10.6.14

Viva Portugal!



Oito séculos de História para darem numa Nação subjugada pelo Estado, Estado ocupado pelo Governo, Governo dominado pelo capital tornado Europa, Povo tornado vulgo.
Oito séculos de História a desembocarem na palavra Pátria se ter tornado tão vazia de significado que morta de sentido está, e até parece mal.
Dia de Portugal de portugueses mansos e submissos, os que periodicamente elegem, julgando escolher, os do partido dos seus donos, escravos da falsa liberdade de votar, os que na urna depositam, qual funerária fosse, a morte da sua intervenção civil, dia dos que se submetem ao que vier, por já não quererem sequer saber, fantasmas da cidadania, sonâmbulos do pesadelo que é estar-se aqui.
Dia também da hora dos contentinhos e alienados de Portugal, hipnotizados por qualquer imbecilidade televisiva do raiar da manhã ao cair da madrugada, dia dos raivosos e ululantes, sim, mas no futebol à hora do golo, dia dos demais a acomodarem-se pela desilusão que é a velhice da alma, mendigos do tostão e do se faz favor, fado da viela da pouca sorte, dia do penduricalho a rodos e do festim comemorativo das senhoras autoridades.
Dia do carteirista a sonhar-se burlão, da corista que podia ser actriz, do doutorado a teclar em caixas de supermercado, dia em que a reforma já foi quase devorada por ser dia dez, dia do ócio feito estudo, da sortuda ponte por ser feriado e em Lisboa feriado logo a seguir. Dia do nada e do coisa nenhuma.
E, no entanto, na sombra dos covis e das mansardas, onde nem a História os surpreende, há loucos por ideais que são de razia do tudo mesmo que para nada, ido que foi já o Império e com ele o ouro e a pimenta, os Brasis e as Índias da aventura e da pilhagem, esquecidos os heróis que a febre matou e a espada da traição dos seus liquidou de vez, doente de morte que está o Ocidente de que somos rosto esfíngico e fatal, nesses tugúrios da raiva, sozinhos que estejam, mortos que venham a ser pela explosão da bomba incendária que tudo isto merece, há um Portugal a ressurgir.
Dia de esperança, pois, em que do sombrio e do desespero, se abra, como uma salva de clamores e de revolta um "Viva Portugal", "Portugal, tu não morrerás!"

1.6.14

O triunfo do escárnio de do mal dizer


Abriu fogo, abatendo-os, a um e um, os ministros do PSD com quem agora está coligado. Enxovalhou banqueiros, que o seu Governo agora protege, políticos com os quais agora convive, a "porca da política" que é agora o seu lugar de frequência. 
Ridicularizou, apoucou, gozou que se fartou. Às suas mãos tudo foi escárnio e mal-dizer. Tudo quanto mexia abatia.
Fê-lo através de um jornal que franqueou à época todos os limites do admissível.
Entre as verdades que importava assim denunciar, publicando-as, e as mentiras publicadas que nunca foram como tal denunciadas, a tiragem subia e com ela os lucros dos seus financiadores.
Hoje, ante os jornalistas que o cercam de mão estendida por uma declaração "dá-se ares". E tudo resulta, porque em Portugal é assim que actualmente resulta.
Isto porque hoje, travestido na roupagem engravatada que os adultos vestem, ganhou a pose que no Estado se usa, está ministro. 
Já não traz o lápis atrás da orelha.
Impune, o jornal já fechado porque instrumento que foi do seu trepar a esacadaria do poder, diz que está «arrependido».
Não tem de que se arrepender! É assim que lá se chega, é desta massa que eles se fazem.
O mundo de ontem ensinava bons modos e tento na língua. Evitava-se o ataque pessoal. O combate era de ideias, não de vilipêndio.
Essa compostura dos conservadores atirou-os, entretanto, para o lixo do ridículo, como de uma senilidade bacoca de tratasse. 
A demagogia verbal, o soez do verbo tornaram-se a forma e modo.
Paulo Sacadura Portas começou com o "Independente". A meias com Miguel Esteves Cardoso. Hoje no encontro do «perdoa-me», diz tudo o que pode ler-se aqui.
O destempero verbal que, através dele, a novíssima direita ganhou é, já se viu, o modo de ganhar votos e popularidade. 
Iludida pela aparência, há quem confunda desbragamento com esquerda. 
É assim que nasce o fascismo, com o populismo e o assalto ao poder. Primeiro aos berros, enfim, silenciosamente, pela calada da noite se gerou o domínio da carneirada que qualquer troika pastoreia.
Basta começar em letra de forma. Um dia está-se a escrever no "Diário da República", com força de lei. 

1.5.14

1º de Maio


Claro que o capitalismo gerou o aburguesamente do operariado, tornando-o primeiro classe média, antes de os rebaixar porque, sujeito às suas crises endémicas, pauperizou-os, tornando essa classe intermédia, o "exército de reserva", a massa dos desempregados, sujeitos a toda a ignomínia, por força do rebaixamento salarial.
Tudo com uma diferença: é que esse novo proletariado perdeu a consciência de classe. Agem como vivem, minados pelo materialismo primário dos bens de consumo, endividados, quando podem, para alcançá-los. Estão contaminados pela ânsia do ter e diminuídos por lhes faltarem os bens que são a essência das suas existências.
Quem hoje luta pelas oito horas de trabalho, oito de descanso, oito de cultura? Quem tenta hoje, entre essa imensa maioria que não tem outra força salvo a do seu trabalho, que aluga a quem lho paga, por ser o Homem Integral?
Narcotizados pelo espectáculo mediático, acorrentados ao crédito, pobres e falidos, o 1º de Maio é para tantos, o dia de coisa nenhuma.

24.4.14

E depois do adeus


As datas redondas propiciam efemérides. 40 anos estarem volvidos sobre o 25 de Abril de 1974 abre via para todos quantos se preocupam com os factos em função do calendário. E jorram, assim rememorações em todos os tons e paladares.
Não é só isso, porém, que dá causa ao imenso que se tem agora escrito e dito e polemizado sobre esta data. Lembro que o ano passado a mesma estava quase em vias de cair no olvido público, salva pelo grupo resistente em torno da bandeira "25 de Abril Sempre!".
Que se passa então para esta comoção pública, que transcorre dos meios de comunicação de massas para as redes sociais, inclusivamente para as conversas de rua e até para a intimidade dos lares, trazendo doses maciças de "Revolução dos Cravos" a um público que, cada ano que passa, é mais formado por aqueles que não eram nascidos sequer, gatinhavam ou andavam pela escola primária quando se deu aquela pálida madrugada e que nada viram nem sentiram, então e nos «anos da brasa», quantos escolarizados por uma organizada historiografia nova falsificadas ela também pela ideologia, tornando factos em propaganda que só agora começa a decair?
Passa-se que estamos a sublimar, ao revolvermos aquele dia, a ânsia por um novo 25 de Abril, sabendo que há muitos que desejariam, sim, mas um 28 de Maio, a Revolução Nacional que acabaria por levar ditadura ao poder.
Passa-se que há quem comece a murmurar saudades pelos valores do passado, mesmo sendo o passado o do Estado Novo, e isso nas bocas dos que, com o PREC andavam matraqueando agitação permanente, a esquerda extremista, clamando, ó «radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista» o «nem fascismo nem social-fascismo», hoje zelosos serventuários do capitalismo mais decadente e predador que se viu nos últimos decénios, em suma, fazendo jus ao princípio chinês de que «o melhor espião é o convertido».
Passa-se que houve um País que no dia 31 de Março de 1974 aplaudiu o então Presidente do Conselho de Ministros Marcello Caetano quando do derby Sporting/Benfica e menos de um mês depois muito desse País vociferava "morras" porque destituído aquele, estava cercado no Quartel do Carmo. E com isso o vira-casaquismo, arte de sobrevivência na selva e nela meio simiesco de trepar.
Passa-se que houve um País que teve como Presidente da República um general, Costa Gomes, que fora «crachat de ouro» da PIDE e antes dele outro que passou de "bestial democrata" ao ter escrito "Portugal e o Futuro", antevisão do MFA, a "besta fascista" ao ter-se enrolado com a "maioria silenciosa" e o que se lhe seguiu.
Passa-se que o País, que se ia destroçando numa guerra civil em 1975, passou do colectivismo das nacionalizações e ocupações para o liberalismo das privatizações e concentração do capital financeiro em que as poucas famílias que eram donas da País voltaram a sê-lo mais uns quantos parvenus, os novos-ricos da nova Situação.
Passa-se que o País suportou a megalomania do bloco central e seus interesses privados, os desmandos irrealistas da governação de um José Sócrates, já falido e a delirar com o TGV, e rende-se hoje, desgovernado pelos credores usurários, aos diktats da troika e ao seu comanditário Passos Coelho, gritando imprecações que são a forma dos submissos se inconformarem, rendidos, porém.
Passa-se que o País acumulou ressentimentos, rancores, descobriu que os seus brandos costumes são afinal incapacidade e aquela forma acomodatícia do «o que é a gente há-de fazer», variante do «assim, como assim, isto é tudo o mesmo».
Passa-se que o País está hoje alienado em futebol e no voyeurismo - que é o prazer dos impotentes - a devorar, sequioso, pela TV mesquinhas vidas alheias e, encolhendo os ombros, a grandiosos escândalos públicos. E tudo se tornou circo onde não há pão. E negócio mediático.
Passa-se que os que sonhavam a queda do "fascismo" pelo "levantamento nacional popular", viram que uma vez mais, tal como com o general Gomes da Costa, os cadetes do Sidónio, foram os «capitães de Abril», em suma, as fardas, quem carregou no detonador do «basta!». E só no 1º Maio um "putsch" militar se tornou no arranque de uma revolução popular.
Só que hoje já não há Forças Armadas, sim, remanescentes fardados.
Passa-se que estamos à beira de um revolver entranhas da memória. 
Claro que Vasco Lourenço pode sorrir ao lado de Assunção Esteves, Ana Maria Caetano dar um beijinho a Otelo Saraiva de Carvalho. A Nação já não acredita em nada.
Nunca uma canção foi lema e hino fúnebre. Esta é. Deixo-a aqui. E depois do adeus: «Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci »

21.12.13

O original e o desde sempre


Foi há uns bons e idos anos, numa área de serviço, daquelas onde se pára para vazar ou abastecer. Eu ia, acompanhado, para uma casa de veraneio em São Martinho do Porto passar uns dias. Interceptado fui, ali, em plena cafetaria, por uma daquelas personagens «metediças» como dizia a minha Mãe, «fraldiqueiro» dos que tudo querem saber que, ante o destino que levávamos, perguntou, entre o incrédulo e o deslumbrado: «Mas têm lá casa?». Sem saber porque se estranhava respondi, com aquele assomo de verdade que às vezes nos leva ao pormenor dispensável: «ela tem».
Pensei que o assunto estava resolvido, incluindo a ressalva que não me apossava, nem pelo Verbo, de bens alheios.
Só que faltava o demais: «mas desde sempre?» perguntou, em jeito de remate, o meu insatisfeito interlocutor, porque isto de ter-se casa, em São Martinho - vulgo "o bidet das Marquesas", em alusão à calma baía que torna a praia numa espécie de lagoa tépida - já dá à coisa uma certa "patine", mas casa «desde sempre» é pedigree garantido, de que nem todo o futrica se pode gabar.
Lembrei-me disso hoje quando, por ter-me dado em Évora, num destes dias gélidos, cumprindo uma ânsia antiga, a guinada de comprar um capote alentejano, ao entrar esta manhã na pastelaria "Versailles", uma das sobrevivências lisboeta da belle époque en mauvaise temps, ter sido interpelado, após medição de cabo a rabo, pela pergunta abissal, vinda de boca amiga: «ah! um capote alentejano!», no caso verdade indesmentível e comigo dentro dele, ainda que mal ajeitado. Mas faltava o tom e o toque que diferenciaria: «Mas é dos originais?».
Fiquei sem saber como responder. Não foi preciso, porém. Sem dar-me tempo para explicar-me quanto à genuinidade da origem, fui eu esclarecido que «em Salvaterra há um tipo que os fabrica e são óptimos!».
«Óptimos!», percebe? que é uma palavra que integra o léxico privado do bon chic bon genre e ademais denota a raça.
E logo em Salvaterra que é, como se sabe, Alentejo profundo...e era a terra dos "barretes" dos idos Parodiantes de Lisboa essa hoje tão necessária e corrosiva "Graça com Todos!"

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22.11.13

Numa bela e que seja magnífica madrugada..


Ouvi na rádio as palavras de Mário Soares. E olhando para muitos dos nomes que se perfilam em torno de si, lamento, não consigo acreditar que sejam alternativa para o grave momento em que vivemos. Estão aí tantos dos que nos conduziram aqui, muitos dos que lavam assim as mãos ao que nos trouxe até aqui, muitos dos que criticam como se falassem de um mundo a que são alheios.
As palavras de Mário Soares, ao vaticinar que caminhamos para a ditadura, são o eco trágico do mesmo que clamavam os republicanos na agonia da primeira República quando sucessivas hostes republicanas tentavam salvar a República, quando já não era com eles que a República se salvaria.
Tomo conhecimento também, da homenagem a Ramalho Eanes, à qual o mesmo não estará presente. Um Homem honrado perante quem me curvo em respeito. Mas de novo se perfilam em torno do acto, vultos em que não acredito, pessoas em quem não confio.
Lamento. É esta a minha verdade íntima. É deste pesar que faço a minha ausência na política, a minha escassa intervenção cívica.
Talvez nas sombras do que a ribalta mediática não reflecte, nalguma mansarda esconsa, nas catacumbas do afundado Portugal estejam os que protagonizem o futuro. Talvez tenhamos que esperar uma geração e, com ela, o tempo prolongado de sofrimento. Talvez tenhamos que aguardar o desmoronamento desta Europa, que se sabia que era a Europa do capital disfarçada da Europa social, a que trouxe a política financeira mais o expansionismo estratégico alemão como a mãe de todas as políticas e com isso a usura e agora a bancarrota dos endividados. Talvez tenhamos numa madrugada o desenlace fatal da revolta  generalizada, a irracionalidade de uma revolução. 
Um Regime Político está morto quando o Estado perde capacidade de encontrar salvação para o País que serve. Eis o que sucede à democracia partidária desta segunda República, dominada pelo rotativismo partidário de um bloco central de interesses, afinal o regime saído do 25 de Abril quando ele se estabilizou após o 25 de Novembro. Eis a repetição da história da primeira República que desembocou no 28 de Maio.
Ante isto, esta miséria e este vazio, só a Nação chamando a si, com a legitimidade de oitocentos anos de História, a condução dos seus destinos, em nome da Pátria dos portugueses, numa bela e que seja magnífica madrugada.


18.11.13

O ideal e a redenção


Penso que a questão se resume assim: houve um tempo em que, por sermos ainda tão pouco ante a vida então escassamente vivida, em que havia muito mais a unir do que a separar. Mas já então se notava a diferença entre nós. 
Houve um tempo em que, porque a juventude traz confiança e ilusão, minimizávamos o que nos dividia, ampliando o que nos irmanava. Sobretudo ante o que tínhamos como sendo uma causa comum.
O tempo, esse outro tempo que foi esgotando, porém, dispersou-nos, o espaço que se nos abriu como mundo, deu-nos, entretanto, a uns oportunidades a outros negações. E fomos formando ideias sobre o mundo, crenças sobre a transcendência, expedientes para a vida prática. Diferenciá-mo-nos. 
Nos momentos em que nos encontrávamos, ou nos eventos comemorativos, comensais, celebrávamos o ritual nostálgico dos tempos idos. Fingíamos, por não pensar muito nisso, que os dias da arriscada luta por um mundo novo, até por um homem novo, a luta também para que fossemos eternamente novos, ainda se mantinha na ordem do dia. 
A verdade, porém, insofismável, é haver agora já tanta diferença entre cada de nós: os arranjos e as conveniências, as derrotas e os sucessos, os cortejos de histórias miseráveis e de vidas de miséria tinham-nos tornado outros. 
Foi assim com os cadetes do 28 de Maio, com os capitães de Abril, com os da crise académica. Foi assim com os heróis da Rotunda, com os bravos da praia do Mindelo.
A nostalgia é a ânsia de purificação, o acordar ante o pesadelo do real lembra o pulsar do sonho arrebatador. No labirinto nocturno da madrugada são gerações cujo quotidiano é uma moral íntima que os acusa de traição.
Inexoravelmente a vida mata em muitos o ideal. Por isso renasce ciclicamente a geração da ousadia e do atrevimento que a substitui. 
Poucos resistem ao que foram sem serem uma caricatura de si.
Toleramos vergonhosamente o insuportável limitando-nos a um murmúrio, no mais desistentes.
Não vem isto por eu ser melhor do que os outros, não partilhar das mesmas fragilidades, não estar aquém do que eram os meus vinte anos. 
Digo e por isso escrevo o que vejo ainda fazer pulsar, triste embora, o coração de muitos que ousam acreditar que não foi em vão. E por saber que a vida dá em cada dia uma oportunidade de redenção.

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13.10.13

O amor e a raiva


O Natal é período difícil para muitas pessoas, porque lhes traz recordações de uma infância triste ou porque arrasta memórias da perdida felicidade que existiu na infância; para tantos porque lhes volta a ideia dos duros dias de Natal que tiverem de viver ou proporcionar.
Este ano, porém, à mercê da política financeira e fiscal do Governo e do descalabro que isso provocou na economia, tudo piorou severamente. E não é a ilusão que criam aqueles que, pela fortuna que não lhes faltou ou pela irresponsabilidade que neles continua, ainda ostentam bem estar e até opulência, que se pode dizer que não grassa na esmagadora maioria miséria,  fome, privação de toda a espécie.
Por isso mesmo choca a sensibilidade dos que a têm estarmos em Outubro e algumas lojas atestarem-se já de decorações de Natal, entrar-se em parques públicos de estacionamento e estarem animados com música de Natal.
Dir-se-à no primeiro caso que é a ânsia de venderem, antecipando a época, assim como anteciparam a dos saldos, e no segundo que é para trazerem a doçura da paz e do amor que o Natal simboliza àquelas lúgubres caves onde se arrumam automóveis.
O efeito é, creio, exactamente o oposto ao pretendido: uma mistura triste de desconsolo e raiva.
Sem se imaginar caminha-se no limite do precipício.
Amansados pelo fatalismo que os caracteriza, os portugueses têm consentido ao Governo tudo, protestando embora. Os próprios funcionários públicos, de que o Governo se serve como mastins na agressão aos seus concidadãos são tratados com cada vez mais desprezo vil, porque o Governo julga que, mesmo na penúria, continuarã fiéis e servidores, ante o medo de perderem o que resta, o próprio emprego.
É a fase terminal dos impérios em descalabro, em que os senhores conduzem a guerra com soldados já em farrapos, maltrapilhos esfaimados às suas ordens, julgando-os obedientes. 
Há, porém, um dia em que se vira a fome do cão contra a fartura do seu dono, despedaçando-o à dentada com a justa ira do sofrimento.
É que as fortunas de que se encheram os que estão no mando conseguiram-na através daqueles que hoje espezinham. Os governantes são apenas os seus comanditários.

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28.9.13

Coabitação e condenação


É um daqueles edifícios em vidro, material caríssimo, que mostram aos voyeurs a intimidade dos que neles trabalham, edifícios de janelas que não se podem abrir porque são todos eles janelas, que exigem ar condicionado permanente, no Verão e no Inverno, edifícios que reflectem a luz do Sol tornando-se estufas, que impedem o ar de circular e com ele a purificação do ambiente.
Edifícios que são devassa permanente, que não dão um momento de pausa sem pose porque se está exposto como na montra, edifícios que são incubadoras de gérmenes, torres idênticas na sua verticalidade vítrea, edifícios de uma modernidade onerosa, insalubre, estupidez social armada em inteligência arquitectónica.
Edifícios cuja limpeza, porque todos vidro e em vidro, se faz a partir do exterior, empregados de escovilhão e balde e mangueira, trabalhando a elevadas alturas, em risco permanente de caírem, à mercê de uma tontura, uma vertigem, uma indisposição.
Foi num desses edifícios que eu vi, do alto do sexto andar, de arnês como manda a Lei, mas solto, a arrastar-se atrás deles, dois trabalhadores limpando o que a chuva sujara, em risco de caírem e soprava vento.
Dirigi-me à segurança do edifício e disseram-me que não era com eles. Vindo o chefe completou que passaria «por lá». Até eu sair não tinha ido. Aliás os trabalhadores são privados.
O Estado, que ocupa o edifício, ali julga e condena todos quantos tenham trabalhadores que, sem segurança, sofram um acidente, com severidade quando morram. 
O mesmo Estado coabita, porém, com a insegurança que condena. Numa primeira impressão passará «por lá», depois, em caso de tragédia, faz-se um inquérito para se saber das causas do acidente.

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17.8.13

O ouro e o ferro


Relativamente longe que estava, o écran da televisão fazia-me chegar, sexta-feira, as imagens do noticiário das treze ao fundo do café onde almoçava. Hipnótica a mensagem ia ocupando o espaço do que deveria ser um momento de paz, mesmo quando se come fora de casa, ainda que num pronto a comer. Mas é esta um das suas leis de funcionamento, a invasão. A segunda é a do nivelamento. À mesma hora, na mais apinhada zona urbana ao mais recôndito lar aldeão, deixou de haver diferença. A gritaria de som, a estridência da imagem tornam tudo um inferno de vazio parecendo ser o paraíso do preenchimento.
Indiferentes, os demais circunstantes mastigavam, agravando o ruído com o terem de falar mais alto. Além, uma criança carpia em gritaria o cansaço e a desambientação. A torrente noticiosa sempre em torno do mesmo alargava-se. Os incêndios pareciam  já o mesmo incêndio, o fogo eterno que consome e devasta e já arde sem se ver, a carnificina no Egipto poderia ser a mesma do Líbano. Já ninguém quer saber. A excepção veio quando a legenda «A mulher mais rica de Espanha morreu», noticiando o desaparecimento da criadora da Zara.
«Xii, chefe», interrompeu o empregado o seu errático serviço de mesas. «Era a mulher mais rica...». Ficou assim noticiado, com aquela novidade, o que tentava ser uma informação necrológica. Poder-se-ia ter dado destaque ao facto de ter começado como costureira, trabalhando a partir de casa num negócio humilde, ou sobre o modo como compatibilizou negócio e filantropia. Não. Assim não se atingiriam os humildes como aquele empregado de mesa. Nem o seu patrão. Nem os dois. O ouro seduz, não o ferro de onde pode provir.

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12.8.13

Entre as brumas da memória


Há, de facto, uma funda diferença de mentalidade entre o português e o castelhano. Porque não posso dizer o espanhol, já que aquilo que se chama Espanha é um conglomerado de Nações diversas, pouco havendo em comum entre um galego e um basco, entre os que surgem em Barcelona e os que nascem em Madrid. Do mesmo modo, aliás, o nosso rio Tejo marca um outro País e a Galiza é o mesmo espaço nacional que o Portugal a norte daquele rio.
A diferença a que aludo, essa nota-se no respeito pela memória histórica. Onde seria possível haver aqui, no país dito «dos brandos costumes», um monumento análogo ao dos caídos, com a monumentalidade do que ali existe, em cuja cripta arde um fogo perpétuo em homenagem a Francisco Franco e a José António, Primo de Rivera? Em Espanha, precisamente, onde a guerra civil, entre Julho de 1936 e Abril de 1939, matou cerca de meio milhão de pessoas.
Dizia-me o bibliotecário da Fundação José Cela, em Padrón, que, entre os que ali trabalhavam, um teve um familiar no lado republicano, outro no lado nacionalista, um outro um familiar que foi morto. 
Eis a mentalidade deste País, dilacerado que foi por uma cruel e feroz guerra, mas em que as vinganças do passado parecem sustidas.
Que razão ditará essa diferença? 
Dir-se-á que escrevo isto por causa da polémica em torno da estátua a um cónego.Assim fosse apenas. Escrevo isto pela simples razão de haver em Espanha um jornal chamado ABC, monárquico e conservador, que se publica desde 1903, e que desde 1905 é diário, e em Portugal, um País que está longe de não ser conservador, a direita nunca ter tido capacidade ou coragem para lançar um jornal nacional diário que traduza a sua visão do mundo.O capitalismo, esse, quando quer investir na imprensa, fá-lo, aliás, sintomaticamente, em jornais à esquerda.
É uma diferença esta que se nota logo ao começo da manhã na ida ao quiosque. Mais funda, pois, do que a de uma simples estátua.
Tudo se perde pelos labirintos da História, antes de se expressar na toponímia das ruas, que de 28 de Maio passaram a 25 de Abril, de Dona Amélia a Almirante Reis.
Manuel Buiça, a mão armada que matou o Rei, viu o monumento que lhe foi erguido despedaçado pelo Estado Novo e guardado num armazém. 
Professor primário, a 28 de Janeiro de 1908, quatro dias antes do regicídio, no estado de viúvo, lavrou testamento de que uma das testemunhas foi Aquilino Ribeiro, ele também membro da Carbonária, e no qual consta: «Ambos os meus filhos vivem commigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4o andar, esquerdo. Minha família vive em Vinhaes para onde se deve participar a minha morte ou o meu desapparecimento, caso se dêem. Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos. Lisboa, 28 de janeiro de 1908.»
É disto que falo, precisamente.

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7.7.13

O jogo das cadeiras


Houve, na dança de cadeiras, que é a lógica do poder, mudanças. Uns ficaram de pé, outros com o banco mais largo.
Para muitos, o jogo emocionou muito, como nas festas de aniversários de ingénuos adolescentes em que às cadeiras se jogava e se batiam muitas palmas com gritinhos de aflição.
O que interessa, o que verdadeiramente conta em termos do País onde isto tudo se passou, muito poucos parecem querer saber.
Ficou a confiança reforçada em que nos governa? Não ficou, porque a todo o momento, viu-se, um só pode deitar tudo a perder.
Ficou a solidez da equipa governativa clarificada? Não ficou, porque os ressentimentos contam, e mais contam os desapontamentos das cedências.
Ficou afastada a possibilidade de uma nova crise? Não ficou, porque a ministra das Finanças, esvaziada que esteja de poderes, vai continuar a ser um dos elos fracos da cadeia, e o demais é igual ao que já era.
Ficámos mais credíveis junto dos nossos credores? Não ficámos, porque para esses o que conta é a suspeita de que um dia, à conta da nova gerência, o devedor se exima ao pagamento.
A política é um jogo de poder. Esta dita democracia é uma agremiação de gente que quer o poder. A ambição é o aliciante da partida. Depois há as promessas, os programas e até as eleições. Como no verdade ou consequência, os cinco cantinhos, ou um pim-pam-pum! Ora pum!

3.7.13

Ruptura na leiloeira


A sensação de que não é só ter-se escolhido um errado ministro das Finanças, que sai admitindo ter falhado nos objectivos e nas contas, e a de que não é apenas ter-se escolhido uma sucessora que é um pára-raios apta a atrair faíscas incendiárias sobre o Governo.
A sensação de que não é já tão somente os partidos da área do poder político terem esgotado a  capacidade de oferecerem alternativas com credibilidade interna, é o presente e o futuro de Portugal terem perdido qualquer credibilidade no exterior.
A sensação de que assim fosse apenas termos um inactivo Chefe de Estado a mercê de lhe chamarem «palhaço» e a Justiça a achar que isso é uma liberdade pública que faz parte do seu estatuto ter de aceitar porque a tanto se prestou, estarmos ante uma classe de ministros que nem à rua podem vir sem segurança férrea sob pena de serem agredidos pela ira pública, tudo aquém do respeito, aquém da dignidade pública, aquém de o Estado se fazer já respeitar.
A sensação, ainda mal pressentida, é a de que os sacrifícios impostos à esmagadora maioria foram em vão, porque a crise política vai gerar agravamento da crise financeira, vai minar a confiança económica, vai abater definitivamente a esperança na democracia, vai tornar-nos ainda mais pobres.
A sensação, enfim, e que ninguém fala, é a de que na grande hasta pública em que isto se tornou, Portugal é governado pelos administradores da massa insolvente designados pela comissão de credores estrangeiros, o pessoal políticos meros encarregados da venda e agora aconteceu a ruptura na leiloeira. E que, com isso a base de licitação do País descerá para níveis ainda mais apetecíveis à agiotagem que já nos tinha na mão a preço de saldo.
O capital adora insolvências. Na vida empresarial há quem viva a comprá-las. Na vida política internacional aprendeu-se também que é bom negócio.
Ai, porém, de quem trabalha! Esses correm o risco de saírem de mãos a abanar. Na vida judiciária e na vida política é assim. 
O poder não brinca às crises, enche-se com elas. A sensação de que estamos à venda ao desbarato para que se cobrem as últimas comissões de agência.

10.6.13

Portugal!


O calendário oferece oportunidades, tendo dias. Há o dia do Pai e o dia da Mãe em que à sociedade dos filhos se dá a oportunidade de, com uma prenda ou um telefonema, mostrarem que houve progenitura e ela tem um espaço de cuidado no seu coração. Mesmo para aqueles que, ao aproximar-se a hora da inutilidade dos que lhes deram a vida, se eriçam já ansiosos pelos despojos da partilha, entre si discutem qual o melhor lar onde se desembaracem do peso de lhes aturar a decadência física e o embaraço mental. E o dia dos namorados, com corações e jantarinhos à luz da vela e oportunidade de carinho na monotonia de quanta vida íntima e uma noite de enlace em semanas de desinteresse. E o dia do trabalhador em que este se permite um dia vazio à burguês, fazendo nada e pensando em coisa nenhuma, pondo de férias a sua raquítica consciência de classe.
Tudo com muitas excepções, claro, entre elas o daqueles que aproveitam estes dias para comemorarem o anti-dia, fazendo tudo para que se note que não querem saber do dia e estão contra o dia, irritados e afirmativamente façanhudos por trazer-lhes o calendário, o calendário juliano ou o calendário gregoriano, um e cada um dos dias e entre os dias dedicados calhar-lhes terem de conviver com a data e os odiados comuns mortais. São os que são sempre o outro e estão sempre do contra.
Além disso, há as efemérides que são um brinde dado pelos mortos aos políticos comemoradores e aos editores. Dias de lembrança engalanada com discursos e escritos e publicações. No dia seguinte volta o senhor morto ao seu coval, devolvido ao facto de ter passado o dia e com ele a ocasião. E a História engole nas suas páginas o acontecido, que entra em nova contagem até datas certas, de decénios e lustres para que se erga então de novo a tenda da celebração.
Vem isto a propósito de ser hoje o Dia que, ao ser o de Portugal, é também o de Camões.
A épica que Camões cantou está hoje ali pelo Restelo a rosnar impossibilidades das Índias e a inutilidade da viagem. É um verso heróico já esquecido cantado a tristonhas gaivotas em terra. De Portugueses plebeus do Quinto Império. De concidadãos que qualquer Intende governa, explorando e apoucando, sem precisar sequer da ameaça do cadafalso ou do pelourinho, apenas valendo-se de se terem tornado a horda vagabunda dos conformados mansos.
Quanto a Portugal são oito séculos a ter dado vergonhosamente nisto. Não sei se no Parlamento ou no Largo da Câmara Municipal ou talvez no Terreiro do Paço, com formatura compulsiva de Sapadores Bombeiros ou de sonolentos magalas, as senhoras autoridades, uma vez mais, cumprirão o caduco protocolo da comemoração. Imagino bem que sim e que haja discurso e fita, penderucalho de condecoração e oportunidade para fazer de conta. O povinho esse quererá lá saber. Amanhã a imprensa dirá do que se disse o que foi "recado" como se de alcoviteiros falasse ou de regateiras.
No seu bojo, naquele recôndito de alma onde nasce no português a saudade e a aventura, há, porém, uma raiva surda que começa a urdir. É ainda um rumor. Tem a ver com a penúria mas vai para além dela. Surge porque se está mal mas isso é apenas a ocasião. Explica-se por estarmos fartos disto tudo mas é a voz anterior à saturação. Não em todos porque nunca é em todos, a maioria acha sempre bem tudo e qualquer coisa e aprende a desenrascar-se em qualquer canto, avinhando-se de alienação, imbecilizados a futebol e a televisão. É naqueles poucos que de quando em vez fizeram as datas que depois morrem, em que a terra a treme, rompe o que está pelo sismo do que talvez pudesse ser.
Há uma raça de portugueses que os portugueses nem sabem. Dormem a esta hora. São sete e pouco da manhã e é dia de Portugal. Se eles quisessem aclamava-se uma nova dinastia, defenestrado o usurpador e seus intendentes.

2.6.13

A lei fatal do esquecimento


Faz parte das referências obrigatórias à repressão do antigo regime. Foi extinto em 1954. Nele morreram 37 portugueses. É o campo do Tarrafal. Em 2006, em 2010 e em 2011 escrevia-se que estava ao abandono mas que o governo caboverdiano pretendia, após obras, elevá-lo a património cultural da Humanidade. [veja-se pelo menos aqui e aqui].
Agora, em Maio de 2013, leio num artigo de Esteves Reis, publicado no último número do jornal As Artes entre as Letras, que se edita no Porto: «É deprimente olhar, ver e visitar este Campo dos Presos Políticos do Tarrafal, aumentando tal sentimento pelo descuido a que ele é votado, física e culturalmente, dentro e fora das escolas».
O campo permitiu eventos culturais e discursos, como este em 2009 da Fundação Mário Soares [ver aqui]. Apagadas as ribaltas caiu no esquecimento.

26.5.13

Deus salve a República!


Em Dezembro de 1914 com a República a iniciar o caminho para a sua perdição, que se arrastaria por um longo calvário de mais doze anos, o Presidente da República, Manuel de Arriaga convida, em desespero, Brancamp Freire, Magalhães Lima e Machado dos Santos para formarem Governo. Todos recusam. Este último, o herói da Rotunda, terá dito a frase que hoje pode ser repetida como uma prece na forma de um grito que desta malfadada terra ecoe por todos os Céus: «Senhor Presidente, apesar de sermos ambos livres pensadores, permita-me V. Exª esta expressão: Deus salve a República!»

25.4.13

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!


Não sou um "herói de Abril". Estava, é verdade, no Quartel em Mafra quando ocorreu aquela "gloriosa madrugada". Mas o pelotão de armas pesadas de infantaria, especialidade que me tinha sido atribuída graças a uma informação da solícita PIDE/DGS, a de que eu "não dava garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado" - informação rigorosamente verdadeira, aliás - era comandado por um tenente que não era afecto ao MFA, donde, por causa dele, ficámos esse dia retidos no quartel, cujas unidades rumaram a Lisboa.
Vi, isso sim, muitos que estiveram, desde o ovo familiar, contra tudo o que significou a democracia, a liberdade de expressão, em suma os direitos cívicos, alinharem desde logo, pressurosos, com a revolução dos cravos e com o socialismo como horizonte. Foi o vira-casaquismo que João Abel Manta tão bem retratou num dos seus cartoons que o já extinto O Jornal publicou. E surgirem, das rectaguardas da indecisão  e do equívoco, muitos "heróis" a clamarem por tudo quanto depois, com prodigalidade, se distribuiu: reintegrações, medalhas, subvenções, lugares, cargos, "tachos".
Não foi, porém, por causa disso que aqui vim escrever.
Deu o 25 de Abril de 1974 em muita coisa. Tornou-se em outra coisa logo no dia 1º de Maio seguinte. Em outra no 11 de Março de 1975. Em outra no 25 de Novembro do mesmo ano. Cada um tem o seu, houve quem os tivesse tido a todos.
Quando, por trabalhar com o Almirante Pinheiro de Azevedo, fiquei cercado na Residência Oficial a São Bento, no tempo em que na Assembleia se discutia e aprovava a Constituição de 1976 que substituiria a "plebiscitada" de 1933, senti que, o poder na rua, a História acelerava rumo a um socialismo que eu não queria. Quando, meses antes, assistira, como secretário do primeiro ministro da Justiça da democracia, Francisco Salgado Zenha, às primeiras transigências ante alguns que tinham servido também nos tribunais plenários, pressenti que a formação de um novo regime passava por cedências ao pior do que fora o anterior. E tanta coisa mais.
Estou aqui apenas com uma frase e por uma frase. Ela sintetiza o que, olhando para o País real que nos é dado sofrer e naquilo em que tudo isto se tornou, o sentir, estou certo, da esmagadora maioria dos que estiveram com Abril no dia em que Abril aconteceu: «não foi para isto que se fez o 25 de Abril».
O resto é, no pardacento das comemorações oficiais, na nostalgia dos que já só comemoram o dia com uns jantares de arrastado e tristonho saudosismo e a dieta gastronómica, pois a idade já não perdoa o reumático e as úlceras, na indiferença de todos os imensos outros, angustiados quantos com o que irão dar de jantar aos filhos, nuns desfiles organizados pelo partido que não desarma, o pútrido fim de um regime. 
Esgotado, vendido, endividado até às orelhas, pejado de oportunistas e de medíocres, que rapa no fundo da gamela das escolhas, gerido pelos administradores da insolvência culposa em que isto se tornou, o Estado vergonhoso, o País triste, a Nação castrada.

26.2.13

Joaquim Vieira: est rebus in modus



Joaquim Vieira escreveu uma biografia de Mário Soares, que acaba de sair.
No livro, de mais de oitocentas páginas, fala-se de Macau, sim, mas apenas no caso do "fax", que fora trazido a lume pelo jornal "O Independente", através da jornalista, entretanto falecida, Helena Sanches Osório, dando a Soares oportunidade de se demarcar do que para ele seriam apenas as actuações de «quatro gajos do PS»...
Quanto ao caso TDM e àquilo que o próprio Joaquim Vieira investigara, enquanto jornalista do "Expresso", e denunciara nas páginas daquele semanário, no que se refere às ligações do próprio Soares e de gente consigo relacionada na rede Emaudio/Emaudio International/Robert Maxwell, nem uma palavra. Nem quanto a isso nem quanto ao "dossier" Alberto Costa. Fala-se de uma detenção de dois administradores por "irregularidades" de gestão e fica-se por aí. 
O biógrafo Joaquim Vieira terá as suas razões para silenciar aquilo que o jornalista Joaquim Vieira investigou. 
No prefácio do livro, chamado "Mário Soares e Eu", percebe-se, porém. 
Quis o destino que Vieira, mandatado pela editora para escrever a obra, se encontrasse, casualmente, com Soares, este para um tardio passeio matinal. Felicitando-o pelos artigos que Vieira, entretanto, escrevera sobre as "escutas a Belém", (o "caso Fernando Lima"), Soares acrescentou que o fazia, independentemente do que fora o relacionamento deles no passado, porque isso estava «sanado». Ante isso, consigna Vieira no livro:  «Que outro político teria tal atitude?».
Precisamente. Eis! Est rebus in modus.
Conheci o Joaquim Vieira que foi jornalista do Expresso. Não sei quem é o autor deste livro. Pura e simplesmente não sei.

P.S. Percebi que era preciso explicar que a expressão latina, assim construída, é uma ironia e não uma errada citação do brocardo est modus in rebus. Ele há coisas que realmente!

16.2.13

A rota farpela do Estado


Sob a ameaça de os meter na cadeia, o Estado torna cada cidadão um recebedor de impostos, no caso do IVA e do IRS: retêm-nos com a obrigação de os entregar ao Fisco. Quem presta um trabalho cobra IVA a quem o prestou e paga IRS por tê-lo prestado. Idem quem vende o que seja.
Agora, sob a ameaça de multa, o Estado torna cada cidadão fiscal das obrigações tributárias dos comerciantes, punindo-os se não lhes exigirem facturas.
Em vez de pagar aos funcionários, o Estado corta-lhes o vencimento e despede-os. Em contrapartida, usando o Direito Penal como forma de pressão, o Estado privatiza o serviço fiscal pela pior forma, a mais desproporcionada, a mais atentatória dos princípios constitucionais.
Até aqui os tribunais, que terão de ser o braço armado do sistema, têm estado calados e sobretudo quietos. Até ao dia em que o primeiro tribunal levantar a mão para a acabar com este expediente que degrada o cidadão no cobrador de fraque, a rota farpela do Estado.

25.12.12

O joker

Num país de ignorância mal disfarçada pela erudição, num país em que mesmo a suma instrução conduz ao desemprego e a total falta dela ao Governo, num país em que a pompa retórica é a circunstância até em simples crónica de jornal, num país em que ser Dr. é a pedra de armas do plebeu vaidoso e o Dom aristocrático foi regiamente vendido a saldos como comenda e prebenda, num país que googla um saber fingido para se dar ares, de entrevistadores que ao perguntar preferem fazerem-se ouvir, num país de analistas políticos arvorados em fazedores de opinião, num país em que a História, como verdade, não se ensina e, como propaganda, se trafica, falsificada, num país de fancaria feita porcelana e de cacos a passar por cristal, surgiu um homem que com tudo gozou, o burlesco que somos, o patético que parecemos.
Invocar o nome das Nações Unidas mais do que símbolo de uma mentira histórica - pois foram a união das nações vencedoras em 1945 e o forum actual das nações desunidas - é a demonstração final de que antes isso - na ânsia de acreditação e de verosimilhança - do que citar-se como se vindo da União Europeia, o aerópago caduco em que ninguém acredita e em que todos fingem crer.
Este homem não é um mentiroso, ele é o ícone da mentira, ele não é ele próprio, sim aquilo em que nos tornámos.
O mundo do parecer tem nele expoente, o culto da imagem, expressão.
No teatro de falsetes em que se tornou a política, ele poderia ser mais um dos robertos. Tem a pose, a aparência, o estilo. A seus pés, o mundo da comunicação bebeu-lhe os ditos, o chic do Chiado abriu-lhe os salões.
Risos, pois, gargalhadas até ao engasgamento, ao rebolar, aos urros, aos espasmos, à epilepsia total deste país demencial.