7.6.20

Livre pensador

Ter uma filosofia sem ter de alinhar com uma cátedra menos ainda ser discípulo, uma transcendência que não se torne religião nem, depois disso, Igreja, uma ideologia política e não pertencer a partido ou em alternativa a isso, movimento.
Ler imprensa de sinal conservador e descobrir que há no outro lado do que se leu até agora interessantes rupturas sem terem de ser repugnâncias; procurar em publicações anarquistas a sinceridade do ímpeto por entre o irrealismo do que propõem; folhear e não ler porque nem tudo quanto se publica tem de ser lido.
A  nada ser alheio e a tudo estar atento.
Não é bandeira nem programa ou catequese: não visa convencer quem seja, apenas declarar onde estou.
Outro dia, a propósito do falecimento do Embaixador José Cutileiro, um certo jornal centrava a narrativa em tudo quanto o situava à esquerda para o alinhar com a base de apoio dos seus leitores. 
Redimindo-me por ter estado desatento a mais do que as suas crónicas, e nem todas, e aos Bilhetes de Colares, que no princípio nem sonhava serem seus, comprei e li na íntegra o pequeno livro Abril e outras Transições, livro de matriz autobiográfica, como no-lo anuncia o subtítulo Reminiscências de um antropologista errante. Editou-o a D. Quixote em em 2017 e era, "incontornavelmente" citado,  como ora se diz, citado no jornal em questão. E logo aí tropecei com a frase: «O país mais parecido com o Portugal democrático de depois do 25 de Abril, dia que deu nome à ponte sobre o Tejo entre Lisboa e Almada, era o Portugal não democrático de antes do 25 de Abril, quando a ponte se chamava Salazar».
Claro que a boutade serve a observação «como outro povos por esse mundo foram os portugueses gostam pouco de mudanças», o que fundamenta a tese do autor: «o Estado Novo não havia durado 48 anos por acaso».
Mas mais claro ainda é que está nos antípodas do pensamento que o jornal recorta.
Enfim, dir-se-à, em jeito de caridosa explicação, será um pequeno desvio de direita numa obra de esquerda; mas, porque não dizer que o mundo é menos monocromático do que julgam as almas simples e aquelas outras a quem se impingem sobre-simplificações, afinal «o vandalismo cultural e cognitivo que hoje campeia» que ele refere quase a encerrar o seu opúsculo e Cutileiro vai tendo, no irrequieto polimorfismo do seu pensamento, um pouco de todos os azimutes.
Obra de ironia ao jeito britânico, Oxford deixou-lhe marcas, é escrita de quem, em matéria de agnosticismo se declara «livre-pensador não por ter pensado, mas por ter pensado» e assim, com a inteligência de quem se ri de si mesmo, 
Vale a pena, em suma, sair do carril e metermo-nos por atalhos, ainda que sozinhos, mesmo quando incompreendidos, porque a mudança da paisagem enriquece a alma e senti-mo-nos a palmilhar entre desconhecidos que só a liberdade permite e a aprender a conhecer o mundo de todos os outros.

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