os prestadores internacionais e a estes através dos contribuintes; concentração dos capitais das zonas periféricas na Alemanha, ali namorados pela banca russa e turca; redução da massa salarial para tornar a compra do trabalho mais barato ao capital.
A médio prazo, a Alemanha terá sido reembolsado de quanto lhe custou esta Europa, de que os ex-radicais Barroso's são capatazes, e o capitalismo estará reorganizado. A crise é nele uma doença e uma lei comportamental, reorganiza-se assim.
Quando Pedro Passos Coelho, com falsa compunção, carrega nos que trabalham, sob a alegação de que assim permite mais emprego, está pura e simplesmente a tornar mais barata a vida ao capital. Dos que o elegeram muitos nem sonhavam que ia ser assim, os que o criaram como criatura política, esses estão realizados porque assim foi. Para eles, de facto, «o futuro é agora». O mais é raiva popular e propaganda do regime.

23.8.12

O pequeno ditador

O jovem pirralho, infernal, atroava os ares com a guincharia por causa de um «eu quéu!» ridículo, insatisfeito. Cumulava com atirar-se para o chão enquanto, podenga, a progenitora, tentava, mansamente convencer o "Tolinho Manuel" que "o menino sabe que isso não são maneiras". Alheado da questão e afinal da família de que o rebento era a contemporânea expressão, o excelso pai acabou por entrar na liça, porque aquilo que já exasperava os circunstantes, agora já o afectava a ele. Usou a força física para tentar içar, qual grua, o contrapeso da insuportável criaturinha, para que ao menos não rastejasse, esperneante, pelo chão, por onde se espojava, rabicundo, qual lagartixa, restituindo-a à horizontal dos bípedes.
Foi aí que a marginalidade do nanjero entrou em acção, dando pontapés na canela do paizinho e alçando a mão como quem vai numa henriquina de bater na própria mãe.
Em redor um silêncio embaraçado, aqui e além um contido mau instinto a fazer-se de esgar. «O que é que se há-de fazer?» perguntava para o vazio circundante das que conjugam o verbo haver em termos de dar em "hades», que é deus grego para os mundos subterrâneos. «Um chapãdão"» ia eu para alvitrar quando me lembrei que somos nós, os que, arrogantes para com a educação que nos deram, gerámos isto mesmo, os pequenos ditadores.

19.8.12

Pax Germanica

Às vezes as ideias surgem onde menos se espera encontrá-las. Acabei a leitura do livro de Pierre Loti intitulado Os Últimos Dias de Pequim. Nele o seu autor narra o que lhe foi dado observar enquanto este incorporado na força militar internacional que teve de intervir na China para pacificar a sangrenta e devastadora guerra dos boxers. Nessa força integraram-se, lado a lado, tropas francesas e alemãs, além de outras oriundas de diversas Nações, como russas, japonesas, inglesas, etc.
Tudo sucedeu em 1900. Acontece, porém, que trinta anos antes, a "Alemanha" do Chanceler Bismarck e a França se tinham batido na guerra franco-prussiana de que resultaram cento e trinta e oito mil mortos do lado francês, quarenta e cinco mil do lado alemão.
Imagina-se o sentimento de um oficial francês ao conviver agora com aqueles que faziam parte do lado há bem pouco tempo não lhe poupariam a vida. No livro descreve-o como se a um nó na garganta.
Mas não se fica por aí. Em 1914, apenas catorze anos depois, a Alemanha e a França exterminavam-se de novo na que ficou conhecida como a Primeira Grande Guerra, que causou no total dezanove milhões de mortos a todos os contendores. 
Veio a paz com o Tratado de Versailles e, vinte e cinco anos depois, em 1939, de novo a Alemanha em Guerra e a França seria atacada pela Alemanha de Adolph Hitler. Foi a Segunda Guerra Mundial que causou setenta e três milhões de mortos.
Para os que pensam que a paz é eterna e a concórdia com a Alemanha é definitiva basta pensarem. Sobretudo a partir dos mortos.

20.7.12

Hermano Saraiva

Unamuno dizia que somos um povo de suicidas. Acrescento que somos um País com a idolatria pelos mortos. Cultivamos a desmesurada lembrança por aquilo que em vida esquecemos. Isto não se aplica a Hermano Saraiva, irmão do falecido historiador e crítico da Literatura, António José Saraiva, tio do director de um semanário, José António Saraiva. Porque dele pode dizer-se que o País na sua generalidade guarda uma memória e pode dizer-se uma lembrança amável e grata.
Claro que existem os que - sobreviventes da geração de sessenta e da crise académica de Coimbra - não esquecerão o seu dito «a ordem em Coimbra será mantida!», proclamado, em estilo iracundo, quando se deram os graves incidentes naquela Universidade que levaram à intervenção da força policial e a cenas de violência nas ruas.
E claro que existem os que estiveram no campo da política "oficial" em desacordo com ele, os próceres do regime anterior, que o julgavam um heterodoxo, e os opositores, que o julgavam um homem da Situação. Ainda hoje, o corpo por descer à Terra, ecoavam os epítetos de "fascista" a resumirem uma vida política que do fascismo se não reclamou, porque essa palavra é um anátema que fuzila de imediato aquela contra quem seja atirado, qual pedra certeira a desfigurar o rosto.
Um dia a História trará ao de cima o nome daqueles que fascistas, sim, no sentido técnico do termo, após o 25 de Abril entraram directamente para partidos de esquerda, onde foram recebidos sem caução mas com unção e onde, convertidos, abjuraram tudo aquilo a que antes tinham declarado servil obediência.
Não vim aqui escrever sobre José Hermano Saraiva por causa disso. Sim para lembrar uma história que ele contou nos fascículos auto-biográficos que publicou e que li na totalidade. Lembro o episódio porque revelador de muitas coisas numa só história. Ei-la.
Comemorava-se então um dos aniversários da Revolução Nacional do 28 de Maio com cerimónia luzida na Assembleia Nacional. Previa-se que usasse na palavra o Dr. Melo e Castro, líder da União Nacional, o "partido" único que o salazarismo consentia. Mas, eis quando, primeiro num murmúrio, depois com certeza, veio ao de cima a notícia de que um jovem, algo dissidente do regime, poderia ser chamado a, em jeito de contraponto, perorar também no hemiciclo de São Bento: o Dr. Hermano Saraiva.
O júbilo encheu então o peito daquele jovem político em ânsia de ascensão, confessa-o ele naquela crónica deste momento da sua vida. Ademais, porque no acto poderia estar e esteve o próprio Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.
Enfim, decorreu o cerimonial e o orador teria atingido, segundo a encomiástica descrição que faz da sua intervenção, o clímax da retórica. A ponto de, confidencia, ter surpreendido em certo momento, uma furtiva lágrima, no frio rosto do Chefe, usualmente distante e inexpressivo.
Tudo estaria bem não fora o facto de o seu discurso ter de tal modo caído no goto de Salazar que este, pela noite, ligou ao então director da Televisão, o Dr. Ramiro Valadão, perguntando-lhe qual o motivo pelo qual não se passara no pequeno écran a fala do Dr. Saraiva.
Eis o ponto, a crise, a agonia. Incapaz de confessar que, a ter de escolher o que filmar - num tempo em que nada era em vídeo mas tudo em película de cinema, donde oneroso, - se decidira no Lumiar que se filmaria sim o líder da União Nacional, até pelo seu posto graúdo no regime, e não aquela figura esperançosa mas ainda a fazer o seu cursus honorum na escadaria do poder, Valadão, engasgado, garantiu que, sim, que tudo tinha sido filmado, incluindo o Dr. Saraiva, naturalmente, estivesse pois Sua Excelência tranquilo, que até se preparava um programa especial para tal notável peça oratória.
E - acreditem porque é o próprio que o relata - sob apertado juramento, aproveitando a noite, uma equipa de TV, tomou imagens, no vazio parlamento, o Dr. Hermano Saraiva a discursar, tentando, puxando pela sua extraordinária memória, repetir os trejeitos, os gestos, os tiques, as expressões, com que animara a sua eloquência, não fosse o Chefe, manhoso e bom observador, dar por ela quando o programa "especial" viesse para o ar.
Qual conjura, ritual de sociedade secreta, cumpriu-se para que os factos pudessem tornar-se verdade: a RTP filmara tudo quanto o seu director garantia.
Eis, no dia de hoje, em que nos deixou, essa interessante porque complexa personagem, o que me apeteceu contar. É uma história sintomática, risonha, que talvez traga o justo equilíbrio entre o que foi, o que viveu e o que nos deixou.
Nele estiveram as contradições de um povo, mais a dedicação ao seu País e sua História.
Claro que, País de carrancudos, os académicos da Historiografia detestam-no, porque cometeu o sumo pecado, segundo eles, de a "vulgarizar"! Nisso estão, conservadores, irmanados com os seus opostos revolucionários. Aqueles porque querem uma História só de factos sem muitas ideias complicativas, estes porque a querem só de ideologias simplificadoras.
Com Hermano Saraiva o Povo, mesmo quando iletrado, aprendeu uma História de sentimentos, o amor a Portugal.

17.7.12

Falar do que se conhece

Conto-a como ma contaram hoje, pela fonte autêntica, que me ressalvou que o António Alçada Baptista já a havia relatado mas omitido a origem.
Discutiam-se em animada tertúlia os méritos científicos do professor Egas Moniz, o nosso primeiro Prémio Nobel. Em causa a lobotomia, cirurgia de ablação de um dos lobos cerebrais, tida então como método adequado para doenças do foro neurológico.
Animada a contenda verbal, esgrimiam-se antagónicos argumentos por e contra o laureado, apodado por uns de «génio» e de «criminoso» [não menos!] por um dos intervenientes na disputa.
Como em todas as discussões, e como se o colectivo dos altercantes precisasse de tomar fôlego, fez-se silêncio, um denso silêncio. «Os brasileiros dizem que passou um anjo», explicou-me o meu interlocutor, querendo encontrar melhor expressão para essa pausa prenunciadora de novo alento na refrega, pois naquele exaltado estado das paixões argumentativas, tréguas era algo a nem pensar.
«Foi então que ele entrou em cena», continuou, e eu colado ao telefone a ouvir, expectante, a história e a tentar adivinhar-lhe o percurso. «Era um homem simples, tinha vindo para Lisboa sem meios nem esperanças e lá lhe arranjaram emprego como empregado de sapataria, o meu pai», prosseguiu. «Só que, aplicado e cumpridor, melhorou de vida, e acabou numa zona chic onde, por via dos sapatos, acabou por conhecer gente muito acima da sua cultura e pouca instrução».
Tinha estado calado, modesto, o silêncio como ponto de honra da sua modéstia intelectual, incapaz de intervir sobre aquela discussão que esventrava a Ciência, a Filosofia, a Moral, a Política. «Mas não se conteve. Chegados àquele ponto sobre quem era, afinal, o professor Egas Moniz, ousou falar, porque, afinal, de todos eles, era ele quem o conhecia». 
Ante a possibilidade adivinhada da sua fala, susteve-se ainda mais o areópago. Já não era a tensão voltaica da electrizante contenda anterior, eram agora os nervos retesados à espera do que dali sairia que poderia, ao limite, dar vitória a um dos campos adversários. «Conheci-o sim senhor ao professor Egas Moniz!». «Conheci-o, pois, calçava número 39».
Grande pai! 
Eis, nesta história, uma lição de moral: se todos falassem do que sabem, Portugal era mais fácil.

8.7.12

O velociraptor

Havia na Malanje em que eu nasci uma senhora que para não ficar diminuída ante todas as outras cujos consortes antecediam o nome de um qualquer título académico, que afirmava, soube-o pela crónica familiar em que estas histórias se contavam, as de um mundo pífio a querer alçar-se em palafitas de vaidade, que o seu marido excelentíssimo, ou como dizia uma outra «o senhor que faz o favor de ser o meu marido» era «médico auxiliar da segunda classe».
O mistério foi rapidamente desvendado quando se descobriu que o homem era enfermeiro.
Lembrei-me disto sobre a circense história dos graus académicos e do velocímetro dos mesmos. Não por ser interessante mas edificante.

P. S. A imagem é a de um velociraptor, criatura arguta e rápido predador. Supunha-se extinto.

6.7.12

O pensar e o existir

O que são as redes sociais? 
Uma forma de cada um dizer o que pensa e o que se sente. Assim se assegura a liberdade de expressão quando a liberdade de imprensa a não permite.
Uma forma de cada um mostrar o que criou como artista. Assim se assegura a difusão cultural quando o mercado editorial não o possibilitaria.
Uma forma de cada um exprimir o que opina enquanto cidadão . Assim se assegura a participação cívica onde a partidocracia o impediria.
Mas as redes sociais são também um meio de cada um assegurar, como num jornal de parede, a manifestação do seu diário íntimo. 
Iludidos pela ideia de que estamos ante "amigos", damos conta do por onde anda o nosso ser exterior e o que povoa o nosso ser interior. 
O resto é a mundividência de cada um. Há os sedentos de interlocução, os carentes de palco. Há os que pretendem aplauso, os que esperam compreensão. 
Encontra-se ali o sublime e o patético. O ridículo também, este quantas vezes corporizado na tentativa desajeitada de se encontrar eco, outras por virtude das interpretações a que se prestam os actos e os gestos, as carinhosas e as malévolas.
É o reino da fantasia. A realidade perde a sua natureza material. O humano transmuta-se em mito. O facto cede ante a sua interpretação. 
Mundos de sombras e de espelhos, potencia a solidão sob a aparência de companhia, o equívoco à conta de tanto esclarecimento.
O FB esse pergunta ao abrir «o que está a pensar?» querendo significar «o que está afinal a fazer?». Essa a questão. O cartesiano «penso logo existo» dá vida a quem imagina que só assim a tem.

30.6.12

A Moral e o Legal

Perguntaram-me que jornal queria e tinham vários no avião. E sem vergonha pedi o ABC, sabendo-o de direita. E logo ali o primeiro facto simbólico, porque alguma esquerda prevaleceu-se vergonhosamente de intimidar a população, tentando convencê-la de que só à esquerda está o bom coração e a inteligência. E muitos que quiseram passar por socialmente preocupados e cultos alinharam por aí, ainda que vivendo no quotidiano a placidez burguesa, e ao filistino egoísmo juntaram a vulgaridade do trivial.
Li-o, sem preconceitos, passando adiante da parte em que se destacavam as touradas, porque as considero uma barbaridade e a indústria do que se chama "desporto" porque é ramo de negócio que não me interessa. Notei que tinha umas páginas dedicada à família, porque ainda existe e, neste desagregado mundo de solidão, renasce a nostalgia de que resista. Curioso.
Mas não vim aqui para gabar o jornal nem o meu gesto em lê-lo, sim por causa do artigo de fundo, escrito por Andrés Ollero, da Real Academia de Ciências Morais e Políticas, sobre a cultura política. Sobre as várias facetas do facto, sem peias. É a «fascistóide demonização do político» que surge no espírito dos eleitores pela generalização do opróbio a todos pelas culpas de muitos deles, daí resultando a impunidade dos prevaricadores fruto da indiferença face a todos quantos. É também a denúncia do cinto protector da presunção de inocência feita equivaler a presunção de irresponsabilidade dos que são apanhados em flagrante malfeitoria.
Lê-se como Literatura por pertencer àquele tempo em que, mesmo nos jornais e para os jornais se sabia escrever com classe e estilo. E surge com ironia o sarcasmo, a descrição do desfile dos novos ricos do poder e seu séquito, a alçarem-se a conezias que não sonhavam, a alusão aos prebostes de berço de ouro a estenderem-se pelo  trem de vida anafada a que se habituaram mas sem que lhes saia agora da carteira.
Magnífico texto, do que nele se trata é afinal de uma carta de marear pela linha que demarca a lei da moralidade. Protegidos pelas suas próprias leis, aos políticos tem restado o beneplácito da hipócrita fidalguia de quantos teorizam não poder a Justiça imiscuir-se na gestão da coisa pública, porque se contaminaria, vulgarizando-se ao politizar-se. Aí está o cerne: «os actos cujo juízo não se submetem aos tribunais do Estado caem debaixo da jurisdição do tribunal da opinião pública». A frase, que no artigo se cita, pertence a Jeremy Bentham. Em 1821 ofereceu-se para legislar em favor de Portugal na área do Direito Civil, Penal e Constitucional. Se não tivesse morrido em 1832, valeria a pena que o aceitássemos hoje, para que a Moral voltasse à Lei.

21.6.12

Crónica do relapso e astuto devedor

Sabem o que é a vergonha de ver o Estado fazer pouco da sociedade civil? Sabem o que é o desânimo de ver o Estado, que deveria ser o primeiro a dar o exemplo, a fugir às suas responsabilidades? Sabem o que é o Direito não ser a regra certa, mas a regra afeiçoável ao interesse de quem legisla e seus protegidos? Sabem o que é ver surgirem leis para dar razão a quem não a tinha? 
Basta ler o que consta hoje do Diário da República, sob o nome de Decreto-Lei n.º 127/2012, de 21 de Junho, nomeadamente o artigo 4º onde se dispõe que em relação ao Estado: 1 — Consideram -se pagamentos em atraso as contas a pagar que permaneçam nessa situação mais de 90 dias posteriormente à data de vencimento acordada ou especificada na fatura, contrato, ou documentos equivalentes.».
Isto em relação ao Estado porque no que se refere à canalha vale o Código Civil e já se deve após o vencimento acordado sendo para data certa ou especificada.
Para Suas Excelências que nos endividaram e endividaram o Estado ao limiar da falência há sempre uma forma de empurrar o pagamento com a barriga, fazendo uma lei. Por ela só está em mora noventa dias depois de se estar em mora, através dela quem deve ainda não deve ou é como se não devesse. Pois claro! 
O pior, o sintomático, o esclarecedor é que a turba dos credores, esganados porque não lhes pagam, e têm no relapso Estado o voraz credor fiscal e o impune devedor, essa, diminuída em direitos e esmagada pela pressão fiscal, ainda agradece porque ao menos noventa dias ainda é uma esperança.
Até quando? Até quando?

8.6.12

O argumento ad hominem

Em certa política já nem a ordinarice tem limites.
Dom Januário Torgal Ferreira seguramente poderia ter usado a linguagem melíflua típica de um seminarista para se pronunciar sobre uma afirmação do primeiro-ministro o qual, com pose de duvidosa sinceridade, veio elogiar o povo português por sofrer em silêncio os efeitos da política de agressão salarial através dos impostos. Não o fez porque lhe subiu a revolta à boca.
Claro que "mão amiga" logo fez chegar ao jornal com maior difusão nacional o que diz ser o seu salário mensal. Queriam com isso atiçar a revolta do povo contra o clérigo contestante. A lógica era clara: porque, sendo ele padre, não poderia vencer aquele ordenado, deveria viver sim da caixa de esmolas das igrejas; porque ao ganhar o que ganhava era igual aos políticos que criticava.
Na teoria da argumentação há o chamado argumento ad hominem [contra o homem]. Se não puderes destruir o argumento destrói a credibilidade de quem argumenta. A política vive disto. 
Há só uma diferença: quem abriu a mesa deste jogo foram os da política. Fingiram-se contidos e remediados. Desde o Dr. Passos Coelho na primeira viagem ao estrangeiro a fazer de conta que viajava em turística como um exemplo, até às excepções das excepções aos cortes salariais a favor de uns quantos.
Mas há mais: ao fazerem constar quanto ganha um sacerdote que, afinal, pelo cargo que ocupa, está equiparado a major-general, gerando a noção de que é dinheiro a mais, queriam, eles próprios, incluindo os que ganham escandalosamente muitíssimo mais sem razão, esconder-se à sombra daquele que assim queriam emporcalhar.
A regra é simples: quem vive no chiqueiro lança lodo sobre os demais para que, tudo parecendo uma pocilga, não se note, no fundo, a diferença.

P. S. Escrevo isto com a legitimidade de quem já tomou pública posição quanto à ostentação da Igreja que se reclama de Cristo, quanto ao que se passa no IOR. Mas não é isso que está agora em causa. Ser pobre não dá mais razão. Ser pobre de espírito, isso, sim, faz perdê-la toda. A ver se em relação ao rebanho dos que não abrem a boca se publica a lista dos seus ordenados ou da riqueza que nem sabe de onde veio?

2.6.12

Hoje há palhaços!

Nunca ficou tão claro que o que chamamos «notícias» são alegações tornadas públicas por haver este ou aquele outro interesse em que sejam reveladas.
Lembram-se [ou já esqueceram na voragem do tempo] aquela exaltada história sobre a influência da maçonaria na vida pública portuguesa, com nomes à direita e à esquerda, alguns nomes  apenas diga-se? Lembram-se que a coisa atingiu nas mentes sensíveis dos leitores um paroxismo tal que parecia que os "filhos da viúva" dominavam o mundo e, por decorrência, este cantinho da Europa, em que as chagas de Cristo foram heráldica da primitiva bandeira afonsina? 
E lembram-se que tudo isso vinha a propósito do "super-espião"? 
E lembram-se que bastou certos nomes terem vindo ao de cima como pertencentes à "pedreiragem", para uma certa reportagem de televisão ter vindo mostrar que, como em tudo, havia os maus maçons e os bons maçons quase a roçar a frase do Padre Américo de que não há «maus rapazes» e o tema morreu ao raiar da aurora?
Notaram agora uma nova arremetida por causa de uma rede alegadamente ligada a branqueamento de capitais que moverá milhões e envolverá gregos e troianos? E notaram que bastou um certo semanário acusar a administração de um seu concorrente de também estar envolvida na teia para que este, sob protesto de inocência, recolhesse a quartéis as revelações que vinha fazendo considerando-as - ó salto mortal - prejudiciais às investigações criminais em curso?
Repararam que depois do psicodrama sobre a compra da TVI por uma certa empresa, que abriu telejornais e encheu páginas de periódicos e meteu inclusivamente comissão parlamentar, agora é a interligação dessa empresa com um ministro e o mesmo "super-espião" e com tudo o mais que seja?
E deram conta que os maçons continuam, a empresa prossegue, o ministro subsiste e o "super-espião" resiste, agora em vias de abrir a panela dos "segredos de Estado" que conhecerá?
É este o panorama. Com estes factos ou com centenas de outros. É só ir à Hemeroteca e ler. E ver quantos, cavaleiros andantes da denúncia, da delação, da intriga, aí estão. Como aí estão os factos denunciados, delatados e intrigados.
É o mundo da moral relativa e da ineficácia da razão, o mundo do espectáculo sobre a sordidez.
O problema das notícias, hoje, não é elas serem ou não verdadeiras, é elas serem interesseiras: sabe-se o que convém que seja sabido. Mesmo que não seja assim é, na frase risonha de Alexandre O'Neill, «o mundo em forma de assim».
O palerma do leitor, que antigamente comprava dois jornais para comparar entre o Diário de Notícias e o Diário de Lisboa, entre O Jornal e o Tempo, e tirar do que lia a média da verosimilhança do que poderia ter sucedido, agora pode comprá-los todos que fica na descrença total e com uma só convicção: tudo tem a ver com tudo, a podridão é total. E se "zapar" na TV...zarpa!
A degradação moral de um País não se alcança quando os cidadãos não acreditam nos jornais, sim quando acreditam neles à medida do que querem acreditar. É, por isso mesmo, que surge o negócio de "fazer notícias". Porque as pessoas já não têm convicção em coisa alguma, porque mentira e a verdade tornaram-se desinteressantes ante este mundo de conveniências prováveis.
Por isso os partidos da área do poder mudam de liderança como quem muda de casaca para poderem livrar-se das culpas passadas e tornarem acusadores das culpas presentes dos que estão no governo.
Nos seus tempos juvenis do jornal "Expresso", o hoje comentador obrigatório sobre tudo quanto é possível e através dele passa a ser real, Marcelo Rebelo de Sousa, naquele estilo azougado que sempre o diminui face ao que poderia alcançar ante a sua irrequieta inteligência, criava os chamados "factos políticos". Eis o que tem sucedido, connosco a assistirmos.
No meio disto a verdade passou a nem valer um desmentido quanto mais um processo. No dia seguinte já ninguém quer saber.
Que me lembre não tenho como hábito escrever sobre factos da vida corrente. Nem isto tem a ver com as situações que aqui cito. Sobre essas sei lá como são ou como se tornarão. Sei apenas que no meio do caos mediático em que se tornaram, tudo se transmutou como quando o circo desce à cidade, a lógica do espectáculo o «é entrar meus senhores, é entrar, que hoje há palhaços!». O nosso gozo é vê-los cair do trapézio.

27.5.12

A frutificação dos 30 dinheiros

Leio na imprensa que foi preso o mordomo do Papa, alcunhado de O Corvo. A Cúria hesita em relaxá-lo ao "braço secular", isto é, entregá-lo à Justiça italiana. Estava na posse de documentos secretos, segundo consulto na fonte directa, o Serviço de Notícias da Santa Sé, aqui.
E li também que foi irradiado, sem que se saiba ainda porquê, o presidente do Banco do Vaticano, Gotti Tedeschi. A segunda notícia leio-a na agência de notícias da Igreja Católica, a Ecclesia, aqui. A qual esclarece que não se trata de um banco em sentido técnico, mas do Instituto para as Obras Religiosas
Trata-se, no que ao IOR respeita de um discreto lugar instalado na torre Nicolò V na Cidade Papal, entidade financeira do tipo das encarregadas da gestão de fortunas.
Sobre a pessoa de Tedeschi, membro do Opus Dei, e as suas ligações, cito da versão italiana do seguramente bem informado Wall Street Journal o artigo publicado quando da sua nomeação:

«Gotti Tedeschi, 54 anni, ex McKinsey, e' il rappresentante in Italia del Banco Santander Central Hispano (di proprieta' della cattolicissima famiglia spagnola Botin), ex fondatore della milanese Akros, banca di investimenti nata per fare concorrenza alla "laica" Mediobanca. Co-fondatore di Akros fu anche Gian Mario Roveraro, assassinato due anni fa in un delitto rimasto misterioso, pare legato a un ricatto finanziario. Gotti Tedeschi e' in grande sintonia con il governo Berlusconi, soprattutto grazie al ministro dell'Economia Giulio Tremonti. E' editorialista del quotidiano della Santa Sede l'"Osservatore Romano", insegna etica della finanza all'Università Cattolica di Milano. Dal 2004 al 2007 e' stato consigliere di amministrazione indipendente, nominato dal ministro dell'Economia, della Cassa Depositi e Prestiti, di cui e' di nuovo nel Cda dal 2009. Insieme a Rino Camilleri nel 2004 ha scritto il libro "Denaro e Paradiso: L'economia globale e il mondo cattolico".» [texto integral da notícia aqui].

A ligação entre uma notícia e outra, a da detenção do mordomo e a resignação do banqueiro, vejo-a, porém, aqui, na CNN: o agora detido poderia ter sido uma das fontes de que se serviu um jornalista italiano, Gianluigi Nuzzi, para ter escrito um livro chamado Sua Santità [aqui], periodista que já escrevera um livro chamado Vaticano, SA, o qual está traduzido em português, como se vê aqui. Em ambos os casos dúvidas e suspeitas sobre os negócios financeiros da Santa Sé, intriga política, escândalos.
O autor, ao falar do livro, aqui, dava já conta da fonte segura das suas informações.
Em causa, em suma, a faceta financeira da Igreja de Pedro, a gestão do que lhe permite o poder, facilita o luxo.
Hoje é domingo. Para os católicos praticantes, é dia santo, do seu encontro semanal com Deus, através da sua Igreja.
Baptizado, Crismado, educado num Colégio de missionários, tenho para com o Indizível uma relação íntima, de angústia feita de dúvidas e esperanças, de desencontros mútuos. A ser sombra, é, porém, a de uma criatura simples, pobre como Job, disposto a dar a sua vida pela salvação dos outros, como Cristo, pura mística sem figuração, como o Espírito Santo. A ser esperança, não tendo onde cair morto, é, no entanto, a minha certeza da eterna vida. A ser força, é, enfim, a do filho de um carpinteiro que empunhou, irado, o azorrague para varrer à vergastada os vendilhões do templo.
Creio no que para ser não precisa de ter. Se o máximo esplendor desse Ser é o máximo despojamento do que se tem, que eu siga as pegadas do monge, refugie-me no covil do eremita, porque abomino o ouro opulento misturado com religião, a venalidade a babujar a fé, a frutificação final dos trinta dinheiros.

26.5.12

Os devoristas

A crise de valores morais num País atinge-se quando ante a imoralidade já ninguém reage. A crise dos valores num País chega quando já ninguém está seguro de quem diz a verdade. Senti isto esta manhã ao ler, atrasado já, a notícia sobre o custo das refeições que se pratica no Parlamento. Veio revelada num jornal, aqui, mas a fonte terá sido o blog Má Despesa Pública, que sucessivamente publicou notícias sobre isso aqui e aqui e também aqui. O blog Porta da Loja, adita aqui, mais elementos.
Não vou transcrever o que dizem essas revelações. Peço apenas que leiam. Eu sei que temos todos pouco tempo, mas perdemos tanto tempo em coisas sem interesse. Ademais o dia de hoje está murcho. É uma visita guiada ao nojo, previno. Já agora, confira aqui, no site da Assembleia da República.
Cada um dos que lerem sabe o estado em que está o País, o estado de carência económica, a fome. Os deputados também sabem. Sabem que podem pagar, que devem pagar refeições que não sejam àquele escandaloso preço. Sabem que aquelas ementas requintadas são de restaurantes "gourmet", e que as refeições que no Parlamento se sirvam a preço bonificado devem ser dignas mas frugais, por serem refeições em local de trabalho. Sabem que a diferença entre o luxo que usufruem e o preço que pagam é suportado pelos contribuintes que somos todos nós outros. Sabem que comparando com o que estão a penar milhares e milhares de portugueses, aquele requinte sumptuário mais do que um escândalo é uma provocação.
Os deputados sabem isto tudo mas não se importam. Sabem que fazem parte de um sistema político que ofende o nome da democracia chamando-se democracia. Sabem que integram uma longa família de privilegiados que, em rotativismo permanente, vêm ocupando o poder, com umas franjas irrelevantes para os que estejam fora do sistema. E mesmo quanto a esses sabem que a lei do come e cala-te ainda é a grande lei para os comprometer, comprando-lhes o compromisso.
Os deputados, os governantes, aqueles que a política eleva a cargos e coloca em altas funções sabem que estão por cima de um estábulo de mansos bois que é o que resta do Povo português, que rumina sobre a palha seca do dia a dia e se conforma a mugir lugubremente o fadinho da pouca sorte.
Comensais do luxo, ruminantes da sem-vergonha, cevantes do aproveitanço, na hora da digestão nem uma crise de consciência os afectará, quantos folheando jornais já no hemiciclo, tantos passeando na net, nos intervalos do instante fugaz do «bate rabo» do quem vota a favor, quem vota contra, quem se abstém, a ladainha sonolenta sobre o trabalho legislativo em que pouquíssimos trabalham e em que se vota como o partido manda votar, tantos por cabeça.
Não, os deputados frequentadores dos restaurantes parlamentares não têm  disso que lhes atrapalhe a gorja, aflija as entranhas, amargue o fígado, gazeei as tripas. É que a deputação nacional terá seguramente sanitários adequados em que, com trânsito regular dos que querem lá saber, exprimem, vindo do eu íntimo, o que sentem quanto a todos nós.
Um dia, um dia estou certo, quando os famintos cercarem o hemiciclo para porem termo, a pontapé que seja, à grande bouffe desta imoralidade nojenta, talvez os apanhem com as calças na mão.

20.5.12

Um dia mau em Rio Mau

Sabia que era perto de Vila do Conde. Há um local com o mesmo nome em Penafiel. Viajámos até lá. O propósito era encontrar a igreja, românica, fotografar-lhe as representações, de uma insólita icononografia sagrada, de que falarei em outro lugar. Em São Cristóvão de Rio Mau.
Estava, porém, fechada. Chovia mansamente. Mesmo assim, segurando um no guarda-chuva, fotografou-se, uma a uma o que eram no exterior, incluindo o tímpano, as imagens talhadas na pedra.
Já em cabisbaixa retirada, por nos estar vedado o interior, cruzá-mo-nos, elas a sair do cemitério em frente, com duas paroquianas idosas, semblante amável. «Está fechada a Igreja...», arrisquei dirigindo-me a uma delas, na esperança de um informação. Sim estava, mas fosse à casa ao lado, a do padre, batesse à porta que «a criada» tinha a chave e viria abrir.
Assim fomos. Educadamente, polidamente, humildemente, um toque de campainha.
Surgiu a dita à janela, moçoila, cabeça atirada para fora em gesto de rompante, como se fossemos intrusos, logo vociferante porque era meio-dia, e que se isto eram horas, e que estava a fazer o almoço e num sei quê mais de imprecações.
Entre desculpas encolhidas minhas, lá veio, entretanto, abrir, sempre com o arrazoado censuratório quanto à inconveniência da hora, que a igreja é visitada por milhares «de estrangeiros» mas que eles não batem àquela hora «que nisso são são mais organizados». 
Tornei a pedir desculpa, desta vez já nem sei se desculpa por não ser estrangeiro. Debalde, porém, porque a arenga continuava, que «estava a fazer o almoço para pessoas de noventa anos e se isto são horas...»
«Mas podiam pôr um letreiro com o horário...», ainda arrisquei, timorato, receando a resposta que não tardou. «Não é preciso letreiro nenhum! Isto são coisas que se aprendem de pequenino! Não se bate à porta da casa das pessoas ao meio-dia». 
E que bem nos tinha visto meia-hora antes a chegar, atravessou, mentindo agora, sempre no mesmo tom de toque a rebate, como se não tivesse bastado ter-nos dito que agora não podia e que voltássemos mais tarde.
Fotografámos apressados, quais ladrões furtivos. 
Agradeci muito, renovei desculpas. 
Faltava o final do responso: que nós não valorizamos o que temos, mas os estrangeiros «esses sim dão valor.». E eu português, afinal, um mísero português...
Regressámos aturdidos, ofendidos, humilhados.
Da casa do vigário de Cristo na Terra, aliás uma bela casa de quinta, de automóvel à porta, tinha vindo aquela emissária, a receber com aquele modo desabrido quem vinha procurando a simbologia da divindade com nove séculos de vida. 
Nem me atrevi a dizer porque estava ali. Mais do que inútil, era sujeitar-me a invocar a decência espiritual do argumento a quem me tratava como se eu fosse uma besta ímpia e sem modos.
Fosse o próprio Jesus Cristo seria recebido do mesmo modo, com duas pedras na mão. Uma vergonha. Vim dizê-lo aqui pelo respeito que me merece o que é sagrado. Diz a lenda que o lugar chama-se Rio Mau por haver ali túneis guardados por dragões e serpentes.

28.4.12

A pedra tumular

Pela boca do General António Ramalho Eanes veio a lume a memória sobre o livro que Rui Mateus escreveu sobre o que viu na vida do Partido Socialista de então, nomeadamente a propósito de Mário Soares. Revelações graves, escandalosas as dessa obra.
O livro teve um destino curioso, sintomático.
Não conheço qualquer desmentido aos factos que ai se revelam.
Na altura, porque a serem verdadeiros os factos revelados poderiam integrar crime, o Procurador-Geral da República, Cunha Rodrigues, disse que iria mandar ler o livro. Nunca se soube o que resultou da leitura.
Para conforto de muitos Rui Mateus entrou, porém, na galeria dos insolentes ressabiados, por isso sem credibilidade. Virou-se assim a página. No entanto no livro relata o que viveu, não se excluindo do que se passou. E os seus leitores não o esqueceram.
Recentemente Mário Soares veio a público tentar desqualificá-lo. Sobre isso escrevi aqui, um postal a que chamei O Perfume Barato do Contar.
Rui Mateus, entretanto, desapareceu e foi eliminado dos registos públicos, como escrevi aqui. O livro desapareceu, como se lê aqui, e só pode ser lido na net, como por exemplo aqui.
De vez em quando o assunto regressa num breve furor para morrer em silêncio a seguir.
O que ninguém se pergunta é:
-» Qual a razão pela qual Rui Mateus escreveu o livro em causa, estando pendente à data o processo criminal do aeroporto de Macau e dos alegados pagamentos da Weidelplan, o célebre caso do fax no qual foi um dos envolvidos, tal como o foi o governador de Macau, Carlos Melancia? [ver aqui].
-» Qual a razão pela qual se não contam as tentativas que foram feitas para evitar que ele publicasse o livro?
-» Qual a razão pela qual nem Rui Mateus foi alguma vez processado e condenado como caluniador nem aberta averiguação sobre o que ele ali escreveu?
Um dia a História encarregar-se-à de tudo isto. A pedra tumular do silêncio, por mais pesada que seja, não é eterna no cemitério das misérias humanas.

Portugal, vive!

Custa-me escrever isto porque está recente a morte de uma pessoa e poderão pensar que a desrespeito. Mas bem pelo contrário. Falo do Miguel Portas, mas o que quero dizer tem a ver com a generalidade dos factos não com a individualidade da sua pessoa. 
Sobre ele pouco posso dizer. Não o conhecia salvo pela dimensão pública. Acompanhava ocasionalmente as suas intervenções. Pareciam-me mais sólidas do que muitos dos partido a que pertencia. Apercebi-me da doença e o seu desfecho. 
Dói a morte de quem tem valor. Dói a morte de uma pessoa. Mas só assim a vida se cumpre, retomando o ciclo de onde a vida surge. Pena que a vida não deixe, durando mais, que melhor se realizem certas vidas. Como sucedeu com ele.
O que quero dizer, porém, tem outro registo. Reparei nas exéquias públicas a seu respeito, no espraiar do sentimento de condolência pelas redes sociais, pelos comentários na imprensa, nas declarações públicas, no pesar que urdiu em tantos e tantos que, como eu, não o conheciam ou vagamente se tinham apercebido da sua existência e dos que, sabendo-o, recebiam com antagonismo o seu contributo para a causa pública. 
Teve o destino, afinal, de tantos portugueses que, uma vez idos, são colocados no Panteão da glória pelos mesmos pelos que os desconsideraram quando estavam entre nós em Portugal.
Miguel Unamuno, esse notável amigo dos portugueses, escreveu que somos um País de suicidas. Referia-se a todos e a cada um de nós. Amamos a morte, detestamos a vida. Os nossos heróis são os que foram. Dom Sebastião é a mítica do salvador que regressa do campo da morte, o Alcácer-Quibir da nossa esperança.
Um País que venera os seus mortos é um País com honra. Uma Nação que despreza os seus vivos, é uma Pátria morta.

25.4.12

Portugueses. de pé!



Escrevi isto neste blog faz precisamente um ano. Então como hoje.


«Escrevo isto com a tristeza de hoje ser o dia 25 de Abril. Nesse dia, em 1974, por causa da PIDE eu estava em Armas Pesadas de Infantaria no Quartel em Mafra.
Um regime que não garante nem emprego nem futuro à esmagadora maioria dos seus jovens, arrastando-os para a infantil dependência dos pais e para o perpétuo desemprego, um regime em que os jovens machos se imbecilizam com jogos virtuais violentíssimos e os adultos se idiotizam com o futebol na tv em doses cavalares e em que a coscuvilhice feita jornalismo rosa alimenta a ociosidade e a falta de sonho da feminilidade solitária.
Um regime que endividou o Estado até ao osso depois de o ter deixado pilhar por meia dúzia de novos ricos e agora faz todos pagarmos a conta do festim.
Um regime que tem as famílias falidas, porque enforcadas em hipotecas imobiliárias, e estraçalhadas por causa do crédito ao consumo e desejosos de mais gasto e mais compras.
Um regime de publicanos e filisteus, todos na ânsia do ganho, da renda e do lucro.
Um regime em que dois partidos que não se diferenciam nem distinguem pelas ideias e são iguais na ganância e na sede de poder rendoso, são, afinal, o partido único, a União Nacional dos tempos de hoje.
Um regime em que uma faixa significativa dos seus nacionais nos venderia à Espanha em troca de um prato de lentilhas.
Um regime que saqueia a Nação com impostos e em que os contribuintes aldrabam o Estado nos impostos, achando-o ladrão.
Um regime em que já não se sabe quantos anónimos bichos-careta foram Secretários de Estado ou até ministros e menos ainda quem eram ou de onde vinham, mas em que se percebe depois ao que vinham.
Um regime que capou os militares, achincalha os tribunais e domesticou a Igreja.
Um regime com estes e tantos outros males está minado pela pior lepra que é ele ser a gafa que tudo contamina.
Um regime destes e não este ou aquele Governo ou este ou aquele partido ou aqueloutra coligação tem de se deposto. A bem ou a mal.
A tarefa patriótica para os poucos a quem restem forças e esperança não é o que fazer nas próximas eleições.
Um regime destes clama, exige e merece uma Revolução. Chegou ao ponto em que ele é a semente da sua destruição. Não uma revolta cívica ou o lento corroer das manifestações de rua. Uma Revolução.
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Foi por isto assim que surgiu o 28 de Maio. 
Portugueses, de pé!»

10.4.12

Rádio Renascença: parabéns!

Presidia ao Conselho de Ministros o Almirante Pinheiro de Azevedo. Na extensa mesa circular, no pólo oposto, estava eu, Secretário do Conselho. Tempos conturbados os desse sexto governo provisório. Cabia-me fazer a acta das sessões, circular os projectos de diplomas legais de todos os ministérios, recolher as observações e críticas, circulá-las, preparar os dossiers para a discussão, sintetizando os pontos em controvérsia. E sobretudo assistir a esses tempos históricos em que seu deu o cerco da Constituinte, em que estive, também eu, aprisonado na Residência Oficial, na Rua da Imprensa, uma betoneira a barricar o portão, milhares de manifestantes a cercarem São Bento.
Foi num desses conturbados Conselhos - de que um dia talvez conte mais - que a cena ocorreu. Os SUV, sigla para a organização clandestina Soldados Unidos Vencerão [ver aqui e aqui] tinham ocupado a Rádio Renascença. A partir dali emitiam propaganda revolucionária, incendiando o País, provocando a Igreja Católica. Protestos surgiam, incluindo os da Nunciatura Apostólica. Nesse dia o assunto estava em agenda. 
Grave, ligeiramente tombado sobre a mesa, como era seu hábito, as mãos segurando as abas do casaco, qual comandante na ponte do seu navio, o primeiro-ministro ouvia a ladainha lamurienta ministerial quanto ao que se devia mas não se podia fazer. Foi aí que, iracundo, se soergueu. Com um dos seus «Vítor Alves [então ministro da Educação] ficas aqui a tomar conta destes senhores [os ministros] abandonou a sala». Voltou momentos depois. Reocupando a presidência da reunião, atirou como que atónito: «ainda a discutirem o mesmo, homens? Tá resolvido, porra!». Tava, de facto.
No dia seguinte soube-se como. Resolvido à bomba. 
A sabotagem das antenas silenciou o pio à aos que proclamavam a luta «com todos os trabalhadores pela preparação de condições que permitam a destruição do Exército burguês e a criação do braço armado do poder dos trabalhadores». 
Dizem-me que terá sido o então major Jaime Neves, dos Comandos da Amadora. Ou os Fuzileiros Navais. Quem souber que conte. Nesse dia a Rádio Renascença, a Emissora Católica Portuguesa sobreviveu.
Não sou católico, sim baptizado. Até por isso, deste canto que é o meu espaço de liberdade cívica, lhes endereço, para a Rua Capelo, como ondas para o éter, num aceno fraternal, votos de parabéns! Muitos anos de vida.

18.3.12

A suprema ousadia

Houve tempos em que Pedro Santana Lopes ser primeiro-ministro me causou uma revolta interior a rondar o insurreccional. Escrevi-o quando muitos ainda contemporizavam com o facto, expectantes do que viria e do que lhes calharia. Hoje ler que se dispõe para Presidente da República deixa-me indiferente. Não por ele, que continua igual ao que é, pelo País e no que se tornou. 
Santana Chefe do Estado, Supremo Magistrado da Nação, Chefe Supremo das Forças Armadas, símbolo da Pátria, no que isto deu, é normal. Normalíssimo mesmo. Até um dia, uma pálida madrugada.