20.10.11

A trapeira do Job

Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente. 
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam ainda da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio e de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que, ao mudar-se de sala, se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça. 
Foram anos em que o campo se tornou num imenso ressort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O País que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade, vindos dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e, às vezes, nem obrigado. 
O País que produzia o que se podia transaccionar esse ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente.
Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria industrial pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado, que caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho ungénito e mais uma trinitária pomba.
Às tantas os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa porque estávamos a importar brasileiros, não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista, trocado pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende. 
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois, que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o mando, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura em Bizâncio discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.

15.10.11

Bon chic, bon genre

Confesso que o homem me irrita. E confesso que ainda mais me irrita a corte de quantos o deificam, nele vêem o Catão das virtudes, o Moralista por excelência, o Polícia dos costumes. E acreditam que o dizer mal de tudo decorre de uma pureza de alma e de uma coerência de carácter.
Não é só ele. Há pelo País uma pleiade façanhuda de gente mal disposta e mal encarada que, por um lado, têm sempre opinião sobre todas as coisas e, segundo, se julgam o relicário das virtudes. E com lugar cativo na imprensa, doutorais e papais.
Um dia passo-me e conto a história pregressa do Vasco Pulido Valente Correia Guedes. Do que fez para chegar a assistente de Económicas. E do mais e quanto tudo isso foi de vergonhoso e como foi a história de uma ambição feita método.
Dir-se-à que isso que eu contar foram estouvadices do seu passado juvenil, como o deveria mencionar a testemunha abonatória que então indicou à PIDE/DGS, nos autos ali abertos, a seu pedido, e chamados de revisão, o Dr. António Martinha, dos Serviços de Censura, colega na mesma do pide António Barbieri Cardoso.
Não! É que houve quem, nesses anos de chumbo, comeu o pão que o Diabo amassou e foi expulsa da Universidade e corrida de empregos públicos e até na privada se lhe fecharam as portas. 
Gente que aguentou firme, não delatou, não jurou fidelidade à Constituição de 1933, não traiu. Gente da classe média que ele hoje despreza, com a sua arrogância patrícia de bon chic bon genre, como se lê na sua crónica de hoje no jornal Público.
A farsa do diletantismo é o circo das democracias caducas. Nela há duas regras de vida: o epicurismo burguês e o desprezo pela criadagem. Que eles, os snobs malcriados, acham somos todos nós.
Detesto falar de pessoas. No caso falo de uma encenação.

O Estado e a Revolução

Encostada à parede, a classe média é o terreno fértil onde pode florescer a semente do revanchismo autoritário. Foi assim que surgiu nos anos vinte o totalitarismo ateu alemão, o fascismo concordatário italiano e a rural ditadura católica salazarista.
Há nela, a pequena burguesia, o desprezo pela plutocracia argentária e o arrogância face ao operariado bolchevista.
Não é de excluir que a revolta surja daí, partindo-se o País pelo seu elo mais fraco. 
Além disso, obediente à troika o Governo eximiu-se de carregar no capital, por pensar que a crise financeira se resolve com a acumulação do capital. Por muito que tenha errado, o marxismo já tinha demonstrado que era o inverso. Ontem o primeiro-ministro mostrou quem vai ser sangrado para que esse capital se encontre.
Ademais Portugal é uma Nação governada por funcionários endividados e administrada por políticos que são funcionários dos credores.
Tudo junto, basta uma faísca não importa em que Grécia, ou uma primeira rixa de rua, a revolta torna-se em insurreição.

26.9.11

A cavalo dado...

Estará aqui a solução. Ou pelo menos um esforço para o encontrar. Vinda dos States, como o Plano Marshall. Uma mistura de globalização, monetarismo, aforro e tudo em doses cavalares. Temos visto cavalos com ideias bem piores...


24.9.11

Os dilectos "filhos do povo"

Se, neste momento em que a  Eurolândia se desmorona, Durão Barroso, um radical de que os americanos se serviram para, através do MRPP, combaterem o marxismo em Portugal, for o amigo útil ao tio Sam em Bruxelas, deverá pensar olhando para o "tigre de papel" que é o capitalismo a arder, tal como o Presidente Mao, seu líder espiritual:  «devemos apoiar tudo que o inimigo combate, e combater tudo o que o inimigo apoia». 
E ler o livro de Henry Kissinger, a amoralidade feita política de ping-pong...
O seu pensamento aos dezassete anos torna-se acção aos cinquenta e cinco.

20.9.11

A rumba

Gastou-se, esbanjou-se, "à tripa forra". O Estado e os particulares. A Administração central, a local e a regional. Fizeram-se estádios de futebol, poli-desportivos, rotundas, centros culturais. Viveu-se do cartão de crédito, do compre já e pague depois, das férias no Verão que pagará no Natal. 
Os políticos sabiam e queriam. As entidades de supervisão, de fiscalização, de investigação, sabiam e deixavam. Dava para todos. Os do costume alombavam com a carga da poupança, do pagamento a tempo e horas, com o que ainda se produzia, bestas de carga de um país de tantos burgueses anafados e muitos operários aburguesados.
De vez em quando um fazia de bombo da festa nos tribunais ou nos jornais, para que a festa continuasse.
A vaca leiteira da CEE alimentou o sistema, a grande teta da política e dos partidos do governo, os empresários "da formação profissional", os "agricultores do monte alentejano mais o jeep", as micro-empresas de coisíssima nenhuma.
Portugal tornou-se "gourmet", epicurista, inventou-se um "Allgarve" alarve. Uma geração de "yupees" tecnocráticos tomou conta da economia virtual, do mundo novo em rede, das finanças e da bolsa. O velho mundo do real e do tangível sujava demasiado as mãos. Tornou-se tudo capa de revista em papel "couché".
Depois foi a ressaca da bebedeira.
Primeiro as famílias endividadas até não poderem mais; agora é o Estado falido.
O País que se decapitou na capacidade de produção por se ter corrompido à Eurolândia é o mesmo País que sustenta hordas de chulos a viverem do erário público, alegando tudo menos vontade de trabalhar.
Só faltava a imoralidade. Eis a hora. Rendido à agiotagem, pela administração danosa, o Estado mostra agora que  aldrabão é, porque escondeu calotes, ocultou a realidade da sua falência, mesmo na hora de negociar com os onzeneiros tenta fingir que não está tão endividado.  O último primeiro-ministro mentiu até rebentar, o actual tenta que acreditemos que só agora os que o rodeiam sabiam a verdade.
É o tempo da borrasca e da rixa, o "chic" a dar em tasca. A maior parte dos que cá andavam, jogam-se, porém, para fora da taberna. São todos inocentes, porque não sabiam. São todos inocentes porque foi o partido do outro. São todos inocentes porque era no tempo da anterior direcção do seu partido.
Alberto João Jardim, esse, faz de Rei Momo, o seu papel preferido. Pergunta porque não lhe perdoam já que perdoaram às colónias. O nosso complexo ante a sua insularidade é o mesmo complexo ante as colónias, o receio de não querermos parecer colonialistas. Dele, como das autoridades das ex-colónias ouvimos tudo, no mínimo enxovalhos e insultos. Com a diferença: nas colónias andámos aos tiros contra eles, na Madeira, "cubanos" que somos de mentalidade, sustentámos a rumba política  e a cachaça eleitoral.

6.9.11

O Império da Lei

São países em que os governos estão sujeitos não só ao controlo parlamentar mas a fiscalização de legalidade pura. Veja-se o que se passa na Alemanha e a ansiedade com que é esperada a decisão do Tribunal Constitucional quanto aos compromissos que o Governo Merkel assume no quadro do seu envolvimento financeiro na crise da União Europeia.
Citando:
«One week after German Chancellor Angela Merkel’s Cabinet ratified additional measures to combat the euro-area debt crisis, the nation’s top court will rule on whether her government was right to take part in the rescues at all.The Federal Constitutional Court in Karlsruhe will issue a ruling on last year’s bail-out packages tomorrow. While anxiously anticipated by lawmakers and scholars, investors believe the judges are likely to rubber-stamp German participation in the bailouts, said Kai Schaffelhuber, a capital markets lawyer at Allen & Overy LLP in Frankfurt.» Toda a história aqui.

Situações que dificilmente se imaginariam aqui onde o Governo goza de um estado de complacência tradicional face ao controlo jurisdicional.

23.8.11

E esta hein?

Um destes dias ouvi na rádio uma entrevista em que o entrevistado contava como é que Salazar, curioso que estava ante a personalidade de Agostinho da Silva, na altura exilado no Brasil, arranjou um modo clandestino, à revelia da PIDE (sic), combinado com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, para que o exilado professor visitasse o País. 
Segundo o entrevistado a coisa só não resultou porque, ao chegar ao aeroporto, Agostinho da Silva foi preso pela PIDE, que não saberia dos secretos manejos a alto nível. E, ante esse inesperado facto, Franco Nogueira, em traje cerimonioso de soirée, pois estava num banquete oficial na Ajuda, lá teve de ir ao aeroporto tentar remediar a situação.
Perguntou o entrevistador, da Antena 2: «e o professor foi recebido por Salazar?». Esclareceu o entrevistado: «não, porque depois do que sucedeu com a PIDE já não seria possível...foi recebido sim pelo ministro Franco Nogueira...».
Que pensar disto tudo?
Que é mentira, uma inventona, dirão! 
Claro que o entrevistado cita a fonte: foi o próprio Franco Nogueira quem lho contou.
E claro que o entrevistado tem escrito livros sobre Salazar, que têm sido recebidos com muita bonomia pela própria esquerda política, et pour cause
E claro que o entrevistado sabe do que fala, porque sendo da terra da Dona Maria, a lendária governanta do Presidente do Conselho de Ministros, ia a São Bento amiúde até para explicar ao homem de Santa Comba como ia a agricultura.
E, esquecia-me, o entrevistado chama-se Fernando Dacosta, jornalista.
Ante isto, como diria o Fernando Pessa: «e esta hein?»

16.8.11

A hora da indecência

«É roupa usada mas está em bom estado», dizia-se do lado de cá, pensando que, por ser um lar de freiras que recolhiam idosos estariam imbuídas do sentimento da caridade e porque há pobreza em Portugal e pouco quem pense nela. Cruel engano. Ríspida, a resposta cortou cerce a ilusão: «Se for um saco ou dois, está bem, mais não!». E para que não houvesse dúvida de que a antipatia da voz correspondia à antipatia da atitude, atalhou «e vejam lá se aparecem a horas decentes», querendo dizer com a noção de decência antes das oito da noite!
Ah! que ira cristã, a mesma do próprio Cristo quando empunhou o azorrague contra os vendilhões no Templo, ele que era o arauto da religião dos mansos!
Vergonha e indecência! Se alguém conhecer quem precise e queira, porque é roupa usada mas em bom estado e vamos a horas decentes e entregamos no local. E entregaremos a quem disser representar o Diabo porque destas representantes de Deus estará o Inferno cheio.


13.7.11

O colossal desvio

A política é arte da argumentação. Visa o governo da Nação, através do Estado mas mediante a adesão do Povo. Mesmo quando se impõe o mal a uns há outros que aceitam essa imposição que outros rejeitam sofrer. Mesmo quando se sacrifica uma geração presente parte-se do pressuposto do aplauso da geração futura.
Até os ditadores não se livram deste contrato social implícito. Para eles é a Pátria ou o próprio Deus a fonte da aquiescência.
Por se moverem na arte de argumentação e no domínio da retórica os políticos têm de ter cuidado com as palavras. Manuela Ferreira Leite passou um mau bocado quando sugeriu que a democracia se interrompesse para bem do País. E ela teve de se interromper porque o acordo com a troika foi firmado fora da anuência parlamentar e apenas referendado a posteriori indirectamente em eleições. Já a adesão à então CEE aconteceu em tempos como política de facto, puramente governamental, ante um País que imaginava que tal só traria o El Dorado dos subsídios, mesmo à conta do suicídio da mais séria das autonomias, a alimentar. 
Voltando às palavras. Sabe-se como um ministro perdeu o seu lugar por causa de uma anedota sobre alentejanos, como outro teve o mesmo destino por via da linguagem gestual de cunho taurino.
Vem isto a propósito de Passos Coelho - que pensa que para se ser ouvido multiplicadamenete se deve falar superlativamente - ter lançado para os ares que os do Governo deram conta de um desvio «colossal» nas contas públicas face àquilo que o anterior Governo apregoava, enquanto que Miguel Frasquilho - mais técnico e por isso mais prudente - teve de vir dizer que o desvio «colossal» era, afinal... um «grande» desvio.
A oposição começou já o batuque em torno da palavra. Já se clama por explicações, idas ao Parlamento, enfim espectáculo político.
E o País que está esfaimado de substantivos vai assistir a mais uma ridícula e essa sim colossal batalha de adjectivos.O primeiro-ministro tem de aprender a ter tento na língua. Já dei comigo a pensar nisso por mais de uma vez. Não é que a minha observação conte. Sou ninguém e não quero ser alguém. É apenas porque, quer no espaço nacional quer na cena internacional, há quem leve as coisas a sério e esteja sobretudo à espera de uma palavra que revele ainda mais o nosso estado comatoso.

1.7.11

Os 50% de verdade

Eu não sei em que medida é que o Governo cuida da sua própria imagem e da forma como comunica com os cidadãos, meio pelo qual se ganha por vezes uma péssima imagem.
Mas esta madrugada vejo esta notícia: afinal o subsídio de Natal não será cortado em metade. Apenas será cobrado 50% do valor que excede o salário mínimo nacional. Vem aqui
Confesso que tudo isto é bizarro! Um Governo que sabe que o País começa a viver em alarme permanente. Que deixa que desde líderes de oposição até ao pobre Zé da esquina se angustiem, revoltem, desesperem ao verem o dinheiro com que já contavam - quantas vezes nem para Natal sequer! - a ir-se em metade e só agor, estando a procissão do protesto já no adro é que se lembra de vir esclarecer!
Continuem assim que não vão longe!
É que das últimas uma: ou era uma falsa notícia e havia que desmenti-la logo no ovo ou então era uma verdade de que o Governo se arrepende e então é melhor terem melhor cabeça para não terem a breve prazo que terem pés para fugir à ira popular.

25.6.11

Governar com os jornais

O primeiro-ministro tem de ter muito cuidado com os efeitos mediáticos que cria ou que deixa que se criem. Esta do viajar em turística é um delas.
Num instante um efeito tornou-se noutro; o primeiro, vantajoso e encorajador, o segundo prejudicial e desmoralizador.
Soube-se que Passos Coelho viajaria para Bruxelas em turística. Muitos saudaram como um notável exemplo de parcimónia nos gastos e de contenção de despesa, de moralização, afinal, das Finanças do Estado.
Como os contribuintes estão desconfiados, surgiu logo no instante a insidiosa dúvida: mas viajará sempre doravante em turística?
Ante isto, Passos Coelho, que navegava nas águas reconfortantes das boas maneiras, teve de entrar logo à defesa, fazendo explicar que era só na Europa. Naturalmente, porque ninguém supõe que um primeiro-ministro se canse fazendo viagens de longo curso na incómoda cadeira e no confinado espaço do moderno transporte de massas em que o avião se converteu.
Claro que, melhor informado de qual era, na verdade, a real economia com este gesto simbólico de poupança, Passos Coelho teve de fazer clarificar que, afinal, do que se tratava era de deixar livre um lugar na executiva, para que a TAP o vendesse e não fosse ocupado pela sua pessoa. Ou N lugares consoante a comitiva... Ou seja, já não era poupar o pagar, porque não pagava, era apenas dar à companhia transportadora a oportunidade de gerir a diferença de preço entre uma classe e outra. Isto é, o gesto tinha mais som do que tom.
Mas o difícil estaria para vir. Fonte ligada ao anterior executivo - que não revelou o nome (claro..) - explicaria que, afinal, os do governo não pagavam quando viajavam na TAP. Escândalo!
Ante isso, Passos Coelho teve de encostar às tábuas do mutismo. O seu gabinete já não prestou declarações. A TAP já não prestou declarações. Pior, um seu assessor veio dizer que não foi o gabinete do PM quem fizera aquela fuga de informação, a inculcar a ideia "a contrario" de que o gabinete faz fugas de informação, o que é confessar um incómodo que ainda vai custar caro!
Enfim!
Desejei a Passos Coelho e ao seu Governo a melhor sorte.
Louvo aqueles que aceitaram ser Governo nesta tremenda situação. Vão enfrentar a ira popular, sabem que se falharem cai tudo. É um Governo de última oportunidade.
É bom que não estraguem o importante com improvisos.
Se Pedro Passsos Coelho quer agir sobre este tópico há um modo muito simples. Neste caso havia, porque já se estragou metade do que poderia ter sido.
Primeiro, informa-se quanto a quem paga à TAP; no caso de haver quem viaje à borla, legisla e politicamente acaba com o abuso. Em nome da transparência das contas públicas. Para que a arruinada TAP receba por todo o serviço que presta, para que o Estado pague toda a despesa que cria.
No mesmo instante, estabelece critérios gerais quanto a quem tem direito a viajar em que classe. Porque é ridículo o primeiro-ministro viajar em turística e na executiva irem directores-gerais e gente das empresas públicas. No mesmo avião em que vão familiares de pessoal da TAP à borla.
E, enfim, quando falar ao País, o País percebe que não é um gesto é toda uma atitude que mudou e de que o primeiro-ministro é o primeiro exemplo: mais verdade nas finanças, mais restrição na despesa, mais moralidade no Estado.
Na política não basta ter boas intenções é preciso saber pô-las em prática. Quando usamos os jornais para Governar, é bom que se saiba que é um mundo de papel em que se arde muito depressa.

19.6.11

Ontem num colóquio ouvi da boca de um jornalista: se funcionasse apenas a lógica do mercado muitos jornais fechavam.
Claro que houve tempos em que, imperando ideias socializantes, havia imprensa estatizada como o "Diário de Notícias". A situação era a mesma. Nesses conturbados tempos um membro do Governo com funções para [ou contra a - , como diziam os seus detractores] Comunicação Social entrou no gabinete do do seu ministro, um dia, esbaforido, perlado de subor e de tartamudices verbais fruto da aflição porque «os tipógrafos, em greve, recusam-se a imprimir o jornal». «Óptimo», disse o tigrino ministro, cuja frieza de ideias cumulava um coração piedoso para com as vítimas dos seus interesses, «quanto menos sair menos prejuízo dá».
Aplicado a muito do País, funcionasse o mercado, amanhã fecharia a Carris e tudo quanto é transportes, incluindo a CP. Talvez se fechasse mesmo o Estado para poupar a Nação.
Voltando aos jornais a pergunta que se justifica é: se em termos de mercado dão prejuízo mas não fecham, quem sustenta o vício? E sobretudo porquê ou para quê? Ninguém perguntou. Acho que as pessoas sabem mais do que parece. Os silêncios são eloquentes.
Há, por isso, um jornal, que vai aceitando de embarda anúncios das meninas que prestam serviços íntimos. Não é porque o dinheiro delas, vindo da tristeza de vender alegria, estimule, é porque, naquele que já foi um jornal de referência, a sua companhia já não choca.

17.6.11

Oxalá

Ser-se Governo num momento em que se falham parece que afunda tudo deve ser um sentimento de ansiedade para os próprios e de angústia para o País.
De um Governo pode não se gostar deste ou daquele ministro, pode não se gostar de ninguém, pode até não se gostar da ideia de haver um Governo.
Acontece, porém, que neste momento gravíssimo da vida nacional, tudo parece de repente ter assumido um valor relativo. Há um ambiente geral de contenção. Ajudou o Governo não abranger na sua generalidade estrelas do tablado mediático. Até porque, num momento destes, as ditas estrelas, prudentes, saem de cena, pois não querem queimar-se.
O Governo que se anuncia é um Governo claramente para ser queimado vivo. Vão ter de conviver com a execução de medidas que vão gerar a revolta popular. Os verdadeiros desprotegidos vão ficar pior. Os falsos carecidos vão perder o apoio à inércia e a decidirem-se, enfim, a sair da vadiagem subsidiada não encontrarão trabalho. A classe média vai ser esmagada.
Pior: o Governo que se anuncia é um Governo para ser teleguiado pela "troika" e pelo que resta de uma Europa que nos cercou de regulamentos e por causa da qual rebentámos com a agricultura, que nos garantia auto-suficiência, porque a indústria, essa, estoirou por si.
Confesso um sentimento íntimo de inquietação. Na política não, porém, estados de alma. É caso para dizer, vindo do fundo do coração: oxalá!

16.6.11

CEJ: zero de conduite!

Haver futuros magistrados apanhados a copiar num exame na escola onde estão a ser formados é parte do agarotamento em que caíu a sociedade portuguesa, fruto da infantilização da juventude, a quem política concede direito de voto a as leis o acesso a cargos de autoridade. A escola que os forma não relevar esse desvalor grave de conduta como causa de inidoneidade absoluta para a função para que os prepara, aí está a gravidade maior. Dar dez de nota em vez de zero isso é apenas o sintoma e o sinal. A vilania moral compensa.
Talvez o que tudo isto indicie é a necessidade da vassourada de uma sindicância ao modo como funcionam as instituições. Assim haja força para o fazer com isenção e coragem para cortar a direito. Aos olhos do revoltado povo não são apenas os que copiaram que estão em causa, sim todo o corpo a que pertencem. Para a opinião pública infelizmente "andamos todos ao mesmo".
O problema é quando os problemas dão azo a discursos inconsequentes, por mais exaltados que sejam, a concitar simpatia de quem ouve. E isso tem abundado.
Saturados da miséria moral, saturados também dos demagogos que são pescadores de águas turvas no meio do pântano. Mais dia menos dia vemo-los pelas alcatifas do poder e percebemos quanto a crítica era, afinal, apenas uma forma de trepar pela escadaria domando.
Um candidato a magistrado que copia viola de modo manhoso a igualdade dos candidatos nesse exame para safar a sua pele. Parece um tudo nada. Um dia quando tiver pela frente um cidadão cujo destino lhe pertença decidir, sem que o perceba julgará julgando-se. A fatiota judiciária será apenas o traje de um baile de máscaras.

10.6.11

A tristonha cerimónia

Aos portugueses endividados, falidos, diminuídos por deverem, a um passo da ousadia de não pagarem, pedem hoje, 10 de Junho, as senhoras autoridades que gostem cerimoniosamente de Portugal.
Claro que Portugal, não é um país fácil de se gostar e por isso muitos portugueses não gostam: para uns, porque é pequeno e já foi grande, para outros, porque tem a mania de que é o maior. Nos portugueses, aquilo com que se embira é com o complexo de inferioridade, e com a mania das grandezas. Há em nós essa estranha dualidade psicológica. Surge em auras repentinas e dura o tempo de uma discussão de café. Nos intervalos agónicos da crise, vivemos em latente depressão.
A nossa maneira portuguesa de ser, não é só a de sermos instáveis, é, sobretudo, de sermos inconstantes. 
E depois, os portugueses desapontam-se e surpreendem-se de Portugal. De Portugal gosta-se do clima, mas os portugueses especializam-se em carpir por causa dele. De Portugal gosta-se do desenrascanço dos seus naturais, mas os portugueses acham que nada vale a pena. De Portugal gosta-se dos portugueses, mas os portugueses não gostam de portugueses.
Além disso, há a nossa estranha maneira de ver. Um português típico é o que vê reflexamente, olha-se como que a um espelho, toma a sombra pelo corpo, ri-se do outro, como se não fosse ele. Os portugueses nunca estão contentes com o que está, estão sempre descontentes com o que são, porque se acham melhores do que o que parecem. O português olha para si como se visse na rua. Nele, a maledicência é sempre uma forma de auto-crítica. Envergonhado de ser ele próprio, o português do povo médio foi ainda intimidado pelo português que se julga único a ter vergonha do seu patriotismo. Nesse aspecto, as ideologias são iguais, o internacionalismo proletário tão parecido com a internacional do capital: à esquerda, o português tem medo de dizer Pátria, para não parecer fascista, à direita tem medo de dizer Nação, para não parecer retrógrado. É nesta colonização mental que temos vivido e é neste baixio que nos atolámos.
O português comum, ou emigrou ou é como se tivesse emigrado. Para ele, Portugal é uma chatice, inevitável só por estar no lugar onde nascemos.
Ainda por cima há no português de hoje a fobia da morte da raça lusitana. Amputado das colónias, encurralado no rectângulo continental, o português residual teme estar em vias de extinção. Por isso o português se torna ibérico, não vá tornar-se espanhol. Por isso, se quiz europeu com medo de ficar africano.
Não fosse a selecção nacional portuguesa e ninguém gritaria por Portugal.
Sucede que a Europa se reduziu à Alemanha e Portugal à sua dívida pública. Envergonhados devedores os portugueses começam agora a ter medo de perder Portugal.
Nos 10 de Junho a Pátria resumia-se à liturgia medíocre da parada compulsiva de militares obrigatórios e a deprimentes condecorações, tantas a esmo. Uns dias depois os Santos Populares alimentavam o povinho a sardinha e a vinhaça.
Hoje não há bebedeira que nos salve da tristeza nem condecoração que dê respeito. O Estado esgotou a Nação.
A 10 de Junho celebramos o Camões que não voltou na nau da Índia, o ouro do Brasil enterrado nos Conventos de Mafra ostentatórios da nossa grandiloquência falida. No podium da celebração está uma regime em dúvida, em suas casas um País em dívida.

9.6.11

Boa sorte portugueses

Vamos partir de um postulado: o de que, pelas razões de emergência nacional que vivemos, os nossos políticos, desde os que formam Governo aos que estão a preparar a oposição ao mesmo, interiorizaram alguns valores e princípios. E que a vida em Portugal ainda tem esperança de mudança.
Primeiro, que os cargos públicos não são benefícios pessoais nem formas de se alcançarem vantagens pessoais e que quem vai para a política não vai desta para melhor.
Segundo, que a litigação partidária deve passar para um segundo plano ante a discussão política, a discussão política não deve sobrepor-se aos interesses nacionais, porque o poder não é um jogo de azar.
Terceiro, que a lógica de coesão e de solidariedade deve prevalecer sobre a afirmação de identidades ideológicas, a existirem, e de particularidades pessoais, que essas existem.
Vamos partir de um postulado: o de que aqueles a quem se confiou pelo voto o poder e aqueles a quem o voto confiou o dever de se comportarem como oposição percebem, ante a expressiva abstenção, em que medida há um País que se deixa governar sem querer saber do Governo, tantos por desprezarem governantes.
É uma técnica mental, como o botão de "reset" nos computadores. Vamos admitir que qualquer coisa mudou nos que estão no "pau de sebo" do mando e nos que se agarram a eles para os arrearem dali.
Porquê? Nem eu sei. Talvez por medo, o de que estamos no limiar do desastre, talvez por esperança, a de nos desejar, a nós os governados, "boa sorte". Bem precisamos dela.

25.4.11

Portugueses, de pé!

Escrevo isto com a tristeza de hoje ser o dia 25 de Abril. Nesse dia, em 1974, por causa da PIDE eu estava em Armas Pesadas de Infantaria no Quartel em Mafra.
Um regime que não garante nem emprego nem futuro à esmagadora maioria dos seus jovens, arrastando-os para a infantil dependência dos pais e para o perpétuo desemprego, um regime em que os jovens machos se imbecilizam com jogos virtuais violentíssimos e os adultos se idiotizam com o futebol na tv em doses cavalares e em que a coscuvilhice feita jornalismo rosa alimenta a ociosidade e a falta de sonho da feminilidade solitária.
Um regime que endividou o Estado até ao osso depois de o ter deixado pilhar por meia dúzia de novos ricos e agora faz todos pagarmos a conta do festim.
Um regime que tem as famílias falidas, porque enforcadas em hipotecas imobiliárias, e estraçalhadas por causa do crédito ao consumo e desejosos de mais gasto e mais compras.
Um regime de publicanos e filisteus, todos na ânsia do ganho, da renda e do lucro.
Um regime em que dois partidos que não se diferenciam nem distinguem pelas ideias e são iguais na ganância e na sede de poder rendoso, são, afinal, o partido único, a União Nacional dos tempos de hoje.
Um regime em que uma faixa significativa dos seus nacionais nos venderia à Espanha em troca de um prato de lentilhas.
Um regime que saqueia a Nação com impostos e em que os contribuintes aldrabam o Estado nos impostos, achando-o ladrão.
Um regime em que já não se sabe quantos anónimos bichos-careta foram Secretários de Estado ou até ministros e menos ainda quem eram ou de onde vinham, mas em que se percebe depois ao que vinham.
Um regime que capou os militares, achincalha os tribunais e domesticou a Igreja.
Um regime com estes e tantos outros males está minado pela pior lepra que é ele ser a gafa que tudo contamina.
Um regime destes e não este ou aquele Governo ou este ou aquele partido ou aqueloutra coligação tem de se deposto. A bem ou a mal.
A tarefa patriótica para os poucos a quem restem forças e esperança não é o que fazer nas próximas eleições.
Um regime destes clama, exige e merece uma Revolução. Chegou ao ponto em que ele é a semente da sua destruição. Não uma revolta cívica ou o lento corroer das manifestações de rua. Uma Revolução.
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Foi por isto assim que surgiu o 28 de Maio.`
Portugueses, de pé.

24.4.11

Quando o lobo acordar

Parecerá arrogância, mas a cidadania é feita do direito e do dever de cada cidadão exprimir o que pensa. Porque cada homem é um voto.
Lamento concluir mas nenhum dos dois partidos que têm sido Governo me oferece confiança para poder acreditar que têm soluções para Portugal. Lamento concluir que as poucas pessoas com valor que restam neste País não arriscam o que seja para se mobilizarem para a causa pública.
Aqueles partidos não têm dirigentes credíveis, estas pessoas não querem fazer perigar os seus interesses ou o seu bom-nome. A calúnia passou a ser arma política, a vantagem pessoal o seu móbil.
A linha da frente da vida política em Portugal está entregue pois aos que só têm a ganhar porque nunca tiveram muito a perder. É o mundo do arrivismo. A retaguarda que os sustenta é a apatia dos que se vão safando nos interstícios da economia paralela e do mundo dos expedientes, mais o empreendorismo manhoso dos que se encheram com a especulação privada e com a depredação do Estado.
De quando em vez surge um que parece um bem intencionado, altruísta e desapegado. Em breve se mostra um Nobre de nome.
Há, claro, os ingénuos úteis, os que ainda acreditam e militam ou até simplesmente votam. E os indecisos e a abstenção, o maior partido português.
Que Portugal tenha uma solução, terá. No imediato vai ter um Governo comandado pelos credores, assim como até aqui era governado por funcionários de Bruxelas. Passámos a ser uma Nação entregue a intendentes. Na hora do voto escolheremos empregados julgando-os senhores e sonhando no momento do voto que somos donos do nosso destino.
A urna passou a ser eleitoral e funerária. Através dela a democracia vai agonizando, sangrada por aqueles partidos que a aprisionaram.
Passadas as férias da Páscoa e a tolerância de ponto Portugal entrará na via sacra. Lentamente a dor das privações vai fazer-se sentir. O baile tresloucado e ébrio do crédito sem garantias e do calote consentido vai dar azo ao fim de festa e à ressaca. A classe média, endividada até ao tutano, será a primeira a ajoelhar. É dela que surgem historicamente os sentimentos de revanchismo, sementes das comoções políticas que desembocam em tragédia. O proletariado aburguesado pelo sindicalismo interesseiro não vencerá as contradições das suas ambições medíocres, de que um plasma para o futebol compra a alienação.
O egoísmo europeu mostrou já a sua face. À Europa lírica, dos passarinhos multiculturais, sucede um cerrar de fronteiras e a defesa do espaço vital das potências do Eixo franco-alemão. Não é essa agremiação de interesses que nos salvará. A Sociedade das Nações imaginou no seu tempo que não haveria mais guerras. Com o Tratado de Versailles a Europa imaginou que conteria a Alemanha pacífica e longe do mar. Um dia o lobo acordou esfomeado. As pegadas do ódio multiplicaram-se  na terra fértil do anseio de ordem e de orgulho nacional.

21.4.11

O gesto estranho

Estendeu-me a mão decidida mas com um olhar indiferente, como se ainda prosseguisse, arrastando-a, a conversa com o que me antecedia. À pergunta sobre se poderia entrar com aquele saco, nem resposta deu, alçando-mo, mecânica, da mão, para colocá-lo, preste, num cacifo, entregando-me, em troca, uma ficha de depósito.
Havia, porém, algo de incerto no seu modo de agir, como se uma timidez ocultasse aquele rápido desembaraço. Era a seu modo eficiente, ainda que pouco comunicativa. Mas estranha.
A verdade surgiu com a crueldade da conclusão no mesmo instante. Hoje, tarde de chuvisco e de tolerância de ponto, tarde de compras naquele supermercado, ela era peça anónima do serviço de recepção. A sua tarefa tinha a importância de tentar defender a honra dos honestos face a equívocos e evitar que os desonestos se pudessem aproveitar da confusão. Além disso era aquele o seu ganha-pão, do qual sairia, Deus sabe, que sustento para nem se imagina o quê.
Havia em tudo isso uma única particularidade que tudo explicava incluindo a estranheza dos gestos: era cega.
Depois de mim, os seus olhos inseguros e mortos varriam o horizonte próximo buscando quem quer que viesse a seguir a nós. Pressentia, como num arrepio, a presença do outro, a sombra humana, o passo seguinte da sua repetitiva função. Tantas horas assim durante cada dia, todos os dias.
São estes os pequenos heróis quotidianos, os que envergonham as nossas menoridades de alma com a sua força moral, a capacidade de resistirem silenciosamente à adversidade, o tornarem passinho miúdo da rotina os passos de gigante da sua coragem.